Anotações sobre Anton Tchékhov e e-mail recebido

Anton Tchékhov

Anton Tchékhov

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia, citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Rosa, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchékhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas e me ordenasse escolher um e somente um, eu — talvez estranhamente — escolheria Anton Pavlovitch Tchékhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchékhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco desencantada do amor — o qual é visto sem muitas ilusões — e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchékhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

tchekhov1Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchékhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo — uma boa história — indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchékhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen.

tchekhov2Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante, para um autor do sáculo XIX: “Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchékhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

tchekhov3Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.
– E ler suas peças de teatro é um deleite só.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

tchekhov4Em vida, Anton Tchékhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchékhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

E-mail do Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchékov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.

Para mim, Tchékov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévski.

Bom final de semana!
Fernando

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Balzac: o autor favorito de Marx chega ao século XXI

 Balzac: realismo e café

Balzac: realismo e café

A história do adjetivo balzaquiana – qualificativo para as mulheres que chegam aos 30 anos de idade – é no mínimo estranha e baseia-se num aparente equívoco. A leitura da Comédia Humana demonstra que as balzaquianas são exceção na obra de Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850). As mulheres mais utilizadas nos romances de Balzac são as jovenzinhas e as tias velhas, raramente as mulheres de 30 anos. O termo originou-se a a partir de apenas um livro de Balzac, A Mulher de 30 Anos. Trata-se de um de seus piores romances. O autor, que se caracterizou por criar um minucioso mundo de personagens que apareciam e reapareciam em vários romances em diferentes fases de suas vidas, que foi o construtor de todo um mundo que sob o grande guarda-chuva da Comédia Humana, o criador de personagens e tramas extremamente completos e complexos, escreveu, em A Mulher de 30 Anos, uma história frouxa, desarticulada e meio sem pé nem cabeça. Ruim mesmo. Balzac devia estar apressado e premido por dívidas, o que frequentemente lhe acontecia. Apesar disto, o título do pequeno livro inspirou os brasileiros a criarem o termo “balzaquiana”, que só existe em nosso país.

Na época de Balzac e mesmo depois, a idade de 30 anos era um turning point decisivo para as mulheres. Quando aproximavam-se do precipício da quarta década, elas ou estavam caindo fora do mercado casamenteiro para tornarem-se tias – tolerados fracassos sociais – ou, se estivessem vivendo casamentos infelizes, estariam perplexas ante o irremediável, como a personagem de Balzac.

A capa de um dos 17 volumes da edição original da Globo

A capa de um dos 17 volumes da edição original da Globo

No século XXI, os romances de Balzac seguem recebendo novas traduções e edições como talvez apenas Dostoiévski e Tolstói. Ao menos no Brasil, a “culpa” inicial possivelmente deva ser atribuída ao monumental trabalho realizado por Paulo Rónai nos anos 50, que fezo trabalho de organização, revisão, anotação, introdução e comentários dos romances de A Comédia Humana, publicada pela Editora Globo entre 1946 e 1955. São 17 alentados volumes com 88 romances. Dentre estes, memoráveis obras-primas e outros, como A Mulher de 30 anos, são “romances de mero divertimento, escritos às pressas para ganhar dinheiro”, como disse Otto Maria Carpeaux.

Eu adoro os inícios dos romances de Balzac. Eles começavam com uma calma e elegante apresentação dos personagens. O texto avançava e nos açambarcava, pois já trazia os conflitos grudados a cada um dos personagens como parasitas. Honoré de Balzac viveu apenas 51 anos e foi prolífico como poucos. É considerado o fundador do realismo na literatura moderna, mas é bem mais do que isso: é o autor clássico por excelência, um dos que solidificaram a popular forma do romance do século XIX. E ele conseguiu isto demonstrando sistematicamente como se fazer romances realistas realmente envolventes, grudentos. Como disse, o esquema é simples mas complicado de imitar. Uma apresentação dos personagens e do contexto social – Balzac era um gênio em fazer isso sem ser maçante, caracterizando cada um dos protagonistas com amor e ironia, sem deixar de fazer considerações sociológicas nada desprezíveis –, depois vinha a construção do conflito, o clímax e o desenlace. Obviamente, o esquema não é tão simplório e havia variações, além de aguda e surpreendente análise psicológica.

Marx e Engels: dois dos maiores admiradores do escritor

Marx e Engels: dois dos maiores admiradores do escritor

Mas ainda estamos no terreno das reduções, pois o imenso painel de Balzac oferecia uma visão tão completa da sociedade francesa que Karl Marx costumava declarar que A Comédia Humana tinha sido mais importante para a sua compreensão da sociedade francesa do que os muitos tratados de economia, história e filosofia lidos por ele. A mesma opinião era partilhada por Friedrich Engels, que afirmou ter aprendido com Balzac “mais do que aprendi com todos os historiadores, economistas e estatísticos profissionais do período”. O monumental romance As Ilusões Perdidas, que ocupa um volume inteiro da Comédia, inclui tem todas as características citadas. Seu realismo vai ao ponto de apresentar detalhes da contabilidade de Lucien de Rubempré. Ela é apresentada em números. Sua matéria-prima era a sociedade francesa e a “comédia humana” era encenada em suas instituições sociais.

Curiosamente, o criador de O Pai Goriot, Eugênia Grandet,  César BirotteauA Prima Bette, Esplendor e Miséria das Cortesãs e de pequenas joias como Pierrette, não era considerado um escritor talentoso. Seu realismo radical fez com que não apenas seus contemporâneos o considerassem um escritor menor, como se fosse um  documentarista dos costumes de uma época, cuja meta fosse a de expressar as modificações que ocorriam na sociedade francesa do século XIX, desde o período do Antigo Regime até o fortalecimento da burguesia.

Assim, Balzac discorria sobre temas que nunca antes haviam sido abordados em ficção, tais como a tensão entre as classes sociais na França, a economia, os meios de transporte, a recém-nascida profissão de jornalista, a vida nos cartórios, as concordatas, as práticas místicas como o espiritismo, a homossexualidade e a política num grau de detalhamento nunca antes visto, tudo dentro da forma do romance do século XIX.

Balzac, de Rodin

Balzac, de Rodin

Balzac construiu a Comédia Humana durante pouco mais de vinte anos. Morreu aos 51, após trabalhar incansavelmente por anos. Aliada à paixão pela literatura, havia a necessidade de pagar as dívidas que acumulava. Ele dormia pouco e era viciado em café, que consumia para manter-se acordado. A ideia de uma enorme série de livros que retratariam “todos os aspectos da sociedade” ocorreu-lhe em 1832, depois já ter escrito diversos romances. Quando a concebeu, correu para ao apartamento de sua irmã e disse: “Estou prestes a me tornar um gênio.” No início, o projeto chamava-se Études des Mœurs (Estudos de Costumes). Na Comédia, ele incluiu parte do que já tinha escrito e todos os romances seguintes. O mosaico de romances e novelas foi o trabalho de sua vida.

