Conto de Natal

Em meio à ceia de Natal, ele bateu com o garfo no copo de cristal, ergueu-se e começou:

— A data de hoje pressupõe alegria, felicidade e creio que alcançamos isso novamente pelo simples fato de estarmos reunidos, sem ausências a não ser a de minha mãe doente, que dorme com minha pequena Clara, e a de meu recém falecido pai. A mística familiar está mantida, velhos afetos se reconhecem, histórias da infância de cada geração afloram e a nostalgia nos invade. Lembro-me de um Natal ocorrido há uns 30 anos em que eu sofri uma das maiores decepções da infância. Eu tinha absoluta certeza de que receberia de presente um barco a motor para pescar com meu pai… Ganhei uma bicicleta. Para a criança que eu era, aquilo foi a maior das frustrações; eu fantasiava com aquele barco, imaginava quantas noites poderia dormir tarde na companhia do pai e inventava histórias nas quais brilhava na pescaria, nas bravatas e nas piadas. Estava naquela idade em que os guris estão loucos para entrar no maravilhoso e livre mundo dos homens adultos. Quando soube que meu barco tinha sido substituído por uma bicicleta — mesmo ela sendo uma linda Peugeot –, quis sumir. Saí correndo e fui me esconder no local mais improvável. Fui na direção do galinheiro e lá fiquei, junto de minhas novas amigas, sentado atrás dos poleiros. Naquele desespero infantil, desejei ser uma delas, pois pensava ser impossível a uma galinha sofrer semelhante decepção. Odiei os seres humanos. Passada mais de uma hora, já estava achando as galinhas chatas e refletia sobre a forma menos humilhante de voltar para a festa. Foi quando vi a silhueta de minha mãe. Provavelmente atraída por meus soluços, ela adentrou cuidadosamente naquilo a que a gente chamava de casa das galinhas, sentou-se a meu lado e ficamos de mãos dadas. Explicou-me que a culpa fora dela, que ela havia suplicado a meu pai que não me desse o barco, que ela tinha medo de que eu me perdesse, me afogasse, essas coisas de mãe. Voltei para casa e até achei a Peugeot bonitinha. Só fui ganhar o barco uns cinco anos depois, mas já não via graça naquilo.

Fez uma pausa em seu discurso para observar familiares e amigos sentados dos dois lados da imensa mesa posta na rua e continuou:

— Agora vou lhes contar um fato ocorrido no Natal do ano passado. Após o brinde, o pai chegou perto de mim e disse que aquele seria seu último Natal. Reclamei daquele absurdo, mas o pai reafirmou o fato. Caminhamos pelo terraço e ele, com voz entrecortada, revelou que tinha levado os nossos negócios a seu limite. Admitiu (e é verdade) que administrara mal as empresas herdadas, que era um fracassado, que havia mais de quinze familiares que dependiam do bom andamento das coisas – além das aproximadamente duzentas famílias de funcionários – , que ele não soubera levar adiante tudo o que seu pai, meu avô, construíra. Contou-me que tudo estava hipotecado e que eu teria de administrar a massa falida. Perguntei-lhe sobre algumas situações e soube que havia dívidas fiscais, trabalhistas, com fornecedores, e que as terras tinham de ser imediatamente vendidas.

Agora o silêncio era total, apenas quebrado pelas risadas descontroladas de um tio embriagado que estava achando toda aquela seriedade muito cômica.

— Nos dias seguintes, o pai me orientou sobre como fazer as vendas e as demissões, de forma a que pudéssemos encerrar os negócios com alguma dignidade. Ele morreu no primeiro semestre deste ano, todos nós sabemos. O que poucos de vocês sabem é que ele se suicidou.

Ouviram-se alguns protestos na imensa mesa. O gerente da fábrica ficou em pé, a nora — tão linda — quedou-se boquiaberta. Outros pediram debilmente para que ele parasse, mas a estupefação e a curiosidade eram maiores. O tio seguia rindo, enquanto alguns amigos outros apenas observavam o patético da cena. Havia quem quisesse saber de seus empregos, fixando seus olhares no palestrante a fim de saber onde estavam pisando.

— Bem, amigos, aproveitei a data de hoje para compartilhar com vocês o problema. Nossa vida vai mudar. Nossos carros, nosso padrão, mudarão radicalmente. Já vendi duas empresas que serão entregues na virada do ano. Venderei e fecharei outras. Pagaremos os funcionários e é bom vocês se acostumarem a pedir penico para gerentes de bancos… Foi só que fiz este ano.

Alguns reclamaram, detestando a inclusão da palavra “penico”. Ele baixou a cabeça como se fosse chorar.

— Pare imediatamente com isso! — gritou sua esposa Laura.

— Não paro. Preciso dividir este problema com alguém. Estamos todos reunidos. Carrego isto sozinho há um ano. Tenho que aproveitar a oportunidade.

— Oportunidade de fazer mais besteiras? Destas tu sempre te aproveitaste! E como é que eu não sabia de nada disso?

Foi quando viram a velha senhora chegar-se à mesa.

— Por que vocês estão, ou estavam, querida, tão silenciosos? Deixei de escutar aquele burburinho gostoso de festa e fiquei curiosa — disse, dirigindo-se à nora que detestava. Costumava chamá-la de Lauríssima Criatura.

— Mãe, por favor, volte para o quarto, o médico avisou… – disse o orador.

— Seu rico filhinho estava proferindo uns disparates de Natal para nós! – interrompeu a furibunda nora.

— Sobre a falência e o suicídio? Até já vendi meu carro e algumas joias para comprar dólares e euros. Deixar no banco ou ter patrimônio pessoal será perigoso. A justiça vem e bloqueia. Por que não fazes o mesmo?

A nora estava vermelha, pronta a atirar-se sobre o primeiro que se atravessasse a sua frente.

— A senhora concorda com isso? Contar toda esta bandalheira publicamente, na frente de toda a família e amigos, numa noite de Natal? Basta vendermos nossas joias? E nós, Dona Maria, como vamos viver depois disso?

A velha olhou para o céu; depois, estendeu a mão para o filho, que a segurou e abraçou carinhosamente a mãe. Esta olhou para a nora e respondeu com seu melhor sorriso:

— Nós sempre teremos Paris, Laura.

O tio riu. Todos observaram como o filho levou a velha de volta para o quarto onde dormia a criança.

galinhas

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Lia e Belle

Cocker

Para Liana Bozzetto

Lia era uma respeitável e emotiva senhora de setenta e cinco anos que há dezesseis vivia com Belle, uma cachorrinha da raça cocker. Ela tinha cinco filhos que a visitavam raramente, ao passo que Belle nunca tivera uma ninhada, pois sempre vivera no pequeno apartamento acompanhada apenas por sua dona. Quem as conhecia sabia que se amavam. Belle seguia Lia onde quer que ela fosse, latia para os estranhos, pedia colo e, devido à pouca mobilidade de sua dona, engordava. Comiam a mesma comida, descansavam no mesmo sofá e dormiam uma ao lado da outra, Lia na cama e Belle no tapete, junto a um par de chinelos. As reclamações das dores da idade, da ausência dos filhos, das fofocas dos vizinhos, dos preços da farmácia e do supermercado eram acompanhadas atentamente por Belle com o olhar triste e compreensivo dos de sua raça.

Numa madrugada gelada, Lia foi ao banheiro (ia muitas vezes durante a noite) e notou não ter sido acompanhada por Belle. Ao retornar, procurou sua cachorra ao lado da cama. Belle estava tranqüila, de olhos abertos e morta.

A perda fez Lia sofrer como nunca. Nem quando seu marido faleceu sofrera tanto. O amor que sentia por aquele bichinho era imenso. Dependia daquele amor, assim como Belle dependia dela para comer e permanecer limpa, sem pulgas e perfumada. Porém Lia não desejava ser ridicularizada por amar tanto a um cão. Era cheia de pudores e discreta. Dessa forma, passou o primeiro dia fechada em casa, chorando e se perguntando sobre o que seria de sua vida sem a querida cachorra. Quando um de seus filhos lhe telefonou, procurou esconder o luto. O filho nada notou; ademais, não queria saber de nenhum problema que o fizesse perder tempo. Tudo o que desejava era que sua mãe estivesse bem e normalmente era atendido.

No segundo dia, bateram na porta. Era Dalva, a vizinha do lado. Ela tinha achado a casa de Lia muito silenciosa e resolvera bater. Lia sorriu:

— Não, Dalva, não morri ainda, mas Belle se foi.

Em resposta, a coetânea apenas perguntou:

— E o que vamos fazer com o corpo da coitadinha?

