O cartão virtual de ano novo de Zoravia Bettiol. Uma obra.

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Três tópicos antes do Natal

Durante os aplausos, uma senhora tirava fotos de Daniel Barenboim usando o flash. Ele interrompeu a plateia e disse: “Não use o flash, senhora. Por três razões: primeiro, porque é proibido; segundo, porque me incomoda; terceiro e mais importante, porque, enquanto faz a foto, não pode me aplaudir”.

Uma coisa que sempre quis ter e não tenho é classe.

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Alex Castro tem razão: “Se você declara publicamente seu ódio a alguém, está declarando que aquela pessoa tem poder sobre você”. Faz três anos que tenho me mantido fiel à Lei de Steinbeck, que diz mais ou menos assim: “Vou me vingar de ti da forma mais cruel, vou deixar pra lá”. O Chico Marshall completa dizendo que “Aristóteles (De Anima) afirma que “nada produz maior cólera do que a expectativa de honra frustrada. Desdém, a mais letal das armas”.

Não é o Alex, nem o Steinbeck, é Aristóteles

Não é o Alex, nem o Steinbeck, é Aristóteles

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Conforme nós prevíamos, a coisa ia ficar séria. Ficou. O Vitória e a CBF fizeram sacanagem sim. Agora só falta dizerem que o Inter forjou o documento do Monterrey… Não creio que o Inter mereça ser resgatado do rebaixamento — afinal, quem perde duas vezes para o Vitória e e obtém um ponto do Santa Cruz tem que morrer mesmo — mas acho que o Vitória deveria ser o quinto rebaixado. Acho que os advogados do clube não devem se entregar. O Vitória fez algo duplamente proibido: contratou sem fazer o atleta voltar ao clube de origem e fora da janela. Curioso é o silêncio da Federação Gaúcha.

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Uma aventura no ‘Tudo Fácil’ de Sartori

Ontem fui ao Tudo Fácil, onde fui fazer uma nova Carteira de Trabalho porque a minha está lotada de anotações. Já tinha revisado os documentos necessários e estava com tudo em dia e novinho. O atendente elogiou o estado de minha Carteira atual. “O Sr. é uma pessoa caprichosa”, disse. Então, o burocrata acordou nele e se pronunciou do modo que segue: “Mas antes o Sr. terá que fazer uma nova Carteira de Identidade porque essa foi feita sobre a sua Certidão de Nascimento e o Sr. é oficialmente divorciado”. Então, fiquei sabendo que um casamento é como nascer de novo, apesar de eu ter quase morrido no meu, aquela infelicidade toda. Depois de casar, a Certidão de Nascimento não vale mais porra nenhuma.

Já bastante puto, fui para a fila da Identidade. Mostrei todos os meus documentos e tudo ia bem até que a mocinha burocrata chamou uma colega que chamou mais uma que, por sua vez, chamou o chefe. Acontece que o sistema diagnosticava “Sorriso Detectado”, rejeitando minha foto. Sem exagero, tiraram 20 fotos minhas. “Ergue o queixo, não, não, abaixa um pouquinho”, essas coisas. Em todas eu estava sério, cada vez mais sério, mas a merda dizia que eu sorria. Olhavam para mim e diziam um pro outro, “deve ser a barba”. Já tinha umas 10 (dez) pessoas me atendendo. Então, eu falei que ia fazer cara de morto. Caprichei para imitar o olhar daqueles peixes da Semana Santa no Mercado. Deu certo. Obtive a foto mais horrorosa de todos os tempos. Parecia a Anna Kariênina depois do trem. Porém, finalmente o sistema deu OK. Agora são 15 dias para a nova Identidade e mais 15 para a Carteira de Trabalho. Entro em férias bem no meio deste período. Tudo fácil.

P.S.– Ah, e ainda tenho que pagar por estes documentos.

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Um pequeno comentário sobre a agressão do ex-presidente Fernando Miranda

Mirabnda chega ao fim da linha.

Mirabnda chega ao fim da linha.

Nada tinha contra o ex-presidente do Inter Fernando Miranda. Até admirava sua corajosa passagem pelo Inter, nos anos 2000 e 2001, brigando e vencendo o célebre grupo conhecido como Império Otomano, que afundara o Inter nos anos 80 e 90 do século passado. Ele pagou contas, montou um time mais ou menos cumpridor e foi embora irritado com todo mundo, achando-se injustiçado, creio. Sempre me pareceu uma pessoa a ponto de explodir, mas enfim, jamais vira ele louco, totalmente descontrolado como ontem à noite.

Anos atrás, Miranda criou um blog onde explicava muitas de suas atitudes como dirigente. Eu lia tudo e aprendia muita coisa. Suas explicações eram longas, detalhadas, claras, de uma sinceridade rara no futebol. Depois, saiu de circulação. Como tenho vários amigos próximo do clube, ouvia volta e meia comentários a respeito dele. Eles diziam mais ou menos isso: o Miranda está cada vez mais louco.

Ontem, ele reapareceu na TV Ulbra, canal 21, dentro do programa Cadeira Cativa, de Luiz Carlos Reche. Deveria ter ido a outro lugar. Em determinado momento, ele e o jornalista Julio Ribeiro iniciaram um bate-boca. Acontece que Miranda fizera uma longa exposição e Julio desejava rebater alguns pontos. As vozes ficaram mais altas, Miranda chamou o jornalista de “asqueroso” e “bacaca”, este não gostou, gritou mas permaneceu sentado, e logo depois foi agredido por um soco desferido pelo ex-presidente. A cena de Miranda erguendo-se e dando uma corridinha até a cadeira onde estava Julio é especialmente ridícula. O homem estava fora de si. Dizem que é comum.

O incrível é que o pai do presidente recém-eleito Marcelo Medeiros, o qual se chamava Gilberto Medeiros, também na TV, tinha tomado uma surra do ex-presidente do otomano José Asmuz, um dos piores presidentes da história do clube, mas que nunca nos levou à segunda divisão. O caso foi muito mais grave. Asmuz deu-lhe uma série de socos na cabeça pelas costas, sem grande reação de Gilberto, que permaneceu sentado, apenas protegendo-se com os braços. Júlio Ribeiro também não reagiu, apenas tratou livrar-se do agressor, certamente sem acreditar que estivesse participando de uma baixaria daquele nível.

Quando vi, também não acreditei. Sou amigo de Júlio. Nem sempre concordamos — aliás, discordamos frequentemente — e por isso mesmo sei que se trata de um ser humano altamente civilizado. Não vi o que houve antes do momento da agressão, mas Miranda devia estar muito descontrolado para deixar Júlio respondendo em voz bem alta “Babaca é tu”.

Olha, ninguém gostou de ir para a segunda divisão e todos sabem os motivos pelos quais lá chegamos. Brigue (verbalmente, no máximo) com o Vitorio causador de tudo, brigue com Carvalho, Argel e Roth. Agora, Fernando Miranda, uma agressão física a alguém que não dirigia o clube é algo patético, coisa de torcedor marginal.

Isso diz mais sobre o Sr. do que qualquer opinião sua.


Mais completo, aqui:

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Os discursos de Fidel Castro e Thomas Bernhard

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Em certa época da ditadura militar brasileira, eu era da Engenharia da Ufrgs, mas frequentava mais o pessoal, as festas e as reuniões das humanas. Zanzava pelos Diretórios Acadêmicos onde volta e meia era marcada uma sessão de cinema em que era apresentado um discurso de Fidel Castro. Quase sempre acabava assistindo. Gostava deles. Era coisa para ser apresentada no início de uma noite ou num fim de semana, pois via de regra duravam mais de quatro horas. A data e a hora das apresentações dos filmes eram secretas, mas todo mundo sabia. Assisti a vários deles, alguns divididos em dois turnos. Lembro de pouca coisa e não sei se ainda concordaria com eles, o que sei é que ele era um extraordinário orador. Era complicado até de ir ao banheiro. Tudo parecia muito importante. Um dia comecei a pensar na estrutura daqueles textos falados. A primeira conclusão a que cheguei foi a de que eles eram indissociáveis do ator. Castro era notavelmente carismático e sabia como seduzir com pausas e alterações de tom e dinâmica. E havia seu rosto, muitas vezes com expressões irônicas. Tudo o que ele dizia adquiria caráter mítico. Quando conheci Thomas Bernhard, fiquei surpreso não somente com seu discurso de ódio contra a sociedade, mas com a estrutura encadeada de sua prosa, algo parecida com a de Fidel, mas funcionando esplendidamente por escrito. Não dá para falar de avanço em espiral porque ambos voltam a pontos anteriores do discurso e uma espiral sempre avança tontamente por lugares onde não passou. Era mais uma sequência minimalista de variações que avançam de tal forma que muitas vezes a frase atual era uma variação da anterior, mas se ouvíssemos a décima oração anterior, ela já seria totalmente diferente da atual. Ou não era assim. Eram como as de um professor que avança duas casas no jogo de seu discurso e volta uma para depois avançar mais duas novamente. Não sei porque lembrei disto agora. Talvez seja saudades da juventude; de ler, estudar, estagiar e ainda ganhar uns trocos dando aula; de, apesar desta super atividade, ter a eterna impressão de não estar fazendo nada. Ou saudades daqueles ambientes esfumaçados, ultra hiper ripongas, e daquelas meninas que iam lá assistir e que ficavam mudando de posição até encostar em nós. O que eu sabia é que estávamos fazendo tudo para atrapalhar a ditadura civil-militar e que eles tinham observadores — ratos — infiltrados entre nós. Tinham receio de nós e dos discursos de Fidel, que talvez os entediassem. O que Fidel falava era liso, sem fendas. Como o texto de Bernhard, suas falas tinham caráter repetitivo e exagerado, o que lhes garantia grande impacto (e eficiência nas queixas). Bernhard desconsidera a estrutura de parágrafos e creio que alguém que transcrevesse os discursos de Fidel não deveria repetir tal estratégia, pois ele fazia longas pausas. Em ambos os casos, há um desesperado adiamento do ponto final, pois o que vale é o encadeamento de orações subordinadas, como se o narrador tivesse a necessidade compulsiva de jamais abrir mão da palavra. Com Fidel, a bunda ficava quadrada, mas eu não me incomodava com o tamanho dos discursos nem lembro de gente dormindo. Sim, nem os ratos dormiam, então acho que não se entediavam. A fala de um e a escrita do outro eram impecáveis. Perdiam-se por ladeiras e ruelas mal frequentadas que só eram compreendidas quando apareciam lá na frente na avenida. Ou talvez não seja nada disso e o que tinham em comum fosse a tentativa de aniquilação de adversários ou de si mesmo — caso de Bernhard — através de palavras. Ah, e a soberba de ambos, arma que parecia mortal na mão destes dois Quixotes em ambientes hostis. E o fato de frases ditas aqui serem complementadas apenas bem adiante. Sei lá, só sei que toda vez que lia Bernhard lembrava de Fidel e que hoje, ao rever no YouTube um discurso de Fidel, ele não me fez lembrar em nada Bernhard. Nada, nem um pouco.

