A Rádio da Universidade faz 60 anos amanhã

Amanhã, a Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul completa 60 anos. Foi a primeira rádio universitária e pública do país. Comecei a ouvi-la diariamente desde os 15 anos e não imaginava que ela tivesse nascido no mesmo ano que eu. Antes desta idade, meu pai já nos fazia ouvi-la no carro e em casa. Naquela época, suas transmissões começavam às 8h e iam até a meia-noite. Tudo terminava num estranho “Boletim Astrônomico”. Assim que meu pai notou em mim alguma tendência para apaixonar-me pela música erudita, iniciou um jogo que durou até sua morte em 1993. Toda vez que ligava o rádio, nós tínhamos que adivinhar que obra estava sendo executada. O jogo era levado tão a sério que, logo após o final de cada música e do locutor anunciar o nome do compositor e título da obra – tínhamos que ouvir atentamente, porque era nossa conferência para saber quem tinha acertado — , o rádio era desligado a fim de que não ouvíssemos o nome da próxima. Deixávamos passar alguns minutos para só então religarmos o rádio e as tentativas de adivinhação.

Rádio da Ufrgs 60 anos

Isso me deu um treinamento incrível para reconhecer estilos e obras. Mas o que interessa hoje é que há mais de 45 anos ouço a rádio, a minha rádio que tantos problemas apresentava nos primeiros anos: sinal fraco, interrupções das transmissões, vinis com problemas (alguns arranhados, outros em tal estado que não deixavam a agulha avançar…), etc. Hoje, o maior problema é o fato de ela ser uma emissora AM. Melhor ouvi-la sempre na Internet. Quando virá o FM? Outro problema é que, antigamente, a escolha do repertório tinha mais lógica.

Os méritos da rádio ultrapassam em muito os seus problemas e foi ali, com o grande compositor e ex-diretor da emissora Flavio Oliveira e com Rubem Prates, que aprendi que uma programação não era mero sorteio ou livre-associação. É notável como eles conseguiam ligar inteligentemente cada música à próxima, fosse por seu tema, por sua evolução na história da música ou pela pura sensibilidade desses dois conhecedores, que viam parentescos em coisas aparentemente díspares. Com eles, aprendi que havia várias formas de se avançar na grande árvore da história de música. Por exemplo, pela manhã, a rádio iniciava por um compositor de música antiga ou barroco, depois ia para um clássico, daí para um romântico, e assim por diante, nos mostrando sempre os caminhos e os diálogos que um compositor travava com seu antecessor. Foi a maior das escolas. Com a Rádio da Ufrgs conheci o que cada compositor passou a seus sucessores e aquilo, após milhares (mesmo!) de dias como ouvinte, tornou natural a leitura das histórias da música que fiz depois. De forma misteriosa, estranha e certamente gloriosa, aqueles dois homens silenciosos já tinham me ensinado tudo, colocando as coisas na ordem certa para que meu ouvido entendesse. Hoje, a coisa está mais bagunçada, às vezes temos que reformatar o ouvido de uma obra para outra.

É claro que me emociono ao falar da Rádio da UFRGS, não há como ser diferente. Voltando a sua história, depois seu horário foi ampliado e já faz décadas que transmite 24 horas por dia como qualquer outra emissora. Conheci na rádio quase tudo o que ainda ouço hoje ou posto no PQP Bach. Lembro do dia em que ouvi a Oferenda Musical de Bach numa manhã intacta e perdida, no quarto já então pleno de futura saudade. Era uma gravação de Hermann Scherchen e, naquele momento, eu tive a certeza de que não existia nada que pudesse deixar aquele momento mais perfeito e importante, tal o modo como a música caiu sobre mim. Lembro do dia em que mandei uma carta — sim, pelo correio — para o programa de sábado à noite Atendendo o Ouvinte. Pedi a Sinfonia Nº 10 de Shostakovich. Fui atendido. Eu e uma namorada — eu devia ter entre 18 e 20 anos — deixamos de sair para ficar ouvindo aquela maravilha. Fora da música, talvez apenas os filhos, os momentos de amor ou a futura leitura do Fausto de Mann, de Tolstói, Dostoiévski, Bulgákov ou de Machado, além do enlouquecido Guimarães Rosa do Grande Sertão, me proporcionaram momentos em que novamente pareci ter saído de minha pequena natureza.

