Minha aparição nas páginas policiais de Zero Hora

Meu tio João, irmão de minha mãe, era jogo duro. Eu, aos 11 anos, sabia que devia temê-lo um pouquinho, não muito. Vagamente, estava consciente de que não era adequado fazer brincadeiras com ele. O tio, na falta de seu pai, meu avô, àquela época muito doente, às vezes tentava substituí-lo, assumindo o cargo de reserva moral da família. Era maçom e aquilo tinha alguma importância naquela época. Só que ele vivia em Cruz Alta e nós em Porto Alegre, bem longe.

Um dia, recebemos um recorte de jornal. Era da Zero Hora. Nele, estava estampada uma fotografia minha: eu aparecia tranquilo, pronto a receber uma bola vinda da cobrança de um lateral pelo Batista (João Batista Carneiro Borges, meu melhor amigo da infância); em minha direção, além da bola, vinha o Cesare (Cesare Arturo Domenico Bianchini, onde andará?) correndo como um louco assassino, mais ou menos como o Guiñazu faz. Mas o craque, com segurança e completo domínio da situação, permanecia impassível… Tal lance ocorreu em 16 de novembro de 1968, quase dois meses após meus 11 anos.

O AI-5 logo ali e eu jogando bola feito um alienado…

Mas… Lembro bem. Almoçava quando minha mãe entrou na cozinha brandindo um envelope. Parecia pronta para uma briga. Logo soube que era uma carta do temido tio João. E contra mim!

— Milton Luiz, que forma de estrear nos jornais! Que vergonha!

Ela me entregou a foto e a carta, que não me interessou. Fiquei encantado com a foto; afinal, aparecer no jornal não era para qualquer um e nem minha irmã — a perfeita — havia conseguido aquilo. Meu pai entrou atrás, dizendo que aquilo era um absurdo. Só que senti que eles estavam bem humorados e logo meu pai perguntou se eu tinha visto o fotógrafo.

— O tio João escreveu meu nome errado, é com “z”.
— Responde à minha pergunta, por favor.
— Sim, vi. Ele falou conosco.
— E o que ele disse?
— Nada. Só que queria uma fotos de nós jogando bola.

Minha mãe revirou os olhos e olhou para minha irmã, visivelmente deliciada com o caso que demonstrava pela enésima vez que eu era um hooligan com um futuro de prisões e perseguições por parte de escritoras.

— Da próxima vez, não te deixa fotografar!!! — disse minha mãe.

Acho que meus pais sabiam que, trabalhando todo o dia fora — ambos eram dentistas –, não podiam cuidar muito de nós. Talvez até tivessem confiança em mim, sei lá. Ou sabiam que o futebol na Av. João Pessoa ou na Praça Piratini era inevitável. Uma horda de meninos passava a tarde jogando bola. Como evitar que eu fizesse o mesmo? Prendendo-me em casa? Minha mãe me advertiu frouxamente para cuidar com os carros ao buscar a bola. Perguntou sobre o tal carro que freara “em cima de mim”.

— Nunca, mãe. Pode perguntar pro Batista.

Naquele momento, tive algo como uma revelação. Os adultos não pensavam em bloco, a dureza de meu tio era amenizada pelos meus pais, que não me deram castigo nenhum e eu esqueci completamente da frase de meu tio “Este é o exemplo da família”.

Ontem, recebi por carta o recorte. Estava sem a carta de meu tio. Lembrei de tudo, inclusive do fato de que minha mãe o mostrava a seus clientes como um troféu… Olha como este guri é incontrolável, agitado e moleque! Só que, quando apresentava a prova de minha molecagem, seu cliente lia a frase ofensiva de meu tio, que era sistematicamente ignorada por ela.

Realmente, meu tio morava longe.

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11 de dezembro

O 11 de dezembro de 1993 é para eu lamentar. Era um sábado. O sábado em que meu pai morreu inesperadamente. No dia anterior, eu tinha me encontrado casualmente com ele num supermercado e tínhamos conversado animadamente sobre a música de Schubert. Jamais imaginaria que aquela fosse nossa despedida. Na manhã seguinte, minha mãe telefonou e encontrei-o deitado no chão do banheiro, cercado por ela, minha irmã e equipe médica.

A saudade é imensa e isso não é somente uma frase chavão. Comecei a senti-la quando vi que seu corpo estava frio e que todas as memórias que ele guardava de mim tinham se dissipado naquele ataque cardíaco. Eu tinha 36 anos e senti uma solidão de um gênero desconhecido, sem saída. É claro que esta sensação quase não existe 22 anos depois. Mas ela fica me ameaçando a cada 11 de dezembro.

A única foto que tenho dele aqui no trabalho é esta aí, com o neto Bernardo. Infelizmente, ele não conheceu a Bárbara.

Meu filho Bernardo, eu e meu pai em 1993.

Meu filho Bernardo, eu e meu pai em 1993.

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Os Bondes de Porto Alegre

bonde 1957

Nasci em Porto Alegre no ano de 1957. Quem nasceu aqui antes de 1960, certamente andou de bonde. Eu os adorava. Numa época em que as crianças iam sozinhas ao centro da cidade sem a menor preocupação dos pais, ele foi uma de minhas glórias infantis. Com ele, eu ia a todos os lugares que me interessavam; todos no centro da cidade. Para a criança que eu era, o bonde elétrico tinha duas vantagens principais: o preço irrisório e o fato de andar em trilhos. Explico: eu sempre desconfiava que os ônibus, por não andarem em trilhos, poderiam me levar por caminhos desconhecidos de onde não saberia voltar. Já os bondes, por estarem presos àquelas ranhuras de ferro cravadas no chão, davam-me total segurança… Eu era esperto, não?

Ir até o fim linha, no centro, proporcionava ao passageiro uma emoção extra: a de ver o trabalho do motorneiro e do cobrador para o retorno. O bonde era bidirecional; não era, portanto, manobrado e nem havia um local para ele fazer uma curva e retornar. Chegávamos ao fim da linha e voltávamos em direção contrária, apenas mudando de um par de trilhos para outro, vizinho e paralelo ao da vinda. Então, o motorneiro retirava os comandos de um lado do bonde e os levava para o outro, ao mesmo tempo que o cobrador caminhava pelo corredor do bonde com os braços abertos, empurrando os encostos para o outro lado, a fim de que as pessoas não trafegassem de costas. Isto era feito, no centro, em frente ao Mercado Público, de onde foi tirada esta foto da Av. Borges de Medeiros.

Aliás, durante o percurso, os cobradores caminhavam sem parar de um lado a outro do bonde pegando o dinheiro dos passageiros. Em horários de pico, com o bonde cheio, muitos diziam que já tinham pago sua passagem, o que podia gerar curtos e barulhentos bate-bocas. Mas digo por experiência própria que a melhor maneira de não pagar era andar como eu gostava, lá na porta dependurado e sentindo o vento bater no rosto, a uma velocidade máxima de uns 40 ou 50 Km/h, calculo eu. Era o momento de maior emoção, quando podia ficar com um dos braços e uma das pernas no ar. Curiosamente, ninguém achava aquilo perigoso, só umas velhas chatas perguntavam se eu e outros meninos queríamos morrer.

À velocidade máxima, o bonde Brill dava a impressão de que ia desmanchar-se, tal era o barulho. O barulho era esquisito e parecia a mim o de garrafas de leite batendo-se umas nas outras. A gente podia ir ao Estádio dos Eucaliptos (o Beira-Rio é de 1969) ver os jogos do Inter de bonde. Em dias de jogo, com o bonde lotadíssimo, era inacreditável o número de torcedores adultos dependurados nas quatro portas. Ao fazer a curva na esquina da Av. José de Alencar e da Rua Silveiro (a rua do estádio), tínhamos a mais espetacular lição de física que se pode imaginar. Nossos gritos, enquanto tentávamos desesperadamente segurar nas barras do bonde, deviam ser dilacerantes. Lembro de ter superado a força centrífuga criada pela curva com a ponta dos dedos, quase caindo. Mas lembro também de vários que saíam pela tangente, às vezes dando de costas nos paralelepípedos. Estranhamente, era normal; nunca vi o motorneiro da Cia. Carris ser advertido por excesso de velocidade, pelo fato de colocar em risco a vida dos pingentes.

Tudo era maravilhoso naqueles tempos para mim românticos, tempos em que andava livremente de bonde pela cidade enquanto o AI-5 dava respaldo a uma ditadura que torturava presos a uma quadra de minha casa, do outro lado da rua (morava na Av. João Pessoa perto do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social). Anos em que o Inter, ao sair dos trilhos da rua Silveiro, mudava-se para o Beira-Rio e o asfalto da Av. Padre Cacique.

bonde porto alegre

Durante o ano de 1961 foram transportados 89 milhões de passageiros em bondes da Carris. Havia bondes belgas, ingleses e norte-americanos. Todos elétricos. Eles existiam desde 1908. Em 1926, já eram mais de cem. Os bondes seguiram operando durante décadas, continuando a arcar com grande parte do transporte de passageiros, que os ônibus pouco a pouco tomavam conta. Finalmente, em 8 de março de 1970, às 20h30, o último bonde fez seu percurso em Porto Alegre. Eu tinha 12 anos e fiquei muito triste, sem entender. Naquele dia, houve solenidade de despedida, à qual compareceram o Prefeito e autoridades.

bonde redencao

Uns burros. Ou espertos, como sabemos hoje da relação do poder público com as empresas de ônibus. Afinal, o serviço da Carris era público.

bonde criancas

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Nosso encontro com João Bez Batti

Eu estava recém separado quando resolvi pegar as crianças e tirar uns dias num hotel fazenda. Escolhi a pousada da Don Giovanni. Nunca tinha ido lá e deixei meu filho Bernardo ser nosso navegador. Perdemo-nos várias vezes, dávamos risadas, mas chegamos. Lugar lindo, acomodações perfeitas. Era uma quarta-feira gelada de inverno, quase zero grau. Ficaríamos até o domingo seguinte. No primeiro passeio, descobrimos algo que me pareceu do outro mundo. O escultor João Bez Batti tinha seu atelier numa casa dentro da fazenda. Já conhecia alguns de seus trabalhos. Havia algumas peças em exposição e fomos examinar cada uma delas quando o escultor chegou-se a nós timidamente, ouvindo e sorrindo do que dizíamos, principalmente do que diziam Bárbara e Bernardo. Ele puxou conversa com as crianças enquanto crescia em mim aquela conhecida dúvida de pai: estaríamos ou não incomodando?

bez battiMais um pouco e fomos embora. Depois do almoço, fui babar no travesseiro, mas depois soube que os dois tinham voltado ao atelier e, mais, que passaram horas com o João. No dia seguinte, ele veio me comunicar que tinha comprado pão, leite, nescau, bolachas, sucos naturais, iogurtes para eles e comida para a Bárbara dar para seus gatos. Queria que os guris se sentissem “mais em casa”. No hotel, houve certo pasmo. Bez Batti não costumava disponibilizar seu tempo tão generosamente, ainda mais para crianças. Enchi-os de recomendações e eles foram para o atelier. Às vezes eu conferia a bagunça e era sempre a mesma coisa. João estava seduzido pela Bárbara, que brincava com os gatos e comia (sempre perguntando para o João rir: “Eu sou magra de ruim, né?”), enquanto o Bernardo contava histórias — sempre foi insuperável neste quesito — e fazia perguntas sobre as pedras. Eles também levavam centenas de girinos do lago ao lado para o escultor observar… Voltavam para o hotel molhadíssimos e eu colocava as roupas cheias de barro no secador de toalhas do quarto. Guardei uma muda de roupa limpa e o resto era para encher de terra. A mãe deles que depois lavasse. Só ia chamá-los para o almoço ou algum passeio; a maior parte do tempo eles ficavam com o João. Ficamos amigos, claro.