As duas velhas cuidavam uma da outra. Não que conversassem muito, mas davam-se bom dia e sabiam das rotinas e dos sons de ambas as casas. Acordavam cedo. Dalva ligava a TV; Lia, o rádio. Logo após o café, Lia ia comprar alguma coisa para o almoço no armazém, Dalva fazia o mesmo no final da manhã. Quando uma delas ia demorar na rua ou sair por uns dias, avisava a outra. À noite, o mesmo. Lia sabia que, quando a vizinha não desligava a luz da sala era sinal de que adormecera ali mesmo, no meio da novela. Lia via pouca televisão, gostava mais do rádio. Acompanhava o futebol, mas evitava a TV. Ficava nervosa.

Lia concordou, algo teria de ser feito com corpo de sua companheira, mas não sabia o quê. Enterrar no jardim? Dalva achou graça. Não, melhor levar para o hospital veterinário, eles enterram. Corajosa, foi rapidamente em casa, trazendo um saco plástico grande, preto, dos de lixo. Enquanto Lia, com os olhos umedecidos, escancarava a boca no saco rente ao chão, a vizinha erguia levemente o corpo do animal, pedindo-lhe para avançar. Dalva fez questão de um segundo saco. Lia estava agradecida à amiga pelo senso prático. Depois, acondicionaram o corpo na caixa de papelão que fora da TV do quarto, preenchendo os espaços vazios com jornais velhos. Fecharam tudo com fita adesiva e observaram a obra.

— Acho que está bom. Agora é só levar – disse Dalva.

Lia ficou sozinha com aquela caixa sobre a mesa da cozinha. Finalmente, saiu de casa com Belle. Era difícil carregar a caixa, a cachorra era pesada e ela precisava pegar um ônibus para ir ao hospital. Com esforço, chegou à parada. Apesar do casaco grosso, do blusão de lã, da camiseta de algodão, da caixa e dos jornais, parecia sentir nos braços o pelo de sua companheira de anos. Sob o olhar de má vontade do motorista, subiu no coletivo equilibrando-se e, por sorte, conseguiu um lugar para sentar e descansar. Ainda bem que, na sua idade, não precisava pagar. Podia entrar e sair pela porta da frente.

O ônibus estava cada vez mais lotado e Lia levantou-se a fim de ficar mais próxima à saída. Perto da porta, estava um rapaz bem apessoado e educado que se ofereceu para segurar o incômodo fardo até que o ônibus parasse. Lia aceitou e, com o olhar embaçado, confidenciou-lhe que, naquele volume, iam algumas de suas melhores lembranças. O olhar risonho do moço pareceu consolador à velha que, contida, lutava contra a emoção quando a porta do ônibus abriu e o homem simpático disparou correndo, carregando consigo as tais lembranças.

Algumas pessoas soltaram exclamações de indignação, o motorista proferiu alguns palavrões, porém Lia, fiel a seu estilo, não fez escândalo. Disse-lhes que não se preocupassem, sentou-se novamente e foi até o fim da linha, voltando para casa no mesmo ônibus. Pensava no homem, no roubo e na surpresa que ele teria ao abrir o embrulho. Tinha que contar aquilo para Dalva. Exibia discreto sorriso.

Republicado após uma revisadinha.

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Os três micróbios de Nielsen

Dedicado à memória de Carl Nielsen,
no dia dos 150 anos de seu nascimento.

Era uma vez uma pequena família de micróbios que vivia no lado dois de um disco de vinil. Eram três irmãos que moravam com seus pais na Sinfonia Nº 2 de Nielsen, Os Quatro Temperamentos, regida por Leonard Bernstein. Mas chega de números, não quero cansar vocês logo no primeiro parágrafo. Na música gravada, que a família jamais tinha ouvido por não possuir nada que se assemelhasse a uma orelha, cada movimento é curiosamente dedicado a um temperamento — colérico, melancólico, fleugmático e sanguíneo. Os irmãos habitavam um sulco do movimento fleugmático e o disco do qual tratamos está fotografado abaixo, nas mãos do autor desta história verdadeira.

Nielsen Bernstein Sinfonia Nro 2O disco estava sem tocar há anos e os micróbios alimentavam-se e se reproduziam no local. É que como o vinil estava dentro de uma capa sem plástico, os pais iam facilmente ao papelão interno para retirar dele sua comida. Eram muito felizes.

Mas, ontem à noite, ninguém tinha informado à família que era a véspera dos 150 anos do autor daquela música. E o mundo todo começou a girar e vibrar justo quando mãe e pai estavam fora de casa, pois tinham ido até o papelão buscar o jantar.

Cada um dos irmãos tinha uma característica: um era ansioso, passional e gordo, outro era inteligente, fleugmático e bem pequeno e o terceiro era muito burro e oscilava entre o nervosismo do primeiro e a astúcia do segundo.

Mas, contava eu, o disco foi posto finalmente para rodar e eles estavam ficando tontos. Quando o dono virou o lado, eles puderam observar aquela enorme agulha cada vez mais próxima. O micróbio inteligente logo concluiu que aquela coisa brilhante estava percorrendo todo o sulco onde eles brincavam. Na verdade, ele achavam que eram muitos sulcos lado a lado, não apenas um só. Então, ele raciocinou com sua mente poderosa que, quando a coisa passasse quase encostando, rente às suas cabeças, eles deveriam pegar suas dezoito perninhas e pularem para o sulco que fora recém percorrido, porque o próximo seria o da casa deles.

E combinou com seus irmãos o que fazer. Incrivelmente, todos entenderam. Porém, quando a agulha estava a três sulcos de distância, o passional pulou para aquele lado a fim de se garantir mais cedo. A passionalidade é muitas vezes tola e fatal, sabemos. Quando o diamante se chocou contra seu corpo, destroçando-o, o dono do disco ouviu um pequeno chiado e pensou na ação do tempo sobre todas as coisas, inclusive sobre si mesmo. Os dois irmãos sobreviventes notaram que tinham perdido seu irmão, mas logo se consolaram. Sabiam que sua mãe poderia fazer mais.

Quando a agulha passou rente à cabeça dos dois remanescentes, o astuto pulou para o sulco ao lado, mas o dubitativo estava com medo e ficou refletindo se deveria seguir ou não o irmão. E perdeu sua pequena vida. Quando de sua morte, o chiado foi bem alto pois não apenas o vacilante fora decapitado, mas a agulha entrara e saíra rapidamente do buraco-moradia da família. Meus amigos, eu não prometi uma história alegre. Desta forma, só o astutinho permaneceu com vida.

A mãe apenas obteve retornar para casa após o disco ser guardado. Ela estava perdida no papelão sem entender nada. Cadê minha casa? Quando retornou, encontrou apenas o filho esperto. Mas não se surpreendeu. Na verdade, não lembrava quantos tinha. E logo ficou com vontade de fazer mais daqueles bichinhos tão lindos.

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Muitos olhares longos e o beijo

Eu trabalhava há quase um ano ali. O papo era ruim de doer. Talvez eu fosse a mais dedicada de nosso setor por causa disso, não perdia tempo com conversas e até evitava as reuniões em torno da cafeteira. Era discreta, acostumara-me assim; talvez tivesse de ser assim. Desde que minha família descobrira, soube que não podia mais contar com eles; então, meus empregos eram as coisas mais importantes da minha vida na rua. Como eu não era concursada nem nada, tratava de me comportar. E então o chefe começou a me destacar. Elogiava meu trabalho e seriedade, tanto que eu estava a ponto de pedir um aumento. Sabia que a Contabilidade não andava sem mim. Mas logo ele deixou de lado os elogios à produtividade e passou a me olhar como “mulher”. Aquilo era mais do que chato, aquilo era perigoso, pois a Vivian era muito ciumenta e por qualquer coisinha punha fogo no mundo. Será que eu ia ter que dar para aquele idiota? Ele não parecia um mulherengo, minha esperança era a de que ele fosse vítima daquela lentidão e culpa que fazem alguns caras casados empacarem, ficando só no flerte.

Eu evitava e evitava o olhar do homem, mas ele inventou alguns trabalhos para serem feitos com ele, na sala dele, na mesa dele, com ele. Então, eu elaborava desde pautas de reuniões importantes até as mais inúteis planilhas. Quantos carros vendíamos, quanto era pago à Ford, quanto ficava para a empresa. Eu sabia que tudo aquilo era informado pelo sistema da fábrica e o que fazíamos era redundante, mas enfim, ele pedia. O jeito dele era assim: quando estava perto de mim, parecia normal, convivia numas de camaradagem; porém, quando se afastava, lançava olhares compridos, nostálgicos, insistentes, fixos. Às vezes, por exemplo, eu parava desatenta no xerox e cruzava com seu olhar de peixe morto. Era habitual captar que de alguma forma era observada. Não incentivava aquilo e comecei a usar roupas mais largas e a sentar de pernas abertas como se estivesse num galpão do interior gaúcho; vinha despenteada, às vezes com o cabelo sujo, mas, por mais defunteada que eu aparecesse, ele me lambia com o olhar. Um dia em que eu estava em sua sala digitando umas daquelas brilhantes planilhas, ele resolveu grudar-se a meu lado. Notei que a porta da sala estava fechada, levantei e disse

— vou ao toalete.