E, no grande último momento, dias atrás, ao ligar a rádio, dei de cara com a esquecida Sinfonia Turangalîla de Messiaen e permaneci – por sorte estava em minha cama, antes de dormir — por mais de uma hora, de olhos arregalados, cada vez mais acordado e eufórico. Ou ainda, anos atrás, quando atrasei-me para um encontro porque TINHA que saber qual era aquela música incrível que, afinal, era desconhecidíssima para mim na época: a Sinfonia Singular de Berwald.

É por viver com ela há mais de 45 anos, é por saber que só em Montevidéu, em Oslo e em Amsterdã (ouço pela internet) há emissoras de mesma categoria, é por ter receio de que a programação da rádio caia na vala comum — como tantos já desejaram –, que saúdo e fico feliz com os 60 anos, meus e de “minha rádio”.

Parabéns e longa vida!

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P.S. 1 — Tenho no computador de casa um excelente programa Música em Pessoa cuja entrevistada é minha Elena Romanov, que é violinista da Ospa. Ela foi entrevistada pela Ana Laura Freitas e é um baita programa.

P.S. 2 — Pedro Palaoro, funcionário da Rádio de Ufrgs, me informa: “O FM aparentemente virá em 2018. A banda será liberada no final de janeiro, quando caírem as TVs analógicas. Tem o tempo de aquisição de equipamento e tal, mas o planejamento é que isso ocorra logo”.

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Prepare-se para o novo escândalo nas redes

Imóvel, inteiramente nu, o artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich, diretor da Galeria Solyanka em Moscou, se apresentará em São Paulo. Deitado, ele irá simbolizar Lênin em seu mausoléu. O público será convidado a tocar no corpo de Fyodor e, quanto mais intenso o toque, mais alta será a música na sala. A música é de Arto Lindsay e tem a possibilidade de ir ao Rio de Janeiro de Crivella em 2018. O nome da performance é Prove-me, sou como você.

Cartaz da exposição em Moscou

Cartaz da exposição em Moscou

Fyodor diz que, durante a performance, o corpo deixa de ser seu, passando a ser uma obra de arte. Em Moscou, garante ele, o público reagiu de forma totalmente imprevisível. O artista não tem receio de reações violentas após o cancelamento do Queermuseu em Porto Alegre, e a performance La bête, em que uma criança interagiu com o performer Wagner Schwartz, também nu, no MAM-SP. No Sesc Consolação, onde a performance ocorrerá, a classificação indicativa será de 16 anos, com explicações sobre a performance antes da entrada.

No ano passado, Fiódor fez uma performance nu no mesmo MAM e não houve nenhuma polêmica.

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Museu gaúcho retira preventivamente obra polêmica, veja fotos

A fotógrafa Cibele Vieira, gaúcha radicada em Nova Iorque, escreveu em seu perfil do Facebook: It is a re-reading of Pietà. I painted it black. The photograph it is part of a series of photographs made from religious icons statues. Traduzo: é uma releitura da Pietà. Eu a pintei de preto. A fotografia é parte de uma série de fotos feitas de estátuas de ícones religiosos. 

Bem, a gente chega na mostra Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, atualmente em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), na Casa de Cultura Mario Quintana, e logo vê o sinal mais civilizado de nossos tempos de retrocesso.

24/10/2017 - PORTO ALEGRE, RS - Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

24/10/2017 – PORTO ALEGRE, RS – Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

Logo na entrada, vê-se uma série de corpos nus, coisa que pode ser vista na arte sacra de qualquer igreja. Aliás, o nu está presente em todos os museus do mundo ocidental.