Ao mesmo tempo que sua obra, Balzac não deixava de lado a ideia de ficar rico com algum negócio. O primeiro desses empreendimentos foi a fundação de uma editora dedicada aos clássicos franceses. Embora os livros fossem muito baratos ou por causa disto, o negócio fracassou. Voltou aos negócios tipográficos depois de pedir dinheiro a amigos, no entanto, sua inexperiência causaram de novo sua falência. Depois, conheceu e se apaixonou por Laure de Berny, mulher casada com quem teve um caso. Ela lhe deu sociedade comercial a fim de abrir outra editora que não tardou em falir. Ele passou a empresa a um amigo que acabou rico como editor, mas que cobrou de Balzac boa parte do rombo com que esta lhe fora entregue. Sabe-se que, em certa época, devia cerca de 50.000 francos à própria mãe…

Esta aspiração por uma grande jogada comercial jamais abandonou Balzac. Anos mais tarde, teve a ideia de cortar 20 mil hectares (81 km²) de madeira de carvalho na Ucrânia e transportá-la até à França para vendê-la no país. Mais dívidas. O autor também fundou jornais cuja intenção era a de demonstrar uma total imparcialidade e equidistância. Também faliram.

Luciano de Rubempré, numa ilustração para uma edição de "As Ilusões Perdidas" de 1867

Luciano de Rubempré, numa ilustração para uma edição de “As Ilusões Perdidas” de 1867

Toda esta experiência de fracassos teve repercussão em sua literatura. Alguns de seus maiores romances focam-se em personagens obcecados pela ascensão social. Tais pessoas chafurdam em inglório pântano, envolvidas em questões amorosas — que muitas visavam exclusivamente o alpinismo social — , em negócios e heranças. O incrível número de romances de Balzac deve-se a um método de trabalho que incluía frequentemente 15 horas de por dia escrevendo e revisando. Nestes períodos, comia uma refeição ao final da tarde e dormia até meia-noite. Então, acordada e trabalhava até a tarde seguinte com pequenas pausas para tomar café preto. “O café é a bebida que desliza para o estômago e põe tudo em movimento.”

Engana-se quem pensa que a pressão das dívidas tornou-o um escritor descuidado. Poucas vezes isto aconteceu. Balzac era preocupadíssimo com a qualidade de seus textos, revisando-os compulsivamente. A intenção de Balzac era que a Comédia Humana tivesse 137 títulos, mas ele só obteve chegar aos 88 livros.

Se pudéssemos indicar quatro livros aos leitores do Sul21, não fugiríamos do lugar comum.

7 eu-gr

Eugênia Grandet (1833) conta a história de uma típica provinciana filha de pai rico e que é disputada por potenciais maridos. Ela se  apaixona por seu primo que,  aconselhado pelo de Eugênia, antes parte em busca de fortuna. Eugênia fica resignada à espera. Tal sinopse parece apontar para um romance triste e sentimental. Nada disso. Há uma grande ebulição em torno do personagem principal do livro, o pai de Eugênia, rico comerciante de vinhos que é um dos maiores avarentos da história da literatura.

 

8 pa-goO Pai Goriot (1834) conta a visceral história de um velho comerciante que se deixa arruinar para que as filhas, que o desprezam, possam frequentar a alta sociedade. Aqui estão também Rastignac, especie de alter ego de Balzac, jovem pobre e ambicioso da província que deseja enriquecer em Paris a qualquer custo; e Vautrin, personificação do diabo que aparecerá em vários romances da Comédia Humana. Mais que a história do personagem-título, contam-se aqui as transformações porque passa Rastignac, de interiorano ingênuo a cínico e inescrupuloso.


9 il-peIlusões Perdidas
 (1843) é o mais longo dos romances de Balzac, ainda mais se somarmos a ele sua continuação, Esplendores e Misérias das Cortesãs. No romance está o maior dos personagens balzaquianoso poeta Luciano de Rubempré, que deseja sair da província para se  famoso em Paris. Em sua tentativa, Luciano deixa-se influenciar por todos com quem cruza numa Paris onde é proibido ser ingênuo. O livro também inclui David Séchard, um impressor que inventa um tipo de papel barato, mas que sucumbe à concorrentes que se associam para destruí-lo.

10 a-prA Prima Bette (1846) é outra das obras-primas de Balzac. Pertence ao subgrupo “Os Parentes Pobres”, do qual faz parte também O Primo Pons. Neste livro, a ressentida, pobre e solteirona Lisbeth Fischer, a personagem-título, vinga-se minuciosamente de todas as humilhações verdadeiras e imaginadas, que sofreu ou teria sofrido de seus parentes ricos. Suas vítimas, várias sem nenhuma estatura moral, vêem nela um exemplo de fidelidade e sinceridade. Um estupendo estudo sobre o ressentimento.

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Lendo Oblómov

OblómovEstou lendo cada vez mais lentamente Oblómov e não é por não estar gostando. É que não dá para interromper os capítulos no meio, há que ler cada um deles por inteiro, pois são peças muito perfeitas do mosaico que está sendo formado para serem lidas com interrupções. Dá mais prazer ler cada capítulo completo. O próximo capítulo tem 20 páginas, então preciso de 20 páginas de tempo sem correr riscos de ser atrapalhado.

Oblómov é a história de um latifundiário russo que se caracteriza pela indolência e apatia, para não dizer coisa pior. Deitado em seu sofá, olhando para o teto, ele deixa passar os dias. Embora vários problemas o atormentem — principalmente sua fazenda, que cada vez gera menos dividendos –, ele apenas planeja a melhor maneira de resolvê-los, sem agir. A mera ideia de deixar sua poltrona causa-lhe desconforto, então ele deixa a inércia guiar sua vida, que vai de mal a pior. A vida passa ao largo. Mas não pensem que é um livro monótono, muito pelo contrário, é bastante movimentado e os diálogos e os pensamentos de Oblómov são vivíssimos. Ele realmente tem o ócio como bandeira.

Ele tem um amigo de infância, Stolz, que é o que poderíamos chamar de homem de ação. No pequeno tempo livre de que dispõe, ele tenta retirar seu amigo da inação em que vive imerso. Instiga-o a resolver imediatamente seus problemas, a viajar e viver. Graças a Stolz, Oblomov conhece uma jovem por quem se apaixona. Então, vive um curto despertar. Aluga outra residência, visita e visita a amada. Porém, antes de casar, tem que resolver os assuntos de sua propriedade. Além disso, Olga quer que ele esteja atualizado com o que está acontecendo no mundo. Mas tudo isso parece ser uma demasia para ele.

Ele mora na cidade, mas planeja construir uma casa em sua propriedade para lá morar com Olga, mas seus rendimentos são decrescentes e o descontrole é absoluto. O que faço, o que faço, o que faço? Ele tem boas ideias a respeito, está consciente de tudo o que lhe ocorre, só que é o Rei da Procrastinação, o Príncipe da Indolência… Dispõe de criados que o servem e roubam. Zakhar, o principal deles, é um tremendo personagem, assim como todos os que circulam pelo romance.

O livro gerou uma expressão na Rússia: oblomovismo. Iliá Ilitch Oblómov representaria a velha Rússia czarista, com suas relações de trabalho e corrupção feudais. Os patrões são aristocratas inúteis, os servos são escravos. Já Andrei Stolz representaria o futuro e o progresso. Era uma estrutura social onde uns e outros estavam em decadência e se os grandes temas da humanidade são o amor, a morte e a existência ou não de Deus, creio que a decadência mereça o quarto lugar.

