Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

futebol_e_identidade_social_arlei_sander_damoEm primeiro lugar, preciso falar um pouco sobre como consegui este livro. Ele me foi enviado por Idelber Avelar, professor da Universidade de Tulane, em New Orleans. Em vão, tentei comprá-lo, apesar de ser um livro novo, de 2002. Em minhas tentativas, escrevi para a Editora da UFRGS, tendo recebido como resposta o mais completo silêncio. Procurei novo contato, pois queria dá-lo de presente aos criadores do Impedimento, mas nada, não parece haver ninguém por lá. Por que então existe um Fale Conosco bem aqui? Então, meu sobrinho conseguiu o e-mail do próprio autor. Foi atendido mui educadamente, obtendo a confirmação de Damo de que a obra era muito procurada, mas que só a editora podia resolver o caso. Bem, ao menos isto não é culpa da corrupção do futebol, nem de Ricardo Teixeira…

O livro de Arlei Sander Damo tem o subtítulo de “Uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes” e originou-se da dissertação de mestrado do autor, escrita entre 1996 e 1998, aproximadamente.

É obra interessantíssima para quem queira sair da mesmice das notícias diárias sobre futebol — aquelas mesmas que tanto deprimem nosso noturno cidadão de uma república enlutada — e adentrar de forma inteligente e bem conduzida na história da formação desta loucura que vemos. Damo nos explica o nascedouro da dupla Gre-nal e de sua rivalidade. “Se queres ser universal, canta tua aldeia”, dizia Tolstói de forma mais esperta que Wianey Carlet. Cantar sua aldeia é o que faz Damo, fazendo-nos descobrir claras analogias com outras cidades, estados e rivalidades clubísticas brasileiras. As explicações são do autor, as projeções são nossas; há leitura mais produtiva e agradável do que conjeturar junto com o autor? Não, né? A obra começa no início do século passado, descrevendo o início do associativismo esportivo em nossa Porto Alegre – empurrado pelos imigrantes alemães, “ficiados” em clubes – para chegar aos primórdios de uma paixão e de uma rivalidade que é boa para torcer, mas que também é boa para se pensar a respeito.

São absolutamente preciosas as argumentações sobre raça e classes sociais que faz o autor, sobre o crescimento do racismo no Grêmio à época do Dr. Py e a da salvação do clube através de seu maior presidente, Saturnino Vanzelotti, o qual resolveu enfrentar os “gremistas vigilantes”, que lhe escreviam mal-disfarçados apedidos em jornais, sempre zelosos de que a camisa tricolor não fosse maculada pelos negros. (Seus textos, sempre anônimos, parecem ter como autor um Joseph Goebbels com superego fraco.) Outros fatos significativos que são analisados são as infrutíferas tentativas do autor para descobrir a origem clara do poderio colorado dos anos 40: a célebre Liga das Canelas Pretas – o que vem comprovar a pouca documentação da história negra no Rio Grande do Sul –; a derrocada do amadorismo; um exame sobre a influência dos estádios na gangorra Gre-nal e um estudo sobre a formação das torcidas sob a ótica das raças e das classes sociais.

É apenas isto o que a Editora da UFRGS insiste em nos esconder. Ainda não devolvi o livro para o Idelber. Querem cópias…?

Observações finais:
1. Apenas o texto “Sobre o regional e o nacional no futebol brasileiro” é datado e mereceria uma recauchutagem geral.
2. Arlei Sander Damo daria um bom leitor do Impedimento.
3. Apesar de não confessar, Arlei Sander Damo é um gremista nojento.

Saudações coloradas e morte à progênie do racismo!

:¬)))

Sou do contra

Meus amigos virtuais e pessoais Douglas Ceconello e Daniel Cassol dizem que eu posso publicar no Impedimento quando quiser. É um blog incrível sobre futebol. Este texto Sou do contra resultou em 76 comentários e o anterior tinha chegado a 98. Ia publicá-lo também no OPS, mas ontem tivemos a estréia de João Luís Almeida Machado, também colunista de gastronomia, no futebol do OPS e não quis entrar no mesmo dia.