Quando voltei, depois de uns 15 minutos, ele estava exatamente na mesma posição. Cuidei para deixar a porta aberta. Havia o monitor com a minha cadeira na frente e ele na cadeira ao lado, sem fazer nada, só me esperando. Por que não fazia alguma coisa para se distrair? Ih, hoje vou me incomodar, pensei, sentando em minha cadeira. Quando pus o traseiro no assento, falei alguma coisa bem irritada sobre o trabalho. Então ele nem deixou eu recomeçar, engatou a primeira marcha e declarou que sua vida estava uma merda, que tinha que se separar da mulher, que havia as crianças, a família, a religião (aqui, não resisti a um suspiro), enfim, o papo de sempre. O papo de sempre sim, mas eu comecei a sentir pena do cara, apesar de pensar mais na mulher dele, que devia estar carente ao lado daquele bolha. Ele tinha cara de bebê, era uma espécie de Brad Pitt pós-atropelamento, talvez sua mulher me apetecesse. Mas começamos a conversar sobre sua questão pessoal e acabei ficando curiosa com a história deles, perguntei como se conheceram, sobre o filho… Pô, quem não gosta de uma história cheia de humanidade, mesmo meio podre?

Porra, e ele me convidou para sair. Arranjei dez compromissos, falei em aulas de inglês, de dança, academia, família, tudo; não podia simplesmente dar um chute no cara, ele era meu chefe. Mas o cara insistia e insistia. Foram duas semanas de chateação. Como uma criança que conseguiu mudar de fase em seu joguinho, ele perdera parte de seu pudor e agora me convidava a toda hora para sair. Eu não sabia como mostrar-lhe um “Game Over” de forma educada. Podia inventar um namorado, mas ele não ia acreditar, eu estava sempre sozinha nas poucas festas da empresa em que fui. Seguia me fingindo de louca? Dava para ele? Aquilo ia dar merda.

Então, num fim de semana, eu estava almoçando com Vivian e ele entrou com sua família. Eu e minha namorada tínhamos passado a manhã andando de bicicleta pelas ruas e parques e estávamos muito eufóricas. Ele me cumprimentou de longe e foi sentar sei lá onde. Não parecia infeliz ao lado da mulher, que era bonitinha, e do filho, que tinha cara de joelho. Não disse nada para a Vivian e este foi um grande erro. Quando fomos nos servir da sobremesa, ela se colocou atrás de mim e me chamou. Virei rapidamente o rosto para atendê-la e ela me deu um rápido beijo na boca. Foi aquele beijo de casal em fila de buffet, se me entendem. Aquele beijo que se dá ou se recebe quando estamos ociosos e satisfeitos, o beijo rotineiro, de carinho antigo e conhecido. Fiquei vermelha, procurei o idiota e ele, é claro, estava me olhando. Vivian me perguntou porque eu ficara tão sem jeito.

Contei a história a ela, que ficou mezzo puta. Ela não entende, pois é concursada e só será despedida se urinar na mesa do chefe. Pensando melhor, se só urinasse, permaneceria; teria de fazer mais para conseguir uma demissão.

Na segunda-feira, ele não me chamou a sua sala; na terça, idem; na quarta, conversamos sobre um assunto de trabalho e ele estava de cara fechada. Depois, achei que tinha sido paranoica, que o mundo girara e que não havia motivo para preocupar-me, só que, um mês depois, a diretoria resolveu cortar umas cabeças, coisa que faziam habitualmente para incentivar a produção, e pediu para que cada chefe reduzisse sua equipe de um funcionário. Havia alguns indicadores de produtividade por funcionário e eu sabia que estava bem colocada, mas aí, na hora de escolher a cabeça para cair na cesta adivinhe quem foi a escolhida?

Vivian está satisfeita. Ganha o suficiente para nós duas, me sustenta e agora tem uma mulher em casa. Eu acho uma bosta. Faço comida, pago contas, cuido das plantas, sou a rainha do lar. O jardim está uma beleza! Procuro emprego.

Obs. do autor: Este despretensioso conto — datado de 2007 — estava esquecido no micro. Esqueço mesmo deles. Para mim foi uma surpresa como a história termina. Me acontece muito deixar pedaços de textos aqui e acolá (hoje, encontrei um com o qual me diverti muito: “Ninguém gosta mais de Charlie Mingus do que eu!”).

À guida de ilustração: Betty Faria beija Leila Diniz na praia em foto de 1969

À guisa de ilustração: Betty Faria beija Leila Diniz na praia em foto de 1969

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Três minicontos para quem reclama que eu não publico mais ficção

1. O Primeiro Beijo – Um Miniconto do Século XIX

O demônio, no ombro esquerdo dela, sussurrava-lhe:

— Beije-o agora, agora, já!

Enquanto o anjo, no ombro direito, opinava:

— Deixe-o aproximar-se mais, demonstrar inequivocamente o que quer. Um pouco de prudência poderá salvar nossa honra.

Foi quando o moço perdeu a concentração no que estava fazendo, afastou-se bruscamente e disse, em tom protocolar:

Apesar de desconhecer o grau de suscetibilidade de ambos. anjos e demônio, gostaria de interromper sua altercação a fim de dar-lhes meu parecer. Os anjos, tive pouco contato com eles; creio ter mais afinidade com o diabo e noto que ele representa meus interesses neste caso. Mas vamos direto ao objeto desta peroração. Creio que suas atuações — a dos dois — são danosas e a controvérsia inútil. Falta-lhes informações para fazer um bom aconselhamento. Então proponho encerrar esta demanda que ocorre muito antes de seu tempo. Se ela me beijar e depois não me quiser, libero-a de qualquer compromisso para todo o sempre e não anuncio a ninguém o que quer que tenha havido entre nós. O que julgo inaceitável e injusto é o fato de que, cada vez que vocês começam a brigar, sua dona mude, adotando um tom de frieza que gela meu coração. Vocês causam unicamente perturbação. Saúdo-os como se saúdam embaixadores de nações inimigas.

Findo o discurso, ele dá uma piscadela para o diabo e beija Maria Antoninha apaixonadamente. Ela, que chegava à casa dos vinte e poucos e sonhava desde a adolescência com esta culminância, gosta. Muito. Tanto que se emociona e chora.

2. Domingo

Ele odiava os finais de tarde de domingo. Não havia pior hora. A semana era suportável em sua rotina de trabalho, cansaço e sono; sábado era o dia de fazer as compras da semana, jantar com a mãe e ir ao cinema; porém aquele horário dominical de completo ócio, em que sentia possuir forças além da necessidade de produzir, era terrível. Sentado na sala, pôs um CD e começou a organizar mentalmente a agenda da semana. Sua angústia crescia à medida que via os compromissos avolumando-se. Havia os imediatos e outros, piores, que eram deixados para depois. Procurava organizar-se. Ergueu-se e, deixando o volume da música mais alto, foi ao armário de remédios procurar um analgésico. Pegou o comprimido e abriu a geladeira para servir-se de água. Viu um garrafão de vinho pela metade. Largou o comprimido sobre o esmalte branco da geladeira, apanhou o garrafão, um funil e, cuidadosamente, passou a dividir o conteúdo em garrafas pequenas de água mineral que pegou no lixo seco. Deixou três frascos iguais exatamente no mesmo nível e fechou-os. Enfileirou o resultado na porta da geladeira, desligou o som e ligou a TV.

3. Quem diria, casou-se com o corretor de seguros

Vânia acorda e decide matar-se. O celular toca : “Filha, me deu outra crise, vem logo!”. Vai à sacada e olha a rua, mas não quer pular de pijama. Veste-se e pensa na mãe: merda, como ela enche o saco. O celular de novo. A morte. Desce até a garagem, sai e acelera loucamente o carro de olhos fechados. A despesa não supera a franquia.

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Para não falar de todas as mulheres

Homem e Mulher, Gustav Vigeland, Oslo

Homem e Mulher, Gustav Vigeland, Oslo

Ela e três rapazes estavam sentados em torno de uma mesa do Velho Quintino, restaurante de Porto Alegre. Tinham, presumivelmente, entre 20 e 25 anos e faziam muito barulho com suas conversas e risadas. Então a moça e um dos rapazes dirigiram-se para a fila do buffet. Ela não tinha um rosto muito bonito, porém seu corpo silenciaria qualquer crítica nascente. A natureza fora-lhe pródiga: era alta, magra sem ser anoréxica e um observador maldoso diria que a genética recebera um auxílio para que os seios tivessem aquele tamanho e formato. Entrou na fila com o rapaz atrás. Ficaram em silêncio e o narrador entrou na fila depois deles. Com uma voz especialmente empostada, o moço perguntou:

– Quando é que nós vamos sair, Luana?