24/10/2017 - PORTO ALEGRE, RS - Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

24/10/2017 – PORTO ALEGRE, RS – Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

A moça abaixo não estava escandalizada com as fotografias. Pelo contrário, parecia plácida. O público das exposições costuma ser quieto e educado. Ama ou desgosta sossegadamente. Não dá discursos, não berra suas opiniões, não impõe, não ameaça, não grita e não se escabela se vê algo que vai contra aquilo que acredita. Costuma ser assim.

24/10/2017 - PORTO ALEGRE, RS - Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

24/10/2017 – PORTO ALEGRE, RS – Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

Uma das qualidades da arte é o poder de desestabilizar, fazendo com que repensemos coisas, dando-nos um empurrão da zona de conforto. Por isso, a criatividade e a imaginação as eternas são inimigas de moralistas, conservadores e burocratas. Porque afronta valores.

24/10/2017 - PORTO ALEGRE, RS - Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

24/10/2017 – PORTO ALEGRE, RS – Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

O MBL se aproveita da falta de vivência do grande público com a arte, a qual é adubada pela ignorância endêmica promovida por um sistema falido de educação. Tais pessoas não conseguem dar-se conta de que pedofilia, zoofilia, etc. pressupõem desejo sexual e uma vítima, infelizmente. O pior é que tais acusações jamais poderiam ser mantidas após a observação atenta das obras de, por exemplo, Adriana Varejão, expostas no Queermuseu. As acusações simplesmente não conferem com as obras.

24/10/2017 - PORTO ALEGRE, RS - Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

24/10/2017 – PORTO ALEGRE, RS – Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

A situação é tão grave que, de forma preventiva, o curador Fábio Rheinheimer resolveu retirar uma foto de Cibele Vieira antes de que a citada exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea fosse aberta. A foto estaria no espaço em branco abaixo. Segundo Rheinheimer, a clara ausência da obra foi um protesto silencioso contra a violência dos conservadores.

24/10/2017 - PORTO ALEGRE, RS - Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

24/10/2017 – PORTO ALEGRE, RS – Exposição Projeto de Pesquisa em Fotografia Contemporânea, em exibição no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS). Foto: Maia Rubim/Sul21

Tenho minhas dúvidas se acertaste, meu caro Rheinheimer. Creio que foi mais um recuo. Dar espaço (e respeitar e demonstrar medo) para este gênero de manifestação é um erro, é dar espaço à barbárie.. A foto em questão é a Pietá abaixo, pintada de preto pela artista gaúcha Cibele Vieira. Ela estaria, quase preta, entre diversas fotos de pênis e vaginas. O últimos ficaram, a Pietà sumiu. Estranho.

Pietá, de Cibele Vieira / Divulgação

Pietá, de Cibele Vieira / Divulgação

Eu acharia provocativa a montagem. E creio que ela poderia significar várias coisas além da leitura rasa da “agressão a símbolos religiosos”. Só que nós temos pouco amor à liberdade de expressão e ainda menos à cultura e à curiosidade. O artista? Ora, o artista quer que o público procure entender de alguma forma o que ele quis dizer através das formas livres e pouco comuns que usou. A atitude de retirar a foto foi, em minha opinião, autocensura, ou seja, censura. E nela está implícita o fato de haver uma enorme diferença entre pensar que uma obra é equivocada, errada, sublime ou maravilhosa ou de simplesmente não mostrá-la.

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Fotógrafo compõe pessoas e quadros em museus com belo resultado

Do Daily Mail — com fotos de Stefan Draschan

Stefan Draschan passa muito tempo com sua câmera em museus na Europa. Lá, com muita paciência, captura imagens de visitantes do museu que combinam com as pinturas. É uma abordagem curiosa que junta contemporaneidade a conteúdo histórico e artístico. O legal é que o visitante está vestido de tal forma que possa fazer parte da pintura. É criatividade, bom humor e arte. Vale a pena ver o resultado.