Crônica esportiva é problema no Brasil tanto quanto a política, esta muito mais grave. Há algo de muito errado com a falsa parcialidade, raramente quebrada por exceções como Juca Kfouri, que leva os cronistas e os textos a uma posição inteiramente artificial para quem aborda o futebol. Os artigos “equilibrados” e descompromissados que lemos são um saco. De certa forma, uso a experiência jornalística do pessoal do Impedimento para criar uma persona esportiva mais franca porém aberta a discussões. E que não esconda suas preferências, pois isto não tem nada a ver com desonestidade. Estou aprendendo. No texto que segue até exagero, entrando de sola, de forma furibunda e provocativa, mas o resultado foi uma discussão cheia de idéias. A melhor pergunta que apareceu por lá foi esta: por que o futebol brasileiro é tão menos próspero do que o mexicano e o turco, países economicamente semelhantes a nós e que são compradores? Cartolagem e corrupção? As “parcerias” entre dirigentes e empresários são mais lucrativas em nosso país?

Sou do contra

Eu não torço para a seleção brasileira e o motivo nem é o de ela não possuir técnico.

Minhas motivações são mais, digamos, indiretas. O que desejo é uma grande crise! Vejamos o que pensa este beócio escriba.

O Brasil é o país que menos se orgulha de si mesmo na América Latina. Nosso complexo de vira-latas é uma herança portuguesa. Eles são iguaiszinhos; odeiam-se tanto quanto nós. Aqui é tudo ao contrário: no mundo inteiro a direita é nacionalista, aqui não. Ou seja, os que governaram o país durante a maior parte de sua história sempre o viram com restrições. Por toda nossa história, desde D. Pedro I, fomos dirigidos por pessoas semelhantes às que escrevem na Veja, a fina flor que molda a opinião da direita brasileira.

E então a seleção brasileira entra em campo com seus jogadores… Todos eles saíram jovens de nosso país (de merda) para ganhar rios de dinheiro no eldorado. Todos eles ouviram falar que a Seleção é um sonho e objetivo de todos, mas pergunto:

– Se você fosse, por exemplo, o Gilberto Silva e estivesse no final de seu contrato com o Arsenal após toda uma carreira no exterior, você arriscaria sua perninha por quem não paga seu salário, por um país que é seu, mas de onde você fugiu na primeira oportunidade que teve e onde você jogou apenas alguns meses? O que um cara como Gilberto ganha correndo com um louco pelo Brasil-sil-sil. Ele já não é conhecido? Seus contratantes acompanham Paraguai x Brasil? Uma boa atuação neste jogo lhe garante um contrato melhor?

Não, né? E nem sobra o amor da disputa. Se o Gilberto olhar para o banco e ver aquela COMOÇÃO TÉCNICA formada por Dunga e Jorginho talvez uma voz interior lhe faça a pergunta “O que estou fazendo aqui?”.

Ele e Kaká – que foi liberado pelo Milan, mas mentiu que não tinha sido – não buscam mais glórias. Muitos dos jovens também não a buscam pois não são ufanistas e julgam estar no topo de suas carreiras. Creio que chegar à Seleção é um pedido que os empresários fazem a seus atletas para alcançarem grandes contratos no exterior. E só. Se o atleta obtiver sucesso no exterior, suas convocações tornam-se sinônimo de incomodação. Uma boa carreira na Seleção não é garantia de sucesso financeiro, mas sim um belo Campeonato Italiano, Espanhol ou Inglês. São eles que pagam.

A Seleção tornou-se apenas um passo dentro de um plano de carreira todo projetado para a Europa.

Agora, que crise desejo? Ora, uma bem grave que deixe o Brasil fora de uma Copa. Uma que crise que nos obrigue a repensar MESMO toda a estrutura do futebol brasileiro. Uma que faça com que tenhamos calendário europeu para que nossos times não mudem em meio às disputas. Uma que segure nossos jogadores até determinada idade, pois só aqui nascem em tal quantidade e os melhores sempre sairão. Uma que obrigue o comprador europeu a pagar um valor decente ao clube formador. Uma que permita contratos longos mesmo para jovens pré-púberes. Uma que torne a Seleção Brasileira uma importante vitrine para carreiras de jovens talentosos que, decididamente, acabarão no exterior. Uma que torne melhor nossos campeonatos.

30 horas

As últimas 30 horas do fim de semana foram algo como um carrossel de emoções (como dizia a Bia).

1. Visita a minha mãe na UTI: ela sofre do Mal de Alzheimer ou de algo perto disso; foi fazer uns exames e, fraca, acabou na UTI. Sedada, deitada e intubada (*), era uma visão deprimente.

2. Inter 2 x 1 Botafogo: meu filho queria porque queria ir ao jogo. Não sei se queria mesmo ou se sua intenção era a de me afastar do trabalho e do hospital. Ganhamos o jogo. Surpreendentemente, a estréia do Tite foi boa.

