O melhor presente

Meu aniversário é apenas dia 19, mas acho que recebi hoje o melhor presente de aniversário de minha vida. Minha mulher, Elena Romanov, que é uma violinista de raro brilho, fez toda uma preparação secreta. Levou-me até uma pequena igreja aqui de Salvador do Sul, dizendo que queria estudar violino num espaço que não fosse acusticamente “seco” como nosso quarto de hotel. Pediu que eu levasse um livro para ler, a fim de não me entediar. OK. Lá chegando, após fazer algumas escalas, me pediu que eu fosse sentar em um lugar determinado e começou a tocar a Chaconne de Bach. No início eu achei “puxa, que bem tocado” para uma brincadeira improvisada, mas a coisa se estendeu de tal forma e com tamanha perfeição e musicalidade que primeiro me emocionei a ponto de ver surgirem algumas lágrimas e depois mais ainda porque me dei conta de que aquilo, talvez, fosse um presente imaterial para mim. Quando fui agradecer, apareceu um sujeito na igreja vazia falando para ela “Eu entrei aqui para fazer umas preces, mas depois disso já considero que tenha feito”.

Obrigado, Elena.

(Imaginem que ela decorou a enorme peça para que eu não pudesse saber de nada antecipadamente, vendo as partituras que ela levava).

Aqui, Elena Romanov ainda estava nas escalas | Foto: Milton Ribeiro

Aqui, ela (Elena Romanov) ainda estava nas escalas | Foto: Milton Ribeiro

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Modesta reflexão sobre a “arte” de ver filmes

Dia desses, em questão de minutos, entraram em meu esquecido Feedly duas críticas acerca do filme argentino O Cidadão Ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Uma tinha sido publicada domingo e outra segunda-feira. A do domingo era constrangedora. A de segunda-feira era excelente. O fato da primeira ser contrária ao filme não significa nada, há críticas devastadoras que demonstram extrema compreensão de quem viu a obra, assim como é normalíssimo vermos elogios que mal tocam sua superfície. Meus 59 anos me mandam dizer que, quem não sabe ver filmes, habitualmente não sabe ver peças de teatro, e pior, não sabe interpretar livros. Sim, o pacote parece vir instalado completo, sem personalizações, à exceção do caso da música, que merece outro post.

Ontem, apesar da chuva, caminhei bastante pela rua, e pude pensar sobre as armadilhas que os alguns autores modernos exigem de seus leitores-expectadores. Mesmo um filme aparentemente simples como Cópia Fiel, está cheio de armadilhas para serem destrinchadas por um expectador que não seria mais um mero receptor e sim um intérprete que tem de trabalhar um pouquinho para entender o filme. No caso do citado filme de Kiarostami, o quebra-cabeça começa pelo título do filme. O nome original está em italiano, Copie Conforme. Em italiano Copie significa Cópia, mas Coppie é Casal, enquanto Conforme pode ser Fiel ou Conformado. É muito mais do que um trocadilho idiota, tem tudo a ver com o filme.

Refleti principalmente sobre o cinema porque ele é a arte mais pública e comum que temos. É difícil de se encontrar com alguém que leu há pouco exatamente o livro que a gente quer comentar. Já com os filmes é simples. Como estão em cartaz, todos os meus amigos viram O Cidadão Ilustre ou Perdidos em Paris. Dá para trocar ideias. O cinema é a grande cultura pública de nosso tempo.

O problema de certa crítica é não causado pela falta de inteligência, mas antes de falta de vivência ou pura desatenção para com a coisa artística. Lembrei dos ensaios de Bakhtin sobre Dostoiévski e de como O Idiota passou a figurar automaticamente ao lado de Os Irmãos Karamázovi como meu livro preferido de Dostô — sempre acompanhado do primeiro que conheci (a primeira vez a gente nunca esquece), Crime e Castigo. Quando li o que escrevera Bakhtin, tive que voltar a O Idiota e pensar que o título referia-se a alguém como eu… Hum… Ontem, enquanto caminhava, ri sozinho ao lembrar que Marcelo Backes cometera EM LIVRO o erro de deixar por escrito que eu seria o melhor leitor não-profissional que ele conhecera. Acho que dou a impressão de ser alguém mais inteligente do que sou. Que siga assim…

Mas avancemos: considerando aquele comentarista constrangedor e pensando que praticamente todos os grandes cineastas realizam/realizaram trabalhos sobre a linguagem, gente como ele está a ponto de dizer que — para citar apenas os vivos — Sokúrov, Kusturica, von Trier, Lynch, os irmãos Cohen, Moodysson, Sorrentino, Hartley, Polanski, Vinterberg, Haneke, P. T. Anderson são ruins, pois abusam de situações que representam outras.

Não é um assunto que me faça morrer, o que escrevo é uma reflexão vagabunda que é, para mim, nada mais do que uma curiosidade. É que quando li a primeira crítica me pareceu que o cara estava decididamente em outro mundo, numa faixa própria de esquizofrenia e estupidez. Será que ver certos filmes requer alguma especialização?

O cidadao ilustre

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Maria Luiza faria 90 anos hoje

Hoje é o dia em que minha mãe faria 90 anos. Também é o dia em que um de meus melhores amigos, Ricardo Branco, faz 59, mas deixemos a prioridade para ela.

À medida em que vou ficando velho — completo 60 anos em agosto, idade que não sinto, mas que é tristemente real — vai crescendo a certeza de que sou não somente a óbvia mistura genética de meus pais, Maria Luiza e Milton — herdei-lhes atitudes e posturas muito próprias. Parece que a idade acentua suas presenças em mim. Por mais que trabalhassem fora de casa, meus pais sempre se preocuparam com minha educação e a de minha irmã. Sempre penso que a Iracema, um pouco mais velha do que eu, nasceu pronta e perfeita. Ela estudava muito e parecia fazer aquilo com gosto e inteligência. Eu me sentia meio burro em relação a ela. Tinha que ser empurrado.

