Pelos 160 anos do nascimento de Tchékhov, transcorridos hoje

Pelos 160 anos do nascimento de Tchékhov, transcorridos hoje

Tchékhov viveu apenas quarenta e quatro anos, convivendo a metade deles com a tuberculose que o levou para o túmulo. Pois, durante este tempo, ele não apenas criou uma grande obra — vinte volumes de prosa mundialmente famosa –, como fez muito mais:

— Construiu quatro escolas em aldeias do interior, uma torre de sino, um galpão para bombeiros no campo e uma estrada, superando a resistência e fraudes dos administradores locais, além da indiferença dos camponeses.

— Ergueu um monumento de bronze dedicado a Pedro, o Grande, em Tangarog, onde nasceu. Convenceu o escultor Antokolsky a enviá-la de fora do país, onde se encontrava. Tchékhov organizou a entrega através do porto de Marselha.

— Fundou uma biblioteca pública em Taganrog, doando mais de dois mil livros próprios. Depois, por quatorze anos, atualizou a biblioteca do próprio bolso, comprando mais livros.

— A cada ano, como médico, atendeu gratuitamente mais de mil camponeses doentes, fornecendo remédios a eles também do próprio bolso.

— Durante uma epidemia de cólera, ele como médico, cuidou sozinho, sem assistentes, dos doentes de 25 aldeias.

— Fez uma viagem heroica até a Ilha de Sacalina. Sem ajudantes, fez um censo de toda a população da ilha e escreveu “A Ilha de Sacalina”, provando com números e fatos que aquele degredo era um “escárnio imprudente dos ricos sobre os pobres sem direitos”.

— Ajudou milhares de pessoas. O conteúdo de muitas cartas recebidas por ele e hoje catalogadas iniciam por: “Agradecimento pelo dinheiro recebido…”, “Agradecimento por interceder para que eu conseguisse um trabalho…”, “Gratidão por auxiliar no recebimento de meu passaporte…”, etc.

— Plantou cerca de mil árvores em áreas florestais devastadas. Foram bordos, cerejeiras, ulmeiros, pinheiros, carvalhos e larícios. Em um local de queimadas na Crimeia, plantou sedoso, palmeiras, ciprestes, cerejeiras, amoreiras, lilases, groselheiras, etc.

Num caderno, Tchékhov deixou as seguintes linhas: “Um muçulmano, para a salvar sua alma, cava um poço. Se cada um de nós deixar para trás uma escola, um poço ou algo assim, nossa vida não passará para a eternidade sem deixar traço”.

Leia também aqui.

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Anton Pavlovich Tchékhov (17 de janeiro de 1860 – 15 de julho de 1904) — escritor e dramaturgo russo.

(Traduzido do russo com uma PEQUENA ajuda de Elena Romanov)

Obs.: Elena avisa que, na Rússia, a data será comemorada em 29 de janeiro em razão da mudança para o calendário gregoriano.

Foto colorizada por Olga Shirnina, também conhecida como Klimbim.

Isabel do vôlei critica desmonte da cultura

Isabel do vôlei critica desmonte da cultura

Uma das mais importantes jogadoras de vôlei do Brasil, Maria Isabel Barroso Salgado, a Isabel, publicou uma carta pública em protesto contra o desmonte na cultura sob o governo de Jair Bolsonaro. Ela lembrou como a cultura influenciou sua formação e o fato de ter se tornado atleta. Leia a seguir a íntegra:

Meu nome é Isabel, joguei vôlei na seleção brasileira, representei o Brasil por muitos anos. Resolvi escrever essa carta aberta, não para falar de esporte, mas para falar da cultura, porque acredito que só pude ser a jogadora que fui e a pessoa que sou graças aos filmes que vi, aos livros que li, às músicas que ouvi, às histórias que minha avó me contava. Minha mãe era professora e escritora, amava os livros, adorava música, e foi ela quem me apresentou a Chico Buarque, Caetano, Cartola, Luiz Melodia, entre tantos grandes compositores brasileiros. Lembro, quando chegava do treino muito cansada, que me deitava no sofá e ela me falava dos poetas que amava: Bandeira, João Cabral, Cecília Meirelles, Drummond…. Hoje tenho certeza que aquela atmosfera foi muito importante na minha formação.

Quantas vezes, ouvindo e dançando as músicas de Gilberto Gil com Jacqueline , a grande campeã Olímpica, comemoramos vitórias e tentamos esquecer a dor de algumas derrotas. Lembro também do impacto que senti, aos 18 anos, quando assisti ao filme “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor, com a incrível Fernanda Montenegro e um elenco de craques. Aos 17, assisti “Trate-me Leão”, peça que inspirou toda uma geração. Quantas vezes, os livros me transportaram para outros universos e me permitiram aliviar as tensões das quadras.

Pois é, depois de um ano de governo Bolsonaro, preciso expressar meu horror com o que tem acontecido com a cultura. É muito duro ouvir os insultos que foram proferidos contra Fernanda Montenegro; ver Chico Buarque ganhar o prêmio Camões, maior prêmio da língua portuguesa, sem que o presidente cumprimente ou comemore o feito; testemunhar a morte de João Gilberto, um dos maiores compositores brasileiros sem que nenhuma homenagem tenha sido feita pelo governo. É estarrecedor saber que nosso cinema é premiado lá fora e atacado aqui dentro; ver o ataque brutal à casa de Rui Barbosa, com as exonerações dos pesquisadores que eram a alma e o coração daquela instituição. E como se não bastassem esses exemplos de barbaridade, assistimos ainda o constante flerte do governo com a censura.

Essa carta é só pra dizer que eu me sinto muito ofendida, senhor Bolsonaro. Não sou uma intelectual, sou uma cidadã brasileira que acredita que a cultura é essencial para qualquer pessoa. Ela só existe ser for plural, em todas as formas de expressão. Por meio dela, formamos a nossa identidade. Se esse governo não gosta do nosso cinema, da nossa música, dos nossos escritores, eu quero dizer que eu e uma enorme parte dos brasileiros gostamos. Não aguento mais assistir a tantos absurdos calada. Vocês estão ofendendo uma grande parcela do povo brasileiro.

Aprendi no esporte que é fundamental respeitar as diferenças e saber que elas são enriquecedoras em todos os aspectos. Aprendi que é fundamental respeitar os adversários , e não tratá-los como inimigos.

Compreendi, vivendo no esporte, o quanto é importante ser democrático. Inspire-se no esporte, senhor presidente! O senhor foi eleito democraticamente. Governe democraticamente, e não apenas para quem pensa como o senhor. Hoje eu pensei muito nos rumos da cultura, porque lembrei da minha querida avó, que me levava, quando menina, para passear nos jardins da casa de Rui Barbosa…

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (V – apêndice)

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 301 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a peça pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (IV)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (IV)

O herói, o Mestre, aparece aparece em apenas 5 capítulos. Surge no 13 (apenas na página 138), volta no 24 e nos três últimos capítulos do livro. Ao todo, temos 32 capítulos e um epílogo.

A estrutura do romance é construída sobre o princípio da existência de três mundos: o terrestre, o bíblico e o eterno. Este último é o elo entre os dois primeiros. E há uma coincidência de datas: a reunião na Lagoa do Patriarca e o interrogatório de Jesus ocorrem no mesmo dia do ano civil, próximo da Páscoa.

Há também uma conexão de composição entre os mundos, no romance eles estão entrelaçados. Os capítulos “antigos” são introduzidos de diferentes maneiras: um deles nos chega como uma história contada por Woland, outro como um sonho de Bezdômny e outro um trecho do romance do Mestre. Esses capítulos também são muito diferentes estilisticamente: é um estilo clássico, contido, as falas são mais formais, a sensação da realidade muda.

Há situações no romance que se repetem nos três mundos. Desse modo, Bulgákov procurou tornar óbvia a conexão dos tempos. Coincidências facilmente rastreadas como a descrição do clima — a tempestade que cai sobre Yershalaim e Moscou, por exemplo. “As trevas cobriam a cidade odiada pelo procurador. Pontes suspensas desapareceram; o abismo desceu do céu”. É assim que ele descreve o clima em Yershalaim: “A cidade desapareceu – uma grande cidade, como se não existisse no mundo. ” Esta é a paisagem do começo do capítulo 25. E o final do capítulo 29: “… Essa escuridão, que veio do oeste, cobriu uma cidade enorme. Pontes e palácios desapareceram. Tudo se foi, como se nunca tivesse existido no mundo”. Moscou.

Não é de admirar que o romance seja chamado de fantástico, satírico, filosófico e de amor. Todos estes temas são desenvolvidos na novela, enquadrando e sublinhando a ideia principal – a luta entre o bem e o mal.

O tema satírico está no show de Woland. Enlouquecidos pela riqueza material, o público, representantes da elite sedentos de dinheiro, os truques de Koroviev e Behemoth, descrevem de maneira clara e a sociedade moscovita.

O tema do amor está incorporado no mestre e em Margarida e dá ao romance ternura, suavizando muitos momentos agudos. Importante notar que Bukgákov queimou a primeira versão do romance, onde Margarida e o mestre ainda não estavam.

O tema da empatia percorre todo o romance e mostra várias opções para empatia ela. Pilatos simpatiza com o filósofo errante Yeshua, mas, envolvido em seus deveres, “lava as mãos”. Margarida tem uma simpatia diferente — ela simpatiza com todo o coração, tanto pelo mestre quanto por Frida no baile. Mas sua simpatia não é apenas um sentimento, ela a leva a certas ações, ela não cruza as mãos e luta pela salvação daqueles por quem está preocupada.

Os tópicos filosóficos sobre o significado e o propósito da vida, sobre o bem e o mal, sobre os motivos bíblicos por muitos anos têm sido objeto de debate e estudo de escritores. Isso ocorre porque O Mestre e Margarida, a cada leitura, abre diante do leitor mais e mais novas perguntas e pensamentos.

A ideia inicial do romance é a luta entre o bem e o mal. E não apenas no contexto da luta, mas também na busca de definição. O que é realmente o mal? O leitor está acostumado ao fato de que o diabo é puro mal, e ficará sinceramente surpreso com a imagem de Woland. Ele não pratica apenas o mal, ele pune aqueles que traem e escondem. Sua turnê em Moscou confirma essa ideia. Ele parece parte do bem. Ele mostra as doenças morais da sociedade, mas nem as condena, só suspira tristemente: “As pessoas são como pessoas… são as mesmas de antes”. O homem é fraco em seu poder de resistir e de combater suas fraquezas.

O tema do bem e do mal é ambiguamente mostrado na imagem de Pôncio Pilatos. Ele se opõe à execução de Yeshua, mas não tem coragem de ir contra a multidão.

A análise “O Mestre e Margarita” implica imersão nos mundos recriados pelo escritor. Aqui você pode ver os motivos bíblicos e os paralelos com o imortal Fausto de Goethe. Os temas da novela são desenvolvidos separadamente e coexistindo, criando juntos uma rede de eventos e perguntas. São vários mundos, cada um encontrando seu próprio lugar no romance. Não é de todo surpreendente uma viagem da moderna Moscou à antiga Yershalaim, as conversas sábias de Woland, uma gata falante e o voo de Margarida.

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (III)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (III)

III — O livro

Sabem aqueles livros que valem por cada frase? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida pelo reflexo da obra não somente na cultura russa, mas na mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita por Mick Jagger durante a leitura do livro,

assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou.

Mas nem só a literatura e o rock homenageiam Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

A recente e excelente edição da 34.

O romance começou a ser escrito em 1928. Em 1930 ou 31, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra obra sua. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova edição — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor.

Uma amiga russa me escreve por e-mail: “Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Era a mesma edição em samizdat que eu tinha lido. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Sempre. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland, Manuscritos não ardem, é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é Ánnuchka já derramou o óleo, para dizer que o cenário de uma tragédia está montado”. Outras? Eu estou só consertando o fogareiro, nada disso, está é destruindo tudo, mas se fazendo de salame. Não existe filé semi-fresco, que é autoexplicativa, creio.

As cenas de Pôncio Pilatos, a do teatro, a do belíssimo voo de Margarida e a do baile são citadas aqui e ali com enorme admiração. A fama é justa.

A ação do romance ocorre em duas frentes, alternadamente: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia espetacularmente. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista.

Arte: Elena Martynyuk

Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam… Por apartamentos, férias e jantares melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que aqui formam uma atordoante série de cenas hilariantes.

Naquela Moscou o diabo está em casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram notável criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde sempre à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas a base de criação de Bulgákov é outro cômico ucraniano: Gógol. Aliás, ele considerava que Gógol era melhor do que Dostoiévski e Tolstói.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira à Rússia soviética ou como crítica à superficialidade das pessoas. Há mais pontos bem característicos: Bulgákov jamais demonstra nostalgia da Rússia czarista — apenas da religião — e Woland não está em oposição direta a Deus. Ele é como um ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas. E as punições de Woland são criativas, desconcertantes.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista. Será que leram o livro?

Mikhail e sua Margarida

Nas imagens finais de O Mestre, Mikhail Bulgákov dá uma dura avaliação do mundo que encontrou. Ele seria infernal e sem esperança. Era óbvio que as tentativas de se tornar parte do mundo soviético falharam.

Obs.: A tradução de Zoia Prestes, para a Alfaguara, é bastante superior à antiga, lançada lá por volta de 1993 pela Ars Poetica. Mas a mais recente, de Irineu Franco Perpétuo, para a Editora 34, é ainda melhor.