3. Esplêndido convite: liga a Astrid, mulher do meu amigo Augusto, perguntando se temos programa para o sábado à noite. Não tínhamos. Então, ela perguntou quantos nós éramos, pediu que arrumássemos a mesa com pratos fundos, colher, garfo e faca, além de copos para água e vinho. Precisaríamos produzir uma sobremesa para esperá-los? Que vinho escolheríamos? Não, nada disso, ela e o Augusto trariam absolutamente tudo, da comida à sobremesa, passando pelo vinho. Noite inesquecível, companhia e música perfeitas. Só o meu cansaço destoava.

4. UTI: nova visita a minha mãe no domingo pela manhã. A mesma coisa. Inconsciente como quase sempre está.

5. Longe dela: talvez pelo contexto, quis ver o filme em que Julie Christie faz uma personagem que sofre de Alzheimer. Um filme muito bom que, se não nos dá a extensão do trabalho e do horror, dá o tamanho psicológico da perda.

6. Control: em seguida, mais um filme. Putz, e era mais deprimente ainda. Trata da curta vida de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division. A atuação dos atores é digna dos mais rasgados elogios. Notável.

7. Dunga: fico sabendo da derrota brasileira e penso na crônica que escreverei para o Impedimento. Explicarei meus motivos para comemorar este tipo de resultado.

(*) ENTUBAR – Entubar ou Intubar?
Entós (grego)= posição interior. Documenta-se em vocábulos introduzidos na linguagem científica a partir do século XIX.
Intus (latim)= para dentro.
Como tubo(cânula endotraqueal) vem do latim tubus, a palavra correta é intubar.

Retirado do Dicionário das Agressões Médicas à Língua Portuguesa.

Feliz no Futebol

Andrezinho E Fernandao

Uma derrota em Curitiba por 2 x 0 na semana passada. Hoje, 42.000 colorados no Beira-Rio; eu e meu filho entre eles; um jogador nosso cai desmaiado a um minuto de jogo; tomamos um gol aos dois. Resultado: uma virada – Inter 5 x 1 Paraná. Fernandão foi o dono da festa.

Uma grande partida. A primeira comoção foi a queda de Jonas, que, aos 22 segundos, voou sobre Índio e caiu de costas no chão. Farejei desgraça, mas o menino tinha “apenas” desmaiado após a queda, deixando uns dentes pelo gramado. O Paraná começou a perder o jogo ao não aceitar o pedido dos jogadores do Inter de pararem o jogo para que Jonas recebesse atendimento médico. Foi uma completa falta de fair-play e os caras quase fizeram um gol enquanto pedíamos para que o jogo fosse paralisado. Depois da entrada do carro-maca, o Paraná foi novamente ao ataque e fez 1 a 0. Tudo isso em dois minutos. Devido ao saldo qualificado, precisávamos fazer quatro gols. Fizemos cinco.

A ambulância ainda estava à beira do gramado quando Andrezinho empatou em cruzamento de Bustos. O Paraná reclama da arbitragem e ela realmente foi localista. Wagner Tardelli é amigo dos grandes. Rouba-nos contra o Corínthians, mas dá uma mão contra o Paraná, time da segunda divisão, como o Corínthians… Bem, esqueçam! A expulsão de Ângelo, aos 21, foi justa, mas Magrão testou a boa vontade do árbitro ao acertar violentamente Daniel Marques quando já estava 3 x 1. Tardelli achou a entrada de Magrão normal. Muito obrigado!

O Paraná é ruim de doer, só que não é fácil ter que fazer quatro gols para se classificar e conseguir. Há dois excelentes jogadores no Paraná que mereceriam estar num bom time brasileiro, mas que certamente estarão em julho no exterior: o jovem Giuliano (10) e Leo (5). Esses incomodaram, porém o resto é mais ou menos como o time do Grêmio.

Não descreverei a virada gol por gol. É monótona a história dos vitoriosos. Eu gostaria de me referir novamente a Fernandão. Orientou o time, correu como na final da Libertadores contra o São Paulo (palavras de Abel), deu passes perfeitos (muitos, muitos), desarmou como nunca, mostrando que decisão é com ele. É difícil agüentar Fernandão durante o ano. Parece desinteressado, esperando um jogo maior… Pois ontem ele teve.