E era. Minha mãe foi quem mais empurrou o menino que fui e que só se queria estar na rua com os amigos e jogar (mal) futebol. Certamente veio dela meu amor pela literatura. Não que ela fosse uma grande leitora, é que ela respeitava e amava a cultura de forma devocional. Nós tínhamos sempre dinheiro para livros. Eu e minha irmã éramos modestos em nossos pedidos — sempre fomos bem conscientes de que nossa vida confortável não incluía grande fortuna e era fruto direto do trabalho duro e diário de nossos pais –, porém o fato é que nossa mãe era uma pessoa generosa em termos financeiros. Poucas vezes negava meus pedidos de mais grana para qualquer loucura que inventasse. Porém, quando a coisa era para comprar livros, ela vinha de carteira literalmente aberta. Fazia questão que eu lesse. Quando chegava cansada do consultório de dentista onde trabalhava o dia inteiro, perguntava o que eu estava lendo, mesmo que depois não soubesse o que comentar. Ela ganhou esse jogo. Hoje não consigo não estar lendo nenhum livro. E carrego-os aonde vou.

Eu e minha mãe

Eu e minha mãe. Se a imagem não aparecer, clique aqui porque este blog está que é um chapéu velho.

Acho que a Maria Luiza cresceu tentando manter alguma magia espiritual em torno de si, mas suas intenções esboroaram-se contra o chão duro das ruas da Azenha e a correria da maternidade. Nós crescemos e ela não obteve de volta o piano da juventude, onde tocava tangos, e muito menos os livros. Estava sempre trabalhando fora ou em casa. Sempre com alguma coisa pendente. Sempre correndo. Foi uma das primeiras dentistas profissionais do RS e foi massacrada pela necessidade de ser a mulher da casa. Em tempos em que não havia feminismo no Brasil, ela fazia dupla ou tripla jornada para não decepcionar ninguém. Quando jovem dentista, no início dos anos 50, foi criticada por não deixar que meu pai a sustentasse financeiramente. Ainda bem que ela jamais concordou com isso, não daria certo. Ela era a chefe da família e ponto.

O que permaneceu da jovem Maria era a forma com que enfrentava a falta de gosto e a vulgaridade. É dela uma frase que uso muito: “Não ouço música descartável”. Adorava Chopin e a música erudita romântica. Tentando abrir uma janela em suas atividades incessantes, meu pai estabeleceu a quarta-feira como “o dia de ir ao cinema”. Talvez aquilo soasse a ela como mais uma atribuição. Com o tempo, ele também perdeu este jogo.

Minha mãe era AMADA por seus clientes de consultório. Eu notava isso naquela época e ainda hoje. Era um sucesso dizer que eu era o filho da dentista da Azenha. A maioria de meus colegas a visitava, pois ela era odontopedriatra. Também estava sempre disposta a ajudar. O tempo esticava-se para dar lugar a tudo que seu 1,55m queria fazer. Mas ela dizia que não tinha feito nada.

A Elena sabe o quanto uso suas expressões cruz-altenses. Cada vez mais. O casamento com meu pai não era lá nenhuma maravilha em alguns aspectos, porém lembro de uma frase muito significativa que ela me disse quando meu pai morreu em 1993. “Ele me deu muito mais amor do que eu dei para ele”. Esta frase, para a pudica e reservada Maria Luiza, equivalia a dar uma voltinha nua pela casa.

Também minha teimosia e autocrítica vêm dela. Quando metia uma coisa ou um assunto na cabeça… Se o assunto não fosse do nosso agrado, melhor fugir. E ela costumava criticar a si mesma com algum desdém, especialidade que mantenho em alto nível. Tudo o que fazia acabava mal, o que era uma tremenda mentira e injustiça dirigidas a grande mulher que ela foi. Construiu uma casa ruim, não deveria ter sido dentista mas outra coisa, fez comida sem gosto, comprou um monte de coisas que não usa, errou nisso, naquilo. Essas coisas foram criando a certeza de que, filho dela, também eu só fazia coisas erradas. A Elena não parece gostar muito de minha autocrítica, só que é um vício complicado de contornar. Ela parecia estar sempre em falta e eu, coincidentemente…

Hoje, por um acaso, esbarrei neste poema de Shakespeare. É sobre o amor, só que fala tanto em faltas, vícios ocultos — que certamente ela não tinha, a não ser o de esconder caixas de Bis no guarda-roupa –, em injúrias dirigidas a si mesmo e em erros, que logo pensei “Putz, hoje é o dia da Maria Luiza mesmo”.

Assim é o meu amor

Quando for teu desejo teres por mim fraco apreço
E colocares meus méritos no centro do desdém,
Ficarei do teu lado, contra mim lutarei,
Provar-te-ei, ainda que traidor, virtuoso.
Usando as minhas faltas, essas que sei de cor,
Contarei uma história falando por teu nome,
E os meus vícios ocultos todos condenarei,
E tu, ao me perderes, alcançarás a glória.
E, ao fazê-lo, eu também serei vitorioso,
Dobrando perante ti meus ternos pensamentos.
E as injúrias que a mim eu mesmo me impuser
Redobrarão meus ganhos, ao te darem proveito.

Assim é o meu amor, assim eu te pertenço,
Pois, ao provar-te certo, me descubro no erro.