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No dia da morte de Fidel, lembro de minha longa conversa com Padura

Foto de Alberto Korda. Clique para ampliar.

Foto de Alberto Korda. Clique para ampliar.

Quando conversei com Leonardo Padura, ele foi muito franco sobre seu país. Pediu que ficassem off-the-record apenas algumas de suas impressões sobre o Brasil. Falou que há uma esquerda romântica que vê Cuba como paraíso socialista e há uma direita muito agressiva, que a vê como um inferno comunista. E Cuba não é uma coisa nem outra. Segundo ele, o país parece mais com o purgatório. Porém… “Como leste em meus livros, sabes o quanto sou crítico de muitas coisas que ocorrem em Cuba, mas posso te dizer com toda certeza que, por sorte, lá nunca houve os excessos que ocorreram na União Soviética, na Alemanha e nos países do oeste. É uma sociedade que teve e tem, sobretudo, grandes problemas econômicos. A economia não funciona bem e a política está presente na vida das pessoas, mas nunca tivemos grande repressão. Há controle, é uma sociedade muito controlada, de um partido único, em que o estado e o governo são os mesmos. Há controle, repito, mas sem excessos. Lezama Lima, por exemplo, jamais teria sido publicado na URSS ou na Europa Oriental comunista. Até hoje teria problemas na Rússia. Em Cuba, foi. E isso aconteceu nos anos 60”.

Sobre a relação dos escritores cubanos com o mercado, foi ainda mais tranquilo: “Até 1990, 91, cada vez que um escritor cubano publicava um livro fora do país, tinha que fazê-lo através de uma agência literária do Ministério da Cultura. Ela cobrava os direitos e dava a parte do escritor. Já a partir dos anos 90, foi possível a livre contratação. Eu, no ano de 1995, comecei a publicar através de uma editora espanhola. E, desde então, minha relação econômica com o governo cubano é a de um escritor que recebe direitos e que paga impostos, como qualquer trabalhador independente. Pago pontual e religiosamente meus impostos, mas os direitos são meus e de uma agência da Espanha”.

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Conversamos muito sobre Cuba. Sobre a dificuldade de alguém realizar-se no país — parecia que falávamos de toda a América Latina –, sobre a casa onde mora, que é a mesma em que nasceu. Aliás, seu pai e seus avós também viveram no mesmo local. Riu quando, ironicamente, perguntei se a revolução não quisera levá-la. Também sobre a sensação de pertencimento de todo povo cubano. Sobre a pobreza e as fugas. Sobre o excelente sistema de saúde, uma das obsessões de Fidel. E ele contou a piada que já conhecia: “Acaba o comunismo e o pai diz para o filho em Cuba: meu filho, tudo o que te disseram sobre as maravilhas do comunismo eram mentiras, mas tudo o que te disseram sobre o capitalismo era verdade”.

A ingenuidade de tanta gente que vê um país latino tão semelhante ao Brasil como se fosse outra dimensão…

Hoje, dia da morte de Fidel Castro, não é dia de entrar no Facebook. Li cada coisa sobre Cuba… Uns falando no tal paraíso, outros falando em pobreza e que Fidel não deveria ter nascido… Olho para lá, para cá, e concluo que essa gente certamente não mora no Brasil.

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A roupa entlou

Foto meramente ilustrativa, sou muito menor.

Foto meramente ilustrativa, sou muito menor. Não sou eu, tá?

Houve uma época em que eu trabalhava de terno e gravata. Tinha 14 kg a menos. Hoje, não preciso mais usar roupa formal e faz anos que não visto — ou me fantasio — com tal indumentária. Desta forma, meus ternos ficaram guardados num canto do guarda-roupa. Mas, no próximo sábado, vou a uma festa mais social e, bem, tive que encarar a realidade. Comprar um terno, alugar ou tentar me meter num dos que tenho?

Fui experimentando um por um. Todos estão em muito bom estado, mas as calças simplesmente se negavam a caber no modelo arredondado que me tornei. Por algum motivo bem masoquista, resolvi tentar me enfiar no mais velho deles e vim em direção ao mais novo. Como deus é pai, o último entrou. Quando aconteceu, disse para mim mesmo, “entlou”.

Sim, entlou. Explico: uma vez lavava a louça com meu filho Bernando brincando a meus pés. Ele devia ter uns 2 ou 3 anos de idade. Como eu com meus ternos, ele pegava uma coisa de cada vez na cozinha e colocava dentro de seu caminhão de madeira. Por exemplo, pegava um ovo, colocava no bagageiro, fechava-o e dizia “entlou”. (Sempre foi muito cuidadoso, jamais estragou um CD ou livro meu. Tinha respeito pelas coisas da casa). Depois pegava uma laranja e dizia “entlou”. Um limão e dizia entlou, etc. Então, pegou um mamão, colocou delicadamente no bagageiro e disse “não entlou”. Aí eu disse pra ele, “É, filho, o mamão é muito grande, não cabe no bagageiro”. E segui lavando os pratos e talheres quando ouvi um barulho estranho de bisnaga sendo apertada e sua voz “mas agola entlou”.

Incrível, o mamão ficou quadrado, a coisa mais linda. Mais ou menos como eu dentro da calça que entlou. Mas entlou, tá entlado, vou com ela. Hoje, comi apenas salada, um filé de peixe e água no almoço. Tudo para que a calça entle sem eu ouvir som de bisnaga.

Falta testar as gravatas. Não pensem que sei dar nó de gravata. Mantenho por anos os nós que as boas almas fazem para mim, mas lembro que os desmanchei na última vez que as guardei. Achei que jamais as usaria novamente e que era ofensivo dar gravatas para os mendigos do Bom Fim.

E conjeturo se pescoço engorda. Ah, a camisa entlou sem reclamar de nada.

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No Dia Nacional de Greve, uma salada destinada aos desligados

Na vinda para o trabalho, me senti até seguro com tanta polícia na rua. Como escreveu no facebook minha amiga Mariana Xerxenesky, torço que um dia os bandidos sejam tratados como os estudantes e os funcionários públicos do Brasil. Aliás, poderiam até tratar melhor os bandidos. Eles não merecem bombas. Afinal, são produtos mais da desigualdade e da falta de educação e horizontes do que de sua má índole.

Ontem à noite, saí para dar uma passadinha no supermercado. Uma vizinha estava saindo sorridente de seu apartamento, carregando malas. Na rua, outros estavam colocando coisas em seus carros para aproveitar o prologado feriadão. De sexta à terça são 5 dias. Foi quando me dei conta do quanto poderia ser maior o Dia Nacional de Greve se marcado para um dia em meio de semana. Nas grandes cidades há muita gente do interior  — principalmente estudantes — e não os condeno por fugirem de Porto Alegre à menor oportunidade.

Mas, por exemplo, meu enteado permanece na Ocupação, a PEC 55 (antiga 241) segue ameaçando todo o investimento em educação e saúde e, ao que parece, as manifestações são grandes. Mas não poderiam ser ainda maiores?

Bombas no estudantes da Ufrgs. Eles têm razão em cantar: "“Que vergonha, que vergonha deve ser, espancar trabalhador para ter o que comer”

Bombas no estudantes da Ufrgs. Eles têm razão em cantar: ““Que vergonha, que vergonha deve ser, espancar trabalhador para ter o que comer” | Foto: Maia Rubim

É sempre bom lembrar que a mobilização de hoje é um ato nacional contra a montanha de absurdos que está sendo proposta pelo governo Temer: terceirizações no setor público, o projeto “Escola Sem Partido” — também chamado de Lei da Mordaça, destinado a professores —  a terrível PEC 55 (241) — uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que trata do teto dos gastos públicos e que congelará os gastos e investimentos com saúde e educação por 20 anos!!! –, o projeto de lei número 4567 — que altera regras para a exploração de petróleo e gás natural do pré-sal, acabando com o conceito de Petrobras –, as reformas da Previdência e do Ensino Médio, a flexibilização do contrato de trabalho, a defesa da lei do piso. etc.

Não são coisas secundárias e a sociedade deve ser alertada para o que Temer e seu Congresso estão preparando. Está acima de partidos. Esqueça a briga de coxinhas x petralhas, eu também não aguento mais. Digo isso desta forma porque há muita gente que se enojou e se desligou da política nos últimos tempos.

Também é bom se ligar no cheque abaixo. Os caras se sentiam tão seguros que a Andrade Gutierrez repassava propina sem o menor cuidado, via cheque nominal. É muita transparência né? Você sabia que o nome completo de nosso atual presidente é Michel Miguel Elias Temer Lulia? Que ironia este Lulia, né? Mas preste bem atenção no valor.

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Carlos Magalhães escreveu:

— Senhor Andrade Gutierrez, poderia me passar uma módica propina de 1 milhão de dólares?
— Claro! Vocês fazem muito por nós. Aguarde enquanto o meu funcionário vai ao cofre retirar o montante e colocar em uma mala.
— Não, não. Preciso de um cheque.
— Mas cheque é um perigo, vai ser rastreado. Não recomendo.
— Insisto. Preciso do cheque.
— Discordo veementemente, mas aqui está seu cheque.
— Obrigado, mas não é isso. O cheque tem que ser nominal.
— NOMINAL!!!!!!????? Pago propinas há décadas e nunca vi alguém pedir propina via cheque nominal!!!!!
— É porque o senhor não conhece o novo governo. Somos honestos. Gostamos de tudo às claras e prezamos a accountability acima de tudo. Até mais ver.
— Até mais ver. Agora sim esse país está entrando nos eixos…

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Então, pessoas, informem-se porque o dia não acabou e haverá muito mais. Em todo o país.

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O blogueiro encontra a Leitora Ideal

René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d'Images, Adagp, Paris, 2016

René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

O blogueiro senta-se na frente do micro e pergunta a si mesmo:

— Escrevo um post rápido ou requento algo antigo?

— Não, nada de requentar, quero algo novo e de qualidade — responde a Leitora Ideal.

— É que tenho pouco tempo, estou cansado e mesmo numa rapidinha há que ter atenção. Diria até que uma rapidinha é pura atenção concentrada, pura qualidade, algo tão condensado que nosso pensamento…

— Não me enrola.

— Como assim? Eu não ganho nada para publicar aqui. E tu vens porque quer. Não tem essa de exigência, não.

— É um direito adquirido, meu docinho. Sou uma de teus sete leitores. Venho aqui há dez anos e sempre há quatro ou cinco posts novinhos por semana.