Nos últimos dias, eu também permanecia no atelier. Passamos a falar sobre pedagogia e literatura. Tínhamos concepções “muito iguais” sobre como criar e acompanhar os filhos. Ríamos a respeito de ambos sermos pais-problema. Ríamos ainda mais porque ambos tínhamos, como ex-mulheres, ex-militantes de esquerda que se tornaram competitivas amantes do dinheiro. Na literatura, João descrevia uma vivência inteiramente diferente da minha. Tinha referências sempre muito interessantes sobre o ambiente dos livros. A cidade, os espaços, os quartos dos personagens, o campo. Ele foi capaz de descrever os ambientes das cenas principais de vários romances, coisa absolutamente distinta de minhas impressões, muito mais factuais e psicológicas. Era um outro gênero de sensibilidade e eu pensava que tudo o que ele me dizia era tão original e estranho que tinha certeza de sua absoluta inutilidade para mim. Mas nunca esqueci o quarto de Raskolnikov de que ele falava, os navios — cada um deles — de Somerset Maugham, as cenas em praças abertas, na rua ou em ambiente fechado. Tudo muito diferente do que lia. Em sua opinião, o bom escritor evita as longas descrições, pois são sempre decepcionantes e limitadoras. Bastava duas ou três coisas e o resto o leitor criava através da experiência. Tem que deixar para a gente, dizia.

Domingo, logo após o almoço, fomos procurá-lo para nos despedir. As crianças já estavam emocionadas e saudosas por antecipação, procurando o João para exporem sua confusão, provavelmente na forma de lágrimas. Eu sabia que a cena seria dramática. Só que não o encontramos. Porém, no momento em que pus o carro em movimento, o grande João Bez Batti veio correndo aos gritos atrás de nós, com uma pequena escultura em cada mão. Parei e saímos. Ele entregou os objetos, um para a Bárbara, outro para o Bernardo. O dono da pousada e os funcionários ficaram novamente pasmos. Nunca antes ocorrera algo assim. Notei que João represava alguma coisa em seus olhos e despediu-se rapidamente. Então voltou, deu-me um abraço e, com dificuldade, falou em meu ouvido direito: “Milton, não me estraga esses guris. Não quero me despedir deles porque tenho que manter minha fama de durão, tá?”.

João, acho que atentei contra tua fama hoje.

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Penso que as obras abaixo, com exceção de Operária, estavam no atelier durante nossas visitas:


O Visionário


Operária


Pomba Várzea


Rio das Antas


Cabeça cubista


Caminho das águas

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Hoje, João Bez Batti reside e trabalha na Casa Gilmar Cantelli (três links diferentes), a qual restaurou em 2002.

Ele segue realizando trabalhos em basalto. Em sua nova casa, também estão expostos os trabalhos em pintura e cerâmica de Diego Bez Batti, filho que ele certamente não “estragou”.

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Eu e a Márcia, minha babá, na feira

No entardecer de sábado, eu estava na feira da Vasco quando um sujeito bateu no meu ombro perguntando se eu era o Milton Ribeiro. Ele se apresentou rapidamente como Jacó, filho da Márcia. Disse mais algumas coisas, mas nem precisava, pois a Márcia é a Márcia e só houve uma em minha vida. A Márcia foi a minha babá, ora. Ela é a responsável por boa parte desta peste que vos escreve. O que me surpreendeu foi o que ele disse logo a seguir: “Ela está conosco aqui na feira”.

11171734_1049347331761975_902026372_oE fui na direção daquela diminuta e respeitável senhora de 90 anos que, apoiada numa bengala, caminhava rapidamente olhando frutas e verduras. Uma onda de carinho me invadiu. Eu não a via há algumas décadas. Faz poucos anos, o mesmo Jacó tinha me ligado e eu anotei todos os dados da Márcia na última página de um livro. Pretendia visitá-la, mas… perdi o livro. Volta e meia vinha-me à mente o que ele pensaria de mim. Afinal, tinha prometido entrar em contato e simplesmente…

Minha família diz que fui uma criança agitadíssima, complicada de suportar. Porém, para a Márcia, eu sempre fui um amor, tudo o que eu fazia era maravilhoso e ela, na feira, me contou que me dava comida e depois não conseguia se alimentar, porque eu ficava na volta dela dizendo, “Dá, dá, dá” com o espírito pantagruélico de sempre.

Ela sabe muito mais de mim do que eu dela. Sei que minha mãe sempre foi só elogios para a Márcia. Repetia que eu fora uma criança privilegiada, cuidadíssima, amadíssima. Dá para notar o mesmo espelhado no filho advogado, no cuidado que tem com a mãe. E algo da Márcia certamente está presente no ser grudentinho que me tornei e na forma com que criei os guris, sempre com interesse, atenção e amor incondicionais. Como dizia, lembro de pouca coisa consistente da época de minha infância, o que sei é de ouvir minha mãe contar de sua paciência e amor. Minha mãe trabalhava muito e, sempre que reclamava de mim, a Márcia contra-argumentava a meu favor. Só ela sabia que eu era perfeito…

Não sei quantos anos ela ficou lá em casa. Depois casou, teve o Jacó. Algumas vezes ela veio nos visitar pois tornara-se amiga de minha mãe e eu sentia uma estranha necessidade de tratar muito bem aquela mulher, isto justo numa época em que ainda não dava aos adultos a contrapartida de amor e atenção que recebia. (Aprendi a fazê-lo mais tarde, ainda a tempo de fazer declarações de amor aos meus pais). Mas a Márcia sempre foi diferente. Ela tinha uma coisa tão francamente afetuosa em relação a mim que eu só podia responder da mesma forma. Eu sentia que ela me adorava e que era uma coisa muito verdadeira.

A Elena observou que as pessoas sempre se referem a meus pais como muito especiais, com emoção. Talvez eu nunca os tenha valorizado como os outros. Ao saber que minha mãe tinha falecido em 2012, a Márcia falou muito bem do casal e afirmou algo que eu já sabia: que a morte do meu pai fez um mal enorme à Maria Luiza. Quando falam bem dos meus pais, o peito aperta e começam a me vir lágrimas. Fiquei assim depois dos cinquenta. Então, quando a Márcia começou a falar deles, tive que me controlar e não sei se me saí lá muito bem.

Mas tergiverso. O que interessa é que fiquei muito feliz em vê-la bem aos 90 anos. Estava com seu filho nora e netos, recebendo deles o que me dera. Uma história feliz. Curioso, ela que me conheceu com menos cabelo do que ela e viu o mesmo acontecer novamente agora! Mas o que interessa é que tiramos uma foto juntos — ideia da Elena, realização do Jacó — e o este me escreveu no Facebook:

Puxa, eu que agradeço pelo momento de felicidade que proporcionaste para a minha mãe. Tu não imaginas o que este reencontro rendeu de conversa para ela…

(Tenho um romance quase pronto e parado há anos. Na história tem uma babá e, sim, vocês já sabem o nome dela).

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Palmeiras sem Raízes e Gatos Voadores

Apertado ao lado de minha mãe na poltrona marrom, eu a ouvia dizer que as árvores tinham profundas raízes e que se alimentavam da terra, da água e da luz. Ficava imaginando as raízes penetrando lentamente na terra. O que seria mais comprido – a árvore do chão até a última folha balançando ao vento ou a árvore do chão até a mais solitária raiz que tivesse penetrado, talvez inadvertidamente, mais fundo na terra? Como a raiz encontraria seu caminho sem ver nada, na escuridão onde também seríamos enterrados? E se a terra fosse muito dura? E como era aquele negócio de se alimentar de luz? Minha mãe me explicou inutilmente a fotossíntese, a produção de oxigênio durante o dia e de alguma coisa ruim à noite, mas eu, como quase não saía de casa depois que o sol se punha, não achei aquilo digno de preocupação. O que eu entendi perfeitamente foi a questão da água: quando chovia, as raízes bebiam tudo. Dava para notar porque as poças d`água não duravam muito tempo. Era óbvio que as árvores chupavam tudo.

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Certo dia, estava chegando em casa com meu pai e dei-me conta de que tinha que conversar tudo de novo com minha mãe. Acontece que nossa rua, a Av. João Pessoa, atravessava o Arroio Dilúvio através de uma ponte não muito bonita. Claro que eu sempre soubera que havia palmeiras sobre a ponte, mas como não dispunha de tanta informação sobre as árvores, nunca pensara no problema das raízes. Concluí que tinha que informar minha mãe que nem todas as árvores precisavam delas e que as da nossa ponte viviam apenas de luz e água.

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Falei com ela. Estranho, sua reação esteve longe de ser uma admissão de seu erro. Antes ficou assustada com as palmeiras: afinal, elas poderiam cair durante uma ventania e eu e meus amigos costumávamos brincar pelas redondezas. Os adultos eram mesmo desatentos -– será que ela nunca vira as palmeiras sobre a ponte e nunca pensara no perigo? E ela morava ali desde 1951!

Mais vivas que o time do Palmeiras

Mais vivas do que o time do Palmeiras

Comentei o assunto com meus amigos, mas logo esquecemos daquelas coisas arbóreas que, comparadas com nossas novas descobertas, não tinham nenhum atrativo. Descobrimos que a ponte era uma tremenda diversão. Dava para descer por suas laterais e caminhar sob ela! A brincadeira de esconde-esconde logo mudou muito. Todos queriam se ocultar ali e, muitas vezes, vi meninos negociando se era permitido ou não se esconder debaixo da ponte. Quem estava procurando tinha pouca chance. O cara descia por um lado e nós, vendo sua sombra, fugíamos a toda velocidade, subindo pelo outro lado.

