Ilíada, de Homero (trad. de Christian Werner)

Ilíada, de Homero (trad. de Christian Werner)
A capa externa da caixa homérica da Ubu Editora

Por Leonardo Antunes (*)

Há quatro anos, Christian Werner lançava sua tradução da Odisseia pela Cosac Naify. Àquela ocasião, Guilherme Gontijo Flores escreveu uma resenha para a Folha de São Paulo louvando o trabalho e celebrando o fato de que nosso sistema literário esteja produzindo novas traduções dos clássicos: um sinal de vitalidade de nosso meio, veredito com que concordo plenamente.

Agora pela Editora Ubu, Werner não só relança sua Odisseia como também publica uma tradução inédita da Ilíada. Salvo engano, creio que essa seja a tradução de Homero de mais longo período de gestação entre aquelas de que dispomos em português.

Digo isso porque, em 2002, quando iniciei meus estudos sob a tutela do professor, a tradução já estava sendo gestada. Desde então, Werner se tornou uma das figuras mais respeitadas no campo de estudos homéricos no Brasil, tendo também publicações e repercussão no exterior. Durante esses mais de 15 anos, vem se dedicando ao estudo dos poemas épicos gregos, tendo escrito inúmeros artigos e livros acadêmicos a esse respeito.

Creio que esse seja o grande diferencial de sua tradução, que Gontijo comparou, em 2014, à de Frederico Lourenço, também professor e pesquisador de literatura grega. Além de serem ambas oriundas de um cenário acadêmico, essas traduções também têm em comum o verso livre. Porém, creio que as semelhanças terminem aí.

Enquanto o texto de Lourenço parece focar-se na fluência como critério primeiro, a tradução de Werner, por sua vez, prima pelo cuidado extremo com a linguagem de Homero. Ela é concisa, como a de Odorico Mendes e de Haroldo de Campos, mas não pelo mesmo modo que a desses poetas, que buscavam impor uma dicção própria ao texto. A tradução de Werner é concisa pela emulação da parataxe grega, das frases coordenadas uma após outra, e que são vertidas com extremo rigor palavra por palavra, de modo quase interlinear.

É o tipo de trabalho que facilmente poderia se tornar infiel ao texto de partida em uma característica importantíssima: a da legibilidade – Homero, apesar de seu vocabulário vasto, não é difícil de ser lido por quem sabe grego. Mas também nisso Werner se mantém próximo ao texto do lendário aedo, evitando palavras desnecessariamente raras. Quando elas ocorrem, são para emular a raridade de um vocábulo pouco usual no texto grego ou para dar uma potencialidade de sentido precisa a um termo-chave para a interpretação da obra.

Ainda que a ordenação pouco usual da linguagem poética emulada por Werner possa causar um pouco de dificuldade de início, justamente por sua uniformidade cuidadosamente lavrada não demora para que o leitor se acostume com essa dicção que emula características fundamentais de Homero, jamais recriadas em português de forma tão criteriosa.

Também os paratextos, em que o tradutor explica minuciosamente suas escolhas e critérios, são um excelente apoio tanto para novos leitores de Homero quanto para estudantes da área. O box com os dois poemas conta ainda com o brilhantismo de uma introdução assinada por Richard P. Martin, no início da reedição da Odisseia.

Borges, que não sabia grego, dizia que conhecia bem Homero pela quantidade de traduções que tinha em sua biblioteca. Com essa nova tradução de Werner, nós também ficamos um pouco mais próximos de conhecer melhor o grande épico grego, pelas características que ficam tão bem aclaradas em sua tradução e em contraste com as demais.

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(*) Leonardo Antunes é poeta, tradutor e professor de Literatura Grega na UFRGS.

Os 20 Melhores Contos de Aldyr Garcia Schlee

Os 20 Melhores Contos de Aldyr Garcia Schlee

Um grupo de amigos e literatos escolheram os 20 melhores contos de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018) através de votação. Houve 396 indicações de contos feitas por 152 leitores e o resultado foi apresentado neste livro, publicado quando o escritor completou 80 anos. Mas a edição é única e está fora do comércio. Foi uma boa ideia e os primeiros contos do volume — os mais votados — são realmente extraordinários. Só que depois a escolha meio que se perde em contos cronísticos que podem ser da preferência dos amigos, mas que… Bem, conheço outros bem melhores dentro da produção do autor. Prova de que nem sempre dá para confiar nos amigos…

Schlee foi um enorme escritor. Ele é o cantor da região fronteiriça, o homem que imortalizou literariamente Jaguarão, seu rio e sua ponte. Seus personagens não são os potentados locais, mas a chamada gente simples do campo, as moças mal amadas, prostitutas e andarilhos. Suas histórias trazem o homem da fronteira, a cultura pampeana e seu linguajar, muitas vezes ignorando o que é Brasil e o que é Uruguai. Há muita nostalgia nas histórias também.

Temos vários contos esplêndidos na coleção. Me apaixonei pelo segundo mais votado, Maria Adélia, mas também por A Última Viagem do Vapor Rio Grande, por A Viúva de Quinteros, Um Brilho nos Olhos e Luíza vinha de noite.

Mas Schlee foi um raro e grande contista de futebol. A maioria de tais contos ficaram de fora da coleção dos 20. Paciência.

Aldyr Garcia Schlee | Fructos do Paiz / Divulgação / Jornal do Comércio

Este é o mar, de Mariana Enriquez

Este é o mar, de Mariana Enriquez

Depois do excelente livro de contos As coisas que perdemos no fogo, Mariana Enriquez retorna com o romance Este é o mar, que não chega aos pés do citado livro de contos.

Este é um romance que gravita entre o terror, o gótico e o fantástico. Helena é uma das deusas (digamos assim) que cria lendas do rock. Quem facilitou a morte de John Lennon fazendo-o caminhar sozinho na rua, criando a lenda? Ora, uma deusa como Helena. Quem fez Kurt Cobain ficar dias em casa antes de sua morte? Ora, outra deusa. E quem criou a lenda de Jim Morrison, matando-o em Paris? Outra coleguinha de Helena. E Sid Vicious? E Elvis?

Helena converte-se em secretária de James Evans, vocalista e compositor da banda Fallen, e o acompanha a toda parte. Ele é um mega sucesso mundial. E Helena vai matá-lo, claro. Após uma turnê-recorde de 350 shows, após Helena auxiliá-lo — sem ele saber, claro, porque ela tem super-poderes — a escrever lindas canções que faziam o público suspirar e as mulheres gritarem histericamente nos concertos — elas são chamadas de Enxame –, enfim, após levá-lo ao Olimpo, ela vai torná-lo uma lenda.

Enriquez adora uma historinha macabra. Também curte o fantástico. Ela penetra sem maiores problemas em um território pouco explorado pela literatura latino-americana. O livro é sombrio, mas não tão perturbador quanto deveria, apesar da enorme turnê, das overdoses, das pastas com quatro mil e quinhentas horas de arquivos cheios de imagens, shows e entrevistas, do amor doentio por uma banda e seu líder, do isolamento deste.