Agora vamos olhar a narrativa mais de perto. Mas antes mais um belo filminho.

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (II)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (II)

II — As circunstâncias em que foi escrito O Mestre e Margarida

Bulgákov escreveu O Mestre e Margarida sem a menor perspectiva de publicação. Escreveu para a gaveta. Os motivos eram óbvios — o romance era uma sátira à União Soviética produzido durante a época stalinista –, mas os detalhes são surpreendentes.

Imaginem: o escritor era cristão ortodoxo. Isto numa época em que  a religião era proibida. A URSS era um estado ateu. A perseguição aos religiosos começou em 1917 e a eliminação em massa começou em 18. O ápice foi entre 1937 e 38, enquanto Bulgákov escrevia o romance. Em 37, foram presos 136.900 padres e funcionários de igrejas. Destes, 85.300 foram simplesmente executados. Em 38, foram presos 28.300 e executados 21.500. Espero que estes números deixem claro quão impossível era falar do assunto Religião naquela época.

Stálin tinha real interesse por arte, costumando ir regularmente a concertos, óperas e peças de teatro. Ele pessoalmente assistiu, reprovou e fez proibir uma ópera de Shostakovich, por exemplo. Nos anos 20, ele assistiu quinze vezes — não é exagero — à peça Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov. Simplesmente adorou e ia aos camarins cumprimentar os atores a cada sessão que ia. Esteve presente também na estreia, quando a cortina foi erguida nove vezes a fim de que os atores fossem aplaudidos. Stálin também costumava telefonar de madrugada para assessores e outras pessoas quaisquer com quem tivesse assuntos a tratar. Sofria de insônia e, com sua fama, é claro que assustava quem recebia as ligações. Telefonou uma vez para Bulgákov após este lhe enviar quase uma centena de cartas pedindo permissão para emigrar. Bulgákov reclamava que era um dramaturgo conhecido no exterior, mas que na URSS estava fadado à miséria, à rua e à ruína. A lenda diz que foram várias ligações de Stálin, mas uma aconteceu com certeza.

O conteúdo geral desta ligação é bem conhecido. Bulgákov ficou com medo e teve receio de insistir quando Stálin disse que preferia que ele permanecesse na URSS. O líder prometeu-lhe um emprego em um teatro, o que acabou acontecendo. Assim, ele encontrou trabalho no Teatro da Juventude do Trabalho de Moscou (TRAM), e depois no Teatro de Arte de Moscou. Sim, trabalhou com Stanislavski. Neste século, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma peça que começa com o famoso telefonema de Stálin para Bulgákov, chamada Cartas de Amor para Stálin.

Anos depois da conhecida ligação, Bulgákov tentou se tornar um escritor “soviético”, dentro dos padrões do realismo socialista. Em 1939, ele começou a trabalhar em uma peça laudatória ao líder. Mas Stálin, ao ler os esboços, parece não ter ficado satisfeito e, sem falar com o autor, indiretamente proibiu Bulgákov de terminá-la, não permitindo o acesso do escritor e de sua esposa aos arquivos em Batumi, cidade georgeana onde Stálin iniciou sua vida política. A peça era cheia de clichês socialistas, nada era vivo. E o Secretário-Geral sabia como Bulgákov podia escrever.

Bulgákov morreu em 1940 e sua maior obra, O Mestre e Margarida, veio a público somente em 1966-67. Ou seja, ela permaneceu desconhecida de seus contemporâneos. Mas ele já tinha publicado peças de teatro e outras obras em prosa, como as extraordinárias novelas Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro. Sua arte é de absoluto virtuosismo. Se o campo onde se sente melhor é o da sátira corrosiva, ele também sabia descrever classicamente cenários bíblicos, como fez em partes de O Mestre.

Mikhail Bulgákov (1891-1940) nasceu em Kiev, na Ucrânia, que era então parte do Império Russo. Ele foi o primeiro filho de Afanasiy Bulgákov, professor da Academia Teológica de Kiev. Seus avôs eram clérigos da Igreja Ortodoxa Russa. Em 1916, aos 25 anos, formou-se médico na Universidade de Kiev e depois, junto com seus irmãos, alistou-se no Exército Branco. No início da Primeira Guerra Mundial, como médico voluntário da Cruz Vermelha, foi imediatamente enviado para o front, onde foi gravemente ferido em duas ocasiões.

Após a Guerra Civil, com a derrota dos brancos e a ascensão do poder dos soviéticos, sua família emigrou para o exílio em Paris. Apesar de sua situação relativamente privilegiada durante os primeiros anos da Revolução, Bulgákov viu-se impedido de emigrar da Rússia devido a um insistente tifo. Nunca mais viu sua família.

As lesões da guerra tiveram graves efeitos sobre sua saúde. Para aliviar sua dor crônica, especialmente no abdômen, foi-lhe administrada morfina. Ficou viciado, e parou de injetá-la em 1918, aos 27 anos. O livro Morfina, publicado em 1926, atesta a situação do escritor durante esses anos. Em 1919, aos 28, ele decidiu trocar a medicina pela literatura.

Elena Shílovskaya

Em 1932, aos 41 anos, Bulgákov casou-se pela terceira vez com Elena Shílovskaya, que seria a inspiração do personagem Margarida de sua novela mais famosa. Durante a última década de sua vida, Bulgákov trabalhou em O Mestre e Margarida, além de escrever peças, fazer revisões, traduções e dramatizações de romances. Alguns foram para o palco, outros não foram publicados e ainda outros foram destruídos. Bulgákov trabalhou no romance de 1928 a 1940, ano de sua morte.

Em 1931, irritado com a censura a uma de suas peças, queimou o manuscrito do romance, mas voltou a ele dias depois.

Para quem hoje lê Bulgákov, talvez o fato do escritor não apoiar o regime comunista seja apenas uma informação complementar. O que interessa é que ele foi o mais brilhante dos gozadores, dos zombeteiros. O autor ria da burocracia e dos governantes. E todos nós temos governantes, feliz ou infelizmente. Não obstante o amor do chefe Stálin, o escritor suportou grande assédio da NKVD, que chegou a procurá-lo em casa e prendeu-o em mais de uma ocasião. Em 1926, levaram todos os manuscritos encontrados em sua casa, esboços e diários. Devolveram 3 anos depois. Só sete décadas e 50 anos após a morte do escritor, quando da abertura dos arquivos da KGB, os documentos foram conhecidos. Não continham nada comprometedor.

Muitas evidências sobreviveram sobre a atitude do escritor em relação ao poder soviético na década de 1920. Entre eles há artigos na imprensa branca e materiais de interrogatórios. Porém, há um fato que comprova certa independência do escritor: os brancos o criticavam por ser pró-revolução e os revolucionários pelo motivo contrário. Para os comunistas, sua arte era um “brancovanguardismo” e ele seria um “reacionário social”; para os brancos, ele seria mais um vendido. É curiosa a posição onde Stálin colocou seu potencial inimigo Bulgákov, muitos dos escritores que não apoiaram a revolução foram presos, muitos foram mortos. Bulgákov não.

Bulgákov foi morrer de um problema renal em 1940, aos 48 anos.

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Korovin com seu monóculo quebrado

Em vida, Bulgákov ficou conhecido principalmente pelas obras com as quais contribuiu para o Teatro de Arte de Moscou de Konstantín Stanislavski. Foram muitas comédias e adaptações de romances para o teatro, casos, por exemplo, de Dom Quixote e Almas Mortas. Bulgákov também escreveu uma comédia grotesca fazendo com que Ivan, o Terrível, aparecesse em Moscou na década de trinta. Um sucesso.

Em meados de 1920, Bulgákov conheceu os livros de Wells e, profundamente influenciado, escreveu várias histórias com elementos de ficção científica. Um exemplo é a extraordinária novela Um Coração de Cachorro, onde Bulgákov critica abertamente — e com impressionante cinismo e ironia — a primeira década do poder soviético. Outro é a hilariante Os Ovos Fatais.

Morfina merece menção especial. Trata-se do diário de um companheiro do protagonista, o médico Poliakov. É uma crônica da autodestruição. Ele escreve no início do livro: “Eu não posso louvar quem primeiro extraiu a morfina das cabeças das papoulas”. No mais, é uma história clínica escrita por um mestre. “Como viciado, eu declararia que o ser humano só pode funcionar normalmente após uma injeção de morfina, mas eu era médico”.

A novela satírica O Mestre e Margarida, sem chances ou tentativas de publicação durante sua vida e que foi publicada por sua esposa vinte e seis anos após a morte do escritor, certamente lhe garante a imortalidade literária. Por muitos anos, o livro só pôde ser obtido na União Soviética como samizdat, antes de sua aparição por capítulos na revista Moskva. É o grande romance do período soviético e contribuiu para criar várias expressões do dia a dia russo.

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgakov, com sua esposa Elena Shilovskaya

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Vou dividir este texto em vários capítulos, aproveitando coisas que já escrevi e escrevendo e pesquisando e copiando de outros, ladrão que sou. Apesar dos vários capítulos, este texto estará dividido em três grandes partes:

I — O Diabo de Bulgákov (capítulo curto, que pretendo terminar neste post);
II — As circunstâncias em que foi escrito O Mestre e Margarida;
III — O livro.

O Mestre e Margarida apresenta sua própria epígrafe — retirada do Fausto de Goethe — e ela trata do diabo, mas acho que preciso de outra, que pesquei do próprio livro de Bulgákov:

O que seria do bem se o mal não existisse, e como veríamos a Terra se as sombras desaparecessem? Afinal, as sombras resultam dos objetos e das pessoas.

Mikhail Bulgákov — O Mestre e Margarida

Então tratemos do demônio, do diabo, de Satã.

I — O Diabo de Bulgákov

A figura do demônio ganhou força na Idade Média. As mais variadas religiões jamais tiveram pudor de invocá-lo. Até hoje, nossos bispos evangélicos gritam que algumas saias e posturas são coisas de Satanás. E faz tempo que é assim.

Em parte de A Divina Comédia (1321), Dante Alighieri descreve os horrores que aguardam os pecadores no inferno. O foco do poema é a busca de Dante por sua amada Beatriz, que começa justamente no inferno, em cuja entrada há a famosa advertência: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Lá dentro há nove círculos, onde são julgados os vários tipo de delitos. Há vários demônios, mas no nono círculo está o maior deles, Lúcifer, o que julga os traidores. Ali não é quente, é frio e Lúcifer está lá, aprisionado da cintura para baixo, com suas grandiosas asas.

Lucífer no Nono Círculo do Inferno – Gustave Doré

Em Paraíso Perdido (1667), John Milton narra a expulsão de Lúcifer do Paraíso. Na obra, um despeitado Lúcifer diz que é “melhor ser rei no Inferno do que servir no Céu”.

A Queda de Lúcifer, ilustração de Gustave Doré para ‘O Paraíso Perdido’

Em O Diabo Enamorado (1772), Jacques Cazotte faz com que o Demônio se apaixone por um jovem que o invocou, assumindo a figura de uma bela mulher. Aqui, o demônio já adquire a característica da sedução, mas ele mesmo não tem uma imagem humana. Vejam abaixo a mulher sedutora e como ele é de verdade na imaginação dos ilustradores…

Ilustração para o livro de Cazotte

A lenda alemã de Fausto inspirou o clássico de Goethe (1808 e 1832), que inova ao dar aparência humana ao demônio. Mefistófeles aparece cheio de seduções, enganando, mentindo e propondo negócios.

Imagem de August von Kreling para o Fausto de Goethe (1874)

E há uma ópera de Gounod, de 1859, baseada no Fausto de Goethe. Faço questão de citá-la aqui pelo fato de Bulgákov tê-la assistido 41 vezes! Sabe-se disso porque ele guardava todos os ingressos de peças e concertos que assistia.

Cartaz original da ópera de Gounod.

E notem como o Mefistófeles de Gounod foi retratado no Municipal do Rio há poucos anos:

Foto: Ana Clara Miranda

Por que coloco todas essas imagens? Ora, para mostrar que a representação artística do Diabo mudou paulatinamente. Ele não somente passou a ter forma humana como adquiriu primeiro a sedução e depois o ar zombeteiro.

E como é o Woland de Bulgákov? Bem, vejamos o caso russo.

Nos contos populares russos, as esferas Deus/Diabo — o Bem e o Mal — são interligadas, unidas. Assim, Baba-Iagá, a bruxa das florestas, a fiel ajudante do Diabo, ora faz maldades — rouba crianças, mata, envenena heróis –, ora se transforma numa criatura bondosa — ajuda o herói, fornecendo-lhe a comida, o cavalo, a poção mágica, etc. Baba-Iagá não encarna o mal.

O séquito dos vários diabos tem diferentes membros: a coruja, o gato, os defuntos, os vampiros, etc. E também os lobos, os corvos, as cobras. Entretanto, todos eles, em algumas ocasiões, podem muito bem ajudar ao herói. Como em Bulgákov.

E há mais seres que carregam o diabólico, o demoníaco: os poetas, os músicos e outras “almas perdidas e pecadoras” como os orgulhosos, os solitários, os rebeldes, os ateus, os ladrões, os bandidos, os bêbados, os jogadores, os vagabundos, os ciganos, os amantes… Isso explicaria a simpatia que o diabo de Bulgákov tem pelo Mestre — que é um bom escritor e que, além disso, escreveu um romance não só sobre os sofrimentos e a sabedoria de Jesus, como também sobre a fraqueza e o padecimento moral de Pôncio Pilatos. E isso explicaria também a simpatia que Woland tem por Margarida — uma adúltera, amante do Mestre.

