Darwin, Dickens e Thomas Mann só trabalhavam quatro horas por dia

Nota do blogueiro: É uma pena não ser criativo como esses caras. Se fosse, saberia como viver.

De Carey Dunne, traduzido resumidamente por mim. Retirado daqui.

De acordo com um crescente movimento contra a postura workaholic, a chave para uma maior produtividade poderia ser trabalhar menos horas. A obra Em descanso: Por que você produz mais quando trabalha menos, do consultor Alex Soojung-Kim Pang, defende uma jornada de trabalho de quatro horas. “Décadas de pesquisa demonstram que a correlação entre o número de horas trabalhadas e a produtividade é muito fraca”, diz Pang, um estudioso visitante da Universidade de Stanford e fundador da Restful Company.

Um estudo do Instituto de Tecnologia de Illinois, ainda na década de 1950, descobriu que os cientistas que trabalhavam 35 horas por semana eram menos produtivos do que seus colegas de 20 horas por semana, enquanto que os trabalhadores que suavam 60 horas eram os menos produtivos de todos. Pesquisas mais recentes concordam.

“Algumas empresas, incluindo a Tower Paddle Boards, bem como muitas empresas na Escandinávia, descobriram que seus negócios cresceram — e a satisfação dos funcionários aumentou — depois de cortar as horas de trabalho dos funcionários”, diz Pang.

As rotinas diárias de alguns dos pensadores mais influentes da história também apoiam a noção de que estar descansado é crucial. “Quando você examina as vidas das figuras mais criativas da história, você se confronta com um paradoxo: eles organizam suas vidas em torno de seu trabalho, mas não seus dias”, escreve Pang.

O País da Cocanha, tela de Pieter Bruegel

O País da Cocanha, tela de Pieter Bruegel

Pelos padrões de hoje, o ritmo do naturalista britânico Charles Darwin e do escritor Charles Dickens era digno de vadios ou, no mínimo, de gente preguiçosa. Eles trabalhavam apenas de quatro a cinco horas por dia. O mesmo faziam os escritores Alice Munro, Gabriel García Márquez, W. Somerset Maugham, Anthony Trollope e Peter Carey, o cientista John Lubbock, o diretor Ingmar Bergman, o artista Arthur Koestler e o matemático Henri Poincare. “As horas que esses luminares gastavam em descanso deliberado”, Pang afirma, “eram tão importantes para seu trabalho como o tempo gasto realmente trabalhando. Quando paramos e descansamos adequadamente estamos investindo em criatividade”.

Enquanto muita gente queima pestana até tarde, as rotinas diárias desses escritores, matemáticos e cientistas deveriam encorajar você a deixar o trabalho mais cedo e descansar um pouco.

Em seus 73 anos, Charles Darwin conseguiu publicar 19 livros. Seu último, A Origem das Espécies, é possivelmente o volume mais influente na história da ciência. O tempo que Darwin passou fazendo trabalho científico — teorização, escrita e experimentação — geralmente consistia em apenas três períodos de 90 minutos por dia. Depois de uma curta caminhada matutina e café da manhã, Darwin trabalhava das 8h às 9h30, momento em que ele fazia uma pausa para ler, escrever cartas e ouvir um romance sendo lido em voz alta. Às 10h30, ele retornava ao trabalho e parava ao meio-dia para uma caminhada curta por Sandwalk, um local de Down, perto de Londres. Depois do almoço, mais cartas, uma sesta de uma hora e um lanche. Ele apenas retornava ao escritório entre às 16h às 17h30. Depois, convivia com a família e jantava.

“Se Darwin quisesse assumir um cargo numa universidade atual, jamais seria aceito”, escreve Pang. “Se ele estivesse trabalhando em uma empresa, seria demitido em uma semana.”

G.H. Hardy, um dos principais matemáticos da Grã-Bretanha no início do século XX, iniciava seu dia com café e uma leitura atenta das páginas de esportes dos jornais. Depois se concentrava na matemática das 9h às 13h. Jogos de tênis e longas caminhadas enchiam suas tardes. “Quatro horas de trabalho criativo por dia são o limite para um matemático”, defendia ele, de acordo com Pang. Um colaborador próximo de Hardy, John Edensor Littlewood, concorda, dizendo que a concentração necessária para fazer um trabalho sério era de “quatro horas por dia ou no máximo cinco, com pausas a cada hora”.

Depois de uma juventude notívaga, Charles Dickens, autor de mais de uma dúzia de romances, adotou uma programação chamada por ele de “metódica e ordenada”. Das 9h às 14h, ele escrevia em absoluto silêncio, Depois, almoço, diversão e nada de escrever.

O escritor alemão e prêmio Nobel Thomas Mann, que publicou o aclamado romance Buddenbrooks aos 25 anos, fechava-se em seu escritório diariamente das 9h até às 13h para trabalhar em romances. “Escrevo duas páginas por dia, não menos, não muito mais”. Após às 13h, só leitura, correspondência e passeios”, escreveu Mann. À noite, não todos os dias, ele passava mais uma hora revisando a produção matinal.

Em uma entrevista de 1984 para a The Paris Review, a escritora irlandesa Edna O’Brien falou sobre sua rotina diária de quatro horas de escrita: “Eu me levanto pela manhã, tomo uma xícara de chá e entro nesta sala para trabalhar. Nunca saio para almoçar ao meio-dia, nunca, mas eu paro em torno das 13h e 14h. No resto da tarde, dedico-me a coisas mundanas. À noite, eu leio, vou a uma peça de teatro ou a um cinema ou visito meus filhos. Nunca trabalho à noite.

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Em ano cheio de feriadões, prepare-se para três consecutivos em abril

Esqueçamos por ora do Carnaval, do governo Temer, do Jucá, dos Renans, Maias e Sartoris. Façamos uma pausa na discussão destas Reformas obscenas.

O fato é que este primeiro semestre traz ainda quatro datas que permitem feriadão. E que vão ocorrer logo! O mês de abril terá três finais de semana seguidos com feriados prolongados, levando-se me conta o primeiro de maio.

As folgas consecutivas começam no dia 14 de abril, sexta-feira, quando se celebra a Paixão de Cristo. Exatamente uma semana depois, no dia 21 de abril, obviamente também numa sexta-feira, o calendário traz o feriado de Tiradentes. Mas há mais: o sábado e o domingo seguintes — 29 e 30 de abril — se unem miraculosamente à segunda-feira em que se comemora o Dia do Trabalhador. Um feriado religioso; outro histórico-político e um terceiro cheio de justiça e razão.

Fechando o semestre, haverá mais um feriado chega para animar a festa. Seja lá o que for, teremos a celebração católica de Corpus Christi (sempre uma quinta-feira) em 15 de junho. É um feriado opcional, mas não queremos nem saber.

No segundo semestre, há várias quintas-feiras que serão feriados. Ou seja, haverá todo um leque de possibilidades de folga.

Feriados em 2017

Confira abaixo feriados e pontos facultativos de 2017 a partir de abril:

  • 14 de abril (SEX):
    Paixão de Cristo (feriado nacional)
  • 21 de abril (SEX):
    Tiradentes (feriado nacional)
  • 1º de maio (SEG):
    Dia Mundial do Trabalhador (feriado nacional)
  • 15 de junho (QUI):
    Corpus Christi (ponto facultativo)
  • 7 de setembro* (QUI):
    Independência do Brasil (feriado nacional)
  • 12 de outubro (QUI):
    Nossa Senhora Aparecida (feriado nacional)
  • 2 de novembro (QUI):
    Finados (feriado nacional)
  • 15 de novembro (QUA):
    Proclamação da República (feriado nacional)
  • 25 de dezembro (SEG):
    Natal (feriado nacional)

feriado

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A Playboy ainda existe e até cria uma marolinha de confusão

Eu nem sabia que a revista Playboy ainda existia. Então, quando surgiu a notícia de que eles colocariam uma gorda na capa, fiquei sem entender se era um relançamento em forma de paródia ou a própria revista. Sim, porque os padrões de beleza das revistas e da TV ignoram totalmente as mulheres acima do peso. E há lindas. Então, achei divertido que a certamente combalida Playboy fosse na direção contrária ao convencional corpo de modelo e também do horrendo — na minha opinião — padrão fitness. Mas o que não entendi mesmo foi o coral daquelas mesmas pessoas que antes reclamavam da objetificação deste gênero de publicações: agora o coro dizia a moça arrasaria, que ia se empoderar. Ri e esqueci da conversa.

