The Square — A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund

Filmes existem de tudo quanto é jeito, mas é difícil encontrar um tão CONTEMPORÂNEO e PROVOCATIVO quanto o sueco The Square — A Arte da Discórdia, em cartaz em Porto Alegre desde a última quinta-feira. The Square recebeu a Palma de Ouro em 2017 e 6 importantes prêmios da Academia Europeia de Cinema — melhor filme, melhor diretor (Ruben Östlund), melhor ator (Claes Bang), melhor roteiro (Ruben Östlund), melhor direção de arte, etc.

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Christian é o respeitado curador de um museu de arte contemporânea. Homem divorciado e bom pai, é uma pessoa que dirige um carro elétrico e apoia boas causas. A sua próxima exposição do museu, O Quadrado, é uma instalação que pretende evocar o altruísmo em quem a vê, recordando nosso papel enquanto seres humanos responsáveis pelos nossos semelhantes. Mas às vezes é difícil viver à altura dos nossos ideais: uma resposta incauta de Christian ao roubo do seu telefone vai conduzi-lo a situações das quais ele se envergonha. Além disso, uma desastrada campanha de marketing feita pelo museu vai afrontar o senso comum e o bom gosto do publico.

O filme faz uma incursão às pessoas de bom senso, politicamente corretas, quando empurradas para fora do seu quadrado, expondo as rachaduras de um mundo indiferente e comprometido apenas com sua própria lógica e ego.

O museu de arte serve como excelente metáfora. Diz Östlund: “Visitei museus de arte em várias cidades e todos se parecem iguais. Perderam completamente a conexão com o mundo”. Esse vazio endinheirado tenta ganhar poder de choque nas redes sociais e no marketing. “Viralizou, viralizou”, gritam os caras da propaganda. Muito bonito e bem acabado, em alguns momentos o filme parece uma variação mais cômica de ‘A Grande Beleza’. Mas, enquanto este escolhe o caminho da poesia, o sueco opta pelo desconforto, ironia, destruição e bizarrice. A câmara parada manda o espectador dar ênfase a discursos que logo depois serão negados.

Já o surrealismo como forma de provocação é retirado das gavetas “buñuelianas” a fim de chocar, incomodar, debochar. Em um encontro romântico marcado por certa indiferença, um chimpanzé passeia pelo local. E o que dizer da cena pela qual The Square será sempre lembrado? A cena onde um “ser primitivo” irrompe para aterrorizar a fina nata da elite sueca num jantar. E de onde surgiu tal criatura e o seu ator? Do YouTube, claro!

Mas cabe muito mais dentro deste quadrado do que o descrito aqui.

P.S 1: Desculpem o texto grande. Queria fazer resenhas menores. É que vi o filme, li a respeito e, olha, se fosse razoável, escreveria mais dez parágrafos, inclusive contando porque me identifiquei com a narrativa em vários momentos. Um conselho: não provoque gente PC, alguns deles perdem (muito) o controle quando não se sentem confortáveis.

P.S. 2: Maldita memória. No final, a lógica e até algumas frases ficaram quase iguais ao que li no site português SapoMag.

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Roda Gigante, de Woody Allen / Uma Nova Amiga, de François Ozon / A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson

26113815_10210763220932742_1278277484641029906_nDepois de vários filmes sem me agradar, acabei gostando bastante de Roda Gigante, de Woody Allen. Um filme bem ao estilo das peças de O’Neill dos anos 50 — , época em que produção é ambientada –, cheio de personagens sem rumo, decadentes e trágicos. Aliás, o filme bem que poderia passar no Telecine Cult em preto e branco. Não fosse pela presença de atores atuais, enganaria bem. Impressionante trabalho de Kate Winslet e do fotógrafo Vittorio Storaro. O filme tem fotografia deslumbrante. Ah, não há nenhuma piada do filme. 100% joke free. É claro que Allen não é Tennessee Williams, nem Eugene O’Neill ou Elia Kazan. Se fosse, teria mais cuidado na construção dos personagens, mas mesmo assim o filme permanece em pé. Explico: algumas coisas são meio gratuitas, mas só notei na saída.

02UmaNovaAmigaVimos na TV um filme de François Ozon que, creio, não foi para os cinemas, mas deveria. Uma Nova Amiga não é tão bom quanto Dentro de Casa ou Frantz, mas é uma joia. David é um cara que perde a mulher. Após a morte, uma amiga do casal desfeito vai visitá-lo, encontra a porta aberta e dá de cara com o sujeito vestido de mulher com a filhinha ainda bebê. A ex saberia e aprovaria. O roteiro de Ozon complica tudo: a gente sabe que não tem nada a ver, mas associa o ato ao luto — o marido deprimido que usa as roupas da mulher para se sentir mais próximo dela, para transmitir à filha pequena a sensação de ainda ter uma mãe, blá, blá, blá. O travestimento seria prova de amor. Só que, é claro… Vejam o filme porque vale a pena. Estava gratuito no Now até 31/12…

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Tragédia é pouco para caracterizar o bom filme islandês A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson. Na Islândia tem mais ovelhas do que seres humanos. Muito mais. O animal é fundamental para o país. Um dia, após ser derrotado pelo irmão no concurso anual do melhor ovelha de sua região e por pura vingança, Gummi decide investigar o animal vencedor. Detalhe: os irmãos são inimigos mortais que não se falam há 40 anos. Ele desconfia que o bicho tenha uma doença contagiosa. Quando a suposição se confirma e todas as fazendas das redondezas são obrigadas a matar suas ovelhas, coisas que não devo contar acontecem. Vale a pena ver. A Elena viu muitas coisas bíblicas no filme, porém, como eu sou ignorante… Bem, está no Now, lá nos ‘Cults independentes’.

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Star Wars: cinemas estão alertando sobre uma cena silenciosa do filme

Ah, se esta plateia assistisse a um filme de Tarkovski ou Bergman…

Uma cena especifica está gerando controvérsias e diversos cinemas pelo mundo estão colocando avisos alertando que a tomada não é um erro da projeção, mas sim uma opção do diretor. É que são 10 segundos em silêncio!!! 10 segundos sem som. Imaginem! Sem bombas, explosões ou música!

É um sinal claro de incompreensão e de decadência do público vedor (gostaram?) de filmes. Houve um cineasta — quem terá sido? — que disse que, a partir do começo dos anos 80, os grandes estúdios, em busca de agradar o maior número possível de espectadores de todas as faixas etárias, passaram a privilegiar roteiros que não ultrapassassem a capacidade mental de alguém com 12 anos de idade. Então, criaram seu público. Parabéns.