No folclore russo, o Diabo tem algumas características bem determinadas e estas mesmas características marcam o Diabo e seu séquito no romance de Bulgákov:

— os olhos verdes, ou, então, um olho diferente do outro em cor: “ele aparentava ter bem uns quarenta anos. Boca ligeiramente torcida. Bem escanhoado. Trigueiro. O olho direito negro, o esquerdo — não se sabe por quê — verde”;

Woland: ilustração de uma edição de O Mestre e Margarida
Woland num filme

— a força poderosa, orgulhosa de um “super-homem” ou então uma força brincalhona, mas briguenta (o gato Behemoth e Korôviev — os membros do séquito diabólico no romance de Bulgákov — são possuidores desta força brincalhona). Sim, em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Korôviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno e forte Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. O povo russo relaciona também a ventania, a nevasca, o incêndio — lembremos que foi justamente o incêndio que acabou com a casa de escritores e com o misterioso apartamento n.° 50 — com o Diabo;

—  a cor preta ou vermelha. O vermelho é a cor da paixão, do sangue e do fogo. Outra cor diabólica é o preto. Os personagens diabólicos costumam ter os cabelos pretos — ou o pelo preto, como o Gato, que era “negro como corvo, ou como fuligem” — ou, então, o cabelo vermelho, como Korôviev, que tinha “cabelos ruivos brilhantes”;

— a marginalidade caracteriza os “filhos queridos” do Diabo. Este “marginal” pode ser uma espécie de um gênio, um poeta, um músico, mas pode também ser uma variante baixa: um ladrão, um bandido. Com a marginalidade vem a solidão e a ausência de filhos. Margarida, há vários anos casada, não tem filhos, é uma pessoa solitária, que sente-se abandonada pelo marido. Tudo isso a colocaria naturalmente ao lado do Diabo. O Mestre também não tem familia;

— o Diabo é o proibido e a rebeldia. Tudo o que não poderia haver na União Soviética. O Diabo (Deus) está com Margarida, está com o Mestre, está com Ivan Bezdômny, no final do romance, quando este se recusa a escrever poesia encomendada;

— o Diabo é um mestre do jogo, da sedução, da representação teatral e da arte em geral. A própria palavra ‘arte’ — em russo ‘iskusstvo’ — vem do verbo ‘iskusit’, “seduzir”, “representar”, “ser falso”. Na Rússia, o Diabo troca as máscaras e os papéis, e no romance de Bulgákov, ele também é um ator por excelência.

Eco do Fausto de Goethe, pelas reflexões filosóficas, o romance começa com esta epígrafe:

— Pois bem, quem és então?

— Sou uma parte desta força que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.

Goethe, Fausto.

O Diabo aparece já nas primeiras páginas do romance e passa a desempenhar o papel substancial no texto. Mas, conhecendo o contexto histórico da União Soviética da época — é nosso próximo assunto –, quando o romance foi escrito, o leitor atento logo deixa de encarar o livro como “fantástico”, começa a sentir que “tem mais”. O objetivo do livro é fazer com que o leitor hesite em escolher entre a explicação natural e a sobrenatural dos acontecimentos. O efeito produzido pelas situações grotescas é desorientador. O mundo de O Mestre e Margarida é cheio de milagres, um mundo teatral.

Só que não é uma fantasia livre. Tudo aquilo que de sobrenatural acontece tem o outro pé na realidade. Por exemplo, quando, no epílogo, Bulgákov conta a perseguição aos gatos pretos, pois a polícia está atrás do gato Behemoth:

Cerca de uns cem desses animais pacíficos, dedicados e úteis ao homem tinham sido fuzilados ou exterminados por outros meios em diversos pontos do país. (…) Gatos, de aspecto às vezes bastante estropiado, foram entregues a destacamentos policiais de diversas cidades. Por exemplo, em Armavir, um desses bichos, sem culpa alguma, foi levado à polícia com as patas dianteiras amarradas por um cidadão. (Pág. 384, edição da 34)

Mas não se enganem, a maior parte do livro é pura sátira. Ele tem cenas belas, a maioria delas hilariantes e, se você pensar que Bulgákov viu a URSS dos anos 30 como Doutor Jivago estará navegando num mar de enganos.

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Texto parcialmente adaptado e copiado do trabalho Quem é o Diabo?” de Elena Godoy. 

Manual da Faxineira, de Lucia Berlin

Manual da Faxineira, de Lucia Berlin

Um livro extraordinário. Manual da Faxineira (Cia. das Letras, 532 páginas) compila os melhores trabalhos da contista Lucia Berlin. São 43 contos com um humor que guarda certo parentesco com o de Raymond Carver, mas com melancolia e realismo próprios. Berlin faz milagres com o cotidiano, descobrindo momentos sublimes em lavanderias, em casas do meio oeste estadunidense ou da classe alta da Bay Area de San Francisco, em emergências hospitalares, entre operadoras de telefonia e mães em dificuldades, caroneiros, drogados e alcoolistas. Mas como esta brilhante escritora foi a princípio ignorada? Como puderam?

Lucia Berlin (1936-2004) trabalhou de maneira brilhante, mas esporádica, durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. Suas histórias são inspiradas por uma infância em várias cidades da Califórnia, Novo México e Texas. Teve também uma glamourosa adolescência em Santiago do Chile, três casamentos, um problema grave com alcoolismo e quatro filhos. Para piorar, Lucia era uma moça alta que sofria de escoliose e usou um colete ortopédico de aço durante seus anos jovens. Depois, sóbria e escrevendo de forma constante na década de 1990, ela assumiu o cargo de escritora visitante na Universidade do Colorado (Boulder) em 1994 e logo foi promovida a professora associada. Em 2001, com problemas de saúde, ela se mudou para o sul da Califórnia para ficar perto de seus filhos. Morreu em 2004, em Marina del Rey. Tudo isso é muito importante porque, em suas histórias, há muito de sua biografia.

Como disse, os contos de Lucia Berlin não foram muito divulgados durante sua vida. Algumas coleções publicadas por pequenas editoras entre os anos 70 e 90 ganharam um pequeno e dedicado grupo de admiradores, como Saul Bellow. As 43 histórias reunidas em Manual da Faxineira são uma poderosa reivindicação por reconhecimento.

Realmente, Berlin pareceu ter o condão de encaixar muitas vidas em seus 68 anos. Criada nos remotos campos de mineração do Alasca e do centro-oeste, ela foi uma criança solitária e abusada no Texas dos tempos da 2ª Guerra; depois uma jovem rica e privilegiada em Santiago; uma boêmia que vivia em lofts nos anos 50, em Nova York; uma recepcionista em um pronto-socorro de emergências no centro de Oakland, nos anos 70. Quando tinha 32 anos, já se casara três vezes, tinha quatro filhos e lutava, ou não, contra o alcoolismo.

Sua vida agitada fornece assunto para suas histórias. Sua alegria também. Há sempre um fundo de bom humor em seus textos. Ela é dura e papo reto, mas a brutalidade é compensada pela compaixão à fragilidade humana e pela inteligência da narrativa. E o prazer de ler acaba sendo maior que a dor. Em Até mais, o casamento com um viciado em heroína é descrito como “tempos de intensa felicidade tecnicolor e tempos sórdidos e assustadores”. A solidão está presente em histórias ambientadas em hospitais, clínicas de desintoxicação, lares e prisões, porém, apesar do território frequentemente sombrio, a escrita de Berlin é caracterizada por um enorme apetite pela vida e de amor. Em Mordidas de tigre, uma história que detalha os horrores de uma clínica de aborto no México, é o calor e a diversão perversa do relacionamento entre a narradora e sua prima glamourosa que permanece em primeiro plano.

Como teve muitos empregos, Berlin é uma cronista aguda de instituições e do mundo do trabalho muitas vezes esquecido — em particular o trabalho de baixo prestígio e baixa remuneração de enfermarias, faxineiras e auxiliares. Em Quero ver você sorrindo, um personagem é descrito como possuindo uma curiosidade compassiva por todos, e o mesmo se aplicava claramente à autora. Algumas das histórias, como Caderno de notas do setor de emergência, 1977, têm abordagem jornalística, mas há sempre um olho no poético:

Se suas bolsas já não foram furtadas, as velhinhas parecem carregar nada a não ser a dentadura de baixo, um folheto com o horário do ônibus 51 uma caderneta de endereços e telefones em que não se acha um único sobrenome.

Berlin credita sua mãe por seus poderes de observação, escrevendo em Mamãe sobre como lembrava de suas piadas e de sua maneira de olhar, nunca perdendo nada.

Lembramos de suas piadas e do seu jeito de olhar, aquele olhar que nunca deixava escapar nada. Você nos deu isso. Essa capacidade de olhar.

Não a de ouvir, porém. Você nos dava talvez uns cinco minutos para te contar alguma coisa e depois dizia “Chega”.

São histórias que capturam o mundo quase invisível ao nosso redor, revelando o banal e o pungente. Em Mijito, uma enfermeira fala sobre as crianças doentes sob seus cuidados. A maioria das crianças não pode chorar. Há apenas lágrimas rolando e este horrível rangido do mundo, como um portão enferrujado, ao fundo.

O estilo de Berlin é direto. Mijito é de verossimilhança quase insuportável. Você pode ser enganado ao pensar que está lendo cartas de uma amiga quando ela fala em frases como “Eu sei, romantizo tudo”. Mas esse estilo coloquial é traído por brutais falas e mudanças súbitas que deixam claro que essas são histórias minuciosamente elaboradas. O narrador de Mamãe passa o tempo todo conversando, finalmente convencendo sua irmã moribunda de que a mãe insensível e bêbada merecia alguma compaixão, antes de revelar na última linha: Eu… eu não tenho compaixão.

A mesma mãe e irmã (Sally) aparecem em muitas histórias, e a natureza parcialmente autobiográfica da coleção faz desta uma experiência de leitura em densas camadas. Personagens e cenários se repetem, e certos períodos são vistos através de filtros diferentes, com o elenco principal e seus relacionamentos entrando e saindo de foco.

Em Voltando para casa, a história final, Berlin observa os hábitos dos corvos de sua varanda:

…mas o que me incomoda é que eu só reparei neles por acidente. O que mais será que deixei passar? Quantas vezes na minha vida eu estive, por assim dizer, na varanda dos fundos, e não na varanda da frente? O que será que me disseram que eu não ouvi? Que amor poderia ter existido que eu não senti?

Ponto de Vista, Mijito e Incontrolável são contos inesquecíveis. Dos melhores que li até hoje. Berlin sofreu muito, mas seu poder de observação e arrebatador virtuosismo literário farão dela um clássico, se o mundo não acabar nos próximos anos.

Com informações do The Guardian.


Daqueles que não se denuncia (um bolsoconto)

Daqueles que não se denuncia (um bolsoconto)

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…

Mario Quintana – Cocktail Party

Será que eu vou ser obrigado a contar tudo isso pra alguém? Se for, talvez seja melhor organizar meus pensamentos. É uma história vergonhosa, dessas que quem conta não se orgulha. Como começar? Ora, certamente por Marina.

Marina não tinha onde cair morta, mas só comprava roupas caras; andava contando o dinheiro, mas jamais comeria numa lancheria de chão sujo; pagava a academia provavelmente pedindo dinheiro para a mãe e ia, ao menos uma vez por mês, ao melhor dos cabeleireiros. Estava no último ano do segundo grau da mesma escola pública onde eu estudava, mas parecia uma universitária da PUC. Ela tinha intuição para o que era bom. Ela sabia, sempre sabia. Talvez sua roupa custasse o mesmo que a das outras meninas, mas ela sabia comprar e usar melhor, acho eu. O deus que não existe fez com que ela nascesse numa família de baixa classe média, mas ela era diferente de suas amigas. Tinha algo em si que exigia e obtinha respeito. Não precisava advertir os meninos abusados de que passar a mão na sua bunda era proibido. Eles sabiam disso. Não era arrogante ou antipática, era distante, misteriosa. Sob seus pés parecia haver um tapete que a elevava e deixava sua cabeça nas nuvens. Ela não andava com fones de ouvidos como nós, sua tatuagem não tinha esquisitices, era no braço, feita de flores traçadas em delicadas linhas pretas. Ela não participava das brincadeiras mais idiotas, apenas sorria delas. Era bonita, claro, tudo devia ser consequência de sua beleza. Só que ela carregava aquilo com enorme classe. Óbvio: era a musa inalcançável, tema de nove entre dez masturbações dos meninos como eu.

Eu tinha um pouco de medo dela. Todo mundo tinha. Era uma mulher entre nós. Um dia, vimos Marina chegar à escola num carro diferente. Era uma caminhonete enorme, novinha. Notei que uns colegas largavam uns uau e elogiavam a nave. Ninguém de nós tinha carro, ainda mais um daqueles. A rapidez com que o respeito por ela transformou-se em desprezo foi, quem sabe, digna da velocidade potencial do veículo. Uns disseram para os outros é uma puta mesmo. Mas não ousaram falar diretamente a ela.

Acho que ela logo entendeu o novo ambiente em que pisava, mas não fez nada para impedir o avanço da onda. Precisava? O motorista era um homem mais velho, o que nos deu a certeza de que ela estava recebendo algum em troca.

Mas Marina permaneceu a mesma e a onda virou uma marolinha.