Há a luta para se tornar o fã mais fiel. Há meninas dispostas a morrerem com a imagem de seu ídolo e o estômago cheio de comprimidos. Há também a história do mundo dos seres que conspiraram para que Cobain, Vicious, Morrison, etc. morressem de repente, fazendo sofrer milhões da fanáticos.

A ideia é gótica. A execução é boa. O livro é médio.

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati

Este é um clássico absoluto do século XX. O milanês Dino Buzzati viu a vida como uma força silenciosa que nos arrastava para um destino trágico. Escrito em 1940, O Deserto dos Tártaros conta a história de Giovanni Drogo, que, melancólico e esperançoso, deixa sua cidade em uma manhã de setembro para chegar à fortaleza Bastiani, onde passará por quatro meses, ou por toda a vida. O forte fica na fronteira do mundo habitado de seu país, de frente para um deserto de onde sempre podem surgir inimigos. É uma antiga construção onde um misterioso torpor ataca alguns, estagnando tudo, das paredes à paisagem, do ar às pessoas.

Todos esperam pela grande batalha e pela glória militar que dará sentido a suas vidas, mas aguardando e aguardando, Drogo acabará sofrendo desta imobilidade. Esta assombração se arrasta entre os personagens. Deste modo, todos observam o deserto, mas o movimento verdadeiro só vai acontecer quando… A história tem enorme força alegórica, representa todos os homens, o significado de suas ações e sua existência.

O Deserto dos Tártaros é ambientado em um país imaginário. Como dissemos, Drogo, a partir do momento em que é tornado oficial e é designado Fortaleza Bastiani, tem certeza de uma bela carreira, no entanto, por incontáveis ​​anos nenhuma ameaça aparece e a fortaleza vai sendo esvaziada de sua importância estratégica, permanecendo apenas como uma construção empoleirada numa montanha solitária, da qual muitos até ignoram a existência.

Quando chega, Drogo tem má impressão do local. Ele confidencia o fato a seu superior, o major Matti. Este o aconselha a esperar quatro meses até o exame médico periódico, após o qual ele pode ser transferido por motivos de saúde. Sim, inventariam alguma coisa para transferi-lo. Então Drogo sabe que sairá logo de lá, só que nesse período parece sofrer o fascínio dos imensos espaços desérticos que se abrem para o norte. A vida na fortaleza Bastiani ocorre de acordo com as regras estritas que regem a disciplina militar e exerce uma espécie de feitiço sobre alguns soldados. As forças armadas apoiam-se na esperança de ver o inimigo aparecer no horizonte, só que… Enfrentando os tártaros, lutando contra eles, tornando-se heróis, seria a única maneira de devolver a eles sua importância, para finalmente haver algum sentido nos anos vividos ali.

OK, Drogo não atinge o alvo de sua existência, mas derrota seu maior inimigo: o medo de morrer. Ao final, Drogo sorri reconciliado com sua história, na qual ele finalmente encontra um significado que supera sua individualidade.

Um grande livro. Dino Buzzati (1906-1972) foi, além de escritor, jornalista do Corriere della Sera. Lá permaneceu por 44 anos. Talvez o jornal fosse seu Bastiani particular.

A Avoada e o Distraído, de Vanessa Silla e Cláudio Levitan

A Avoada e o Distraído, de Vanessa Silla e Cláudio Levitan

Este é um livro decididamente desprogramado. Escrito a quatro mãos, cada autor escrevia um capítulo e passava ao outro, que não podia mexer no que não era seu, apenas deveria dar seguimento à história. É claro que, em algo escrito desta forma, há viradas súbitas, momentos em que notamos pequenas sacanagens feitas um para o outro, mas também vemos as deixas. Ah, os autores também não deveriam conversar um com o outro a respeito do texto. E assim foi feito durante os 80 capítulos do livro.

Vanessa Silla parece gostar de tecnologia, então vamos lá. Como se fosse um caso de inteligência artificial, um autor vai aprendendo com o outro o que cada um deseja contar e as narrativas vão se aproximando até chegarem a um belíssimo final. Realmente, aqui temos um final bonito e raro. Que não será contado por mim, é claro.

Porém, durante a narrativa, acontecem coisas verdadeiramente inacreditáveis, malucas mesmo. Tudo começa na Casapueblo. O que é o local? Ora, a Casapueblo é uma espécie de casa-escultura que fica em numa bela encosta de Punta Ballena, a 15 minutos de carro de Punta Del Este, no alto de um morro. Obra do pintor e escultor uruguaio Carlos Páez Villaró, foi construída em pedra e é imensa e meio doida. Lá há um Club Hotel e é possível visitar o ateliê do artista, assim como salas que expõem e vendem obras de arte, etc. No final de tarde acontece a Cerimônia do Sol, quando são recitados poemas de Villaró. Sua arquitetura parece privilegiar o acaso ou o imprevisível, certamente.

Que coincidência, não?

Bem, como disse antes, tudo começa na Casapueblo. Depois, a coisa decola em vários sentidos. Vai para Roma, Tel-Aviv, Cisjordânia e acaba — sem spoilers de nossa parte — novamente na Casapueblo. A atividade profissional de Bartolomeu é altamente duvidosa. Já a de Sirena é quase o mesmo. E os autores dão vazão a várias e divertidas livres-associações. O estilo avoado de Silla me pareceu uma verdadeira tempestade emocional (um abraço, Bion!), já o do distraído Levitan é mais formal. Silla arrisca-se mais em seu fluxo de ideias, Levitan puxa mais o freio. Silla é a futurista, Levitan, o passadista. Mas eles se entendem e o resultado é que li o livro (Class, 169 páginas, R$ 40) em um dia, sinal de que grudou e agradou.

Eles estarão na Bamboletras na quinta-feira (01/08), às 19h,  para um bate-papo sobre a experiência de escrever a quatro mãos, o livro, etc.

Transiberiana, de Zizo Asnis

Transiberiana, de Zizo Asnis

Transiberiana é um bom livro, mas deve ser encarado como a visão parcial de um brasileiro sobre o que ele pensava haver de ainda soviético na Rússia de 2015. Sou casado com uma bielorrussa muito inteligente, ligada e nada ufanista de seu país. Ou seja, sou casado com uma soviética. Pois bem, ela conseguiu discordar — para melhor ou pior — de quase tudo o que ele escreveu sobre o país. E ela saiu de lá fugindo da pobreza para se estabelecer com seu violino primeiramente na Amazonas Filarmônica, em Manaus, em 1999. Sabe bem o que é soviético e o que não é.

Porém, para mim, foi interessante ler o livro de um viajante brasileiro sobre aquelas paragens exóticas. Deu para aprender bastante sobre as sensações e atrações da viagem pela terceira mais longa ferrovia do mundo — as duas maiores também se utilizam de parte da Transiberiana. E também sobre as relações humanas naquela região do mundo. Sim, invejei o viajante e comi o livro rapidamente, com o maior interesse.

Mas preferia que ele tivesse ficado mais nas diferenças, na paisagem, nos acontecimentos da viagem e nos exotismos do que na parte política. As observações de Asnis sobre a política das regiões visitadas são bem simplistas e, nestes tempos de trevas bolsonaristas, tecer comparações — muitas vezes igualando nazismo e comunismo — é pecado capital.