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Lucky, de John Carroll Lynch (****)

Lucky é o primeiro filme protagonizado pelo notável Harry Dean Stanton. Sim, ele teve que chegar aos 91 anos para consegui-lo. É um filme extraordinário realizado em torno da figura da lendário figura do ator, mas cujo tema é o fim, a morte e o medo de um velho ateu sozinho, mas não solitário. Veterano de mais de 60 anos de filmes memoráveis — o filme onde ele chegou mais próximo de ser protagonista talvez tenha sido Paris, Texas, de Wim Wenders –, Stanton finalmente ganha um papel digno de suas qualidades.

lucky-movie-sxswLucky vive numa casa afastada em uma cidade do Arizona. Toda gente o conhece. Ele segue uma rigorosa rotina diária: faz exercícios ao acordar, bebe um copo de leite gelado, vai à cidade, faz palavras cruzadas numa lanchonete, toma seu álcool e vai jogar conversa fora num bar à noite com amigos. Uma manhã, depois do seu amigo Howard (o cineasta David Lynch, aqui como ator) ter comunicado a fuga de seu cágado de estimação, Lucky cai sozinho em casa. Vai ao médico e este lhe diz que ele não tem doença nenhuma e que não vale a pena nem parar de fumar. Está velho e, aos 91 anos, tanto faz. Lucky entende tudo: está velho e a queda é o primeiro aviso de que irá morrer logo.

Muito inteligente a forma com que o cineasta John Carroll Lynch demonstra como tudo o que Lucky ouve a respeito da vida repercute em suas ações. Ele está ainda aprendendo. Mas como ele encara a perspectiva da morte? Rói as unhas de tanta angústia? Chora? Coloca protetores por toda a casa para não cair? Adere a uma religião? Não, ele passa reto por isso tudo. Mas, compra uma caixa de grilos e a coloca perto da da janela. Quer ouvi-los antes de dormir.

E apenas segue sua vida de ateu em paz consigo mesmo e com o mundo. Com um humor cáustico e seco — típico de Jim Jarmusch –, Carrol Lynch constrói uma história da melhor poesia, a maior homenagem que poderia receber Stanton que faleceu em setembro passado, aos 91 anos, dias antes da estreia do filme.

Um filme a ser visto, Lucky é todo feito de mosaicos preciosos.

 

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Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe (***)

1971. No início de Mulheres Divinas, uma série de cenas mostram a efervescência daquela época. Correrias, ruas conflagradas, bombas, manifestações, gritos, cabelos longos, Woodstock, surgimento dos Panteras Negras, protestos estudantis, revolução sexual, feminismo. Corta. Então somos levados a uma aldeia no interior da Suíça. É o mesmo ano, mas ali parece que ninguém sabe de nada. Tudo está silencioso. Uma dona de casa aspira tranquilamente o tapete da sala de sua residência. Dois pés masculinos se erguem automaticamente para que o aspirador passe. O homem lê seu jornal.

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Ali vive Nora — seu nome não deve ser uma casualidade, lembrem-se de Casa de Bonecas, de Ibsen — com seu marido, dois filhos e o sogro. Ela pensa em trabalhar fora, mas o marido proíbe. Ele pode proibi-la, a lei permite. Ao mesmo tempo, aproxima-se a data de um referendo onde será decidido se as mulheres devem ou não ter direito ao voto. Só os homens votam, claro. E Nora, de forma inusitada, torna-se a líder feminista do local. Uma líder insegura e sem jeito para a coisa.

Mulheres Divinas não é lá muito profundo e muitos personagens parecem ter saído de um manual, mas o filme de Petra Biondina Volpe tira sua força do grupo de atrizes, da fluidez narrativa e do fato de partir de histórias pessoais bem comuns e, infelizmente, ainda existentes. A viagem das militantes a Zurique, onde participam de manifestações e de um curso para descobrir o próprio corpo são excelentes e repercutem no restante do filme. A parte final é previsível, mas a gente torce para que aquilo mesmo ocorra.

A tradução do título no Brasil não poderia ser mais estúpida. De A Ordem Divina tornou-se Mulheres Divinas. É que muitos homens invocam deus para que tudo permaneça como está. OK.

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Lumière! A aventura começa, de Thierry Frémaux (****)

Este é um documentário fundamental para qualquer cinéfilo. Lumière! A aventura começa traz uma montagem comentada de 108 dos 1422 filmes que constituem o legado de Louis e Auguste Lumière. Alguns são realmente deslumbrantes, agora restaurados em 4k.

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O primeiro filme dos Irmãos Lumière mostra a multidão de operários saindo da fábrica da família em 1895. Todos fingem — ou tentam fingir — que não veem a câmera. Este primeiro filme chegou dizendo de cara que o cinema servia para mostrar quem somos. E desde então os filmes vêm conversando com a gente. Eles falam conosco em salas escuras e contam nossa história.

É curioso que os Lumière tenham inventado tudo: a técnica de como registrar movimentos em filme, a arte cinematográfica e a sala de cinema. Foram os inventores do cinema e os primeiros cineastas. E dos bons. Foram também os primeiros a apresentarem um filme numa sala escura e os primeiros a cobrarem ingresso (1 franco).

Com tom professoral, o documentário de Frémaux esmiúça tudo sem se tornar chato, pelo contrário. As composições das cenas, os travellings, o cinema de ficção, o documentário, a comédia, o remake. Muita coisa já está ali. Cada filme tem 50 segundos — era o que cabia nas películas da época — e a câmera ficava parada no chão ou dentro de um carro ou trem em movimento.

E eles fizeram experiências, experiências, experiências e descobertas. Eram técnicos e artistas. Há filmes realmente lindos, outros são antecipatórios. Os irmãos Lumière e sua equipe vão concebendo e entendendo algumas funções narrativas presentes até hoje.

A coisa é fascinante para quem gosta de cinema.

Cena de "A Aldeia de Namo" (Vietname), dos Irmãos Lumière

Cena de “A Aldeia de Namo” (Vietname), dos Irmãos Lumière

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O Monty Python Michael Palin em Portugal: “O politicamente correto está impedindo o desenvolvimento da comédia”

Michael Palin… Bem, quem não conhece Michael Palin? Ele é um dos Monty Python e se você não o conhece talvez não deva lê-lo, pois a desinformação denuncia alguém não muito familiarizado com a comédia, esta muito pouco religiosa e solene instituição. A biografia de Palin já garante que toda palavra sua torne-se importante, ainda mais quando ele se manifesta a respeito daquilo que exerceu como poucos — a tarefa de grandíssimo comediante. Os filmes dos Python, muitos com mais de 50 anos, ainda são vistos e de-co-ra-dos com devoção pelos fás no youtube. Se você ainda não os viu, não sei onde esteve nas últimas décadas.

Palin andou dando entrevistas e participando de eventos em Portugal na semana passada. Não posso evitar de copiar aqui duas matérias do sempre excelente publico.pt.

HUMOR

Um Monty Python em Viseu: “A Igreja achava mesmo que ia ser derrubada por A Vida de Brian?”

O politicamente correcto “está a impedir o desenvolvimento da comédia”, mas hoje Michael Palin não escreveria um sketch sobre o islão. Entrevistado por Ricardo Araújo Pereira, chamou centenas de pessoas à 3.ª edição do festival Tinto no Branco.