P.S. — Estou na página 490 de 736.

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

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O apelo de Thomas Mann à razão parece dirigido ao Brasil de hoje

Há 87 anos, romancista tentou alertar povo alemão sobre perigos políticos após Partido Nazista ficar em segundo lugar nas urnas. Para o Nobel de Literatura, Hitler não podia mais ser visto apenas como piada de mau gosto.

Por Ricardo Domeneck, na DW
sob o título Bibliothek: O apelo de Thomas Mann à razão

Thomas Mann

No dia 17 de outubro de 1930, há exatos 87 anos, Thomas Mann proferia no Beethoven-Saal, em Berlim, sua palestra intitulada Ein Appell an die Vernunft (Um apelo à razão). Ao mesmo tempo, membros da Sturmabteilung (SA), a milícia paramilitar nazista, tentavam perturbar o evento e impedir que o escritor falasse.

O contexto e impulso dessa fala do romancista alemão foi o resultado das eleições de setembro daquele ano, quando o Partido Nazista (NSDAP) conquistou 18,3% dos votos, sendo o segundo mais votado, atrás do Partido Social-Democrata (24,5%) e à frente do Partido Comunista da Alemanha (13,1%).

O escritor tinha naquele momento uma posição de grande autoridade intelectual na República de Weimar, tendo recebido em 1929 o Prêmio Nobel de Literatura. Ele já era o autor dos romances Buddenbrooks (1901) e Der Zauberberg (A Montanha Mágica, 1924).

Longe de ser visto como um autor engajado numa época que via o ativismo potente de Bertolt Brecht (grande desafeto seu) e outros autores, Mann disse em sua palestra que o tempo do “jogo puro” de Friedrich Schiller ou do idealismo estético havia chegado ao fim diante de tais perigos políticos.

Segundo o autor, era importante deter os nazistas, que buscavam de forma efetiva, aos gritos, tornar indissociáveis ideias de nação e sociedade. Ele analisou o contexto político e econômico do momento, sem poupar críticas aos efeitos desastrosos do Tratado de Versalhes sobre a sociedade alemã.

O engajamento de Mann na luta contra o fascismo encontrou também sua face literária em uma novela importante publicada naquele mesmo ano: Mario und der Zauberer. Escrita no ano anterior, chegava no mais propício dos momentos. É seu trabalho mais escancaradamente político.

O narrador descreve como, durante uma viagem à Itália, ele testemunha o poder de hipnose de um mágico chamado Cavaliere Cipolla. Este era capaz de criar com sua fala um clima de opressão em meio ao público que assistia ao seu espetáculo, controlando os espectadores até que um deles, o Mario do título, se revolta e o mata.

O momento era de tensão e angústia entre os espíritos democráticos da época: Josef Stálin consolidara seu poder na União Soviética, Benito Mussolini conclamava os italianos a recuperarem a glória do Império Romano, e o Partido Nazista começava a conquistar uma posição perigosa dentro da República de Weimar. O tempo de rir dos nazistas havia acabado.

Mann parecia decidido a convencer o povo alemão, ou ao menos a parcela que poderia ouvi-lo, de que Adolf Hitler não podia mais ser visto apenas como uma piada de mau gosto – como muitos intelectuais da época reagiram à sua gritaria até que ele chegou ao poder, em 1933, quando já era tarde demais.

Infelizmente, sabemos que naquele momento o apelo à razão de Mann junto a seus compatriotas não foi suficiente. O próprio Beethoven-Saal, onde proferiu sua palestra, foi bombardeado e destruído em 1944.

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Sem guglar, você adivinharia a autoria deste poema?

Obs.: acabo de deixar o nome do autor lá no final do post, após “Marcado com”.

Poema para grande orquestra parada – um silêncio bem alto

Você já amou uma mulher brilhante.
Você já amou uma mulher formosa.
Você já amou uma mulher
Silenciosa?
Que fala pouco.
E bem,
E baixo,
Que não eleva a voz por raiva
Nem má educação,
Que anda com seus pés de seda
Num mundo de algodão.
Que não bate, fecha a porta,
Como quem fecha o casaco
De um filho
(Ou abre um coração)?
Que quando fala, se aproxima
Ao alcance da mão
Pra que a voz não se transforme em grito?
E que absorve o mundo
Sem re-percussão
Num olhar de preguiça
Num colchão de cortiça
Como um mata-borrão?

Mas um dia ela sai
Levando o seu silêncio
De pingüim andando solitário em
sua Antártica
(ou Antártida),
No eterno
Gelo sobre gelo
No infinito
Branco sobre branco
E dos cantos e recantos
Onde habitou calada
– entre oniausente –
Brotam aos poucos,
Os ruídos
Pisados,
Colocados embaixo do tapete
Guardados na despensa
Na gaveta mais funda
De uma vida em comum.
Os trincos falam,
A cafeteira chia,
A espreguiçadora range,
O telefone toca,
As louças tinem,
O relógio bate,
O cão ladra,
O rádio mia,
Toda a casa ressoa, reverbera
e brada
E a orquestra em pleno do teu
dia-a-dia
Ataca a algaravia
Fabril
Escondida no lençol de silêncio
Com que ela partiu.

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Os Direitos Inalienáveis do Leitor, por Daniel Pennac:

Por algum motivo, eu ainda não consigo cumprir o Nº 3. Cumpro brilhantemente o Nº 7 — já li até em estádio de futebol. Nunca vi necessidade do Nº 9 e minha amiga Cláudia Beylouni Santos me vem com mais dois direitos:

11. O direito de acumular uma muralha de livros amados, por ler, em todo o entorno da cabeceira da cama.
12. O direito de falar incessantemente sobre um livro apaixonante que se leu.

O Julio Ribeiro pede mais um:

13. O direito de comprar mais livros do que se consegue ler.

E a Maria de Abreu também:

14. O direito de parecer antipático e não responder por estar enredado e absorto entre uma linha e outra.

Mas chega! Vamos aos 10 direitos originais de Pennac:

1. O direito de não ler.
2. O direito de saltar páginas.
3. O direito de não acabar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler não importa o quê.
6. O direito de amar os “heróis” dos romances.
7. O direito de ler não importa onde.
8. O direito de saltar de livro em livro.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de não falar do que se leu.

Daniel Pennac

Daniel Pennac

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Sobre “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis

O conto completo está aqui, dentro do site Domínio Público.

As Academias de Sião, de Machado de Assis, dá pano para muitas mangas, apesar de não ser um de seus maiores contos. O pano para as mangas é tecido ao longo de um plot mais do que original para a época: as academias de Sião tentavam resolver um peculiar problema: “Por que é que há homens femininos e mulheres masculinas? O que as induziu a discutir isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminilidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros siameses gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram danças, comédias e cantigas, à maneira que o rei não cuidava de outra coisa”.