Pois se é claro que Stálin era um psicopata que tornou a URSS uma ditadura sanguinária, há diferenças muito importantes entre nazismo e stalinismo.

Parêntese: lembro da patética Ana Maria Braga entrevistando Petkovic… Ele disse que não era tão ruim viver na Iugoslávia de Tito. Ana foi pra cima, perguntando se não era horrível não ter liberdade nem direito de voto e ouviu o sérvio dizer com calma que todo mundo tinha um emprego e ninguém passava fome. Fim do parêntese. Ou não. Além disso, a Revolução Russa trouxe importantes conquistas sociais. Para evitar novas revoltas de trabalhadores, criaram-se em todo o mundo as garantias de direitos mínimos à população como educação, alimentação e moradia. Não foi bondade do capitalismo… Lembram de como era antes, no século XIX?

Esse negócio de demonizar gratuitamente a esquerda pode ser moda no Brasil, mas nenhum historiador leva isso à sério. Deste modo, o singelo papo sobre a “falta de liberdade” constante no livro é muito guerra fria e isto meio que me tirou o tesão. Imagino a dificuldade de Asnis para confessar que as belas estações do metrô de Moscou foram construídas em 1935, 38, 43, 50, 52, 53… Ou seja, são estações construídas sob Stálin para a população da capital… Sim, a realidade é muito mais complexa do que qualquer simplismo tipo guerra fria. Mas esse meu papo de isentão é chato, né?

Bem, mesmo com restrições às interpretações do autor, o livro vale a pena. Gostei especialmente das descrições dos trens de seu funcionamento, dos contatos sociais estabelecidos durante a viagem e das partes da Mongólia e do Baical.

A Trilogia de Nova York, de Paul Auster

A Trilogia de Nova York, de Paul Auster

Ao finalizar a leitura deste livro, fiquei  com um sentimento de incompletude que não chegava a ser desagradável. As histórias são mais ou menos estruturadas como as de detetive, mas não tem aquele final explicativo. Bem, como o próprio título diz e a capa mostra, A Trilogia de Nova York divide-se em três novelas, Cidade de vidro, Fantasmas e O quarto fechado. Já escrevi que o estilo é o das histórias de detetives. Há sempre algo a ser desvendado, mas talvez você é quem deva escolher o final de cada uma delas. Há mistérios, escritores metidos a detetives, escritores famosos, escritores anônimos, jogos intrincados de intrigas, desaparecimentos e mortes. Há também confusões na identidade e no caráter de cada personagem, tudo isso pelas ruas de Nova York e um pouco por Paris.

O central aqui é o estilo, a construção dos personagens e a linguagem. É a elegância e a notável construção da intriga que nos faz grudar no livro. Isso vale muito mais do que o destino dos personagens descritos nas três histórias.

Em Cidade de vidro, há insistentes telefonemas para uma certa agência de detetives Auster. O sujeito do outro lado da linha procura por Paul Auster. Só que os telefonemas chegam ao apartamento de Daniel Quinn, um escritor de livros de detetives. Quinn escreve sob o pseudônimo de William Wilson (como vai você, Edgar Allan Poe?) e seu detetive chama-se Max Work. Leu bem? Pois é, e tudo vai se misturar. Aparentemente sem ter nada melhor para fazer, Quinn acaba mentindo que é Auster e, mesmo sem ter nenhuma experiência na função, parte para uma estranha investigação. Ele vai atrás de Stillman, um scholar doido varrido que anos antes mantivera seu filho Peter em cativeiro, fechado em um apartamento como um Kaspar Hauser moderno. No meio da história, Quinn conhece o próprio Auster, que tem uma bela esposa e um filho. Quinn perdera esposa e filho em um acidente. Ou seja, tudo é espelho.

Já em Fantasmas, Blue é contratado para seguir White a pedido de Black. Claro que há um Brown, um Gray e um Green na história que é a piorzinha das três boas novelas.

Na melhor, O quarto fechado, um autor de artigos sobre literatura recebe o espólio literário completo do inédito escritor Fanshawe, um talentoso amigo de infância que inesperadamente some às vésperas do nascimento do filho. Ele casa com a mulher do escritor, assume o filho e começa a publicação das obras de Fanshawe, que acaba famoso. Mas não pensem que tudo será um mar de rosas. O final extraordinariamente belo. E aberto.

Mas vejam bem: o narrador de O quarto fechado esbarra em Paris com um tal Peter Stillman — personagem de Cidade de vidro –, Fanshawe adotou o nome de Henry Dark, outro personagem da mesma novela; o mesmo Fanshawe tem um caderno vermelho decisivo e em Cidade de vidro há também um caderno vermelho. Já em Fantasmas, todo mundo têm cadernos. Ou seja, Auster abusa dos espelhamentos desde o primeiro momento e aumenta a dose na última novela.

Paul Auster é fascinado pelo acaso e pelas ficções populares de detetives. Ele dá a impressão de construir suas histórias sem saber exatamente para onde seus personagens vão levá-lo. Usa paralelismos e simetrias absolutamente intrigantes. E o que menos importa é o desfecho, o que interessa é a forma que com que tudo parece se dissolver.

Recomendo muito.

Paul Auster. Ou Quinn. Ou seria Fanshawe?

O pranto dos livros, por Antonio Candido

O pranto dos livros, por Antonio Candido

Texto de 17 de janeiro de 1997, extraído de um dos quase cem cadernos deixados pelo autor de Formação da Literatura Brasileira.

“Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse. (…) O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre.” | Foto: Wilton Junior / AE

Morto, fechado no caixão, espero a vez de ser cremado. O mundo não existe mais para mim, mas continua sem mim. O tempo não se altera por causa da minha morte, as pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos. Quando um encontra o outro começa o ritual do “veja só”, “que pena”, “ele estava bem quando o vi a última vez”, “também, já tinha idade”, “enfim, é o destino de todos”.

Os jornais darão notícias misturadas de acertos e erros e haverá informações desencontradas, inclusive dúvida quanto à naturalidade. Era mineiro? Era carioca? Era paulista? É verdade que estudou na França? Ou foi na Suíça? O pai era rico? Publicou muitos livros de pequena tiragem, na maioria esgotados. Teve importância como crítico durante alguns anos, mas estava superado havia tempo. Inclusive por seus ex-assistentes Fulano e Beltrano. Os alunos gostavam das aulas dele, porque tinha dotes de comunicador. Mas o que tinha de mais saliente era certa amenidade de convívio, pois sabia ser agradável com pobres e ricos. Isso, quando se conseguia encontrá-lo, porque era esquivo e preferia ficar só, principalmente mais para o fim da vida. Uns dizem que era estrangeirado, outros, que pecava por nacionalismo. Era de esquerda, mas meio incoerente e tolerante demais. Militava pouco e no PT funcionou sobretudo como medalhão. Aliás, há quem diga que teve jeito de medalhão desde moço. Muito convencional. Mas é verdade que fugia da publicidade, recusava prêmios e medalhas quando podia e não gostava de homenagens. Contraditório, como toda a gente. O fato é que havia em torno dele muita onda, e chegou-se a inventar que era uma “unanimidade nacional”. No entanto, foi sempre atacado, em artigos, livros, declarações, e contra ele havia setores de má vontade, como é normal. Enfim, morreu. Já não era sem tempo e que a terra lhe seja leve.