Por Joana Amaral Cardoso

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“Este homem não é um homem comum”, começou Ricardo Araújo Pereira, fazendo de uma fala do sketch do super-homem que arranjava bicicletas dos Monty Python a sua apresentação elogiosa de Michael Palin. Estes são dois homens da comédia e dos livros que tiveram “uma conversa completamente diferente”, claro, nesta sexta-feira à noite em Viseu perante centenas de pessoas — e sob um frio de rachar. Palin defendeu, num tempo em que considera que o politicamente correcto “está a impedir o desenvolvimento da comédia”, que “o humor ilumina tudo e nada [há de] demasiado sério que não se consiga defender contra o humor. A Igreja achava mesmo que ia ser derrubada por A Vida de Brian?”.

A conversa marcou a abertura da 3.ª edição do festival literário Tinto no Branco, inicialmente prevista para a Tenda Jardins de Inverno, mas depois transferida para o exterior do Solar do Vinho do Dão — o centro nevrálgico do evento — devido à prevista e confirmada afluência do público, que superava os 200 lugares previstos da tenda e assim encontrou espaço nos cerca de 600 lugares sentados disponíveis e muitos outros em pé. “Já alguém morreu?”, atirou a certa altura Michael Palin, dos Monty Python, escritor, viajante profissional, actor e apresentador de TV. Aos dez minutos de conversa ao ar livre, com sete graus nos termómetros, Ricardo Araújo Pereira já tinha puxado uma mantinha sobre as pernas. “Pareço uma velhinha”, disse a uma audiência que nunca deixou de sorrir e que terminou a hora de conversa com uma ovação de pé. “Isso, activem a circulação”, brincou Palin antes de abandonar o palco.

Esse palco pertencera aos dois, entrevistador e entrevistado, fã e ídolo. A conversa provou logo no título como os Monty Python são, entre muitas coisas, infinitamente citáveis. Comprovou que falar dos limites do humor, do politicamente correcto e, claro, de papagaios mortos não tinha rival no frio viseense. E solenizou-se então quando Ricardo Araújo Pereira, que acaba de lançar um livro de crónicas em torno do que descreve ser o seu reaccionarismo quanto a elementos tão variados quanto os novos media até à língua, perguntou a Michael Palin como achava que seria recebido hoje um sketch como o do lenhador travesti ou A Vida de Brian (1979). Palin responde: “É difícil saber, porque ainda são populares.”

O filme dos Monty Python (formados por John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Palin) foi recebido com boicotes, protestos e muito debate na época. A rábula do lenhador travesti é um dos intemporais números dos Python e o seu protagonista é Palin, que também escreveu sketches como aquele que ficou reconhecível pela sua exclamação “Ninguém espera a Inquisição Espanhola!”. Para Michael Palin, é uma questão em aberto saber “se se consegue agora escrever algo fresco sobre travestismo, transgénero ou autoritarismo religioso”.

O homem que é conhecido, como lembrou Araújo Pereira, como “o Python simpático” passou depois a responder à sua própria pergunta: “Escreveria hoje algo sobre o islão? Nem pensar, nem pensar, porque há por aí pessoas perigosas.”

“[Mas] gostaria de escrever sobre toda essa área da tolerância e intolerância. E gostaria de escrever algo sobre o politicamente correcto hoje, porque acho que está a impedir o desenvolvimento da comédia. Estamos todos a fazer coisas de que temos vergonha e a comédia é uma forma óptima de falar sobre essas coisas e de lidar com elas. São tempos diferentes daqueles quando escrevíamos comédia em 1969, em que tudo era um alvo em aberto, mas estranhamente acho que isso era porque no mundo na altura havia mais com que nos preocuparmos, a Guerra Fria, a luta pelos direitos civis, mas por alguma razão em Inglaterra podíamos falar sobre quase tudo através da comédia. Porque ninguém tinha feito isso antes.”

E chega à conclusão: “Olhando para os Python hoje, há provavelmente todo o tipo de coisas que seriam totalmente politicamente incorrectas. O que é estranho é que as pessoas ainda se riem delas, ainda vêem os programas, e não houve nenhuma insurreição civil, nenhuma grande religião encerrou por causa disso.”

Michael Palin considera-se “um sacana extremamente sortudo”, disse logo no pontapé de saída a Ricardo Araújo Pereira. “Escrever é o que mais gosto. É um acto criativo primário”, acredita, “ é algo que estamos sempre a aprender”. O Monty Python está em “Biseo”, como pronuncia atenciosamente, provavelmente sem saber porque arranca alguns risos da plateia — a troca do bê pelo vê e o ligeiro ciciar no esse aproximam-no ao sotaque da região, e a audiência reconhece-se. São fãs dos Monty Python de todas as idades, mas também fãs dos Gato Fedorento, que ocupariam Araújo Pereira com fotografias e autógrafos no final da conversa.

O humorista e colunista português quis saber muito sobre o grupo de que é admirador, sendo que já entrevistara Terry Jones e John Cleese no passado. É das “tensões” entre os vários Python que vêm alguns dos seus feitos, responde-lhe Palin. Elas eram “parte da dinâmica que fazia os Python funcionar”, essa trupe que já de si considera que “era em parte um acidente”. A voragem criativa era tal que era “uma força centrífuga” e a sua conhecida animosidade com John Cleese serviria o grupo no programa da BBC em que se estrearam, Monty Python’s Flying Circus (1969-74). “Eu cumpria a função do homem com quem o John se zangava. O que é muito importante. Ele tentava devolver o papagaio e eu dizia ‘Não, não, está só a descansar’.” Esse sketch é um dos que nomeia quando fala do processo criativo do grupo, um dos tiros certeiros que os pôs logo, numa primeira leitura, a rir “histericamente”. “O [sketch do] Ministry of Silly Walks foi mais trabalhoso.”

Michael Palin assume-se como um observador do comportamento humano. Tanto que é essa a sua leitura dos três filmes Python, que considera que Ricardo Araújo Pereira “levou demasiado a sério”. Por não serem, como enunciara o entrevistador, sobre os grandes temas de Deus, fundação de Inglaterra e sentido da vida, mas sim “sobre o absurdo do comportamento humano” na religião organizada (e esganiça a voz para imitar alguns dos seguidores de A Vida de Brian), “sobre o comportamento britânico”, sempre polido mesmo quando violento (“Oh, temos um Império. Oh céus, oh dear”, brinca sobre Monty Python e o Cálice Sagrado, de 1975) ou um filme que, concede, “ainda é bastante radical” — O Sentido da Vida, de 1983.

O encontro entre o Python e o Gato foi o grande chamariz do festival, que alia o vinho da região e a literatura e visa colocar Viseu na rota do turismo cultural. Conta também na programação desta sexta-feira com uma actuação de Benjamin e que ao longo do fim-de-semana terá ainda duetos conversadores com o crítico cultural Pedro Mexia, o escritor e ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas, a historiadora Raquel Varela, o poeta Nuno Júdice ou o escritor Afonso Cruz, bem como entre Frei Bento Domingues e Carlos Fiolhais.