Ela sorriu compreensivamente para ele e disse que poderiam sair qualquer dia, mas que ele poderia ir logo perdendo as esperanças em algo além de um cineminha.

– Mas por que toda essa resistência?

Ela fez um ar de enfado e disse que só se interessava por homens de mais de 40 anos e, ao olhar surpreso e interrogativo do moço, explicou calmamente:

– Vocês -– sim, ela disse “vocês” –- não sabem como tratar uma mulher. Não me interesso por jovens. A mim só atraem homens mais velhos.

Ele a mirou por alguns segundos como quem fosse contestá-la. Mas, hesitante e subitamente falando com certo descontrole, perguntou:

– Quantos anos tu tens?

– Vinte e quatro.

– Eu tenho vinte e dois.

O rapaz seguiu servindo-se em silêncio. Ela também. O narrador, esquecido de encher seu prato, seguia a cena desejando que aquele não fosse seu final. Mas o silêncio persistia. Luana já estava quase no final do buffet e o rapaz demorava-se. Ela terminou de servir-se e esperou. Quando ele se aproximou, trazendo um prato quase vazio e o narrador à reboque, ela jogou a cabeça para trás, fez um movimento para deixar os cabelos em posição mais confortável e ordenou:

– E tu, Juliano, não vai ficar com essa cara de quem perdeu o pai, né?

– Que cara?

– Essa cara de menininho que não ganhou o brinquedo. Detesto!

Voltaram à mesa. A conversa seguia, porém com uma voz a menos. Juliano mostrava um rosto de quem não perdera somente o pai, mas a mãe e toda a família, num acidente de avião, subitamente, no meio do mato. Era uma tristeza imensa. Parecia que seu rosto inchara. Talvez seu videogame também tivesse sido roubado.

O narrador não era maldoso e procurou não olhar muito para ele. Fixava-se em Luana, em sua perfeita naturalidade, rindo e conversando com os restantes, ao lado do rapaz feito criança. Será que ele lhe era insuportável?

Quando levantaram, ela se voltou rapidamente para ele, que estava de cabeça baixa. Fez um olhar de pena. Saíram primeiro os dois outros amigos, seguidos de Luana e de seu admirador. O narrador pensou num cortejo fúnebre.

Como o restaurante é envidraçado por fora, vi quando os dois aproximaram-se e caminharam lado a lado. Apenas ela falava.

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Luciana e o hedonismo

Sexta-feira à noite. Finalmente chegara o dia que Luciana temia: aquele no qual, depois de meses desempregada, deixaria de pagar suas contas. Na sua frente, sobre a mesa da sala, estavam o aluguel, a luz, a água, algumas faturas de cartões de crédito e outras assombrações. Viu que sua conta bancária estava quase chegando ao limite do cheque especial – faltavam apenas R$ 15,59 para encostar lá -, e decidiu que segunda-feira trataria de entrar em contato com seus futuros credores para evitar o que pudesse ser evitado, sabe-se lá como.

Acordou no sábado ainda com os documentos sobre a mesa. Seu desalento era completo. Precisava de um dinheiro qualquer e procurou na agenda do celular algum amigo que pudesse emprestar-lhe o necessário para a comida e o gás de cozinha. Ligar para sua mãe estava fora de cogitação. Enquanto passava por nomes de conhecidos, viu, num cantinho, sob a papelada remexida no dia anterior, um cartão. Pegou-o. Era um cartão de crédito recebido meses atrás, quando ela ainda tinha emprego. Um desses que a gente recebe sem pedir, pelo correio. Revirou-o de um lado para outro. Digitou no celular o número do desbloqueio. A ligação era gratuita. Recitou seus dados para a atendente e ocorreu o milagre. Nascia a possibilidade de gastar mais R$ 4.000,00.

Foi ao supermercado e pôs no carrinho boas quantidades dos produtos de consumo básico. Leite em pó, arroz, feijão, frango para congelar, sabonete, detergente, pasta de dentes e o último chocolate, uma extravagante caixa de Bis ao custo de R$ 3,97. Eram estes seus víveres para a guerra que tinha pela frente. Caminhou em direção ao caixa e pagou R$ 346,32 com o novo cartão. Funcionou! Foi auxiliada por um funcionário do supermercado no transporte das compras, mas antes avisou que não tinha dinheiro para gorjeta.

– Não tem problema, moça. Eu levo assim mesmo.

No caminho, pensou naquele blogueiro que tinha a mania de estampar belas mulheres todos os sábados. Para ele o sábado devia ser uma festa, é o dia em que ele pode enfim gastar os milhares de reais ganhos em uma semana de trabalho. Deve ser rico, o filha da puta. Rico e machista. Só como vingança, eu deveria publicar fotos de homens no meu blog, para mostrar que também tenho desejos. E grandes desejos – de uns 15 cm, no mínimo – e pesados – de 70 Kg para cima. Merda. Vou ver quem ele colocou hoje.

Chegando em casa, não resistiu a dar R$ 2,00 ao menino, guardou as compras e sentou-se frente ao computador. Tenho que vender esta porcaria antiquada, refletiu. Olhou o blog do infeliz e viu várias fotos de uma peituda. Credo, como os homens são patéticos, mas bem que eu gostaria de um que tivesse um emprego. Decidiu não deixar comentários no post, o Milton que se fodesse.

Saiu a caminhar pela rua pensando no que fazer com o cartão e em como arranjar logo emprego e companhia. Mais víveres? Talvez. Achou que o cartão poderia ajudar também na companhia. Iria ao bar do Beto naquela noite; suas amigas diziam que qualquer mulher saía de lá casada, se quisesse. Deixaria todos os pruridos de lado, podia ser um velho grisalho, carente e impotente que ela agarraria do mesmo jeito. Passou por seu antigo colégio e pela igreja que frequentara na infância. Subiu a longa escadaria da Igreja das Dores e entrou, buscando tranquilidade e inspiração. Fazia anos que não entrava numa e achou cômica uma velhinha de preto ajoelhada no confessionário. Que pecados poderia estar expiando? Provavelmente tinha envenenado o gato da vizinha.

Sentou-se e bocejou longamente. Viu a velhinha levantar-se e, para pasmo próprio, levantou-se e ajoelhou-se no confessionário.

– Bom dia, padre.

– Bom dia, minha filha.

– Padre, eu preciso de uma solução urgente para minha vida. Estou desempregada e caindo em desespero.

– Como é seu nome?

– Luciana, mas me chame de Lu.

– Lu, pense em Cristo que morreu por nós…

– Padre, por favor.

– Sim?

– Sou uma mulher adulta, não vou perder meu tempo com carolices e preces. Quero conversar.

O padre silenciou por instantes. Então ela o ouviu dizer:

– Vamos conversar, então.

– Quero uma opinião pessoal.

– Vou lhe dar a opinião pessoal de um padre, de um religioso, de alguém que dedicou até hoje sua vida ao Criador.

– Que seja.

– …

– Bom, acabo de decidir que vou utilizar um cartão de crédito apenas em atividades que me levem ao prazer. Acho que o prazer de ir à bares poderá me levar ao prazer de obter companhia masculina e isto pode significar, se eu for competente e legal com o cara, financiamento da minha comida, ao menos. Além disso, se eu gastar um pouquinho… ou melhor, esqueça… Não, é que acredito que o prazer de comprar algumas roupas poderá me levar a ter uma melhor apresentação e me auxiliará a encontrar um emprego. E um homem, quem sabe.

– Um hedonismo útil?

– Sim, é uma boa definição, padre.

– Lu, o hedonismo pode consistir em prazer sensorial imediato ou em prazer moral. Epicuro, por exemplo, não liga a idéia de hedonismo ao prazer imediato e fugaz. Este, o hedonismo sensorial, seria inferior; o espiritual é inequivocamente superior. Esta é uma das razões pela qual abracei a religião.

Seguiu-se um longo silêncio que foi quebrado pelo padre.

– E o verdadeiro hedonismo só existe se houver sofrimento.

– Como?

– O prazer se tornaria chato e até o evitaríamos se fosse seguido sempre de mais prazer.

– Ah, padre, não sei não. Se o Sr. soubesse da minha pindaíba não diria isso!

