Igreja Universal do Roubo do Brasil

Bancada evangélica no Congresso, “bispos” eleitos prefeitos, aliados desde o tráfico à presidência da república, todos trabalhando para fazer do Brasil o primeiro estado teocrático da América do Sul.

Excelente e necessária matéria de Alexandra Lucas Coelho para a Sapo24

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1. Satanás está a bombar. De Porto Alegre ao Rio de Janeiro, de São Paulo a Campo Grande, de Brasília a Jundiaí, o capeta é top. No começo era só o verbo, um templo aqui, outro ali, bradando & brandindo o nome do demo. Mas, com a ajuda do dízimo e da infinita dor humana, hoje é o que se vê: ministros neopentecostais, bancada evangélica no Congresso, “bispos” eleitos prefeitos, aliados desde o tráfico à presidência da república, todos trabalhando para fazer do Brasil o primeiro estado teocrático da América do Sul.

Setembro-Outubro de 2017, por exemplo. Lá faz Primavera, pá, E, depois de passarem Agosto a excomungar Chico Buarque por conta das letras do novo disco, os neo-cons brasileiros identificaram mais uma frente de batalha: o museu pedófilo, zoófilo e sabe-se lá que mais. Aliás, atalhando, arte com nus ou sexo em geral. Portanto, são neo-cons com dois milhões de anos de atraso. O que seria um problema só deles se não tivessem cada vez mais poder.

2. Fui morar no Rio de Janeiro há sete anos. Pouco depois, deu-se o “escândalo” das fotografias de Nan Goldin que deveriam ser expostas na Oi Futuro, braço cultural da empresa de telecomunicações Oi. Primeiro, a Oi “descobriu” que havia fotografias de crianças nuas e pediu à curadora que as retirasse. Nan Goldin aceitou, mas depois a empresa pediu que qualquer fotografia com crianças fosse retirada. Nan Goldin sugeriu que pusessem uma tarjeta a dizer “censurado”. A exposição acabou por ser cancelada.

Recém-chegada como era, fiquei perplexa. Uma das principais fotógrafas contemporâneas vetada no Rio. Onde tinha estado o Rio nos últimos 50 anos, para não ir mais longe? Aquele nível de debate estava mesmo a acontecer na capital do fio dental, do show do corpo, do culto das “novinhas”? Sim. Bunda de fora pode, deve, mamilo não. Sim, o Rio de Janeiro — o Brasil — era esse paradoxo da moralidade em que topless podia dar prisão. Tal como mulher que abortava podia ser presa se não morresse. E entretanto estupro seguia sendo mato. E as crianças que obcecavam a classe média, entregues a babás vestidas de branco, as mesmas crianças que tanto tinham de ser defendidas de artistas imorais, podiam morrer nas ruas, e serem chacinadas por milícias, quando eram pobres e negras, o que no Brasil quase sempre coincide. Donde resulta que Satanás deve representar um risco só para crianças brancas, porque as outras já nasceram em risco, mesmo.

3. Sete anos depois, estes “escândalos” já não acontecem apenas com empresas. Passaram a acontecer também com instituições sem fim lucrativo, museus públicos, governantes eleitos. E deixaram de ser bissextos para se tornarem diários. Entre Setembro e Outubro, todos os dias houve notícia do bando de inquisidores a que podemos chamar Igreja Universal do Roubo do Brasil: IURB.

A IURB tende a prosperar num país como o Brasil porque vive da vulnerabilidade alheia, como todos os oportunistas. A desigualdade de origem favorece-a. O descaso do Estado é um combustível para ela. Onde as pessoas estiverem ao deus-dará, ela é pastora, recolhendo o dízimo. Com o projecto de ter um presidente. Tudo o que não lhe interessa, como governante, é que as pessoas se emancipem. Uma arte desafiadora, perturbadora, fora da caixa, será sempre sua inimiga. Alvo permanente.

A sequência de acontecimentos deste último mês — ou deveríamos dizer retrocedimentos — não é um acaso.

4. Primeiro foi o cancelamento em Porto Alegre, sul do Brasil, da exposição “Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que reunia 270 peças de 85 artistas, entre os quais Lygia Clark, Alfredo Volpi ou Cândido Portinari. Inquisidores indignados, liderados por um colectivo intitulado Movimento Brasil Livre (MBL), protestaram contra conteúdos “pedófilos”, “zoófilos”, além do desrespeito a Cristo, e o Santander Cultural encerrou a exposição.

Vale a pena ler o comunicado do Santander para confirmar o nível de auto-ajuda a que se chegou: “Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.” Representação confundida com apologia. Necessidade confundida com propósito. Motivação confundida com efeito. E que raio será a reflexão positiva? E o elevador da condição humana, será hidráulico? Ou terá ascensorista?