Só que a revista recuou e colocou a plus size — termo aparentemente aceitável pelo politicamente correto — apenas na capa da edição digital… Exposta nas bancas, pode-se ver a habitual magra sem graça, fato que chocou a turma que estava aplaudindo e recolocou a revista na posição anterior de objetificadora e machista. Eu achei uma sacanagem com a Fúlvia Lacerda.

Então, quem procurava por isso nas bancas,

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encontrou isso.

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Ri novamente. Um jornalista escreveu: “A gorda é pra sair escondido. A de andar de mãos dadas na rua é a magra. A Playboy só reforçou isso”

De minha parte, digo apenas que as fotos da magrelinha fitness me faria procurar os artigos preenchidos por letrinhas na revista. Deve ter, né? Afinal, próximo do traseiro da menina, logo abaixo da envergonhada menção à Fúlvia, está anunciada uma entrevista com o ex-Secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Talvez seja interessante.

 

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Por um Judiciário menos desafinado!

clipboard01Ai ai que bom,
o Judiciário existe;
lutar, vencer,
é por você
que a gente persiste

É de chorar de rir a hiperkitsch auto-homenagem que servidores e magistrados do Tribunal de Justiça de Sergipe cometeu. Eu estava ouvindo o clipe e, ao mesmo tempo que ria, baixava o som para que as pessoas que moram comigo não ouvissem os disparates. Pois há a desafinação e há a letra… A canção que serve de base é We Are The World, sucesso de promoção de bons sentimentos gravado nos anos 1980 por um grupo norte-americano de estrelas pop. A autoria do original é de Lionel Richie. Esperamos que ele não tenha ouvido o desastre. A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Sergipe apressou-se a informar que a gravação do vídeo não teve nenhum custo aos cofres públicos e que, bem, ele foi exibido durante um Encontro de Planejamento Estratégico, em agosto.

Viram? Muitas metas a cumprir causam estresse e podem resultar nisso.

Charlles Campos completa: Devia se fazer um vídeo de resposta por parte da população carcerária, que tem suas penas vencidas mas que continua presa, e todos os querelantes que aguardam anos seus processos parados na mesa dos juízes da comarca. Sugiro uma adaptação de “I have a dream”, do Abba.

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Concerto da Ospa tem desnecessários insultos de cunho sexista

Carla Cottini

Carla Cottini

É claro que Carla Cottini é bonita e eu estou longe de ser insensível à beleza das mulheres, só que há limites para as expressões de admiração, ainda mais dentro de um teatro. Quem chama de gostosa na rua ou assobia, na verdade está proferindo um insulto. Não tem graça, não aproxima, não nada, é pura ofensa, é dizer e sair correndo. Dia desses, uma colega reclamou que, toda vez que come um picolé na rua, ouve as óbvias grosserias associadas ao ato de lamber. Chamar de gostosa num momento íntimo é uma coisa, ser chamada de gostosa por desconhecidos é outra. É a falsa cantada que revela não somente descontrole e impaciência, mas também desinteresse real, agressividade, frustração e raiva por não poder meter a mão. E não pode mesmo, meu amigo. Acreditava que tudo isto estava claro, ainda mais para uma plateia que vai ver uma Cortina Lírica no Theatro São Pedro.

Pois ontem o soprano Carla Cottini apresentou-se no velho teatro com a Ospa. Linda, num raro vestido de bom gosto, ela ia mostrar sua arte e oferecer sua voz, não seu corpo. (Explico o “raro”: as divas costumam exagerar e ultrapassar por metros a linha da elegância. Ela não.) Mas recebeu assobios de significado inequívoco em sua primeira entrada e, depois, quando concentrava-se para soltar a voz, um espectador atroz largou um suspiro daqueles bem vulgares e inoportunos. Carla respondeu com um sorrisinho sem graça e tratou de ser profissional. Conseguiu.

Intermezzo: O público do Theatro São Pedro é de contumaz baixo nível. Aplaude entre os movimentos, faz comentários em voz audível, etc. É bem diferente do que acontece na Ufrgs. Fim do intermezzo.

Para mim, é um prazer ver uma bela mulher, ainda mais quando canta maravilhosamente como Carla. Também é um prazer ver qualquer um ou uma cantando maravilhosamente, mas confesso preferir o primeiro caso. Porém, quando um machinho imbecil assobia ou faz sons pseudo-sensuais em pleno teatro, não é engraçado e ainda faz com que todo fascínio caia escada abaixo. É bagaceiro, nada tem a ver com a arte. Agora, meu amigo, se tu precisas mesmo homenagear a moça, há bons banheiros no Theatro São Pedro e eles aceitariam silenciosamente tua masturbação. E seria menos escroto.

.oOo.

O clarinetista da Ospa Augusto Maurer, presente no concerto, já tinha escrito o mesmo em seu perfil do Facebook:

Sabem quando se sente vergonha alheia? Como ontem, no apupo à soprano por parte de um engraçadinho na cortina lírica da OSPA no Theatro São Pedro.

Só hoje li, ao arquivar o programa (pois presto pouca atenção a currículos artísticos, facilmente maquiáveis), que a moça, assídua solista nas raras casas de ópera nacionais, estudou canto na Espanha e também tem formação em artes cênicas, ballet clássico e jazz. Juro que não sabia onde me esconder. Orgulho de ser gaúcho.

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O Juramento de Hipócrates

Há muitas versões, mas esta é a utilizada atualmente. É a Formulação de Genebra, adotada pela Associação Médica Mundial, em 1983. Leia abaixo o Juramento, mas principalmente a frase em negrito:
simers

Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade.

Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.

Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.

A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação.

Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado.

Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.

Os meus Colegas serão meus irmãos.

Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.

Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.

Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.

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Em razão do impacto ambiental, cidade alemã bane o café em cápsula

Roubado daqui.
cafe 1

No princípio dos tempos era um inferno fazer café. Você era obrigado a usar coador de pano, um troço nojento que vinha em duas opções: sabor de 10 mil gerações de bactérias proliferando naquele pano de chão marrom, ou sabor de sabão, pois era impossível lavar direito.

Pra piorar você ainda tinha que esperar a água ferver e então despejar com precisão cirúrgica a água quente, mexendo o pó no fundo pra água não minar pelos lados e seu café virar água suja. A chegada da cafeteira elétrica e do coador de papel trouxe civilização ao café, mas os hipsters sedentários acham isso complicado demais, e inventaram isto:

cafe 2

Convenhamos, se o marido da dona Amal recomenda não pode ser coisa ruim.

É bem prático, admito, mas quem bebe café em quantidade industrial como eu se ressente de pagar R$ 2,00 por um cafezinho. EM CASA. E tem outro problema: essas cápsulas são um inferno pro pessoal da reciclagem. Manja quando mandam separar papel, metal e material orgânico? Uma cápsula dessas, com plástico, alumínio, papel e café usado é a amálgama de tudo que precisa ser separado.