Um dia, fui com meus pais a um desses lugares de comida sem gosto, vegana. Eles tinham essas manias, ficavam uma semana comendo folhas e realizando loucuras no liquidificador e subitamente voltavam a transformar nossa mesa num crematório a céu aberto com duplo entusiasmo. Ainda bem. Bem, eu dizia que lá estava eu escolhendo alguma coisa que se parecesse com carne quando vi Marina com o cara bem no meio do restaurante. O homem devia estar lá pelos 30 anos e não calava a boca. Falava alto e não foi muito difícil ignorar o blá-blá-blá familiar e prestar atenção na conversa dele.

Credo, ele falava como um idiota.

– Marina, olha só. Tu sabe como eram as TVs nos anos 60? As pessoas ligavam aquela porcaria e ela tinha que esquentar até ligar. Tu já viu um Fusca? Pois é, aquela coisa funcionava mal, estragava a toda hora. Era o que todo mundo tinha, meu pai tinha um. Tu acha que naquela época existia tecnologia pro homem ir à Lua? É óbvio que o homem não chegou nunca à Lua. Nunca. Pensa bem, o cara sai daqui impulsionado por um foguete, como é que vai voltar de lá, se lá não tem outro foguete para mandá-lo de volta, entende? É tudo mentira.

Marina olhava pra ele com um sorriso paralisado, devia estar odiando aquilo, ainda mais que ela tinha me visto e era uma menina esperta. Ela sabia que eu ia ficar ouvindo o cara pontificar, todo ouvidos, como minha mãe diz.

É claro que o discurso foi indo na direção de que a Terra era plana e de que aquecimento global era uma bobagem. Eu decorava tudo o que o cara dizia para contar no Colégio. O discurso dele sobre fatos científicos acabou com um

– Tu acredita naquilo que tu não vê?

Marina permanecia com as feições de quem estava injetada de litros de botox na cara. Ainda assim era bonita, a desgraçada.

No dia seguinte, na escola, vi Marina chegar cedo, sozinha. Ela me olhou de volta, agora muito séria e eu mudei de ideia. Achei melhor guardar o segredo do imbecil da caminhonete. As aulas iam se sucedendo e, toda vez que eu olhava para o lado onde ela estava, recebia um olhar frio, talvez triste. Caralho, ela realmente tinha o poder de mandar na gente. Minha fofoca arrasa-quarteirão foi perdendo a força. Ela me olhava, me olhava tanto que me preocupou se os outros não estavam notando.

Eu era – sou ainda – um nerd, desses que se apaixonam por uma coisa e vão atrás. Meu problema era com os livros de detetives. Lia tudo de Simenon, Rex Stout, Agatha, Rubem Fonseca, Padura, para citar os meus preferidos. Mas também os outros. Onde houvesse um crime e um detetive, lá estava eu. É claro eu era muito branco, magro e usava só camisetas pretas. Tinha o uniforme perfeito para não ser observado pela mulher-tesão do colégio. Então, quem me lê tem que saber que eu sabia que ela me olhava por outro motivo que não transar comigo, OK? Me olhava porque estava de olho em mim, nas minhas ações, só isso. Paralelamente, talvez seja importante dizer que eu estava cada vez mais feliz com a atenção dela e nos imaginava em todas as posições do Kama Sutra. Tanto que quase esqueci de Mario Conde.

Então, dias depois, eu fui à biblioteca para procurar mais livros de detetives. Havia uma boa fileira deles no colégio. Todos doados por um certo Milton Ribeiro que tinha o péssimo costume de escrever seu nome e sublinhar cada livro. Você que me lê deve saber que os autores desses livros costumam escrever uma montanha deles. E esse Milton devia ser mais um tipo que, como eu, gostava de literatura inconsequente e não tinha mais onde enfiá-los. E eu me agachei em busca do Maigret desconhecido quando vi Marina entrar no corredor onde eu estava. Ela parou do meu lado. Eu agachado como um sapo, ela em pé como a princesa. Ergui o olhar e ela disse uma coisa bem simples, só duas palavras:

– Me abraça?

E eu tive a certeza que ela queria apenas algum tipo de consolo, entendi perfeitamente o que ela queria. Pus meus braços ao redor dela e a apertei. É claro que tratei de aproximar o púbis, afinal, sabe-se lá. Mas ela se afastou um pouco, liberando apenas o abraço. Ficamos assim durante um longo e prazeroso minuto. Os seios dela contra o meu peito, apesar de o professor de biologia ter dito que o nome correto era mamas. Depois ela afrouxou os braços no meu pescoço, disse que estava mesmo precisando daquilo e foi embora.

Minutos depois, eu já duvidava se o abraço tinha realmente acontecido. Voltei para a sala de aula com as pernas um pouco bambas, muito feliz e confuso. Busquei o olhar de Marina, que desta vez veio mais doce. Quando cheguei em casa, bati todos os recordes masturbatórios.

Passaram-se dois dias sem maiores contatos. Por mim, estava tudo bem, tinha atingido meu ápice. Não desejava mais do que seguir adubando minha imaginação. Eu e Marina no chão da biblioteca, eu e Marina sobre as mesas silenciosas dos leitores, eu e Marina encontrando-nos à noite com as portas fechadas, eu e Marina sendo flagrados nos banheiros e depois indo para a diretoria, eu e Marina de mãos dadas pelos corredores, eu e Marina andando numa caminhonete…

Pois, dizia eu, passaram-se dois dias até que ela se sentou comigo na escadaria de entrada do colégio. Ela me disse que eu sabia de coisas que não eram para serem contadas por aí. Mas o que eu sabia dela?

– Que eu saio com aquele cara ridículo.

– Isso todo mundo sabe.

– Só que tu ouviu aquelas bobagens dele.

– Eu só ouvi um papo que a terra era plana. Só isso.

– Não… Ouviu mais.

Eu falava a verdade. Eu só tinha prestado atenção nas besteiras. Afinal, a humanidade leva séculos para descobrir que vive numa grande esfera e, do nada, o cara conclui que não.

– Ah, Marina, eu tava mais interessado na comida.

Ela riu e pude ver que ela era realmente alguém de outro mundo. Sua beleza chegava a doer em mim. Eu tentava decorar o formato de seus lábios e olhos, dos mamas sob a blusa, das pernas, tudo para que minhas sessões individuais fossem mais realistas. O que Marina falava era ao mesmo tempo interessante e muito besta.

– Aquele cara votou no Bolsonaro e não se arrepende. É um policial que acha que bandido bom é bandido morto, que quem fuma um de vez em quando é vagabundo. Mas ele me protegeu numa confusão em uma festa e eu sou uma burra. Acabamos ficando na noite da confusão e, bem, desculpe.

– Eu não tenho que desculpar nada, imagina. Tu sai ou fica com quem tu quiser. Mas por que tu fica com um escroto desses?

– Ah, é complicado. Ele é bonito, me trata bem, é gentil, me agrada, tem um grande grupo de amigos, todo mundo gosta dele, me leva a lugares onde eu não poderia normalmente ir. E não me incomoda quando eu dou meus rolês. Na verdade, eu não me preocupo com o que ele pensa, mas é claro que ele me envergonha quando é radical.

– Radical?

Eu achei ridículo o que ela disse e propus que fôssemos para a praça em frente fumar um baseado. Foi bom. Ela era tranquila e irônica. Também era curiosa. Me perguntou que livros eram aqueles que eu carregava sempre e eu desandei todo o meu conhecimento sobre o assunto. Quer dizer, não todo, mas bastante coisa.

Então começamos a fumar diariamente. Eu entendia que ela gostava da minha companhia e que namoraria um cara como eu – OK, um com mais aparência. Ah, se eu tivesse um carro… Entendi outras coisas também, entendi que o policial queria alguém que fosse grato a ele, que lhe devesse favores. Mas eu não tinha nada a ver com isso, era apenas um amigo dela.

Também caminhava com ela depois da aula. Ia até sua casa e muitas vezes ficávamos na porta de seu edifício, de papo. Sim, de minha parte era o clássico amor platônico, uma bosta. Eu tinha medo de, com um avanço, acabar com aquela amizade, tão boa e cheia de fantasias minhas. Eu sempre pensava que ela queria que eu a abraçasse e beijasse, mas ela me matava contando onde fora com o namorado, do motel que tinham conhecido e eu voltava correndo para a imaginação.

Eu criei uma imagem de Marina. A linda mulher legal que estava escravizada a um escroto por circunstâncias de pobreza. E eu não tinha nada a perdoar ou criticar. Ela caminhava comigo, sabia que eu estava apaixonado, mas não se incomodava. Nem eu.

Só que um dia estava indo pro colégio quando um cara me puxou pelo ombro e me encostou violentamente à parede de um prédio. Reconheci o policial. Logo vi que ia apanhar pra caralho. Ele me acertou um forte soco no estômago e falou bem perto de mim. Eu tentava me livrar de seu hálito de cerveja enquanto ouvia.

– Seu maconheiro de merda, se tu tocar na minha gata eu primeiro te encho de porrada e depois tu vira presunto. Que fique bem claro, seu idiota, eu posso tudo.

Depois, ele pegou o meu pescoço logo abaixo do queixo e apertou para eu quase sufocar ao mesmo tempo que girava minha cabeça de um lado para outro, como eu fizesse sinal que não.

– Agora eu podia quebrar esse teu pescocinho de galinha, o que tu acha?

– Não, não, por favor — disse sufocando. — Eu não fiz nada, eu trato ela com o maior respeito. Sou só amigo.

– Mas e aqueles cigarros que tu faz ela fumar?

– Eu vou parar com isso. Não sou viciado. Nem ela.

– Não fala dela, só de ti, porra, Dela eu trato, eu falo. E quem é que traz o baseado?

– Eu, é culpa minha.

– Tu sabe o que eu faço com maconheiro?

Então ele bateu a minha cabeça na parede e me largou.

– Vai pra aula, franguinho.

Ele não tinha batido muito forte porque não fiquei tonto, mas saiu sangue.

Assustado, não atinei de ir para o colégio. Aliás, nem devia porque o sangue já estava descendo pelas minhas costas e eu ia ter que arranjar uma explicação. Não era um absurdo, mas minha a camisa preta devia estar molhada de sangue.

Cheguei em casa e deitei de bruços no chão, tentando fazer o sangue parar. Eu tremia de medo, pensando no que tinha acontecido. Quando me acalmei um pouco, levantei para lavar minhas roupas e vi minha mãe entrando em casa na maior gritaria. Uma vizinha tinha avisado que um cara estava batendo em mim e ela vinha toda louca, histérica. Pegou minha camisa e, chorando, perguntou se eu estava bem. Examinou o corte na minha cabeça. Claro que doeu, mas ela não deu muita importância, disse que era um corte pequeno.

– Me diz o que tu fez pra apanhar desse jeito?

– Nada mãe, eu converso muito com uma colega e o namorado dela teve uma crise de ciúmes.

Ela me olhou bem séria, fazendo sinal negativo com a cabeça. Que merda, nem minha mãe acreditava que eu estivesse comendo alguém. E não estava mesmo.

– O que aconteceu de verdade?

– Exatamente o que eu te disse, porra!

– Nós temos que ir dar queixa, fazer um B.O. e foder com esse cara que agrediu.

Então, em vez de eu ficar deitado em casa tentando me acalmar tive que ensinar minha mãe de que a polícia não funciona pra nós e que a gente tem que se cuidar por si mesmo. Não ia dar pista da profissão do cara que tinha me pegado porque ela podia armar barraca com os vizinhos.

Minha cabeça doía, latejava enquanto eu tentava ser o mais veemente possível, mesmo falando em voz baixa. Nada de polícia, mãe, nada de B.O. Tá doida. Esse cara é violento, parece que é traficante, domina a área, é daqueles que não se denuncia para seguir vivendo.

Devo ter sido convincente porque deu certo.

Bolsonaro quer mudar livros didáticos: “têm muita coisa escrita, tem que suavizar”.

Pesquisa global mostra que pessoas que leem são mais felizes

Pesquisa global mostra que pessoas que leem são mais felizes

Da Revista Bula

O hábito da leitura é transformador: melhora nosso entendimento sobre o mundo, exercita a mente e aumenta nossa capacidade criativa. Mas, uma nova pesquisa encomendada pela Amazon e conduzida pela Kelton Global Research mostrou que a leitura vai além: ela também aumenta a felicidade e ajuda a melhorar nossos relacionamentos.

O estudo foi realizado com 27.305 participantes maiores de 18 anos nos Estados Unidos, Canadá, México, Brasil, Alemanha, Reino Unido, Espanha, França, Austrália, Itália, Índia, China e Japão. A pesquisa foi online, com questionários aplicados em outubro de 2018 e janeiro de 2019. A margem de erro é de 0.6%.

Leitores frequentes são mais felizes

Nos 13 países onde a pesquisa foi realizada, 71% dos leitores que leem toda semana relataram que se sentem felizes. Entre os participantes que não leem com a mesma frequência, apenas 55% fizeram a mesma afirmação. A leitura também é vista como uma atividade de cuidado pessoal e mais de 70% dos leitores disseram que já adiaram ou cancelaram algum compromisso para ler.

Diante da crescente conectividade do mundo atual, pode ser difícil ler sem interrupções ou distrações. Mas, de acordo com a pesquisa, 45% dos participantes têm como meta deixar os smartphones e as redes sociais de lado para conseguirem ler um pouco mais. Em alguns países, as pessoas disseram que preferem ler em vez de dormir ou fazer exercícios.

Leitores usam livros para fazer novos amigos

O hábito da leitura também melhora nossos relacionamentos, pois estimula conversas significativas e conexões mais profundas entre as pessoas. Em todos os países pesquisados, 80% dos participantes concordam que a leitura ajuda a fazer amizades e 81% disseram que gostam de discutir pelo menos um aspecto do livro com outras pessoas.