Tanto equívoco sobre arte e criação dá preguiça. Começar por onde? Pintura rupestre, a Bíblia, a Lolita do Nabokov, aquela passagem de “Em Busca do Tempo Perdido” sobre incesto homossexual? Proust, Joyce, Sade, só putaria. Os gregos em geral. Pompeia, claro. O Renascimento, cheio de pénis e mamilos. A própria da Capela Sistina. Se dependesse da IURB, não veriam a luz do dia. Nenhuma criança seria exposta ao David de Michelangelo. Sobretudo rapazes. Perante tamanho esplendor ainda dariam em “gays”, e era preciso curá-los.

5. Sim, porque ainda o Brasil não recuperara do caso Santander houve essa decisão nazi da Justiça do Distrito Federal que permite que os gays sejam tratados como doentes. Um juiz liberou a “cura gay”: isto aconteceu em Setembro de 2017. E aconteceu num país em que gays, LGBT em geral, são constantemente atacados, por vezes mortos. Portanto, um juiz veio dar força de lei à intolerância, à discriminação, à violência. Quem xingava e maltratava está mais autorizado para o fazer.

6. Mas não saia do seu lugar, porque segue-se o “escândalo” da performance “La bête”, com um artista inteiramente nu. É verdade, em 2017, quando os woodstockers já estão bem grisalhos ou foram desta para melhor, isso foi notícia no Brasil. E foi notícia porque os zelosos da imoralidade não tiveram dúvidas morais em tornar viral um vídeo que mostra uma mãe com uma filha observando o artista nu, e a criança a tocar-lhe no tornozelo. Horror, pedofilia! Pior, com dinheiro dos contribuintes porque isto se passava numa mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo. O museu ressalvou que havia três avisos sobre nudez, mas inquisidores foram manifestar-se lá, exigindo o encerramento, agredindo funcionários.

E o delírio avançou em dominó. Um ministro veio dizer que aquela cena da performance era crime. Um deputado, inflamado, criou a sua própria versão da performance: “Um marmanjo completamente nu de mãos dadas com três ou quatro crianças fazia uma apresentação cultural. O acto daquele pilantra, que estava nu no museu de artes modernas, não é só um ataque à moral do povo brasileiro, mas é para mexer com o subconsciente dos tarados do Brasil.” Ouvindo isto, outro deputado lembrou ao plenário que o deputado indignado fora flagrado a ver pornografia no telefone em plena votação da reforma política, e se defendera alegando que os amigos lhe mandavam “muita sacanagem”. O primeiro deputado tentou agredir o segundo. Um terceiro evocou com saudade instrumentos de tortura da ditadura, lamentando não poder usá-los no artista da performance. “Se aquele vagabundo fosse fazer aquela exposição (…) ia levar uma ‘taca’ que ele nunca mais iria querer ser artista e nunca mais iria tomar banho pelado.”

7. Como isto é contagioso, em Campo Grande (capital do Mato Grosso do Sul), deputados denunciaram uma exposição por pedofilia e obscenidade. Em Jundiaí (São Paulo), um juiz proibiu uma peça com uma atriz transgénero no papel de Jesus. Em Brasília, um deputado visitou o Museu Nacional Honestimo Guimarães por ter “recebido denúncias de que o local abrigava ‘conteúdo semelhante ao do Santander Cultural”.

Entretanto, no Rio de Janeiro, o Museu de Arte do Rio (MAR) anunciou que receberia a exposição “Queermuseu”, censurada no Santander de Porto Alegre. Mas o prefeito da cidade, Marcelo Crivella — “bispo” da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do chefão Edir Macedo — produziu um vídeo para anunciar que não, que o Rio não quer uma exposição pedófila e zoófila. E não resistiu a uma pilhéria: “Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar. Por que no Museu de Arte do Rio, não.”

Resultado, o conselho que define a programação do MAR deliberara pela vinda da exposição, mas o prefeito deu ordem contrária e o museu é municipal. O MAR já declarou que não receberá a exposição.

8. Perante tudo isto, curadores, pensadores, artistas não ficaram parados, houve abaixo-assinados e outros movimentos. Entre muitos contributos para o debate, pareceram-me essenciais os que contrariam a ideia de uma guerra simétrica, como se duas partes estivessem a tentar impôr-se. Falso. Há uma parte em guerra, impondo cancelamentos e censura, como sistema. Quem não quer ver, não vê, protesta, critica. O que se está a passar no Brasil é outra coisa. É impedir a arte de existir, os outros de acederem a ela. Tudo em nome do bem, e vade retro satanás.

9. Esta semana, em Brasília, uma mãe de 47 anos foi ao cinema com a filha de 20, saíram do filme abraçadas. Um homem insultou-as como casal “gay”, depois bateu na cara da rapariga, a ponto de ela guardar um olho negro. Certamente ambas o provocaram com gestos suspeitos. E no Brasil de 2017, perante suspeita do maligno, um homem não é de ferro.

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Dois macacos de Brueghel

É assim meu grande sonho sobre os exames finais:
sentados no parapeito dois macacos acorrentados,
atrás da janela flutua o céu
e se banha o mar.

A prova é de história da humanidade.
Gaguejo e tropeço.