Não existe ainda método prático para reciclar essas cápsulas, que estão se acumulando nos lixões. São 6 gramas de café para cada 3 gramas de cápsula, que nem biodegradável é. A situação é tão punk que John Sylvan, inventor da cápsula de café se arrependeu de sua criação, e nem tem uma cafeteira dessas em casa, diz que sai “meio caro”.

cafe 3

As pessoas têm consciência do impacto ambiental das cápsulas, mas elas são terrivelmente práticas: espere sentado se acha que alguém vai se coçar e voltar a usar filtro de papel, como um selvagem.

A atitude desta vez está vindo de cima para baixo: a cidade de Hamburgo votou por banir cafeteiras de cápsulas em todos os prédios públicos. É um começo, uma excelente atitude que tem o bônus de irritar um monte de hipsters. Deveria ser imitada por muito mais governos e empresas. Eu sou o último a fazer discurso de ecochato, mas quando o dano é evidente, fica difícil não concordar.

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O beijo na boca é universal?

Romeu – Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
Julieta – Que passaram, assim, para meus lábios.
Romeu – Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
Julieta – Beijais tal qual os sábios.

WILLIAM SHAKESPEARE — Romeu e Julieta, ato I, cena V.

beijo na boca

Estudo prova que o beijo na boca é usado em menos de metade das sociedades humanas.

A sugestão de que o beijo no lábios era uma fonte de prazer universal para os humanos era recorrente. Afinal de contas, os chimpanzés e os bonobos fazem-no, e até abrem a boca e usam a língua. Mas não é verdade. Um estudo de William Jankowiak e Justin R. Garcia, publicado em julho de 2015, mostra que esse gesto apenas se encontra em menos de metade (46%) das 168 culturas estudadas pelos autores. Pelo contrário, outros tipos de beijos são usados por 90% das populações.

Parece haver alguns padrões para esta diferença. Por exemplo, em sociedades com diferentes classes sociais o beijo na boca costuma ser usado, mas em sociedades, como de caçadores, com pouca ou nenhuma estratificação social, não é comum. Isso demonstra que o beijo nos lábios é uma forma de demonstração de carinho muito culturalmente variável.

Por outro lado, como as tribos de caçadores costumam ser usadas como espelho das sociedades passadas, parece ser razoável, defendem os autores, que o beijo “romântico” tenha surgido numa altura relativamente recente da história humana. Uma exceção a esta conclusão dos autores do estudo é que em nove das onze comunidades do Círculo Polar Ártico as pessoas beijam-se.

A origem, ou origens, evolutivas dos beijos são desconhecidas. Os autores falam tanto em teste de saúde de potenciais parceiros através do paladar ou, simplesmente, para testar o interesse romântico e compatibilidade sexual entre potenciais parceiros.

A referência mais antiga a um beijo na boca é numa escritura em sânscrito com 3.500 anos chamada Vedas. Jankowiak e Garcia descrevem, num artigo no portal Sapiens, que quando as tribos Thonga da África do Sul ou os Mehinku na Amazônia viram pela primeira vez dois europeus beijando-se, reagiram com repugnância perante comportamento tão nojento.

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Designer cria vibrador em que é possível guardar cinzas do falecido

Uma empresa de design criou um vibrador especial em que é possível guardar as cinzas do falecido. Além disso, o produto criado pelo designer holandês Mark Sturkenboom, inclui um compartimento para guardar iPhone e um difusor de aroma. O produto recebeu o nome de “21 Gramas”, já que é possível armazenar até 21 gramas de cinzas. A caixa na qual vem o vibrador é feita de madeira e polida à mão. Ela conta como uma chave banhada a ouro, que pode ainda ser usada como um colar.

“21 Gramas é uma caixa de memória que permite que uma viúva resgate as memórias íntimas de um falecido querido”, explicou Sturkenboom, que exibiu essa e outras criações na Semana de Design de Milão, na Itália.

vibrador cinzas falecido

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Um leigo lendo sobre assédio moral

Por pura curiosidade (ou necessidade interna), eu, que gosto de ler só ficção ou ensaios sobre ficção, comecei a ler livros e publicações sobre dois outros assuntos: psicopatia e assédio moral. Procurei tanto livros quanto publicações esparsas na internet. Bem, psicopatia é uma coisa e assédio moral é outra. As duas coisas normalmente não estão misturadas e não sou vítima em nenhum dos casos, apenas observo coisas. É claro que eu li textos para não especialistas, mas escritos por gente que trabalha com isso. A coisa virou mania e eu pensava a cada manhã: hoje é assédio ou psicopatia?

Hoje vou de assédio.

Assedio Moral

A discussão sobre assédio moral está chegando com força no âmbito do serviço público e há de se espraiar. O assédio moral é uma coisa que se naturaliza e permanece. É uma forma de violência continuada que consiste na exposição da pessoa a situações constrangedoras e humilhantes, praticadas por uma ou mais pessoas. O comportamento do assediador tem o objetivo de deixar rente ao chão a auto-estima da vítima. Pouco ou nada do que ela faz presta. Ela é ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada, amedrontada, punida, ofendida ou desestabilizada emocionalmente. Sua saúde física e psicológica é colocada em risco, além de ver afetado, é claro, seu desempenho. Por iniciativa do chefe ou de um grupo, normalmente o ambiente se torna um “todos contra um” e o empregador ou seu representante costuma reforçar a pressão com uma bela lógica: Veja bem, se todos estão contra ti, quem está errado?

Obviamente, a vítima fica na dúvida se o problema não será ela. Será que eu atraio este tipo de coisa? Ou será que tudo não é paranoia minha e o que está acontecendo é normal?

O assédio por parte da chefia pode assumir a forma de gritos e humilhações públicas, enquanto que o do grupo aposta mais na propagação de boatos, isolamento, recusa de comunicações, fofocas e exclusão social. O processo é repetitivo e prolongado, minando resistências.

O objetivo é o de pressionar tanto que o assediado acaba por pedir demissão. Muitas vezes o coitado acaba por ser transferido. Porém, no serviço público, do qual não vai se demitir por ter estabilidade e uma melhor aposentadoria, a vítima costuma cair na passividade, ilhada em condições de humilhação e constrangimento. E sofre psicologicamente, muitas vezes deprimindo-se e adoecendo. Então, seus atestados médicos geram desconfiança e… maior assédio.

Às vezes, a própria organização incentiva ou tolera tais ocorrências por achar que vão aumentar a competitividade e produtividade, sendo sinal do tesão do grupo. Em organizações mais avançadas, são motivo de demissão por justa causa.

O assédio nem sempre é intencional. As práticas podem ocorrem com os agressores ignorando que os abusos são uma forma de violência psicológica. Isso não retira a gravidade do assédio moral e dos danos causados às pessoas, que devem procurar ajuda psicológica e/ou jurídica para fazer cessar o problema.

As vítimas de assédio moral não são necessariamente pessoas frágeis ou que apresentem qualquer transtorno. Muitas vezes elas têm características percebidas pelo agressor como ameaçadoras. Uma melhor formação causa inveja. A capacidade crítica também é ameaça — caso tipico: suas sugestões para melhorias no trabalho são primeiro rejeitadas como piadas e depois adotadas como ideias de outrem ou do grupo. As mulheres mais criativas estão dentre os alvos preferidos. Se forem negras ou estrangeiras, pior. Claro, as vítimas habitualmente são de grupos já discriminados na rua: mulheres, homossexuais, pessoas com deficiências, idosos, minorias étnicas.

Mas, como desgraça pouca é bobagem, criatividade e informação costumam estar presentes no perfil da pessoa que reage ao autoritarismo. E o grupo costuma tratar disso.

assedio moral pesadelo

Abaixo, deixo pra vocês a definição de assédio moral retirada de uma cartilha preparada pela ANDES/UFRGS. “Segundo constatação dos estudiosos do tema, há um perfil das vítimas muito marcante: são pessoas que resistem às investidas dos chefes, trabalham mesmo doentes, são capazes e criativas, e em sua maioria mulheres”:

“Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, frequentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o ‘pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo, enquanto a vítima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, ‘perdendo’ sua autoestima”.