— Depois de dez anos, o único direito que te dou é o de me criticar, e já é muito.

— Ah, escreve logo. Eu sei que estás trabalhando demais, mas ontem à noite ouviste quatro, eu disse quatro CDs! Hoje, ficaste horas olhando o facebook. Tu andas dispersivo, é isso.

— Dispersivo? Pô, tô trabalhando como um cão. E escrevi umas coisinhas aí, nem lembro mais.

— E passaste o domingo num almoço que durou até às 18h.

— Tá bom, mas estou sem assunto.

— Sem assunto? E aquela história bagaceira que começaste a semana passada e que causou tanta ojeriza? Não a mim, claro. Cadê o resto daquele nojo? Por que não publicas? E mais: este livro de Dostoiévski está te tomando muito tempo. Vou te tirar ele.

— Vai me tirar… Só estou lendo lentamente. E daí? Alem disso, não vou deixar que uma leitora interfira em minha vida privada.

— Vida privada? Tu? — e ri desbragadamente.

— Não entendi. Estou começando a me irritar.

— Música, vinho, amigos, pouca leitura e nada de escrever. Que beleza, hein? Sabes o que a mulher do Richard Strauss gritava para ele todo o dia logo após o café da manhã? Ela ordenava: “Anda Richard, vai compor”.

— Não sou Strauss e a mulher dele era uma prussiana… Minha mulher é uma russa nada disciplinada. E tu és uma reles leitora.

— Não, eu sou A Leitora.

— Olha, já que estou aqui tão dispersivo e ocioso, — ironiza o autor — gostaria de te fazer umas críticas.

— Faça, benzinho.

— O problema é que eu não tenho o que fazer contigo. Tu vais a meu blog e me elogias sempre, tu gostas de tudo indistintamente… Não há crítica, é chato.

— Chata? Eu? Eu sou a Leitora Ideal! Sou eu quem te dá toda a força do mundo, quem curte e comenta primeiro.

Faz um beicinho.

— É assim que me retribuis?

— É… –- ele hesita e volta à carga. — É que é chato mesmo. Até para elogiar há que ter crítica. Não adianta vir sempre com mesmos adjetivos e adulações. Assim, parece que eu escrevo sempre a mesma coisa.

— Tu estás me rejeitando?

— De certa forma, sim.

— É que eu escrevo o que queres ler. Quando me faltam adjetivos laudatórios, eu repito.

— Desculpa, mas tu não me serves para nada.

— Olha que eu vou embora!

— Como quiser….

— Tu devias me respeitar.

— Ponha-se daqui para fora. A porta da rua é serventia da casa…

— Outra frase feita? Será que a Leitora Ideal só merece isso? Não mereço mais nada? Tu não gostas quando vês aquele primeiro coraçãozinho no face sabendo que é um carinho meu?

— …

— Tu não sentirias minha falta se eu te abandonasse?

— Sim, mas…

— Disse sim! Disse sim! Não quero ouvir mais nada.

E senta-se no colo do blogueiro. Ele nota que ela não tem peso. Nem calor. Recebe um longo beijo, apesar de não perceber nenhuma umidade, tato, pressão, nada. Os braços que envolvem seu pescoço não são sentidos. Não há cheiro. É aterrorizante.

— Oh! Agora te deixei no ponto — ela diz, erguendo-se.

Ele não sabe o que dizer. Está pálido.

— Eu quis te dar tua linguagem de volta –- continua a leitora.

— Nem a língua me deste.

— Como? Tu és uma pessoa à procura da linguagem e eu, ao te dar meu beijo seráfico, devolvo-a a ti.

— Coisa sem graça.

— Te enganas.

— Prefiro ser enganado com algum prazer do que receber um beijo sem verdadeiramente senti-lo.

— Viste? Estás no ponto.

— Não me faças rir.

— Falaste em receber meu beijo sem sentir de verdade. Isto não é uma definição de linguagem? Voltaste a te ver refletido nela. A possuir uma linguagem, o que significa que podes escrever, expressar qualquer coisa.

— Tu és uma leitora que só me elogia.

— E tu és a tua linguagem. Anda, vai escrever!

Ele olha para o monitor branco no micro. Ela volta a falar.

— Eu leio o texto e trato de te refletir.

— Com elogios repetitivos?

— É o que queres.

— Não. Prefiro as críticas, aprendo com elas.

— Bobagem. Eu sei. Só eu sei.

Dito isto, a leitora dirige-se para a saída, não sem antes lançar um calculado olhar de despedida ao blogueiro. Ele se levanta a fim de fazer a gentileza de abrir a porta, mas ela a atravessa como se não existisse.

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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória (por Rodrigo Balbueno)

Dia desses, recebi o e-mail abaixo. Impossível desconsiderá-lo. O texto que o segue é muito bonito e, se o autor escreveu que “adoraria publicá-lo no teu blog”, só me resta abrir o espaço.

Caro Milton,

É sempre curioso o esforço de dirigir-se a quem não se conhece pessoalmente mas com quem se priva de certa intimidade, como leitor habitual de teu espaço no Sul21. De certa forma é como dirigir-se a um velho amigo desconhecido, se é que isso é realmente possível.

Por isso hesitei muito em escrever-te, até que ao ler teu post de hoje me dei conta de algo mais em comum e que no máximo vou te incomodar por alguns minutos.

Além de uma convergência no trato da memória, ainda incluiria a relação com a OSPA, a quem acompanho desde o tempo do Eleazar de Carvalho, de quem fui vizinho no Bom Fim.

Há quase dez anos fora de Porto Alegre, tento programar minhas idas à cidade ajustadas à programação da orquestra querida. E sem querer ser muito enxerido, tendo acompanhado a saga dos músicos estrangeiros, como a Elena, que trouxeram à orquestra uma qualidade que a engrandece e os faz ainda mais admiráveis, sempre me pareceu extraordinária a coragem dessas pessoas que deixaram um mundo que se desfazia e vieram construir uma vida nova nestes trópicos e subtrópicos. O fato de minha mãe ter sido colega de hidroginástica da Elena na Hebraica é só um detalhe a mais nessa teia, assim como os queridos amigos Cátia e Norberto que de vez em quando aparecem em tuas fotos.

Enfim, é bem possível que mais cedo ou mais tarde nos venhamos a conhecer pessoalmente.

Lhe escrevo porque estive obcecado com uma série de coincidências que originaram o texto que vai em anexo. Como é um tanto personalista e tem um tamanho que é meio nada, muito grande pra imprensa, pequeno mesmo pra um livreto, pensei que talvez devesse dar-lhe um pouco mais de substância, e então lembrei de tua entrevista com o Airton Ortiz quando ele foi patrono da feira do livro e a quem gostaria de ouvir para enriquecê-lo um pouco e quem sabe me podes passar seu contato.

Te peço desde já desculpas pelo “aluguel” e lhe desincumbo de qualquer responsabilidade de responder a este.

Grande abraço,
Rodrigo Balbueno

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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória

Por Rodrigo Agra Balbueno
Agosto, 2016

Inicio pelo meu próprio começo, pelo tornar-se gente, que tem no nascimento seu ponto de partida, mas que demora uns bons anos pra engrenar. E, depois que começa, se tudo der certo nunca mais termina.

O tempo zero, neste caso, não é o começo absoluto. Falo de algo que se deu por volta dos vinte anos, lá por 1986 ou 1987, época em que um grupo de amigos, ainda estudantes ou recém egressos da universidade e portanto com uma vida econômica das mais restritivas, passaram a cultivar o hábito de reunir-se com alguma frequência no restaurante Copacabana, nas noites de domingo, sempre que a dureza permitia.

O Copacabana é um dos restaurantes mais antigos de Porto Alegre ainda em atividade, tendo sido fundado em 1939. O endereço diz Praça Garibaldi nº 2, mas olhando pra ele se vê que está na esquina das Avenidas Venâncio Aires e Aureliano de Figueiredo Pinto. A praça mesmo está do outro lado da rua.

Em algumas noites éramos dois ou três, noutras seis ou oito. Preferencialmente no salão principal, eventualmente no salão da direita, que anos depois virou o salão de não fumantes, antes do banimento completo do fumo de lugares fechados.

Em muitas dessas noites de domingo no Copa, tínhamos como vizinho de mesa um tipo meio sisudo, mais velho do que nós, de feições muito gaúchas, cabelos longos e cavanhaque, que às vezes jantava sozinho, às vezes com um ou dois amigos.

Alguém do nosso grupo já o conhecia e em algum momento comentou: esse é o Jacaré, ele é jornalista e compositor do Tambo do Bando. Já era um tempo em que a música regional começava a separar-se em duas vertentes diametralmente opostas, uma presa ao passado e manietada por um esdrúxulo conjunto de regras gerados por uma entidade ainda mais esdrúxula, e outra aberta à música urbana, mas sem tirar o olho da vastidão do Pampa que esperava ali do outro lado do lago. O Tambo do Bando foi uma das melhores respostas a essa tensão.

A convivência dominical trouxe certa proximidade, com cumprimentos gentis e uma eventual conversa. Não éramos exatamente amigos, mas sempre que nos encontrávamos fora do Copa trocávamos aquela saudação típica de pessoas que se conhecem de outros cenários.

Só fui saber seu nome quando morreu, ainda muito jovem, em 1996. Luiz Sérgio Metz. Sérgio Jacaré. Pra nós só Jacaré até aquele junho gelado.

metz-1Logo depois disso, a teia das relações me uniu a um grupo de estudantes de letras, ainda antes do ano 2000, e muito depois disso minha amiga Júlia, hoje doutoranda em letras, um dia me disse, eu já vivendo em Brasília, “tu precisas ler ‘O primeiro e o segundo homem’ do Luiz Sérgio Metz”. O primeiro livro do Jacaré, lançado em 1981, ainda antes de nossa vizinhança de mesa no Copacabana.

Em seguida comprei o livro, uma edição da “Artes e Ofícios” de 2001, que celebrava os 20 anos de seu lançamento. Li, adorei e fiquei lamentando não ter tido maior proximidade com aquela figura que tantas vezes esteve ali tão perto, quase dividindo uma mesa em noites de domingo.

Indo rumo a um tempo ainda mais remoto, final dos anos 70, começo dos 80, no ensino médio, em Taquari, quando inventava um mundo pra chamar de meu, fazendo algumas escolhas que mais tarde desembocaram naquela mesa do Copa e em tudo que dali adveio.

Era o tempo das descobertas, mas o que interessa agora é a música. Em uma casa onde se ouvia basicamente MPB, o auge do movimento nativista me pegou em um momento em que a figura do gaúcho era parte integrante da paisagem humana que via cotidianamente. Muitas pessoas da minha idade tinham um cavalo antes de ter uma moto.