Um macaco, olhos fixos em mim, ouve com ironia,
o outro parece cochilar —
mas quando à pergunta se segue o silêncio,
me sopra
com um suave tilintar de correntes.

[Wisława Szymborska]

Dois Macacos (1562), de Pieter Brueghel, O Velho.

Dois Macacos (1562), de Pieter Brueghel, O Velho.

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O Tempo e Ignacio Iturria: “Todos siempre correndo como locos”

É mais ou menos como eu me sinto todos os dias, à exceção dos finais de semana. Um cara correndo como um louco contra um fundo escuro.

Ao meio-dia, almoço rapidamente para subir até a Biblioteca Pública a fim de ler por 30 min. É a salvadora “pausa de mil compassos”, mas sem ver a meninas e com um livro nos braços (Obrigado, Paulinho da Viola!). E sigo vivendo com a impressão de que, de certa forma, sou sempre ultrapassado por minha pressa, e que vou apenas existindo dentro dos dias.

Hoje pela manhã, vi o e-mail da Lu Vilella indicando a compra de “A Montanha Mágica”, relançado pela Companhia das Letras. Lembro vagamente das reflexões sobre o tempo que há no início do romance e de como este se move, estica e contrai-se. Atualmente, ele parece diminuto, mas agora, terça-feira ao meio-dia, parece que já estou há uns quatro dias nesta semana. E faltam horas. E sobra cansaço.

Foto: Milton Ribeiro, em julho de 2015 (Montevidéu).

Foto: Milton Ribeiro, em julho de 2015 (Montevidéu).

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Os autorretratos de Picasso dos 15 aos 90 anos

Conhecido como um dos maiores e mais prolíficos pintores de Arte Moderna, Picasso foi um homem de muitos talentos. Pablo Ruiz Picasso (Málaga, 25 de outubro de 1881 — Mougins, 8 de abril de 1973), foi um pintor espanhol, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo que passou a maior parte da sua vida na França. É conhecido como o co-fundador do cubismo ao lado de Georges Braque, inventor da escultura construída, inventor da colagem e de uma variedade de estilos que ajudou a desenvolver e explorar. Dentre as suas obras mais famosas estão os quadros cubistas As Meninas D’Avignon (1907) e Guernica (1937), uma pintura do bombardeio alemão de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola. Além de diferentes formas de arte e materiais únicos, no entanto, Picasso também trabalhou em uma espetacular variedade de estilos. Essa abordagem estética em constante mudança é evidente em sua série de autorretratos, que ele pintou a partir dos 15 anos até 90 anos. Confira abaixo.

Aos 15 anos (1896)

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Aos 18 anos (1900)

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Aos 20 anos (1901)

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Aos 24 anos (1906)

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Aos 25 anos (1907)

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Aos 35 anos (1917)

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Aos 56 anos (1938)

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Aos 83 anos (1965)

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Aos 85 anos (1966)

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Aos 89 anos (1971)

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Aos 90 anos (28 de junho de 1972)

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Aos 90 anos (30 de junho de 1972)

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Aos 90 anos (2 de julho de 1972)

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Aos 90 anos (3 de julho de 1972)

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Há um lugar onde as esculturas são tão feias quanto as de Porto Alegre

Esta é do Aeroporto da Ilha da Madeira em homenagem a Cristiano Ronaldo.

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Quadros de Van Gogh recuperados: “Só não roubei Girassóis porque não se encaixava na mochila”

“Eu fiz isso porque podia, estava fácil. Só não roubei Girassóis, de Van Gogh, porque não se encaixava na mochila”, disse Octave Durham, de 44 anos, o ladrão que, em 2002, roubou dois quadros no Museu Van Gogh em Amsterdam.

Em 2016, em meio a uma operação contra o grupo mafioso Camorra, a polícia da Itália recuperou duas pinturas do artista holandês Van Gogh que foram roubadas há 14 anos em Amsterdam. Ontem, elas voltaram em perfeito estado para o Museu da capital holandesa.

As pinturas, “Congregação Saindo da Igreja Reformada em Nuenen” (1884/5) e “Vista do Mar em Scheveningen” (1882), são do período inicial de Van Gogh.

Cada um deles vale cerca de 50 milhões de euros e estava com um grupo da Camorra envolvido no tráfico internacional de cocaína.

O diretor do Museu Van Gogh, Axel Rueger, escreveu em comunicado que “já não ousava mais esperar que poderíamos receber os quadros de volta após tantos anos. Foi um milagre”.

O roubo de 2002 foi simples. À noite, os ladrões usaram uma escada para subir no telhado do Museu e invadir o edifício. Depois fugiram deslizando por uma corda.

A pintura de Scheveningen é uma das duas únicas cenas marítimas pintadas por Van Gogh na Holanda, e um exemplo único do estilo de pintura inicial de Van Gogh. A pintura da congregação de Nuenen, onde o pai de Van Gogh trabalhou como ministro, foi feita para sua mãe e finalizada depois da morte de seu pai, em 1885.