Upgrade: Não percam o antológico comentário do gremista Tarsis, do Pensar Emburrece.

A Confissão de Sexy Hot

Digamos que o Grêmio superou em muito as expectativas coloradas. Acostumamo-nos a nos divertir com os desempenhos pungentes e dolorosos do tricolor, mas nunca, nem em nossos mais loucos desejos, aspiramos a que ele saísse de cena. E agora? Neste mundo politicamente correto, vamos zombar e nos distrair com quem nos próximos trinta dias?

Aproveito para lhes deixar aqui uma informação de cocheira, ou melhor, de academia. O treinador do Grêmio, Celso Roth – também conhecido como Sexy Hot em algumas rodas – é ou era meu colega na academia Sal da Terra, que ostenta sua bicho-grilice há vinte anos na Av. José de Alencar, em Porto Alegre. Digo “era” porque não o vi mais depois que assumiu o imortal fardo. Pois, pasmem vocês… Não deixem-me antes abrir novo parágrafo.

Pronto. Pois pasmem que Sexy Hot, três dias antes de ser entronizado como técnico da equipe banana, disse informalmente a mim entre um supino e uma flexão plantar:

– Ou o Grêmio contrata cinco bons jogadores ou não chega nem à final do campeonato gaúcho. Cinco, não menos.

Não contratou ninguém e, quando vi que não chegou nem às semifinais e que as oitavas-de-final da Copa do Brasil passaram igualmente ao largo do Estádio Olímpico (*), pensei:

– Puxa, então ele não se enganou com aqueles 19 jogos de invencibilidade. Esse conhece!

Desculpe, Hot. Nunca seja tão franco próximo a um blogueiro. Somos pouco confiáveis.

P.S.- A propósito, quando foram as Olimpíadas de Porto Alegre?

A Derrota Mais Inacreditável

35553Vamos falar sério. Vi o final do primeiro tempo e todo o segundo. O Grêmio tinha tanta certeza da vitória que entrou negligente em campo. Era uma formalidade, apenas, e o tricolor só acordou quando já perdia por 3 x 0. Aliás, todos pensavam que era uma formalidade, principalmente nós, colorados. Eu nem ia ver o jogo, estava desinteressado e só passei a arrastar o olho para a TV quando vi que tinha potencial dramático.

Esses jogos são curiosos. Começam melancólicos, devagar; de repente, o mais fraco vê que pode dar uma pedradas e o mais forte está tão anestesiado que custa a reagir. O Grêmio há anos forma times modestos. Mas sua superioridade sobre o Juventude é indiscutível. Com oito homens, tomando 3 x 0, foi até o 3 x 2. Gostei de sua eliminação, claro, mas não foi perfeito. Perfeito seria se o dirigente mais truculento e bronco do sul do país, Paulo Pelaipe, e o jogador mais maldoso do Brasil, Eduardo Costa, fossem empurrados um pouco mais para o canto.

Porém, eles permanecerão e quem fica na marca do pênalti é quem chegou há 50 dias e não contratou ninguém: o “simpático” Celso Roth, que está rico com as múltiplas demissões que sofre…

99 anos hoje

Ao Daniel, ao Douglas e ao J.R.,
um post escrito rapidamente porém de forma emocionada.

Não tive a menor chance. Meu pai e meu primo João Reinaldo não deixaram espaço para dúvidas ou negociação: eu seria colorado e ponto final. Meu primeiro jogo foi ironicamente no Estádio Olímpico – assim batizado certamente em honra às Olimpíadas de Porto Alegre -, um Inter 1 x 0 São Paulo pelo Robertão de 1967, gol de Lambari. Não pensem que não lembro do gol. Como todo torcedor de futebol tenho um imenso acervo de gols na memória e lembro sim. Meus primeiros anos foram complicados, o Grêmio foi heptacampeão gaúcho entre 1962 e 1968 e, no colégio, havia enorme pressão para que eu mudasse de time, mas eu temia ser desprezado por minha família se mudasse e aquele primeiro jogo, aquele primeiro gol, foi fundamental para que meu amor ficasse definitivamente com o time de camisas vermelhas que chegou a dois vices no Robertão, mas que parecia ser incapaz de enfrentar o Grêmio. O primeiro gol que comemoramos é como o primeiro sutiã da propaganda. É tão inesquecível que, depois dele, não se muda mais.