W. Shakespeare, trad. Ana Luísa Amaral

Ela faleceu em 2012 após longo e doloroso Alzheimer. Acrescento isso apenas aqui no final porque já quase esqueci desta fase terrível, deixando no lugar a mãe amorosa, presente, interessada e, puxa vida, ativa.

Meus pais

Meus pais

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Estudar (e amar) faz bem

Um ganho secundário do Almoço Clio Musical é a necessidade de estudar. Mesmo que não seja necessária uma dedicação exaustiva, pesquisar, estudar e escrever sempre me animam muito. Ontem, cheguei meio mal-humorado em casa, com aquela sensação ruim de atraso em coisas que precisam de tempo para serem desenvolvidas. Era o final da tarde e ainda dei mil voltas procrastinatórias. Depois, pensei que se começasse apenas a me organizar para o trabalho, ele se encaminharia naturalmente. Claro, a coisa engrenou e comecei a me sentir cada vez melhor e melhor, chegando quase a algum início de euforia. E tudo ficou (bem) encaminhado. Escrevi bastante sobre o tema A Sinfonia, Parte I: das Origens ao Classicismo.

Então, perto das das 22h, fui buscar a Elena no ensaio da Ospa. Para este bobo apaixonado é sempre uma alegria vê-la e revê-la, mesmo que o intervalo seja de segundos. Fiquei esperando por ela e dei risada com um colega seu de Ospa que me disse que “havia abutres rondando meu avião”. Tá bom. Eu e ela voltamos abraçados, caminhando naquela velocidade que fica entre o medo de ser assaltado e a elegância. Jantamos e pensei no tempo que dura a alegria de fazer um trabalho intelectual, mesmo que este não seja uma loucura de complicado e se este pode ser catalisado por outros fatos da vida diária. E concluí que devo repetir e repetir, ainda que sem o incentivo do Almoço Clio. Ou correr pela rua, pois ambas são atividades que me fazem retornar a um melhor equilíbrio.

Hoje pela manhã, dei uma reajustada na alegria. Caminhei até o trabalho com a 9ª de Mahler nos fones. Sim, é uma tragédia, mas o contato com uma uma realização daquelas sempre me deixa feliz. Ao meio-dia, após um almoço rápido, usei a meia-hora restante dando-me novo empurrão lendo De Amor e Trevas, de Amós Oz, na Biblioteca Pública. É muita sorte trabalhar na mesma quadra que a BPE. A gente ganha mal mas tem sorte.

Acho que tenho que dar um jeitinho de tornar mais frequentes esses estímulos que me deixam feliz. Todos eles. Afinal, estou por fazer 60 anos e é, digamos, minha reta final.

Joseph Haydn: o herói desta edição do Almoço Clio Musical.

Joseph Haydn: o herói desta edição do Almoço Clio Musical.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Eu e uma crente em um ônibus em Porto Alegre

A mezzo-soprano sueca Anne Sofie von Otter

A mezzo-soprano sueca Anne Sofie von Otter

Na segunda à tarde, durante um intervalo, fui pegar algumas coisas na casa de um amigo. Entrei num ônibus, sentei e abri um Simenon enquanto Anne Sofie von Otter cantava Rheinlegendchen ou Wer hat dies Liedlein erdacht? de Gustav Mahler em meus fones. Logo passou um homem que nem vi o rosto e depositou um bilhete de tamanho mínimo na minha mão:

QUERIDOS IRMÃOS PRECISO DE VOCÊS PERDI MINHA MÃEZINHA SOFRO DO VÍRUS DO HIV ESTOU ME TRATANDO COM COQITEL E ESTOU DESEMPREGADO ESTA DIFÍCIL O EMPREGO TENHO UMA FILHA DE 2 ANOS QUE ESTA PASSANDO FOME PESSO SUA AJUDA OBRIGADO
MARCOS E VITÓRIA (nomes alterados)

Juntei uma nota de dinheiro ao bilhete e segui lendo o livro acompanhado de Anne. Quando senti que ele voltava, ergui a mão direita com a nota e o bilhete entre o indicador e o dedo médio um pouco acima de minha cabeça. Porém, o homem não me viu e saiu para tentar a sorte em outro ônibus.

Então, uma senhora falou em voz altíssima que era um absurdo dar R$ 10,00 a um vagabundo e que eu faria melhor doando meu dinheiro à igreja. Subitamente e ainda meio zonzo, caí de meu mundo e notei que aquilo era para mim. Fiquei surpreso. R$ 10,00? Nas vezes em que dou dinheiro para pedintes, meu máximo é R$ 2,00, o valor aproximado de um litro de leite — um critério absolutamente pessoal. Fora um engano. Sem tirar os olhos do livro, guardei a nota, o bilhete e levantei bem alto um solitário dedo médio para que a beata o visse claramente. Nem sempre sou um lord.

O ônibus achou graça e ela me chamou de mal-educado em pavoroso discurso de meio minuto, no mínimo. Lembrei do que um amigo um dia me disse:

É impressionante a quantidade de filhos-da-puta entre os crentes.