Abaixo, as obras que retornaram ao Museu.

Quadro "Vista do mar em Scheveningen", de Vincent van Gogh

Quadro “Vista do mar em Scheveningen”, de Vincent van Gogh

'Congregação deixando a Igreja restaurada em Nuenen', de Van Gogh

‘Congregação deixando a Igreja restaurada em Nuenen’, de Van Gogh

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De Cornelia Hernes

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O chinês que enfiou o dedo num van Dyck na National Gallery

Ontem pela manhã, eu estava sozinho na National Gallery. Era uma visita lenta e anotada para quando a Elena se liberasse a fim de realizar o mesmo périplo. Sentei para descansar numa das confortáveis poltronas lá disponíveis — esses museus enormes cansam meus delicados pés — e vi uma cena incrível. O pai de uma família chinesa estava encostando o dedo numa pintura de van Dyck, Caridade (Charity), para mostrar um detalhe do quadro.

Foto: Milton Ribeiro

Foto: Milton Ribeiro

Eu vi o fato e um dos guardas também. Ele correu aos gritos de “Você não pode fazer isso!”. Mais dois guardas correram para auxiliar o primeiro e eu só assistindo a coisa, disposto a também ir lá dar uns cascudos no nobre cidadão da República Popular da China. (Que Deus, Nosso Senhor, o respeite, ame, e esconda sua estupidez).

Foi quando o primeiro guarda reiniciou seu discurso. Ele disse:

— Este quadro está aqui para o senhor, para seus filhos, seus amigos, para o mundo inteiro e para as gerações futuras. O senhor simplesmente não pode repetir sua atitude aqui e nem em nenhum outro museu que o senhor visitar em sua vida. Jamais faça isso novamente, por favor.

Todo mundo logo ficou calmo e sério. E a visita seguiu normalmente. Só o cidadão tinha um sorriso amarelo, enquanto levava uma mijada da mulher em chinês.

Ele estava tocando bem aqui, ó:

Foto: Milton Ribeiro

Foto: Milton Ribeiro

 Naquela parte escura do tecido, ao lado da mão.

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Bruegel, os cegos e meu sonho

Hoje eu tive um sonho. Estava pintando o quadro abaixo. Eu era Pieter Bruegel, o Velho e pintava em meu atelier A Parábola dos Cegos, certo? Há mais: estava emocionadíssimo porque um dos cegos — qual seria? — era meu pai e era do maneira abaixo que ele se deslocava com seus pares. Um negócio desesperador. Mesmo! Eu pintava e chorava.

Assim como para a Caminhante, Ernesto Sábato e José Saramago,a cegueira e suas metáforas, mas principalmente a cegueira sem metáfora, é algo que assusta e causa perplexidade, pena, medo, profundo interesse, tudo.

Quando acordei, a imagem da obra-prima de Bruegel foi substituída pela da galinha abaixo, vista ontem no Google Images. Bem, sei lá.

P.S. — Meu pai, morto em 1993, nunca teve deficiência visual.

Parábola dos Cegos

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Banksy surpreende escola primária em Bristol com mural

O artista pintou uma parede da Bridge Farm Primary School para agradecer à escola por ter dado o seu nome a um dos pavilhões.

Do Publico.pt

Banksy

Poderia ser apenas mais um regresso às aulas na Bridge Farm Primary School, em Bristol, Inglaterra, não fosse a parede frontal com uma imagem de uma menina a correr atrás de um pneu em chamas com um pau na mão. O mural, da autoria de Banksy, tem 4 metros e foi descoberto, esta segunda-feira, por um funcionário da escola.

A obra, que surpreendeu alunos, professores e funcionários, é uma forma de agradecimento do artista à escola por ter dado o seu nome a um dos pavilhões. Durante o período de férias, a escola tinha escrito uma carta à equipe de Banksy para informá-lo do concurso feito para nomear os edifícios da escola em homenagem a personalidades de Bristol.

Junto do mural foi encontrado, também, um bilhete deixado por Banksy com a seguinte mensagem: “Obrigado pela carta e por darem o meu nome a um dos edifícios. Por favor, aceitem esta imagem. Se não gostarem, sintam-se à vontade para acrescentar coisas – tenho a certeza que os professores não se vão importar.” O artista deixou, ainda, uma mensagem às crianças: “Lembrem-se, é sempre mais fácil conseguir o perdão do que a autorização.”

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O diretor da escola, Geoff Mason, disse ao Bristol Post que o trabalho deve ter sido realizado “durante o fim-de-semana e completado esta segunda-feira à noite, mas não há certezas.” Bansky aproveitou a interrupção letiva da escola para ir pintar na sua cidade natal.

A equipe de Banksy ligou à escola a confirmar a veracidade do trabalho do artista na Bridge Farm Primary School. A escola primária pensou, desde o primeiro momento, na segurança da obra. “Fizemos várias pedidos para garantir que ninguém a limparia da parede”, disse o diretor.