Uma das academias venceu com a seguinte certeza: “A alma é neutra; nada tem com o contraste exterior”. Porém, Kinnara, a mais bela concubina do Sião, durante um encontro privado com rei, questionou a decisão dizendo existirem almas sexuais. Assim como o rei era o homem feminino, Kinnara seria a mulher máscula: “Um búfalo com penas de cisne”. Depois de um beijo, Kinnara convence o rei para que suas almas troquem de corpo por seis meses. Cumprido o prazo, cada uma seria restituída ao corpo original. A fábula de Machado pega emprestado temas orientais, sobretudo hindus. Basta lembrar o parentesco do conto com a “história hindu” de Thomas Mann As Cabeças Trocadas, onde há um personagem belo, mas com um corpo magérrimo, e outro feio, mas de belo corpo. Em Mann, há a troca de cabeças; em Machado, a de almas.

Após a troca, Kalaphangko, ou o corpo do rei agora com alma de Kinnara cuidou da fazenda pública, da justiça, da religião e matou uns tantos que não pagavam impostos. “Sião finalmente tinha um rei”, afirma Machado. Já a alma do rei “espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara”. Sim, Machado de Assis diverte-se sempre conosco. E nós com ele.

O conto parece indicar que a alma masculina seria mais ativa e racional, enquanto a feminina seria passiva e emocional. Mas Machado de Assis não está aqui criando teses e sim controvérsias e boas piadas. Um pouco mais sobre Kinnara. Quando há a troca de almas, ela passa a um plano secundário e Kalaphangko planeja matá-la para não desfazer a troca, porém ela revela estar grávida e o rei sente-se incapaz de matar seu próprio filho, símbolo de sua virilidade e da continuidade da linhagem real. Ou seja, primeiro Kinnara consegue fazer a troca de corpos através de um beijo e depois logra não ser morta pela maternidade, um predicado físico feminino. Neste sentido, a simples Kinnara é mais uma mulher decisiva num mundo machadiano cheio delas. As mulheres de Machado seduzem, escolhem, querem e conseguem, expelindo sensualidade tanto em lentas e inexoráveis secreções ou como em espasmos (ou jatos…).

Tenho vontade, mas reluto em fazer uma interpretação do século XXI sobre um conto que não é mais do que um scherzo de Machado. Mas há outros aspectos intrigantes neste conto cheio de curiosidades que independem do instrumental psi de nossos dias. (1) Machado não cai em momento algum nas piadas fáceis e depreciativas de uma sociedade machista — e estamos em 1884. (2) Diferentemente de Tolstói, por exemplo — um escritor absolutamente contemporâneo de Machado — , o brasileiro não está nem um pouco preocupado em explicar o mundo ou em trazer a Verdade e a Solução a seus leitores. Ele apenas narra brilhantemente os fatos e nos deixa aqui pensando… (3) Os acadêmicos consideram um ao outro perfeitos estúpidos, mas permanecem academia, inclusive protagonizando o festivo momento final de As Academias de Sião, cantando todos juntos o hino “Glória a nós, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”.

A bela Kinnara — àquele momento já destrocada — não entendia como os membros da academia podiam ser a claridade do mundo quando reunidos e se detestarem separadamente… Mas sabemos que é assim. É notável que o fundador da Academia Brasileira de Letras nos passe uma noção tão bufa e verdadeira do comum das academias — locais que  podem ser melhor descritos como cestas de ofídios do que como clarões para o mundo.

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Uma tentativa de entender porque o Facebook é cansativo e ler livros não é

Um dia desses, passei os olhos numa matéria que dizia que a leitura de livros era uma espécie poderosa de remédio para as tristezas e decepções da vida. Desta forma, os leitores de livros — acho que o texto utilizava o lugar comum “vorazes leitores” — tinham uma espécie bote salva-vidas que permitia que ficassem boiando durante as inundações que a vida nos impõe.

Sim, é uma ironia. Cena de Persona, de Ingmar Bergman.

Sim, é uma ironia. Cena de Persona, de Ingmar Bergman.

Impossível concordar mais. Quando a coisa está muito louca e incontrolável lá fora — e como está, não? –, quando a algaravia sem fim do Facebook começa a abalar nossa saúde mental, parece que um bom texto ou uma boa história vem cumprir não somente o papel de nos entreter, mas o de repor nossos pensamentos na linha da normalidade (ou do habitual, pois não tenho ilusões sobre minha normalidade).

Ler ficção não é somente entrar em outra realidade, mas estar em conexão íntima conosco de uma forma muito especial e tranquila. Pode até ser um livro que nos incomode com “murros no crânio” (para citar Kafka), mas o mergulho que fazemos, a penetração que realizamos no modo de pensar de alguém que nos é estranho, tem sempre o condão de nos mostrar o caminho de retorno a nós mesmos.

Quando fico muito tempo sem ler, tenho a impressão de que uma psicose pró-ativa vai tomar conta de mim e vou ficar tão idiota quanto um político de carreira ou outro carreirista qualquer. Mesmo que o nível médio daquilo que se publica seja muito baixo, vale a pena ler livros. A maioria das coisas que as pessoas escrevem no Facebook comentam sobre o dia de hoje de forma simples e descartável. Quando este hoje se torna ontem, aquilo que registramos não tem mais valor. É um palimpsesto (*) de altíssima velocidade. Isso perturba, cansa, gasta.

Enquanto escrevia este texto, descobri que existe uma biblioterapia. Ela consiste na prescrição de materiais de leitura com função terapêutica. A prática biblioterapêutica pode ser utilizada como um importante instrumento no restabelecimento psíquico de indivíduos com transtornos emocionais.

Começo a pensar em fazer listas terapêuticas…

(*) Papiro ou pergaminho cujo texto primitivo é raspado para dar lugar a outro.

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A polícia da linguagem

Toda a literatura americana moderna se origina de um livro escrito por Mark Twain, chamado Huckleberry Finn (…). Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então.
Ernest Hemingway

Por e-mail, Ernani Ssó me envia duas colaborações para o blog — uma curtinha dele e outra um artigo do New York Times –, já que tenho discutido bastante por aqui o obscurantismo e o obscurantismo. Aliás, outro escritor, Gustavo Melo Czekster, fez referências ao mesmo tema nesta entrevista que fiz com ele. No artigo, Ernani Ssó inicia referindo-se às traduções de Huckleberry Finn feitas por Monteiro Lobato e Sérgio Flaksman. Devo ter lido a de Monteiro quando criança, mas reli o livro há poucos anos em tradução de Rosaura Eichenberg para a L&PM. Não lembro de como a tradutora verteu o “big nigger”, lembro apenas que era um excelente trabalho de tradução que invadia aquele terreno considerado inaceitável. Acontece que, deparando-se com uma bela história realista, gente do século XXI tem achado que ela ofenderia a religiosidade, os valores familiares e a moral. Seria inadequado para as crianças pois Huck não reza, detesta a escola e… E Twain ainda chama de nigger (the N Word!) o personagem Jim, talvez sua maior criação.