Seus trabalhos contam com registros em Londres, Paris, Viena e Berlim — onde ele espera pacientemente por seus modelos.

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Igreja Universal do Roubo do Brasil

Bancada evangélica no Congresso, “bispos” eleitos prefeitos, aliados desde o tráfico à presidência da república, todos trabalhando para fazer do Brasil o primeiro estado teocrático da América do Sul.

Excelente e necessária matéria de Alexandra Lucas Coelho para a Sapo24

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1. Satanás está a bombar. De Porto Alegre ao Rio de Janeiro, de São Paulo a Campo Grande, de Brasília a Jundiaí, o capeta é top. No começo era só o verbo, um templo aqui, outro ali, bradando & brandindo o nome do demo. Mas, com a ajuda do dízimo e da infinita dor humana, hoje é o que se vê: ministros neopentecostais, bancada evangélica no Congresso, “bispos” eleitos prefeitos, aliados desde o tráfico à presidência da república, todos trabalhando para fazer do Brasil o primeiro estado teocrático da América do Sul.

Setembro-Outubro de 2017, por exemplo. Lá faz Primavera, pá, E, depois de passarem Agosto a excomungar Chico Buarque por conta das letras do novo disco, os neo-cons brasileiros identificaram mais uma frente de batalha: o museu pedófilo, zoófilo e sabe-se lá que mais. Aliás, atalhando, arte com nus ou sexo em geral. Portanto, são neo-cons com dois milhões de anos de atraso. O que seria um problema só deles se não tivessem cada vez mais poder.

2. Fui morar no Rio de Janeiro há sete anos. Pouco depois, deu-se o “escândalo” das fotografias de Nan Goldin que deveriam ser expostas na Oi Futuro, braço cultural da empresa de telecomunicações Oi. Primeiro, a Oi “descobriu” que havia fotografias de crianças nuas e pediu à curadora que as retirasse. Nan Goldin aceitou, mas depois a empresa pediu que qualquer fotografia com crianças fosse retirada. Nan Goldin sugeriu que pusessem uma tarjeta a dizer “censurado”. A exposição acabou por ser cancelada.

Recém-chegada como era, fiquei perplexa. Uma das principais fotógrafas contemporâneas vetada no Rio. Onde tinha estado o Rio nos últimos 50 anos, para não ir mais longe? Aquele nível de debate estava mesmo a acontecer na capital do fio dental, do show do corpo, do culto das “novinhas”? Sim. Bunda de fora pode, deve, mamilo não. Sim, o Rio de Janeiro — o Brasil — era esse paradoxo da moralidade em que topless podia dar prisão. Tal como mulher que abortava podia ser presa se não morresse. E entretanto estupro seguia sendo mato. E as crianças que obcecavam a classe média, entregues a babás vestidas de branco, as mesmas crianças que tanto tinham de ser defendidas de artistas imorais, podiam morrer nas ruas, e serem chacinadas por milícias, quando eram pobres e negras, o que no Brasil quase sempre coincide. Donde resulta que Satanás deve representar um risco só para crianças brancas, porque as outras já nasceram em risco, mesmo.

3. Sete anos depois, estes “escândalos” já não acontecem apenas com empresas. Passaram a acontecer também com instituições sem fim lucrativo, museus públicos, governantes eleitos. E deixaram de ser bissextos para se tornarem diários. Entre Setembro e Outubro, todos os dias houve notícia do bando de inquisidores a que podemos chamar Igreja Universal do Roubo do Brasil: IURB.

A IURB tende a prosperar num país como o Brasil porque vive da vulnerabilidade alheia, como todos os oportunistas. A desigualdade de origem favorece-a. O descaso do Estado é um combustível para ela. Onde as pessoas estiverem ao deus-dará, ela é pastora, recolhendo o dízimo. Com o projecto de ter um presidente. Tudo o que não lhe interessa, como governante, é que as pessoas se emancipem. Uma arte desafiadora, perturbadora, fora da caixa, será sempre sua inimiga. Alvo permanente.