Isso foi um pouco antes de deixar a vida no interior, literal e metaforicamente, e de descobrir a música urbana gaúcha, que experimentava um florescimento exatamente nessa época. Acho que meu marco particular é “Pra viajar no cosmos não precisa gasolina” do Nei Lisboa, seguido de perto pelo Musical Saracura.

noel-1Mas até então ouvia muito os LPs da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, especialmente os da nona (1979) e da décima (1980), Pedro Ortaça e principalmente Noel Guarany. O gaúcho da Bossoroca me tocava especialmente e o disco “Noel Guarany canta Aureliano de Figueiredo Pinto” figuraria ainda hoje entre os dez que levaria para uma ilha deserta.

Anos depois, esse disco ainda me traria uma alegria em extinção, que é aquela que sente quem encontra em CD um LP há muito perdido e que muito prazer lhe proporcionou. Hoje ouço no Ipod sempre que me vienen del sur los recuerdos (gracias, Borges).

Noel Borges do Canto Fabrício da Silva, guarani no sangue e pela arte, decidiu deixar de lado o sobrenome que remete à definição dos limites do Rio Grande do Sul como ele é hoje, pra ser Guarany somente, em tudo o que isso significa para este pedaço da América Latina que foi indígena, espanhola e portuguesa, mas para quem as fronteiras nada significam, na busca pela terra sem males.

Noel Guarany talvez seja o máximo expoente da música missioneira, se não é seu próprio inventor, nos termos em que hoje se conhece. No Estado onde tudo é Gre-Nal, pode-se perceber uma clara oposição entre a música missioneira e a música da fronteira sudoeste.

Grosso modo, enquanto a música da Campanha olha para a vida no latifúndio e vê no castelhano o inimigo, a missioneira tem um viés muito mais campesino e pan-gauchesco, empregando expressões em espanhol de forma natural, para quem a fronteira é o grande rio Uruguai, em cuja outra margem vive um outro que nos é igual.

aur-1Não é à toa que muitas vezes Noel canta “a Pampa” no feminino, como os castelhanos e, no extremo, a “Pachamama” quíchua. A terra como fêmea, mãe e companheira.

Saltamos mais uns anos, dez ou vinte, talvez, e encontro, em alguma livraria da Riachuelo, o livro “Romance de estância e querência – marcas do tempo”, único livro lançado em vida por Aureliano de Figueiredo Pinto, que entre outros tantos versos, traz aqueles musicados por Noel Guarany no LP de 1978. Muito gaúcho, muito lindo, muito lírico, descrevendo entre os anos 30 e 50 um mundo que já então deixava de existir.

Em uma hipotética genealogia da cultura riograndense se a Noel pode ser atribuída a paternidade da música missioneira, Aureliano seria responsável, uma geração acima, pela poesia regional gauchesca, numa obra que inicia em momento anterior à criação da figura do gaúcho de CTG, cópia carnavalesca de um tipo humano que a rigor nunca existiu da forma como foi cristalizada no imaginário popular.

A produção literária e musical do Jacaré também pode ser incluída nesse “tronco” da cultura gaúcha que abriga Aureliano e Noel. As obras desses três artistas, ligadas de uma forma ou de outra ao espaço físico missioneiro, são eivadas de um lirismo meio amargo, com um olhar para os que tudo perderam, sejam os guaranis e sua vida quase republicana quando da invenção do Rio Grande, sejam os gaúchos a pé perdendo seu lugar no mundo, para Aureliano pelo esvaziamento de uma forma de vida rural calcada na pecuária herdada dos jesuítas, para Noel e Jacaré já sob o domínio da soja no latifúndio mecanizado.

Se olharmos o mapa do estado, há um triângulo retângulo cujos vértices são as cidades onde nasceram esses três gaúchos. Aureliano de Santiago, Noel de São Luiz Gonzaga e Jacaré de Santo Ângelo. A hipotenusa ligando Santiago do Boqueirão, no extremo sul, a Santo Ângelo.

São três mil quilômetros quadrados ou 1% do Rio Grande, em cujos limites está contida a catedral de pedra de São Miguel das Missões, expressão máxima do passado colonial, de um tempo anterior à nossa brasilidade e à própria ideia de gaúcho.

Entre 1952, ano do nascimento do Jacaré e 1959, ano da morte de Aureliano os três dividiram os ares desse triângulo mágico missioneiro, embora seja virtualmente impossível que hajam se encontrado em algum momento. O Dr. Aureliano clinicando em Santiago, Noel alistando-se no 3º Regimento de Cavalaria de São Luiz Gonzaga, para logo desertar e “se bandear pro outro lado” e tornar-se Guarany de fato. E Jacaré, piá, aprendendo as primeiras letras.

Jacaré e Noel, no entanto, apostaria que se conheceram. Uma atuação política convergente deve tê-los unido durante a ditadura. Noel fez um célebre show na greve dos bancários de 1979, onde além do Jacaré seguramente também estaria seu conterrâneo da Bossoroca e futuro governador Olívio Dutra.

No conto “a noite da boiguaçu”, d’o primeiro e o segundo homem, o personagem Tatuim, descrito como “um bugre guarani que envelheceu por São Miguel” canta versos da canção “potro sem dono”, de Paulo Portela Nunes, gravada por Noel no LP “… sem fronteira” de 1975. E em 1980 Noel fez um célebre show no Teatro Glória de Santa Maria, em que desanca a repressão, ainda em plena ditadura. Esse show foi postumamente lançado no disco “Destino Missioneiro”, único registro ao vivo da obra de Noel. Santa Maria onde estudaram Aureliano e Jacaré e onde morreu Noel.

Damos mais um salto que nos traz para a segunda metade da segunda década do século XXI, com a internet já completamente integrada à vida de todos, e com ela o hábito de passar de um assunto a outro, quando uma curiosidade inicial conduz a descobertas insuspeitadas e nos permite vislumbrar mundos desconhecidos sem sair da frente de uma tela.

aur-metzNum desses passeios em que uma página leva a outra que leva a mais outra, numa sucessão que nem a imaginação mais desenfreada é capaz de conceber, em alguma dessas conexões vejo que há uma biografia do Aureliano de Figueiredo Pinto escrita… por Luiz Sérgio Metz.

Pela internet achei o livro num sebo aqui de Brasília mesmo e em poucos dias o recebi pelo correio. Ao abrir o pacote, foi como um reencontro com um velho conhecido. O livro é o volume 33 da “Coleção Esses Gaúchos”, lançada há trinta anos para celebrar o sesquicentenário da revolução farroupilha.

Uma ótima ideia, de fazer um retrato do Estado a partir do perfil de 40 gaúchos, de Gilda Marinho a Getúlio Vargas, do Barão de Itararé a Jacobina Maurer. No inventário das bibliotecas perdidas tive um punhado deles, alguns comprados no supermercado, outros na própria livraria tchê!, ali na Salgado Filho, quase embaixo do viaduto Loureiro da Silva.

São livros pequenos, embora não exatamente de bolso, em edições simples, mas ilustradas e com fotos, e com uma liberdade editorial que surpreende e intriga nesta era de padronização e uniformidade. A edição é da tchê! e da RBS, com patrocínio do “banco Europeu para a América Latina”, cuja existência me era desconhecida até este momento. Parece que ainda existe.

A biografia do Aureliano pelo Jacaré tem 82 páginas, na capa uma caricatura desenhada pelo Juska, fotos do arquivo da família e ilustrações do Pedro Alice, amigo querido, que muitas vezes dividia conosco a mesa do Copacabana nos domingos. É bem possível que tenha sido ele, lá no sexto parágrafo, quem tenha apresentado o Jacaré aos demais, pois agora vejo que andávamos por lá na época da gestação do livro. O exemplar que tenho nas mãos diz “impresso em junho de 1986” logo abaixo do copyright. Dez anos antes da morte do Jacaré, trinta anos antes deste inverno de 2016.

O exemplar traz na folha de rosto, escrito a caneta “Brasília jun 89” e uma assinatura ininteligível.

exemplar

Deduzo que o livro haja sido comprado por aqui mesmo, por algum gaúcho expatriado, três anos após o lançamento.

A letra manuscrita aparece novamente nas páginas do capítulo intitulado “Identificação e Roteiro”, que faz as vezes de nota biográfica. Na entrada relativa ao ano de 1926, são listados alguns nomes de companheiros de tertúlias de Aureliano quando morava na “rua da Olaria”, atual Lima e Silva, na Cidade Baixa, não muito longe do Copacabana. Depois de um “e tantos outros”, a mesma letra da folha de rosto registra um “entre os quais meu pai”.

A entrada relativa a 1938 trata do casamento de Aureliano com Zilah Lopes e lista seus três filhos: José Antônio, Laura Maria e Nuno Renan. O nome de Laura Maria está sublinhado em tinta laranja e se vê uma pequena estrela, quase um asterisco, que remete a uma nota ao pé da página, que se estende pela margem e diz: “fui seu par, no baile de debutantes, em 53 (!) De ‘recuerdo’ ganhei cuia/bomba de prata.”

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O antigo dono do livro foi par da filha de Aureliano em seu baile de debutantes, em 1953. Deveria ser um rapaz de 18 ou 20 anos, nascido no começo dos anos 30, quando Aureliano já estava de volta a Santiago e iniciava sua vida como médico. Já cinquentão, comprou a biografia do pai de seu par, muito longe de Santiago, na capital da república.

Há outros trechos destacados com a caneta laranja, até a página 20, onde o Jacaré destaca a relação de Aureliano com Getúlio Vargas, a quem nunca perdoou por haver traído os ideais daqueles que estiveram na linha de frente da Revolução de 30. Seria antigetulista, como Aureliano, o antigo dono do livro?

Depois disso quase não há mais textos destacados, apenas alguns versos mais ou menos no meio do volume, até que na página 56, na abertura do quinto capítulo do livro, está uma foto tomada no chalé da Praça XX, em que dois senhores estão diante de dois copos de chopp preto, olhando para o fotógrafo. E reaparece a caneta azul sob a foto, identificando os dois senhores: “Marçal de AB., meu pai. Aureliano”.

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A foto não tem data, mas as roupas de Marçal e Aureliano remetem a uma elegância dos anos quarenta; talvez seja do curto período que Aureliano passou em Porto Alegre em 1941, como sub-chefe da Casa Civil do interventor Cordeiro de Farias. Marçal veste um traje claro, com uma gravata borboleta, enquanto Aureliano leva um conjunto escuro, camisa branca, gravata de nó pequeno e lenço no bolso do paletó. Ambos de chapéu, os dois Fedora de aba reta, o de Aureliano de copa mais alta.