Mas o que foi leve não foi a terra pesada, estímulo dos devaneios da vontade. Foi o fogo sutil, levíssimo, que consumiu a minha roupa, a minha calva, os meus sapatos, as minhas carnes insossas e os meus ossos frágeis. Graças a ele fui virando rapidamente cinza, posta a seguir num saquinho de plástico com o meu nome, a data da morte e a da cremação. Enquanto isso, havia outros seres que pensavam em mim com uma tristeza de amigos mudos: os livros.

De vários cantos, de vários modos, a minha carcaça que evitou a decomposição por meio da combustão suscita o pesar dos milhares de livros que foram meus e de meus pais, que conheciam o tato da minha mão, o cuidado do meu zelo, a atenção com que os limpava, mudava de lugar, encadernava, folheava, doava em blocos para serviço de outros. Livros que ficavam em nossa casa ou se espalhavam pelo mundo, na Faculdade de Poços, na de Araraquara, na Católica do Rio, na Unicamp, na USP, na Casa de Cultura de Santa Rita, na ex-Economia e Humanismo, além dos que foram furtados e sabe Deus onde estão – todos sentindo pena do amigo se desfazer em mero pó e lembrando os tempos em que viviam com ele, anos e anos a fio. Então, dos recantos onde estão, em estantes de ferro e de madeira, fechadas ou abertas, bem ou maltratados, usados ou esquecidos, eles hão de chorar lágrimas invisíveis de papel e de tinta, de cartonagem e percalina, de couro de porco e pelica, de couro da Rússia e marroquim, de pergaminho e pano. Será o pranto mudo dos livros pelo amigo pulverizado que os amou desde menino, que passou a vida tratando deles, escolhendo para eles o lugar certo, removendo-os, defendendo-os dos bichos e até os lendo. Não todos, porque uma vida não bastaria para isso e muitos estavam além da sua compreensão; mas milhares deles. Na verdade, ele os queria mais do que como simples leitura. Queria-os como esperança de saber, como companhia, como vista alegre, como pano de fundo da vida precária e sempre aquém. Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse: nas livrarias pequenas e grandes de Araraquara ou Catanduva, de Blumenau ou João Pessoa, de Nova York ou New Haven; nos sebos de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre; nos buquinistas de Paris e nos alfarrabistas de Lisboa, por toda a parte onde houvesse papel impresso à venda. O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre.

Romeu e Julieta na aldeia, de Gottfried Keller

Romeu e Julieta na aldeia, de Gottfried Keller

O título do livro anuncia e o livro narra uma tragédia, claro. Porém, a história não é baseada em Shakespeare, mas numa notícia de jornal. Sete anos após o suicídio de dois jovens no interior da Alemanha, Keller criou esta história que foi incluída originalmente no ciclo de contos A gente de Seldvila, publicado pela primeira vez em 1856 e tido por Nietzsche como um “tesouro da prosa alemã”. O pouco falado suíço Gottfried Keller (1819-1890) foi um mestre.

Sem spoilers, tá? No centro dos acontecimentos de Romeu e Julieta na aldeia (Editora 34, 156 páginas) estão as duas famílias camponesas Manz e Marti. Ambos os agricultores têm família e cada um tem suas terras. Cada um também têm um filho — Marti tem a menina Vrenchen e Manz, Sali, um garoto. Vrenchen e Sali passam muito tempo brincando nos campos de seus pais, enquanto estes fazem seus trabalhos de lavrar, plantar, colher e limpar seus campos. Os campos aráveis​ das duas famílias ficam próximos um do outro, separados apenas pelo campo do meio, cujo dono morreu. Apesar de um suposto neto do dono estar na cidade, obstáculos burocráticos — que inclui racismo, aparentemente — impedem que o chamado violinista negro o use.

Não há cercas entre os campos, apenas algumas pedras marcam a linha limite. Isso dá aos dois agricultores a oportunidade de invadir um pedaço do campo abandonado. Depois, quando o campo do meio é leiloado, é Manz quem fica com ele. Mas o vizinho Marti se recusa a ceder sua parte ocupada. Há uma disputa acirrada entre os agricultores. Do dia do leilão em diante, Manz e Marti são devorados por ódio, inveja e ressentimento, tornando a vida cada vez mais difícil para eles e suas famílias. As crianças também sofrem com a briga e têm que ficar por anos apartadas, cada uma no seu canto. O ódio é imenso e irracional. 

Como esse conflito absorve cada vez mais suas vidas cotidianas, os agricultores negligenciam seus campos e acabam arruinando suas famílias. Como novo meio de subsistência, Marti passa a pescar — coisa de pobre na região –, enquanto o fazendeiro Manz abre na aldeia vizinha (Seldvila), um bar de bêbados. Mas como o bar é um fracasso, Manz também se volta para a pesca a fim de poder dar de comer a sua família.

Ou seja, os camponeses perderam quase tudo, de seu trabalho à reputação, de suas terras à humanidade, são desprezados pela família e por outros camponeses, mas não perderam o ódio mútuo. Durante uma pescaria em que são acompanhados pelo filhos já jovens, os dois se encontram por acaso, ofendem-se e a coisa acaba em agressão física. Os filhos os separam, mas se observam… Não se viam há muito tempo.

E Sali procura Vrechen. E o resto deixemos de lado.

Keller é um mestre, conta sua sombria história considerando não apenas o amor dos jovens como a condição de penúria financeira. Esta, a situação social de ambos, é decisiva no desenrolar de Romeu e Julieta na aldeia.

Não avançarei mais. Keller é um escritor conciso e de grande poder de evocação. Com duas ou três pinceladas já temos um cenário completo. Faz grande literatura.

Recomendo muito.

Gottfried Keller (1819-1890)

Ingresia, de Franciel Cruz

Ingresia, de Franciel Cruz

A verdade, essa menina traquina que não salva nem liberta, é uma só: demorei a ler o livro de Franciel em razão das exigências descabidas do menino James Joyce e de seu Bloomsday. Estudar os 600 DEMÔNHOS que habitavam o SÓ DESGRÓRIAS do Leopold fizeram o tempo se dilatar. Quanto eu não sei porque não uso relógio.

Mas derivo ao tentar imitar, sem talento, o estilo de Franciel. Vamos ao livro. O seguinte é este: Ingresia (R$ 30, só a capa já vale mais, 258 páginas) são crônicas e mais crônicas uma melhor que a outra, todas muito bem escritas, todas em rigorosa forma franceliana — uma linguagem barroca e desbocada, irreverente e ateia, altamente pessoal, cheia de surpresas e beleza. Sim, beleza, esta fugidia menina. Tanto que às vezes temos que lê-las duas vezes por pensar que perdemos algo da forma no afã (recebam meu afã no peito) de não perdemos a linha do pensamento original e bêbado do autor que escrevia bêbado, mas editava sóbrio (beijinho no ombro, Hemingway).