Até as celebridades aproveitaram esse potencial social da leitura. As atrizes Emma Watson e Reese Witherspoon, fundaram, respectivamente, os clubes do livro “Our Shared Shelf” e “Hello Sunshine,” como uma forma de construir novas comunidades e estimular discussões importantes por meio da leitura. Essa cultura se disseminou e 60% dos participantes disseram que preferem conversar em um clube do livro a beber vinho. E cerca de 45% das pessoas sentem que a leitura lhes deu algo importante para discutir com os outros.

A leitura melhora relacionamentos amorosos

Por fim, a pesquisa concluiu que a leitura pode ser um ótimo estímulo para a paixão. Mais de 65% dos leitores concordaram que os livros são importantes num relacionamento e 41% dos casais afirmaram que discutir sobre livros foi um fator importante para que eles ficassem juntos.

Alguns participantes mostraram que realmente levam o hábito da leitura a sério: 30% questionariam a relação com base nas obras preferidas do(a) parceiro(a) e 29% pensariam em abandonar o relacionamento se o cônjuge não gostasse de ler. Entre os que já namoram ou são casados, 33% recorreram aos livros para resolver seus problemas de convivência e 40% disseram que os romances ajudaram a melhorar seus relacionamentos.

Will Barnet (1911-2012)

Ônibus Serraria, de Marino Boeira

Ônibus Serraria, de Marino Boeira

O título completo do livro é Tudo pode acontecer no Ônibus Serraria e na Zona Sul (Libretos, 118 páginas, R$ 30), mas como o editor deu mais destaque na capa à linha de ônibus, fiquemos com o título resumido.

Marino Boeira costuma publicar deliciosos textos no Facebook. Sou seu leitor. Ultimamente, ele está escrevendo textos mais curtos. Uma pena. Conheço-o também de outras paragens, mas o que interessa é que este informado, culto e divertido senhor de 80 anos produziu um livro que se lê rapidamente, sem cansar. Li numa tarde de sábado e já usei a palavra “delicioso” acima. Ela é perfeita.

Por favor, não pensem no tiozão do churrasco inventando historinhas sem graça. Marino é um cara aposentando — foi professor universitário, publicitário e jornalista — que fica atrás do computador fazendo a gente rir de suas histórias e fazendo-nos pensar em como seria admirável preservarmos a inteligência e ser politizado, ateu, cético, informado e radical sendo octogenário. Além do mais, ele vê todos os filmes interessantes e lê as novidades literárias. E tem um programa de rádio onde o chamam de Mestre e de alguns outros títulos complicados que esqueci. Bem… Aqui já entramos no terreno da auto-ironia.

Sim, ele é um intelectual à antiga, uma daquelas enciclopédia ambulantes que eram mais fáceis de encontrar no passado.

Mas o que é o livro Ônibus Serraria? É uma despretensiosa e inteligente coletânea de crônicas divididas em duas partes: “As histórias que acontecem no Ônibus Serraria” e “As histórias que acontecem na Zona Sul” (de Porto Alegre). Gostei mais da segunda parte, cujas crônicas tratam de traições, sexo (ou da saudade do mesmo), fantasias loucas e filosóficas, causos e da pequena política da cidade. Também a morte está presente, mas o céu de Marino… Bem, leiam.

Achei especialmente boas as crônicas Dona Lucrécia e o Sexo, Direto do CéuCabíria ou Gesolmina e Ficantes & Significantes.

Recomendo.

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P.S. — Sou citado e até ilustrado no livro de Marino… Sou eu ali, com uma camiseta onde está escrito Bamboletras em russo, obra do Santiago.

A citação
A imagem

Enfim, Capivaras, de Luisa Geisler

Enfim, Capivaras, de Luisa Geisler

Quando ocorreu o episódio de Nova Hartz — com Luisa Geisler sendo desconvidada da Feira do Livro da cidade em razão dos palavrões e do “linguajar inadequado” de Enfim, capivaras (Seguinte, selo jovem da Cia. das Letras, 173 páginas, R$ 39,90) –, logo fiquei louco para ler o livro, claro. E aconteceu o que eu esperava: Geisler manteve a (alta) classe e categoria habituais. Trata-se de um excelente romance, de estrutura sofisticada, muito bem narrado por 4 vozes, com boa história e linguajar inteiramente adequado.

Palavrões? Onde, meu deus? Um porra aqui, outro cu ali, um merda e um cazzo lá adiante, em um livro cujos personagens são adolescentes? Isso não é normal? Sem spoilers, conto que a ação de Enfim se passa durante uma madrugada, quando o carro de um dos meninos estraga na estrada e os jovens, sem sinal de celular e sem ter como obter auxílio imediato, passam a noite juntos, procurando alguém que os tire daquela situação. Sexo? Nada, apenas platônicos interesses amorosos. Há um beijo carinhoso de Léo em Vanessa, se não estou enganado. Drogas? Apenas álcool. Violência? Quase nada, O Senhor das Moscas, por exemplo, mereceria tarja preta perto das capivaras de Geisler. Queriam que eles não discutissem ou que discutissem com zero palavrões? Queriam que eles rezassem na beira da estrada esperando uma ajuda do vereador Robinson Bertuol, do PSC de Nova Hartz?

Mas “Para a alegria das crianças e felicidade dos pais, o livro foi retirado de circulação e autora não virá para Feira do Livro de Nova Hartz”, disse Bertuol.

Mas vamos sair do papo absurdo do casto vereador.

Os pais de Vanessa se separaram e ela e a mãe se mudaram para Chapada do Pytuna, em Minas Gerais. Como costuma ocorrer nessas cidades, não há diversão para os jovens. Sobram a bebida, ir à festas nas redondezas ou a invenção. A invenção: Dênis é um baita mentiroso, cria e defende histórias incríveis como o fato de possuir uma capivara de estimação. Então Vanessa, Léo — o menino rico que anda de caminhonete –, Zé Luís — filho da empregada da casa de Léo — e a interessante Nick, vão visitar Dênis para conhecer a tal capivara.

Só que Dênis lhes diz que ela tinha fugido, é óbvio. E, mesmo cética, a turma sai à procura do bicho. E o carro estraga durante a jornada. E o resto eu não conto.

A estrutura é bem engenhosa. Os capítulos obedecem a cronologia e são narrados em primeira pessoa, com os personagens se alternando. Antes de cada capítulo há listas de desejos, intenções e opiniões aleatórias de quem narrará o próximo capítulo. A coisa prende.

Enfim, capivaras é um livro sobre a amizade, as descobertas, as diferenças sociais, as diferenças de quem vive na cidade grande e no campo, as dificuldades de se relacionar, as dúvidas de toda ordem que assaltam os adolescentes e, digo mais, acho que poderia ser adotado por escolas mais avançadas. Em vez de fazer seu adolescente babar dormindo sobre Iracema, dê-lhes capivaras, professor!

Recomendo.

Acho que esta foto de Luisa Geisler não foi tirada em Nova Hartz | Foto do Facebook da autora

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

Ou o humor na obra de Dalton Trevisan

Ernani Ssó

Sem busto de vampiro na pracinha

Quando o Márcio Renato dos Santos, curador da FLIBI (Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná), me ligou pra perguntar se eu topava falar sobre o humor na obra do Dalton Trevisan, eu disse sim no mesmo segundo. Foi uma irresponsabilidade, claro. Eu gosto de humor e reli muito o Dalton, mas não sou um especialista em nada, apenas alguém com curiosidade. É bem provável que as pessoas que me ouviram podiam trocar de lugar comigo com grande vantagem.

Mas eu sinto que tenho uma dívida com o Dalton. Não só eu, o Brasil também tem, e como tem. Mas vamos deixar o Brasil pra lá, eu só pago as minhas dívidas e de preferência as que não envolvem dinheiro.

Os críticos reconheceram que o Dalton é um grande escritor, claro. Todos nós sabemos disso. Mas, veja, reconheceram e em seguida saíram de fininho. Fora o Ivan Lessa, não lembro de ninguém que festejasse o Dalton. Até autores de segunda são festejados no Brasil, ou Bananão, para os íntimos. Será porque ninguém tem coragem de botar busto de vampiro na pracinha?

O diabo é que o Dalton é mais profundo, mais preciso e com maior domínio técnico que todos esses concorrentes a miss simpatia que enchem jornais e academias, ou que se dedicam mais à divulgação do que a escrever.

Bem, me desculpem a empolgação, ou não desculpem, porque é mais do que justificada. E como não consegui falar nem um terço do que anotei, volto ao assunto, espero que um pouco menos confuso.

Falta de humor

Vocês não sei, mas eu deploro a falta de humor na literatura brasileira. Sim, sempre se fala no humor do Machado, ou do José Cândido de Carvalho ou do Campos de Carvalho. Mas mesmo os que se dizem machadianos ou cantam sua admiração por Campos de Carvalho, na hora de escrever assumem um arzinho de sobriedade senhorial. Quem é o herdeiro do deboche brincalhão de José Cândido de Carvalho? Eu não conheço. No máximo vi a linguagem que José Cândido criou ser chupada pelo Dias Gomes na novela O bem-amado. Até um humorista como Millôr Fernandes dizia que humor não é pra rir, mas fazer pensar. Ele parece se defendendo da velha acusação do Aristóteles de que a comédia é menor, que a tragédia é que está com tudo.

Parece que se confunde seriedade com cara fechada, com solenidade. É óbvio, qualquer um pode ser raso ou mesmo idiota com a cara mais solene do mundo e enganar os trouxas. E qualquer um pode ser profundo e risonho ao mesmo tempo, vide o Oscar Wilde, o exemplo mais caindo de maduro. É como dizia Cortázar: como se Cervantes fosse solene, carajo! Ou alguém tem coragem de dizer, ainda hoje, que o Quixote não é sério, que não trata de uma das grandes misérias humanas, o desajuste entre a realidade e nossos desejos? Melhor ainda: trata de um modo exemplar, que continua fazendo sentido e sendo divertido quinhentos anos depois. Os sérios profissionais têm de engolir que o primeiro e talvez mais importante romance seja um romance cômico.

Há quem atribua a pose de seriedade e a linguagem empolada de grande parte da literatura brasileira à nossa tradição bacharelesca. Pode ser, não? Começamos com muitos advogados, muitos deles de classe média, ou mérdia, como dizia o João Antônio. A primeira coisa que o cara fazia – ainda faz, na verdade – era esfregar na cara da patuleia o seu anel, sem jamais desconfiar da sua cafonice. Eu sou doutor. Olha com quem está falando – aí o chorrilho de palavras difíceis, pretensamente bonitas, com surtos gramaticoides cabeludos. Exagero meu? Leia as “poesias” de Ayres Britto, pra sentir o gostinho.

O humor apareceu muito mais na crônica, me parece. Um gênero considerado menor, pra jornal, pra consumo de gente que nem lê livro. Pode ser que isso tenha contribuído pra que alguns autores escrevessem com mais naturalidade. Se você senta pra escrever com o peso de fazer grande literatura, de desbancar Dante e Goethe, talvez embatuque, não? Veja o Cervantes, que se saiu melhor justamente quando sentou pra escrever um livro sem ambição, uma mera sátira aos romances de cavalaria. O certo é que temos grandes cronistas, mas, o nível desses cronistas a mim, pelo menos, parece maior que de nossos ficcionistas. Digo isso de um modo geral, bem entendido. Eu gostaria muito de ler um romancista do nível do Rubem Braga, pra começo de conversa.

Fomos mais felizes na música popular, não? Nossa música tem relevância internacional, coisa que não acontece de jeito nenhum com nossa literatura. Nossa música popular, também de um modo geral, escapou da maldição do doutor. Veja a quantidade e a qualidade de grandes letristas cheios de humor: Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Aldir Blanc – seria tão bom que muitos dos nossos poetas tivessem o talento deles. Mas até o baixo clero se mostra humorado. Pra não ir mais longe, o Erasmo Carlos, no começo da Jovem Guarda, era muito bem-humorado.

O caso do Chico é estranho. Com letras geniais, muitas cheias de humor, na hora que sentou pra escrever romances, em geral ficou chato, sem bossa nenhuma. Deve ser praga dos imortais da academia.

O humor, como tudo, tem vários níveis. O que o Renato Aragão faz é humor. Mas, não vamos esquecer – porque faz bem ao coração e ao fígado –, o que Jorge Luis Borges e Julio Cortázar fizeram também é humor. Se você cortar o humor da obra deles, vai fazer um estrago e tanto. O humor está inclusive na visão de mundo deles. Mas quem pensa neles como humoristas? Mal se pensa neles como escritores com senso de humor.

Eu até gosto de comédias que são apenas comédias. Mas, desde o começo – gosto que se acentuou com os anos –, prefiro a comédia dramática, ou a tragicomédia. É um gênero complicado, porque misturar dois elementos de climas tão diferentes, tipo mocotó com limonada, exige pulso muito firme, muito tato, muito faro pra equilibrar tudo. Mas me parece que é o gênero que está mais próximo dessa mixórdia que chamam de – pra agravar, em maiúscula muitas vezes – vida.

Aristóteles dizia que a tragédia é superior à comédia porque a comédia não tem a dor. Podemos inverter a frase: a tragédia é inferior porque não tem o riso ou o ridículo. Eis o ponto: a tragicomédia tem tudo.

Acho que é aí que o Dalton Trevisan se enquadra.