Em 1969, houve a inauguração do Beira-Rio; eu tinha 11 anos e meu pai repetia que, com o dinheiro do clube sendo revertido agora para o futebol, nós patrolaríamos o Grêmio. Mas o que tinha o dinheiro a ver com o futebol?, pensava eu. Fui na célebre inauguração do estádio, vi o gol de Claudiomiro contra o Benfica e não entendi nada quando Gainete deixou a falta batida por Eusébio entrar em nosso gol (Gainete alegou que era falta de dois toques e deixou a bola entrar quando poderia tê-la agarrado facilmente. O juiz deu o gol. Minutos depois, Gílson Porto livrou a cara de nosso goleiro.) Durante o mesmo “Festival” de inauguração – havia datas livres naquela época – vi o famoso Grenal da Pauleira: um zero a zero muito promissor para quem perdia sempre. O Grêmio foi amassado, mas era ainda um grande time e evitou a derrota. Ao final, 21 jogadores brigaram a socos e pontapés. As emissoras de TV passaram centenas de vezes os lamentáveis acontecimentos e comecei a desconfiar que jornalistas gostavam de coisas lamentáveis. Só Dorinho ficou de fora, olhando. Fiquei com raiva dele, tinha que ter brigado em vez de dar uma de bom moço! Urruzmendi e Gainete bateram nos gremistas de uma maneira que comprovava o fato de estarem no esporte errado. As televisões repetiam e repetiam especialmente uma voadora de Gainete, depois víamos os jornalistas balançarem negativamente a cabeça, afirmando que aquilo era uma selvageria e víamos as agressões mais trinta vezes durante os debates. No mesmo 1969, fomos campeões gaúchos. No Grenal decisivo, minha mãe (!) foi conosco e, quando não encontrava a bola em campo, procurava-a temerosa dentro de nosso gol. Tomava sustos. Resultado: 0 x 0 quando o Grêmio precisava vencer. Fomos finalmente campeões, coisa que repetiríamos até 1976, quando Figueroa e Minelli abandonaram o time. Mas antes, em 1975 e 76, fomos campeões brasileiros e vi o maior time do Inter jogar semanalmente. O campeonato gaúcho de 1974 foi algo nunca visto: um enorme campeonato em que ganhamos todos os jogos. Devia ser desanimador ou monótono para os adversários, mas nós achávamos normal. Em 1979, fomos novamente irrepetíveis ao vencer um Brasileiro de forma invicta.

Não vou escrever sobre as glórias do Inter até porque estou chegando ao grave período conhecido por Império Otomano, onde certamente o clube enriqueceu muita gente que pouco tinha a ver com futebol e porque o Grêmio virou o jogo e a coisa ficou sem graça. É incrível como me torno indiferente e intelectual nestes períodos; leio muito e consigo autenticamente ficar alheio. Quando o time melhora, coisa estranha, meu interesse recrudesce.

No centenário, gostaria de escrever uma série sobre a história do Inter, mas, para não fazer apenas imitação do Idelber, desejaria escrever sobre a enorme sedução que meu time exerce sobre mim, sobre o tempo que perdi-ganhei com ele, sobre o amor-desamor que me liga-desliga de meu clube de eleição (eleição, João Reinaldo?). Vou ao Beira-Rio 30 vezes ao ano, sei que os gremistas são meros equivocados, que nos divertimos muito mais e tenho absolutíssima razão ao dizer – muito antes que o Cacalo ficasse repetindo minha frase em programas de rádio – que o futebol é a mais importante das coisas desimportantes, que o futebol pode ser encarado como metáfora e representação da vida e como tal é uma arte que pode ser amada ou desprezada como alguns desprezam o teatro, por exemplo.

Eu estava preparando o final do post, mas lembrei da pergunta que um jovem, Daniel Cassol, do Impedimento, fez-me certamente em honra à minha idade: como foi ver o gol de Falcão contra o Atlético-MG nas semifinais de 1976?