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22 detalhes fascinantes que provavelmente você jamais notou na Torre de Babel de Bruegel

Hoje em dia é muito fácil admirar as obras mais importantes das artes plásticas de todos os tempos. Basta guglar e é gol. Mas há algumas pinturas que exigem uma abordagem particular. A Torre de Babel, de Pieter Bruegel, O Velho, é uma delas. Esta obra-prima foi pintada em 1563 e, para admirar o original, você precisa visitar o Museu Kunsthistorisches em Viena. Quando olhamos para a pintura parece que podemos ver tudo, mas na verdade não é assim tão fácil. Bruegel é conhecido pelos múltiplos detalhes. Seus Provérbios Holandeses é outro desses casos. São tantos detalhes que… Bem, vamos à Torre de Babel.

Apresentamos alguns detalhes que não são assim tão fáceis de perceber ao primeiro olhar.

(QUER VER MAIOR? CLIQUE SOBRE AS IMAGENS).

A Torre de Babel (aspecto geral)

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1. A visão distante: Um castelo, um rio com um moinho de vento, prados e montanhas.

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2. Os viajantes caminham em direção à torre.

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3. Jardins são visíveis por trás do muro.

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4. Uma carroça está passando por cima de uma ponte, enquanto as mulheres estão lavando roupa no rio ao lado de um pequeno moinho de vento.

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5. Existe um poço ao lado do rio, e as pessoas estão plantando algo na horta.

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6. À média distância: há ferreiros perto da torre.

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7. Algumas pessoas estão descansando ou dormindo, enquanto outras trabalham.

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8. Os trabalhadores no nível mais baixo fazem o reboco de uma parede.

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9. Carroças de material de construção estão subindo.

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10. Outros estão para serem carregados.

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11. Uma jangada.

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12. Barcos descarregam suas mercadorias.

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13. A visão distante: Casas e hortas.

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14. Vacas no pasto e viajantes dirigem-se para a cidade.

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15. A torre: A torre está sendo construída por tanto tempo que há pessoas que vivem no local da construção: algumas delas estão cuidando de seus jardins de flores, outros colocam roupas para secar, e outros cozinham ao fogo.

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16. Um andar acima, podemos ver praticamente a mesma coisa.

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17. O trabalhadores

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18. Mais trabalhadores.

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19. O primeiro plano: os pedreiros.

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20. Alavancando pedras muito pesadas.

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21. Nimrod – o rei bíblico que ordenou a construção da Torre de Babel.

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22. Trabalhadores rezando..

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Hanna Pauli, Breakfast Time, 1887

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Crise também na Rússia: o Hermitage ficará sem proteção policial…

…  por causa da escassez de pessoal no Ministério da Administração Interna.

Fonte: newsru

Em 1º de novembro, a polícia não vai mais estar presente na proteção ao Museu do Hermitage devido a demissões no Ministério do Interior. O Museu já recebeu o aviso. Segundo o presidente do Sindicato dos Museus da Rússia e Diretor do Hermitage, Mikhail Piotrovsky, esta situação irá afetar todos os outros museus, de modo que o sindicato convidou todos os museus para um encontro a fim de pensarem numa solução própria para a proteção conjunta dos museus e de suas exposições. Esta não deverá fugir da contratação de empresas de segurança privada.

Hermitage

“Recebemos uma carta informando que, em 1º de novembro, todo o policiamento que nós temos hoje não será mais disponibilizado”, disse Piotrowski a uma rádio de St. Petersburg. “Eu escrevi várias cartas a todos os ministros onde que eu disse exatamente o que significa a segurança do Hermitage para a Rússia e o mundo. Por enquanto não obtive resposta”.

Enquanto isso, o site oficial site da União dos Museus Russos publicou uma declaração em que seus líderes mostram-se preocupados: “A União dos Museus Russos está aconselhando-se juridicamente sobre o desenvolvimento de iniciativas legislativas que forneçam às instituições culturais proteção contra ataques e qualificação adequada de atos criminosos”, diz o documento.

A chefe do Serviço de Informação Histórica do Hermitage, Yulia Kantor, explicou que “o Museu Hermitage tem o melhor sistema eletrônico de proteção e monitoramento de museus, que está constantemente sendo melhorado, mas ele se torna inútil se não tiver pessoal para as intervenções”, observou ela.

A preocupação aumenta em razão de recentes ataques do movimento ortodoxo “Vontade de Deus”, que danificou várias exposições procurando destruir imagens onde “Jesus Cristo é retratado de forma indecente”.

O Sindicato dos Museus Russos manifestou preocupação com o futuro. “Nossa sociedade não está apenas mais pobre, está doente”, – concluiu em nota.