O humor do Dalton

O humor dele é pouco explícito e é, praticamente sempre, negro, ou ironia gótica, como disse a crítica Barbara A. Bannon. Por falar nisso, há um achado que considero genial no conto “Três irmãos”, em O rei da terra: “Logo está lavando as mãos e abrindo os armários – não é o espelho o melhor esconderijo de um fantasma?”.

Vocês sabem, há humor pra se gargalhar, pra rir, pra sorrir, às vezes apenas mentalmente, e há um humor tão duro, tão cortante, que nossa reação talvez seja o silêncio ou uma exclamação de espanto. Há no Dalton de tudo um pouco, mas, claro, o predomínio é de Jack, o Estripador, disfarçado de palhaço. Outra coisa amarga: os heróis dele são tão escrotos que não dá pra gente torcer por eles.

Meu exemplo favorito, pra ilustrar essa quizumba, é de um conto chamado “Barata leprosa”, que acho que li no Pasquim e nunca encontrei em livro, que me lembre. Trata-se de um suspiro de absoluta solidão: “Ah, se eu tivesse uma dessas mulheres de plástico, como eu a faria feliz!”

Às vezes a coisa está na linguagem. Mas com o Dalton nunca é apenas a linguagem, as palavras estão a serviço sempre, nunca por elas mesmas. A dor mais banal, com um pequeno toque de mão, se revela patética, sem falar que traça a estreiteza do universo da personagem, como nesse lamento de incompreensão de uma mãe tirada das páginas de A trombeta do anjo vingador: “Era cruel com o velho por amor ao filho? Como podia o filho não ficar ao seu lado? Se não era ela, quem enchia de água o filtro? Sempre lavando e chorando, varrendo e rezando, quem sabia fritar o ovo dos dois lados?”

Como disse, talvez na maioria dos casos seja mais ironia que humor. Isso acontece com Machado também. Só que no Machado isso é notado e cantado em prosa e verso. Pelo menos hoje em dia. Daqui a cem anos, por motivos de força maior, não terei como saber o que aconteceu, mas tenho minhas dúvidas de que haverá muitos interessados em ter vampiro como modelo. Quem tem jugular, tem medo.

Cortes e recortes

Há uma observação do Stevenson, num ensaio, que me parece de uma sensatez luminosa. Se você pede pra um menino contar seu dia, ele não vai dizer que ao se levantar desabotoou seis botões do pijama, deu quinze passos até o banheiro, abotoou tantos outros botões da camisa, tomou sete goles de café com leite, mastigou vinte vezes o pão com manteiga e desceu vinte e dois degraus pra sair de casa. Ele vai separar os fatos significativos, apenas. Daí que não interessa o acúmulo de descrições e detalhamentos, embora muitos escritores insistam, por pura tara ou tomado de uma espécie de êxtase.

O Dalton, entre dezenas de fatos e de detalhes, separa só os que interessam, quer dizer, aqueles que ilustrarão a ausência do resto, porque os silêncios, as lacunas são parte integrante do texto. Pra isso é preciso ter ótimo olho e precisa, também, ter vivido um pouquinho, não? Sem ter vivido e pensado no que se viveu não se tem a menor ideia do que importa.

O fato de Trevisan ser econômico ao extremo, de apostar em detalhes às vezes ínfimos, exige muito do leitor. De modo que é preciso reler – e reler como um Nero Wolfe examinando o depoimento de um suspeito. A cada releitura, nos damos conta do quanto deixamos escapar. A cada releitura, o Dalton se revela melhor do que pensávamos.

Vejamos um trechinho do dia a dia de um viúvo em Desgracida: “De volta à Pensão Bom Pastor com um jornal, às vezes uma revista. Um pouco de jornal, daí o rádio, logo me chateio. Mais jornal, suspiro, os pequenos anúncios, gemido. No fim começo a falar sozinho. Sabe que faz bem?”.

Deu pra notar? Ele recorta com tesourinha uns cacos de realidade e os cola numa ordem e com uma precisão perfeitas, quero dizer, de um modo que o efeito é cem vezes mais poderoso do que um acúmulo de cenas ou descrição de três páginas de lágrimas e lamúrias. É isso o que o humor e a poesia fazem quando são humor e poesia pra valer.

Acho esse trecho exemplar. Repito, o Dalton é o verdadeiro gigolô das palavras. Ele bate nelas pra mostrar quem é que manda no pedaço. No texto dele, as palavras nunca estão lá pra se exibirem apenas. Estão sempre em função da expressão. Elas são sempre meio, nunca fim.

Por falar nisso, li em algum lugar que o estilo do Dalton é antiliterário. Não entendi no primeiro segundo. Tive de lembrar que o pessoal acha Iracema, do José de Alencar, literatura. Bom, é literatura, no mau sentido do termo.

Pequenos fatos, pequenas observações

Há muitos exemplos de humor em pequenos fatos, ou em observações de passagem. Vejamos alguns.

No conto “Morte na praça”, há uma ceninha em duas frases: “à passagem do morto as lojas iam fechando as portas. Os homens revezavam-se nas alças do caixão: o cemitério perto, mas o defunto pesado.”

Detalhes realistas, simples. Primeiro, o fechamento das lojas indica um costume da época, talvez um respeito convencional, todo mundo se conhece na cidadezinha. Depois, a troca nas alças do caixão. Até aí, tudo normal, o leitor pode pensar várias coisas, até que os homens se revezam pra todos terem oportunidade de carregar o morto. Mas quando Dalton nota que o cemitério é perto e o defunto pesado, temos algo cômico. Ele não se deixa contaminar pela solenidade da situação. Na verdade ele premeditou a coisa. Veja, se ele diz apenas que o cemitério é longe ou que o defunto é pesado, não tem graça. Se diz que o cemitério é longe e o defunto pesado, força a barra, a graça diminui. Mas ao contrastar a distância e o peso, ele faz a formulação perfeita.

Lembrem do Mario Quintana falando do mistério da comicidade. Se você vê um perneta descendo a ladeira, qual a graça? Mas se você vê três pernetas descendo a ladeira? Há inumeráveis detalhes nos contos que provam que esse mistério não é nada misterioso para o Dalton.

Há quase a mesma piada no conto “Uma coroa para Ritinha”, do volume Abismos de rosas. Quase, porque aqui o cômico é melancólico, poético até. Vejamos: “Ali do cemitério poderiam ir todas para o bordel das normalistas. Disputavam uma alça do caixão, a da frente reservada para ele, que abria o cortejo. Como é que, tão leve nos seus braços, pesava tanto no caixão?”

Vocês lembram do conto “O caniço barbudo”, do livro Frufru Rataplã Dolores? O herói é todo doente, apaixonado pela mãe e, claro, tem ódio do pai. Quando o velho morre, o herói “Renova sempre a assinatura do jornal preferido do pai. Despreza as notícias de terremoto, ataque terrorista, inundação diluviana. O interesse antes nos pequenos anúncios que no fim do mundo”.

Talvez se possa dizer que o Dalton também despreza terremotos, ataques terroristas, inundações diluvianas. Que o negócio dele, como escritor, são os pequenos anúncios. Ele lida com os dramas cotidianos, muito particulares. Naturalmente que esses dramas valem em qualquer canto do mundo. Ele trabalha com uma lupa, nunca olha de longe, os movimentos das tropas não interessam, ele quer saber por que certo soldado manca. Ele é o ás do detalhe preciso, mas que muitas vezes parece banal. Quando digo preciso quero dizer que através dele temos o resto, a pessoa toda e, se somos chegados a somar dois mais dois, essa pessoa dentro do dito contexto maior. O mundo indo para o brejo e o camarada se queixando de que o sapato aperta o calo no joanete. Como se vê, é um retrato aterrorizante do bípede implume – o egoísmo, a irrelevância, a burrice extrema.

Se lermos com cuidado uns dez dos melhores contos do Dalton, compreenderemos mais facilmente o que acontece no país hoje do que lendo todo o jornalismo da grande imprensa. Mais, compreenderemos inclusive a calhordice da grande imprensa com seus eminentes colunistas chapas-brancas. Não conheço obra que tenha mais gente canalha ou burra ou maluca. Ou gente com tudo isso e mais alguns novos predicados.

No conto “O segredo do noivo”, do livro O rei da terra, temos um rapaz atormentado por um drama que só podemos supor. Ele quer mostrar pra noiva o que o atormenta, como quem deseja mostrar um objeto que precisa de distância e discrição. Ela não aceita, prefere casar e resolver tudo depois. Ele avisa: se você não for minha, não será de ninguém. A insinuação, claro, é que ela “não pode” ser dele.

Bom, na noite antes do casamento temos a seguinte cena: “Não dormiu aquela noite, a família ouviu que João andava pelo quarto. Três tentativas ele fez e nem uma deu certo: prendeu um fio no teto, amarrou na ponta um lápis vermelho e com a força do pensamento queria girá-lo. Com a mesma ordem dos olhos encarniçou-se por apagar a chama de uma vela. A terceira é muito triste para contar”.

Esse fecho é perfeito – e muito engraçado. Mas qual seria essa triste terceira tentativa? Alguém aí tem um palpite? Tremo só em pensar no que um psicanalista diria. Talvez, pra começo de conversa, que o lápis vermelho é um símbolo fálico. Afinal, tem forma cilíndrica e é vermelho, não? Fazer girar o lápis com o pensamento seria a vontade de fazer o pingolim se levantar? E apagar a chama da vela? Apagar o desejo pelas mulheres e tocar a vida? Mas a terceira tentativa ainda é mistério.

Pelo menos um exemplo de humor direto, brincalhão. No conto “Vozes no retrato” (na versão mais recente, não a de Desastres de amor:

“Com arte feiticeira desencantara um retrato de João.

“– Credo! Olhos fatais de Dom Pedro Primeiro”.

De volta ao grotesco. No conto “A gorda do Tiki Bar”. Primeira linha, a ironia direta: “Cambaleou na luz negra do inferninho: quanto mais escuro, mais lindas rainhas”. Mais adiante, ainda na mesma linha: “Credo, bem. Mais tarado que o meu marido”. Por fim, isto: “Nu, de meia preta e relógio de pulso. Ela surgiu balouçante na pontinha do pé, encheu todo o quarto. Se não a esperasse, teria gritado de susto”. Parece que estamos numa daquelas comédias do cinema italiano da década de 70, quando os índices relativos do ar eram carregados de sarcasmo.

O vampiro de Curitiba

Vamos falar do conto “Vampiro de Curitiba”? Talvez seja inevitável, deve ter gente esperando, vão me cobrar se não falo. Quem sabe o Dalton, com uma obra tão extensa, sinta algum ressentimento por esse conto, que recebe um destaque que em muitos momentos ele pode sentir como imerecido. Ou, nessas alturas, pode ter se resignado, não? Tanto que aceitou ser chamado de Vampiro de Curitiba, confundindo a imagem do escritor – que jamais deu moleza pro sentimentalismo, segundo muitos o principal fator de sucesso – com a do tarado escroto.

Seja como for, o fato é que esse conto se destaca, mas, veja, não porque o Dalton não tenha muitos outros contos tão bons quanto esse ou melhores. Literatura não é concurso de miss, onde se mede a beleza com fita métrica, o que, em minha opinião, é uma ofensa às mulheres em geral e à Fanny Ardant em particular.

Não gosto muito de comparar autores ou livros. Não acho que seja justo. Cada autor, cada livro têm suas intenções, mexem com coisas secretas e profundas que às vezes mal transparecem, enfim, são aventuras diferentes. Depois tem a pessoa que avalia, com suas manias e miopias – mais importante, com seus segredos que às vezes não confessa nem a si mesma mas que o texto pode despertar. Ao comparar dois autores o que mais aparece somos nós mesmos. Eu, faço questão de reconhecer, gosto de coisas diferentes conforme a época, ou até o dia. Ou gosto das mesmas coisas de modo diferente, conforme o tempo.

Acho que o que faz a diferença nesse conto é que ele nos dá um personagem – e nos dá de corpo inteiro, em poucas páginas. Só isso já é imenso. Mas isso é feito num conto que nem tem enredo, não tem história. É só um cara divagando enquanto olha as mulheres na rua.

Quem encarna na gente é o personagem. É que nem o Quixote, que em seguida não precisou mais do Cervantes. Até o Rocinante logo não precisou do Cervantes. Eles, o Nelsinho, o Quixote e o Rocinante andam por aí sozinhos, independentes. Como no caso do Cervantes, muita gente que não leu o Dalton já ouviu falar do vampiro de Curitiba.

Acho que isso acontece, primeiro, porque o Dalton acertou no retrato, que é feito menos de fatos do que de um modo de falar e de ver o mundo. Segundo, porque esse sujeito, em toda a sua escrotidão, encontra eco na gente ou em nossa memória, em nossa experiência.

Vejamos isso melhor. Quando Nelsinho vê na rua uma mulher com o marido, pensa: “Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama – acho que ficaria inibido. No fundo, herói de bons sentimentos”.

Essa observação me lembra outro personagem de um conto de que não lembro o nome. O sujeito diz: “velho sujo também tem sentimentos”. Talvez nossa identificação, maior ou menor, com o vampiro de Curitiba seja o reverso disso: boas pessoas também têm sentimentos sujos.

Outra coisa: esse conto é cheio de energia, é contagiante e engraçado. Pelo menos eu acho engraçado. O que não dá pra negar é que é extremamente irônico. E a ironia às vezes se volta contra o próprio personagem, que por alguns segundos parece se dar conta da própria loucura.

Nelsinho se define nas primeiras frases: “Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz”.