E a ponte logo despertou outras idéias: como quase todas as pontes, ela passava sobre água e nós tínhamos muitos gatos em nosso bairro. Os gatos eram aqueles bichos que arranhavam nossos cães e que tinham a fama de serem limpos e de saberem cair. Ora, a ponte sobre a água lamacenta e ainda pouco poluída – estamos falando sobre o período entre os anos de 1966 e 1970 -, serviria para que os gatos pudessem comprovar se sabiam mesmo cair e para que constatássemos em quanto tempo eles voltariam a ser os bichos limpinhos de sempre.

Acredito que nunca outra geração de gatos teve tanto medo dos meninos da avenida João Pessoa. Hoje, sou indiferente a eles — amo os cães! –, porém, naquela época, entre meus amigos, participava feliz das espetaculares caçadas àqueles animais. Encontrávamos os gatos onde estivessem, trabalhávamos arduamente por nossa diversão e pelo progresso do conhecimento humano. Havia um, bem branquinho, que ficava hesitando entre mendigar comida na frente da casa de um casal de velhos e correr o perigo de ser capturado por nós. Aos amantes dos gatos, asseguro que nunca batemos neles, nunca os maltratamos. Mesmo! Sempre os levávamos em segurança, apenas procurando escapar dos arranhões, mordidas e ouvindo com altivez aquele som ridículo que emitem com a finalidade de avisar quando estão a fim de briga.

Vista da plataforma de arremesso de gatos

Vista da plataforma de arremesso de gatos

Os vôos eram lindos. Eventualmente, caíam com certa elegância. Porém, o mais das vezes, caíam mexendo desesperadamente as pernas — como se corressem no ar — e muitas vezes entravam na água de costas, de uma forma que desnudava a mentira que nos tinham ensinado. O que valera para as raízes das árvores, passara a valer para os gatos. Eles caíam como caíam. E nadavam de uma forma muito mais feia do que os cães. Nós dávamos risadas, descansávamos um pouco e íamos procurar outros. Afinal, precisávamos de uma boa amostragem para confirmar nossas teses.

Asseguramos que nenhum animal foi maltratado ou veio a falecer durante a pesquisa. Não consideramos como tortura o estresse e a adrenalina… Éramos crianças. Os que saíam lanhados ou com rinite alérgica eram humanos. Aprecie com moderação. Se persistirem os sintomas, vá a outro blog. Este texto foi desenvolvido a partir de material reciclável.

Obs.: Nota-se, por sua baixa qualidade, que as fotos foram tiradas por mim.

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Um Sonho: o Mar da Tranquilidade

mapa_da_lua_490pxEu tinha onze anos e achava lindo aquilo. A Apolo 11 levava o Módulo Lunar Eagle e este pousaria no Mar da Tranquilidade. Era o mês de julho de 1969 e nosso professor de Ciências explicou tudo direitinho; eu sabia que não havia água por lá mas o nome da região lunar onde a nave desceria — o tal Mar da Tranquilidade — foi das primeiras poesias involuntárias que ouvi. O Mare Tranquillitatis foi imaginado por mim sob várias formas. Como sabia que a gravidade de lá era menor que a nossa, via a água daquele mar bater em minhas pernas salpicando-me de pingos que subiam por metros e metros. Havia peixes que saíam d`água em vôos espetaculares. Eu pulava as ondas em direção ao enorme planeta sobre mim e via o mar metros abaixo, sabendo que a presença da grande esfera garantia saltos maiores e pousos serenos. Enquanto subia e descia, fazia piruetas sem som no ar, acompanhado de pingos salgados nos quais brincava de dar tapinhas.

Num daqueles dias, dei de cara com um livro na biblioteca de meu pai: Mar de Histórias. Abri: a expressão que dá nome à coleção vem de uma antiga coletânea da Índia, do século XI; é a tradução do nome sânscrito Kathâsaritsâgara, que significa “mar formado pelos rios de histórias”. Um verdadeiro oceano de narrativas, muitas delas célebres, etc. Gostei do livro, mas nada como o outro mar. Quando veio o dia 20, assisti Neil Armstrong caminhar na Lua. Dei só uma olhadinha e voltei para o quarto. Não vi graça nenhuma.

Mas hoje, mais de quarenta anos depois, voltei a sonhar com o lento Mar da Tranquilidade. Permanece lindo.

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O dia em que o saudoso Antônio elogiou um professor

angry_teacherEssa história do Antônio é sensacional, mas temo ser um narrador muito inferior a ela. Vou tentar, tá?

Na engenharia, naquele final dos anos 70, nós tínhamos um semestre de Cálculo Numérico e duas opções de professores. A primeiro chamava-se Porto e a segunda Cláudio. Excelente professor, Porto era tido por um gênio e talvez fosse. Hoje, além de gênio, ele seria um grande riponga. Vinha para a aula de sandálias quando estas eram usadas somente por religiosos; usava cabelos compridos, mas não penteados como os nossos daquela época — os dele eram uma zona. As roupas eram andrajos e todos os caras mais inteligentes o escolhiam. Porém, ele tinha duas características da qual eu não gostava: evitava o olhar direto e parecia destituído de humor. Já Cláudio era considerado um sujeito muito competente, mas convencional. Era respeitado. Baixinho, careca, de óculos… Ninguém ousava referir-se a seu estrabismo convergente. E eu me matriculei junto com meu amigo Antônio para fazer a cadeira de Cálculo Numérico com Cláudio. As aulas eram terças e quintas no horário das 20h30 às 22h10.

O que ninguém tinha me contado era sobre a voz monocórdica do professor. Aquilo era pior do que ingerir um vidro inteiro de Dramin estando com o estomago vazio. O cara começava a aula e, em quinze minutos, via-se corpos esparramados pela sala. Se alguém tirasse uma fotografia de nossa sala durante aqueles momentos terríveis, veria todo o tipo de posturas cansadas: gente atirada com a cabeça e os braços sobre a mesa, gente olhando o vazio, gente com os pés para cima, bocejos, gente conversando, conversando, conversando. Cláudio tinha uma mania. Quando finalizava uma demonstração, olhava-nos com ar vitorioso. Então víamos um sutil sorriso manter-se por um longo minuto em seu rosto enquanto nos observava. Eu via aquilo e pensava no quanto ele nos ignorava. Ele era feliz explicando seus teoremas e isso lhe bastava. E a gente, vendo aquele perigoso sorriso, copiava rapidamente o conteúdo do quadro-negro para estudar tudo em casa, quando estivesse efetivamente acordado.

Um dia a coisa foi longe demais. Estava quente, úmido, insuportável como só Porto Alegre sabe ser e a atenção ao professor conseguia ser menor que o habitual. Para completar, parecia que ele não gostava daquele trecho da matéria. A aula estava tão ruim e desinteressante que ele não mostrara ainda seu ar vitorioso. O sofrimento encaminhava-se tristemente para o final quando o Antônio ergueu o braço para fazer uma pergunta. Cláudio atendeu-o de pronto. Para a surpresa de todos, Antônio levantou-se da cadeira. Pelo visto, não podia fazer a pergunta sentado. A coisa ficou ainda mais séria quando ele iniciou sua fala com um sonoro “Prezado professor Cláudio”:

— Prezado professor Cláudio. Gostaria de dizer algo muito importante para mim e que certamente o deixará feliz.

A turma começou a se mexer, acordando da longa aula, verdadeira cura para a insônia. Cláudio observou Antônio de pé e pediu:

— Sim, o que é?

Antônio fez uma cara de absoluta paixão pela ciência matemática e, com voz embargada, começou:

— Professor, eu gostaria de lhe dizer que esta foi a maior e melhor aula que já tive em toda minha vida. O Sr. foi de um brilhantismo irrepetível. Nunca, em minha experiência universitária ouvi observações de tanta pertinácia, explanadas com tanta didática, clareza e talento. O Sr. torna minha vida mais feliz.

É claro que já havia gente rindo, na verdade havia gente dando gargalhadas descontroladas, tal a surpresa e a inadequação àquilo que ocorrera em aula. A coisa era tão inacreditável que o professor quedou-se inteiramente paralisado, sério, no estrado, observando detidamente o autor do discurso, como se ele fosse um ET. Depois, ele passou a olhar também os alunos que riam, dentre eles eu. E passava o olhar de nós para Antônio e de Antônio para quem já chorava de tanto rir. Ator perfeito, Antônio mantinha-se contrito, com cara de devoção. Eu já estava me sentindo mal, quando o professor perguntou a Antônio:

— Tu estás falando sério?

Foi a pergunta mais tola possível. Foi a pergunta de uma pessoa que não está impermeável ao elogio mais chão. Ele queria acreditar no Antônio. A resposta do meu amigo foi mais uma torrente de elogios.

— Professor, faz algumas semanas que me embeveço suas aulas, mas a de hoje ultrapassou tudo o que eu tinha presenciado até hoje nesta universidade. Eu estou agradecido por sua competência e dedicação a nós — disse com toda a seriedade.

Todos estavam quase rolando de rir, quando o professor nos mandou calar a boca em voz tonitruante. A aula continuaria.

Antônio sentou-se. Antes de seguir a tortura, Cláudio ainda voltou-se novamente para o aluno e o encarou longamente. Sua vaidade estava perdendo a guerra interna e ele finalizou o olhar inteiramente vermelho. Viu-se claramente que ele passara a acreditar mais nas risadas.

Aqui, a primeira história de Antônio.

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O dia em que o saudoso Antônio pulverizou uma prova

provaEu fazia Engenharia Elétrica na UFRGS — jamais me formei — e tinha um colega chamado Antônio Carvalho Sarmento, que não sei onde anda. Ele não tem Facebook nem há referências a ele no Google. O cara aparentemente volatilizou-se. Ele era o mais engraçado, o mais louco e corajoso dos colegas. Nós fazíamos várias disciplinas juntos. Na verdade, éramos bons amigos e procurávamos nos inscrever nas mesmas cadeiras, normalmente acompanhados pelo Ricardo Branco e pelo Pedro Spohr, o primeiro se formou, o segundo é cantor lírico dos bons.

Então, estávamos numa aula de Mecânica dos Fluidos, uma dessas coisas que a gente aprendia para nunca usar. Havia várias cadeiras assim. Talvez a ideia fosse nos torturar, incentivando-nos a largar o curso, coisa que acontecia com metade dos alunos naquela segunda metade dos anos 70.

Vou focar no dia de nossa primeira prova da cadeira. O professor distribuiu as questões e eu e Antônio nos olhamos. Não sabíamos responder a nenhuma delas. Ele abriu os braços sorrindo, como quem diz: “Tiramos zero”. Era um sujeito pequeno, mas tinha voz poderosa e um talento natural de ator. Passaram-se uns cinco minutos e ele se ergueu subitamente, anunciando com toda a seriedade:

— Professor, eu me nego a fazer esta prova!