Desci na minha parada sem maiores incomodações. Mas como canta a Anne Sofie von Otter!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Os discursos de Fidel Castro e Thomas Bernhard

Castro

Em certa época da ditadura militar brasileira, eu era da Engenharia da Ufrgs, mas frequentava mais o pessoal, as festas e as reuniões das humanas. Zanzava pelos Diretórios Acadêmicos onde volta e meia era marcada uma sessão de cinema em que era apresentado um discurso de Fidel Castro. Quase sempre acabava assistindo. Gostava deles. Era coisa para ser apresentada no início de uma noite ou num fim de semana, pois via de regra duravam mais de quatro horas. A data e a hora das apresentações dos filmes eram secretas, mas todo mundo sabia. Assisti a vários deles, alguns divididos em dois turnos. Lembro de pouca coisa e não sei se ainda concordaria com eles, o que sei é que ele era um extraordinário orador. Era complicado até de ir ao banheiro. Tudo parecia muito importante. Um dia comecei a pensar na estrutura daqueles textos falados. A primeira conclusão a que cheguei foi a de que eles eram indissociáveis do ator. Castro era notavelmente carismático e sabia como seduzir com pausas e alterações de tom e dinâmica. E havia seu rosto, muitas vezes com expressões irônicas. Tudo o que ele dizia adquiria caráter mítico. Quando conheci Thomas Bernhard, fiquei surpreso não somente com seu discurso de ódio contra a sociedade, mas com a estrutura encadeada de sua prosa, algo parecida com a de Fidel, mas funcionando esplendidamente por escrito. Não dá para falar de avanço em espiral porque ambos voltam a pontos anteriores do discurso e uma espiral sempre avança tontamente por lugares onde não passou. Era mais uma sequência minimalista de variações que avançam de tal forma que muitas vezes a frase atual era uma variação da anterior, mas se ouvíssemos a décima oração anterior, ela já seria totalmente diferente da atual. Ou não era assim. Eram como as de um professor que avança duas casas no jogo de seu discurso e volta uma para depois avançar mais duas novamente. Não sei porque lembrei disto agora. Talvez seja saudades da juventude; de ler, estudar, estagiar e ainda ganhar uns trocos dando aula; de, apesar desta super atividade, ter a eterna impressão de não estar fazendo nada. Ou saudades daqueles ambientes esfumaçados, ultra hiper ripongas, e daquelas meninas que iam lá assistir e que ficavam mudando de posição até encostar em nós. O que eu sabia é que estávamos fazendo tudo para atrapalhar a ditadura civil-militar e que eles tinham observadores — ratos — infiltrados entre nós. Tinham receio de nós e dos discursos de Fidel, que talvez os entediassem. O que Fidel falava era liso, sem fendas. Como o texto de Bernhard, suas falas tinham caráter repetitivo e exagerado, o que lhes garantia grande impacto (e eficiência nas queixas). Bernhard desconsidera a estrutura de parágrafos e creio que alguém que transcrevesse os discursos de Fidel não deveria repetir tal estratégia, pois ele fazia longas pausas. Em ambos os casos, há um desesperado adiamento do ponto final, pois o que vale é o encadeamento de orações subordinadas, como se o narrador tivesse a necessidade compulsiva de jamais abrir mão da palavra. Com Fidel, a bunda ficava quadrada, mas eu não me incomodava com o tamanho dos discursos nem lembro de gente dormindo. Sim, nem os ratos dormiam, então acho que não se entediavam. A fala de um e a escrita do outro eram impecáveis. Perdiam-se por ladeiras e ruelas mal frequentadas que só eram compreendidas quando apareciam lá na frente na avenida. Ou talvez não seja nada disso e o que tinham em comum fosse a tentativa de aniquilação de adversários ou de si mesmo — caso de Bernhard — através de palavras. Ah, e a soberba de ambos, arma que parecia mortal na mão destes dois Quixotes em ambientes hostis. E o fato de frases ditas aqui serem complementadas apenas bem adiante. Sei lá, só sei que toda vez que lia Bernhard lembrava de Fidel e que hoje, ao rever no YouTube um discurso de Fidel, ele não me fez lembrar em nada Bernhard. Nada, nem um pouco.

thomasbernhard

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Viagem ao redor do umbigo

Li no livro Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, a curiosa definição de Marguerite Duras sobre o ato de escrever: escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos. Dou-lhe inteira razão, mas há algumas pessoas, dentre as quais me incluo, que negam o que escrevem e raramente releem o que deixam escrito por aí. Nem este blog é relido por mim.

Hoje, dediquei algum tempo a reler uns posts antigos e surpreendi-me com o grande número de frases e expressões que revisaria ou cortaria. Há idiotices incríveis. Encontrava aqui uma ideia que deveria estar clara e não está; ali, uma frase horrenda; mais adiante, surpreendia-me comigo mesmo — eu escrevi isto, isto sou eu ou um personagem? Ou sou eu meu personagem? Acho que é o caso. Afinal, quando divagamos sobre nossas vidas, não estamos reescrevendo um livro com caracteres mais brilhantes ou não para depois recolocá-lo — capa dura ou brochura — em nossa memória, a fim de retirá-lo no momento seguinte com o objetivo de mais uma revisão, a mesma revisão que não faço aos duros caracteres do monitor? Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos.

Sonhar, de Almada Negreiros

Sonhar, de Almada Negreiros

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Porque hoje é sábado, o Milagre

Por delicadeza, por obediência,

phes01

quase perdi minha vida.

phes02

Vivia apenas metade dela,

phes03

tudo era meia verdade.

phes04

Meia verdade é como habitar meio quarto,

phes05

ganhar meio salário.

phes06

É como só ter direito

phes07

à metade da vida.

phes08

Num milagre, a uma metade juntou-se outra

phes09

perfazendo um inteiro.

phes10

Aquela parte que existia ganhou um corpo,

phes11

e agora ela o observa.

phes12

Continuar lendo

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Mônica Leal e meu Tempra dourado

Obs. inicial: Hoje, duas pessoas vieram me falar deste velho post. Recordar é viver! Importante dizer que já paguei o que devia à nobre vereadora.