No blog Novo Resenhar Experientia encontro uma observação da própria Rosaura:

A palavra nigger incorporou com o passar dos anos uma carga de ódio que não tinha no tempo de Mark Twain, muito menos no tempo da narrativa. Àquela época, tratava-se apenas de uma forma comum de se referir aos negros. O próprio Mark Twain não empregava o termo, considerado de mau gosto pelas pessoas cultas (…)

Sim, ler Huck Finn e evitar a palavra nigger, a qual é indiscutivelmente degradante, é desejar que a América do Norte do século XIX seja bem mais limpinha, é desejar que ela seja como não foi. Twain não era racista. Pode ter sido educado no sul, porém, durante a maior parte de sua vida, ele criticou o racismo em cartas, ensaios e romances como uma manifestação maligna da desumanidade do homem para com o homem. Em uma carta escrita em 1853, Twain escreveu: “Eu acho que seria melhor ter meu rosto preto, pois nestes estados do Sul, os niggers são muito melhores do que os brancos”. Para terminar a lista de argumentos, tenho o que penso ser o maior deles: quem dizia nigger era o personagem Huck, não Twain. Se o menino sulista não utilizasse o termo, seria pra lá de artificial. Ou o religioso Dostoiévski representava ipsis litteris o ultra niilista Kirilov?

Finalmente, deixo Ernani Ssó e o NYT com vocês.

.oOo.

A polícia da linguagem (por Ernani Ssó)

Em Huckleberry Finn, lá pelas tantas Mark Twain escreve “big nigger”. Monteiro Lobato traduziu por “negrão”. Sérgio Flaksman, nos anos noventa, por “escravo alto”, que pode ser uma opção muito bonitinha em termos políticos, mas literariamente é um desastre. Não é só que a expressão negrão seja mais forte. Ao alterar a frase, se altera o caráter do personagem que fala e, idiotia suprema, se confunde o autor com seus personagens. É mais ou menos a mesma coisa que acontece com essa gentalha que vê novela na televisão. Esses dias uma mulher deu um tapa na cara de uma atriz no supermercado porque a personagem dela na novela é muito assanhada, passa o marido pra trás.

Deu no New York Times

Trecho de um artigo de um tal Michiko Kakutani: “Será que ainda não aprendemos que retirar livros do currículo apenas nega às crianças o contato com obras clássicas da literatura? Pior, isso alivia os professores da responsabilidade fundamental de colocar esses livros em contexto – ou de ajudar os alunos a entenderem que Huckleberry Finn é na verdade uma acusação poderosa contra a escravidão (com o Negro Jim como seu personagem mais nobre), e usa essa linguagem controversa como uma oportunidade de explorar as dolorosas complexidades das relações raciais no país. Censurar ou editar livros das listas de leitura das escolas é uma forma de negação: é fechar a porta para as duras realidades históricas – reinventando-as ou fingindo que elas não existem.

“A tentativa de Alan Gribben de atualizar Huckleberry Finn (publicado em uma edição com As Aventuras de Tom Sawyer pela New South Books), assim como a afirmação de John Foley de que se trata de um livro antigo e ‘que estamos prontos para o novo’, ratifica a crença contemporânea narcisista de que a arte deve ser inofensiva e acessível; que os livros, peças e poesias de outras épocas e lugares deveriam de alguma forma se adaptar para se conformar às ideias democráticas de hoje. Um exemplo disso foram as iniciativas politicamente corretas da década de 80 para retirar Conrad e Melville da lista de grandes autores porque o trabalho deles não mostra muitas mulheres ou projeta atitudes colonialistas.

“Os textos originais dos autores deveriam ser propriedade intelectual sacrossanta, quer o livro seja um clássico ou não. Mexer nas palavras de um escritor revela tanto um orgulho extraordinário por parte dos editores, quanto a atitude desleixada de cada vez mais pessoas nessa época de mash-upssampling e livros digitais – a atitude de que todos os textos são substituíveis, que os leitores têm o direito de alterá-los como bem entenderem, que a própria ideia de autoria é ultrapassada.

“Os esforços para ‘desinfetar’ a literatura clássica têm uma história longa e pouco distinta. Tudo desde as Canternbury Tales de Chaucer até Charlie e a fábrica de chocolate de Roald Dahl vem sendo contestado ou já sofreu nas mãos de editores exagerados. Houve até versões purificadas da Bíblia (sem todo o sexo e violência!). Às vezes a necessidade de expurgar (senão banir totalmente) vem da direita, de evangélicos e conservadores, preocupados com a blasfêmia, linguagem profana e linguajar sexual. Grupos fundamentalistas, por exemplo, tentaram banir os dicionários por causa das definições oferecidas para palavras como quente, rabo, bola e ovos.

“Em outros casos o impulso de ‘limpeza’ vem da esquerda, ansiosa por impor sua própria visão de mundo multicultural e feminista e preocupada com ofender religiões ou grupos étnicos. A versão cinematográfica de Michael Radford para O Mercador de Veneza de 2004 (com Al Pacino no elenco) revisou a peça para omitir qualquer material potencialmente ofensivo, oferecendo um Shylock mais simpático e agradável e cortando questões difíceis sobre o antissemitismo. Mais absurdo ainda, uma companhia britânica de teatro em 2002 mudou o título de sua produção de O Corcunda de Notre Dame para O tocador de sino de Notre Dame”.

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Sobre o obscurantismo bem intencionado

Casualmente, dois amigos meus geograficamente muito distantes começaram a debater ao mesmo tempo os julgamentos literários baseados em estereótipos. Funciona mais ou menos assim: você compara um personagem, o que lhe acontece ou como é descrito com um modelo previamente formatado e com a abordagem que seria correta. Tais modelos serviriam para respeitar às minorias, claro. Se a literatura distorce o estereótipo, ela está errada, pois deveria fazer justiça à ideia pronta. A  verdade ficcional seria estática, ou seja, a literatura não poderia reimaginar, reinventar, fabular ou fantasiar fora da casinha.

Como isso acaba a gente sabe. O estereótipo é uma das principais muletas do conservadorismo que invade esquerda e direita. Trata-se de uma postura preguiçosa, sem reflexão e “moralizadora”. Estou cansado de gente que se horroriza com autores que ultrapassam certos limites. Uma amiga minha deixou de ler um excelente livro de Baricco porque o autor chamou uma personagem de gorda e disse que ela reduzia os danos usando roupas adequadas. Tudo é muito previsível e chato, ao contrário do que costuma ser a boa literatura. E os julgadores invadem os espaços antes exclusivos da censura e do senso comum, procurando colocar-se entre o autor e o leitor, esse ser que seria um tolo sem discernimento. Ambos os amigos dizem que a academia — fora do Brasil, é claro — está fazendo naufragar esta forma de pensar. Daqui dez anos chega aqui.

Detalhe de um dos Caprichos de Goya

Detalhe de um dos Caprichos de Goya

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Requiem: uma alucinação”, de Antonio Tabucchi

Requiem TabucchiNão hesito em chamar este Requiem: Uma Alucinação de obra-prima. Vamos manter a grafia original da palavra “requiem” sem acento porque o livro foi escrito diretamente em português de Portugal pelo italiano Tabucchi. Antonio Tabucchi (Vecchiano, 24/09/1943 – Lisboa, 25/03/2012) foi o italiano mais português de que tenho notícia. Chegou a se naturalizar. Ele era professor, escritor e tradutor de Fernando Pessoa. Amava o país. Ele escreveu vários excelentes pequenos livros e sua grande obra, como escreveu Simenon sobre si mesmo, foi o mosaico formado por estes pequenos romances. Todos são excelentes, mas por favor, este Requiem é um exagero.