– Se você não conhecesse a pindaíba, se conhecesse apenas a segurança, talvez te tornasses desinteressada e entediada, que são outras desgraças a serem evitadas. Talvez inventasses problemas e deixarias tua segurança, digo, teu dinheiro, no psiquiatra, como tantos fazem.

– Para com isso, meu! Queres dizer que a segurança é tão ruim quanto a insegurança? Esse papo só serve para o conservadorismo da igreja.

– Não, Lu. Eu só estou te explicando…

– Que a felicidade não existe?

– Preste atenção, veja minha missão: aqui onde estou, neste confessionário, há tanto a necessidade do Mal quanto do Bem. O pecado é tão dialeticamente necessário quanto os bons atos.

– O Sr. quer dizer que o hedonismo, para ser hedonismo, precisa do sofrimento para justificar-se, como um contraste para que o hedonismo possa ser hedonismo?

– Certamente.

– O hedonismo não teria a menor graça se não fosse seguido de desprazeres ou de algo menor? Ou pior?

– Muito pior, Lu. Senão não teria graça.

– O Sr. é padre mesmo ou invadiu a casinha aí?

– Sou padre sim. Mas acredito em dialética. O que há de errado nisso?

– Não sei. É que o Sr. abandonou a bobajada católica com tanta facilidade….

– Não diga isso, Lu.

– … que mais parece um livre-pensador.

– Nenhum de nós é livre-pensador, Lu. Isso não existe, nenhum de nós é independente, só a indiferença é livre, todos temos compromissos. Aliás, outrora, eu mesmo contava uma piada sobre esse tema. É curta: “O mais feliz dos subordinados na Terra é o Papa de Roma, porque todos os dias pode contemplar seu chefe crucificado!”.

Lu deu uma gargalhada que ecoou na igreja. O padre não gostou.

– Lu, que desrespeito!

– O quê, minha risada?

– Claro.

– Culpa sua. Não devia contar piadas, só abençoar e mandar rezar.

– Não era isso o que você queria.

Novo silêncio, desta vez quebrado por Luciana.

– O que devo fazer com meu cartão?

– Não posso entrar na sua vida privada.

– Como não? É o que a igreja faz sempre! Se eu lhe perguntasse se deveria transar com uma amiga o Sr. teria resposta. Por que não pode falar sobre o cartão?

– Luciana, Luciana. Não vou te explicar os conceitos fundamentais da religião católica.

Após dizer isto ele riu, como se estivesse deliciando-se previamente com o que iria dizer. Porém, Luciana ouviu um simples

– corrijo dizendo que não devo entrar em tua vida econômica.

– Karl Marx disse que a economia está em tudo. E está.

– Deus está em tudo, Lu.

– …

– Tudo bem. Dialeticamente, já expiaste tua dor analisando tuas contas e tuas terríveis perspectivas. Não foi uma anedonia, que é o contrário perfeito do hedonismo, formando uma unidade dialética com ele, mas, enfim… dou-te uma penitência inversa. Beba, dance e compre belas roupas. Só não diga que um padre te aconselhou a isso.

– E o Sr. me abençoa? O Sr. reza para que a anedonia não me invada?

– Claro, minha filha. Rezarei também para que um dia você respeite e receba os prazeres morais em tua vida.

– Mas o hedonismo moral não oferece ganhos econômicos, padre.

– Talvez sim, secundariamente.

– É, pode ser.

– Agora vá, rezarei por ti.

– Tá bom, padre. Obrigado.

– Mais uma coisa. Por que a igreja oferece este serviço?

– Porque tanto o pecado quanto a virtude nascem de ideias e o habitat das ideias é o diálogo, é onde se transformam e são testadas. Nós, confessores, não fazemos nada. És tu quem – ouvindo tua própria ideia,  vinda de tua própria voz – faz a correção e a punição.

– Chega, padre. Muita filosofia prum sábado de sol.

igreja das dores

Luciana ficou sentada nos degraus de Igreja Nossa Senhora das Dores por mais de uma hora. Olhava a rua que se descortinava à sua frente com o Guaíba ao fundo e os passantes na Rua dos Andradas. Refletia com o cotovelo no joelho e a mão no queixo. O que faço? De repente, ouviu sons de passos atrás de si, voltou-se e viu um padre descer lentamente as escadas, passar por ela e ir em direção à rua. Seria o padre dialético? Fez uma aposta consigo: se ele dobrasse à esquerda, hedonismo; se à direita, víveres para a guerra.

O padre atravessou a rua e seguiu em linha reta.

Luciana levantou-se e finalmente decidiu: víveres para a guerra, mas hoje, hedonismo! E ligou a cobrar para seu amigo Doni, o escolhido para sua primeira abordagem hedonista. Ele seria a vítima.

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Adaptações

CorridorComo quase sempre acontecia, naquele fim-de-semana ela ficara sozinha em casa. Porém, durante a manhã de domingo, ouviu baterem violentamente a porta. Quem chegara tinha ignorado a campainha, percutindo a madeira com toda a força. Era uma batida que não admitia dúvidas, quem estava lá fora queria entrar ou fazer uma reclamação, no mínimo. Quem seria? O que ela teria feito? Ela — que assistia na TV a um filme inglês em que rei e rainha seriam decapitados dali a minutos — saiu correndo da cama, enquanto vestia um chambre. Foi até a porta e olhou pelo olho mágico. Viu um desconhecido no corredor. Decidiu não abrir, claro. O homem bateu novamente. Ela teve medo de que a porta cedesse. Taquicárdica, mas procurando manter a respiração inaudível para quem estivesse do outro lado, observou melhor o rosto de quem batia. Não, não conhecia. Em seguida, viu-o sair da entrada de seu apartamento e fazer o mesmo em outra porta. Aquilo a apavorou. Tanto fazia, o homem desejava entrar em qualquer apartamento. Ficou mais assustada ainda quando ele passou a correr de uma porta a outra, tentando arrombá-las. Ele tomava distância e arremessava-se contra as portas, sempre sem sucesso. O som de seus gritos e o das portas dobrando-se era-lhe aterrador.

Repentinamente, o homem voltou-se para sua porta e gritou:

— Tô vendo a tua sombra. Abre a porta, porra!

Ela se afastou do olho mágico e voltou trêmula ao quarto. Fez cara de choro quando ouviu o homem atirar-se contra sua porta. Cada vez mais amedrontada, começou a chorar enquanto via vagamente na TV a jovem rainha, vivida por Helena Bonham-Carter, ser destituída por uma bruxa velha chamada Mary. Ela não se deu conta de destituição nenhuma, estava em pânico. Ligou para o 190 e o policial atendeu:

— Brigada Militar, bom dia.

— Há um homem dentro do meu edifício que quer entrar a todo custo em qualquer apartamento. Ele está se atirando contra todas as portas, tentando arrombar alguma, mas acho que ou todos estão escondidos com medo ou estou sozinha no prédio.

Enquanto falava, ouvira várias vezes o homem explodir contra a porta. Ia acabar entrando, ela precisava imediatamente de socorro. Foi quando ouviu o homem gritar

— quero algo para comer, estou com fome!

Ela foi para perto da porta a fim de ouvi-lo melhor e notou que ele falava mais baixo.

— Eu só quero um pouco d`água e um pão. Não me deram nada hoje, não consegui nem na porta da igreja. Eu posso ficar no meio do corredor, o senhor confere olhando pelo buraco da porta. Então, o senhor, se tiver alguma comida e água, abra a porta, por favor, deixe a coisa do lado de fora e eu só me aproximo para comer quando o senhor fechar a porta. Pode ser?

O homem expressava-se com clareza. Ela, ainda trêmula, voltou ao olho mágico. Ele estava a meia distância e viu sua sombra. E disse

– olha, eu dou mais três passos para trás.

Ela foi à cozinha e, momentos depois, ouviu uma leve batida na porta. O homem falava, agora em voz alta.

— O senhor foi na cozinha buscar alguma coisa para eu comer, né? Por favor, eu preciso.

A voz agora era branda, educada, quase sedutora. Ele disse que não era perigoso, que estava fazendo barulho só para chamar atenção, que tinha ficado desesperado quando pensou que não tinha ninguém em todo o edifício que pudesse remediar-lhe a fome. Ela foi até a porta e perguntou:

— O senhor gosta de manteiga com ou sem sal?

— Meu nome é Francisco, pode me chamar de Chico. Como o pão como a senhora quiser.

— E o café? Preto ou com leite?

— Com leite, por favor.

— Açúcar ou adoçante?

— Açúcar, por favor, dona.