A sequência de acontecimentos deste último mês — ou deveríamos dizer retrocedimentos — não é um acaso.

4. Primeiro foi o cancelamento em Porto Alegre, sul do Brasil, da exposição “Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que reunia 270 peças de 85 artistas, entre os quais Lygia Clark, Alfredo Volpi ou Cândido Portinari. Inquisidores indignados, liderados por um colectivo intitulado Movimento Brasil Livre (MBL), protestaram contra conteúdos “pedófilos”, “zoófilos”, além do desrespeito a Cristo, e o Santander Cultural encerrou a exposição.

Vale a pena ler o comunicado do Santander para confirmar o nível de auto-ajuda a que se chegou: “Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.” Representação confundida com apologia. Necessidade confundida com propósito. Motivação confundida com efeito. E que raio será a reflexão positiva? E o elevador da condição humana, será hidráulico? Ou terá ascensorista?

Tanto equívoco sobre arte e criação dá preguiça. Começar por onde? Pintura rupestre, a Bíblia, a Lolita do Nabokov, aquela passagem de “Em Busca do Tempo Perdido” sobre incesto homossexual? Proust, Joyce, Sade, só putaria. Os gregos em geral. Pompeia, claro. O Renascimento, cheio de pénis e mamilos. A própria da Capela Sistina. Se dependesse da IURB, não veriam a luz do dia. Nenhuma criança seria exposta ao David de Michelangelo. Sobretudo rapazes. Perante tamanho esplendor ainda dariam em “gays”, e era preciso curá-los.

5. Sim, porque ainda o Brasil não recuperara do caso Santander houve essa decisão nazi da Justiça do Distrito Federal que permite que os gays sejam tratados como doentes. Um juiz liberou a “cura gay”: isto aconteceu em Setembro de 2017. E aconteceu num país em que gays, LGBT em geral, são constantemente atacados, por vezes mortos. Portanto, um juiz veio dar força de lei à intolerância, à discriminação, à violência. Quem xingava e maltratava está mais autorizado para o fazer.

6. Mas não saia do seu lugar, porque segue-se o “escândalo” da performance “La bête”, com um artista inteiramente nu. É verdade, em 2017, quando os woodstockers já estão bem grisalhos ou foram desta para melhor, isso foi notícia no Brasil. E foi notícia porque os zelosos da imoralidade não tiveram dúvidas morais em tornar viral um vídeo que mostra uma mãe com uma filha observando o artista nu, e a criança a tocar-lhe no tornozelo. Horror, pedofilia! Pior, com dinheiro dos contribuintes porque isto se passava numa mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo. O museu ressalvou que havia três avisos sobre nudez, mas inquisidores foram manifestar-se lá, exigindo o encerramento, agredindo funcionários.

E o delírio avançou em dominó. Um ministro veio dizer que aquela cena da performance era crime. Um deputado, inflamado, criou a sua própria versão da performance: “Um marmanjo completamente nu de mãos dadas com três ou quatro crianças fazia uma apresentação cultural. O acto daquele pilantra, que estava nu no museu de artes modernas, não é só um ataque à moral do povo brasileiro, mas é para mexer com o subconsciente dos tarados do Brasil.” Ouvindo isto, outro deputado lembrou ao plenário que o deputado indignado fora flagrado a ver pornografia no telefone em plena votação da reforma política, e se defendera alegando que os amigos lhe mandavam “muita sacanagem”. O primeiro deputado tentou agredir o segundo. Um terceiro evocou com saudade instrumentos de tortura da ditadura, lamentando não poder usá-los no artista da performance. “Se aquele vagabundo fosse fazer aquela exposição (…) ia levar uma ‘taca’ que ele nunca mais iria querer ser artista e nunca mais iria tomar banho pelado.”