Daniel, foi assim, exatamente assim:

“Estava no Beira-rio. O Atlético triturou nosso supertime da época no primeiro tempo. Não tivemos a menor chance e o 0 x 1 fora saudado como um bom negócio. Paulo Isidoro detonava nossa defesa. Só que o segundo tempo mostrou como um jogo pode mudar totalmente. O Inter passou a pressionar o Atlético de tal forma que era impossível que nosso gol não acontecesse. Só que ninguém avisou Ortiz – goleiro do Atlético-MG – desta impossibilidade. Aquele argentino não apenas pegava tudo, como atirava-se ao gramado, vítima de crudelíssimas e imaginárias lesões, que ocorriam a cada toque do adversário em sua delicadíssima constituição ou a cada momento em que era atingido pela brisa. O ódio que senti daquele argentino certamente deixou-me seqüelas irrecuperáveis que se estenderam por toda minha vida futebolística… O final da partida aproximava-se e Ortiz negava-se a admitir que os gols deviam acontecer. Chegamos então àquele momento em que, se a coisa não vai por bem, vai por mal. Batista arriscou um chute violentíssimo de longe, logo ele que era péssimo nisto, e acertou o ângulo de Ortiz. Gol. Foi uma vibração com som diferente, pois ao mesmo tempo em que comemorávamos, dizíamos horrores ao goleiro adversário. 1 x 1. Foi então que a magia tomou conta do estádio. Não há explicação para aquele gol. Quem viu o gol de Falcão, aos 45 minutos do segundo tempo, sabe: foi magia pura. A bola saiu do pé de Figueroa para Dario. Desde Figueroa, a bola não mais tocou o chão até bater no joelho de Ortiz e ir para as redes. Do pé direito de Dario, foi para a cabeça de Escurinho, da de Escurinho para Falcão e da de Falcão de volta a Escurinho. Então, o negão viu que Falcão entrava no meio da zaga atleticana para receber a bola de volta e fez o passe. Tudo de cabeça. Então a magia desfez-se mas, como todos estavam abobalhados vendo aquilo, o gol saiu assim mesmo. Falcão errou o chute, apenas raspou na bola. Só que Ortiz, hipnotizado por aquela bola que nunca tocava o chão, deixou-a bater em seu joelho e entrar. Não foi um frango, mas era um chute defensável. Luís Artime, grande artilheiro argentino, ensinava: 30% dos gols saem por “erro” do atacante… Foi o caso. Falcão enganou involuntariamente o odioso Ortiz.

“Quando Falcão marcou este gol – o mais bonito que vi em estádio até hoje -, eu não soube como comemorar. Não era gol para pular, pois não se pula, nem se soqueia o ar e grita na frente de um quadro de Vermeer. Desci uns três degraus das arquibancadas das sociais, subi de volta a meu lugar e sentei. Lembro que pensei, enquanto era quase pisoteado pelo resto da torcida: eu nunca mais vou esquecer este gol. Era tudo – emoção, estética, felicidade oceânica, adrenalina e surpresa pela vitória inesperada àquela altura -, foi tudo. E quem pulava a meu lado e me procurava para um abraço enquanto quase me pisoteava? Meu pai, é claro.”

E aqui, o gol:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ksbCX0Jh5nc&feature=related[/youtube]

Agora, para finalizar, leiam este comentário de um atleticano, escrito em 17/05/2005:

Amigo Milton:

Realmente um dia teremos que reunir-nos para recordar juntos. Tenho memórias dos dois jogos, apesar de ser 11 anos mais novo que você.

Na final de 1975, eu ainda não tinha preferência clubística, mas lembro-me muito bem de ter os olhos na televisão, fixos, angustiado porque era o dia da formatura no pré-primário e eu era o orador da turma! Tive que sair de casa antes do gol de Figueroa, xingando, amaldiçoando os rituais. Desde então formei-me no primário, ginásio, 2o grau, licenciatura, mestrado e doutorado mas com muito orgulho nunca mais pisei numa formatura. Se há uma formatura à qual eu deva comparecer, faço questão de procurar um estádio de futebol, em memória de Manga, Figueroa e daquele primeiro inesquecível título.

De 1976, nem falar. Já atleticano, vivê-lo foi de partir o coração. Aquela tabelinha de cabeça foi uma das coisas mais inacreditáveis que já vi no futebol. Quando lembramos que aconteceu aos 44 do 2o de uma semifinal empatada, realmente dá para se ter uma idéia do que representou.

Belas, belas lembranças.

Cinco Drops

O Grêmio já está nas semifinais do xaroposo Campeonato Gaúcho. Com açúcar, com afeto, enfrentará o adversário predileto. Uma papinha.

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Sou contra a violência, claro, mas estou achando um saco esse negócio do Tibete. Todo esse esforço para criar uma teocracia? Pô, no Iraque o Bush gosta é de democracia, coisa do demo mesmo, no Tibete é diferente.

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Se o mundo quisesse fazer um boicote aos chineses, seria fácil. Era só ignorar a festa de abertura e de final das Olimpíadas. As TVs fariam isso? :¬)))) Nessas festas é que há a celebração do país-sede. De resto, deixem os atletas.