O sexo é o caminho da felicidade mas é um perigo mortal. Pobres mulheres. Porque Nelsinho atribui a felicidade e a dor a elas, felicidade e dor inseparáveis. Curitiba está menos no mapa do Brasil do que no Velho Testamento, a meio caminho entre Sodoma e Gomorra. Nelsinho não pensa que tem parte ativa no negócio. Até o fato de ele ser um canalha, oco de pau podre cheio de aranhas e escorpiões, é devido à existência das mulheres.

Em outros contos isso é levado ao delírio. O sexo trazendo embutida a punição pelo prazer. Lembrem-se de personagens transando com as mulheres mais horrorosas. O velho sujo, em nome dos seus sentimentos, tem de se punir. É uma doença monstruosa.

Há outra coisa presente em todo o devaneio do vampiro. A boquinha dela está pedindo beijo, certo? Mas onde o sinal disso? Pro Nelsinho o fato de essa boquinha existir e ser bonita é prova de que está pedindo beijo.

Mesmo que isso fosse verdade, pede pra quem? Nelsinho jamais pensa que uma mulher pode ter desejo e esse desejo ser legítimo e natural – e, note-se, com endereço específico. É sempre uma safadeza, um pecado. Se o desejo é por ele, é porque ele é poderoso, nada menos.

Não é exatamente assim que pensam os que dividem as mulheres entre as que merecem ou não merecem ser estupradas? Frase, aliás, que poderia ter sido dita por Nelsinho.

O estupro pode ser apenas o exercício da lei do mais forte, lei tão onipresente quanto a lei da gravidade. Mas em muitos casos também é punição. Pela lógica do vampiro, mulher nenhuma tem o direito de ser bonita, de querer ser vista e de não ter interesse pela maioria dos homens ou ter, que Deus atalhe, por outras mulheres. E se se entregar a muitos homens, é a pior das putas, merece a morte do mesmo jeito. Enfim, nas mãos do vampiro, mulher nenhuma tem escolha nunca. Ou é a Virgem Maria ou a puta da Babilônia.

Peço paciência: vamos pensar no óbvio ululante.

Por que uma mulher não pode ser vaidosa? Por que ela não pode desejar ser admirada? E, ao mesmo tempo, dar apenas pra quem ela quer dar? Só porque ela é bonita e vaidosa tem de pagar pedágio pra todo marmanjo que aparecer?

Os homens também não são vaidosos? Também não querem ser admirados por todas as mulheres? Mas, ao mesmo tempo, não querem ser agarrados por todas, só pelas que acham bonitas e interessantes, não é mesmo?

Olha, estou mastigando isso tudo porque conheço muita gente que acha que o Dalton está ultrapassado, que fala de um mundo que não existe mais, que Curitiba não está mais entre Sodoma e Gomorra apesar do esforço dos fundamentalistas evangélicos. Esse mundo poderia dizer, como Mark Twain, que sua morte foi um tanto quanto exagerada.

Há algumas semanas li, não lembro se no El País ou no UOL, as seguintes manchetes: “A cada 4 minutos, uma mulher é espancada”; “A cada 4 horas, uma menina com menos de 13 anos é estuprada”.

Nelsinho continua em ação. Sem bigodinho, mas é ele, talvez fazendo o tipo lenhador. Sem dente de ouro, agora com dente de porcelana, mas é ele.

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

Uma das maiores tragédias da minha vida é já ter lido os Pickwick Papers — não posso voltar atrás e ler pela primeira vez.

Fernando Pessoa

Dickens é uma das felicidades da vida, uma das razões para se ter medo da morte.

Charlles Campos

Dias atrás, após mais uma leitura de notícias absurdas de Brasília, com participação especial atuação de ministros como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, presidente e filhos, etc., lembrei de um livro cômico muito fora de moda que li na juventude, As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens (1812-1870).

The Posthumous Papers of the Pickwick Club (mais conhecido em países de língua inglesa como The Pickwick Papers) foi escrito por Dickens entre 1836 e 1837. Na verdade, foi publicado em 20 partes mensais entre abril de 1836 a novembro de 1837, sob o pseudônimo de Boz. Ele apresenta nomes diversos tanto no Brasil quanto em Portugal, com variações como As Aventuras do Sr. Pickwick, Os Cadernos de Pickwick, Documentos de Pickwick, Os Papéis de Pickwick e Documentos do Clube Pickwick.

O romance narra as aventuras de um grupo de estudos científicos, o Clube Pickwick, composto pelo líder Mr. Pickwick (uma espécie de Quixote) e seus três pupilos: Mr. Tupman (o celibatário sempre apaixonado), Mr. Snodgrass (o poeta) e Mr. Winkle (o esportista). Financiados pelo clube, eles viajam pela Inglaterra — com particular ênfase no interior do país — fazendo descobertas e observando o desenvolvimento da ciência, assim como analisam as diversas variações no comportamento humano.

Mas todos são muito burros e suas conclusões são inacreditavelmente cômicas. Eu morria de rir lendo o livro. Não posso dizer que faça o mesmo lendo o que dizem Ernesto Araújo e Weintraub, mas a idiotia está tão presente que, se morasse longe do Brasil, riria deles.

O livro foi fundamental na carreira de Dickens. Ele obteve enorme êxito literário e reconhecimento popular durante a publicação do livro. Há um personagem sensacional, o criado do Sr. Pickwick, Samuel Weller. Sua entrada no romance teve efeito devastador, foi um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa fez com que as vendas mensais explodissem. Imaginem que foram vendidos 400 do número 4 e, após o surgimento de Weller, as vendas cresceram de tal modo que chegaram a ser impressos 400.000 exemplares dos últimos números.

Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, suspirou: “Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Pickwick Papers, graças a Deus.”

Outro dos personagens do livro, o gordo Joe, foi utilizado posteriormente para caracterizar uma patologia alcunhada como síndrome de Pickwick (ou A Síndrome da Hipoventilação Alveolar da Obesidade), posto que Joe descreve fielmente um quadro da doença: obesidade e sonolência excessiva, acompanhadas de demais sintomas.

O livro tem muita crítica social. Quem está lá? Notem o que há em comum com o Brasil de hoje:

— A religião e os falsos pregadores, ou pregadores corrompidos.

— Os advogados e o atravancamento na execução da justiça, a distorção de leis e possíveis processos de corrupção.

— A magistratura corrente à época, que concede poder a cidadãos apenas voltados aos próprios interesses da classe.

— Os políticos e sua conduta desonesta, bem como o eleitorado irresponsável.

— O jornalismo sem compromisso com a verdade, o respeito e a imparcialidade.

— A sociedade burguesa, com sua hipocrisia e conduta interesseira.

— A corrupção do sistema carcerário de devedores e a falta de assistência ao cidadão mantido em regime fechado (muitos presos pobres morriam de fome e frio nas prisões, enquanto sistema jurídico permitia brechas que auxiliavam apenas os devedores ricos).

— O sistema de justiça, que desfavorecia o devedor trabalhador.

— O novo estado das relações entre patrão x empregado, motivado pelo advento da burguesia e da revolução industrial.

A tudo isso junta-se um turbilhão de boas piadas, ridicularizando a sociedade e entendendo como “naturais” as diferenças sociais. Weller (ou Veller) é inteligentíssimo — tem soluções fáceis para quase tudo — e portanto sabe da burrice do Clube Pickwick, mas como é o criado… Além disso, há uma pesada crítica ao espírito cientificista da época. Os personagens principais, embora abertos aos procedimentos racionais da ciência, demonstravam grande inabilidade para situações que exigiam praticidade e que protagonizam a maior parte dos episódios cômicos do livro.

Ainda me lembro da surpresa de que Dickens poderia me fazer rir alto, e foi isso que me fez amá-lo.

Pickwick é desigual e heterogêneo, mas genial. Como diz Chesterton, “Em Pickwick, Dickens não escreveu exatamente literatura, escreveu mitologia”.

Texto parcialmente copiado (adaptado) de fontes diversas.

Essa gente, de Chico Buarque

Essa gente, de Chico Buarque

Não li todos os livros de Chico Buarque, mas penso que, com alguma margem de segurança, possa dizer que este é seu melhor, ao lado de Budapeste. Manuel Duarte — notem a semelhança sonora com Chico Buarque — é um escritor que gosta de caminhar pelo Leblon, cuja grande obra foi escrita no passado e ainda é muito respeitada.

O livro é escrito em pequenos capítulos como se formassem um diário. São escritos, é claro, na primeira pessoa, só que por vários personagens. (Há uma voz misteriosa que narra em terceira pessoa).  Essa gente é duro, muito carioca e inclui fatos muito recentes. Imaginem que o diário finda em 25 de setembro de 2019. Duarte é autor de diversos livros, dentre eles um sucesso estrondoso — O Eunuco do Paço Real -, mas hoje produz pouco e está na pindaíba. Tem duas ex, uma tradutora e uma decoradora que depois se especializou em procurar homens ricos e liberais do ponto de vista sexual. Com a primeira mulher, tem um filho pré-adolescente com o qual mal conversa.

Enquanto escreve um novo livro e espera pela reedição do Eunuco, Duarte anda atrás de dinheiro e de mulheres. Das suas ex e de Rebekka, uma holandesa, mulher de um salva-vidas muito considerado no morro. O autor não parece muito apaixonado por seus personagens, parece mais fixado e estarrecido pelas circunstâncias, pela conformidade das pessoas em relação à vida que levam, pela comédia que é ignorar o que se passa. É um livro que mostra o espancamento de um mendigo, o bullying sofrido por uma criança em razão de ser filho de “gente de esquerda”, a humilhação de porteiros, tudo coisa normal. É um triste cenário de decadência moral com gente preocupada em salvar sua pele em primeiro plano. É uma realidade estranha, violenta e trágica. O final é especialmente enigmático. Chico nos deixa com o pincel na mão para pintarmos o que se quisermos. E a gente só pensa em tinta preta e em vermelho sangue.

Chico Buarque: retrato do Rio de Janeiro e do Brasil | Foto: Divulgação

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone

Se minhas resenhas são exemplos de jornalismo gonzo, esta talvez bata meus recordes no estilo. Eu conheço Clara Corleone faz algum tempo. Leio seus textos nas redes sociais e gosto deles. Certa vez, tivemos uma dessas tretas de internet — tenho problemas reais com textos que possam levar a linchamentos virtuais — e certamente seríamos inimigozinhos se Clara não fosse tão generosa ao iniciar um papo meio bobo inbox, semanas após a confusão. Agradeço muito a ela, que tem a enorme sabedoria de não cultivar bobagens, pois eu exagerei feio na crítica. Mas fazer o quê? Ela me mostrou o caminho e eu fui. O cômico é que algumas pessoas arregalam os olhos quando digo que estamos de boas, que conversamos, que já tive a honra de participar do sarau literário que ela mantém, que uma de suas irmãs trabalhou na Bamboletras, etc. Bem, espero que ela tenha notado que não sou totalmente escroto…

O homem infelizmente tem que acabar é uma coletânea revisada das melhores crônicas de Clara. A primeira questão seria examinar se os textos suportariam a passagem para o formato livro ou se tornariam um saco vazio. Não, o papel lhes caiu muito bem.

Os temas são conhecidos de quem a lê: o sexo — início (abordagem), meio (convivência) e fim (separações) –, o feminismo, as diversas formas de assédio, o medo, o amor, com sua poesia e sacanagem, o machismo circundante e a sorte de ter uma família calorosa e sensacional, tudo pontuado com muita música e sarcasmo.

Clara não faz grandes teses, mas dá exemplos e exemplos a respeito de como (sobre)vive uma mulher solteira e sexualmente ativa numa cidade como Porto Alegre. Olha, não é fácil, não há paz nem para passear com as cachorras no bairro Bom Fim. Eu nunca assobiei ou chamei mulher de gostosa na rua, mas é óbvio que me reconheci em algumas posturas de machismo mais sutil. Só que também comemorei. Não sou 100% tosco.

Mas sabe o que é bom mesmo no livro? A autora. Ela é uma jovem na primeira metade dos 30 anos que gosta do melhor cinema, da melhor música brasileira e que sabe misturar sua enorme cultura e bom gosto em narrativas do dia a dia. Como deve ter uma jukebox em permanente funcionamento na cabeça, Clara também tem o costume de surpreender, integrando perfeitamente letras de canções em meio aos textos. O bom humor é onipresente e ele torna a crítica mais potente. Clara não tem nada do estereótipo da feminista mal-humorada — provavelmente criado por nós, homens — e está rindo e nos ridicularizando, mesmo que aprecie nosso instrumental. E os textos poéticos sobre o amor são excelentes.

Como não sou um leitor em busca de teses e penso que a ficção e os casos bem contados arranham mais a realidade do que os ensaios, gostei muito de O homem infelizmente tem que acabar. O título? Ora, leia o livro que você entenderá. Tem que acabar mesmo.

Clara Corleone em seu sarau no von Teese | Foto: Carolina Disegna

9 Histórias, de J. D. Salinger

9 Histórias, de J. D. Salinger

Há umas quatro décadas, literalmente, li este livro na versão Nove Estórias, da Editora do Autor. Tinha uma bonita lembrança dele, principalmente do conto Um dia perfeito para peixes-banana.

A estreia de J. D. Salinger na literatura ocorreu com o clássico O Apanhador no Campo de Centeio em 1951. 9 Histórias, que li agora na nova e bela tradução de Caetano Galindo para a Todavia, foi seu segundo livro, publicado em 1953. Sete dos nove contos haviam sido antes publicados na revista The New Yorker e eles guardam alguns pontos de contato com o romance de estreia ao retratar uma boa galeria de jovens entre o inteligente e o desajustado. Trata-se de uma reunião de contos não planejada para formar um livro, mas o todo funciona muito bem ao apresentar uma corrente comum de bem humorado descontentamento.