Os temas são a cultura e o comportamento baianos — a Bahia, essa terra lambuzada de dendê e exclusão –, a política, o futebol e a imprensa de lá com suas figuras tão repulsivas e adoráveis — mais aquelas do que estas — quanto as nossas. Também adorei as crônicas que falam de música. Há igualmente os causos da infância e os problemas de Soterópolis (Salvador), que em tudo diferem dos nossos, não fosse a onipresente indiferença do poder público à população e o respeito aos grandes empresários. Ou seja, em nada diferem na origem.

Um excelente livro que RECOMENDO.

E mais não digo porque hoje é quarta-cheira véspera de feriado.

PUTAQUEPARIU A RESENHA!

Franciel Cruz na Feira Literária de Mucugê em agosto de 2018 | Foto: Lari Carinhanha / Fligê

Bloomsday 2019 no Ling

Bloomsday 2019 no Ling

Boa tarde a todas e a todos!

Todo ano é a mesma coisa. Ainda bem.

Há controvérsias sobre o ano em que o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns indicam 1925 (três anos após o lançamento do livro); outros afirmam que foi na década de 1940, logo após a morte de Joyce. A hipótese mais aceita indica que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulysses, o célebre 16 de junho de 1904.

O Instituto Ling, claro, não poderia ficar de fora.

Neste ano, temos aqui presentes Donaldo Schüler premiado escritor e também tradutor de livros como Finnegans Wake, de James Joyce, e da Odisseia, de Homero. Donlado é doutor em Letras e Livre-Docente pela UFRGS e pela PUCRS. Patrick Holloway é escritor e tradutor, possuindo doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS e mestrado pela Universidade de Glasgow. Seus contos e poemas foram publicados no Brasil, EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá e Irlanda.

Temos também a presença do ator Charles Dall’Agnol no papel de Leopold Bloom e da Banda Irish Fellas, quarteto de música tradicional irlandesa, formado pelos músicos Caetano Maschio Santos (violino, banjo, flautas e voz), Alexandre Alles (teclado), Renato Muller (gaita-ponto e voz) e Kelvin Venturin (bódhran e voz).

Contrastando com tudo isso, no papel de patinho feio, há eu, Milton Ribeiro, jornalista, critico literário e proprietário da Livraria Bamboletras.

Mas iniciaremos passando a palavra ao representante do Consulado da Irlanda em Porto Alegre. Por favor, Mr. Jill Henneberry.

.oOo.

Bem, como jornalista, tenho o vício de contextualizar tudo.

O que é o Bloomsday?

Bloomsday é o dia instituído na Irlanda para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista de Ulysses, de James Joyce. Em todo o mundo, é o único dia dedicado a um personagem de um livro.

O Bloomsday é comemorado no mundo inteiro, em várias línguas. É comum que pessoas — de atores profissionais a amadores — vistam-se a rigor e refaçam cenas vividas pelos personagens de Ulysses por Dublin.

Como ele foi traduzido no Brasil?

No Brasil, temos três traduções do livro. A de Antônio Houaiss, de 1966, a de Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, e a de Caetano Galindo, de 2012. De forma complementar, o mesmo Galindo escreveu Sim, eu quero sim — Uma Visita Guiada ao Ulysses de Joyce.

O guia de Galindo se justifica. Ulysses é um livro difícil, que assusta e afasta muita gente.

Mas o que há nestas mais de mil páginas?

Como disse, tudo se passa num só dia, das 8h da manhã às 2h da madrugada do dia 17.

São 18 capítulos, cada um com aproximadamente uma hora de ação.

Cada um escrito em uma técnica narrativa diferente.

Cada um deles sendo uma paródia de um episódio da Odisseia de Homero.

(Há correspondência entre personagens da Odisseia e de Ulysses — Leopold Bloom seria Ulysses; Molly Bloom, Penélope; Stephen Dedalus, Telêmaco).

Cada capítulo faz referência a uma ciência ou ramo do conhecimento.

Em cada um, uma parte do corpo humano é alçada a símbolo.

Em todos os capítulos há uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas, como escreveu o professor de literatura Idelber Avelar.

Nestas 18 horas, Leopold Bloom tem aventuras mais ou menos análogas às do herói Ulysses: ele encontra sereias, ciclopes, feiticeiras, enfrenta a ira dos deuses e consegue retornar ileso para casa. Mas em Ulysses as figuras mitológicas são substituídas por pessoas de Dublin. As batalhas épicas acabam acontecendo dentro de fatos e diálogos de um dia comum em Dublin.

A primeira versão integral foi editada na França, em 1922, depois que editoras americanas e britânicas evitaram a publicação por considerar o original pornográfico. A Justiça dos EUA só permitiu a publicação integral em 1933. A Inglaterra, só em 1936. A razão é que os personagens falam como pessoas comuns, há fluxo de consciência, então a vida interior deles está exposta, com franqueza e muitos palavrões.

E quem é Bloom?

Quando conhecemos Leopold Bloom, ele está fazendo café da manhã para sua esposa e falando carinhosamente com um gato. Se você passasse por ele na rua, talvez nem o notasse. Sua vida exterior é circunscrita pelas ruas de Dublin e pelas exigências de uma carreira modesta. Apesar da falta de perspectivas, ele parece estar à vontade com suas próprias sombras e contradições. Ele aceita o mundo e sente prazer nas menores coisas. Conheceu a tragédia — o suicídio de seu pai, a morte de seu filho recém-nascido — e conheceu a alegria, como marido de Molly e pai de Milly. Ele ama animais, abomina a violência e aceita o fato de que sua esposa está transando com outro. Esta última parte lhe causa dor, mas ele aprendeu há muito tempo que o mundo é maior do que sua dor e a posse não faz parte de sua compreensão do amor.

Bloom também é filho de um imigrante judeu e, portanto, Joyce fugiu da escolha óbvia de criar um herói típico. Bloom é Dublin, seus amigos gostam muito dele, mas ele é um mistério. Em suas mentes, ele é passivo e “feminino”. E todos sabem que sua esposa está tendo um caso. O que está errado com ele? Que tipo de homem é esse?

Ulysses é um livro quase sem enredo e Joyce ufanava-se disso. Naquele dia, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia pelas margens do Liffey; Leopold Bloom, vendedor, não muito atormentado pelas repetidas traições de Molly, sua mulher, toma café da manhã, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto seu amigo Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a uma carta, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando Gerty MacDowell, encontra-se com Dedalus, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa. Ambos urinam no jardim. Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia.

Ou erotismo. Pois talvez a pornografia seja apenas o erotismo dos outros, não? Enfim.

Por que o livro foi proibido e censurado à princípio?

Salman Rushdie escreveu em seu ensaio The Short Story: “É muito comum que o que é pornográfico para uma geração, seja clássico para a seguinte”. A frase parece perfeita aqui. Enquanto a censura do início do século XX considerava o texto imoral e inadequado, ele agora oferece para nós um quadro riquíssimo para a exploração e análise da sexualidade de personagens extremamente bem construídos.