Não há dúvida de que o expatriado santiaguense que me legou a biografia de Aureliano era de uma família muito próxima dos Figueiredo Pinto. Não só foi par no baile de Laura Maria em seu baile de debutante, como seu pai Marçal participava das tertúlias na rua da Olaria e privava da intimidade de um chopp no chalé da Praça XV.

É possível que o filho do Marçal já não esteja mais entre nós e que seus herdeiros hajam passado sua biblioteca para o sebo que me vendeu o singelo livrinho com a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto escrita por Luiz Sérgio Metz. Talvez a família não tenha mais nenhum vínculo com Santiago ou com os Figueiredo Pinto.

Por mais curioso que tudo isso me haja deixado, neste momento não disponho de tempo nem de meios para tentar deixar as coisas mais claras. Gostaria de perguntar ao Airton Ortiz detalhes da criação da coleção “esses gaúchos”, de como se escolheu o Jacaré para escrever sobre o Aureliano, de como os editores viram a forma que ele escolheu para o texto, com dois capítulos dedicados a uma entrevista imaginária que pareceu não interessar muito ao filho de Marçal AB, pois neles não há sequer um pedaço de texto destacado.

Seus netos devem morar aqui em Brasília e talvez tenham algo a contar sobre a relação do avô e do pai com os Figueiredo Pinto. Se fosse até Santiago talvez descobrisse que foi o par de Laura Maria no baile de debutantes de 1953 cuja biografia de Aureliano percorreu esse longo caminho até chegar a mim.

Sei que essas coincidências não querem dizer nada. Essa busca por um sentido em todas as coisas é um dos traços que nos fazem mais humanos, mas são somente mistificações que nascem do espanto que nos causa a complexidade do mundo, apreendida pela máquina de pensar do nosso cérebro. Mas mesmo com sua extraordinária capacidade, há sempre algo que se nos escapa. E daí o espanto, e as religiões e a filosofia e a poesia.

E dele decorre a necessidade de querer explicar, de buscar alguma coisa oculta, de interpretar sinais onde nada há além do caos, de arranjos probabilísticos aleatórios que nada significam. Mas não cansamos de tentar ligar os pontos, de unir alguns fios soltos que pendem da colcha que nossa história tece, alheia às nossas agruras e preocupações.

Devolvo os livros à estante e configuro o ipod para o modo aleatório. Sempre que o misterioso algoritmo que o governa trouxer de volta Noel e Aureliano aos meus olvidos vou lembrar de tudo isso outra vez. E quando sentar no salão principal do Copa vou brindar à memória de Luiz Sérgio Jacaré Metz, que há vinte anos deixou aquelas mesas pra nunca mais voltar.

Luiz Sérgio Jacaré Metz

Luiz Sérgio Jacaré Metz

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Minha amiga Asli e a m… de qualidade

Mesmo que só a conheça pelo Facebook, é um privilégio ser amigo de Asli Berktay. A Elena certamente concorda. Nunca nos vimos pessoalmente, mas talvez possa escrever algumas linhas mais ou menos objetivas a respeito dela. Ela nasceu na Turquia e é doutora em Estudos Latino-americanos pela Tulane University (EUA). Penso que é historiadora — sim, não tenho certeza — mas é tão multi-facetada que pode ser o que quiser. Escreve sobre antropologia, política, música, literatura, gatos e o escambau, sempre com extremo conhecimento. Como eu, detesta as pessoas que chutam sobre qualquer assunto. (Lembro de uma postagem irritada onde reclamava das pessoas que “podiam se permitir pensar e falar qualquer coisa”). Tem trinta e poucos anos e fala sei lá quantas línguas, mas não de um jeito estropiado, como vocês poderão notar pelo texto abaixo, escrito por ela em português. Diz que é “possuidora desesperada de Wanderlust, existindo entre a África, o Brasil, as costas do Caribe e do Egeu”. É realmente complicado explicar Asli, tal é a amplitude da moça. Ainda mais que creio ter lido que ela aprendeu a ler em francês… E que gostava de jogar futebol… Tenho em meu micro vários de seus textos, pois não quero perdê-los no pântano volátil do Facebook. Mas querem saber porque acho estranho apresentar a Asli? Porque seu currículo não me interessa. Me interessa o que ela compartilha com um monte de gente, incluindo eu e a Elena. Me interessa a poesia do que escreve e a beleza de suas fotos, onde se vê claramente sua inteligência e seu interesse por tudo. Abaixo, ela escreve uma crônica familiar que toca em sua formação, principalmente a literária. Achei interessante porque minha mãe falava em “arte perecível” e mandava eu ler ou ouvir apenas coisas de mais de 30 anos. Isto é, aquelas tivessem sobrevivido a este período. Era uma variação sobre o padrão de qualidade defendido pela avó da Asli. Ah, e minha mãe também jamais diria “merda”. 

Ao centro, a Asli

Ao centro, Asli em uma de suas mais lindas fotos

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Hoje acordei com uma recordação vívida de algo ocorrido há mais de 20 anos. Eu deveria ter 12 ou 13 acho, e estava com a minha avó paterna durante o verão na casa de férias dela em Bodrum. Sim, Bodrum, aquele balneário onde foi encontrado o corpo de Aylan Kurdî. Eu passava umas três semanas com ela cada verão, e o nosso ritmo era quase sempre o mesmo, alternando-se entre o mar, a comida, e longas horas de leitura. Minha avó e o marido dela, o meu avô nunca conheci, eram comunistas ardentes que espalharam uma forte disciplina comunista a todas as partes das suas vidas, e sobretudo na educação dos filhos. Meu pai pegou bastante disso também e eu passei pelas consequências. Já não sobrava muito ao nascimento da minha irmã quando eu já tinha quase 15 anos, e ela só conheceu a nossa avó no final da vida dela, quando ela já estava condenada à cama. Mas eu sim peguei a minha dose dessa disciplina.

Bom. Então, essas longas horas de leitura não eram livres, claro. Eu sempre tinha listas, livros que precisava ler para completar a minha educação. Naquele verão, a necessidade que via a minha avó era mais forte ainda, pois aquela Asli adolescente tinha começado de ler histórias de horror e tal, assim como outras coisas que a minha avó considerava de baixíssima qualidade. Então, ela decidiu que aquele verão ia ser de literatura russa. Com 12 anos, eu já tinha lido os “mais clássicos” para assim dizer: Tolstoy, Dostoyevski, Pushkin, Pasternak. Os textos integrais claro, o oposto teria sido inimaginável. Lembro muito bem que após ter terminado Doutor Jivago, as únicas imagens que ficaram na minha mente eram de frio e um monte de gente tomando vodka. Quando não tinha vodka, eles bebiam álcool isopropílico. Vá entender o sentido que faz de dar um livro desses a uma menina de 11 anos!!

Então naquele verão a minha educação de literatura russa era para ser completada. Começou por Chekhov que eu gostei bastante, e incluiu uma tortura demorada dos quatro volumes de And Quiet Flows The Don (para nós, O Don Silencioso) de Sholokhov. Não faço ideia de como foi traduzido ao português. E uma vez parado o devagar e difícil fluxo do Rio Don, chegou a hora de Lermontov. Naquela hora, a menina de 12 ou 13 anos já estava de saco cheio mesmo. E Lermontov chegou com umas imagens horrorosas de cossacos torturados, um com a orelha cortada por aqui, outro sem língua por ai. Violência por todas partes, sangue correndo em todas as direções. Já era a hora de uma conversa séria com a minha avó. Então me preparei, aperfeiçoei o argumento de “se você não quer que eu leia livros de crime por causa da violência e o horror, o quê será isso” e a enfrentei. Fiz um belo discurso de uns vinte minutos, fiquei satisfeita, achando-me muito convincente.

A minha avó ouviu tudo, me olhou por uns minutos, sorriu e foi procurar um dos meus livros de crime/horror de baixa qualidade. Disse que o tinha trazido com ela para quando esse momento chegar. Ao me passar o livro, ela afirmou que ia chegar o dia em que eu ia saber diferenciar entre horror de alta e de baixa qualidade. Ela queria, pelo menos, ter-me apresentado a essa primeira categoria. Também, ela sabia que eu sempre ia gostar da segunda categoria também, que isso fazia parte da minha natureza. E que eu sempre ia ser uma pessoa diversificada, e muito dividida. Mas a responsabilidade dela era me apresentar o padrão de qualidade, para eu logo poder saber quando lia merda, assistia merda, ou fazia merda, que aquilo era merda mesmo. Claro que para ela, o que era “merda” não estava aberto a discussão, ela sabia o que era merda e o que não. E mulher fina que ela era, ela não disse merda, mas já sabia que a expressão que eu ia usar um dia ia ser essa. Concordou que merecia um descanso, então me deixou ler merda à vontade por um tempo. Lembro que, depois desses dias, voltei para Lermontov e acabei de ler os três livros que tínhamos trazido à praia. As únicas imagens que realmente ficaram comigo são ainda de cossacos torturados e de paisagens de desolação. A saudade que sinto pela minha avó, por outro lado, é enorme, e cheia de imagens cada vez mais vivas…

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Todos os dias na Biblioteca Pública

Mesmo que o porto-alegrense não seja educado, mesmo que alguns fiquem conversando continuamente em voz baixa, ir ao meio-dia até a Sala de Leitura na Biblioteca Pública da Rua Riachuelo é como se eu tivesse recebido férias de 30 minutos. Alivia. Tenho uma hora de almoço, me alimento rapidamente e subo a Ladeira para chegar até o velho prédio. Aviso o gentil senhor que cuida da sala que entrei com um livro, anoto seu nome e autor e descanso um pouco das más e péssimas notícias de todos os dias.

Hoje eu saí mais tarde e fiquei apenas 15 minutos. Deu para ler apenas dez páginas, mas é uma alegria poder descer a rua com a cabeça em outro contexto. É um conforto moral, um consolo, desafoga.

Ramiro Furquim / Sul21

Ramiro Furquim / Sul21

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Do curioso linguajar dos pampas

Gauchos chimarrãoCom a consultoria de Milton Saad

Vocês lembram do Analista de Bagé do Luís Fernando Verissimo? Pois a mãe de um amigo meu — crasso bageense — diz coisas muito parecidas. Conheci-o há uns 5 anos. É provavelmente a pessoa mais engraçada que conheço. Não faz aquele humor palhaço, seu humor é verbal e raramente usa o recurso da imitação. Acho que todos nós concordamos que todo humor é precedido por inteligência e capacidade de observação especiais. Ele as possui em doses cavalares. Um dia ainda farei uma antologia dele, porém hoje prefiro ir a Bagé tomar um mate com sua mãe, ainda moradora da cidade do analista. Enquanto a chaleira não chia, começamos a entrar no clima recordando o imortal Analista da cidade.