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ENTREVISTA:

Michael Palin em Portugal: “A boa comédia é na verdade um protesto”

O Monty Python esteve em Viseu no festival literário Tinto no Branco para falar da comédia revolucionária que fez há 50 anos mas também sobre livros, Trump e viagens.

Por Joana Amaral Cardoso

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Horas antes de um encontro às cegas com Ricardo Araújo Pereira, que nunca tinha visto mas com quem aceitou conversar em Viseu, Michael Palin estava preparado para falar uma vez mais dos Monty Python. O grupo que formou com John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones é quase sempre o seu cartão de visita – embora, explica ao PÚBLICO, nem sempre isso aconteça nos festivais literários em países mais remotos onde a trupe não é tão conhecida.

Não foi o caso nesta 3.ª edição do Tinto no Branco, vinho Dão e livros, escritores e pensadores à conversa com provas de vinho à mistura no centro de Viseu. Uma cidade que não conhecia, também, e que assim cumpria dois requisitos para aceitar vir a um de tantos festivais literários que proliferam mundo fora. “Estou sempre interessado em falar sobre a escrita. Gosto de viajar e se há um festival num sítio que não conheço ou onde estive e quero voltar, isso é apelativo para mim. E quanto mais pequeno o festival mais gosto dele, porque conhecemos as pessoas e fazem uma diferença real — vê-se numa cidade pequena como Viseu.”

Michael Palin, encarnação de cavalheiro inglês e simpatia imune a feitos e fama, é um viajante inveterado que já seguiu os passos de Hemingway nas suas viagens, ou os de Phileas Fogg de Volta ao Mundo em 80 Dias, e que a BBC levou em inúmeros programas pelo globo. Nunca fez um sobre Portugal mas já visitou o país e suas cidades várias vezes, em férias. Tem editados em Portugal muitos dos seus livros de viagens, e também um único livro de ficção, Verdade e Consequência (Bizâncio, 2015). Trabalha agora num novo livro: “Estou a escrever a história da vida de um navio”, envolta tanto em mistério quanto em tragédia, a do HMS Erebus.

Depois de uma conversa com Ricardo Araújo Pereira que manteve mais de meia centena de pessoas ao ar livre numa fria noite de Viseu na sexta-feira, o adepto do Sheffield aqueceu-se com uma espreitadela ao Porto-Benfica. Horas antes, falava sobre a intemporalidade dos Python, pedagogia humorística, sobre Trump e o “Brexit”.

Alguma vez se cansa de falar sobre os Monty Python? Honestamente.
Canso-me se for pura repetição. Mas estou sempre grato por [haver] pessoas genuinamente interessadas nos Python e no facto de ainda resultarem, especialmente no estrangeiro porque é fascinante saber por que é que os Python ultrapassam fronteiras — [saber] o que as pessoas em Portugal, no Brasil ou na Polónia pensam sobre os Python. De cada vez tento pensar, da forma mais clara possível, na melhor resposta que dou.

Estando neste festival, pensa-se em como o trabalho dos Monty Python tem algo de literário na construção e estrutura de alguns dos seus sketches. Introduziram isso de forma consciente, quando escreviam?
Os Python reflectiam muita da informação que tínhamos adquirido na nossa educação e atirávamos para lá absolutamente tudo. Mas a ideia primordial era de que nunca devia ser um sermão, devia ser engraçado, ter um toque de leveza. Tivemos o [Marcel] Proust, por exemplo, e não havia muitos programas de comédia com Proust. Usámo-lo numa espécie de estúdio de televisão provinciano onde concorrentes tinham de resumir as obras de Proust em menos de 15 segundos [risos]. Lidámos com livros incrivelmente densos e complexos e confiámos no facto de o público saber que é um livro incrivelmente complicado e rico, que demora muito a ler. Conscientemente usávamos partes da nossa formação e ideias, temas. Lembro-me de um sketch muito engraçado que Eric Idle escreveu sobre dois homens a discutir a existência ou não de deus, enquanto estão a lutar – um era um bispo e um humanista. Usávamos conceitos intelectuais e tornávamo-los algo muito tonto.

Em Junho, doou mais de 50 dos seus cadernos e diários, cheios de ideias e esboços de sketches redigidos entre 1965 e 1987, à Biblioteca Nacional Britânica. O que o levou a fazê-lo?
Durante muito tempo escrevi e mantive cadernos de notas, farrapos de papel, envelopes, ideias apontadas e que estavam a apanhar pó em pastas em casa. Pensando no que faria com eles, foi claro que os Monty Python não são algo que vá desaparecer. Na verdade, quanto mais nos afastamos dos Python mais as pessoas estão interessadas na forma como trabalhei, mesmo sendo coisas com 50 anos. Dando isto à Biblioteca Britânica, as pessoas podem organizá-los, catalogá-los, fazer sentido deles e também disponibilizá-los a quem esteja interessado em escrever comédia. Eu teria muito interesse em ter visto os cadernos do [influente comediante britânico] Spike Milligan. E isto permite saber como era uma sessão de escrita dos Python.

Têm mais informação sobre os êxitos, mas também sobre as falhas, os erros, os obstáculos que tentavam ultrapassar ao escrever.
Sim, há lá muitos sketches que nunca chegaram à televisão e é muito interessante, olhando para o conjunto de uma obra, descobrir o que não foi usado, o que foi riscado. É quase mais interessante do que o que foi usado.

Não havia dúvidas, mas essa doação é mais uma forma de confirmação do lugar dos Monty Python no Panteão da cultura britânica. Para quem escrevia comédia com leveza, sente-se agora esse peso?
Estava meio à espera que eles dissessem que não era o tipo de coisa que queriam. “Estamos mais interessados em Virginia Woolf ou Kingsley Amis ou whatever”. Mas eles é que tomaram a decisão. Adorariam tê-los porque os Python tornaram-se não só parte da cultura mas também algo que é muito difícil de definir. Quanto mais houver para compreender, mais interessante será.