O documentário abaixo, A dor (in)visível – Assédio Moral no Trabalho, é uma produção do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul (MPT-RS) – Procuradoria do Trabalho no Município (PTM) de Caxias do Sul; do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) em Caxias do Sul; e do Governo Federal.

E é muito ilustrativo.

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Carnaval em Salvador: dez minutos é o tempo para uma rapidinha privê nas alturas

capsula-durexVocês querem dar uma “rapidinha” no carnaval baiano? Isso será possível no Camarote Salvador. A marca de camisinhas Durex montará uma cápsula privê suspensa a 15 metros do chão onde os casais, quaisquer duplas, poderão entrar. A cápsula estará bem em cima do povão. Lá, será possível fazer de tudo, mas em 10 minutos. Esse é o tempo que cada casal terá dentro da cápsula. Melhor entrar preparado para não ser expulso no seco.

Camisinhas e lubrificantes estarão à disposição dos usuários, dentro da cápsula. Ela já foi testada no Rio em fevereiro de 2014, no Aterro do Flamengo, mas acabou sendo cancelada por falta de alvará.

A coisa começa nessa quinta-feira (12). O blog abstém-se de emitir opinião.

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A tragédia do Sistema Cantareira: mas não era para sermos o celeiro de água do mundo?

Fico fascinado pelo provável fim do Sistema Cantareira. Mesmo sendo ignorante no assunto, busco informações diariamente. Trata-se de um gênero de tragédia que infelizmente deverá tornar-se comum nos próximos anos. Como o fazer político é cada vez mais campo de empresários e religiosos com uma minoria de quixotes, não vejo como escapar de uma sucessão de tragédias como essa do Cantareira.

Acompanhar o dia-a-dia do Sistema Cantareira é como acompanhar a marcha do placar de um jogo com atualizações on-line. O jogo parece previamente perdido, mas a atração que sinto por observar a decadência da coisa faz-me permanecer atento. Claro que não é uma questão pessoal. São Paulo viverá um cenário de enorme privação, dependente da vazão natural da água, sem reservas, o que fará com que o abastecimento de água ocorra, quem sabe, duas ou três vezes por semana, em horários limitados. E o atual sistema era para atender a 8 milhões de seres humanos.

Entendam, neste cenário, que não está muito longe de ocorrer, a população só será atendida se chover, já que não haverá água nos reservatórios. Como está agora, a matemática reencher o Cantareira e evitar situações extremas não é simples. Depende de chuvas muito acima da média, o que não deverá acontecer devido ao desmatamento, e diminuição do consumo. Não é nada divertido.

Toda esta situação crítica ocorre justamente na maior cidade do país que é — é ainda? — o maior manancial e celeiro de água do mundo. Os políticos, a grande imprensa e o Ministério da Agricultura não gostam de falar nisso, mas o caso do Cantareira é filho do desmatamento.

Existe uma relação entre as árvores, quaisquer árvores, com as chuvas. Basta ver que a mata que ronda Bombinhas, onde estou, gera chuvas diárias. Pouca gente lembra disso. As matas, a arborização urbana ou mesmo as plantas de jardim podem ajudar a aumentar a umidade da atmosfera, gerar nuvens de chuva, reduzir a irritação da poeira no ar e ainda diminuir o calor. E o que ronda o Cantareira é o desmatamento.

Os primeiros lances demonstram o desespero da Sabesp e a estupidez dos políticos. Eles querem apenas a diminuição do consumo, como se isso fosse resolver o problema. Na causa do mesmo, todos evitam falar. A partir da conta de fevereiro, serão cobrados 40% de multa para quem consumir até 20% a mais do que a média entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014. E quem ultrapassar 20% dessa média será multado em 100% sobre o gasto com água, o que representará metade de uma conta certamente alta.

Ampliar a produção de água de outros sistemas, como o do Billings e outros, são alternativas apenas viáveis, segundo os especialistas, a médio ou longo prazo, pois eles não foram projetados para demandas tão altas. Como o Cantareira atende a 8 milhões de pessoas, seria necessária fazer a ampliação dos sistemas existentes além de novas estações de tratamento. São coisas demoradas. Uma alternativa seria a de lançar água não tratada na rede, mas isso poderia contaminar os usuários. Seria água não potável, já pensaram?

Tem gente que fala em êxodo da população da cidade, como num filme americano de bomba nuclear, mas como isso ocorreria? Não sei.

Da raiz do problema — o desmatamento, o descontrole e desrespeito ecológico –, quase ninguém fala. Parece que a culpa é apenas das chuvas e estas são mandadas (ou não) aleatoriamente, por São Pedro.

cantareira

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Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas

Moyenne Island Seychelles

Moyenne Island Seychelles

As Ilhas Seychelles estão perdidas no meio do Oceano Índico. Antigamente, eram muito visitadas por piratas. Não há nada próximo. A Moyenne é uma pequena ilha do arquipélago. Tem 9 hectares e fica ao lado da maior das ilhas. De 1915 até os anos 70, o local ficou abandonado, até sua compra por parte de Brendon Grimshaw, um bem-sucedido editor de um jornal de Yorkshire, Inglaterra. O que havia na ilha? Nada nem ninguém.

Até sua morte, em julho de 2012, aos 87 anos, Grimshaw foi o único habitante da Moyenne. Ele comprou a ilha por £8.000 em 1962 e, poucos anos depois, começou a fazê-la habitável. A obra foi feita pelo ex-editor com a ajuda de um local, Rene Antoine Lafortune. Após a primeira ajeitada, eles passaram a cobrar o correspondente a 12 euros por visita, o que daria aos visitantes a chance de vagar pela ilha, jantar com Brendon e relaxar na praia.

Enquanto isso, Grimshaw e seu amigo plantavam dezesseis mil árvores, abriam 3 Km de trilhas naturais, traziam e criavam tartarugas gigantes. Fizeram tudo sozinhos. Também deram respeitosa direção à incrível variedade de vida vegetal e de pássaros naturais da região. A tartaruga mais velha das atuais 120 chama-se Desmond e tinha 76 anos de idade, de acordo com Grimshaw em 2012. Ele a chamava de seu afiliado.

Hoje, a ilha vale 34 milhões de euros. Para melhorar, Grimshaw fez duas grandes escavações e encontrou indícios de esconderijos de piratas, mas nada de ouro. Atualmente, a Moyenne é um Parque Nacional e pode ser visitada como parte de viagens organizadas.

Pois é, após 20 anos de persistência, Grimshaw e seu assistente alcançaram seu objetivo de fazer Moyenne um Parque Nacional, agora conhecido como o Parque Nacional de Ilha Moyenne. Ele abriga mais espécies por metro quadrado do que qualquer outra parte do mundo. A ilha está a 4,5 quilômetros de distância da principal ilha.

Dizia Grimshaw: “Lentamente, as árvores cresceram e consegui água, luz e um cabo de telefone. No começo, nós não estávamos fazendo isso para tornar a ilha em um parque nacional ou qualquer coisa assim. Nós estávamos fazendo isso para torná-lo habitável para mim. Desde o momento em que pus os pés na ilha, sabia que era o lugar certo para eu morar”.

Brendon não foi um recluso. Ele adorava os visitantes e lamentava não ter casado. “Como eu poderia pedir a alguém para viver aqui? Nós não tivemos água corrente durante anos!”.