O professor era um sujeito muito inseguro de sobrenome Maestri — esqueci o primeiro nome — e gaguejou lamentavelmente.

— Mas… Por quê?

— Ora, esta prova é um lixo de mal escrita, contém claras inconsistências, é uma vergonha para a Escola de Engenharia desta Universidade! — disparou Antônio com ar doutíssimo.

— Que inconsistências?

— Céus, e eu ainda vou ter que lhe explicar, criando constrangimento para o senhor na frente de seus alunos? Quem sabe o senhor reescreve tudo e fazemos nova prova?

Neste momento, a tese de Antônio ganhou muitos adeptos, pois ninguém sabia porra nenhuma, ninguém dava importância àquela cadeira. Claro que os dois ou três mais estudiosos protestaram, dizendo que a prova era bem feita. Porém…

— Isso, isso, fazemos nova prova na próxima aula — dizia a voz do povo.

— Mas…. Ao menos assina o teu nome — pediu o professor a Antônio.

— O quê? Eu, botar meu nome nesta merda?

Naquele momento, a turma já se levantava indignada, pronta para ir embora. Não havia mais clima. Quem não sabia nada, ou seja, a maioria absoluta, rindo muito, devolvia a prova para o pobre professor Maestri.

Grande Antônio! Na aula seguinte, Maestri deu uma prova bem fácil, cheia de questões que já tínhamos resolvido em aula.

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Hoje, dois anos do Sul21

Logo mais, uma pequena confraternização. Abaixo, alguns anúncios da época da fundação:

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Entrevista concedida por este que vos escreve ao Substantivo Plural

Retrato do Autor Quando Bebê

Ontem, foi publicada uma entrevista comigo lá no Substantivo Plural. Não sei bem quem conheceu primeiro quem, pensando melhor acho que o site me foi apresentado pelo Fernando Monteiro, o que sei é que o SPlural está no meu Reader e o acompanho há muito tempo. Cliquem aqui para conferir. Ele tem estrutura de um blog, mas não é um blog. É um repositório selecionado daquilo que sai de bom por aí em termos de Cultura e Ideias. As matérias copiadas vêm com educados links e tudo aquilo que se espera em nosso mundo copyleft. O SPlural tem editor —  Tácito Costa —  e colaboradores. E volta e meia eles fazem posts pegando coisas deste blog e do Sul21. Gosto muito quando fazem isso e gostei ainda mais quando o Lívio Oliveira, que não conhecia, me propôs uma entrevista mais ou menos baseada em meu Curriculum Vitae. A entrevista é decididamente amalucada, mas muito franca e o resultado… É comigo mas achei legal, tá? Abaixo, o texto completo:

Milton Ribeiro é um jornalista do Sul do país, crítico literário e de artes, escritor bissexto e editor de um blog maravilhoso (AQUI) muito bem acessado e que muitos aqui certamente já o conhecem. Tácito vem republicando, vez ou outra, alguns textos seus. O seu link também se encontra no canto direito deste SPlural (Aproveitem e vejam todos os endereços eletrônicos de Milton abaixo do presente post).

Milton, uma figura com a qual muito me identifico pelos gostos e escolhas (tomo a ousadia de dizer isso pelo que conheço do seu blog), concedeu-me, generosa e pacientemente, essa entrevista que fiz me baseando num inusitado “curriculum vitae” que está divulgado no seu blog. Procurem ler, antes, o tal “curriculum” e depois leiam a entrevista bem humorada e ao mesmo tempo instrutiva e produtora de reflexões, principalmente de ordem estética.

Aí vai:

L. O. E para começar, assim, já pergunto: por que fazer e manter um blog? O que o move nesse desiderato? É um instrumento essencial para um jornalista independente?

M.R. Tenho blog desde maio de 2003. Antes, ele era bem mais pessoal e eu o utilizava para me colecionar. Tinha de tudo ali, desde contos e capítulos de romances até meras anotações pessoais. Fui adquirindo uma pequena celebridade na chamada blogosfera, também fui processado duas vezes, tal a liberdade que sentia – a propósito, o último processo foi claramente absurdo e intimidatório e recebeu um julgamento muito injusto. Como resultado, deixei que um pouco de autocensura e pudor tomassem conta de mim. Talvez tenha sido um erro, pois sendo mais sério e utilizando menos a primeira pessoa do singular, perdi leitores. Também os blogues se modificaram, saíram da moda, perdendo espaço para o Facebook e Twitter. Por que o mantenho? Ora, porque sou lido por pessoas interessantes e ainda conheço outras. Mas não creio que seja um instrumento essencial.

L. O. Em que medida o daltonismo ajuda na fruição artística? Ou só atrapalha, mesmo?

M.R. Esta é uma pergunta curiosa. Depois de ler alguns livros de Oliver Sacks, tenho a fantasia de que meu profundo amor pela música seja uma boa filha de meu daltonismo, também chamado nos EUA de color blindness. É como se a falta de parte de um sentido tivesse tornado outro hipertrofiado, mas deve ser tudo imaginação. Para a fruição das artes plásticas, o defeito atrapalha de forma considerável, mas ele é decisivo na escolha de roupas. Minha mulher quase enlouquece quando chego num lugar com uma combinação de cores que só faz sentido para mim.

L.O. Mesmo assim, confia em suas escolhas estéticas?

M.R. Em artes plásticas, não. Nas literárias, cinematográficas e musicais, sim.

L.O. Essa mania de contar/catalogar filmes e livros…de onde vem? Qual o sabor disso?

M.R. Outra pergunta complicada. Nasci com mania de catalogador, as pessoas sabem disso e me fazem consultas. Há pessoas que me chama de guru… É como aquela piada do Groucho Marx citada pelo Woody Allen. “Meu irmão pensa que é uma galinha, mas não o trato porque preciso dos ovos”. Muita gente me pede os ovos – bem, a frase ficou esquisita, mas deixa assim. Também tenho muito boa memória, mas não prescindo da bengala de longas listas. Gosto de passar os olhos por uma relação de livros antiga para lembrar que, por exemplo, Uma Confraria de Tolos era uma obra-prima e nunca mais foi reeditada. Há um sabor interessante nisso. Assim como me sinto tranquilo vivendo sob uma rotina, sinto-me ainda melhor se anoto o que faço e vi. Enfim, é uma neurose como qualquer outra.

L.O. E essa outra mania, a de roubar livros? Por sinal, já acabou? E você empresta livros?

M.R. Roubei muitos livros durante a adolescência, roubava para mim e para os amigos. Me dava pena que fossem tão sedentos de cultura e pusilânimes. Durante uma época da vida, roubar livros é o único caminho para leitores apaixonados e sem dinheiro, como eu era. Tudo o que escrevi naquele post é verdadeiro. Hoje não roubo mais, nem saberia fazê-lo. Tenho medo, apesar de que o adolescente Milton nunca foi flagrado em ação. Bolaño foi outro grande ladrão de livros, muito maior do que eu. Eu roubei algo entre 300 e 500 livros. É claro que os livros devem ser emprestados e devolvidos. Tenho também uma lista de livros emprestados e costumo cobrar se não devolvem, claro. Há que ser moral!

L.O. Que ligações existem entre Literatura, Cinema, Música e Futebol?

M.R. Inúmeras. As artes, assim como o futebol, são representações da vida. O futebol nunca chegará ao nível e à abrangência de uma peça de Shakespeare ou de uma música de Bach, mas tem uma riqueza toda particular. É diferente. Há algum lugar onde você vai com a finalidade de desejar uma coisa com todas as suas forças, mas que possa subitamente mudar de partido dependendo do que ocorrer? Além disso, o futebol é muito plástico e emocional. Talvez sua ligação mais difícil seja com a música. Não venham dizer que o drible é uma dança… Não, drible é drible.

L.O. Quem são seus craques preferidos na Literatura, Cinema e Música? E os seus artistas no Futebol?

M.R. Olha, são mais de cem ídolos em cada área. Se você me ameaçar fisicamente para que eu escolha cinco em cada área sairá algo como que segue. (Vou responder rápido antes que me arrependa). Literatura: Tchékhov, Machado, Dostô, Joyce, Melville. Cinema: Bergman, Welles, Kubrick, Kusturica, Antonioni. Música: Bach, Beethoven, Bartók, Brahms e Bahler ou Mahler.

L.O. Por que não publicar os livros que tem em mente? E por que razões os publicaria?

M.R. Bela pergunta. Minha ex-mulher era muito competitiva e, para manter o casamento, era necessário ser humilde, aparecendo menos do que ela. Como ela tinha altas aspirações intelectuais e existe o mito de que o livro é um ápice da vida de alguém, fui treinado a evitar os livros. Hoje tenho a mulher perfeita, mas mantive a mania de escrever para mim mesmo. Há outro motivo também: é divertido apresentar personagens, estabelecer conflitos e até finalizar os romances, mas é muito chato revisar. Também vejo muitos colegas publicando livros sem conseguir vendê-los ou sendo obrigados a se tornarem vendedores em feiras, eventos, etc. Não sei se tenho este talento. Teria se fosse vendê-los em Londres, Roma ou Paris. Porém, você sabe como é: acordo todo o dia às 6h para escrever um romance que está na metade. Mas, olha, não tenho nenhum plano de ir além da finalização do mesmo. Sei que está tão fácil de publicar quanto de ficar encalhado e que ficaria louco se encalhasse.

L.O. Por que razões as mulheres ficam mais belas aos sábados? Vinícius de Moraes tem algo a ver com isso? (falo para Milton de uma das famosas seções de seu blog e que é publicada somente aos sábados, com a publicação de fotos e de comentários irreverentes sobre belíssimas e famosas mulheres).

M.R. O “Porque Hoje é Sábado” nasceu de uma aposta com o ex-Ao Mirante Nelson, atual Tom O`Bedlam. Conversávamos pelo MSN sobre nossos blogs e ele me desafiou a manter, no final de semana, a mesma visitação dos chamados dias úteis. Fui à luta e consegui. Ele disse que aquilo não valia, que foi um golpe abaixo da cintura. Ora, tal fato é visível. Mas a verdade é que não costumo mostrar pelos pubianos. É uma seção família do blog, destinada às grandes atrizes, seus rostos e seios. Adoro seios. E atrizes. Mulheres também.

L.O. Por que mudou para o Sul21?  Sei que a resposta parece óbvia, mas…

M.R. Bem, eu sou um dos editores do Sul21. Era natural que colocasse meu blog no condomínio de blogs do site, não?