Alguns poucos de vocês devem lembrar que a atual vereadora de Porto Alegre e ex-Secretária de Cultura do RS, Mônica Leal, me processou. Sei que muita gente vai me invejar e devo confirmar que tenho o maior orgulho disso. É currículo, meus amigos! Bem, ela ganhou a causa e fiquei devendo um alto valor para ela. Depois, meu advogado — que é excelente — conseguiu baixar o montante e hoje a coisa está num valor que não lembro qual é, só lembro que é igualmente impossível de pagar. Afinal, se me virarem de cabeça para baixo e chacoalharem, só vão cair no chão minhas passagens e os almoços que devo comer até o fim do mês.

Hoje me ligou um oficial de justiça. A seguir, o diálogo:

— É o Sr. Milton Ribeiro?

— Sim, quem fala?

— Aqui é X., oficial de justiça, e eu tenho uma intimação para entregar ao Sr.

— Da parte de quem? — perguntei, já sabendo do que se tratava.

— De… Mônica Leal — ele disse e deu uma risadinha curta, não sei por quê.

— Ah, sim, pois é, acho que ela deve processar muita gente, né? E o que diz a intimação?

— Ela pede a penhora de um Tempra de sua propriedade.

— Um Tempra? O Sr. quer dizer o automóvel?

— Sim, o automóvel.

— Mas eu nunca tive um Tempra.

— Mas é o que está escrito aqui.

— OK, o Sr. fica de plantão no dia X no horário Y no local Z, não?

— Sim.

— Eu vou aí buscar a intimação, pode ser? Passo aí na frente todo dia.

— Ah, perfeito. Estarei aqui. Obrigado.

— Obrigado, boa tarde.

— Boa tarde.

Quando depositei o telefone no gancho, minha mente se iluminou. Lembrei do Tempra. Estávamos talvez em 1997. Eu e meus amigos Daniel e Corrêa compramos um carro em São Paulo para fazer negócio. O troço era bom e caro e não era um Tempra. Vendemos na primeira semana. Recebemos uma parte em dinheiro e outra na forma de um carro de menor valor: o Tempra dourado.

Eu juro para vocês que nunca tinha visto uma coisa mais feia na minha vida. Eu nunca dei bola para carros, mas aquilo era uma excrescência, um problema de malformação de fábrica, algo que faria a Igreja aprovar o aborto, algo que deve ter feito os operários da Fiat pararem a produção para olharem bem, darem gargalhadas e contarem pros amigos.

— Daniel, que carro é esse?

— É o que a gente recebeu na volta.

— Daniel, esse carro não foi figurante em Carruagens de Fogo?

— Que coisa horrível, né?

— Daniel, quem é que vai comprar isso?

— Olha, Milton, o carro está em excelente estado blá, blá, blá…

Demoramos uns 3 meses ou mais para nos livrar do Chariots of Fire. Mas ele foi adiante. A dúvida que fica no ar é a seguinte: será que ele ainda está em meu nome? Será que, em estando no meu nome, teve pagos seus impostos? Bem, se não teve, aí toda a piada começa a perder a graça. O pior é fucei no site do Detran e nada de Tempra.

Hoje à tarde, só para apavorar meus sete leitores, procurei um Tempra dourado na internet mas não achei. Era um amarelo metálico, credo. Era dessa cor aí embaixo, mas não era digno como este Maverick. Imaginaram o horror?

.oOo.

Acabamos de encontrar uma foto de Tempra dourado!

tempra-dourado

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A roupa entlou

Foto meramente ilustrativa, sou muito menor.

Foto meramente ilustrativa, sou muito menor. Não sou eu, tá?

Houve uma época em que eu trabalhava de terno e gravata. Tinha 14 kg a menos. Hoje, não preciso mais usar roupa formal e faz anos que não visto — ou me fantasio — com tal indumentária. Desta forma, meus ternos ficaram guardados num canto do guarda-roupa. Mas, no próximo sábado, vou a uma festa mais social e, bem, tive que encarar a realidade. Comprar um terno, alugar ou tentar me meter num dos que tenho?

Fui experimentando um por um. Todos estão em muito bom estado, mas as calças simplesmente se negavam a caber no modelo arredondado que me tornei. Por algum motivo bem masoquista, resolvi tentar me enfiar no mais velho deles e vim em direção ao mais novo. Como deus é pai, o último entrou. Quando aconteceu, disse para mim mesmo, “entlou”.

Sim, entlou. Explico: uma vez lavava a louça com meu filho Bernando brincando a meus pés. Ele devia ter uns 2 ou 3 anos de idade. Como eu com meus ternos, ele pegava uma coisa de cada vez na cozinha e colocava dentro de seu caminhão de madeira. Por exemplo, pegava um ovo, colocava no bagageiro, fechava-o e dizia “entlou”. (Sempre foi muito cuidadoso, jamais estragou um CD ou livro meu. Tinha respeito pelas coisas da casa). Depois pegava uma laranja e dizia “entlou”. Um limão e dizia entlou, etc. Então, pegou um mamão, colocou delicadamente no bagageiro e disse “não entlou”. Aí eu disse pra ele, “É, filho, o mamão é muito grande, não cabe no bagageiro”. E segui lavando os pratos e talheres quando ouvi um barulho estranho de bisnaga sendo apertada e sua voz “mas agola entlou”.

Incrível, o mamão ficou quadrado, a coisa mais linda. Mais ou menos como eu dentro da calça que entlou. Mas entlou, tá entlado, vou com ela. Hoje, comi apenas salada, um filé de peixe e água no almoço. Tudo para que a calça entle sem eu ouvir som de bisnaga.

Falta testar as gravatas. Não pensem que sei dar nó de gravata. Mantenho por anos os nós que as boas almas fazem para mim, mas lembro que os desmanchei na última vez que as guardei. Achei que jamais as usaria novamente e que era ofensivo dar gravatas para os mendigos do Bom Fim.