Requiem: Uma Alucinação foi o único livro que Tabucchi escreveu diretamente em português. A obra é uma homenagem a Lisboa, a Portugal, a Fernando Pessoa e até a Saramago — vide os diálogos sem pontuação. Também se come muito bem neste livro. Lisboa, como se sabe… Bem, escrevo próximo do horário do almoço e é melhor deixar de lado aquela maravilhosa gastronomia. O livro é literalmente um sonho. No calor do verão português, o personagem principal deita, dorme e sonha. São 12h que começam em um encontro que não acontece. Este seria, supõe-se, com Fernando Pessoa, chamado de “O Convidado”. Calma, gente, o  encontro acontecerá ao final do romance.

Enquanto isso, veremos o personagem que sonha deambulando por Lisboa. Ele encontrará amigos quase todos mortos, andará de táxi, terá uma linda cena numa pensão onde descansará, entrará no Museu de Arte Antiga onde encontrará um Pintor Copiador de Bosch, conversará e suará muito no escaldante calor. É tudo muito verossímil, contado em tom de conversa ao pé do ouvido, mas é a realidade de uma alucinação. Em Requiem, é natural acertar as contas afetivas com os mortos. Pouco a pouco, o vaudeville vai diminuindo seu ritmo e tornando-se melancólico. Uma obra-prima.

Recomendo fortemente. A edição é da extinta Cosac; isto é, acho que só pode ser encontrada em sebos.

 (Livro comprado na Ladeira Livros).

Antonio Tabucchi (1943-2012)

Antonio Tabucchi (1943-2012)

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Minha internação

Esses últimos dois dias foram horríveis. Em meu trabalho como jornalista, fui fazer uma entrevista numa clínica psiquiátrica e tudo correu normalmente. Fiz perguntas normais e estas foram respondidas de forma convencional. O resultado ia ser tedioso como quase todas as matérias. Quando saí de lá, me dirigi à parada de ônibus em frente à clínica para ir pra casa. Foi quando dois enfermeiros enormes vieram, me pegaram e me levaram de volta para dentro. Eu berrava e esperneava e, quanto mais fazia isso, mais eles tinham certeza de que eu fugira de um dos quartos. Eu disse que era repórter do Sul21 e um dos enfermeiros respondeu que ele era o Renato Portaluppi. O outro disse que era o Gilmar Mendes. Riram de mim. Passei a dar chutes e cabeçadas na porta e eles nem se voltaram para me olhar, só disseram de forma bem audível: ih, esse surtou de vez. Me deram umas injeções. Dormi, é claro. Quando acordei, tinham servido um café com pão e manteiga. Todos os talheres eram de plástico, que merda, eu estava a fim de fazer em pedacinhos o primeiro que entrasse. Roguei para falar com a Elena, com minha irmã médica, com meus filhos, com o bispo, mas eles tinham pegado meu celular e não queriam devolver. Também não quiseram me levar no passeio dos loucos devido a meu estado nervoso. Enfim, após 48 horas, consegui atrair um médico até meu quarto. Ele me conhecia dos blogs e do facebook. Pensou que eu postava sempre ali da clínica mesmo. Tive que explicar que costumava escrever em casa ou no trabalho, que deus e minha chefe me perdoem. Pedi por meus familiares e afinal vieram a Elena, a Iracema e a Bárbara. O médico pediu desculpas e disse que a parada na frente da clínica era um fake, nenhum ônibus parava ali, era só para pegar os fujões, mas que eu, boca-aberta, tinha ficado esperando e já viu, pensamos que era um dos nossos. Agora, estou aqui digitando pra vocês já no meu celular, a camisa-de-força não é tão apertada assim. Consegui até coçar o sovaco entre um gol e outro do River.

Foto: AF Notícias

Foto: AF Notícias

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O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

TORCICOLOGOLOGISTA-280Duas pessoas, ou excelências, como prefere Gonçalo M. Tavares, conversam sem parar sobre os mais variados e, às vezes, disparatados assuntos. Não há descrições, introduções, “palavras do autor”, nada disso. O que há são diálogos cerrados, como uma peça de teatro onde dois indivíduos (ou travessões) falam sem parar. São muitos capítulos, todos eles com títulos que parecem ter sido buscados nos romances ingleses do século XVIII. Dito assim, parece confuso, mas não é. O Torcicologologista, Excelência é um livro fluido em que a lógica é subvertida ou seguida de forma tão rigorosa que acaba em absurdo. Os assuntos são os mais variados. O livro inicia tratando de revoluções, e vai para qualquer lado, como a dança, a preguiça, o corpo, as ideias — há uma guilhotina que corta ideias tolas — , a moda, a tradição, a covardia, a coragem e a linguagem, a linguagem, a linguagem. É um livro cheio de filosofia e ironia, onde as pequenas e grandes questões individuais e coletivas têm o mesmo tamanho.

O Torcicologologista, Excelência mostra um escritor único, desses que nos provam que nem tudo ainda foi feito. Se as frases são claras, o todo é desconcertante e estranho. E com desvios. “Tudo o que é sério tem dois lados divertidos”, escreve Tavares. Desta forma, nada deixa de passar por sua máquina de experimentações que atenta moderada ou crassamente contra o sentido convencional das coisas.

Eu adorei o livro. Ele não apenas escancara uma superfetação de fantasias e possibilidades como aponta para um mundo impossível no Brasil literal e burro de hoje. Um mundo onde a linguagem nem sempre fala daquilo que deixa no papel.

Eu penso muito que a criação crítica sobre o contemporâneo é uma criação crítica sobre a linguagem, porque nas democracias grande parte das batalhas essenciais são linguísticas. E nós percebemos que a linguagem é uma máquina que pode funcionar de diferentes maneiras: uma máquina por vezes irônica, por vezes de manipulação, por vezes uma máquina de cercar, muitas vezes uma máquina de tentar explicar a realidade. Portanto a linguagem está sempre no centro da democracia. Felizmente, de alguma maneira, a arma foi substituída pelo verbo. E o que me parece interessante é que as pessoas deveriam ter uma espécie de manual de defesa da linguagem e não têm, um pouco como aprender uma arte marcial, aprender a estrutura da linguagem, a forma como ela funciona. E no Torcicologologista, os diálogos partem muito dessa ideia de que as frases não dizem apenas uma coisa, elas têm vários sentidos, podem ir por um caminho, ou pelo caminho oposto; que a linguagem pode ser sabotada, que a linguagem pode aparentar que está a falar de uma realidade mas está a falar de outra. Percebemos que a linguagem depende de quem a diz, pois mais importante que perceber a frase de alguém é perceber o que essa pessoa quer. De alguma maneira os diálogos andam muito à volta dessas ideias, pois o diálogo é uma maneira da pessoa dizer coisas que não sabia que sabia. É o outro, através de suas questões, de suas frases, que faz que eu diga algo novo para mim, portanto o diálogo não é um somatório de monólogos, é mesmo uma possibilidade de descobrir coisas diferentes. E nesse aspecto esses diálogos são claros herdeiros dos diálogos clássicos, de Platão, e daquela ideia socrática das perguntas até como uma espécie de tortura. São questões que de alguma maneira não têm resposta prévia e, portanto, provocam uma investigação individual. Nesse sentido O torcicologologista é um herdeiro desse mundo.