Há coisas bem estranhas no Ulysses, principalmente para os contemporâneos de 1922.

Por exemplo, a Penélope de Joyce é Molly Bloom. Se a personagem de Homero esperava o retorno de seu Ulysses fielmente, embora assediada por pretendentes – sempre tão gentis, como diria Chico Buarque –, Molly não aguarda. Bloom, apesar de saber das traições de Molly com Blazes Boylan, não pretende lavar sua honra com sangue.

Assassinato nunca, visto que dois erros não se tornam um acerto.”

A propósito, o adultério de Molly nada tem a ver com o de Capitu. Não pairam dúvidas a respeito. Bloom sabe e a própria Molly, em seu longo monólogo final de 8o páginas sem pontuação, rememora com algum detalhe os acontecimentos eróticos da tarde.

Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):

“Cada um que entra na cama imagina ser o primeiro a entrar nela, enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo e o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só, enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só.”

Bloom não se comporta tipicamente como um homem da virada do século como o  casal Molly e Leopold, está inteiramente fora dos estereótipos da virada do século XIX para o XX, que definem a masculinidade como agressiva e dominadora e a feminilidade como passiva e reservada. Bloom é muitas vezes chamado de homem feminil. Molly é decidida e toma todas as iniciativas, inclusive foi ela quem o beijou pela primeira vez.

Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que esta possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação.

Enquanto Ulysses lutava para voltar para sua Penélope, Bloom enrola e faz tempo na rua para não cruzar com Boylan em sua casa.

Como disse, Bloom prepara o café para Molly, arruma a cama, tem sentimentos de empatia para com a mulher grávida, preocupa-se com situação da filha, morre de saudades do filho morto, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz.

Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, comprovação — para seus amigos — que ele não é bem um homem. Pior: s amigos dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha menstruada”.

Para finalizar, digo-lhes que Ulysses é puro colorido, vivacidade e energia verbal. As pessoas não são sutis ou elegantes. Não há nada mais lindo do que Bloom se masturbando na frente de Gerty MacDowell e Molly explodindo em sua insônia, nada mais frágil do que o não-machista Bloom comprando fraldas. Nada lembro de nada literariamente mais brilhante do que Joyce fazendo pouco dos padres. Não há pose, pompa, grandiosidade, apenas um enorme amor pelo humano. Na minha opinião, é uma alegria que tal livro seja o único que mereceu um feriado até hoje. Isto fala bem de nós.

.oOo.

Este foi o esboço do meu roteiro. Na verdade, eu entremeei os parágrafos com várias perguntas ao Donaldo e ao Patrick, assim como com chamadas à excelente banda Irish Fellas. Tivemos belos momentos durante o Bloomsday do Instituto Ling. Concordamos, discordamos, ouvimos música irlandesa e tivemos a presença ‘in loco’ do próprio Leopold Bloom.

Com a minha autoestima tão retardada quanto meu cérebro, só hoje, pensando retrospectivamente, concluí que fizemos um belo trabalho juntos. Comandados pela Maira Ritter, o grupo que falou, cantou e atuou foi formado por mestre Donaldo Schüler, Charles Dall’Agnol, Patch Holloway, Irish Fellas, pela representante do Consulado da Irlanda Jill Henneberry e por mim. Ah, jamais esquecer das participações da Aurora, filha do Patrick (Patch Holloway), que aprendeu a caminhar faz uma semana e que parece estar gostando muito disso.

Com Gustavo Ventura Gomes, a Livraria Bamboletras também se fez presente com edições de ‘Ulysses’ e de ‘Sim, eu digo sim’ de Caetano W. Galindo.

E viva Joyce! Viva Ulysses! Vivam Molly e Leopold Bloom!

Fotos: Elena Romanov.

Mariana Enríquez: “Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King”

Mariana Enríquez: “Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King”

A autora de As coisas que perdemos no fogo e Este es el mar e participará do Segundo Encontro de Literatura Fantástica, em Santiago e Punta Arenas.

Por Javier GarcíaNo Culto — Suplemento Cultural do jornal La Tercera (Santiago, Chile)

Foto: Divulgação

Em meados de maio, Mariana Enríquez (46) viajou para um festival de escritores em Praga, República Tcheca. A autora argentina aproveitou para frequentar os lugares onde predominam cruzes e flores. “Fui ao antigo cemitério judeu e ao novo cemitério judeu onde fica Kafka”, conta ao telefone de Buenos Aires.

Renomada romancista, elogiado especialmente por suas histórias de horror, entre suas últimas publicações está Alguien camina sobre tu tumba, publicado pelo selo Montacerdos no Chile, em 2018. O volume é um conjunto de crônicas de cemitérios, localizados na Argentina, Peru, Cuba, França, Itália e Estados Unidos.

No final do volume há um epílogo que nomeia os cemitérios “que eu quero ver antes de morrer”. Um deles é chamado Kutná Hora. “É muito interessante, é cerca de 30 quilômetros de Praga, onde o Ossuário de Sedlec é, é uma igreja onde toda a sua decoração é feita de ossos. Mas desta vez eu não pude ir por tempo. Haverá uma nova oportunidade”, diz Enríquez, que está visitando o Chile esta semana.

Autora de títulos como As coisas que perdemos no fogo (2016) participará do II Encontro de Literatura Fantástica. Organizado pela Faculdade de Letras da Universidade Católica, terá palestras e leituras entre amanhã e sábado 8 de junho, em Santiago e Punta Arenas.

Como surgiu o interesse pelos cemitérios?

Eu sempre gostei deles. Em geral, tenho uma tendência estética para coisas um pouco macabras, literatura e filmes de terror. Mas decidi escrever com meus diários e dados sobre cemitérios, acho que tem a ver com a história de um amigo. Sua mãe estava desaparecida pela ditadura argentina e ele recuperou seus ossos e foi capaz de enterrar sua mãe. Então comecei a perceber que o meu fascínio por tumbas e cemitérios tem muito a ver com a minha história e a história da Argentina.

Você participou do livro de ensaios The King, bienvebido al universo de Stephen King (2019) …

O editor me perguntou. King é um autor extremamente popular e ainda não tem o reconhecimento literário que deveria ter. Ele é um dos melhores escritores no momento. Eu escolhi escrever sobre mulheres no trabalho de King. Nesse sentido, ele é muito corajoso, quebra essa regra desajeitada que um homem não pode escrever sobre as mulheres. E ele faz isso muito bem, como Annie Wilkies, a protagonista de Misery.

Para a academia, ele não é um autor altamente valorizado…

Eu acho que nunca receberia o Prêmio Nobel, mas é injusto. Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King. A qualidade literária é algo difícil de determinar. King escreve em vários gêneros, terror, polícia, fantasia… No twitter, ele está sempre recomendando livros. Ele é um homem que vive da literatura e que ensinou a ler uma geração. Lembro-me de quando a garota lia suas epígrafes, onde nomeava outros escritores. Eu construí um guia de leitura a partir dele.