E conjeturo se pescoço engorda. Ah, a camisa entlou sem reclamar de nada.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Caminhando para o trabalho

Venho diariamente a pé para o trabalho. Saio em horários muito próximos. Às vezes às 7h10, outras às 7h20 e, se estiver muito atrasado, às 7h40. Quando se caminha numa cidade como Porto Alegre, a gente tem que estar atento a quem está próximo. Ainda não fui roubado, mas é somente questão de tempo, se depender de nosso governador. Ando com fones de ouvido, ouvindo um CD completo cada manhã, sempre de música erudita ou jazz. E vejo como os grupos de cada horário se repetem de forma diferente.

Ali do lado direito, eu poderia estar descendo a Rua da Praia | Imagem distorcida: Google Maps

Ali do lado direito, eu poderia estar descendo a Rua da Praia | Imagem distorcida: Google Maps

Se saio no primeiro horário, logo vejo o homem negro no café em frente ao Colégio Rosário. Ele sempre usa alguma coisa do Inter em sua roupa. Não o vi hoje, pois saí no terceiro horário, mas tenho certeza que ele estaria com um abrigo perfeitamente colorado, defendendo-se do frio. Ele come torrada e bebe de uma xícara grande. Acho que café com leite. Ainda no primeiro horário há a loira alta e desajeitada que agora passou a usar óculos para deter a luz de seu olhar azul. Ela é muito apressada, tem menos de 20 anos e, pela pressa, dorme muito ou demora para sair.

Saindo no segundo horário, os das 7h20, há o guri dos músculos. Ele sempre dá um jeito de mostrar seus bíceps ou outra coisa que julgue poderosa. Como faço este caminho há quase três anos, sei que suas tatuagens têm menos de um e mostram lutas terríveis entre pássaros e cobras. Tenho vontade de lhe perguntar porque ele desenhou no braço uma galinha comendo uma minhoca, mas é melhor não. Neste horário, temos também o grupo de estudantes que desce a Independência de skate pelo corredor de ônibus e lotações. Mas eles passam muito rápido e jamais os reconheceria.

No terceiro horário, temos a velha anoréxica e o velho das meias. A velha anoréxica é isso mesmo. Ela caminha e treme um pouco a cada passo. É como se fosse cair de tão magra. A coitada deve trabalhar demais e seu cabelo, repartido do lado, toma-lhe tempo, porque é visível e minuciosamente alisado, formando uma franja estilo Hitler que lhe cobre diagonalmente a testa. Lava roupas em casa, pois algumas vezes carrega uma trouxa branca. Já o velho das meias fica na frente de um edifício quase na Senhor dos Passos. Ele e mais dois amigos ficam conversando, creio que sobre futebol ou fazendo observações sobre as mulheres que passam. Ouvi alguma coisa rapidamente. Certamente tem problemas circulatórios, pois usa meias de compressão para ajudar na circulação de sangue nas pernas. No verão, usava bermudas e as tais meias. Eu sempre olhava para elas. Tem um grande queixo de prognata e olhos de gente que se irrita facilmente. Como saí tarde, hoje foi o dia em que os vi.

Mas há muito mais. Temos a perua da Praça Dom Feliciano que desce na direção da Pinto Bandeira, o barítono cego vendedor de bilhetes que grita olha a megasena premiada e minha preferida, a vendedora de jornais da esquina da Rua da Praia com a Borges. Quando compro alguma coisa dela, sempre pergunto o preço e ela me responde terminando a frase com amado. Tem ar de mãe de toda a Borges e sorri muito. Um dia, estava perigando chover e ela me mandou apressar o passo.

Quando subo a Travessa Acelino de Carvalho, que liga o calçadão da Rua da Praia à Rua Andrade Neves, sinto o cheiro do mijo de quem passou ali à noite e a moça da lancheria à direita que quase sempre me dá bom dia. E chego ao edifício onde trabalho. Nosso porteiro é um gremista meio de lua que raramente diz alguma coisa quando chego. Afinal, está concentrado no jogo de xadrez do computador.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Eu sofro com o calor

FrioE, por isso, estou aqui de janela aberta, aproveitando a rara oportunidade de sentir um ventinho de 13ºC entrando por ela. É um imenso prazer depois de meses terríveis indo de ar condicionado em ar condicionado. Sei que as plantas crescem no calor, sei também que as pessoas ficam mais bonitas e saudáveis quando estão na praia. Mas sei também que me sinto mal numa cidade quente e úmida, suando cada vez que saio à rua ou quando desligo o ar. E canso. E produzo pouco. Por isso, se tivesse dinheiro para tanto, iria para o Hemisfério Norte em todos os verões, para dar uma trégua de alguns dias no suadouro porto-alegrense.

A propósito, fui amigo do grande Dr. Herbert Caro. Ele sumia de Porto Alegre durante os meses de, nas palavras dele, canícula. Saía da cidade para a Europa no início de dezembro e só voltava ao final de março, passando dois invernos por ano. Se eu tivesse condições econômicas, repito, daria definitivamente adeus aos verões, coisa apenas aceitável na praia e olhem lá.

Então, hoje estou mais feliz que pinto no lixo, que formiga em tampa de xarope, que genro levando sogra na rodoviária, que pobre em dia de excursão ou quando ganha frango no bingo e muito, mas muito mais feliz do que ontem. E me sinto novo como camisola de noiva.

A perspectiva para os próximos dias é ótima. Desta vez, parece que teremos inverno!

(E, falem sério, o frio facilita o amor, certo? Ou vocês não gostam de abraçar um outro corpo — mesmo o mais querido deles — no inverno?).