Eu cultivo uma mania quando leio livros de contos. Costumo atribuir-lhes notas de 0 a 5. 9 Histórias alcançou a média de 4 e não lembro de outro que recentemente tenha chegado a tanto. Adorei o livro, claro.

Cada uma das histórias é um relato impreciso sobre a maneira de como os personagens se movem no mundo e interagem entre si. São basicamente diálogos e ligações telefônicas onde são articulados sentimentos e posturas. Não há divagações do autor e muito menos longas descrições. Os personagens de Salinger têm enorme capacidade para desencadearem bons diálogos. Isso geralmente toma a forma de uma criança em conversa com um adulto recém-encontrado, como Sybil e Seymour nos Peixes-banana, Esmé e o Sargento X em Para Esmé, com amor e sordidez, Teddy e Nicholson em Teddy. Os adultos costumam ser bem mais chatos, mas se surpreendem com a sabedoria despretensiosa dos mais jovens. Mas jamais podemos esquecer do sensacional diálogo adulto entre os “amigos” de Linda a boca, e verdes meus olhos

Em algumas histórias, como em O Gargalhada e em partes dos Peixes-banana e em Lá no bote, a narrativa é angulada em perspectiva oblíqua — o personagem principal está sendo descrito por outros através dos quais o leitor o vê. Mais: em todas as histórias, independentemente da perspectiva, a narrativa é cercada por fatos de significado dúbio. Nada é gritado de forma deselegante. Tudo é sugerido ou parece enfiado ali casualmente. No entanto, o leitor atento que consegue sintonizar com a frequência peculiar de Salinger, verá o que é fundamental — a inocência, o arrependimento, a esperança, a saudade, o amor e a loucura.

Isto é, 9 Histórias tem histórias simples com um leque de significados que vão variar conforme a experiência do leitor. Li o livro há muitos anos e esta leitura de agora foi muito diferente, talvez mais rica. Cada conto é digno de ser lido, relido e trêslido. Há neles sutis menções a uma crescente cultura do ego e a uma imensa e gloriosa sugestão de que falta algo no mundo de todos nós.

Um grande livro.

Três sugestões imperdíveis e mais

Temos 3 ótimas sugestões de livros e 3 sessões de autógrafos esta semana na Bamboletras. Vamos primeiramente aos autógrafos:

— Quinta-feira (10), às 19h, Ricardo Almeida lançará seu novo livro, A Consistência do Verbo.

— Sexta-feira (11), às 19h, teremos o lançamento e sessão de autógrafos de A Patologia Coletiva, de Alexandre Appio.

— Sábado (12), às 16h, Jorge Hugo (Jottagá) Souza Gomes assinará Plinc, o livro e Plinc, a música, livro e CD. E haverá show!

E agora, nossas 3 sugestões de livros.

O homem que odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior (237 págs, R$ 39,90): Um livro divertidíssimo que narra a história fictícia de Pedro Junqueira, um filho mimado de um grande produtor de café, que vem a perder a mãe ainda criança e é obrigado pelo pai a morar com a tia na fazenda no Morro do Livramento, onde é obrigado a conviver com o mulato Joaquim, de mesma idade, protegido de sua tia. Logo a animosidade se instala entre os dois, fato que traria consequências por toda a vida dos dois garotos, influenciando diretamente as principais obras do considerado o maior nome da literatura no Brasil.

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone (248 págs, R$ 44,00): Com textos francos, debochados, bem-humorados e linguagem despretensiosa, Clara Corleone narra criticamente as aventuras da vida de solteira a partir de uma ótica feminista. O livro aborda empoderamento feminino, relações amorosas e uma atribulada rotina de trabalho dividida entre a ONGs, um estpudio de produção de desenhos animados e a atuação como hostess de um bar durante os finais de semana. Prepare-se também para rir bastante.

Escravidão — Volume I, de Laurentino Gomes (479 págs, R$ 49,90): Depois de receber diversos prêmios e de vender mais de 2,5 milhões de exemplares no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos com a série 1808, 1822 e 1889, o escritor Laurentino Gomes dedica-se a uma nova trilogia de livros-reportagem, desta vez sobre a história da escravidão no Brasil. Resultado de seis anos de pesquisas e observações, que incluíram viagens por doze países e três continentes, este primeiro volume cobre um período de 250 anos, do primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal, na manhã de 8 de agosto de 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares.

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVII – Dom Casmurro, de Machado de Assis

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVII – Dom Casmurro, de Machado de Assis

Sim, aos poucos estou relendo Machado. E me surpreendendo, pois li Dom Casmurro na adolescência e tinha a memória de um bom livro, mas não a clara noção da autêntica obra-prima que é. Publicado em 1899, o Casmurro é o terceiro da série de 5 grandes romances finais de Machado. Os anteriores são Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891) e os seguintes são Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). (De entremeio, também temos o desconhecido Casa Velha, de 1885). A história é contada na primeira pessoa por Bentinho. Ele é o célebre narrador não confiável, ainda mais que relata, no tom de uma longa conversa com leitor, um drama: a dupla traição que teria sofrido por parte de sua mulher, Capitu (Capitolina) e de seu melhor amigo, Escobar.

O romance começa numa situação posterior a todos os acontecimentos. Bentinho (Bento Santiago), já velho, conta ao leitor como recebeu o apelido de Dom Casmurro. A expressão fora inventada por um jovem poeta, que tentara ler para ele no trem alguns de seus versos. Como Bentinho cochilara durante a leitura, o rapaz ficou chateado e começou a chamá-lo daquela forma.

O narrador começa então a rememorar sua existência, o que ele chama de “atar as duas pontas da vida”. O leitor é apresentado à infância de Bentinho, quando ele vivia com a família num casarão da rua de Matacavalos.

Bentinho mora com a mãe amorosa, Dona Glória, o tio Cosme, a mal-humorada prima Justina e o agregado José Dias, um esplêndido modelo de chato. É uma família bem brasileira, destas que geram filhos mimados. Sua vida pode ser dividida em três fases: Bentinho, Dr. Bento Fernandes Santiago e Dom Casmurro.

Bentinho é o menino tímido e sem iniciativa que provavelmente acabará num seminário e depois padre — pois era uma promessa de D. Glória tornar seu filho padre. Mas há uma vizinha, uma vizinha de quintal, um dos maiores personagens da literatura brasileira, Capitu. Quando a ação começa, ela tem 14 anos e ele 15.

Capitu era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem.

Os dois se apaixonam, prometem que vão se casar um com o outro haja o que houver, só que a família de Bentinho quer vê-lo padre. Capitu e Bentinho vão crescendo e não são mais aquelas duas crianças que brincavam no quintal, a coisa esquenta e eles passam aos beijos e carícias… As brincadeiras e a rotina dos quintais passam da infância para o erótico, sempre puxadas por Capitu.

— Sou homem!

Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminário, mas como se pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extinto; todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitu.

Capitu é linda. Bentinho também arranca suspiros, mas só tem olhos para ela, que, por sinal, puxa-o com os belos olhos e o engole.

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

Ele vai para o seminário, o que se torna uma tortura. Bentinho gosta de mulheres. Certa vez, no caminho para o seminário, vê uma muito bonita cair na rua e…

No seminário, a primeira hora foi insuportável. As batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a queda da senhora. Já não era uma só que eu via cair; todas as que eu encontrara na rua mostravam-me agora de relance as ligas azuis. De noite, sonhei com elas. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim, tique-taque… Eram belas, umas finas, outras grossas, todas ágeis como o diabo. Acordei, busquei afugentá-las com esconjuros e outros métodos, mas tão depressa dormi como tornaram, e, com as mãos presas em volta de mim, faziam um vasto círculo de saias, ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas sobre a minha cabeça.

Ele consegue livrar-se do seminário e casa com Capitu. E então começa uma certa estranheza que apenas aumenta.

A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que o ar de impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também.

E depois eu deixo para você descobrir o que e como acontece.

Mais detalhes, sem spoilers decisivos. No seminário, ele tinha conhecido Escobar, de quem se tornou inseparável. Eles tinham tudo em comum, inclusive o plano de sair de lá e não como padres. Escobar casa-se com Sancha, uma amiga de Capitu. Logo têm uma filha que recebe o nome de Capitolina… Depois de alguns anos e após penosas tentativas, Capitu finalmente tem um filho, e o casal pôde retribuir a homenagem que Escobar e Sancha lhes haviam prestado: o filho é batizado com o nome de Ezequiel, como Escobar.

Só que Ezequiel vai ficando cada vez mais parecido com Escobar… E Bentinho desconfia. A temática do ciúme, abordada com brilhantismo nesse livro, provoca polêmicas em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira: Capitu.

Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à bênção do costume. Todas essas ações eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir  mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém.

Assim como o enorme afeto e amor entre Capitu e Bentinho, a história do adultério (?) é composta por poucas pinceladas. Tudo é meio vago. Machado foi um mestre absoluto e deixa enorme espaço para nossa imaginação. Ele não apenas conta a história sem grandes detalhes como deixa para nós discutirmos se houve a traição de Capitu. Mas Bentinho enxerga no filho a figura do amigo e fica convencido de que fora traído pela mulher.

Cada um acha uma coisa. Como mais ou menos escreve Hélio Guimarães no posfácio desta linda edição da Carambaia — pois escrevo de memória — o livro pode ser sobre um adultério (traiu!), sobre o ciúme masculino (não traiu!), ou ainda uma denúncia a respeito do violento comportamento dos homens detentores do poder e da narrativa (sem dúvida não traiu, seus misóginos!) ou ainda uma gloriosa afirmação e reivindicação do desejo (pfff, e daí se traiu?).

Carlos Drummond de Andrade dizia que ler Machado de Assis era uma tentação permanente, quase um vício a ser combatido. Perguntem a um drogado (ou ex) quão fácil é livrar-se de um vício.

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908)

Uma Temporada no Escuro (Minha Luta 4), de Karl Ove Knausgård

Uma Temporada no Escuro (Minha Luta 4), de Karl Ove Knausgård

É incrível como minha vida é regulada pelos livros. Uma série de livros mais ou menos insatisfatórios me deixaram triste. Então peguei o quarto volume da autobiografia do Knausgård e tudo melhorou. Textos bem escritos salvam, apesar de que este foi o livro mais fraco dos quatro que li da série Minha Luta.

A Noruega é um país muito diferente do Brasil, claro. Lá, um estudante de boas notas, que termina o curso secundário, pode tentar uma vaga para dar aulas para crianças em regiões remotas do país, ganhando um bom salário. Foi o que fez Knausgård. Aos 18 anos e já interessado em tornar-se escritor, ele foi mandado por um ano para Håfjord, no norte do país, onde o inverno é uma noite contínua e o verão é puro dia. Numa comunidade de pescadores com 250 habitantes e na cidade vizinha não muito maior, ele deu aulas, tomou frequentes bebedeiras, escreveu, cuidou para não manter relações sexuais com alunas — afinal, elas tinham apenas dois ou três anos a menos do que ele e eram uma grande atração –, escreveu, entrou em conflito com superiores, escreveu, tentou perder a virgindade inúmeras vezes com outras mulheres — sempre tendo que enfrentar uma vergonhosa ejaculação precoce –, escreveu, viveu e escreveu. O plano era o de ganhar dinheiro suficiente para passar o ano seguinte viajando e ter tempo livre para se dedicar à escrita em um local calmo. O plano deu certo.

Neste quarto volume, a narrativa permanece leve, franca, rápida e envolvente. Na verdade, Knausgård me faz sempre grudar no livro. Ele não se preocupa muito com a cronologia e, lá pela página 200, retorna dois anos em sua vida e permanece ali até a página 400, quando volta a Håfjord. O livro tem 495 páginas.

A história dos romances é a da vida do autor. Uma vida comum, mas narrada com tal maestria proustiana que torna-se espelho de nossa própria existência, com suas temporadas boas ou escuras. As quase quinhentas páginas são lidas como se fossem 100. Queremos saber mais de Karl Ove, porque a identificação com os seus medos, decisões erradas e contradições revelam um caráter humano. Ele parece nos mostrar o tamanho da vida, nem enorme nem desconsiderável, nem simples nem inviável.

A ideia da escuridão perpassa todo o volume — nas entrelinhas e literalmente. É uma metáfora de um momento da vida em que tudo parece decisivo, até pela imaturidade para se lidar com os problemas. E há sempre o pai, o pai. Knausgård sempre volta àquela figura violenta e opressiva que assombra sua vida. Neste volume, há a separação dos pais e primeiros sinais da devastação que a bebida faria, tão bem contada no primeiro volume, A Morte do Pai.

Minha Luta é um imenso painel — já li 2000 páginas nos 4 primeiros volumes — que mostra um homem buscando crescer e se desenvolver, livrando-se de culpas, vergonhas e da autoridade do pai, mas também é uma história sobre como a vida pode ser boa. É muito complicado não se identificar… Minha infância não teve nada em comum com a dele. Mas como temos sentimentos em comum! Quantas vezes ele fala de mim, mesmo vivendo uma realidade muito diferente!

Recomendo.

Foi bem ali, no Círculo Polar Ártico, o local onde Knausgård deu suas aulas. Sim, frio, mas ele não reclama dele, só da escuridão no inverno.