A literatura faz dieta e perde páginas

A literatura faz dieta e perde páginas

Relatos revelam um corte significativo na extensão dos romances durante a última década, em razão de novos hábitos de leitura

Traduzido rapidamente por mim — Fonte: El País

Estande na Feira do Livro de Madri | Foto: Jaime Villanueva

Uma mesa cheia de livros à espera de atenção. A pilha tornou-se uma coluna que continua crescendo em número e em angústia. Talvez seja a sala de um leitor, mas é também a imagem que ilustra a capa da nova edição da revista The New Yorker. O sufoco do casal, em sua cama, parece ter uma explicação na superprodução de novidades, na falta de tempo para lê-las e no surgimento de novos inimigos que competem para manter seu limitado tempo livre.

Número médio de páginas dos livros lançados nesta década

Na Espanha, o ISBN (a agência que cataloga os livros geridos pela Federação de Editores do país) descobriu uma tendência que poderia estar ligada a um movimento contra o hábito da leitura. Os editores produzem livros cada vez mais curtos. Na última década, o número de títulos lançados cresceu, mas vieram com menos páginas: a média foi, em 2017, 243 páginas na categoria ficção e poesia. Em 2009, a extensão média era 265 páginas. 20 páginas foram cortadas, de acordo com as estatísticas do cadastro que audita o setor editorial. O segmento da ficção já tem 50,8% de livros de menos de 200 páginas. Uma década atrás, eles eram 46,3%. Nós examinamos detalhes e vimos que em 2017 foram publicados 6.573 títulos com uma extensão entre 101 e 200 páginas; 3.740, entre 201 a 300 páginas; 3.816, de 301 a 500; e 1.078 de 501 a 1.000 páginas. Em 2011 houve uma recuperação, devido à superprodução de notícias (ver gráfico).

Quase 70% dos títulos de literatura são publicados por pequenos e médios editores. Luis Solano é o editor do Libros del Asteroide e reconhece ter detectado a tendência de livros mais curtos. “Eu acho que as razões são claras. Por um lado, o tempo disponível dos leitores é mais escasso do que dez anos atrás. É evidente que o entretenimento digital (da TV às redes sociais, WhatsApp, YouTube, Netflix ou outras ferramentas de comunicação) reduz o tempo de leitura, portanto, os livros que propomos devem ser melhores ou mais curtos”.

O tamanho importa

O mundo e a leitura offline adaptam suas formas à constante mobilidade das pessoas, à fragmentação dos tempos cotidianos e à multiplicação de ofertas. Por isso, ao escolher livros, reconhece Solano, os editores levam em conta que a proliferação do digital diminuiu a atenção dos leitores. “Eu não pretendo descartar os livros grandes, mas o tamanho é um fator que tem mais peso do que há alguns anos”, diz ele. Ele acredita que os autores sabem disso e se esforçam em livros que captem imediatamente a atenção do leitor, o que os compensará pelo tempo de leitura.

Raquel Vicedo, editora da Pepitas de Calabaza e sócia da livraria Cervantes y Compañía (Madri), reconhece que tem dificuldade para se dedicar a livros de mais de 250 páginas. “Se não é uma obra de arte, não vale a pena. Há muitos livros bons para serem lidos”, explica ela. Ela descreve um panorama avassalador, um mercado saturado de livreiros e leitores, incapaz de assumir o lançamento incessante de novidades. “Nestes tempos, os escritores devem nos encorajar a projetos mais curtos. É necessária muita vontade para romances longos. Mais vontade do que dinheiro”, diz a autora Lara Moreno, que acaba de publicar o livro de poemas Eu tinha uma gaiola (La Bella Varsovia). Ela, que trabalhou na editora Caballo de Troya por um ano, aponta outro fato importante: o tempo de leitura dos editores. Ela diz que os editores não gostam de analisar livros de mais de 500 páginas, só para saberem se vale a pena.

A escritora Elvira Navarro — também ex-editora do Caballo de Troya — concorda com Lara Moreno. “Talvez o fator mais importante seja a mudança de percepção da temporalidade que vivemos. Afeta a leitura e a escrita. Os tempos aceleraram e, embora no romance de entretenimento o número de páginas tenha crescido, devemos ter em mente que seus ritmos internos são rápidos. Eles são lidos em pequenos trechos”, diz Navarro. A redução de páginas também acontece em livros de ciências sociais e humanas, talvez, como diz o autor de A Ilha dos Coelhos (Random House), porque nos acostumamos a “um conhecimento parcial e superficial”. Remedios Zafra concorda com o livro Como lemos na sociedade digital?, da Fundação Telefónica, que identifica a precariedade da leitura. Na rede, flui entre a abundância, onde a leitura acontece mais pela impressão do que pela concentração.

O editor do Impedimenta, Enrique Redel, observa que “os leitores estão cada vez mais relutantes a livros volumosos. A tendência está aí. Acho que é parte de uma mudança estrutural gradual no consumo cultural, nada de novo, que afete o tempo dedicado a esse consumo”. Como Solano, Redel aponta que o tempo é limitado e que a competição é “poderosa”, entre séries, redes sociais, conteúdo online, música ou jogos. “O livro define os tempos, exige atenção total e maior envolvimento. Isso não está na moda, então o conteúdo é diluído para ser mais digerível”, acrescenta Redel, que não acredita que um leitor contumaz sofra deste problema, mas acha que o restante hesita entre um tipo de conteúdo e outro.

17 minutos de leitura por dia

O único estudo que aponta o tempo que os espanhóis dedicam à leitura foi realizado pela Comunidade de Madrid e acaba de ser publicado. Este garante que o povo de Madrid lê 10 horas por semana. Cada vez mais se lê fora de casa, como no metrô, onde 33%das pessoas leem em viagens de cerca de 40 minutos. Um recente estudo do Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) perguntou aos entrevistados o quanto liam. A resposta foi de dois a quatro livros por ano. Outros estudos, como o da Federação de Editores da Espanha, afirmam que são uma dúzia. Os leitores diários espanhóis são apenas 32%. 40% dos espanhóis dizem que não leem nada é porque não têm tempo. Os relatórios provenientes dos EUA são mais desanimadores, porque falam de uma queda de 19% no tempo de leitura por dia. Em 15 anos, ele baixou para 17 minutos.

Atrás do balcão da Bamboletras (XIII) — A visita de Dostoiévski (II)

Atrás do balcão da Bamboletras (XIII) — A visita de Dostoiévski (II)

Mas tenho mais fatos a narrar sobre a visita de Dostoiévski à Livraria Bamboletras, durante o lançamento do Ingresia de Franciel Cruz.

Apresentei-lhe ao célebre escritor um livro de seu conterrâneo e contemporâneo Tolstói, Anna Kariênina. Ele olhou, risonho porém visivelmente contrafeito, e disse:

— Ah, um Tolstói qualquer.

Notei que ele tinha achado minha atitude ofensiva e tentei consertar a situação dizendo que, imagina, atropelada por um trem, muito melhor uma machadinha ou um bom parricídio — já pensou que maravilha se acontecesse em Brasília, Dostô? –, mas como ele não reagia, reclamei das considerações agrícolas de Liêvin, louvei o príncipe Míchkin e o niilista Kirílov e fui saindo de fininho antes que ele jogasse em mim aquele copo de cerveja.