L.O. Aí não vale…mas, acredito que a sua maior satisfação com as artes é mesmo na condição de alguém que contempla, na condição de um apreciador, de um fruidor. Nesse contexto, acredita que existem regras para o “gosto”, o “fruir” estético? Há parâmetros exigíveis e/ou necessários para isso?

M.R. Não. Mas o há o bom e o mau gosto. O bom gosto se forma com a vivência. Há que dar acesso às pessoas. Por exemplo, duas semanas de tratamento intensivo de PQP Bach impedem Michel Teló na terceira semana. O problema é que recebemos uma enchente de “Vingadores” e pingos de “A Separação”. Mas é claro que sou um fruidor de arte. E feliz.

L.O. Existe uma hierarquização das artes? Ao menos, existe uma hierarquia na sua cabeça? Percebo que se emociona mais com a música erudita…é verdade? Por quê?

M.R. Creio que exista uma hierarquia diferente para cada pessoa. Há algumas emoções só alcançáveis pelo cinema, outras pela literatura, mas a mais completa das artes é a música. Como Shostakovich comprovou, ela exprime tudo – até a situação política – em linguagem universal, sem palavras.

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A história dos bares de esquerda de Porto Alegre: a Esquina Maldita (revisado)

(Fanfarras. O programa começa. Adentra o palco um homem grisalho, não de todo acabado. É o Especialista. Ele senta ao lado do apresentador, que fala.)

— Nosso pogrom d`oje traz o Espesializta Milton Ribeiro para nos contar sobre a Esquina Maldita. Boa noite.

— Boa noite, é um praz…

— Claro que é um prazer! Milton, diga-nos: quais foram os bares que formaram a famosa Esquina das avenidas Osvaldo Aranha e Sarmento Leite?

— Ora, primeiro, em 1966, veio o Alaska, depois vieram o Estudantil, o Copa 70 e o Marius.

— Quanto tempo duraram?

— Sei lá. O que sei é que o Alaska fechou em 1985 e o Marius foi adiante.

— Quem ia ao Alaska?

— A militância d`esquerda.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton.

— Obrigado. Eu estava ligado.

— Bem, podemos continuar.

— O Alaska tinha um garçom que às vezes era acompanhado de um auxiliar meio idiota. O idiota sempre mudava, era de alta rotatividade. O garçom não era nada idiota, seu nome era Isake Plentis d`Oliveira.

(Fanfarras. Porém, o apresentador levanta-se e faz parar tudo.)

— Não, não valeu. Com nomes próprios não vale.

— OK, desculpe.

— Adiante!

— Então o garçom era Isake Plentis de Oliveira, conhecido por apenas por Isake. Quem ia lá era a intelectualidade da esquerda e muitas vezes éramos visitados pela polícia. Obviamente, o DOPS mantinha informantes lá.

— Sempre foi assim?

— Bem, nem sempre. No início era um bar em que as pessoas iam para conspirar ou falar de política, era também quase exclusivamente masculino. Depois, nos anos 70, as mulheres tomaram conta.

— Ninguém comia ninguém?

— É… pouco. Foi um bar de resistência à ditadura até a metade dos anos 70, depois virou o local da esquerda festiva. Derrubávamos o governo todas as noites.

— E o que você comia lá?

— Apesar do pessoal do teatro frequentar, não era um bar para conseguir mulher, a gente comia os pratos mesmo.

(O apresentador ri e aponta para o Especialista. Seu gesto denota quão irresistivelmente engraçado é ele.)

— Os pratos eram o Robertão, o Burguês, o Vietcong e se bebia trigo velho ou batidas de côco e maracujá. Tinha chope, mas eu não tomava chope lá.

— E os outros locais?

— O Estudantil era barato e bagaceiro. As pessoas morriam no Hospital São Francisco e os parentes iam lá se embebedar. Esses momentos eram tristes. Era também o bar dos lixeiros da madrugada. Eles paravam o caminhão e o Ataliba, o garçom, servia cerveja para eles. Esse pessoal não se misturava com os intelectuais do Alaska e vice-versa.

— E o que você comia lá?

— Mulheres, porque o bar tinha dois ambientes. O da frente, com mesas, e o de trás, que era escuro e destinado ao sexo. Do amasso ao coito, podia tudo. Com o tempo, deixei de ir porque eu não era suficientemente promíscuo.

— Trepava-se com estranhos?

— Quase sempre. E eu não queria, em hipótese alguma, colocar minhas namoradas na roda.

— Um machismo perfeitamente natural, compreeensível, adequado e correto. Mas e o Copa 70?

— Era um bar d`omossexuais!

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar mais uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton.

— Obrigado. Eu fiquei desligado por um tempo mas agora liguei de novo.

— Bem, podemos continuar.

— Era o bar onde a Nega Lu, que se chamava Luis Airton Bastos, fazia performances.

— Então, o que se comia lá?

— Bundas.

— Havia drogas?

— Eram disseminadas entre os bares. Mas o pessoal do Alaska não gostava daquilo. Elas alienavam.

— E o Marius?

— O Marius foi o último a abrir. Já era o tempo da decadência. A Universidade foi lá para o campus e o pessoal das drogas foi… foi… foi para… deixa eu fazer a frase… mais para o meio da Redenção.

— Hum, para que bar?

— O nome dele é… é. Bom, eles se tornaram o pessoal d`Ocidente.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar mais uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton. A terceira caixa, hein?

— Obrigado. Agora tô ligado, tô ligado.

— E então?

— O grosso das pessoas foi para o Ocidente e os saudosos da Esquina Maldita acabaram no Marius.

— Bem, como já entregamos três caixas de nosso patrocinador e o Milton tem de trabalhar, encerramos aqui a entrevista. Milton, alguma coisa que queira acrescentar?

— Foi um`onra estar aqui.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Não vale, não vale, tem que ser com “d”. Boa noite. Fim de programa.

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Minha filha Bárbara faz 12 anos

Publicado em 25 de setembro de 2006. As fotos se perderam junto com o blog antigo

É tempo de homenagens. Hoje é o centenário de Shostakovich, mas é também o dia em que minha filha completa uma dúzia de anos. Então, publiquei ontem a última parte da série sobre o compositor russo, a fim de abrir espaço para o níver de minha filha. Questão de justiça? Não, questão de amor mesmo.

Querida filha.

O dia 25 de setembro de 1994 foi um domingo. Dias antes, eu tinha assistido a um filme sueco chamado “Crianças de Domingo” no qual dizia-se que as crianças nascidas em domingos eram as mais felizes. Espero que seja verdade. Tu eras esperada para umas duas semanas depois, mas uma bolsa rota determinou que aquele seria o dia. Foi rápido. Chegamos ao hospital por volta das 17h30 e tu foste retirada da barriga da tua mãe às 19h35. Não lembro do que diz na certidão, lembro ter olhado para o relógio ao ouvir um berreiro sensacional de criança saudável e ver que eram 19h35. Lembro da pediatra saindo da sala de parto contigo e que fui atrás, caminhando rápido. Enxerguei uma enorme boca de uma guria vermelha de tanto gritar, adornada de cabelos lisos e pretos. Mas teu irmão era loiro! Eras bem mais morena do que a rigorosa brancura do teu irmão e os cabelos de índia até combinavam contigo. Mas logo os cabelos pretos caíram e, para a surpresa dos familiares, foram substituídos por cabelos encaracolados e loiros. Bárbara, a ex-índia.

Repetia contigo as brincadeiras que fazia com teu irmão, porém contigo elas não faziam muito sucesso. É que eras uma menininha que não gostava de movimentos bruscos e muito menos de ser atirada para o alto. A coisa tinha que ser mais afetuosa e dava ainda mais certo se acabasse em abraços e beijos. Nossa, como tu gostavas de balanço; lembro de ficar sábados e domingos te balançando por horas, horas mesmo! Sabes este Walkman da Sony que tenho até hoje e que levo aos jogos de futebol? Pois é, comprei para ouvir alguma coisa enquanto te balançava. Para mim era meio chato, mas tua cara de felicidade fazia com que eu permanecesse horas te empurrando. Devia ser legal ver o mundo se mexendo para cá e para lá, para cá e para lá; ficavas em silêncio, com aquela cara embevecida, e se eu parasse para ouvir melhor alguma música na Rádio da Universidade ou o jogo do Inter, logo ouvia “quero mais, papai”. Para ir embora, no mínimo uma hora depois, tínhamos que entrar em acordo. Tu querias que eu contasse, um a um, mais mil impulsos no balanço, eu contrapropunha dez e fechávamos por vinte. Pai sacana.

Tempos depois, a brincadeira preferencial era na tua cama, antes de dormir. Ficávamos no escuro, debaixo das cobertas. Tinhas uns cinco ou seis anos e eu te dizia que ia pedir para tu fazeres uma conta, uma conta difícil, tão difícil que ia quebrar tua cabeça. Tu entravas para baixo das cobertas, simulando medo e eu dizia lento e soturno: “treze menos cinco”. Entravas em pânico, dizias várias vezes “Espera!”. Eu ficava ouvindo tua vozinha cochichando os números enquanto contavas nos dedos. Via que tu tinhas dificuldade por não possuir treze dedos e não sei mesmo como fazias para simulá-los. “Espera, papai!”. Talvez concluísses que era mais fácil tirar os três dos cinco e fazer dez menos dois. “Espera, só mais um pouquinho!”. E, olha, Babi, às vezes demorava mesmo… Então descobrias a cabeça rapidamente e eu via vagamente os contornos de um sorrisão e tu respondias sempre, mas sempre com uma pergunta: “Dá oito?”. Claro que eu ficava triste por não conseguir te fazer errar e propunha outra conta terrível que também acertavas. Uma merda, aquilo.

Um pouco antes desta época conheceste a Luísa Cunha. Era uma menina muito alegre e legal e eu tenho a tese secreta de que só pais legais criam crianças legais e que se eu não vou com a cara e com as atitudes de uma criança é porque não vou gostar dos pais. É uma tese tranqüilizadora; nunca fiquei preocupado em te deixar visitá-la. Eu me parabenizo até hoje por ter sempre concordado com essas visitas que acontecem desde o maternal até hoje, quando vocês vão para a praia, durante o inverno, invadir o jardim de casas desconhecidas e fazer soar os alarmes, para fazer aparecer a empresa de segurança enquanto vocês fogem para casa e ficam jogando cartas, olhando a confusão pela janela…

Bem, mas isto é coisa de agora. Estou misturando tudo. Vamos voltar ao fim-de-semana em que aprendeste a ler. Minha apreciada veia pedagógica estava desligada e não me dava conta de como te explicar as sílabas. Tu colocavas uma só consoante para cada letra e dizias “Pronto”. Mandava tu escreveres CASA e tu escrevias CS. Foi então que teu irmão, que estava perdendo minutos fundamentais de sua vida porque não conseguia me fazer jogar futebol com ele, veio ajudar e te disse, com aquela má vontade e indulgência peculiar dos irmãos mais velhos, que uma letra só muito fraca para fazer um som decente, desses de palavras, e que precisava de uma daquelas cinco letrinhas para ajudar. Disse mais, mostrou que o número de duplas de qualquer palavra podia ser descoberto batendo palmas. “Bo-la”, viu? Batemos palmas duas vezes. Pai, diz agora para esta idiota escrever banana!”. Tu bateste palmas três vezes e… deu certo, escreveste ba-na-na! Viste o que a paixão pelo futebol faz?