7. Como isto é contagioso, em Campo Grande (capital do Mato Grosso do Sul), deputados denunciaram uma exposição por pedofilia e obscenidade. Em Jundiaí (São Paulo), um juiz proibiu uma peça com uma atriz transgénero no papel de Jesus. Em Brasília, um deputado visitou o Museu Nacional Honestimo Guimarães por ter “recebido denúncias de que o local abrigava ‘conteúdo semelhante ao do Santander Cultural”.

Entretanto, no Rio de Janeiro, o Museu de Arte do Rio (MAR) anunciou que receberia a exposição “Queermuseu”, censurada no Santander de Porto Alegre. Mas o prefeito da cidade, Marcelo Crivella — “bispo” da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do chefão Edir Macedo — produziu um vídeo para anunciar que não, que o Rio não quer uma exposição pedófila e zoófila. E não resistiu a uma pilhéria: “Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar. Por que no Museu de Arte do Rio, não.”

Resultado, o conselho que define a programação do MAR deliberara pela vinda da exposição, mas o prefeito deu ordem contrária e o museu é municipal. O MAR já declarou que não receberá a exposição.

8. Perante tudo isto, curadores, pensadores, artistas não ficaram parados, houve abaixo-assinados e outros movimentos. Entre muitos contributos para o debate, pareceram-me essenciais os que contrariam a ideia de uma guerra simétrica, como se duas partes estivessem a tentar impôr-se. Falso. Há uma parte em guerra, impondo cancelamentos e censura, como sistema. Quem não quer ver, não vê, protesta, critica. O que se está a passar no Brasil é outra coisa. É impedir a arte de existir, os outros de acederem a ela. Tudo em nome do bem, e vade retro satanás.

9. Esta semana, em Brasília, uma mãe de 47 anos foi ao cinema com a filha de 20, saíram do filme abraçadas. Um homem insultou-as como casal “gay”, depois bateu na cara da rapariga, a ponto de ela guardar um olho negro. Certamente ambas o provocaram com gestos suspeitos. E no Brasil de 2017, perante suspeita do maligno, um homem não é de ferro.

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O Santander que salva e liberta

O que me surpreendeu foi a atitude do Santander. Achei um triste, fácil e pobre recuo. Já o linchamento promovido pelo MBL é algo esperado e se parece com muitos outros, realizados inclusive pela esquerda. São movimentos moralistas muito pouco esclarecidos e que se repetem. Agora, que pessoas do meio artístico recuem frente a argumentos tão fracos… Coitados de nós.

Vi dezenas de fotos da exposição. Achei excelente. Gostaria de visitá-la. Pedofilia e zoofilia? Menos, né? Pelo visto, o sarcasmo está fora de moda e, bem, está faltando um pouco de interpretação.

Em janeiro deste ano eu e Elena visitamos o Museu Pergamon (Pergamonmuseum) em Berlim. Foi assustador. Jamais tínhamos visto coisas como aquelas. Os assírios são uns pervertidos. Ainda bem que, em Porto Alegre, há o Santander para nos salvar.

Fotos de Milton Ribeiro (sentindo-se altamente escandalizado).

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Ainda bem que não conheço Pompeia, patrimônio cultural da humanidade. Um lugar diabólico!

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Museu Iberê Camargo: mais um absurdo da provinciana e atrasada Porto Alegre

Quando certa manhã Álvaro Siza acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se pensando que aquilo que lhe passara pela cabeça seria uma maravilhosa realidade: um gigante pilotando uma enorme pá, enterrando fundo seu instrumento de trabalho na beira do Guaíba, para depois erguer do chão o Museu Iberê Camargo e perguntar para onde deveria levá-lo. A resposta seria óbvia: para uma cidade que desse um mínimo de atenção para a cultura.