(Com Bruno Pommer e Milton Ribeiro).
(Fotos: Rômulo Arbo).

Atrás do balcão da Bamboletras (XII) — A visita de Dostoiévski (I)

Atrás do balcão da Bamboletras (XII) — A visita de Dostoiévski (I)

Na última sexta-feira, durante o evento de lançamento do Ingresia, de Franciel Cruz, recebemos Dostoiévski na Livraria Bamboletras.

De posse da bela tradução direto do russo do Crime e Castigo da todavia — feita pelo grande Rubens Figueiredo –, eu lhe explicava como eram as traduções antigas de seus livros. Elas nos chegavam todas de segunda mão, a partir de traduções francesas. Parece que não havia ninguém que conhecesse russo no Brasil. Enquanto isso, ele, um eslavófilo furioso, 100% anti-francês, me olhava com aquela cara de quem tá louco pra pegar uma machadinha.

(Com Bruno Pommer e Milton Ribeiro).
(Fotos: Rômulo Arbo).


Alguns pitacos sobre o Prêmio Camões concedido a Chico Buarque

Alguns pitacos sobre o Prêmio Camões concedido a Chico Buarque

1. Acho difícil comparar a situação atual com aquela do Nobel dado a Bob Dylan. O Nobel não ficou maior entregando seu prêmio de Literatura para Dylan, diria até que ficou menor. Já o Camões — que muitos desconheciam — ficou maior ao chamar Chico Buarque.

2. Sabemos que este prêmios muitas vezes são geopolíticos. Vários Nobéis foram dados a escritores menores porque estes faziam oposição a governos absurdos. Assim, a distinção para Chico Buarque chega para chamar a atenção das pessoas para o país, além de incomodar os fascistas ou ignorantes que elegeram um iletrado que, logo após a chegada ao poder, extinguiu o Ministério da Cultura como se fosse um penduricalho inútil.

3. Caberia também acrescentar que Chico sempre teve posições políticas claras, nada lisas ou duvidosas.

4. Chico é um representante importante da cultura nacional que está sendo atacada. Passou a vida entre Drummond, Bandeira, Vinícius, João Cabral, Tom Jobim e um monte de gente que o influenciou. Parece que João Cabral recebeu o Camões, mas mesmo assim vale a observação. Temos alguém mais importante?

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

5. Li quase todos os livros de Chico. ‘Budapeste’ é excelente e ‘Leite Derramado’ é muito bom. E ele não faz o óbvio. Seus livros não são “para vender” por carregarem um autor conhecido. São originais e são literatura.

6. Como este governo precisa ver seus inimigos no chão, a ridícula ministra Damares, ao exibir para deputados, em tom crítico, num telão, algumas imagens de Lula, Marighella, etc., mostrou uma foto de Chico e disse, quando apareceu uma foto de Chico: “Eu acho que esse é um cantor, né?”. Ou seja, até a débil sentiu o golpe.

7. Interessa mesmo saber se o prêmio foi para o músico, para o autor ou para a figura pública? Talvez seja para o homem que transita como poucos entre o erudito e o popular, não?

8. Para finalizar, voltando a Dylan e às provocações: “E quem há de negar que Chico lhe é superior?”.

Sobre “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis

Sobre “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis

O conto completo está aqui, dentro do site Domínio Público.

As Academias de Sião, de Machado de Assis, dá pano para muitas mangas, apesar de não ser um de seus maiores contos. O pano para as mangas é tecido ao longo de um plot mais do que original para a época: as academias de Sião tentavam resolver um peculiar problema: “Por que é que há homens femininos e mulheres masculinas? O que as induziu a discutir isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminilidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros siameses gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram danças, comédias e cantigas, à maneira que o rei não cuidava de outra coisa”.

Uma das academias venceu, a que declara que a alma é sexualizada. E ela extermina (literalmente) as outras. Kinnara, a mais bela concubina do Sião era uma mulher máscula: “Um búfalo com penas de cisne”. Kinnara convence o rei para que suas almas troquem de corpo por seis meses. Cumprido o prazo, cada uma seria restituída ao corpo original. A fábula de Machado pega emprestado temas orientais, sobretudo hindus. Basta lembrar o parentesco do conto com a “história hindu” de Thomas Mann As Cabeças Trocadas, onde há um personagem belo, mas com um corpo magérrimo, e outro feio, mas de belo corpo. Em Mann, há a troca de cabeças; em Machado, a de almas.

Após a troca, Kalaphangko, ou o corpo do rei agora com alma de Kinnara cuidou da fazenda pública, da justiça, da religião e matou uns tantos que não pagavam impostos. “Sião finalmente tinha um rei”, afirma Machado. Já a alma do rei “espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara”. Sim, Machado de Assis diverte-se sempre conosco. E nós com ele.

O conto parece indicar que a alma masculina seria mais ativa e racional, enquanto a feminina seria passiva e emocional. Mas Machado de Assis não está aqui criando teses e sim controvérsias e boas piadas. Um pouco mais sobre Kinnara. Quando há a troca de almas, ela passa a um plano secundário e Kalaphangko planeja matá-la para não desfazer a troca, porém ela revela estar grávida e o rei sente-se incapaz de matar seu próprio filho, símbolo de sua virilidade e da continuidade da linhagem real. Ou seja, primeiro Kinnara consegue fazer a troca de corpos através de um beijo e depois logra não ser morta pela maternidade, um predicado físico feminino. Neste sentido, a simples Kinnara é mais uma mulher decisiva num mundo machadiano cheio delas. As mulheres de Machado seduzem, escolhem, querem e conseguem, expelindo sensualidade tanto em lentas e inexoráveis secreções ou como em espasmos (ou jatos…).

Tenho vontade, mas reluto em fazer uma interpretação do século XXI sobre um conto que não é mais do que um scherzo de Machado. Mas há outros aspectos intrigantes neste conto cheio de curiosidades que independem do instrumental psi de nossos dias. (1) Machado não cai em momento algum nas piadas fáceis e depreciativas de uma sociedade machista — e estamos em 1884. (2) Diferentemente de Tolstói, por exemplo — um escritor absolutamente contemporâneo de Machado — , o brasileiro não está nem um pouco preocupado em explicar o mundo ou em trazer a Verdade e a Solução a seus leitores. Ele apenas narra brilhantemente os fatos e nos deixa aqui pensando… (3) Os acadêmicos consideram uns aos outros perfeitos estúpidos, mas permanecem academia, inclusive protagonizando o festivo momento final de As Academias de Sião, cantando todos juntos o hino “Glória a nós, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”.

A bela Kinnara — àquele momento já destrocada — não entendia como os membros da academia podiam ser a claridade do mundo quando reunidos e se detestarem separadamente… Mas sabemos que é assim. É notável que o fundador da Academia Brasileira de Letras nos passe uma noção tão bufa e verdadeira do comum das academias — locais que  podem ser melhor descritos como cestas de ofídios do que como clarões para o mundo.