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Só quem não entende de futebol não viu de cara que Alexandre Pato era um supercraque. Ele merece ser titular do Brasil desde aqueles 45 minutos de estréia contra o Palmeiras em 2006. Faz gols (muitos), erra pouco dentro da grande área e isso basta para escalá-lo em qualquer time. É jogador valiosíssimo em todos os sentidos.

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Meu post sobre o Caso Sampallo Barragán acaba de ser atualizado. Las Abuelas pressionam. Mais detalhes aqui.

Hospedando Tolstói

Foram duas discussões bastante duras e Idelber Avelar abandonou minha casa ontem à noite. O primeiro desacerto foi documentado por meu filho fotógrafo. Vejam o flagrante abaixo:

Milton X Idelber

Peço desculpas a meus leitores por submeter-lhes a um “Onde está Wally?”, mas é o que temos. Mais ou menos no centro da foto, estou à direita de um cidadão de óculos e camiseta branca. Eu olho para um Idelber empertigado e indignado – ele é a única pessoa no estádio que não está voltada para o campo de jogo. A meu lado, no lado direito da foto, há um sujeito loiro, vestindo vermelho. Seu nome é Paul. Minutos antes de nossa acerba discussão, Paul tinha dirigido a palavra a mim:

– Eu te conheço, sou teu leitor. Tu és o Milton Ribeiro e foste da Verbeat para o OPS.

Isso não acontece todo o dia e confesso ter ficado envaidecido. Mui gentimente, agradeci e apresentei Paul a Idelber Avelar. Foi a apresentação que um cara modesto como eu (200 visitas diárias) faz de um überblogger (5.000 visitas diárias). Eu disse

– Paul, muito obrigado, fico até comovido. – E completei:

– Este é o Idelber Avelar, do Biscoito Fino e a Massa.

– Desculpe, não conheço. Não leio todos os blogs.

– Claro que conhece, Paul! – disse e pisquei para ele. – Ele tem 200.000 visitas a cada domingo… O nome do blog baseia-se numa citação de Oswald de Andrade “a massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico” e ele…

– Comerá o biscoito? Hahahahahaha, tô fora, Milton, desculpa.

Ora, confesso ter sorrido; sei lá, talvez rido; alguém diria que tenha gargalhado. O fato é que Idelber indignou-se de tal forma que quase chegamos às vias de fato minutos após nosso primeiro encontro! A discussão foi tão ridícula e ociosa, que provocou risos no casal à esquerda da foto, cuja moça olha para o fotógrafo. Fomos impedidos de sair a socos e pontapés em plena arquibancada pela moça de enormes brincos e disposição ainda maior cuja cabeça impede que meus leitores possam ver meu cotovelo direito. Ela é campeã de Kickboxing e seu pézinho tem miraculosa mira. Ela acentuou a sensiblidade de partes delicadas do meu corpo. Paul sentiu-se tão culpado com o fato que publicou ontem um comentário em meu blog:

Olá Milton! Aqui fala o Paul, falei contigo no Beira-rio sábado. Cara, eu não entendi quando tu me disse o nome dele (provavelmente porque eu havia derrubado o copo de cerveja e estava tentando ver se havia dado um banho em alguém…), mas é óbvio que muito já li o blog do Idelber.
Eu acompanhava o teu outro blog pelos feeds da Verbeat, agora já vou incluir o “Ops” no google reader.

Grande abraço, e saudações coloradas!

Notaram o problema do rapaz? Dois dias depois ele vem a meu blog negar que desconhecia o obscuro Idelber (é óbvio que nunca passou nem perto do Biscoito). Bem, voltando aos fatos ocorridos no Beira-Rio: depois de lograrem acabar com as intenções assassinas de nosso professor, Paul e a menina dos brincos foram vistos rolando abraçados na rampa do Beira-Rio. Desconheço se ela viu o Biscoito ou apenas sentiu-o, mas espero que o Sr. Paul volte a nossa caixa de comentários com a finalidade de esclarecer o detalhe.

Ontem, Idelber Avelar voltou a se descontrolar. Manifestou exagerado ódio contra mim ao ver que eu ainda utilizava o Internet Explorer.

– Porra, pára de usar AGORA esta merda produzida pelo Bill Gates.

– Mas, Idelber, tu usas o Windows da Microsoft controlando o teu querido Firefox. Temos algo em comum, râni! – ao chamá-lo de Râni, tentava apenas demonstrar carinho.