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Jakub Schikaneder

Sugestão do Carlos Latuff:

Jakub Schikaneder -- Assassinato na Casa

Jakub Schikaneder — Assassinato na Casa | CLIQUE PARA AMPLIAR

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Johann Sebastian Bach, os Caranguejos e o Anel de Moebius (veja o vídeo)

Uma vez por cima, outra vez por baixo: o Anel de Moebius do holandês Mauritus Cornelis Escher (1898-1972) | CLIQUE PARA AMPLIAR E SEGUIR COM O DEDO OU A IMAGINAÇÃO

Uma vez por cima, outra vez por baixo: o Anel de Moebius do holandês Mauritus Cornelis Escher (1898-1972) | CLIQUE PARA AMPLIAR E SEGUIR COM O DEDO OU A IMAGINAÇÃO

A Oferenda Musical é uma coleção de cânones, fugas e de uma sonata de Johann Sebastian Bach, baseada num tema musical escrito por Frederico II da Prússia (Frederico, o Grande) e a ele dedicada. A obra tem sua origem num encontro entre Bach e Frederico no dia 7 de maio de 1747. O encontro, que se deu na residência do rei em Potsdam, foi consequência do fato do filho de Bach, Carl Philipp Emanuem Bach, estar ali trabalhando como músico da corte. Frederico queria mostrar a J.S. Bach uma novidade: o pianoforte (piano), talvez o primeiro que Bach tenha visto. Bach, que era bem conhecido por seu talento na arte da improvisação, recebeu um tema, o Thema Regium, para improvisar uma fuga. Era uma sacanagem, o tema era complicadíssimo, quase inviável. Mas Bach não somente improvisou como mandou uma obra inteira para o Rei, toda ela de variações sobre o Thema Regium: A Oferenda Musical.

Bach não era de recuar diante de dificuldades. Ao contrário, costumava propor a si mesmo problemas e mais problemas. Abaixo, uma demonstração gráfica da complexidade da coisa. O exemplo abaixo é dos enigmáticos “Cânones Caranguejos“. O manuscrito retrata uma única sequência musical que é para ser tocada de frente para trás e de trás para frente. Um cânon caranguejo, também conhecido pela forma latina do nome: “Canon Cancrizans“, é um arranjo de duas linhas musicais que são complementares de frente para trás, semelhante a um palíndromo.

Também é conhecido como um cânone “Quaerendo Invenietis“, combinando retrocesso com inversão, ou seja, a música é virada de cabeça para baixo para ser tocada.

Ah, vocês pensam que toda aquela obra saiu de uma cabeça comum?

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De Renato Aroeira: A lição de anatomia do Dr. Janot…

Après Rembrandt (A Lição de Anatomia do Doutor Tulp).

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Férias de 10 dias

Quem não sabe o que é Cocanha, deve clicar aqui.

Bruegel, O País da Cocanha

Pieter Bruegel (1525-1569), O País da Cocanha | Cique na imagem para ampliar

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Explicando parte da genialidade de Van Gogh

Self-portrait_with_Felt_Hat_by_Vincent_van_GoghVan Gogh teve uma vida marcada por fracassos. Ele falhou em todos os aspectos importantes para sua época. Foi incapaz de constituir família, custear a própria subsistência ou até mesmo manter contatos sociais. Aos 37 anos, sucumbiu a uma doença mental, cometendo suicídio.

A sua fama póstuma cresceu especialmente após a exibição das suas telas em Paris, em 17 de março de 1901.

Abaixo, um pequeno e divertido filme que dá ideia da genialidade do pintor.

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Algumas gárgulas

As gárgulas são desaguadouros, ou seja, são a parte saliente das calhas de telhados que se destina a escoar águas pluviais a certa distância da parede e que, especialmente na Idade Média, eram ornadas com figuras monstruosas, humanas ou animalescas. O termo se origina do francês gargouille, de gargalo ou garganta.

Acredita-se que as gárgulas eram colocadas nas Catedrais Medievais para indicar que o demônio nunca dormia, exigindo a vigilância contínua das pessoas.

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100 anos da beleza e da fúria de Iberê Camargo

Publicado em 16 de novembro de 2014 no Sul21

O homem sem fé não cria. Fé em quê? No que faz.
Iberê Camargo

O prédio da Fundação Iberê Camargo (foto abaixo) está fechado, mas o motivo é nobre: é que está sendo montada a exposição Iberê Camargo: século XXI, que comemora os 100 anos do nascimento do artista. A mostra comemorativa ficará aberta à visitação entre os dias 18 de novembro de 2014 a 29 de março de 2015. (E, portanto, já fechada na data desta publicação. Mas creio que o texto não fica, de modo nenhum, invalidado). Ela foi concebida contemplando os principais temas de suas obras e suas repercussões na produção de artistas brasileiros contemporâneos. Diferenciando-se do formato convencional de exposições comemorativas, em geral um conjunto representativo ordenado cronologicamente, a mostra destaca a poética de Iberê em diálogo com trabalhos de dezenove artistas brasileiros de várias gerações.