Luís Fernando Veríssimo:

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

— Certo, certo. Eu…

— Aceita um mate?

— Um quê? Ah, não. Obrigado.

— Pos desembucha.

— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

— Certo. Bem, acho que o meu problema é com a minha mãe.

— Outro.

— Outro?

— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

— E o senhor acha…

— Eu acho uma pôca vergonha.

— Mas…

— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

Agora, comparem as expressões de nosso analista com as da mãe de meu amigo. Entre parênteses, algumas observações minhas e dele.

— Para quem está se afogando jacaré é tronco (Sensacional! Fico imaginando o sujeito se afogando, passa um jacaré…).
— Tranquilo como sono de surdo!
— Calmo como cozinheiro de hospício! (Aqui há controvérsias, uns acham que é preciso ser muito calmo para aguentar aqueles loucos, outros – eu entre estes – acham que os loucos estão noutra e não dão importância à fome ou à pontualidade; daí, a calma).
— Mais pesado que pastel de batata-doce.
— Curto como coice de porco.
— Dei-lhe uma atrás da outra, como punhalada de louco (Esta é maravilhosa!).
— Perdido como cusco em procissão (Um clássico).
— Frio de renguear cusco (Parando para analisar, esta é sensacional. Renguear é mancar).
— Mais enfeitado que bidê de china (Em Bagé, bidê é o mesmo que cômoda. Chinas são originariamente todas as mulheres que não são sinhás, que são as donas de fazendas, mulheres dos senhores).
— Mais assanhado que bolicheiro de campanha (Bolicho é um bar que vende de tudo um pouco, mas principalmente bebidas. Dizem que quando não tem freguês, o bolicheiro vai para a calçada assobiar para todas as mulheres que passam; afinal, macho que é macho come qualquer uma).
— Isso é manotaço de afogado! (Perfeito! Resposta que se deve dar quando alguém não tem mais argumentos numa discussão e passa dizer quaisquer absurdos ou a ofender seus oponentes).

E o mais usado:
— Não tá morto quem peleia, já dizia uma ovelha no meio de quarenta cachorros. (Que macheza!)

Para terminar, vamos a duas do pai do meu amigo. Notem como o estilo torna-se sensivelmente mais grosso e anal…:

— Pomba que come pedra, sabe o cu que tem.
— Não sou lagoa para refrescar cu de pato. (Quando pediam dinheiro para ele).
— Mais perdido que peido em bombacha (Outro clássico).

Eu sou um gaúcho 100% urbano e portoalegrense, que nunca montou num cavalo ou morou no interior e que não gosta de chimarrão. O que faço escrevendo isso, meu caro Analista de Bagé? Seria um ato falho? Mereço um joelhaço?

Colaboraçães de Henrique Bente:

— Cavalo de pinguço sabe onde bolicho dá sombra (se não me engano, é uma das anotações do velho Adão, o pai do Analista de Bagé).
— Más assustado que véia em canoa.
— Más perfumado que mão de barbeiro.

E minha expressão favorita de êxtase:
— Feliz que nem pinto no lixo.

Colaboração de Gustavo Uriartt:

— Mais ligado que rádio de preso.

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Carolina, a mulher que “não deu filhos” a Machado de Assis

CARTADEmachadoecarolinaLi hoje contrariado um texto que dizia que a esposa de Machado de Assis — a muito amada Carolina Augusta Xavier de Novais — “não tinha lhe dado filhos”. Céus, que expressão boba. Se Carolina não deu a filhos a Joaquim Maria, também Joaquim Maria não os deu a Carolina. E não creio que ninguém considere Machado incompleto porque não teve filhos. “…não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, escreveu o personagem-título de Memórias Póstumas de Brás Cubas. E se isto vale para um homem, vale para uma mulher.

Mas é fato que algumas pessoas com filhos veem com desconfiança os que não têm. Parece que traem a espécie humana. Em nosso passado agrário, ter filhos até podia ser uma questão fundamental. Afinal, famílias grandes podiam trabalhar extensões maiores de terra, produzindo maior prosperidade e alimento. Além disso, os pais contavam com os filhos para suportarem melhor a velhice.

Lembro que alguns antigos casais narravam com orgulho o fato de terem voltado da lua-de-mel com uma encomenda. E, se a coisa demorasse a acontecer, o mundo passava a ver a mulher — e exclusivamente ela — como portadoras de algum distúrbio, como a Carolina de Machado. E se o problema fosse com o cara?

Porém, em nossos dias, sabemos que a maioria de nossos filhos não cuidará de nós na velhice e nem renderá grana.

Outro fato atual é que o sexo parece estar cada vez mais afastado da reprodução. O cara não precisa ser um Bach para ser considerado viril e nem a mulher super parideira é um sucesso. Também nunca ouvi um amigo dizer publicamente que gostaria de ter filhos com uma mulher, só ouvi que “essa é pra casar”, quase sempre dito em tom de brincadeira para uma mulher linda e inteligente.

Para mim, ter filhos foi e é motivo de enorme grande alegria. Mas e daí que alguns não tenham? É uma escolha facultativa mesmo neste país atrasado, evangélico e sem aborto legal. É uma escolha que não é simples, pois significa a forma de vida que alguém quer para si. E, para os que não conseguem tê-los por algum motivo físico, há milhares de crianças necessitadas de pais que lhes deem amor.

Mas tudo isso só pela frase sobre Carolina?

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Chuva

livro-cem-anos-de-solidaoOntem, estava saindo do Guion Cinemas, olhei para fora e vi toda aquela chuva com o reflexo das luzes no chão do Nova Olaria. Pensei num dia em que estava viajando com a Elena e ela não voltava e não voltava. Estávamos em Londres e chovia aquela chuva de lá, que raramente é forte. Poucos usam guarda-chuvas na capital britânica, mas a Elena detesta chuva e seria bem capaz de ficar esperando que passasse. Mas também poderia estar perdida ou refém de um comando terrorista. E eu no quarto do hotel, cada vez mais angustiado. Desci até a recepção e contei meu drama para o atendente. O cara achou graça e disse que ninguém se perdia em Londres. Então, pensei num mal súbito.

Sem aguentar esperar, dirigi-me até a frente do hotel e raciocinei sobre como deveria fazer para encontrá-la em seu caminho de volta, se ela não estivesse numa maca de hospital. E fui. Andei umas três quadras e a vi de longe, com seu andar calmo e deslizante de quem teve mãe bailarina. Fiquei com vergonha de minha histeria. E diminuí o ritmo dos passos para observá-la melhor. Roupa cinza, ela vinha com o casaco sobre a cabeça, protegendo-se da chuva fraca. Uma bonita figura. E lembrei de como ela não suportaria Macondo. Dias antes ela tinha me dito que seu livro preferido na juventude fora uma edição russa de Cem Anos de Solidão de um tal Márquez. Como ela disse só o último nome do autor, eu achei que ela falava em Marx. Aí eu expliquei que aqui se dizia García Márquez.

Mas não tive tempo de seguir conjeturando porque tive que abrir meus braços para ela.

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Machado de Assis e a Exibicionista

Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar.
Machado de Assis, em Missa do Galo

Anteontem, me senti como o Nogueira da Missa do Galo, o que não entendeu D. Conceição.

Eu esperava a Elena chegar enquanto uma mulher roçava-se em seu amigo ou amante ou marido, olhando para mim. Sempre olhando para mim. Na hora, achei que fosse algo casual — vocês sabem, estou a anos-luz de ser um Paul Newman ou Alain Delon, além disso, estou perto dos sessenta, isto é, sou feio e sem atrativos –, mas quando voltava meus olhos para lá, ela me olhava.

Impossível dizer que seja envergonhado, mas também não sou cara-de-pau. Minha possível vergonha fica sob o Homo Faber que sou e aquilo que posso chamar de Homo Ludens, alguém sempre pronto a se divertir. Esta criança interior ri, avacalha e satiriza muito. De certa forma, ela me protege.

E comecei a ficar irônico. Eu dava um tempo, mas quando passava meus olhos pela cena, estava sendo observado. E aguardava… Era um local absolutamente público, aberto, na rua. Cada um se excita a seu modo, talvez dissesse Machado. Há parafilias para todos os gostos. O exibicionista tem a fantasia de que o observador ficará sexualmente excitado, o que só aumenta sua própria excitação. Então, eu era um reles apoio. Como não se divertir, ainda mais que estava esperando, sem fazer nada?

Elena chegou toda linda e feliz. Sempre fico surpreso com sua alegria ao me ver.

.oOo.

O conto Missa do Galo é uma das obra-primas de Machado. As histórias de Machado costumam ser assim: ele conta o que ocorreu trinta anos. A Missa também é um conto retrospectivo. Maduro, o narrador Nogueira relata um acontecimento do passado. Menino do interior, quando tinha 17 anos, Nogueira morava na casa do escrivão Meneses. Estava ali, no Rio de Janeiro, para estudar. Naquele ano, já de férias, prolongou sua estada na Corte a fim de assistir à Missa do Galo. O escrivão Meneses, mesmo casado com dona Conceição — uma santa, segundo o narrador — mantinha um caso extraconjugal. Todos sabiam disso, inclusive sua esposa. Uma vez por semana, dizia que iria a um teatro ou outro lugar e ia encontrar-se com a amante. A noite de Natal foi uma dessas ocasiões e Conceição devia estar especialmente ofendida.

E a santa provavelmente pensou que a saída do marido propiciaria condições para que ela própria tivesse uma aventura. Assim, ao que tudo indica — pois como sempre Machado não afirma nada —  premedita um encontro com o jovem. Lendo na sala, o jovem Nogueira aguarda o horário da Missa e ela chega, procurando ser envolvente. E ele não capta as intenções de Conceição. Suas roupas, seus gestos, suas atitudes, seu andar, suas frases ambíguas são de sedução. Mas, vocês sabem, há o momento da sedução. Quando este passa, o reaquecimento é complicado. E tudo esfria, só reaquecendo inutilmente na memória de Nogueira, muito tempo depois.

Sim, não tem muito a ver com a situação que vivenciei, só o fato de eu ter ficado sem entender nada.

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.”

Pode-se entender, se nem mesmo o narrador entende?

cinema leo

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O Marabá está morto

Não há quase mais cinemas de rua em Porto Alegre. Todos os cinemas se internaram em shoppings ou em Centros “Culturais”. À noite, não se vê mais placas luminosas de letras quase sempre tortas ou faltantes anunciando filmes. Além, disto, os cinemas reduziram seu tamanho. Já faz tempo que desapareceram aquelas imensas salas em que funcionários com lanterninhas nos indicavam os lugares livres, pois lotavam… A televisão, o VHS, o DVD, o Now, o Netflix, aliados à falta de espaço, de tempo e charme transformaram nossas salas em coisas diminutas e bonitinhas, mas com pouco a mostrar na tela. Os filmes mudaram, tornaram-se infantis, acelerados, meio bestas. Suas fórmulas passaram a se repetir como os sapatos à venda nos shoppings e alguns são criados como em série, como Big Macs.