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Jorro matinal

42 bilhões desviados
— 1% do PIB —
de uma só empresa

como se fossem adestrados
os políticos de Brasília
sentam na mesa apenas
desejosos de cheirar
os cus uns dos outros

o que pensa este?
do que necessita aquele?
como acomodar
meu interesse?

não pensam
no sistema de ensino
no genocídio dos indígenas
na juventude negra das periferias
na mulher morta
no aborto
nos LGBT
na reforma

pensam
em quem lhes financia
em consumir direitos
no agronegócio
em criminalizar movimentos
em consumir o pré-sal
em deus, ou melhor,
na igreja

querem adiar
o enfrentamento com o ambiente
querem evitar
a Polícia Federal
querem
que o resto se foda

os paleolíticos brasileiros
querem chupar o pré-sal
são eles os dinossauros
que vão nos aquecer e sufocar
mas bem poderiam receber o óleo
— negro e quente —
em seus rabos

eles estão reunidos
e sorriem balançando suas caudas
preparando
os próximos 42 bilhões

PUM - Partido Utopico Moderado

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Como eu me sinto quando a semana inicia

Roubado vergonhosamente — imagem e ideia — da Fal.

tumblr_o2m3zvTgUQ1st4bmvo1_540

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Minha aparição nas páginas policiais de Zero Hora

Meu tio João, irmão de minha mãe, era jogo duro. Eu, aos 11 anos, sabia que devia temê-lo um pouquinho, não muito. Vagamente, estava consciente de que não era adequado fazer brincadeiras com ele. O tio, na falta de seu pai, meu avô, àquela época muito doente, às vezes tentava substituí-lo, assumindo o cargo de reserva moral da família. Era maçom e aquilo tinha alguma importância naquela época. Só que ele vivia em Cruz Alta e nós em Porto Alegre, bem longe.

Um dia, recebemos um recorte de jornal. Era da Zero Hora. Nele, estava estampada uma fotografia minha: eu aparecia tranquilo, pronto a receber uma bola vinda da cobrança de um lateral pelo Batista (João Batista Carneiro Borges, meu melhor amigo da infância); em minha direção, além da bola, vinha o Cesare (Cesare Arturo Domenico Bianchini, onde andará?) correndo como um louco assassino, mais ou menos como o Guiñazu faz. Mas o craque, com segurança e completo domínio da situação, permanecia impassível… Tal lance ocorreu em 16 de novembro de 1968, quase dois meses após meus 11 anos.

O AI-5 logo ali e eu jogando bola feito um alienado…

Mas… Lembro bem. Almoçava quando minha mãe entrou na cozinha brandindo um envelope. Parecia pronta para uma briga. Logo soube que era uma carta do temido tio João. E contra mim!

— Milton Luiz, que forma de estrear nos jornais! Que vergonha!

Ela me entregou a foto e a carta, que não me interessou. Fiquei encantado com a foto; afinal, aparecer no jornal não era para qualquer um e nem minha irmã — a perfeita — havia conseguido aquilo. Meu pai entrou atrás, dizendo que aquilo era um absurdo. Só que senti que eles estavam bem humorados e logo meu pai perguntou se eu tinha visto o fotógrafo.

— O tio João escreveu meu nome errado, é com “z”.
— Responde à minha pergunta, por favor.
— Sim, vi. Ele falou conosco.
— E o que ele disse?
— Nada. Só que queria uma fotos de nós jogando bola.

Minha mãe revirou os olhos e olhou para minha irmã, visivelmente deliciada com o caso que demonstrava pela enésima vez que eu era um hooligan com um futuro de prisões e perseguições por parte de escritoras.

— Da próxima vez, não te deixa fotografar!!! — disse minha mãe.

Acho que meus pais sabiam que, trabalhando todo o dia fora — ambos eram dentistas –, não podiam cuidar muito de nós. Talvez até tivessem confiança em mim, sei lá. Ou sabiam que o futebol na Av. João Pessoa ou na Praça Piratini era inevitável. Uma horda de meninos passava a tarde jogando bola. Como evitar que eu fizesse o mesmo? Prendendo-me em casa? Minha mãe me advertiu frouxamente para cuidar com os carros ao buscar a bola. Perguntou sobre o tal carro que freara “em cima de mim”.

— Nunca, mãe. Pode perguntar pro Batista.

Naquele momento, tive algo como uma revelação. Os adultos não pensavam em bloco, a dureza de meu tio era amenizada pelos meus pais, que não me deram castigo nenhum e eu esqueci completamente da frase de meu tio “Este é o exemplo da família”.

Ontem, recebi por carta o recorte. Estava sem a carta de meu tio. Lembrei de tudo, inclusive do fato de que minha mãe o mostrava a seus clientes como um troféu… Olha como este guri é incontrolável, agitado e moleque! Só que, quando apresentava a prova de minha molecagem, seu cliente lia a frase ofensiva de meu tio, que era sistematicamente ignorada por ela.

Realmente, meu tio morava longe.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Merdas

Eu acabo de dizer para o Latuff que estava revisando umas merdas que tinha abandonado faz tempo — contos, novelas e até um romance –, completei dizendo que estava até gostando de lê-los neste tempo de tanta coisa ruim sendo publicada e então recebi o que segue…

merda milton

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Se você perdeu o debate de ontem, saiba que a Feira Além da Feira segue

Cansei de ver músicos e palestrantes saírem do palco com a impressão de que fizeram bom papel e, bem, não foi nada daquilo. Como espectador, às vezes fico com um sorriso amarelo ao ver o sem noção da coisa. Então, de forma profilática, desconfio de meu exame sobre nossa participação no Feira Além da Feira de ontem à noite na Palavraria. Mas arrisco dizer que foi bem boa. Muito boa.