Os Python ainda são considerados um avanço, uma inovação na comédia. Não víamos isso assim na altura, mas é o que é agora. As frases dos Python são constantemente usadas: “always look on the bright side of life”; “o que é os romanos alguma vez fizeram por nós?”. As pessoas usam-nas a toda a hora, os jornalistas, os políticos. Margaret Thatcher: ela tentou usar o sketch do papagaio morto a propósito de um candidato do Partido Liberal. Alguém do seu aparelho lhe disse para o fazer mas ela não sabia bem o que era. “É de um programa de televisão”; “o que é isso?”. E disseram-lhe “é o Monty Python’s Flying Circus”; e ela disse-lhes “Monty Python… É um dos nossos?”, [do partido]. [risos]

O seu filme mais recente como actor, da autoria do escritor de comédia política Armando Iannucci (Veep, The Thick of It), é The Death of Stalin e centra-se na ambição, no poder e na imagem. Surge numa altura de suspeitas sobre conspirações entre políticos americanos e a Rússia, de tensões entre Theresa May e Donald Trump, de “Brexit” – é particularmente atempado?
A situação hoje é, de muitas formas, diferente. Mas [o filme] é sobre o poder, como se consegue o poder e como se mantém esse poder. Hoje, por oposição ao tempo de Estaline, em que havia papelinhos com os nomes das pessoas e as condenavam por isto ou aquilo, agora há a Internet e pode controlar-se de facto as coisas a partir do centro. Pode-se piratear, pode-se bloquear, ou lançar dúvida como faz Trump. As declarações públicas de Trump são todas tweets, o que é óptimo porque se só se é tido em conta por 140 caracteres, isso significa que não tem de se entrar numa discussão completa. O que é uma forma de manter o poder.

Trump, pelo que sei, ainda não mandou ninguém para as minas de sal, mas está interessado no poder, na forma como se mantém o poder, como se difama as pessoas, o que é muito importante. The Death of Stalin é sobre como o poder e a ambição distorcem e transformam as pessoas, de seres humanos inteligentes e credíveis em apoiantes de actos horrendos e de excessos. Não penso que estejamos nessa situação. Mas por todo o mundo há pessoas a agarrar-se ao poder fazendo coisas muito cruéis, por isso é relevante.

A comédia é particularmente necessária em momentos assim, ou é um cliché pensá-lo?
Não penso que seja necessária, penso que existe. A comédia é muito importante nas crises. Na Grande Guerra havia muito humor, as pessoas riem-se nas situações mais desesperadas. Há que assegurar que esse riso não é um riso de desespero mas um riso que seja de protesto. É isso que a comédia é, a boa comédia é na verdade um protesto. É dizer “olhem para esta pessoa a dizer estas coisas!”, “olhem para o cão atrás dele a fazer-lhe xixi na perna”. Mostrar quão transiente e quão vazios são muitos dos gestos dos poderosos. A comédia e o ridículo são uma parte muito, muito forte do protesto, para manter as pessoas debaixo de olho. As pessoas verdadeiramente poderosas não têm muito sentido de humor, porque a comédia é sobre rirmo-nos também de nós mesmos, e eles não conseguem fazê-lo.

É algo em que os britânicos têm sido muito bons e penso que é por isso que estamos na confusão em que estamos hoje – porque nos conseguimos rir de nós mesmos. Vamos ter de nos rir bastante nos próximos anos. É a única coisa que podemos fazer.

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Uma história moderna de terror (ou de como as Redes Sociais tomaram conta de nossas vidas)

O incrível é que me foi mandado por um cara que só tem Whatsapp e que se identifica com o personagem masculino. Devo certamente evitá-lo.

Enviado pelo amigo Paulo Oliveira.

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Com todo Stanley Kubrick nos ouvidos

Kubrick durante as filmagens de Barry Lyndon

Kubrick durante as filmagens de Barry Lyndon

Além de enorme cineasta, Stanley Kubrick tinha apurado gosto musical. Normalmente, as trilhas eram escolhidas por ele e não compostas especialmente para o filme. Fico imaginando Kubrick examinar as imagens e pensar que para Jack Nicholson nesta parte aqui de O Iluminado, a Música para Cordas, Percussão e Celesta de Bartók cairia muito bem. Aqui, para Barry Lyndon, Handel!

É claro que, para tanto, era necessário um alto conhecimento musical que não era problema para Kubrick. Acho que será divertido ouvir as músicas tentando lembrar das cenas, não?

O site Spotify compilou as obras da música erudita utilizadas em cinco filmes do cineasta: 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), Laranja Mecânica (1971), Barry Lyndon (1975), O Iluminado (1980) e De Olhos Bem Fechados (1999). São quase quatro horas de duração organizadas por filme. Para ouvir a lista é necessário ter uma conta registrada no Spotify e realizar o login. O serviço possui uma opção de assinatura gratuita.

Clique no link para acessar: Quatro horas de músicas dos filmes de Stanley Kubrick

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O Fim da Turnê, de James Ponsoldt

Ontem à noite, vimos O Fim da Turnê. O filme mostra a entrevista de cinco dias do jornalista David Lipsky, da Rolling Stone, com o escritor David Foster Wallace, ocorrida em 1996 durante a turnê de lançamento do livro de Wallace, Infinite Jest (Graça Infinita). A convite do autor — convite um pouco súbito e ditado pela simpatia inicial –, Lipsky hospedou-se na casa da fazenda onde Wallace vivia recluso com seus dois cachorros, foi às aulas que ele ministrava na universidade e também na última viagem de lançamento de Graça Infinita — uma palestra para leitores mais noite de autógrafos.

Lipsin e DFW em viagem

Lipsky e DFW em viagem

Como o filme sublinha, Wallace não pode ser uma figura mais norte-americana. É um daqueles rebeldes que contestam o próprio país ao mesmo tempo que amam McDonalds, TV, Coca-Cola, etc. Ao mesmo tempo, trabalha recluso numa fazenda, sem TV e com dificuldades em se relacionar com as pessoas — tem o receio de magoá-las. Demonstra especialmente dificuldades com mulheres. (O entrevistador Lipsky, também escritor, sente inveja do talento e do sucesso de DFW, enquanto este morre de ciúmes do trato social que Lipsky tem com elas).

Curiosamente, a reportagem jamais foi publicada. Lipsky só traria sua versão daqueles dias no livro que dá origem ao filme, Although of Course You End Up Becoming Yourself: A Road Trip With David Foster Wallace, lançado em 2010, dois anos após o suicídio de DFW.

Como cinema, O Fim da Turnê pode não ser espetacular, mas seus diálogos são 100% do tempo interessantes, assim como o jogo de tensões que estabelece entre entrevistador e entrevistado. Nunca li DFW. Seus temas, que descobri faz tempo lendo resenhas e reportagens, não me seduziram, mas o filme faz tudo para que eu mude de opinião.

DFW pensava que a forma com que o homem lida com a tecnologia faz com que ele se torne refém dela. A negação em ter uma TV em casa — logo depois sabemos que Wallace era capaz de passar horas e horas abobado na frente da telinha assistindo coisas 100% bobas — é parte deste “tornar-se refém”. Ele também se refere ao sexo que agora vem pelo computadores e que dominará todos os nossos prazeres, não somente os sexuais. Claro que isso é uma redução. Nem só de reflexões sobre tecnologia é feito DFW. Seu principal tema é extremamente literário, penso. A literatura, escrita ou lida, representaria uma forma de superar a solidão e os efeitos de um individualismo radical.

A atuação de Jason Segel como David Foster Wallace e a Jesse Eisenberg como o jornalista David Lipsky são grandiosas. Segel dá eco ao bom roteiro conseguindo deixar clara a fragilidade emocional do escritor e o verdadeiro tumulto de seu cérebro. Sua figura, a de um riponga sempre entre o doce e o perturbado, é magnética. O filme de James Ponsoldt nos dá um caminho para compreender o que há de genial em DFW.