Mas a época do Marabá era diferente. O Marabá era um cinema que ficava em um bairro contíguo ao centro da cidade. Ou no bairro mais próximo a ele, se considerarmos que nosso centro é, na verdade, uma ponta enfiada no rio-lagoa-estuário Guaíba. O Marabá não tinha nenhum charme, não era frequentado por mulheres elegantes que deixavam rastros não de ódio, mas de perfume atrás de si. Essas iam a outros lugares. Nenhuma surpresa nisto, pois o Marabá, fora construído para passar reprises e porcarias. Os filmes mais artísticos que lá vi foram as obras-primas kitsch de Jack Arnold: O Monstro da Lagoa Negra, O incrível homem que encolheu e — como esquecer dos gritos da mocinha? — A Revanche do Monstro. O enorme cinema ficava na rua Cel. Genuíno, 210, próximo à Av. José do Patrocínio. Só que, um dia, cansado de tanto passar filmes ruins, alguém por lá enlouqueceu por lá e começou a passar somente grandes filmes em programas duplos. Eram apenas duas sessões — uma iniciava às 14h e outra às 20h — mas, meus amigos, que sessões! Um belo dia, estando eu na casa dos quinze anos, abri o jornal e li que o Marabá passava A Noite, de Antonioni, e Viridiana (*), de Buñuel, em seu programa duplo. Talvez a nova geração desconheça a expressão “programa duplo”. É o seguinte: semanalmente, eram apresentados dois filmes com um pequeno intervalo no meio para irmos ao banheiro e ao bar comprar balas, fumar, conversar, beber, namorar ou simplesmente esticar as pernas. Só que os programas duplos apresentavam normalmente filmes pornográficos ou de pancadaria. Nunca coisas daquele calibre.

Eu e um bando de loucos por cinema começamos a acorrer ao lúgubre Marabá. Aposentados e desocupados também pagavam o ingresso baratíssimo do cinema não muito limpo. Grupos de estudantes vinham ver e rever filmes enquanto matavam aulas. Minha sessão habitual era a das 14h; formávamos uma peculiar fauna de jovens secundaristas, universitários, velhos e desempregados. Lembro de ter saído muitas vezes rapidamente de casa, batido a porta, lembro de pegar e pagar o ônibus, de parar nas imediações do centro e de correr como Catherine, Jules e Jim (ou Lola, para os mais jovens) em direção ao cinema. Comigo, chegavam outros esbaforidos. Trocávamos um cumprimento rápido e entrávamos. Comigo, muitas vezes veio Maria Cristina, minha primeira namorada; quando víamos os filmes pela primeira vez, não protagonizávamos grandes cenas de amor nas poltronas desconfortáveis de encosto de madeira, deixávamos para fazer isto em frente a sua casa, na rua Santana. No máximo, trocávamos alguns beijos apaixonados no intervalo — afinal, estávamos ali pelo cinema. Porém, quando conseguíamos ir duas vezes na mesma semana, a segunda tarde era dedicada quase que inteiramente ao amor. Foi numa cadeira do Marabá — ou em duas, mais precisamente — que minhas mãos e boca tiveram seu primeiro contato com o seio feminino. Inesquecível. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que fiz pela primeira vez no Marabá, mas não exagerem na imaginação, pois nossa primeira relação sexual, a minha e a dela, ocorreu numa noite, atrás do sofá da sala de sua casa… Voltemos ao cinema.

Depois vieram outros programas duplos. Houve Gritos e Sussurros (Bergman) e Amarcord (Fellini), Jules e Jim (Truffaut) e Ascensor para o Cadafalso (Malle), O Mensageiro (Losey) e Petúlia, um Demônio de Mulher (Lester), Janela Indiscreta e Um corpo que cai (ambos de Hitchcock), Cidadão Kane e A Marca da Maldade (ambos de Welles), Paixões que alucinam (Fuller) e O Sétimo Selo (Bergman), O Magnífico (de Broca) e A Malvada (All About Eve, de Mankewicz), West Side Story (Wise-Robbins) e O Criado (Losey), e, comprovando que a loucura tomara conta do programador, houve Andrei Rublev (Tarkovski) e Acossado (Godard), evento que deixou nossas bundas quadradas por longo tempo. Em 1975, após um programa duplo que apresentava Contos da Lua Vaga (Mizoguchi) e Morangos Silvestres (Bergman), comecei a ter aulas à tarde e a estudar para o exame vestibular. Planejava voltar ao Marabá quando entrasse na universidade, em 1976. Só que, neste ínterim, o Marabá morreu para virar garagem. Sim, após Dillinger está morto (Ferreri) fazer dupla com Um Caso de Amor ou O Drama da Funcionária dos Correios (Makavejev) começou a demolição. Ou seja, a glória do Marabá, um cinema de 1800 lugares fundado em 1947, era sua agonia, a agonia de um querido dinossauro.

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre e também não há nenhuma cinemateca alucinada e radical como o Marabá. Quando as salas menores pareciam ter o poder de reabilitar para nós a gloriosa história do cinema, algo as trouxe para a isonômica mediocridade dos blockbusters. Resta-nos o egoísmo do DVD, resta-nos ver os filmes em nossa casa, às vezes na cama, podendo a sessão ser interrompida pelo telefone ou pela campainha da porta. Apesar das imagens perfeitas, não há o ritual de ir ao cinema, nem a sala escura onde somos ininterrompíveis, nem — perversão minha — o divino cheiro de mofo do Marabá, hoje substituído pela fuligem dos automóveis e pelos gritos dos manobristas.

(*) Aquele Viridiana tinha uma curiosidade que muito nos fez pensar. O filme começava com todos os atores falando espanhol, depois, subitamente, todos aderiam ao francês. Só as legendas permaneciam na língua de Camões. Alguns espectadores desejavam discutir esta característica do filme. Descobrimos depois, conversando no saguão do cinema, que houvera uma troca de rolos por parte da distribuidora e que naquele momento, em Recife, talvez Fernando Monteiro estivesse vendo o filme com sua primeira metade em francês e a segunda em espanhol.

A Cel. Genuíno hoje. Ela é a da direita.

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Anotações sobre censura. Ou autocensura

Isto é mera anotação, então, para efeito de organização, vou dividir o texto em três partes: a dos grandes jornais, presentes na mídia impressa e na eletrônica; a das mídias nanicas ou alternativas, muito mais presentes na mídia eletrônica do que na impressa; e a liberdade de expressão artística. Só pitacos.

censuraA censura no Brasil acabou oficialmente no dia 3 de agosto de 1988, quando foi votada a Constituição Brasileira ainda em vigor, porém, dificilmente alguém poderá falar em plena liberdade de expressão, seja ela impressa ou eletrônica.

Falemos um pouco sobre a liberdade de expressão dentro da mídia tradicional. Boa parte do trabalho da grande imprensa é o de acomodar interesses, próprios e de anunciantes. As famílias Marinho, Civita, Mesquita, Frias, Abravanel, Sirotsky, Sarney e outras têm suas visões particulares estampadas em suas publicações. O jornalista que trabalha nestes órgãos necessita ter cuidado para não elogiar políticos ou políticas de esquerda, nem atacar anunciantes.

Os anunciantes. Dificilmente um grande anunciante do jornal será criticado. Ele sustenta o jornal e quem paga a festa escolhe a música. Então, a loja ou o fabricante que tem anúncios de página inteira dificilmente será criticado por alguma ação, postura ou fato que o envolva. Mas há mais. Às vezes, os próprios grupos de comunicação têm outras empresas associadas, tais como construtoras, vinícolas e outras. E o jornal protegerá os produtos de seus afilhados, obviamente.

E há algumas coisas que acho duvidosas, apesar de permitidas.

Um grande jornal de Porto Alegre começou a veicular “gratuitamente” uma série de anúncios de uma determinada loja sob a condição de que tivesse participação nos lucros. É claro que os concorrentes desta loja reagiram, pagando anúncios… no mesmo jornal. E o jornal passou a ganhar dos dois lados. Eles chamam isto de “abrir mercado”. Não é proibido fazê-lo, mas talvez não seja uma interferência lá muito ética.

Para deixar a vida da grande imprensa mais confortável, o grosso das verbas publicitárias federais – mesmo durante os governos do PT – continuaram em seu caminho para os grandes grupos, que apenas não cresceram durante este período em razão do surgimento da internet.

E estes oligopólios existem incrivelmente à margem de uma Constituição que não regulamenta a atuação da mídia. A Constituição diz, vagamente, que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (parágrafo 5º do artigo 220), porém apenas uns poucos grupos privados controlam os meios de comunicação através de “redes” de afiliadas cuja “formação” não obedece a qualquer regulação. Só a RBS tem doze emissoras de tevê no RS. Tinha mais nove em SC. E apresenta boa parte da programação da Globo.

Evidentemente, a concentração dos meios de comunicação resulta em pouca pluralidade de informação. Para piorar, assim concentrada, a informação vem de uma elite econômica que não costuma ter horizontes muito longínquos de si.

Já a mídia alternativa caracteriza-se principalmente por sua pobreza. Ela não tem TVs ou rádios e poucas são impressas. Usam a internet, onde também os grandes grupos trabalham. Os anunciantes não lhe dão muita importância. As próprias agências de propaganda dizem que a diferença do discurso dela em relação à grande mídia é assustadora para seus clientes. O jornal onde trabalho tem 100 mil seguidores no facebook e 1,5 milhão de acessos mensais. Não é pouca coisa e não houve mês em que não tenhamos crescido. Mesmo assim, poucos anunciantes se arriscam.

Como são empresas sem muito capital, tudo o que não desejam são processos na Justiça. Mesmo que os ganhem, o custo dos advogados podem ser fatais para seus modestos fluxos de caixa. Esta é a forma de intimidação que sofrem.

Imaginem que já vi processos movidos por brigadianos cujos rostos apareceram em matérias de jornal. Eles estavam fardados, trabalhando, mas disseram que suas imagens foram utilizadas e prejudicadas. Já ouvi alguns autores de ações deste tipo serem questionados por juízes. E fica claro que quem sugeriu o processo a eles foram seus superiores.

O próprio ministro do STF, Gilmar Mendes, processou por danos morais Guilherme Boulos, coordenador do MTST, por um artigo que este escreveu criticando a atuação do magistrado. Gilmar pedia R$ 100 mil. Perdeu a ação, mas poderia ter ganho. E Boulos deve ter gastado o que não tem com advogados.