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Brendon e Rene

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Sobre o caso Idelber Avelar, o recado de um escaldado

Fazer o quê? Não resisti à imagem de um pinto triste

Fazer o quê? Não resisti à imagem de um pinto triste

Quando, avisado por um amigo, li o post de Lola Aronovich, fiquei estupefato e estupefato. Estupefato pelo conteúdo que é, no mínimo, altamente privado, e estupefato pela tolice de Lola. Pensei imediatamente nos malefícios da vaidade e no amor aos cliques da paladina. Pois aquilo, na minha opinião, foi um impulso bobo em busca de uma fama que apenas a levará ao pagamento de uma bela indenização. E o pior é que ela, desculpando-se e lamentando falsamente o desassossego que causava a seus leitores, ainda escreveu mais dois ou três posts a respeito do caso. E ainda não os deletou…

Tenho certa experiência nesta coisa de blogs x justiça. Certa vez, ofendi a escritora Letícia Wierzchowski em uma crítica a uma coluna que ela publicou em ZH. Fui processado por ela. Nos primeiros dias, cheio de razão, fiquei indignado, mas logo depois meu travesseiro começou a me dizer umas coisas estranhas e convenci-me de que, bem, ela tinha toda razão em ofender-se. Por um milagre, semanas depois, ela propôs retirar a ação, desde que eu sumisse com os textos. Aceitei imediatamente. Pura sorte, porque iria bailar muitíssimas canções polonesas na justa.

Depois fui processado pela atual vereadora Mônica Leal e, não obstante tivesse boa dose de razão, fui condenado. Paguei a ela um valor bem alto para um pelado como eu. Não pretendia pagar, mas até o inventário da minha mãe estava embargado…

Fico pasmo que Lola, as(os) autora(es) daquele blog O estranho caso do prof. e outros que se manifestaram em termos definitivos de condenação de um “poderoso machista manipulador” — prevendo até mesmo o final da carreira acadêmica de Idelber — não tenham se dado conta de que uma pessoa que não tenha agredido nem forçado fisicamente suas parceiras, não é um criminoso, segundo nossa lei.

Eles terão que provar ou que houve crime em enviar privadamente mensagens e imagens pornográficas ou que Idelber manteve casos com menores. Se não comprovarem isso, melhor prepararem uma boa poupança. Sugiro que passem seus bens para amigos ou parentes. Essas pessoas necessitarão desfazer esta afirmativa do Idelber, feita hoje em seu perfil do Facebook — Sim, gosto de sexo. Sim, falo muito de e faço muito sexo. Com quatro regrinhas claras: consensualmente, com adultas, jamais com chefes ou subordinadas e em privacidade.

Algo me diz que não conseguirão. Várias(os) já estão chamando o professor de arrogante. Mas nenhum juiz condenará a possível arrogância de Idelber.

Finalizando, acho que o Idelber não tem nada a comemorar, nada mesmo, ele só perdeu; mas quem o ataca não tem noção das leis sob as quais vive. Na justiça, há que produzir provas, provas incontestáveis. Vejamos se aparecerão. Acreditem, aqueles prints não valem nada para efeito de justiça.

P.S. — A maioria de meus sete leitores sabem que sou amigo do Idelber. Ele esteve hospedado em minha casa com seus dois filhos e ninguém de minha família foi assediado. Foram três ou quatro excelentes dias. Nada de pintos.

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De como funciona o pacto da mediocridade e outros pactos

A experiência é real e foi conduzida por um cientista norte-americano chamado Harry F. Harlow (1905-1981). Achei fascinante.

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro colocaram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas.

Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água gelada nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas.

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Passado mais algum tempo, nenhum macaco tentava subir mais a escada, apesar de ser tentadora a visão da fruta predileta tão próxima dos olhos. Então, os mesmos cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que o pobre fez foi subir a escada para colher as belíssimas bananas, sendo retirado de lá imediatamente pelos outros, sob uma chuva de pancadas.

Depois de algumas surras, o novo integrante assimilou a ideia do grupo e não tentou mais subir a escada, apesar de continuar lambendo os beiços cá debaixo.

Um segundo macaco foi substituído, e o mesmo aconteceu, tendo o primeiro macaco substituído participado com alegria e entusiasmo do corretivo que o grupo impôs ao segundo novato.

Um terceiro macaco foi trocado, e repetiu-se o fato. E assim fizeram com o quarto, e finalmente com o quinto e último dos veteranos. Deste modo, todo o grupo foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:

“Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui.”

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Walk On The Wild Side

fazendo xixiO título da grande canção de Lou Reed talvez não tenha relação direta com meu assunto. Afinal, o livro de Nelson Algren que inspirou o filme e a canção é uma longa pergunta sobre o motivo que leva algumas pessoas sem rumo a tornarem-se mais humanas e interessantes do que os certinhos. Não vou analisar se eu e a Elena somos certinhos ou não, mas o fato é que nós fazemos algo docemente perigoso quase todas as noites. Quando é possível, a gente sai para caminhar. Simplesmente isso. E vamos aprendendo sobre a cidade.

Não chega a ser um passeio pelo lado selvagem, mas certamente é um passeio sem policiamento. O pessoal do roubo tem nos ignorado nas caminhadas pelo Bonfim e arredores. E têm razão, pois levamos apenas nossos corpos dentro de roupas mais ou menos velhas. Dia desses, fomos até o Garcias`s lá na Av. Praia de Belas, tomamos uma canja e retornamos. O Google Maps diz que foram 3 Km até lá. 6 ao todo. E fizemos tudo isso sem ver um guarda. Digo a vocês, meus queridos sete leitores, que só vi policiamento à noite em nossa cidade nos dias da Copa do Mundo. E lhes digo, quando ela está bem, não é possível impedir que a Elena saia para passear à noite. Ela adora e comecei a gostar também.

Outra coisa. A Elena passou anos andando pela cidade de carona. A vida sem carro é uma novidade para ela. E ela faz elogios à cidade. Quem nasceu aqui não a valoriza, mas ela garante que é uma bela cidade. Ao menos do ponto de vista visual, pois a parte olfativa não é muito boa. A esquina da Santo Antônio com a Irmão José Otão — sim, a Vasco muda de nome na João Telles — tem uma árvore ao lado de um ponto de táxi. A árvore serve como mictório do pessoal. Que tal colocar um banheiro químico ali, prefeito? No fim de semana, próximo ao Bar Beco, a Av. Independência também ostenta um indisfarçável cheiro de mijo. Como há enormes filas para entrar no bar, é óbvio que a garotada se alivia ali mesmo na calçada. O cheiro só fica melhor depois da chuva.

Bem, se fazer xixi a céu aberto é algo selvagem, caminhar nas ruas de Porto Alegre é mesmo Walk On The Wild Side.

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O sucesso estrondoso dos shows do Monty Python mostra que o humor ainda é feito de inteligência

Por Harold Von Kursk | No Diário do Centro do Mundo | A escolha dos esquetes foi do blogueiro

Nos anos 70, a série Monty Python Flying Circus ofereceu uma visão distorcida e absurda sobre o estado das coisas e rapidamente tornou-se um clássico cult. Os Pythons elaboraram um fluxo de consciência que criou momentos inesquecíveis de êxtase cômico. Qualquer busca rápida no YouTube vai encontrar clipes sublimes de seus melhores esquetes — a Loja de Queijos, o Ministério das Caminhadas Idiotas, a Canção do Lenhador, o Papagaio Morto etc.

Os Pythons são deuses imortais do riso. Eles levaram o humor a um estado de arte da mesma maneira que Jackson Pollock evoluiu do “gotejamento” para o expressionismo abstrato. Monty Python tornou-se um ponto de referência cultural, da mesma forma que iconoclastas como RD Laing, Louis Althusser, Albert Camus, Ali Farka Touré, Nina Simone, Andy Warhol, Pete Seeger. Ainda estão na vanguarda da nossa consciência depois de se separarem. O Monty Python foi originalmente concebido como um ataque frontal completo ao que era então conhecido, naquela era, como o “establishment”.