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

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Leituras no Estomago Café

Descobrimos há poucos dias o Estômago Café ali na subida da Miguel Tostes. O local é ótimo, a comida e os petiscos veganos são sensacionais, mas tem mais. Sobre as mesas estão os livros de um grande leitor. No caso de uma grande leitora, a proprietária Júlia Fraguas. Não são livros de literatura comum, mas excelentes livros que foram lidos e anotados. Os livros anotados são coisas vivas, digo eu, um contumaz riscador e sublinhador deles, além de dialogador com autores ausentes, muitas vezes mortos.

Como sabemos, todo apaixonado por livros gosta de que falem bem de literatura, de que lhe elogiem os hábitos e a estranha forma de vida que o faz carregar livros para perto de si, como se fossem objetos transicionais. (Sabe aquele paninho, bichinho de pelúcia ou qualquer objeto que sirva de apoio emocional para a criança na infância? Pois é, o nome daquilo é objeto transicional e é fundamental porque tem a função simbólica de produzir conforto, segurança e sensação prazerosa). O que está escrito entre os parênteses acima parece a definição de livro para algumas pessoas…

Pois bem, estava aguardando uma pessoa lá no Estômago e comecei a fotografar alguns trechos presumivelmente sublinhados pela Júlia. O resultado está aí embaixo.

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Nosso Capitão, de Sadi Schwerdt

20170907-1-sadi-capa-706x1024Eu nasci em 1957 e acompanho futebol diariamente desde 1966, quando a Copa da Inglaterra me fisgou. Por outro lado, um núcleo familiar 100% colorado me trouxe para o Inter. Então, por ter vivido os fatos como expectador e torcedor, conheço boa parte daquilo que é descrito pelo lateral Sadi Schwerdt, o Sadi, neste livro franco e belamente escrito. Li feliz e muito rapidamente suas 222 páginas de texto simples e direto.

De certa forma, aos 75 anos, Sadi segue sendo o capitão do Inter. Sua visão ainda é a de identificar problemas e denunciá-los, mas também guarda a postura de proteger colegas e a instituição. Os anos 60 foram terríveis para os colorados. O Campeonato Gaúcho era o máximo que Grêmio e Inter podiam aspirar e, entre 1956 e 1968, o Grêmio ganhou todos, à exceção de 1961. A derrota de 1962 foi especialmente ridícula. Sadi chegou depois disso à titularidade, para ser a estrela de um Inter que destinava recursos para a construção do Beira-Rio e deixava os investimentos em futebol para um plano secundário. Lembro que o time nem era tão ruim, mas os dirigentes do futebol faziam coisas, que vistas de hoje… Como é que deixaram Alcindo escapar para o Grêmio? Como é que Sérgio Lopes também foi parar no tricolor? E por que contrataram Foguinho para técnico em 68? (É o mesmo que o Grêmio contratar Falcão hoje para dirigir a equipe ou o Inter contratar Renato). José Alexandre Záchia era tão perdido quanto seus filhos Pedro Paulo e Luiz Fernando, que afundaram novamente o Inter nos anos 90. Ou seja, os dirigentes da época deram enorme contribuição para o adversário.

Tais confusões ficam claras no livro de Sadi, mas jamais pensem que ele grita cada um dos fatos. Não, eles são citados elegante e calmamente pelo Capitão do time. É como se perdoasse. Menos tranquilas são as referências feitas ao ambiente de sacanagem e politicagem barata da Seleção Brasileira, onde ele se destacou sem ser capitão. Analisando suas atuações por lá — que, sei, foram sempre muito boas –, Sadi é mais explícito e explica o funcionamento dos grupos de cariocas e paulistas e as pressões.

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Quando cheguei ao futebol mesmo, em 1969, já entendendo escalações, um pouco de tática e a importância de cada um, Sadi já tinha iniciado a série de lesões que o impediram de ir à Copa de 70. Já se tornara um lateral mais comedido no ataque, mas mantinha a segurança defensiva. Lembro do meu desespero cada vez que Jorge Andrade era escalado em seu lugar. Lembro também dos gritos da torcida do Grêmio com a finalidade de perturbá-lo. Gritavam até o nome de sua esposa… E sei que só os grandes jogadores recebem tal tratamento. (Lembro também de vaiar Ronaldinho e outros grandes jogadores do Grêmio… Puro medo, né? Ninguém perde tempo e voz com as ruindades).

Como disse João Saldanha, nos anos 60, o Inter era um time modesto com um grande jogador. Ficou assim até 1968, quando começaram a aparecer Claudiomiro, Bráulio, Sérgio, Valdomiro, etc, e um novo período de glórias chegou.

Nosso Capitão dá um belo painel do clube e do Rio Grande daquela época sob a ditadura militar. Também traz fotos e a recordação especialíssima abaixo. Esta é a foto do álbum Gigante da Beira-Rio que dez entre dez crianças coloradas completaram, incluindo este que vos escreve. É óbvio que reconheci na hora.

Recomendo o livro, mas antes de terminar, digo que Sadi, quando entrou para a política, rejeitou a Arena. Escolheu a oposição. Isso diz muito de meu ídolo.

O lançamento de Nosso Capitão será dia 14 de Setembro, quinta-feira, no Restaurante Terra & Cor Gastronomia (Avenida Praia de Belas, 1400) com a presença de velhos ídolos colorados.

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Passado Perfeito, de Leonardo Padura

Padura Passado PerfeitoBêbado, logo após uma virada de ano bastante alcoolizada, o detetive Mario Conde é acordado por seu chefe, o Velho, com uma urgência: Rafael Morín, um executivo do Ministério da Indústria, homem que viaja pelo mundo negociando produtos da ilha, está desaparecido. Morín é um ex-colega de aula que ostenta a fama de ser rigorosamente honesto e competente. Um grande quadro, dos maiores. Conde chega a reclamar dos elogios unânimes que são feitos a ele. Tinha um passado perfeito. Para completar é casado com Tamara, espécie de símbolo sexual da escola, a mulher por quem todos eram apaixonados 17 anos antes. Já Mario, triste e desiludido, é a antítese de Rafael.

Não leio muitos livros policiais. Alguns amigos mais especializados na área aprovam com reservas a série de livros policiais de Padura que tem Conde com personagem principal. Faltariam o humor e as frases de efeito típicas do gênero, sobrariam sexo e cenas de Havana. Chego à conclusão de que, com efeito, não sou um grande admirador do gênero, pois achei que Passado Perfeito está muito acima da média que gênero. Gostei demais da cor do romance, da criação do ambiente e das pessoas que circulam tratando uns ao outro como latinos — queridos, afáveis e corruptos. Importante: Padura jamais deixa de fazer críticas à cidade e ao país. Parece ter menos medo de criticar a situação do que os escritores brasileiros, que desejam convites para feiras e eventos e evitam críticas aos políticos…

Li, em algumas outras críticas, certa má vontade com o fato de haver tanta gente esperta e viva em Havana. Também com o fato de Padura descrever a prostituição, a pobreza, a vida de pessoas que vão se ajudando, se amando e sobrevivendo bem — inclusive a do amigo Magro, que ficou paraplégico em razão de um tiro que levou na Guerra de Angola –, sem grandes ranzinzices. Mas estes são os nossos tempos, né?. Já eu, que estou aqui pela literatura mesmo

Recomendo.