Já eu fui processado pela atual vereadora Mônica Leal. Não vou entrar em detalhes, mas perdi. Paguei 11 mil. Adivinhem se sigo criticando e rindo de Mônica. É óbvio que não.

Depois disso me senti como ela queria: intimidado. Não tenho 11 mil para distribuir a cada texto que publico. Muita gente sentiu peninha e até pensei em pagar por vaquinha virtual (crowdfunding ou financiamento coletivo). Mas não tive cara de pau suficiente. Paguei do meu mesmo. Ou seja, aqui a falta de liberdade de expressão é estabelecida pela intimidação.

E creio que outro gênero de pressão é feita sobre os artistas. Se um escritor combativo escrever contra um prefeito ou governador, poderá perder rendimentos. É que hoje uma das principais fontes de renda de escritores e músicos são os festivais e feiras. Os autores passaram a viver de suas participações em eventos. Não há mal nenhum nisso. Porém, quando um deles se posiciona, acaba por decepcionar 50% e fecha mercado para si mesmo.

Se você, por exemplo, for convidado por uma Secretaria de Cultura do PSDB e se declarar eleitor do PSOL, deixará de ser convidado. Então, atualmente, boa parte dos autores brasileiros são chapa branca, isto é, agradam a quem estiver no poder. A maioria demitiu-se da nobre posição histórica de serem uma espécie de consciência de suas sociedades. Eles não opinam e, obviamente, não influenciam suas sociedades. Vários deles são especialistas em aderir ao novo Secretário de Cultura. Claro que, se conseguem uma boa relação com PT, PMDB e PP, significa que nunca fizeram comentários políticos públicos, ou seja, sempre praticaram a autocensura.

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Caminhando para o trabalho

Venho diariamente a pé para o trabalho. Saio em horários muito próximos. Às vezes às 7h10, outras às 7h20 e, se estiver muito atrasado, às 7h40. Quando se caminha numa cidade como Porto Alegre, a gente tem que estar atento a quem está próximo. Ainda não fui roubado, mas é somente questão de tempo, se depender de nosso governador. Ando com fones de ouvido, ouvindo um CD completo cada manhã, sempre de música erudita ou jazz. E vejo como os grupos de cada horário se repetem de forma diferente.

Ali do lado direito, eu poderia estar descendo a Rua da Praia | Imagem distorcida: Google Maps

Ali do lado direito, eu poderia estar descendo a Rua da Praia | Imagem distorcida: Google Maps

Se saio no primeiro horário, logo vejo o homem negro no café em frente ao Colégio Rosário. Ele sempre usa alguma coisa do Inter em sua roupa. Não o vi hoje, pois saí no terceiro horário, mas tenho certeza que ele estaria com um abrigo perfeitamente colorado, defendendo-se do frio. Ele come torrada e bebe de uma xícara grande. Acho que café com leite. Ainda no primeiro horário há a loira alta e desajeitada que agora passou a usar óculos para deter a luz de seu olhar azul. Ela é muito apressada, tem menos de 20 anos e, pela pressa, dorme muito ou demora para sair.

Saindo no segundo horário, os das 7h20, há o guri dos músculos. Ele sempre dá um jeito de mostrar seus bíceps ou outra coisa que julgue poderosa. Como faço este caminho há quase três anos, sei que suas tatuagens têm menos de um e mostram lutas terríveis entre pássaros e cobras. Tenho vontade de lhe perguntar porque ele desenhou no braço uma galinha comendo uma minhoca, mas é melhor não. Neste horário, temos também o grupo de estudantes que desce a Independência de skate pelo corredor de ônibus e lotações. Mas eles passam muito rápido e jamais os reconheceria.

No terceiro horário, temos a velha anoréxica e o velho das meias. A velha anoréxica é isso mesmo. Ela caminha e treme um pouco a cada passo. É como se fosse cair de tão magra. A coitada deve trabalhar demais e seu cabelo, repartido do lado, toma-lhe tempo, porque é visível e minuciosamente alisado, formando uma franja estilo Hitler que lhe cobre diagonalmente a testa. Lava roupas em casa, pois algumas vezes carrega uma trouxa branca. Já o velho das meias fica na frente de um edifício quase na Senhor dos Passos. Ele e mais dois amigos ficam conversando, creio que sobre futebol ou fazendo observações sobre as mulheres que passam. Ouvi alguma coisa rapidamente. Certamente tem problemas circulatórios, pois usa meias de compressão para ajudar na circulação de sangue nas pernas. No verão, usava bermudas e as tais meias. Eu sempre olhava para elas. Tem um grande queixo de prognata e olhos de gente que se irrita facilmente. Como saí tarde, hoje foi o dia em que os vi.

Mas há muito mais. Temos a perua da Praça Dom Feliciano que desce na direção da Pinto Bandeira, o barítono cego vendedor de bilhetes que grita olha a megasena premiada e minha preferida, a vendedora de jornais da esquina da Rua da Praia com a Borges. Quando compro alguma coisa dela, sempre pergunto o preço e ela me responde terminando a frase com amado. Tem ar de mãe de toda a Borges e sorri muito. Um dia, estava perigando chover e ela me mandou apressar o passo.

Quando subo a Travessa Acelino de Carvalho, que liga o calçadão da Rua da Praia à Rua Andrade Neves, sinto o cheiro do mijo de quem passou ali à noite e a moça da lancheria à direita que quase sempre me dá bom dia. E chego ao edifício onde trabalho. Nosso porteiro é um gremista meio de lua que raramente diz alguma coisa quando chego. Afinal, está concentrado no jogo de xadrez do computador.

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A última resistência cai e a mulher vai tomando definitivamente a batuta

A nomeação de uma regente titular para a orquestra de Birmingham é sinal inequívoco de novos rumos.

No Dia Internacional da Mulher,
Para todas as mulheres que trabalham em orquestras medievais.

Mirga Grazinyte-Tyla

A regente lituana Mirga Grazinyte-Tyla

O último bastião sexista da música erudita está indo ao chão. A City of Birmingham Symphony Orchestra, mais conhecida como CBSO, uma das mais respeitadas do planeta, anunciou no início de fevereiro que seu maestro titular será uma maestrina: a lituana Mirga Grazinyte-Tyla (Vilnius, 1986). Seus dois antecessores no cargo foram gigantes: Simon Rattle e Andris Nelsons. Rattle de saiu de Birmingham em 2002 para o cobiçado posto na Filarmônica de Berlim e Nelsons recentemente foi para a Sinfônica de Boston e a Gewandhaus Leipzig.

Grazinyte-Tyla é, de certa forma, ligada a outro craque da regência, o venezuelano Gustavo Dudamel. Ela foi assistente dele Dudamel na Filarmônica de Los Angeles a partir de 2012. Dois anos depois, ela começou a dirigir seus próprios concertos matinais no Walt Disney Hall. E logo surgiu na cidade californiana o que um crítico do Los Angeles Times denominou de “Mirgamanía”. Adjetivos como “naturalidade”, “dinâmico” e “forte” costumam acompanhá-la. Trata-se de uma excelente maestrina, e esta é sua outra conexão com Dudamel.

A maestrina lituana Mirga Grazinyte-Tyla

Mirga mandando ver.

Tais fatos vão mexendo as peças do jogo. Grazinyte-Tyla não faz o estilo fora de moda do gerentão irritado. Carrega com leveza aquilo que Elias Canetti chamou de “a expressão mais óbvia de poder”. Dona de grande carisma, ela constrói um modelo diferente com base na cumplicidade e empatia com os músicos: “Reger é algo que fica entre a inspiração e a comunicação. Com os músicos, busco encontrar uma forma de soar e de interpretar. A sensação de compartilhamento deste milagre é fundamental”, disse em uma entrevista para o site da CBSO.

A escolha do Grazinyte-Tyla para o chefia da CBSO não é um fenômeno isolado. É parte de uma tendência que está se consolidando.

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Naturalidade

O feminino no pódio é um movimento ascendente. Para a mexicana-norte-americana Alondra de la Parra (Nova York, 1980), a chave reside na naturalidade do gestual: “Sou pianista e violoncelista, é claro que isto foi fundamental na minha formação, mas há que considerar como as mulheres são. Nós crescemos cantando, dançando e expressando-nos corporalmente”. De la Parra tem impressionado na Orquestra de Paris e na Filarmônica de Londres, o que lhe rendeu uma recente nomeação como chefe de uma das principais orquestras australianas. Já Karina Canellakis (Nova York, 1982) é uma violinista que trocou o arco pela batuta e trabalha em Dallas Symphony como assistente. Ela estreou na Europa em junho passado, substituindo Nikolaus Harnoncourt, já adoentado, na direção da Orquestra de Câmara da Europa. Outro caso de instrumentista transformada em maestrina é o da coreana Han-Na Chang (Suwon, 1982).

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“Se um chefe de orquestra sabe o que quer, se tem conhecimento técnico de cada instrumento, se tem uma visão clara, a orquestra o segue sem se importar se é homem ou mulher”. É o que diz a única mulher a ganhar o Prêmio Alemão de Maestros, a estoniana Kristiina Poska (Turi, 1978), atualmente trabalhando na Komische Oper Berlin: “As diferenças entre os diretores de orquestra vêm mais da personalidade e caráter do que sexo”.

As pioneiras

Houve muitos obstáculos para as mulheres que se tornarem regentes. A geração anterior sabe muito bem disso. A australiana Simone Young (1961) ou as norte-americana Marin Alsop (1956) e Anne Manson (1961), abriram brechas nas salas de concerto, auxiliadas por seus mestres Daniel Barenboim, Leonard Bernstein e Claudio Abbado. Mas usavam um figurino artificial, masculinizado. Foi ainda mais difícil para as pioneiras no passado, que enfrentaram condições ideológicas e culturais totalmente hostis, vindas de músicos, críticos, agentes ou público como Ethel Leginska e Antonia Brico, que atuaram no pódio das Filarmônicas de Nova Iorque e Berlim em 1925 e 1930. A célebre Nadia Boulanger — formadora de toda uma geração de músicos notáveis — evitou a batuta. Outras tiveram uma carreiras confinadas no poço de um teatro para não serem visíveis ou ficaram em seus instrumentos sem poderem orientar uma orquestra.

Antonia Brico

Antonia Brico

Mas a melhor notícia sobre uma mulher conduzindo orquestras será quando… Isto não for mais notícia.

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O movimento é ascendente mesmo, tanto que já tenho três maestrinas em minha timeline do Facebook: Alessandra Arrieche, Ligia Amadio e Valentina Peleggi.

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Tradução livre (e certamente traidora) deste blogueiro a partir do El Pais espanhol. Sugestão de Helen Osório.

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