– Conhecidos meus meu não usam essa porcaria, Milton. Instala agora o Fire! É mais rápido do que esta bosta que utilizas – sim, ele está tentando falar um gauchês plus. – Já faz vários anos que utilizo o Firefox. Ele é simplesmente o melhor navegador que já encontrei para meu Biscoito. Já utilizei Internet Explorer, Netscape, Opera, Konqueror e Safari mas nenhum deles satisfez minhas necessidades. Uso o Firefox por causa de suas extensões. Existe extensão para tudo, até para o Biscoito.

E saiu para fumar. Era uma da madrugada. Minutos depois, ouvi uma porta bater forte, como se comunicasse uma decisão aos que ficavam e procurasse deixar para trás seu mau humor. Não havia vento, porém a batida foi tão violenta que trouxe certo odor de tabaco. Ele não deve estar longe; afinal, deixou seus filhos lá em casa. Acabo de instalar o Firefox e termino este post para ir atrás do professor Idelber. Tenho certeza de que o encontrarei batendo papo com o gerente de alguma estação de trem. Levarei meu notebook e lhe mostrarei o Firefox instalado. Vai dar certo.

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O Papa acaba de acrescentar seis pecados aos conhecidos sete originais. É lamentável, pois ainda não estou inteiramente adaptado àqueles e o homem me aumenta o tema de casa.

1. Fazer modificação genética.
2. Poluir o meio ambiente.
3. Causar injustiça social.
4. Causar pobreza.
5. Tornar-se extremamente rico.
6. Usar drogas.

Os novos pecados dois a dois ou Gioco delle coppie (afinal, amo Béla Bártok):

2 e 6: Esses estão bem postos.
1 e 5: Poucos podem cometer o primeiro pecado e a Igreja Católica comete o quinto há séculos.
3 e 4: O terceiro e quarto serão fartamente utilizados pelos católicos do PT. Eles agradecem. Apenas eles.

Punição para ele? E Kaká?

O atacante egípcio Mohamed Abou Treika está chamando a atenção na Copa Africana de Nações. Ao comemorar um gol contra o Sudão, na vitória do Egito por 3 a 0, o jogador exibiu uma camisa com a inscrição “tenha compaixão por Gaza” (obrigado, Nelson!), mostrando solidariedade com os milhares de palestinos que vivem na região que é controlada por Israel.

Apoio A Palestina

A Confederação Africana de Futebol não gostou da atitude e decidiu que vai punir Mohamed Abou Treika, sob a acusação de “expressar uma mensagem política no meio de uma competição oficial”. A informação é do jornal espanhol “20 minutos”.

Mohamed Abou Treika, de 29 anos, já marcou 81 gols em 128 partidas pela seleção do Egito. Além de ser famoso por seu lado político, Treika é chamado de “o assassino sorridente” devido ao fato de comemorar seus gols com um sorriso.

E Kaká?

(Obrigado pela lembrança, Dario. Fonte: Globoesporte.)

A Primeira Impedfest

O povo do futebol só pode orgulhar-se da I Impedfest promovida no último sábado pelo pessoal do Impedimento. Em evento de mais de 12 horas de duração, os donos do bar Parangolé (Av. Lima e Silva, Porto Alegre) viram seus estoques de cerveja sumirem rapidamente à sombra das camisetas imortais.

Impedfest 022

Engraçado. Gremistas e colorados, quando reúnem-se em torno de uma mesa bem regada, tornam-se filosóficos como os gregos e mais confessionais do que blog adolescente. Foi emocionante ouvir o Leo Ponso declarando que sua maior dor não foi o título mundial do Inter, mas a saída do grande Tinga para o Inter. Fizemos as pazes quando lhe contei minha vida sob Ronaldinho e meu ano de 1995. Depois, para variar, filosofamos junto com o Douglas Ceconello sobre o que nos leva a ser apaixonados assim e divagamos sobre os motivos da mística de certas camisetas. Daniel Cassol gravou entrevistas e há uma em que descrevo o gol que Falcão fez no Atlético-MG, em 1976.

Foi um belo final de tarde.

Abaixo, Douglas (de óculos) observa a construção do varal sagrado. No alto, Leo Ponso.

Douglas Impedimento

Obs.: As expressões “varal sagrado” e mesmo a rodrigueana “à sombra das camisetas imortais” foram copiadas de post do Impedimento.