Foto: Elvira Tomazoni Fortuna

Foto: Elvira Tomazoni Fortuna

Não sei como Álvaro Siza Vieira foi construir uma de suas mais belas obras em Porto Alegre, o que sei é que a cidade não a merece. Trata-se de um museu de arte, um lindo prédio branco e iluminado na mais bela região da cidade com estacionamento no subsolo… Mas vejam só — funciona apenas dois dias por semana, sexta e sábado. Talvez os ônibus nem parem mais na frente do Iberê. Não sei de vocês, mas eu sofro com isso. Como minha cidade pode descuidar tanto de seu patrimônio cultural?

A obra é um achado. Espaçoso, privilegia a entrada de luz e a visão das águas do Guaíba. Deveria estar sempre lotado, com escolas durante o dia, mais visitantes e turistas. Em quase todos os lugares do mundo, os museus abrem todos os dias, exceto às segundas-feiras. São importantes não apenas para arte e sua memória, mas para o turismo. Só que aqui, no provinciano e cada vez mais cu do mundo chamado Porto Alegre, não há empresas, mecenas ou governo que possam assumir o local.

Só o prédio de Siza já seria uma atração para o turismo cultural. Foi vencedor de vários prêmios internacionais. Aliás, Siza é o mais premiado dentre os arquitetos vivos. Mas, daqui alguns anos, sua obra porto-alegrense deverá ser uma ruína cheia de vazamentos e pintura gasta. Já estou até me imaginando, velhinho, olhando o pôr do sol sentado na frente do bar — talvez igualmente fechado –, contando como aquilo foi maravilhoso durante uns poucos anos.

Não gosto nem de passar na frente. Para piorar, tem um pardal que faz com que todos os carros reduzam a velocidade quando passam por ele, o que faz com a gente observe bem a obra. E não entre.

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O cartão virtual de ano novo de Zoravia Bettiol. Uma obra.

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Brasília

Desenho à mão original de Nelson Moraes. Alguém usou ferramentes digitais a fim de mostrar a todos nós uma versão mais realista de Brasília. Podem roubar e distribuir à vontade. Falo da imagem.

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Um passeio poético pela Voluntários da Pátria

Fotos de Bernardo Jardim Ribeiro

Pautado para simplesmente caminhar pela cidade, o fotógrafo Bernardo Ribeiro escolheu percorrer a Voluntários da Pátria da estação rodoviária até a Ramiro Barcellos. A região pouco turística estranhou a presença do fotógrafo. Em certo momento, ele foi alvejado por uma maçã. Mesmo assim, o resultado foi excelente. São gatos em antiquários, carroceiros, mendigos, crianças e Papais Noéis…. Enfim, belas cristalizações do fugidio em Porto Alegre.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

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Roubei de mim mesmo

Ontem, republiquei um texto de minha autoria que tinha aparecido em 2008 no Impedimento. O Latuff estava por aqui quando eu disse que tinha “roubado de mim mesmo”.

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Uma charge do USA Today

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Hoje pela manhã, entrou um vírus no meu computador…

A coisa estava lenta pacas. Aí, o Latuff chegou e…

Latuff Milton

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Latuff e o ataque dos beócios a Chico Buarque

Imagem gentilmente cedida por Carlos Latuff.

Chico Buarque Latuff

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Uma arma letal de instrução maciça: artista cria um tanque que oferece livros gratuitos

Raul Lemesoff, um artista de Buenos Aires, criou um tanque de guerra cuja função é o de ser uma Arma de instrução maciça. Com ela, Lemesoff combater a ignorância.

Lemesoff converteu um Ford Falcon 1979 em um tanque com torre giratória e espaço para armazenar cerca de 900 livros — dentro e fora do veículo.

Um vídeo realizado sobre o projeto mostra o artista dirigindo pelas ruas de Buenos Aires, entregando livros. Sua única exigência é a de que eles prometam ler o que ganharam. E ele diz: “Minhas missões são muito perigosas. Eu ataco as pessoas”.

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Faxineira confunde obra de arte com sujeira pós-festa e ‘faz limpeza’ em museu

Da BBC Brasil

Faxineira achou que obra de arte era sujeira deixada por festa e caprichou na limpeza...