Ela foi até a cozinha. Na passagem, viu Helena ser decapitada. Decidiu que aquilo não era um sinal e que tentaria dar o café da manhã a Francisco, desde que ele permanecesse à distância quando ela abrisse a porta. Preparou lentamente o café. Aqueceu a xícara no microondas. Com dificuldades, abriu o pão congelado com a faca e cortou alguns tabletes de manteiga, colocando-os lado a lado dentro do pão. Trocou o café com leite do forno pelo pão; sabia que, em 20 segundos, o pão cacetinho ficaria no ponto, com a manteiga desmanchando-se por toda sua extensão. Decorrido metade do tempo, retirou o pão para incluir presunto e queijo.

Voltou à porta, deixou a bandeja no chão e pediu para que Francisco recuasse. Através do olho mágico, viu-o ir até o meio do corredor. Em resposta, ela destrancou a porta; voltou a observar a posição do homem e falou em voz alta:

— Vou abrir agora.

— Por favor — ele respondeu.

Ela abriu a porta alguns centímetros e empurrou cuidadosamente a bandeja com o pé, sem deixar nunca de olhar para o homem. Ele ficou parado, alertando-a de que não faria nenhum movimento brusco; então perguntou se ela estava sozinha em casa.

— Sim, eu moro sozinha.

— A senhora é corajosa. Obrigado.

— De nada.

— Já morou com alguém?

— Não vem ao caso.

Ele se calou e ela recuou, fechando a porta. Francisco enfim avançou, sentou-se com as costas apoiadas na porta e começou comer o pão, empurrando-o com o café. Do outro lado da porta, ela ouvia sua respiração. Preocupou-a a rapidez com que ele comia e bebia. Devia ser uma fome de dias. Ela se sentou no chão,   com as costas na porta, ficando separada dele por apenas três centímetros. Ouviu a si mesma sussurrar.

— Quer entrar?

— Como? — respondeu ele.

— Quer entrar, tomar um banho, almoçar mais tarde, algo assim?

— Sim, quero.

Ela sabia a loucura que estava cometendo. Via na TV. Sabia de crimes, estupros, violência e também que tinha recém ligado para o 190, mas cometeria a insânia. Levantou-se e abriu a porta. O homem aguardava com a bandeja na mão. Entregou-lhe e entrou, olhando para os lados. Parado no meio da pequena sala, viu um sofá todo puído; acima dele, montes de fotos presas com percevejos num mural de cortiça; no quarto, ao fundo, um colchão com lençóis amarfanhados e o som da televisão. Viu a mulher sair do quarto trazendo uma toalha de banho e algumas roupas de homem, visivelmente velhas e fora de moda; recebeu a camiseta preta com a estampa de Syd Barrett — que parecia um sino de tão usada e notou à esquerda uma estante de livros construída de ripas de madeira apoiadas em tijolos. Ela falou:

— Acho que tu gostaria de tomar um banho antes do almoço.

— Obrigado, muito agradecido.

Ele entrou no banheiro. Ela correu ao telefone para dizer à polícia que não precisava mais vir, que o homem tinha saído do edifício. Sentada no sofá, ela o esperou. Francisco saiu e, com roupas imensamente mais largas que ele, sentou-se sobre um mocho de madeira, afastado dela alguns metros. Perguntou se poderia ficar com aquelas roupas, afinal, tudo o que ele tinha fora vendido. Ela pensou logo em drogas, sentiu um calafrio e respondeu desajeitadamente que aquelas roupas eram dele.

Almoçaram gentil e tranquilamente, com toda a civilidade. Ela disse que era jornalista, que tinha 43 anos; ele contou que era um estudante de medicina — ela ficou estupefata — que há um ano trancara sua matrícula no oitavo semestre. Morava na garagem da casa de sua mãe. Falou que a garagem só tinha saída para fora, pois seus irmãos não gostavam que ele fosse fazer rapina na casa. Ela ouvia tudo aquilo enquanto pensava em como gostaria de ser abraçada por ele.

— A senhora quer que eu saia agora, certo?

— Sim, claro.

— Não tem mais nada que eu possa levar? Algo estragado ou fora de uso?

— Não, não tenho dinheiro.

Ele perguntou se podia levar mesmo as roupas, foi ao banheiro pegar as suas e, com elas na mão, despediu-se com um sorriso. Dez minutos depois, ela lavava a louça, porém logo interrompeu o trabalho para sair à rua. Deu várias voltas pelas quadras próximas, procurando pelo rapaz. Depois, de volta ao quarto, teve uma crise de choro.

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Marquinhos e Enzo, o grande

Nasci e passei a vida numa terra de gigantes; gigantes têm me arrastado pelo pulso desde que saí do ventre de minha mãe — os gigantes das circunstâncias. E você me julgaria por meus atos!

ROBERT LOUIS STEVENSON — Markheim

O negão Inácio tinha nos chamado no seu quarto. Todos fizeram cortes nos dedos. Nem vi direito onde ele guardou o sangue do nosso time porque ele saiu na corrida para levá-lo ainda vivo para um Pai de Santo lá de Bagé. No dia seguinte, podíamos sair da segunda divisão se ganhássemos do Ipiranga de Erechim – casualmente meu ex-time – no Estrela d`Alva. No quarto, enquanto dava meu sangue, tremia e lágrimas de arrependimento me vinham aos olhos. Foda. Os companheiros me abraçaram, pensando que eu estava emocionado com nossa demonstração de união. Que nada, eu estava apavorado mesmo. Tudo por que, desde o dia anterior, eu era o traíra do grupo.

E era também um dos caras mais importantes do time. Tinha sido formado em time grande, o Internacional de Porto Alegre, apesar de ter sido sempre reserva nas categorias de base. Fiquei lá dos 12 aos 18 anos, quando comecei a rodar pelo interior. Além do mais, tinha segundo grau completo e, aos 24 anos, era o capitão do time. O resto do pessoal era tudo quinta série, por aí. Eu sabia falar com a imprensa. Dava mais entrevistas e aparecia mais do que os outros, mesmo medindo 1,60m. Eu era o baixinho que fazia a ligação entre o meio de campo e o ataque. Quer dizer, jogava em posição de craque, mas não era o caso. Tinha alguma habilidade e batia as faltas, pênaltis e escanteios do time, só que passava mais da metade do tempo machucado. Mas não naquele ano. Como o Enzo dizia na escolinha, aquele era o ano do seu pai. Eu ficava todo orgulhoso, pois tudo o que faço é para ele.

Ganhava quatro mil por mês no Guarany e os caras do Ipiranga me ofereceram vinte para errar todos os escanteios e faltas na decisão. Pênaltis também, se acontecessem. Eu estava em pânico com esta possibilidade – achava que era impossível errar o gol num pênalti. Se eu treinava diariamente, porra, como ia fazer para bater embaixo da bola a fim de mandá-la para fora do estádio? E eu sempre batia colocadinho, com jeito. Que merda. Só sei que pedi o dinheiro adiantado, pois depois eles sumiriam, é óbvio. Como eu tinha fama de sério e confiável, me deram a grana em dinheiro, na hora.

Tinha que aceitar a grana. Tinha o Enzo. O guri passava mais tempo com minha mãe em São Gabriel do que comigo e eu precisava ganhar mais para ter uma empregada em casa. Ainda bem que São Gabriel era perto e eu o visitava com frequência. Eu pagava todas as contas dele, mas não podia morar junto porque ele tinha quatro anos e eu era sozinho em Bagé. Meu filho não podia ficar abandonado no meu apartamento durante as concentrações e viagens. Mas eu queria criar ele, como acho que é o normal de se fazer. Enzo nascera em Erechim, quando eu tinha 20 anos. Agora já tinha quatro e era um enorme dum guri. Quando a Lidiane deixou ele lá em casa, era uma coisinha de nada. Lidiane trabalhava na zona de Erechim e eu sempre ia com ela quando ganhávamos um jogo no Ipiranga. Parte do prêmio pela vitória ia para a diversão e eu gostava da Lidiane. Sempre a procurava. Hoje eu sei que, na época, ela nem podia trabalhar porque era de menor: tinha só 16 anos. Um dia, depois de um sumiço grande, ela apareceu no meu apartamento com o Enzo. Sei lá como descobriu meu endereço. Disse para eu pegar meu filho.

Olhei para ele, examinei bem. Era a minha cara. Meu filho. Perguntei que nome ela tinha dado e ela respondeu:

– Aléquisei.

– Porra…

Brigamos. Foi uma cena. Ela foi embora, disse que não tinha saco pra filho. Fiquei com o guri, é óbvio. Minha mãe quis saber da certidão. Procurei a Lidiane e ela não sabia onde estava. Fomos no cartório e acharam Alekisei Silva, filho de Lidiane Santos Silva, de pai desconhecido. Que merda. Pedi pro meu empresário achar um advogado para mudar o documento. Ele tinha um pai. E mudei seu nome para Enzo. Aquilo me custou caríssimo, mas consegui a tal retificação. Nunca mais vi Lidiane.