Como Timothy Leary, o professor de Harvard que se tornou um guru do LSD e aconselhou as pessoas a “se ligar, sintonizar e cair fora”, a gangue Python convidou-nos a olhar para a sociedade moderna como uma espécie de gigantesco hospício onde é difícil explicar por que é que nós fazemos o que fazemos. Tudo com inteligência e sem a vontade primeira de ofender, praga de 99% dos comediantes de hoje, que escondem sua falta de talento atrás do politicamente incorreto.

Este mês, os cinco Pythons restantes – John Cleese, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin e Terry Gilliam – estão se reunindo no palco da O2 Arena, em Londres, realizando seus primeiros shows ao vivo em mais de 40 anos. As cinco apresentações iniciais lotaram. Eles tiveram de marcar mais cinco (15, 16, 18, 19 e 20 de julho). O show do dia 20 será transmitido ao vivo para mais de 400 cinemas.

Os Pythons estão até mesmo invocando o fantasma de Graham Chapman (o rei Arthur de “Em Busca do Santo Graal”) através da holografia e convidaram a atriz Carol Cleveland, veterana do programa de TV, para a briga.

Há algo esplendidamente original sobre a marca Python na comédia. Em vez de tornar-se advogados, banqueiros ou burgueses gordos, o bando formado em Cambridge (Cleese, Chapman e Idle) e Oxford (Jones e Palin) desenvolveu uma filosofia em quadrinhos não ortodoxa e irreverente. Terry Gilliam foi o último a se unir ao grupo, um artista gráfico americano que criou o famoso pé roxo que esmagava as coisas na telinha e cujas imagens pop / psicodélicas acrescentaram uma dimensão extra à série (Gilliam viria a se tornar um diretor de cinema conhecido por “Brasil” e “Medo e Delírio em Las Vegas”).

O “Monty Python Flying Circus” passou na BBC entre 1969 e 1974. Seu humor era era tão surreal para os padrões normalmente sisudos que foi quase um milagre que eles atingissem um público de massa.

Os Pythons estavam à frente de seu tempo e ainda hoje o seu humor ressoa. Ninguém foi capaz de imitar ou capturar seu brilho. O Saturday Night Live chegou mais perto durante os anos dourados com Dan Aykroyd, John Belushi, Gilda Radner, Eddie Murphy e Bill Murray, mas não alçava vôos nas mesmas alturas.

O Monty Python capturou a desumanidade e a indecência da sociedade moderna. Odiavam a burocracia, a intolerância, o conformismo, o conservadorismo, a pompa, e o rolo compressor estéril de uma sociedade ocidental decadente que atropelava os valores humanos em prol do expansionismo corporativo. Em sua incursão no cinema, os Pythons amplificaram suas paródias macabras.

Quem pode esquecer quando o rei Arthur e seus seguidores se aproximam de um castelo para ser insultados, atormentados e perseguidos por guardas franceses arrogantes no filme “Em Busca do Santo Graal”? Pode haver algo mais insano do que a idéia de uma turma de cavaleiros gays desonestos e gigantes que habitam a floresta e que dizem “Ni”?

“A Vida de Brian”, que em seu lançamento foi denunciado por direitistas e teólogos, na verdade apresentou um retrato bastante preciso dos movimentos políticos da época. O filme segue um personagem fictício infeliz chamado Brian, que nasceu ao mesmo tempo em que Jesus e está, inadvertidamente, destinado a ser o messias. Recentemente, o Reverendo Professor Burridge, decano do King’s College de Londres, a quem o papa Francisco deu um prêmio por seus estudos, declarou que “a representação de movimentos messiânicos no filme, na Judeia do século I, ofereceu provavelmente um retrato mais preciso do contexto histórico do que muitos filmes de Hollywood sobre Jesus “.

Quem mais poderia encerrar o filme num clímax em que os revolucionários crucificados cantam e pedem para “sempre olhar para o lado mais alegre da vida?”

O mundo ama o Monty Python, tanto por sua capacidade de desafiar formas ortodoxas de pensar e de se comportar como por sua capacidade inigualável para celebrar as contradições fundamentais da existência. Com precisão cirúrgica, eles continuaram martelando nossos ossos até vermos como boa parte do que aceitamos como normal diariamente é de fato lixo absoluto.

Ao vivo, o Monty Python representa seus números clássicos com ajuda de telões e outros recursos modernos. Cantam e dançam. Está lá até o jogo de futebol de filósofos. A rigor, não há novidade. Mas essa é a sabedoria da trupe. Quem vai aos shows dos Rolling Stones esperando ouvir as canções do novo disco está no lugar errado. “O nosso grande problema agora é que a plateia conhece os scripts muito melhor do que nós”, disse John Cleese. No dia 20, o Monty Python estará definitivamente morto. Enterrado. Terá deixado de existir. Longa vida ao Monty Python.

O Monty Python, hoje

O Monty Python, hoje

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O lado de Woody Allen

Hoje, Allen tem 78 e Dylan 28.

A resposta de Woody Allen.

Depois de se pronunciar rapidamente contra as acusações de que teria molestado a filha adotiva, Dylan Farrow, Woody Allen falou novamente sobre o caso em uma carta publicada no jornal “The New York Times”.

Há 21 anos, quando eu ouvi pela primeira vez que Mia Farrow tinha me acusado de abuso sexual infantil, eu achei a ideia tão ridícula que eu não pensei duas vezes nisso. Estávamos envolvidos em um processo de separação terrivelmente amargo, com grande inimizade entre nós dois, e uma batalha pela custódia (dos filhos), lentamente reunindo forças. Sua maldade tão transparente me pareceu tão óbvia que eu sequer contratei um advogado para me defender. Foi o advogado que tratava dos meus trabalhos que me contou que ela estava levando a acusação à polícia e me disse que eu precisaria de um advogado criminal.

Eu ingenuamente achei que a acusação seria descartada porque, claro, eu não tinha molestado Dylan e qualquer pessoa racional iria ver a manobra para que eu fosse acusado. O bom senso iria prevalecer. Afinal, eu era um homem de 56 anos que nunca tinha sido (ou fui depois) acusado de abuso sexual infantil. Eu estava saindo com Mia por 12 anos e nunca, nesse meio tempo, ela sugeriu que eu tivesse qualquer coisa parecida com má conduta. Agora, de repente, quando eu tinha dirigido até sua casa em Connecticut em uma tarde para visitar as crianças por algumas horas, quando eu estaria jogando no campo do meu adversário feroz, com meia dúzia de pessoas presentes, quando eu estava nos felizes estágios iniciais de um novo relacionamento com a mulher com quem eu viria me casar – que eu escolheria este momento para embarcar numa carreira como molestador de crianças deveria parecer altamente improvável para uma mente mais cética. A pura falta de lógica de um cenário tão louco me pareceu que prescreveria.

Não obstante, Mia insistiu que eu tinha abusado de Dylan e a levou imediatamente a um médico para ser examinada. Dylan disse ao médico que ela não havia sido molestada. Mia então levou Dylan para tomar sorvete e, quando voltou, a criança tinha mudado sua história. A polícia começou sua investigação, uma possível denúncia pesou na balança. Eu, de bom grado, fiz um teste de detecção de mentiras e, claro, passei, porque eu não tinha nada a esconder. Pedi a Mia que fizesse o mesmo e ela não quis. Na semana passada, uma mulher chamada Stacey Nelkin, com quem eu tive um caso muitos anos atrás, foi à público para dizer que, quando eu e Mia tivemos nossa primeira batalha pela custódia, há 21 anos, ela queria que Stacey testemunhasse que ela era menor de idade quando nós saímos, apesar de isso não ser verdade. Stacey se recusou. Eu incluo esta anedota para que todos nós saibamos com que tipo de pessoa estamos lidando aqui. Dá para imaginar por que ela não quis passar por um detector de mentiras.