Para finalizar, sabem que Wallace era devoto de Dostoiévski? Pois é. A grande coisa que torna Dostoiévski inestimável para os leitores e escritores norte-americanos é que ele parece possuir graus de paixão, convicção e engajamento com dilemas morais profundos que nós – aqui, hoje – não podemos ou não nos permitimos. (…) …exigimos de nossa arte uma distância irônica das convicções arraigadas ou das questões aflitivas, de modo que os escritores atuais devem ou fazer piadas com elas ou tentar camuflá-las sob algum truque formal.

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Tal Mãe, Tal Filha, de Noémie Saglio

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Uma comédia deve ser… engraçada. Mas quase não ri por mais de uma hora. Inseparáveis, Avril (Camille Cottin) e sua mãe, Mado (Juliette Binoche), não podem ser mais diferentes uma da outra. Avril, 30 anos, é casada, tem um emprego fixo e é organizada. Sua mãe, de 47 anos, é uma eterna adolescente que vive às custas de sua filha desde o seu divórcio. Quando as duas mulheres se veem grávidas ao mesmo tempo e sob o mesmo teto, o choque é inevitável. Tal Mãe, Tal Filha é tão ruim que entra em ressonância, reverbera e acaba bom, numa cena tão absurda que rimos sem parar e saímos felizes do cinema. Juliette Binoche arrasa dançando com véus a terceira de Brahms. É uma imagem que se leva para a vida. Uma atriz que sabe rir de sua (alta) respeitabilidade e protagoniza algo 200% brega é muito digna. E salva o filme.

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Monsieur & Madame Adelman, de Nicolas Bedos (****)

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Sarah (Doria Tillier) e Victor (Nicolas Bedos) estiveram juntos por 45 anos. Um longo casamento durante o qual ele construiu uma solida carreira de escritor. No funeral dele, Sarah é abordada por um jornalista (ou biógrafo) que deseja contar a história de seu marido a partir do olhar da mulher que sempre o acompanhou, alguém de que viveu à sua sombra. E ela passa a contar minúcias do relacionamento que tiveram, incluindo segredos bastante íntimos. Na verdade, coisas muito constrangedoras. Ou, na verdade verdadeira, coisas absolutamente fundamentais e inconfessáveis. O filme tem bom ritmo, é muito vivo e humano, jamais caindo em clichês. Surpreende. Escrito em parceria por Doria e Bedos e dirigido por ele, o drama cômico é repleto observações a respeito das regras e colaborações complicadas que os casais desenvolvem entre si. Vale a pena.

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O Reencontro, de Martin Provost (***)

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Béatrice (Catherine Deneuve) tem aproximadamente 70 anos. É extravagante, expansiva, inconveniente, não possui moradia fixa nem reservas financeiras e amou demais, ao menos numericamente. Um de seus amores foi o pai de Claire (Catherine Frot) de quem foi madrasta quando ela tinha 13 anos de idade e, de repente, fugiu. Por trás da fachada alegre, Béatrice é uma mulher solitária. Agora, trinta e tantos anos depois, Claire tem 49, não bebe, não fuma, não se excede em nada. Rígida, leva uma vida irretocável com seu filho. Na verdade, é uma mulher igualmente solitária. Porém, quando descobre ser portadora de uma doença terminal, Béatrice procura seu antigo amor. Só que o pai de Claire morreu há décadas e ela só obtém contato com a ex-enteada. Claire é obstetra — aliás, que grandes cenas de partos há no filme! –, Béatrice não é nada. Como diz o título, o filme se baseia no reencontro entre ambas. Não é nenhuma maravilha, mas funciona direitinho dentro de uma estrutura nada original. Parece cinema médio americano, mas as duas Catherines são fantásticas.

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A vida de uma mulher, de Stéphane Brizé (***)

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O título deste filme baseado num romance de Guy de Maupassant poderia ser “Uma vida jogada fora”. Jeanne retorna à casa dos pais após completar os estudos. Passa a ajudá-los nas tarefas do campo. É uma moça talentosa e cheia de vida. Então, um certo Visconde aparece nas redondezas para, de forma apática, quase esquemática, conquistar o coração disponível da jovem. Eles casam. Conforme o tempo avança, Julien mostra-se infiel e avarento. Fato a fato, ano a ano, tudo vai destruindo a alegria de viver de Jeanne. A Vida de Uma Mulher possui narrativa lenta e cheia de lacunas, que vamos preenchendo com nossa experiência de forma mais ou menos terrível, o que torna tudo muito interessante. Os sofrimentos da protagonista não são escarrados, mas observados pela câmera com melancolia. A derrota de Jeanne é completa e vale mais do que a esmagadora maioria e berros das publicações feministas que leio por aí. Um filme inteligente, feminista, desconfortável e triste, triste, triste.

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Perdidos em Paris, de Fiona Gordon e Dominique Abel (****)

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O casal de artistas circenses Dominique Abel e Fiona Gordon — acima, com a grande Emmanuelle Riva ao centro — revelam-se maravilhosos neste Perdidos em Paris, filme que escreveram, dirigiram e protagonizaram. Trazem um humor leve, cinematográfico e descompromissado, derivado diretamente dos filmes de Jacques Tati. É a história surreal de uma sobrinha que vai do Canadá a Paris em busca da velha tia depois de receber uma carta preocupante. Mas também uma história de amor delicada. O nonsense e as pantomimas comandam a ação de desencontros entre a bibliotecária Fiona (Fiona Gordon), sua tia Martha (papel de Emmanuelle Riva) e o desconhecido pobretão Dom (Dominique Abel). Tudo transcorre em Paris, palco de personagens que são verdadeiras caricaturas. O filme é uma declarada homenagem à arte de Chaplin, Keaton, Tati e Jean-Louis Barrault. Enquanto Fiona parte em busca da tia, com paradeiro incerto, ela esbarra num amontoado de coincidências e de momentos hilários. Dom é um morador de rua que está para o amor e para criar ainda mais confusão nesta comédia irônica.

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Frantz, de François Ozon (****)

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Frantz seria um filme convencional e acadêmico… Sim, François Ozon dirige algo muito diferente do que costuma fazer. Este filme não tem nada a ver com Jovem e Bela ou Dentro de Casa. Frantz é um drama histórico que mostra os pontos de vista da Alemanha e da França ao final da Primeira Guerra Mundial. Um antigo soldado francês decide visitar a família de um soldado alemão que ele viu morrer na guerra. Eram conhecidos. Só que a presença do jovem francês não agrada aos habitantes da pequena cidade alemã marcada pelo luto e pelo rancor contra o inimigo de guerra. O luto, a culpa, o perdão e uma possível redenção são os grandes temas de uma obra que não é tão clássica como parece à primeira vista, devido à originalidade do argumento escrito por François Ozon. Este é altamente folhetinesco, com duas ou três viradas na história que deixam o espectador estupefato. A interpretação da atriz alemã Paula Beer é um dos pontos fortes deste filme delicado e austero.