Por que Enzo? Ouvi em algum lugar que Zidane tinha um filho com este nome. O motivo era homenagear seu amigaço Francescoli, Enzo Francescoli, um grande jogador uruguaio. Como achei bacana e tanto Zidane como Francescoli jogavam na minha posição, resolvi imitar. Além do mais, Enzo é um nome bonito, diferente.

E então lá estava eu, o traíra chorão. Dormi mal aquela noite, sonhei que teria que errar três pênaltis como o Palermo. Acordei cedo com as buzinas e os foguetes dos bageenses. A cidade estava mobilizada para o jogo das 15h30, que poderia levá-la de volta à Primeira Divisão gaúcha. E eu estava assustado. A rádio da cidade veio  atrás de uma entrevista e eu disse que respeitávamos o adversário e que estávamos preparados para ganhar, já que o empate classificava o Ipiranga. Depois perguntaram o que eu sentia ao enfrentar meu ex-time, se havia algum sentimento de vingança ou mágoa e eu respondia que nada disso, hoje eu estou no Guarany e sou profissional. Além disso, o Ipiranga é um adversário como outro qualquer outro e devemos fazer tudo para vencer e classificar o Guarany.

Terminaram a entrevista dizendo aos ouvintes que o capitão estava sério e concentrado, só pensando no compromisso das quinze horas e trinta minutos e na necessidade de vitória. Me elogiaram. Merda. Era pavor, não profissionalismo.

Veio o jogo. Quando o árbitro chamou os capitães, notei um risinho na cara de Marcão, capitão do Ipiranga e meu ex-companheiro. Ele conhecia Enzo, minha mãe e talvez até Lidiane. Permaneci sério, com aquela cara de inimigo que sabe o que quer. Será que ele sabia do trato? Fiquei desconfiado e preocupado, porque Marcão era um boca-grande. O jogo começou e eu fingia jogar. Recebia a bola, tentava o drible, mas sempre jogava a bola nas pernas dos marcadores. Quando lançava um de nossos atacantes, errava e eles me motivavam aplaudindo, depois de ver a bola perder-se pela linha de fundo ou pela lateral. Batia as faltas e escanteios bem abertos, para não dar chance a nossos cabeceadores. Pedia desculpas. 0 x 0. No intervalo, o professor veio falar comigo em particular, perguntando porque eu estava tão tenso.

— Não, não é isso, só que tô mal no jogo, meio enjoado.

— Marquinhos, isso é de fundo nervoso. Agora, olha bem para mim, olho no olho.

Obedeci.

— Marquinhos, se tu fraqueja, estamos mortos. A defesa tá bem. Eu preciso de um contra-ataque bem puxado e organizado ou de uma falta bem batida para mandar esses caras pra puta que o pariu. Cara, eles te dispensaram no ano passado, tu quer dar razão a eles? Marquinhos, eu preciso de um bom lance e fim, tá? Baixinho, pensa no teu filho que deve estar ouvindo o jogo em São Gabriel. Faz por ele, pelamordedeus!

Estávamos voltando para o segundo tempo e, ainda no túnel, lembrei do que tinha dito o pediatra do Enzo.

— Esse guri é muito grande, vai ter 1,90m, no mínimo!

Eu achei que ele estava brincando, mas agora me dava conta que meu menino era enorme mesmo e eu um tampinha. Senti meu estômago se contrair ao pensar nele, que poderia não ser meu filho, e em Lidiane, aquela vaca que dava mais que xuxu na cerca. Estava na cara o que o pediatra estava me dizendo. E ele tinha cabelos lisos, escorridos, como ninguém na minha família e nem Lidiane tem… E agora sou um traíra. Mas que merda de vida, meu Deus.

Na primeira bola que recebi no segundo tempo, veio um volante por trás e bateu com seu peito em minhas costas com tanta força que voei longe. Fiquei puto com aquilo. Na jogada seguinte, dei-lhe uma tesoura com a finalidade de tirá-lo de campo. Ele reagiu:

— Quer foder meu joelho, seu filha-da-puta?

— Filha-da-puta é a tua mãe, desgraçado. Vai tomar no olho do teu cu, seu bosta. Vou te quebra, porra!

O juiz se meteu entre nós e me deu o cartão amarelo, apesar de que eu não parava de gritar, ofendendo as mães do pessoal do Ipiranga. Estava transtornado. Então, resolvi jogar. Só que estava tão puto que fazia as coisas piores ainda. Marcão me olhava e sorria, como se eu fosse um ator prestes a receber um Oscar. Mais para o fim do jogo, dei-lhe um cotovelaço, mas errei. Marcão passou a mão na minha cabeça e me disse com carinho:

– Te conforma com a segundona, nanico.

E riu. Eu mandei ele se foder. No final da partida, fiz um lançamento para nosso centroavante, que tomou uma falta na boca da área. Ele pegou a bola e me entregou.

– É a bola do jogo. Faz o gol, baixinho.

Eu não via nada claro, mas vislumbrei o Marcão na barreira e ele sorria abertamente para mim. Sim, ele sabia da Lidiane, do pagamento, de tudo. Sabia, enfim, que eu era um merda. Coloquei a bola no local indicado pelo árbitro e tomei distância, determinado a mandar tudo pra puta que os pariu. Minha cabeça era o maior tumulto — pensei no Enzo ouvindo o jogo, na minha mãe, no cara me entregando a grana, no professor me suplicando para jogar melhor e em toda aquela massa que estava fazendo barulho desde a manhã. Decidi bater pelo lado da barreira, forte, para fora. Corri para a bola e chutei. O estádio explodiu em comemoração. Eu saí correndo como um louco em direção à arquibancada, pois, enfim, era o herói do dia.

Foto ilustrativa: Guarany, campeão da "Taça Bicentenário de Bagé" em 2012

Guarany, campeão da “Taça Bicentenário de Bagé” em 2012 (foto ilustrativa)

Depois do jogo e de ter erguido a taça, toda a cidade parecia estar dentro de nosso vestiário, todos queriam me tocar, falar comigo, me abraçar. Eu sorria, mas tinha certeza de que, assim que ficasse sozinho, levaria um tiro ou uma facada. Tinha que dar um jeito de chegar até meu carro para fugir da cidade. Dei entrevistas para as rádios locais e para o pessoal de Erechim, estes com cara de luto. Eu sabia que seria morto depois daquilo; afinal, enganara os caras, roubando vinte pilas deles. Eu não tinha culpa se a barreira pulara. No último segundo, decidi chutar forte e rasteiro, para que a bola batesse nela, só que a barreira pulou e a bola passou por baixo daqueles deficientes mentais do Ipiranga. Entrou no canto desprotegido pelo goleiro, que nada pôde fazer.

— Muita frieza e precisão na cobrança de falta, Marquinhos!

— Marquinhos, você não fez tão boa partida quanto as anteriores, mas craque é craque e você decidiu o jogo com categoria.

— Marquinhos, você sentiu que a barreira pularia?

— Marquinhos, a sofrida cidade de Bagé, que há anos convive com a estiagem e com o racionamento de água, tem em ti um grande herói. Parabéns!

— Capitão Marquinhos, por favor, erga a taça novamente para a grande torcida do Guarany, essa massa que delira com a ascensão à Primeira Divisão de nosso estado!

E eu pensando na minha morte.

Depois da festa no estádio, houve um churrasco com cerveja pago pelos diretores do clube. Cheguei meio bêbado a meu Uno Mille acompanhado de dois colegas. Entramos, deixei-os em casa e fui para a estrada. Amanhecia quando cheguei em São Gabriel. Recebi o abraço da mãe, que chorava dizendo

— se teu pai estivesse vivo, ficaria tão orgulhoso de ti…

E lágrimas. Eu não aguentava mais. Era um carrossel de emoções.

— Mãe, eu vou viajar. Sair de férias. Vou para Floripa com o Enzo.

Depois de fazer as malas dele, dei um jeito de ir para o Uruguai. Passei de novo por Bagé, mas não pararia ali nem que me cobrissem de ouro. Me senti melhor quando atravessei a fronteira em Aceguá. Na noite do mesmo dia, deixei o carro num estacionamento em Colônia e atravessei o Rio da Prata de buquebus. Chegando à Buenos Aires, fomos para a rodoviária. Enzo parecia estar gostando de viajar comigo. Estava tranquilo. Olhei os destinos dos ônibus e escolhi uma cidade que não conhecia: Ushuaia. Viajamos a noite inteira, eu e Enzo. Estávamos felizes. Eu e meu filho, ele com seu pai. Perto do meio-dia, estava ficando cada vez mais frio e nada de chegarmos. Pedi para trocar de lugar com Enzo, fui me sentar na janela. Não entendia muito bem onde estava, mas a vegetação era desconhecida e esfriava demais. Paramos e comprei um livrinho para turistas, Conozca la Argentina. Procurei por Ushuaia e a primeira propaganda que vi da cidade foi: visite el Museo del Fin del Mundo. Meu Deus. Depois havia outras que falavam em Patagônia, extremo sul e fotos de pinguins. Estaria indo para o Pólo Sul? Será que tinha ursos brancos por lá? Será que eles comem gente? Num cantinho informavam a distância de Buenos Aires: 3260 Km. Comprei casacos e blusões. Mais dois dias e chegamos. Era lindo, mas fiquei estarrecido quando entramos na cidade pela avenida Heróes de Malvinas. Estaria perto das Ilhas? Olhei no mapa. Putz, estávamos bem ao lado. Teve uma guerra ali, parece.