Nesse meio tempo, a polícia de Connecticut pediu ajuda de uma unidade especial de investigação especializada em casos do tipo, a clínica de abuso sexual infantil do Hospital Yale-New Haven. Esse grupo de homens e mulheres imparciais e experientes, a quem o promotor recorreu em busca de orientação quanto à possibilidade de abrir um processo, passou meses em uma investigação meticulosa, entrevistando todos os envolvidos e checando cada pedaço de evidência. Por fim, eles escreveram a conclusão que transcrevo aqui: “É nossa opinião, enquanto especialistas, que Dylan não foi molestada sexualmente pelo Sr. Allen. Além disso, acreditamos que as declarações de Dylan em vídeo e os depoimentos que ela nos deu durante nossas avaliações não se referem a fatos reais que teriam ocorrido no dia 4 de agosto de 1992… No desenvolvimento do nosso parecer, consideramos três hipóteses para explicar os depoimentos de Dylan. Em primeiro lugar, que as declarações de Dylan eram verdadeiras e que o Sr. Allen abusou sexualmente dela; em segundo, que o depoimento de Dylan não era verdadeiro, mas sim inventado por uma criança emocionalmente vulnerável, envolvida em uma família perturbada, em resposta a um ambiente estressante; e terceiro, que Dylan foi treinada ou influenciada por sua mãe, Sra. Farrow. Enquanto podemos concluir que Dylan não foi abusada sexualmente, não podemos definir se a segunda ou a terceira formulações são verdadeiras. Acreditamos que o mais provável é que a combinação dessas duas hipóteses explicam melhor as alegações de Dylan de abuso sexual”.

Poderia ser mais claro? Sr. Allen não molestou Dylan; provavelmente uma estressada criança de 7 anos foi orientada por Mia Farrow. Essa conclusão desapontou muita gente. O promotor esperava julgar o caso de uma celebridade e o juiz de custódia, Elliott Wilk, escreveu uma declaração muito irresponsável dizendo que, como se trata de abuso sexual, “nós provavelmente nunca saberemos o que aconteceu”.

Mas nós sabíamos, isso foi determinado e não havia equívoco sobre o fato de que nenhum abuso havia ocorrido. O juiz Wilk foi muito rude comigo e nunca aprovou meu relacionamento com Soon-Yi, filha adotiva de Mia, que estava com seus 20 e poucos anos. Ele me via como um homem mais velho explorando uma mulher muito mais nova, o que ultrajou Mia, a despeito do fato de ela ter tido um caso com um muito mais velho Frank Sinatra quando ela tinha 19. Para ser justo com o juiz Wilk, o público sentiu o mesmo desprezo sobre Soon-Yi e eu, mas apesar do que poderia parecer, nossos sentimentos eram autênticos e nós estamos muito bem casados há 16 anos com duas filhas maravilhosas, ambas adotadas (aliás, por causa do circo midiático e das falsas acusações, Soon-Yi e eu fomos cuidadosamente escrutinados tanto pela agência de adoção quanto pelos tribunais e todos abençoaram nossas adoções).

Mia ficou com a guarda das crianças e nós seguimos caminhos separados.

Eu estava com o coração partido. Moses estava com raiva de mim. Ronan eu mal conhecia porque Mia nunca me deixou chegar perto dele desde que ele nasceu e Dylan, que eu adorava e de quem eu era muito próximo, sobre quem Mia ligou para minha irmã num acesso de raiva e disse: “Ele tomou minha filha, agora eu vou tomar a dele”. Eu nunca mais a vi ou pude falar com ela, não importava o quanto eu tentasse. Eu ainda a amo profundamente e me sentia culpado que, por me apaixonar por Soon-Yi, eu a tenha colocado na posição de ser usada como um instrumento de vingança. Soon-Yi e eu fizemos inúmeras tentativas de ver Dylan, mas Mia bloqueou todas elas, acintosamente sabendo que eu a amava tanto, mas totalmente indiferente à dor e aos danos que ela estava causando em uma garotinha, apenas para satisfazer sua própria índole vingativa.

Aqui eu cito Moses Farrow, na época com 14 anos: “Minha mãe martelou para que eu odiasse meu pai por ter separado a família e molestado sexualmente minha irmã”. Moses está com 36 anos e é terapeuta familiar por profissão. “É claro que Woody não molestou minha irmã”, ele disse. “Ela o amava e esperava para vê-lo quando ele vinha visitar. Ela nunca se escondeu dele até nossa mãe conseguir criar uma atmosfera de medo e ódio contra ele”. Dylan tinha 7, Ronan tinha 4 anos e isso foi, de acordo com Moses, a história contada, ano após ano.

Faço aqui uma pausa rápida para comentar a situação de Ronan. Ele é meu filho ou, como Mia sugere, filho de Frank Sinatra? É verdade que ele se parece bastante com Frank, com os olhos azuis e os traços faciais, mas se for verdade, o que isso diz? Isso quer dizer que Mia mentiu sob juramento durante a audiência de custódia, apresentando falsamente Ronan como nosso filho? Mesmo que ele não seja filho de Frank, a possibilidade que ela levanta indica que ela estava secretamente envolvida com ele durante o tempo em que ficamos juntos. Isso sem mencionar todo o dinheiro que eu paguei de pensão para a criança. Eu estava cuidando do filho de Frank? Mais uma vez, eu quero chamar atenção para a integridade e a honestidade de uma pessoa que conduz sua vida desta maneira.

Agora, 21 anos depois, Dylan apresentou novamente as acusações que os peritos de Yale investigaram e deram como falsas. Com mais alguns toques criativos que magicamente apareceram durante os 21 anos em que ficamos sem nos falar.

Não que eu duvide que Dylan acredite que foi molestada, mas se, aos 7 anos, uma criança vulnerável foi levada por uma mãe forte a odiar seu pai porque ele é um monstro que abusou dela, é tão inconcebível que depois de tantos anos de doutrinação esta imagem que Mia queria estabelecer para mim tenha criado raízes? Não é de se admirar que os especialistas de Yale tenham apontado o aspecto de doutrinação maternal 21 anos atrás? Até mesmo o local onde o abuso sexual fabricado teria acontecido foi mal escolhido, mas interessante. Mia escolheu o sótão de sua casa de campo, um lugar que ela deveria ter percebido que eu jamais iria porque é um lugar fechado, minúsculo e apertado, onde dificilmente alguém consegue ficar em pé, e eu sou um grande claustrofóbico. Uma ou duas vezes em que ela me pediu para ir lá procurar alguma coisa eu o fiz, mas tive que sair rapidamente. Sem dúvida, a ideia do sótão veio da canção de Dory Previn, “With my daddy in the attic” (“Com meu pai no sótão”). É do mesmo disco da música que Dory compôs sobre Mia ter traído sua amizade de forma insidiosa ao roubar seu marido, André, “Beware of young girls”. Devemos nos perguntar: Dylan escreveu mesmo a carta ou foi, no mínimo, guiada por sua mãe? Será que a carta realmente beneficia Dylan ou simplesmente avança com a agenda de vingança de sua mãe? Isso é para me machucar. Há até mesmo a tentativa idiota de me causar danos profissionais ao envolver estrelas de cinema, que cheira muito mais a Mia do que a Dylan.