Livro comprado na Bamboletras.

padura

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Roberto Bolaño: “Roubar livros não é um delito”

BolañoNeste texto, escrevi sobre a necessidade de roubar livros em determinadas situações e idades. O grande escritor chileno Roberto Bolaño — 2666, Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile, etc. — fala muito a respeito disso em seus livros. E fala sempre divertidamente, de uma forma muito viva e, bem, experiente. Sei que meus amigos livreiros detestam esse assunto, mas outros, não livreiros, insistem nele. Um deles me enviou o vídeo abaixo. Para mim, afora o tema, é um enorme prazer ver Bolaño (1953-2003) falando alegremente, ainda com boa saúde.

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Os gregos não escreviam necrológios

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objetos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.

– Herberto Hélder

Herberto Hélder (1930-2015)

Herberto Hélder (1930-2015)

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O Fim da Turnê, de James Ponsoldt

Ontem à noite, vimos O Fim da Turnê. O filme mostra a entrevista de cinco dias do jornalista David Lipsky, da Rolling Stone, com o escritor David Foster Wallace, ocorrida em 1996 durante a turnê de lançamento do livro de Wallace, Infinite Jest (Graça Infinita). A convite do autor — convite um pouco súbito e ditado pela simpatia inicial –, Lipsky hospedou-se na casa da fazenda onde Wallace vivia recluso com seus dois cachorros, foi às aulas que ele ministrava na universidade e também na última viagem de lançamento de Graça Infinita — uma palestra para leitores mais noite de autógrafos.

Lipsin e DFW em viagem

Lipsky e DFW em viagem

Como o filme sublinha, Wallace não pode ser uma figura mais norte-americana. É um daqueles rebeldes que contestam o próprio país ao mesmo tempo que amam McDonalds, TV, Coca-Cola, etc. Ao mesmo tempo, trabalha recluso numa fazenda, sem TV e com dificuldades em se relacionar com as pessoas — tem o receio de magoá-las. Demonstra especialmente dificuldades com mulheres. (O entrevistador Lipsky, também escritor, sente inveja do talento e do sucesso de DFW, enquanto este morre de ciúmes do trato social que Lipsky tem com elas).

Curiosamente, a reportagem jamais foi publicada. Lipsky só traria sua versão daqueles dias no livro que dá origem ao filme, Although of Course You End Up Becoming Yourself: A Road Trip With David Foster Wallace, lançado em 2010, dois anos após o suicídio de DFW.

Como cinema, O Fim da Turnê pode não ser espetacular, mas seus diálogos são 100% do tempo interessantes, assim como o jogo de tensões que estabelece entre entrevistador e entrevistado. Nunca li DFW. Seus temas, que descobri faz tempo lendo resenhas e reportagens, não me seduziram, mas o filme faz tudo para que eu mude de opinião.

DFW pensava que a forma com que o homem lida com a tecnologia faz com que ele se torne refém dela. A negação em ter uma TV em casa — logo depois sabemos que Wallace era capaz de passar horas e horas abobado na frente da telinha assistindo coisas 100% bobas — é parte deste “tornar-se refém”. Ele também se refere ao sexo que agora vem pelo computadores e que dominará todos os nossos prazeres, não somente os sexuais. Claro que isso é uma redução. Nem só de reflexões sobre tecnologia é feito DFW. Seu principal tema é extremamente literário, penso. A literatura, escrita ou lida, representaria uma forma de superar a solidão e os efeitos de um individualismo radical.

A atuação de Jason Segel como David Foster Wallace e a Jesse Eisenberg como o jornalista David Lipsky são grandiosas. Segel dá eco ao bom roteiro conseguindo deixar clara a fragilidade emocional do escritor e o verdadeiro tumulto de seu cérebro. Sua figura, a de um riponga sempre entre o doce e o perturbado, é magnética. O filme de James Ponsoldt nos dá um caminho para compreender o que há de genial em DFW.

Para finalizar, sabem que Wallace era devoto de Dostoiévski? Pois é. A grande coisa que torna Dostoiévski inestimável para os leitores e escritores norte-americanos é que ele parece possuir graus de paixão, convicção e engajamento com dilemas morais profundos que nós – aqui, hoje – não podemos ou não nos permitimos. (…) …exigimos de nossa arte uma distância irônica das convicções arraigadas ou das questões aflitivas, de modo que os escritores atuais devem ou fazer piadas com elas ou tentar camuflá-las sob algum truque formal.

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Cinzas, poema de Sergei Kruglov

Às vezes, eu e Elena traduzimos alguma coisa do russo para o português. Dá trabalho, porque ela me explica palavra por palavra, dá o sentido e discorda de minhas soluções… Menos mal que logo entramos em acordo. Ontem à noite (28), ela me pediu ajuda para traduzir um poema que ela ama, de autoria do padre-poeta ortodoxo Sergei Kruglov. Eu sou ateu, ela é ortodoxa. Sem problemas, ainda mais que nenhum dos lados jamais fez proselitismo e o poema é estrondosamente bom. Desta vez foi tudo muito rápido. Espero que Kruglov não saiba português.

Cinzas

— Não vi o seu Cristo!

— Eu vi meu Cristo.
Ele não foi longe,
Ele esteve, como todos nós,
Na linha de produção da morte.
Ele era apenas um trabalhador.
Ele está entre nós.
Apenas Ele consegue
Cometer sabotagem:
Colocar em cada pistola uma falha,
Em cada bomba, a possibilidade de não explodir,
Em cada cela (lembre-se do
Ano 23, o dentista Turner?
Sua angústia em termos de
Limpeza do estilo? – lembre-se:
“Ação Tiergartenstrasse 4”?) – monta uma porta,
Pequena, estridente, que vai
Para o céu.

É isso que Hannah Schwanke,
Membro do Esquadrão da Morte,
Testemunhou perante todo Nuremberg:
“Eu vim, apenas a manhã amanheceu,
Trazer a mirra. Mas os portões do forno
Estavam abertos. Não havia nem cinzas. Alguém
Removeu a pedra,
E os restos de quinhentos e cinquenta e cinco condenados
Não foram encontrados.”

Sergei Kruglov
28/08/2015

Campos de concentração

.oOo.

Para quem curte um russo, aqui está o original:

ПЕПЕЛ

-Я не видел твоего Христа!

-А я видел моего Христа.
Он недалеко ушёл,
Он трудится, как и все мы,
На конвейере смерти.
Он был просто рабочий.
Он среди нас.
Только Он умудряется
На этом конвейере
Совершить диверсию:
В каждый пистолет заложить осечку,
В каждую бомбу вложить возможность невзрыванья,
В каждую камеру (помнишь
23 год, стоматолога Тёрнера?
Его мучения в плане
Чистоты стиля? – помнишь:
«Акция Тиргартенштрассе 4» ?) – вмонтировать дверцу,
Маленькую, скрипучую, ведущую
В небо.

Вот потому Ханна Шванке,
Член айнзатцкоманды,
Свидетельствовала пред всем Нюрнбергом:
«Я пришла , только забрезжило утро,
Принести туда миро. Но врата печи
Были открыты. Не нашлось даже пепла. Кто-то
Откатил камень,
И останков пятисот пятидесяти пяти приговоренных
Найдено не было».

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