Pela primeira vez, todos os espaços do edifício sede da Fundação serão tomados como expositivos. A totalidade do prédio projetado por Álvaro Siza, desde o lado de fora ao interior tortuoso das rampas, passando pelo grande átrio, acolherá obras e conjuntos de obras com afinidades com os grandes eixos tratados pelas várias séries de Iberê Camargo. Séries como “Carretéis”, “Núcleos”, “Fantasmagorias”, “Ciclistas” e “Idiotas” serão apresentadas na companhia de trabalhos de outros artistas. O cinema, que Iberê tanto apreciava, ocupará as rampas que levam de um andar ao outro, como também a literatura, que ele amava a ponto de praticá-la.

Iberê Camargo, nascido em 18 de novembro de 1914, foi um artista sofisticado, dono de uma arte impactante, impaciente, torturada e visceral. A fase mais importante deste gaúcho de Restinga Seca não pode ser menos decorativa e indulgente. Por isso, não deixa de surpreender que, em nossa época, sistematicamente acusada de superficial e de privilegiar o entretenimento — o que também é verdade — , a arte de Iberê tenha alcançado tamanha relevância que chegue ao ponto de sua importância poder ser vista no caminho da Zona Sul de Porto Alegre desta forma:

Fundação Iberê Camargo na Av. Padre Cacique, 2000 em Porto Alegre | Foto: Bernardo Ribeiro

O ensaio de Paulo Venancio Filho, Iberê Camargo, desassossego do mundo, não deixa dúvidas sobre o caráter de Iberê: “Dostoievsquiano, revoltado, angustiado, trágico, sinistro, violento, atormentado pela consciência” foram algumas das expressões utilizadas. Ao menos quando trabalhava ou falava sobre arte, pois o pintor, fora do ambiente artístico, foi sempre descrito como um homem educado e afável.

Poucos dias antes de morrer, em 9 de agosto de 1994, Iberê Camargo, já bastante debilitado pelo câncer, acordou Maria, sua esposa, no meio da madrugada. Pediu a ela que o levasse até o ateliê, pois queria finalizar uma tela. Achava que era a última oportunidade de fazê-lo antes de ser internado. Solidão é o título da obra inacabada. Se o fato demonstra uma postura absolutamente dedicada à arte – “Minha arte e minha vida são a mesma coisa”, dizia – , o título da obra também é muito significativo para quem disse, a respeito da morte: “Sempre fui um caminhante solitário. (…) Não nasci em cacho. Nasci só e morrerei só. (…) Não participo de paradas de sucesso. Não pertenço a grupos. Vivo recolhido. Não me importo em saber de que lado sopra o vento. Sou quem sou, faço o que faço.”, declarou Iberê para Lisette Lagnado no livro Conversações com Iberê Camargo.

Não obstante a dureza destas palavras, os amigos de Iberê lembram que ele exigia a solidão apenas em seu trabalho. De resto, “era generoso, gentil, falante, conciliava a solidão da criação ao convívio tranquilo no dia a dia”. Porém seu humor era de exemplar acidez. Não, não era um otimista. E ficou ainda menos após envolver-se numa tragédia em 1980, quando o homem gentil provou ser apenas um homem controlado.

Iberê estava numa rua do Rio de Janeiro, acompanhado de sua secretária, quando testemunhou em plena rua uma briga violenta entre um casal. Nervoso, o homem ameaçou-o por estar observando interessadamente a cena, empurrou a secretária e depois Iberê. Agredido, o artista – que tinha posse de arma – disparou dois tiros, matando o agressor. Foi absolvido por legítima defesa, porém nunca se recuperou da tragédia. O caso teve grande repercussão e o pintor resolveu voltar a morar em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, trazer a figura humana de volta a seus óleos e gravuras.

Com efeito, o caso deixou Iberê abaladíssimo e influenciou de forma cabal sua obra. Como resultado, surgiram quadros de figuras esquálidas, grotescas, torturadas, espectrais e zombeteiras, cheias de angústia. Era como um Goya moderno, dedicado a retratar não os horrores da guerra, mas de seus fantasmas interiores. Do Rio, Iberê retornou a Porto Alegre em 1982, abrindo seu atelier na rua Lopo Gonçalves. Em 1986, foi morar e trabalhar no bairro Nonoai.

A artista plástica Lou Borghetti – que depois foi aluna e assistente de Iberê – conta sobre o primeiro encontro entre ambos, ocorrido justamente em 1980.

Ele estava com uma mostra na Galeria do Centro Comercial Azenha. Naquela época eu não conhecia de perto sua pintura. Passei em frente a galeria e me deparei com uma tela grande, escura e muito dramática. Pensei: não gosto, vou embora. Andei uns metros, voltei. Parei novamente, olhando a tela através do vidro e novamente meus pensamentos eram de como alguém pode pensar algo assim, pintar assim, eu não teria esta tela em minha casa, ou teria? Olhei para dentro da galeria, com pouca gente, num pequeno espaço expositivo bem acolhedor. Entro, não entro, entro, só pra ver a tela sem o vidro e ter certeza de que não gosto. Entrei, pensei, mas quem é esse pintor que de tão forte e corajoso me provoca tanta sensação de desconforto, mas ao mesmo tempo não consigo parar de olhar. Não tive dúvida, perguntei: Quem é o pintor? E um senhor alto, atencioso e muito gentil se aproximou e disse: – Sou eu. – Ah, desculpe, eu posso ser franca? – Claro. – Não gosto da sua pintura, me aflige muito.