Ah, tiveste algumas dificuldades no colégio, mas eu também tive no meu tempo. E, também como tu, era um dos mais baixinhos da turma até me estabelecer como médio. Cresci tarde para chegar a meus incríveis 1,71m. Teu irmão também é um ex-anão, né? Só crescemos depois dos quatorze, ele bem mais do que eu. Quando fomos ao médico para ver tua idade óssea deu quase dois anos a menos. Então, acho que vai dar para ganhar da tua tia, das tuas avós e das tias-avós anãs, passando fácil dos 1,60m. Maldade com elas, né?

Olha, li uma vez que, oficialmente, a Unicef considera que a adolescência começa aos doze anos e acaba aos dezoito. Confesso que conheço pessoas que já passaram dos quarenta e que refutam eloqüentemente este cálculo arbitrário, mas consideremos que ele seja verdadeiro. Então, hoje, às 19h35, todo aquele teu mau humor matinal, aquela recusa de dar justificativas para certas atitudes, aquele azedume repentino e inexplicável, aquele choro ou grito que não se sabe o motivo, aquele fechar-se no quarto, tudo, mas tudo mesmo, estará inteiramente esclarecido: será a abominável aborrecência. Ho, ho, ho.

Mas ela não há de mudar assim tão rápido teus sonhos de andar a cavalo todos os dias, de ficar mais tempo comigo, tuas vontades de comer eternamente pastel à noite, de ver filmes de terror com a Claudia, de visitar cemitérios com a mesma doida varrida, de dizer que odeias ler para depois elogiar os livros e sentir pena quando acabam e de criares agendinhas mentais e rotinas para todas as tarefas do dia.

E por falar em tarefas, anote aí. Não esqueça que te busco hoje lá pelas cinco, te dou o presente e vamos ao supermercado comprar as bebidas para a festa de hoje, que terá horário rigoroso para começar e nenhum para terminar e que acabará numa negociação assim:

– Pai, posso dormir uma hora mais tarde hoje?
– Não.
– Então meia hora?
– Não.
– Então, quinze minutos?
– Dez.
– E que horas tu vai me acordar amanhã?
– Às 6h40.
– Ah, eu posso chegar atrasada no colégio amanhã?
– Não.

Ah, as fotos. Como sei que nunca leste o meu blog – apesar de achá-lo “muito massa” –, botei um chamariz, entende? O que é chamariz? É um tipo de propaganda bem direcionada, meio que só para ti, em que vais ver a tua cara e talvez te sintas a fim de ler isto aqui, sua pentelha.

Um beijo do pai, minha linda guloxinha.

P.S. – Ontem, fomos ao jogo só eu e ela. Um diálogo:

– Pai, sobre o que tu e o Dado tanto conversam durante os jogos? – Dado, ou Bernardo, é o irmão.
– Sobre os jogadores, a tática.
– Quero que tu converse também comigo sobre isso.
– Tá bom.

Up-grade: Atendendo a pedidos, uma foto da Bárbara saltando:

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Armando Nogueira, o mais recente santo

Armando Nogueira, falecido ontem, tem recebido notáveis encômios post mortem. Na verdade, eu pouco sei dele além das discretas participações nos debates da SporTV e de ter sido o fundador e primeiro diretor do Jornal Nacional, um dos principais esteios da ditadura militar. Sei que havia a censura e que os milicos mandavam tirar isso e colocar aquilo, sei da concordância de Roberto Marinho, mas o papel de Armando é muito semelhante ao de Klaus Maria Brandauer no clássico Mephisto. Ele parece ser um poeta, um amante da palavra e do bom futebol romântico, porém passou 25 anos obedecendo aos militares e a Roberto Marinho no mais importante jornal da onipresente Rede Globo daquela época em que só tínhamos a TV aberta.

No documentário Muito Além do Cidadão Kane, Armando Nogueira critica acidamente a edição do famoso debate Lula x Collor de 1989, que beneficiou escarradamente o segundo e provavelmente decidiu a eleição. Virou exemplo de jornalista ético, apesar de sua longa relação com o braço jornalístico da ditadura. Estranho.

Mais. Há o bem mais claro escândalo da Proconsult de 1982. Havia a disputa Leonel Brizola x Moreira Franco e Nogueira — conhecido à época pelo delicado apelido de “armando nojeira” — ficou em maus, péssimos e malcheirosos lençóis por ter manipulado (ou colaborado com a manipulação) resultados das pesquisas de opinião, fato que se tornou depois corriqueiro. Brizola deixou às claras a atuação do educado e culto moço da Globo.

Sobre o caso Lula x Collor — vejam Santo Armando com o dedo na boca, todo torto na cadeira, tentando tirar o seu da reta da história:

Não digo que ele tenha sido culpado — o que sei eu? — , mas o Jornal Nacional era dele e estávamos numa época complicada. Difícil acreditar que tudo foi feito sem a presença do diretor, principalmente numa edição tão importante, não? E aqui está a beleza produzida pela Rede Globo para o Brasil no Jornal Nacional, um ou dois dias antes da eleição:

Nosso país não prima mesmo pela memória. Ninguém quis lembrar que o ameno, leve e simpático Fernando Sabino escrevera, provavelmente sob encomenda, Zélia, uma paixão, em homenagem ao amor da ministra da Economia do governo Collor, Zélia Cardoso de Mello, pelo ministro da Justiça Bernardo Cabral. Todos só queram falar em Encontro Marcado e nas crônicas. Então, tá. Viva Armando Nogueira!

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Pina Bausch e Dilma Rousseff

Ontem à noite liguei a TV e estava passando Fale com ela de Pedro Almodóvar. Não lembrava que o filme mostrava bem no seu início o Café Müller de Pina Bausch. É uma coisa estranha, nunca dei muita bola para dança, mas um dia fui assistir em Porto Alegre ao Teatro de Dança de Wuppertal, certamente por culpa da Helen. Sim, eu vi Pina Bausch. Vimos duas coreografias que tornaram-se clássicas; afinal, tanto Café Müller como A Sagração da Primavera são sempre citadas. Lembro de ter ficado hipnotizado vendo tudo aquilo, de que não tinha a mínima ideia prévia, acontecer bem na minha frente. Obviamente, a Sagração causou maior impacto — há muito mais som nela e amo Stravinsky — mas a memória parece ter valorizado muito mais o Café Müller.

Com uma trilha sonora que me pareceu à princípio livre-associação, pois toda centrada em árias desencontradas de Henry Purcel ou no silêncio, e que ganhou sentido quando chegou ao Lamento de Dido, da ópera Dido e Eneas, o Café expressa de forma fria e obsessiva nossa tristeza pela impossibilidade de maior contato humano. O palco é cheio de mesas e cadeiras vazias (mais parece a cantina de um hospício) que têm de ser insistentemente afastadas enquanto quem realmente dança erra às cegas pelo palco, inteiramente dentro do desespero da perda do amor. É algo que parece simples, com muitas repetições — um Thomas Bernhard dançado? — porém toda a movimentação de um verdadeiro Teatro de Dança em que muitas coisas aconteciam em diferentes pontos do palco, resultava em congelante emoção e medo. As repetições, lógicas em seus inícios, dissolviam-se em frenesis em sentido. O comportamento dos bailarinos é ora agressivo, ora apático. Lá em 1980, nunca imaginaria a existência de tal arte.

Pois eu e a Claudia estávamos vendo Pina quando um de nós inadvertidamente se virou na cama e pressionou um botão qualquer do controle remoto. E então o canal muda e damos de cara com Luciana Gimenez entrevistando Dilma Rousseff. Sim, claro, na RedeTV. Abaixo da imagem de ambas havia o anúncio de que Dilma ia cozinhar a seguir. Oh, God, precisávamos ver aquilo. Afinal, talvez fosse o ensaio para ela preparar uma refeição na Ana Maria Braga. Adeus Almodóvar, Pina Bausch e o Caetano (Cucurrucucu, Paloma) que apareceria depois.

E ela fez um omelete, reclamou da falta de uma Tefal, falou sem parar, disse que tinha grudado e que então agora eram ovos mexidos, provaram, estava sem sal (culpa de Luciana que mandou a ministra pôr menos), depois as duas comeram tudo até o fim, rasparam vergonhamente seus pratos — o troço ficou com ótima cara — , sem deixar nada para os famintos do auditório, que aplaudiu, Dilma disse que voltaria para fazer um bacalhau e mais aplausos. Avisou que virá com uma Tefal e com colher de pau, pois a produção do programa deixou-a com uma espátula que mais parecia uma pá de pedreiro para desgrudar a merda. (Prova de que o PT não está preparado para uma candidata mulher…) Bem, e aí o clima inicial Bausch-style já tinha ido pro saco e vim escrever este post.

Abaixo, para lembrar, um fragmento de Café Müller — muita atenção a partir dos 2min25 — e o fragmento final da Sagração de Pina Bausch.

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Uma diversão

Era o início dos anos 70. Eu, todas as manhãs, ia para o Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Aquele dia estava frio demais, perto de zero grau e lembro que estávamos encolhidos de frio (dir-se-ia “encarangados”, no RS), sentados, duros, assistindo a uma aula. Não lembro qual era a matéria e nem interessa ao que vou contar. As salas de aulas não recebiam o sol matinal. Este, de modo perverso, vinha pelo outro lado, invadindo a enorme sacada do colégio, ultrapassando seus vidros, batendo no chão de lajotas de cerâmica hexagonais e subindo pela parede de nossa sala, mas não alterando sua temperatura interna. E então as explosões começaram.

Todos nós ficamos assustados. O que seria aquilo? Eram explosões sucessivas e devo ter sido um dos primeiros a sair correndo da sala, pois lembro do corredor vazio com o chão desmanchando-se. Provavelmente as lajotas dilataram-se mais rapidamente do que aquilo que as mantinha coladas ao chão e elas simplesmente voavam pelos ares, fazendo grande barulho. Claro que a saída dos alunos das salas para o corredor fazia com que mais lajotas se quebrassem. Logo houve aquele descontrole típico de quem tem 13 ou 14 anos. Os professores e monitores não eram mais ouvidos e, pior, estavam igualmente pasmos, observando o fenômeno, que já passara do terceiro para o segundo andar. Todos corriam. Eu lembro das caras felizes dos colegas e da cara de o-que-está-acontecendo de quem deveria manter a ordem. Ninguém temia os estilhaços.