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Pedaços de textos sobre Bergman que estavam há anos nos rascunhos do blog

Bergman e Bengt Ekerot (a morte) durante as filmagens de O Sétimo Selo

Bergman e Bengt Ekerot (a morte) durante as filmagens de O Sétimo Selo

Post que escrevi em 12/07/2003:

Depois de declarar uma aposentadoria meio falsa, pois permanecia parindo roteiros e outros trabalhos, Ingmar Bergman confessou:

Não teve jeito, anos atrás fiz uma descoberta devastadora: eu estava grávido! Dentro de mim estava crescendo e chutando um filme. Era impressionante e inesperado como o episódio de Sara na Bíblia, que engravida aos 89 anos. Depois do período de náuseas pela manhã, acabei gostando da idéia.

Bergman, que completa 85 anos na próxima segunda-feira, estreará seu novo filme, chamado Sarabanda, no Festival de Veneza, ao final de agosto. Outra boa notícia: suas filhas Eva e Linn estão organizando os arquivos pessoais do mestre para disponibilizá-los na Internet.

Ingmar Bergman e seu fotógrafo de sempre, Sven Nykvist

Ingmar Bergman e seu fotógrafo de sempre, Sven Nykvist

Em 30/07/2007:

Após produtiva existência, faleceu hoje pela manhã o maior diretor e autor de cinema de todos os tempos, Ingmar Bergman. O anúncio foi feito pelo Real Teatro Dramático da Suécia. Ele morreu em sua casa, em Faro. Pior notícia é difícil.

Nascido a 14 de Julho de 1918 em Uppsala, a norte de Estocolmo, Ingmar Bergman realizou ao longo da sua extensa carreira mais de 40 filmes, entre os quais se destacam Mônica e o Desejo (1951), “O Sétimo Selo” (1956), “Morangos Silvestres” (1957), “O Rosto” (1958), “Persona” (1966), “Gritos e Sussurros” (1972), “Sonata do Outono” (1978), “Fanny e Alexander” (1982) e “Sarabanda” (2003), além do esplêndido roteiro de “Infiel” (2000), de Liv Ullmann.

O cinema de Bergman vai muito além da simples diversão ou deleite, ele desperta reflexões sobre a vida, suas representações e o próprio homem. Eram os atores quem faziam os filmes de Bergman, eram eles quem davam vida a seus filmes e poderíamos dizer que eram suas feições a razão de seus filmes.

Além da sua obra cinematográfica, Bergman foi durante toda a vida um homem de teatro, tendo encenado numerosas peças, nomeadamente as do seu ídolo de juventude, August Strindberg. Foi no entanto o cinema o seu meio de expressão de eleição. “Fazer filmes é para mim um instinto, uma necessidade como comer, beber ou amar”, declarou em 1945.

Cineasta das mulheres, como alguns o consideravam, proporcionará os melhores papéis a atrizes como Maj Britt Nilsson, Harriet Andersson, Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Eva Dahlbeck, Ulla Jacobsson e Liv Ullmann. Teve casos amorosos com várias das suas atrizes, casou-se cinco vezes e teve nove filhos.

Que o cinema seja o meio que me expresso é absolutamente natural. Fiz-me compreender numa língua que passava ao lado da palavra de que carecia, da música que não sabia tocar, da pintura que me deixava indiferente. Subitamente tive a possibilidade de me corresponder com o mundo numa linguagem que literalmente fala da alma para a alma, em termos que, quase de maneira voluptuosa, escapam ao controle do intelecto.

Filmografia principal:

2003 – Sarabanda
1986 – Documentário sobre Fanny and Alexander
1984 – Depois do ensaio
1982 – Fanny e Alexander
1980 – Da vida das marionetes
1978 – Sonata do outono
1977 – O ovo da serpente
1976 – Face a face
1974 – A flauta mágica
1973 – Cenas de um casamento
1972 – Gritos e sussurros
1971 – A hora do amor
1969 – O rito
1969 – A paixão de Ana
1968 – Vergonha
1968 – A hora do lobo
1966 – Persona (Quando duas mulheres pecam)
1964 – Para não falar de todas essas mulheres
1963 – O silêncio
1962 – Luz de inverno
1961 – Através de um espelho
1959 – A fonte da donzela
1958 – O rosto
1957 – Morangos silvestres
1956 – O sétimo selo
1955 – Sorrisos de uma noite de amor
1955 – Sonhos de mulheres
1953 – Noites de circo
1952 – Mônica e o desejo
1952 – Quando as mulheres esperam
1949 – Prisão
1948 – Música na noite
1946 – Chove em nosso amor
1945 – Crise

Ingmar Bergman

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Um breve momento entre deuses: Hobsbawn, Bolaño e Pasolini

A causa a que devotei boa parte da minha vida não prosperou. Eu espero que isto me tenha transformado em um historiador melhor, já que a melhor história é escrita por aqueles que perderam algo. Os vencedores pensam que a história terminou bem porque eles estavam certos, ao passo que os perdedores perguntam por que tudo foi diferente, e esta é uma questão muito mais relevante.

ERIC HOBSBAWN na contracapa do livro “Pessoas Extraordinárias”

Então, o que é um texto de qualidade? É o que sempre foi: ou seja, enfiar a cabeça no escuro, saber saltar no vazio, sabendo que a literatura é basicamente uma profissão perigosa. É correr ao longo da beira do precipício: de um lado do abismo sem fundo, de outro, os rostos que você ama, os rostos sorridentes que você quer ver, e livros, e amigos, e comida. É aceitar essa evidência, embora, por vezes, pese mais a laje que cobre os restos dos escritores mortos. A literatura, como diria um andaluz, é um perigo.

ROBERTO BOLAÑO

O futebol é a última representação sacra de nosso tempo. No fundo é um ritual, mesmo que seja um passatempo. Enquanto outras representações sacras, até a missa, estão em declínio, o futebol é a única que nos restou. O futebol é o espetáculo que substituiu o teatro.

PIER PAOLO PASOLINI

Abaixo, um “.gif” de Pasolini jogando futebol e uma foto de sua squadra:

Pasolini é o primeiro em pé, à esquerda. O time é o do Casarta, de sua cidade natal, de mesmo nome, na região Friuli.

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O Casamento de Rachel: “Eu não quero um deus que possa perdoar o que fiz”

Jonathan Demme, falecido hoje, é o grande autor de O Silêncio dos Inocentes, Totalmente Selvagem, De caso com a Máfia e Filadélfia, mas nada do que fez, em minha opinião, compara-se com O Casamento de Rachel. Uma grande obra de arte.