E ele, do alto de sua extrema gentileza disse: – Nem eu.

Este diálogo faz eco a um outro, ocorrido no Rio de Janeiro nos anos 40. Logo que chegou ao Rio, Iberê Camargo foi procurar um dos grandes nomes do modernismo, Cândido Portinari. Portinari mostrou-lhe o que tinha em seu ateliê e perguntou se Iberê gostava. A resposta foi outro “Não”. Portinari achou natural: aquele menino ainda precisava se acostumar aos modernistas. Com uma de suas pinturas, Iberê recebeu um prêmio: uma viagem à Europa. Foi lá, entre Roma e Paris, que fortaleceu sua formação. Na Itália, estudou com De Chirico e na França teve aulas com André Lhote.

Voltando ao Brasil em 1950, começou a trilhar um caminho muito pessoal: o dos carretéis que usava como brinquedos durante a infância. Na séries Núcleos, formas de carretéis invadem cada tela com pinceladas densas, camadas pastosas de tinta em tons negros ou azulados. Críticos estrangeiros, ao observarem as obras desse período, tendem a traçar analogias com o expressionismo abstrato de De Kooning e Pollock.

Mas Iberê gostava era dos mestres — dos renascentistas, de Goya, de Rembrandt — e, entre os contemporâneos, preferia associar seu espírito criativo ao de Picasso, pelo desejo de retornar aos clássicos e dar a eles uma roupagem moderna.

– Meu aprendizado não se fez apenas através de cópias de grandes mestres. Embora não tenha – graças a Deus! – cursado uma academia de arte, na juventude frequentei ateliês de mestres, na Europa. O conhecimento, uma sólida cultura plástica como a entendo, jamais poderá sufocar a originalidade de um artista, se ele realmente a tem. Conheci em Paris, um escultor brasileiro, bolsista, que não frequentava museus para não perder a personalidade, esquecendo, talvez, que só se perde o que se tem. Mo Museu do Prado, encontram-se, lado a lado, cópias e originais de mestres: Delacroix après Rubens; après Tiziano.”

De volta a Porto Alegre, começa sua fase mais soturna da carreira. Figuras espectrais e disformes permeiam séries como As Idiotas, Fantasmagorias, Ciclistas e Tudo Te é Falso e Inútil (título inspirado em um verso de Fernando Pessoa). Grande parte dos trabalhos tardios de Iberê está exibida na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. “Além de lamentar os rumos do mundo e voltar-se para os desejos e angústias da humanidade, ele produzia para apalpar a eternidade e dominar o tempo, para continuar conosco por mais tempo”, afirma o escritor Paulo Ribeiro, que conviveu com Iberê nos últimos anos de vida.

Acamado, no hospital, antes de morrer Iberê recebeu a imprensa. Com a mesma fúria presente em telas criadas com verdadeiros nacos de tinta que formam impressionantes relevos, chamou os donos das galerias de arte de débeis mentais, disse que a arte brasileira da década de 90 era feita só de bugigangas. “Ah, e se sair do hospital e quiserem me deixar de mau humor é só me convidarem para um coquetel. Não vou!”.

Abaixo, algumas das principais obras de Iberê Camargo:

Da série As Idiotas

Da série Ciclistas

Fantasmagoria IV

Carretel 1984

Face

O Grito

Hora X

Mulher de Chapéu Preto, homenagem a Maria Leontina

Carretel Azul

Tudo te é falso e inutil III

Solidão

Carretéis - Mário de La Parra

Carretéis – Mário de La Parra

Paisagem, 1941 | Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Paisagem, 1941 | Foto: Pedro Oswaldo Cruz

Sem título, c. 1941/42 | Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Sem título, c. 1941/42 | Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Mendigos do Parque da Redenção IV, 1987 | Fundação Iberê Camargo: Digitalização

Mendigos do Parque da Redenção IV, 1987 | Fundação Iberê Camargo: Digitalização

Sem título, 1989 | Foto: Fábio Del Re

Sem título, 1989 | Foto: Fábio Del Re

Dentro do mato, 1941/1942 | Foto: Fábio Del Re

Dentro do mato, 1941/1942 | Foto: Fábio Del Re

Sem título, 1942 | Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Sem título, 1942 | Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Fontes:
— Paulo Venacio Filho, Iberê Camargo, Desassossego do Mundo, Pactual, 2001
— Lisette Lagnado, Conversações com Iberê Camargo, Iluminuras, 1994
— Jonas Lopes, artigo A arte como expressão da vida de Iberê Camargo.
— Blog pessoal de Lou Borghetti – http://louborghetti.blogspot.com.br/

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