Não tivemos mais aula naquele período. A ordem custou a ser restabelecida. Um professor de física foi de sala em sala explicar o fenômeno. Não fora um ataque militar, nem algo sobrenatural. Fora apenas diversão.

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Não faz falcatrua com o tio

Fui vítima de um sequestro relâmpago em 2002. Não foi nada divertido. Eu estava chegando na residência de minha mãe quando vi um jovem vestido como qualquer pessoa de classe média aproximar-se da porta de meu carro. Veio numa velocidade inequívoca, deixando bem à mostra uma arma que apontava para algum lugar abaixo de minha cabeça, ou seja, a porta, pois eu estava sentado no carro, esperando que a porta automática abrisse. Fazendo o que sempre vira nos filmes, saí do carro com as mãos para o alto, em total silêncio. Ele me mandou sentar no banco de trás, onde logo recebi a companhia do mais agitado do grupo. Os bancos da frente foram ocupados pelo rapaz da arma e sua namorada. Eram 19h30, mais ou menos.

Mantive o silêncio que insiste em me acompanhar nas situações críticas e apenas notava vagamente que o motorista desejava dirigir rapidamente, mas que era inexperiente, muito inexperiente. Não parecia drogado, apenas dirigia mal. Já meu companheiro de banco parecia bastante alterado. De forma descontrolada, gritava palavrões e batia em minha cabeça com o cano do revólver que recebera do motorista. Ele apontava a arma para um local acima de meu ouvido direito — bem onde eu suponho que esteja meu cérebro — e batia ali com força. Eu não consigo refazer perfeitamente este período em minha memória. Acho que meu estado era mais de perplexidade e menos de medo, mas talvez isso seja uma fantasia posterior: meu estado devia ser de medo paralisante e só. Afinal de contas, eu nunca peguei um revólver e imagino que este seja uma coisa para ser manuseada com certo cuidado, como se maneja algo prestes a explodir. Não deve ser um instrumento para bater na cabeça de alguém, ainda mais com o cano apontado. Tratava de ficar o mais quieto possível ouvindo um monte de ofensas, quando o motorista mandou o sujeito parar de babaquice e ver se eu tinha dinheiro. Em resposta, o sujeito abriu minha pasta e logo achou a carteira. Tinha R$ 30,00. O cara ficou puto.

Antes que ele voltasse a se divertir com minha cabeça, resolvi falar:

— No bolso de trás da calça, tem R$ 1.700,00.

O casal no banco da frente comemorou, dizendo que o tiozinho era legal. Meu colega começou a dar risadinhas enquanto demonstrava enorme dificuldade para pegar o dinheiro, apesar de eu ter virado quase 90º a fim de que ele pegasse. Então, ele mandou que eu entregasse o dinheiro para ele. Não pensem que ando sempre com R$ 1.700,00. O que ocorrera é que eu achei que tinha dinheiro demais no caixa da firma e resolvi levar comigo. Era uma atitude rotineira para evitar, digamos, faxineiras mais curiosas. Disse para eles que não tinha dinheiro em caixa automática, que pegara tudo. O cara do meu lado duvidou aos berros, perguntando se eu tinha certeza absoluta daquilo. Confirmei e confirmei e confirmei. A menina do banco do acompanhante disse que era melhor assim pois

— fico muito “tensionada” nesses caixa automático.

Empreendemos um longo passeio aparentemente sem objetivo nenhum. O motorista dizia que o rádio do carro era uma bosta, que nem valia a pena roubar. Partiram para as avaliações: meu relógio era legal, o celular era outra bosta, a pasta era das caras e eles levariam, etc. E assim chegaram a conclusão que o saldo do sequestro seria R$ 1.730,00, minha pasta e o relógio. Apesar disso, ligaram o rádio na Atlântida, da RBS. A conversa era pouca e o motorista nos levou à periferia de Canoas, voltou a Porto Alegre, andou por umas vilas, etc. O que procuravam? Era algum plano para mim? Em certo momento, vi que o rapaz ia dobrar numa rua onde eu tinha visto rapidamente as luzes de um carro da Brigada Militar. Dei um grito:

— Não entra aí, tem um carro da Brigada!

Pode parecer paradoxal, mas achei que poderia haver algum gênero de tiroteio ou confronto e que eu seria um detalhe insignificante para ambos os lados. Além do mais, minha pequena experiência manda evitar autoridades como criminosos, brigadianos, juízes de direito e de futebol. Mais paradoxal ainda, sempre me entendi bem com policiais, os quais sempre foram razoáveis. Mas tergiverso. Minha atitude foi saudada pelos inquilinos (ou novos donos) de meu carro como um grande passo em minha vida como celerado.

— Porra, o tiozinho aprende rápido!
— Cacete, como é que ele viu?

Como já estava me tornando um ídolo, já conseguia pensar claramente que eles estavam procurando um lugar para me matar ou para utilizar meu inexpugnável ânus para seu prazer, algo assim. Como ninguém me impedia de falar, empreendi o mais patético dos discursos: tinha dois filhos pequenos (verdade), era separado (verdade), cuidava de uma mãe doente (verdade), era filho único (mentira…), trabalhava para todos eles (mentira) e que haveria muito sofrimento se alguma coisa me acontecesse (não sei); enfim, apelei. Então, subimos um morro de Porto Alegre que atende pelo delicado nome de Maria Degolada. O rapaz foi parando num local que, se não era um descampado, também não era desabitado. Então, a menina do banco da frente falou com veemência para o motorista:

— Não faz falcatrua com o tio! Ele é legal!

O cara olhou para ela e disse:

— Calma, …inha.

Me mandaram sair do carro. Saí lentamente, como se estivesse entre amigos, mas na verdade pensando que, se corresse, poderia levar um tiro (sabem aquele instinto que manda a gente NÃO correr de cachorros?, pois é, foi o que pensei indistintamente). Dei alguns passos e me chamaram. Quase me caguei. Era o motorista. O rapaz, com um sorriso, dizia para eu levar minha carteira vazia de dinheiro e meu celular de merda. Devia ter pedido dinheiro para o ônibus, talvez ele me desse. Me explicou que dava trabalho fazer os documentos que estavam na carteira e que tinha tirado a bateria do celular para eu ter não telefonar para meus amigos brigadianos. Peguei as coisas e caminhei devagar. Nunca mais os vi.

Depois de algumas quadras, notei que estava fedendo. Era o pior cheiro que já tinha sentido em mim. Era uma coisa animalesca, chegava a arder no nariz. Horrível. Caminhei, acho, por três horas. A sede era imensa. Quando cheguei à casa da minha mãe, ela dormia. Melhor assim. Devo ter ficado meia hora esperando a banheira encher, coisa que nunca fizera antes. Mergulhei na água pensando em meu azar e sorte, e no significado de “falcatrua” para aqueles caras. (Ouvi depois essa palavra ser usada no sentido de sacanagem).

No dia seguinte, às 8h em ponto, avisei o seguro sobre o carro e eles me mandaram fazer uma ocorrência. Fui trabalhar, não estava com nenhuma pressa de ir à polícia. Raciocinava confusamente que o problema era meu e que não tinha necessidade de ficar falando naquilo. Por volta das 10h30, um funcionário da seguradora me ligou, dizendo que meu carro estava na Rua Botafogo, estacionado em local proibido, com as janelas abertas. Meu rádio devia ser uma bosta mesmo, o resto também. Nunca fiz a ocorrência e nem liguei de volta para o seguro. Ninguém, além de meus filhos, soube da história. Naquela época, era doloroso demais contá-la.

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25 de setembro de 1994, 19h40, Bárbara

Te vi poucos segundos depois de apareceres
a médica passou a toda velocidade, estava sorrindo
o teu grito era imenso, um bocão de 2,5 Kg
ela te limpava, dizendo nossa ela é forte
e aí te peguei, tu estavas toda rígida,
ainda berrando, embrulhada em panos,
quem eras?

Cuidei muito de ti, tu eras pequena
e me enxergavas imenso
o que sempre me diminuía;
te acostumaste com minha falta de jeito
sempre bem escondida
sob a torrencial chuva de bobagens
das quais sou refém

A infância foi uma infância
e tu nem lembras mais que me pedias, rindo sedutora
na porta da creche
pai, me entrega daquele jeito?
e eu te entregava na porta, segura por um pé, de ponta cabeça
dizendo pelo amor de deus
fiquem com esta porcaria

E aí houve a separação
e deixei tudo para o dado e para ti

mas querias vir
eu cá dizendo que deixara tudo para ti lá
tu dizendo não
e vieste para cá
para mim
para nós

Confesso sem vontade nenhuma de dizer, que tua decisão me (nos) assustou
imaginava anos de despojamento vendo de longe tua formação
quando pediste e pediste e pediste por meses para vir
e, bobo que sou, quando quis ajustar a vida cá
recuperando algo que deixará lá
vi só egoísmo, ódio e cus-
tas

Mas
como foi bom;
quando penso no futuro
quando estou infeliz de dar dó
ou alegre porque houve alguma coisa legal
e a vida voltou a ser uma aventura boa e estamos os
três rindo na cama ou na mesa, penso em ti e o resto vira
lenda e o medo da vida vira medo do dia em que tudo acabará
— pois acabará, querendo ou não —
e que seja numa noite após um desses dias em que mal nos suportamos,
de tão debilóides

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Eu e Alfredo Southall

Atendendo ao pedido de Charlles Campos e de outros amigos que sublinharam a gravidade, a tristeza e a importância do caso, além de relatarem que estes fatos são inteiramente desconhecidos no centro do país, faço retornar este post à capa do blog. Ele ficará aqui também amanhã. Agradeço a leitura de quem veio e vier aqui, assim como o verdadeiramente extraordinário grupo de comentários.

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— Alfredo Southall é o dono da cidade. Todo mundo pede bênção a ele. Não há, na região, quem não lhe obedeça — disse o cara da Itautec. — Se ele gostar, venderemos lá como água.

— Arrã — sempre o mesmo papo de vendedor, pensei.

Foi assim que ouvi falar pela primeira vez, em 1994, na figura de Alfredo Southall. Nós tínhamos uma pequena empresa de desenvolvimento de software e nossa nova parceira, a Itautec, queria fazer negócios em São Gabriel. Eu não queria, pois se toda nossa equipe estava com muitíssimo trabalho em Porto Alegre, como iríamos atender a 400 Km de distância? Mas fui voto vencido. Meu sócio tinha a fantasia de que a Itautec iria nos deixar cheios de clientes e, bem, devíamos ir.