Depois de tudo isso, se falar era realmente uma necessidade de Dylan, ela já havia se manifestado meses antes na “Vanity Fair”. Aqui eu cito Moses Farrow novamente. “Sabendo que minha mãe costumava nos usar como peões, eu não posso confiar em nada que foi dito ou escrito por qualquer um da família”. Finalmente, Mia realmente acredita que eu molestei sua filha? O bom senso deve questionar: será que uma mãe que acredita que sua filha de 7 anos foi sexualmente abusada por um molestador (um crime muito horrível) aceitaria aparecer em um clipe usado para homenagear o criminoso no Globo de Ouro?

É claro que eu não molestei Dylan. Eu a amava e espero que um dia ela entenda como foi impedida de ter um pai amoroso e explorada por uma mãe mais interessada em sua própria raiva purulenta do que no bem-estar de sua filha. Ser ensinada a odiar seu pai e ser levada a acreditar que ele a molestou já teve um custo psicológico sobre esta encantadora jovem, e Soon-Yi e eu esperamos que um dia ela entenda quem realmente fez dela uma vítima e se reconecte conosco, como Moses fez, de uma forma amorosa e produtiva.

Ninguém quer desencorajar as vítimas de abuso a falar, mas é preciso ter em mente que às vezes há pessoas que são falsamente acusadas e que isso também é uma coisa terrivelmente destrutiva. Este texto vai ser minha palavra final sobre o caso e ninguém mais vai responder em meu nome quaisquer outros comentários feitos sobre ele por qualquer parte envolvida. Pessoas suficientes já foram magoadas.

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O caso Woody Allen: abuso não se relativiza, mas há que provar

Provavelmente, as acusações de abuso que feitas a Woody Allen sejam mesmo verdadeiras, que o diga seu casamento. Abuso é uma coisa que não pode ser relativizada — é uma violência inaudita, é crime e ponto. Não me venham com papos de que o(a) menor estava pedindo e outras explicações, etc. A responsabilidade é sempre do adulto. Não posso afirmar com certeza, é claro, mas apostaria que Allen é um escroto do gênero abusador.

Estas questões são muito complicadas. Aqui e ali, ouço relatos do gênero “fui abusada(o)” desde que me conheço por gente. Todos feitos por adultos. Sabe-se que a criança abusada raramente acusa. A maioria sente-se impotente para fazê-lo, até porque muitas vezes trata-se de alguém conhecido ou muito próximo. Na maioria das vezes, o abusador é uma pessoa normal, até mesmo querida pelas crianças e pelos adolescentes. A vítima tem a impressão de estar errada, de ser ela o problema e poucos casos são denunciados no momento em que ocorrem. Parece algo auto-imune.

Hoje, Allen tem 78 e Dylan 28.

Hoje, Allen tem 78 e Dylan 28.

Tive a sorte de ter passado longe de tudo isso, mas, como dizia, ouvi relatos dolorosos e verdadeiríssimos e outros que são realmente difíceis de acreditar. Na verdade, não acredito em apenas um. A pessoa tinha o vício de ser vítima em todas as situações e só anos depois dei-me conta de que as circunstâncias narradas eram absolutamente impossíveis, dado o ano a que “o conto” remetia. (Havia uma situação-chave cujo contexto simplesmente não existia no final da década de 70, início dos 80…). Mas a narradora parecia acreditar inteiramente no que dizia e chorava enquanto falava. O filme A Caça mostra que a questão do abuso tem de ser comprovada, que não basta apenas a acusação.

Tais complicações também existem na família Allen-Farrow: a loucura não está ausente nela. Acho que Mia Farrow não cabe em nenhum modelo de normalidade e guarda enorme ódio a Allen. Mas é mãe da vítima, que fora adotada pelo casal. Também acho que Allen não cabe no citado modelo, mas nunca foi a um tribunal se explicar, né? Ele apenas nega o fato como “falso e vergonhoso”. Apesar do que suponho, nada do que dizem dele foi provado. O que se sabe é que Dylan diz que houve um episódio horrível e nós sabemos que era uma casa de malucos. Então, o linchamento de seu nome é meio irresponsável, não?

Depois, quando eu digo que o mundo é complexo…

Tenho a cabeça aberta sobre sexo. Eu não estou acima de qualquer suspeita, quando muito, estou abaixo delas. Digo, se eu fosse pego num ninho de amor com 15 garotas de 12 anos de idade amanhã, as pessoas iam pensar: é, eu sempre soube disso a respeito dele.

Woody Allen, na revista People em 1976.

.oOo.

Saiu agora no Uol (05/02/2014, 15h30) o que reproduzo abaixo:

Filho de Allen e Farrow defende o pai e diz que mãe o fez odiá-lo por anos

Moses Farrow, filho adotivo de Woody Allen e Mia Farrow, se pronunciou a respeito das declarações de sua irmã Dylan, que, em carta aberta ao “New York Times”, acusou o pai de ter abusado sexualmente dela quando ela tinha sete anos de idade. Em entrevista à revista “People”, Moses defendeu Allen e culpou a mãe por toda a situação.

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2013, ano das gratuidades e das mudanças

Para mim foi um ano de acontecimentos gigantescos: enormes decepções, enormes dúvidas, enormes decisões, enormes responsabilidades, enormes bizarrices, enormes mudanças, enormes surpresas, enormes tristezas e enormes alegrias.
Agradeço à vida por este ano e vou pedir ao bondoso Papai Noel só uma coisa para o ano de 2014: por favor, menos. Se for possível, claro.
Feliz Natal e um ótimo 2014 para todos! Abraços!

Elena Romanov em seu Facebook

Este é o melhor resumo de 2013 também para mim, que convivi boa parte dele — infelizmente bem menos da metade — com Elena. Do ponto de vista pessoal, acrescentaria “enorme gratuidade” imediatamente após as decepções, pois houve muito disso. Com a palavra, não quero dizer que tenha sido um ano em que não paguei nada, muito pelo contrário. Uso gratuidade no sentido daquilo que não é justificado, do que é natural e espontâneo em outrem, do que é gratuito na acepção de infundado.

Mas não reclamo do ano. Afinal, todos os amigos e minha pequena família estão aí alive and kicking; o trabalho idem e a saúde surpreende após um ano tão maluco. Em junho e outubro parecia que ia me dar um piripaque, mas até o colesterol, no meu caso sempre nas nuvens, apareceu no mês passado em inéditos 169. (Obrigado, seu Lípitor!)

E 2013 foi o ano da felicidade minimalista. Nada grandiosa, nada estável, mas muito satisfatória até aqui. Tanto assim que vamos fazendo planos. Li hoje uma frase incrivelmente verdadeira e aparentemente nada a ver com o que escrevo: a de que só agora estamos aprendendo a ser contemporâneos de James Joyce. Estamos chegando cada vez mais perto dele e um dia alcançaremos e entenderemos o sublime, genial, neologista, poliestilista e desbocado autor de Ulysses. O fato acontece casual ou inexoravelmente à medida que o tempo passa. No passado, lembram?, alcançamos os últimos quartetos de Beethoven, que dizia com toda a razão a seus críticos: “No futuro, entenderão”. No meu caso, 2013 foi o ano em que aprendi muito a meu respeito — mais do que a respeito de outros. E mudei um pouco. Na base da porrada, me parabenizei por alguns méritos e quase me destruí identificando defeitos. Acho que fiquei mais silencioso, mais amante da lentidão. De alguma forma muito secreta, me aproximei alguns centímetros não sei do quê. Mas é assim mesmo, a gente vai mudando de forma contínua e imperceptível, só que as crises catalisam as alterações, mesmo que não garantam rumos. Então, sejamos lentos na vida e nos passeios de fim de tarde pela Redenção, certo, Elena?

De tudo isso, a única tristeza absoluta é a de ver menos a Bárbara, mas a gente dará um jeito, imagina se não.

Joyce examina meu raciocínio sem entender porque me referi a ele.

Joyce examina meu raciocínio sem entender porque me referi a ele.

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