Faxineira achou que obra de arte era sujeira deixada por festa e caprichou na limpeza…

Uma obra de arte teve de ser restaurada após ser confundida com sujeira e removida por uma faxineira em Bolzano, no extremo norte da Itália.

Ela achou que o trabalho, chamado Onde vamos dançar esta noite?, se tratava de uma bagunça deixada por uma festa realizada no local na noite anterior. A faxineira “limpou” o local no último sábado e jogou todo o material fora.

A obra, exibida no Museu de Arte Contemporânea de Bolzano, é composta por bitucas de cigarro, garrafas vazias e confetes.

O espaço ficou limpo após a faxina do último sábado

O espaço ficou limpo após a faxina do último sábado

A obra, já reinstalada, representa o hedonismo e a corrupção dos anos 1980

A obra, já reinstalada, representa o hedonismo e a corrupção dos anos 1980

Também conhecido como Museion Bozen-Bolzano, o espaço refez a instalação após obter o aval do duo Goldschmied and Chiari, artistas de Milão responsáveis pela obra.

Segundo seus idealizadores, a obra tem o objetivo de representar o hedonismo e a corrupção política vividos na década de 1980.

De forma bem humorada, o museu disse que “teve má sorte com a nova faxineira” e pediu desculpas aos visitantes pelo incidente. A exibição foi reaberta na terça-feira.

Segundo a empresa responsável pelo serviço de limpeza do local, a faxineira confundiu as peças com lixo. E que ela “apenas tentava fazer seu trabalho”.

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Crise também na Rússia: o Hermitage ficará sem proteção policial…

…  por causa da escassez de pessoal no Ministério da Administração Interna.

Fonte: newsru

Em 1º de novembro, a polícia não vai mais estar presente na proteção ao Museu do Hermitage devido a demissões no Ministério do Interior. O Museu já recebeu o aviso. Segundo o presidente do Sindicato dos Museus da Rússia e Diretor do Hermitage, Mikhail Piotrovsky, esta situação irá afetar todos os outros museus, de modo que o sindicato convidou todos os museus para um encontro a fim de pensarem numa solução própria para a proteção conjunta dos museus e de suas exposições. Esta não deverá fugir da contratação de empresas de segurança privada.

Hermitage

“Recebemos uma carta informando que, em 1º de novembro, todo o policiamento que nós temos hoje não será mais disponibilizado”, disse Piotrowski a uma rádio de St. Petersburg. “Eu escrevi várias cartas a todos os ministros onde que eu disse exatamente o que significa a segurança do Hermitage para a Rússia e o mundo. Por enquanto não obtive resposta”.

Enquanto isso, o site oficial site da União dos Museus Russos publicou uma declaração em que seus líderes mostram-se preocupados: “A União dos Museus Russos está aconselhando-se juridicamente sobre o desenvolvimento de iniciativas legislativas que forneçam às instituições culturais proteção contra ataques e qualificação adequada de atos criminosos”, diz o documento.

A chefe do Serviço de Informação Histórica do Hermitage, Yulia Kantor, explicou que “o Museu Hermitage tem o melhor sistema eletrônico de proteção e monitoramento de museus, que está constantemente sendo melhorado, mas ele se torna inútil se não tiver pessoal para as intervenções”, observou ela.

A preocupação aumenta em razão de recentes ataques do movimento ortodoxo “Vontade de Deus”, que danificou várias exposições procurando destruir imagens onde “Jesus Cristo é retratado de forma indecente”.

O Sindicato dos Museus Russos manifestou preocupação com o futuro. “Nossa sociedade não está apenas mais pobre, está doente”, – concluiu em nota.

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Jakub Schikaneder

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De Pawel Kuczynski

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De Renato Aroeira: A lição de anatomia do Dr. Janot…

Après Rembrandt (A Lição de Anatomia do Doutor Tulp).

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