E lá se foi Milton Ribeiro, um funcionário e o vendedor da Itautec para São Gabriel. Entramos na sala de reuniões dos Supermercados Southall e esperamos uma hora pela entrada do Imperador. Ele apareceu de botas de fazendeiro, bem sujas, e o maior séquito de baba-ovos já visto por mim. Era um sujeito enorme, daqueles que não se sabe o quanto tem de músculos ou gordura, com cabelos precocemente brancos e uma postura de chefia que disparou todos os meus sinais de alerta. Posso comprovar que identifico problemas em poucos segundos. Era o caso.

Junto com ele, vinham os gerentes de cada um dos supermercados, o advogado, o contador, alguns responsáveis pelas fazendas, o chefe do RH, havia de tudo, não sabia para quê. Afinal, nosso sistema controlaria apenas os pedidos, o estoque das lojas, o contas a pagar, etc. Mas logo soube o motivo de toda aquela gente. Alfredo precisava de uma platéia para suas demonstrações de poder; além disso, gostava que rissem de suas gracinhas. A cena montada me irritou ainda mais. Depois de um longo discurso a respeito de como gostava de negociar — acompanhado por assentimentos imediatos de sua claque –, ele passou a palavra ao advogado. Este disse que gostaria de fazer algumas objeções à proposta que eu apresentara. A primeira era um erro de português que o documento continha. Todos riram. O homem disse que o verbo “acessar” não existia. Dei-lhe razão, era um neologismo. Completou reclamando que eu utilizara a palavra inglesa “back-up” e não “cópia de segurança”. OK, concordei que os documentos tinham de ser escritos em vernáculo. E o que havia além disto? Nada, era só aquilo. Foi minha vez de rir, pensando no motivo que levara a ele me expor ao ridículo.

O problema é que rábula ligou o que tenho de pior: o humor ácido. Eu estava louco para pegá-lo. E o fiz segundos depois.

Ele seguiu falando que precisava de “quatro frente de caixa” em cada supermercado. Eu disse que ele tinha razão ao dizer “quatro frente de caixa”, pois, em língua portuguesa, só se usa o plural quando são seis ou mais (*). A claque toda riu, Alfredo também, mas o advogado e o vendedor da Itautec ficaram vermelhos de ódio. Meu parceiro achava ou sabia que aquilo fora um grave erro. Depois, ninguém mais se aventurou a falar, apenas Alfredo, eu e meu vendedor. Alfredo queria instalar o sistema para testes por 60 dias, sem pagar nada. Eu era contra, pois sabia muito bem o valor do nosso trabalho, do treinamento de todos os funcionários, das estadias e desconfiava do velho. Mas estava claro que meu parceiro estava disposto a tudo para agradar. Houve um intervalo para o almoço. Não nos convidaram para almoçar.

Então, eu e o cara da Itautec discutimos. Eu dizia que aquele não era nosso jeito de trabalhar e que tínhamos clientes referência aqui e ali. Eles que fossem visitá-los a fim de fazer a compra com maior segurança. Só que, ao final, deixei-me dobrar e, durante a tarde, não abri a boca na continuação do ato público com a multidão gabrielense. Voltei para Porto Alegre à noite, mas nosso funcionário ficou por lá, instalando o sistema para os testes. Fui obrigado a voltar ainda uma vez para nova reunião. Com toda a cena remontada — um monte de gente, piadas, etc. — Alfredo Southall avisou que não queria o sistema. Sinceramente, achei maravilhoso e desinstalei o aplicativo. Ele me convidou para almoçarmos; o advogado foi junto. Foi um encontro amigável. Eles me contaram que o foco era o Supermercado Southall. Dava muito mais lucro. As terras — ele era dono de hectares, hectares e mais hectares — seriam vendidas bem aos poucos, quando valesse a pena.

Um dia, passados dois meses, eu estava trabalhando sozinho num sábado, pois tenho o hábito de procurar os horários de silêncio para me organizar. Tocou o telefone e um cara efetivamente apavorado começa a dizer que dera um problema grave. Que problema? Ora, aparecia na tela a mensagem “Entrar em contato com o telefone 51 XXXX XXXX”. Expliquei calmamente que não entendia como ele tinha aquela versão do sistema, pois era uma versão de teste que expirava em 60 dias. Perguntei de onde ele falava. A resposta vocês já imaginam: ele falava de São Gabriel, do Southall. Alguém tinha copiado o sistema, mas não contara que ele possuísse a mais banal das seguranças.

Disse-lhe que nosso aplicativo estava instalado indevidamente, mas que segunda-feira eles poderiam entrar em contato conosco a fim de comprar o sistema e receber a cópia definitiva. Segunda-feira, nova ligação. Era o contador deles, me perguntando muito irritado o preço. Disse-lhe que considerava nossa proposta ainda válida. Ele me disse que ligaria em dez minutos. Nossa empresa já fechou e ainda aguardo o telefonema.

Depois, a Fazenda Southall ficou famosa. Pequena parte dela foi para a reforma agrária, a área mais interessante ficou com Alfredo e sua pouca vontade de trabalhar. A fazenda tornou-se símbolo da resistência dos grandes latifundiários e foi “vítima” de várias invasões do MST, algumas sangrentas.

O ápice ocorreu na última sexta-feira. Ao rechaçar mais uma invasão, o sem-terra Elton Brum da Silva, que tinha dois filhos e 44 anos, foi morto com tiros nas costas …

… por alguém do alto escalão da Brigada Militar. Tão alto que ninguém pode saber quem foi. Pelas marcas nas costas, mais parece um fuzilamento.

A promotora Lisiane Villagrande, do Ministério Público de São Gabriel, foi muito rápida e considerou “extremamente profissional” a ação da Brigada. Logo ela que, em 2003, numa reunião de fazendeiros da região, leu sob aplausos o despacho da ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal (STF), que anulava a desapropriação das fazendas Estância do Céu, Santa Adelaide, Caieira, Posto Bragança e Salso Fazenda (13,2 mil hectares), de propriedade de Alfredo Southall. Lisiane é proprietária de terras na cidade.

Sábado, enquanto a Zero Hora estampava a manchete “MST ganha seu mártir” e o comando da Brigada caía, a imprensa gaúcha esquecia de falar sobre a improdutividade das fazendas e muito menos pensavam em Elton Brum da Silva ou em sua família.

Obs.: Escrito com auxílio do RS Urgente e de Zero Hora.

(*) Obrigado, Bia!

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Amor

Quando eu era criança, costumava fechar a porta do meu quarto para narrar futebol em voz alta com maior liberdade. Minha irmã me enchia o saco, dizendo para eu parar de inventar aquilo. Narrava jogos espetaculares onde o Inter vingava-se de todas as humilhações que o Grêmio nos submetia naqueles anos 60. Era uma vida interior movimentada, que fazia minha garganta doer pelo esforço de gritar tantos gols. Também sonhava com jogos, escrevia escalações, contratava jogadores inatingíveis – muitas vezes era um deles — e fazia cálculos, anotando num caderno vermelho todos os jogos dos campeonatos que o Inter participava. Era uma coisa meio demente, ainda mais num tempo em que o Campeonato Gaúcho valia alguma coisa e em que o Grêmio havia vencido 12 dos últimos 13. Era uma tragédia ter 11 anos naquele 1968 que terminaria com o AI-5. Mas tinha certeza que os anos me fariam melhorar. Minha mãe também.

É, mas não mudou muito. É um grave defeito de fabricação. Vocês não me pegarão mais aos berros no meu quarto – ainda mais se estiver acompanhado –, mas minha vida interior, quando não estou submetido a estresse, inclui aquele momento em que passo a pensar no próximo jogo, na próxima escalação e, ainda, nas próximas jogadas. Entro no elevador e de repente vejo D`Alessandro pisando na bola, retardando o ataque… Aquilo me irrita e já saio do elevador preocupado. No dia seguinte, acordo e de cara levantam uma bola em nossa área. Sandro salva e partimos para um contra-ataque com Taison e Nilmar: gol certo enquanto escovo os dentes.

Acho que há pessoas que pensam em dinheiro e mulheres o tempo inteiro — eu até perco muito tempo também nisso –, mas a vida interior do torcedor de futebol é um pouco diferente. Claro que todo este interesse está associado a um clube que amamos e que, por definição, é mais importante do que todos os outros. E quando este clube tem um inimigo, este será o mais odioso e horrendo – e sifilítico e purulento e idiota e filha da puta e a nossa cara. Sim, acabo de descrever sucintamente o Grêmio.

E então este clube faz cem anos, contingência inevitável para quem, mesmo endividado, não morre e a gente fica todo bobo, achando que o dia 4 de abril nos oferecerá vales onde correm o leite e o mel, com 11.000 virgens amorosas vertendo Baileys das tetas. Confesso que balancei quando meu sobrinho me convidou para ir ao jantar do centenário, mas recuei ao saber que custava R$ 200,00. Também não me entusiasmei pelos tais fogos — quase sempre fecho minhas noites de sextas-feiras em cinemas –, mas achei legal a coisa da caminhada até o Beira-rio no sábado, a tal Marcha do Centenário.

Fiquei indignado quando um pessoal aí, os quais são indiscutivelmente os maiores representantes das torcidas gaúchas (preciso indicar a ironia?), convidaram o prefeito gremista para a caminhada e ameaçaram até com a Yeda. Céus, que gente mais sem noção! Para que misturar a mais simples das comemorações – a procissão de colorados do incerto local onde o clube foi fundado até o Beira-Rio – com mais uma tentativa desesperada de manter a troca de favores com o poder? E eles seriam retaliados, vaiados, precisariam de seguranças. Nosso momento cívico ficaria uma merda.

Sim, eu disse cívico, pois colorado é o que sou. Se habito fisicamente a Rua Gaurama, tenho uma segunda vida com endereço aqui; se tenho um telefone, também tenho e-mail; se sou Suda de modo geral, sou especificamente brasileiro; se tenho o futebol em minha vida interior — assim como tenho a Gaurama, o blog, o número do telefone, o endereço de e-mail, a Suda e o Brasil — esta se foca repetida e especificamente para o Inter. O Inter e seus grandes times moram em mim, completam um século neste sábado e é fato dos mais dignos de celebração que eu possa imaginar, mesmo que tenha achado todos os outros centenários (principalmente aquele) manifestações ridículas e sentimentalóides, sem intersecção com nosso centenário. Não tinha pensado nisso, mas devo me comover na caminhada. Afinal, ninguém consegue ser crítico de si mesmo e o Inter, sei, sou eu.

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