A cena final de 'O Silêncio dos Inocentes' | Clique para ampliar

O final de ‘O Silêncio dos Inocentes’ | Clique para ampliar

Curiosidade: Jonathan Demme usou a frase “A luta continua” para encerrar quatro de seus filmes, entre eles os conhecidos Filadélfia, de 1993, e O Silêncio dos Inocentes, de 1991. “A luta continua” foi um grito de guerra usado pela Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) durante a guerra que levou à independência do país, em 1975. A primeira ocorrência da frase parece ser um discurso de Eduardo Mondlane, líder revolucionário e ideólogo da nação moçambicana, em 1967: “Não há antagonismo entre as realidades da existência de vários grupos étnicos e a Unidade Nacional. Nós lutamos juntos, e juntos reconstruímos e recriamos o nosso país, produzindo uma nova realidade – um Novo Moçambique, Unido e Livre. A luta continua!”

O final de "De Caso com a Máfia'

O final de “De Caso com a Máfia’

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A personagem Kym (Anne Hathaway) parece carregar todos os pecados do mundo em O casamento de Rachel, imenso filme do diretor Jonathan Demme. Sim, o mesmo Demme de O Silêncio dos Inocentes, o mesmo do Hannibal Lecter inaugural, passou a investir num cinema menor, de caráter autoral e finalmente acertou a mão neste pequeno e originalíssimo filme.

O filme inicia quando o pai de Kym a busca na clínica de reabilitação para drogados — onde está “limpa” há nove meses — a fim de que ela vá ao casamento de sua irmã Rachel. Quando chegam na casa da família, onde a festa será realizada, Rachel começa a sentir a pressão. O pai é extremamente solícito, solícito ao exagero. Oferece-lhe tudo, comida, carona, é todo atenção para com Kym, a filha querida que retorna à casa. Mas é óbvio que ele está apenas exercendo controle sobre ela, informando-se onde está, oferecendo carona para que ela não dirija em hipótese alguma, observando o que consome. Quando Kym encontra-se com a irmã, fica sabendo que não é mais a “madrinha principal” do casamento. Rachel a substituíra por uma amiga. Explode o primeiro desentendimento e ela consegue voltar ao posto perdido. Então Demme estabelece algumas regras.

O diretor tem personagens muito claros e bem construídos, tem o conflito montado; enfim, tem um esqueleto, e escolhe preenchê-lo por uma série de cenas improvisadas. Por exemplo, os discursos dos personagens no ensaio para a festa são realmente atrapalhados, vivos, naturais — um ator chega ao ponto de encarar a câmera –, baseados naquilo que foi definido para cada um deles. É um grande momento do filme. Outra é a esplêndida cena do ensaio dos músicos, onde os atores parecem, e estão, jogados na frente da câmera, divertindo-se a valer dentro de seus personagens. A disputa entre o genro e o sogro sobre quem consegue colocar mais pratos na lavadora de louça é outro momento brilhante de Demme, que capta a brincadeira de modo inesquecível.

O mesmo vale para as reuniões do grupo de reabilitação de drogados. Na primeira vez, Kym não fala nada; na segunda, expõe que está há nove meses sem drogas — é aplaudida — e conta sua história: o vício, o descontrole e o acidente de carro que causara, matando o irmão menor. As pessoas ficam abismadas com o relato. É neste momento que ela diz a frase que uso como título deste post. O controle que ela sofre é correto? Sim e não. Afinal, ela está limpa. Está conseguindo controlar a si mesma.

Mas a família segue pressionando. Rachel fica histérica porque o discurso de Kym no ensaio foi autocentrado e pontuado de ironias e pedidos de desculpas. O pai (Bill Irwin em atuação perfeita, sempre um passo atrás da intenção dos outros) tenta acalmar a situação, mas Rachel está em pleno acerto de contas e, em meio a ele, surpreende ao estabelecer nova vantagem sobre a irmã problemática: revela estar grávida. O pai será avô, fica enternecido; Kym fica furiosa, com razão. Todo o filme gira sobre a incapacidade de Kym atentar efetivamente ao que ocorre a seu redor, ela passa pelas coisas e não interfere, pois está inteiramente voltada para dentro de si mesma, no trabalho de Sísifo de “viver mais um dia” sem usar drogas. O que todos querem que ela consiga é, paradoxalmente, combatido pelos familiares. O papel de Kym é complicadíssimo. E Anne Hathaway é digna dele. Porém o time de atores é parelho. É impressionante a cena em que Rachel (a excelente Rosemarie DeWitt) negocia os lugares na mesa. Ela deseja ver Kym longe, em outra mesa. O rosto de Rachel, ao defender sua formação de mesa é exatamente o rosto que vi numa mulher quando falava sobre a parte monetária de sua separação: com o mesmo esgar, o mesmo sorriso cristalizado com olhos sérios, Rachel naquele momento é pura maldade e atenção. E Kym reage. Ou seja, o filme é um abrir feridas sem fim, quando tudo o que Kym deseja é fechá-las.

E é para entender o que lhe aconteceu que ela visita a mãe (Debra Winger). Ela quer fazer A Pergunta: por que foi deixada cuidando do irmão menor Ethan quando a mãe a sabia uma louca 100% drogada? Como resposta, recebe um tapa na cara de significado muito claro: “fique com sua culpa e seus problemas, não piore minha vida”.

O que impressiona no filme é que as cenas improvisadas empurram a narrativa, alterando-a e enriquecendo a realidade de forma arrebatadora. Várias vezes Anne Hathaway aparece em sua imensa solidão. Num determinado momento ela deseja dançar, mas dá a impressão que tem medo de soltar-se. Começa e para, recomeça e vai fazer outra coisa. A presença de músicos ensaiando e improvisando dá a senha e a dimensão da enorme (e perigosa) liberdade dada aos atores.

O filme é finalizado com coerência: o pai aparece com uma conviva e a apresenta a Kym, que ouve uma proposta de emprego. Ela não recusa, mas no outro dia retorna à clínica. Pois se Kym sabe que não quer um deus que possa perdoar seus atos, sabe também que ainda não é possível viver com sua família e amigos.

Demme não nega que suas maiores influências para a realização de O casamento de Rachel foram Robert Altman e o pessoal do Dogma 95. É flagrante. Eu acrescentaria que há um perfume, uma música, um ritmo de Tchékhov neste grande filme sem solução.

Jonathan Demme (1944-2017)

Jonathan Demme (1944-2017)

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Tô dizendo…

O super-gremista Mauro Messina, sócio do melhor sebo de Porto Alegre, o Ladeira Livros, ficou muito mal após a eliminação do Grêmio no Campeonato Gaúcho. Está agindo estranhamente. Imaginem que ele me mandou a foto abaixo, dizendo: “Parecem tu e a Elena”. Só que são Arthur Miller e Marilyn Monroe.

Mauro, foi só um jogo de futebol. Outras vitórias virão e, com elas, a recuperação. Afinal, vocês são imortais, lembra?

(E, incrivelmente, a Elena não sabe andar de bicicleta…).

Arthur Miller Marilyn Monroe

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