Em primeiro lugar porque o ambiente foi de completa cordialidade e interesse pelo assunto. Nunca abandonamos o tema da crítica. Muito qualificado, o público poderia ter-nos fatiado e servido em bandejas, mas nos ouviu e perguntou mansamente. O carrossel que fazia o microfone passar de mão em mão funcionou bem. A Alexandra Lopes da Cunha disse que nunca tinha mediado debates, mas vá acreditar nisso. Não apenas provocou e deu espaço e oportunidades a que todos falassem, como deu seus pitacos e pode declarar seu amor a George Orwell. O debate funcionou também pelo fato dos três entrevistados terem perfis bastante diferentes. Aprendi com as meninas. Eu cheguei com meu perfil clássico antiquado, a Camila von Holdefer super atualizada e profunda conhecedora da produção literária atual — devemos ler seu blog de cabo a rabo para saber o que está acontecendo — e a Laila Ribeiro com seu enorme conhecimento da literatura de entretenimento, algo que me surpreendia a cada fala sua. 

Os bons eventos de literatura são assim mesmo, com pessoas interessadas e alta participação. O tema era “O Espaço da Crítica Literária”, essa coisa quase inexistente. Engraçado como todos nós lemos literatura brasileira, mas temos certo receio de escrever a respeito. Nossos autores costumam se ofender. Eu parti deste texto, mas sem o mimimi que me fez incluir gatinhos ornamentais, e fui até o ponto de responder uma pergunta citando os autores que mais admirava vindo do Japão, passando pela Europa Oriental, Ocidental, América do Norte, do Sul e Brasil. Ou seja, a conversa teve momentos delirantes. Foram duas horas de divertidos momentos de amor à literatura. Às 21h, a livraria tinha que fechar…

O que posso dizer? Certamente que fiquei muito feliz com esta minha segunda participação na Feira além da Feira. cuja programação completa encontra-se aqui.

As fotos abaixo são de Alexandre Alaniz. Foram publicadas 44 imagens ao todo. Meu profundo, incondicional e esperado narcisismo ditou a seleção abaixo. As legendas são realistas, pero no mucho. E, gente, agora vou para uma reunião de condomínio. Sim, será bem pior.

Jéferson Tenório fala a plateia, Alexandra sorri confiante e eu pressinto a tragédia.

Jéferson Tenório fala à plateia, Alexandra sorri confiante e eu pressinto a tragédia.

Eu começo a desfiar absurdos. A Alexandra me olha com cara de "What the fuck?".

Eu começo a desfiar absurdos. A Alexandra me olha com cara de “What the fuck?”.

Eu sigo a desfiar absurdos, agora sob o olhar irônico da Camila.

Eu continuo, agora sob o olhar irônico da Camila.

Ninguém me detém.

Nada me detém.

Sérgio Karam pergunta-se: o que eu vim fazer aqui?

Sérgio Karam fica abismado com o que digo.

A Alexandra parece estar se divertindo.

A Alexandra até parece estar se divertindo.

Mas recua.

Mas recua após uma ameaça minha.

Nelson Rego chega para animar a festa.

Nelson Rego chega para animar a festa.

Mas a festa é minha.

Mas o show é só meu. Sintam só o tédio da Camila e da Laila enquanto eu falo no samba exaltação. A Alexandra se afasta para deixar meu braço passar.

Gustavo Melo Czekster me desafia a dizer seu sobrenome.

Gustavo Melo Czekster me desafia a dizer seu sobrenome. Priscila Pasko antevê meu fracasso. Nelson Rego está super-interessado.

Eu sou imparável.

Minha algaravia desconhece limites. Presa entre as cadeiras, Camila pensa em como voltar logo para Novo Hamburgo.

Tô falando até agora.

Sem assunto, começo a cantar. Alexandra mantém as aparências.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A quem interessar possa…

FAF

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Porque hoje é sábado… Beijos

Em meu micro, há coisas muitas estranhas sob o diretório “Images”.

VJ DAY

Lá, encontra-se um diretório chamado “Beijos”.

(Há também um diretório chamado Pq Hj é Sáb).

ono-y-lennon

Ao lado dos Cartier-Bresson, Doisneau, Leibovitz, há fotos de cuja autoria nem imagino.

Observando seu conteúdo, descubro que adoro imagens de amantes beijando-se.

'O Beijo do Hotel de Ville', 1950

Sempre tive pequenas e grandes diferenças em relação às tias moralistas da família.

painting_autumn_kiss_love_umberalla_art_hd-wallpaper-1799088

Uma delas — e uma bem pequena — era aquela que proibia exibições públicas de carinho.

Nunca entendi porque era horrível dar longos beijos na rua, …

… principalmente pelo fato de adorar ver tais cenas.

Como tenho inato espírito de oposição, logo vi que me agradava proporcionar tais cenas.

Mesmo que algumas gurias simplesmente detestassem,

as pequenas transgressões sempre me fascinaram.

subway kiss

E, ademais, elas nunca ultrapassaram os limites das novelas das seis.

Continuar lendo

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ontem

O tempo é uma coisa medida com precisão, mas nossa impressão dele sofre grandes variações. As coisas boas voam, as ruins se arrastam. Quando trabalhamos demais, achamos surpreendente como o tempo passa lento — hoje é só quarta-feira?, costumo pensar. Quando temos prazos a cumprir, parece que aquele muro cresce inexoravelmente sobre nós. Quando estamos em férias, o tempo voa. Hoje, coloquei a foto abaixo no Facebook com a legenda “Neste 31 de agosto, 2 anos”.

E foi ontem.

Foto: Ramiro Furquim

Foto: Ramiro Furquim

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!