Claro, gastei todo o dinheiro do pessoal de Erechim em hotéis e em contatos com meu empresário. Contei-lhe o acontecido e ouvi sua resposta:

— Eu tenho direito a 20% de tudo o que tu recebe, lembra?

Enzo adorou aquela Floripa quase vazia. Enturmou-se com outros meninos e eu os observava brincar. Quis saber as idades de cada um deles e concluí que meu filho seria mesmo muito alto. Meu empresário conseguiu um outro empresário a nível internacional e, depois de congelar por sete semanas, me conseguiram um clube, mas me morderam em 75% do valor da negociação. O novo empresário me acompanhou até o novo clube. De novo, lá era frio, mas também era bonito. Antes de me despedir dele, pedi-lhe que falasse com o médico do clube e, no dia seguinte, eu e Enzo fomos a uma clínica para o exame de sangue. Lembrei de Inácio. Saudades dele, aquela mandinga deu certo. E como!

Hoje, recebi um envelope com o resultado, só que não entendo nada de norueguês. Saí do treino e busquei Enzo para um cinema. Nunca tinha entrado num cinema tão pequeno. Era um filme espanhol meio infantil, El Laberinto del Fauno, e achei que, como em nossa temporada entre os pinguins falávamos a língua, entenderíamos tudo. Tomei um susto quando vi que estava dublado naquela língua deles… Rimos muito e eu ia narrando em seu ouvido o que os personagens diziam. Tudo meio inventado, claro. Voltamos para a casa a pé. Ele pediu para jantar o que mais gosta de comer: ovos mexidos e purê de batata. Entrei num supermercado para comprar. Ali, era fácil. Bastava pegar o que quisesse e, na hora de pagar, eu não precisava falar nada: era só olhar a soma na máquina, enfiar o dinheiro e receber o troco, tudo automático.

Quando estávamos chegando em casa, lembrei do envelope. Joguei num lixo da rua. Se crescer muito é porque cuidei bem dele.

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Passando camisas

A alguns pode parecer estranho, mas Ana não se importava de passar camisas. Gostava de ligar o radinho na casa de dona Valéria e passar calmamente as camisas e roupas da patroa. Era um trabalho que requeria uma parcela muito pequena de seu cérebro. Naqueles momentos, Ana — que tinha uma vida interior muito movimentada — podia divagar à vontade. Diferentemente de preparar o almoço, que tinha horário para ser servido e obrigava-a a cálculos de quantidades e tempo no fogão, passar roupas era algo que fazia lenta e cuidadosamente, sem hora para terminar. Sentia a textura aquecida dos tecidos, o vapor subindo, dobrava cuidadosamente a roupa e depois apreciava os elogios de dona Valéria a seu trabalho.

À noite, quando voltava para sua pequena casa na periferia, Ana seguia trabalhando. Ali, ela também preparava a comida, limpava a casa, lavava e passava suas roupas e as de Daniel, seu marido. Ontem, porém, sua rotina foi quebrada. Ao pegar uma camisa de seu marido, Ana sentira um pequeno papel num dos bolsos. Retirou-o e viu tratar-se de uma nota fiscal. Ele tinha comprado um Ferro Ultragliss Diffusion 70 Arno por cento e noventa e nove reais. Estranho. Daniel gostava de andar alinhado, mas era muito dinheiro por um ferro de passar. E, além do mais… Observou melhor a data da nota: a compra fora feita há mais de quinze dias e ela não recebera ferro novo nenhum. Faltava muito para seu aniversário e eles não tinham dado presente para nenhum amigo ou parente nos últimos dias — o que significaria aquilo? Será que ele comprara para um amigo que estava sem crédito? Voltou a olhar a nota: compra à vista.

Ana, uma morena bonita e alta, daquelas que atraíam os olhares masculinos e que recebia cantadas até dos amigos de Daniel, sentiu tonturas. Deitou na cama do casal e, num gesto típico seu, tapou os olhos com o braço esquerdo e começou a chorar. Depois de alguns minutos, pensou que Daniel, sempre tão apaixonado e orgulhoso dela, poderia ter dado aquele ferro para sua mãe e decidiu falar com a sogra.

— Boa noite, dona Rosaura.

— Oi, Ana, tudo bem?

— Tudo. Eu quero comprar um ferro de passar para nós. A senhora sabe de uma marca que seja boa?

— Olha, não. Eu uso o meu velhinho da Walita. Funciona bem.

— Tem vapor?

— Não, tem copo d`água e paninho…

Riram, falaram mais um pouco e desligaram. Naquele momento, Daniel devia estar jogando futebol com seus colegas da Polícia Militar. Sempre voltava cansado e suado. Cansadíssimo, pensou Ana, ainda na cama. E se o futebol fosse uma mentira e ele estivesse com a outra? Nesse caso, voltaria meio brocha para casa. Resolveu, então, que não ia dar-lhe folga naquela noite. Foi tomar banho e pôs um vestido listrado que deixava à mostra sua cintura fina em contraposição aos quadris largos. Abriu um pouco o decote de forma a deixar o observador entrever seus seios e foi esperar Daniel na porta da casa, observando a rua. Os poucos que passavam viam a mulher na porta. A maioria das mulheres a ignoravam, os homens caminhavam voltando o rosto para medir a mulher recortada contra a luz que vinha da sala. Alguns vizinhos a cumprimentavam, um perguntou se ela ia a uma festa e obteve como resposta apenas um dar de ombros. Ela não queria falar, temia uma torrente de lágrimas.

Daniel chegou de calções e tênis, com a camiseta do time na mão. Suava muito. Ainda na rua, olhou admirado para sua mulher e perguntou:

— Hoje vai ter festa, minha nega?

— Sim, estou carente.

— Ah, isso não pode continuar assim… – e sorriu sedutor de um jeito que a fez abrir os braços para aquele que se tornara algo como um estranho peregrino.

— Vai tomar banho, amor — conseguiu dizer, sentindo o caminho ascendente do choro.

Foi para o quarto e tirou o vestido molhado do suor de Daniel. Ouviu-o terminar o banho, ir à cozinha, voltar ao banheiro para escovar os dentes e afinal entrar no quarto, onde ela procurava desesperadamente sentir-se sexy. Reconheceu o calor do corpo de Daniel, que deitara de costas sobre a cama, e pôs imediatamente a mão em seu pênis. Obrigou-se a dar-lhe um beijo e notou que o pênis enrijecia-se rapidamente, como se o mundo ainda girasse e nada houvesse mudado. Subiu sobre Daniel e fez que com ele a penetrasse. O homem ia pedir-lhe calma, mas deu apenas um grunhido que era mais dor do que aprovação. Ela começou a movimentar-se sobre ele e chegou a um orgasmo que fez romper a barragem que a impedia de chorar.

— O que aconteceu, minha nega?

— Não sei, deixa eu ir no banheiro.

Daniel seguiu-a, segurando e olhando seu pênis. A pele estava inchada e ele sentia dor ao mexer ali.

— Acho que tu me machucou. Tem que ir mais devagar, Aninha.

— Ah, é? – respondeu-lhe já a caminho da sala, onde foi pegar a nota da loja.

Quando voltou, Daniel ainda estava no banheiro, examinando-se.

— Daniel, tu poderia me dizer o que significa esta nota?

— Ele olhou para o papel como se nunca o tivesse visto.

— Para quem tu comprou este ferro?

— Que ferro, ficou louca?

— Este aqui, ó: Ferro Ultra sei lá o quê.

— Não sei que do que tu tá falando.

— Daniel, esta coisa tava no bolso da tua camisa azul!

— Deixa eu ver!

Ele segurou a nota perto dos olhos e Ana achou que ele realmente não sabia do que se tratava.

— Eu sei lá que porra é essa, nunca comprei esta merda.

Ela queria pressionar.

— Eu vou pra casa da minha mãe. Não quero mais te ver, seu corno.

— Calma, neguinha, muita calma. Eu quero ver toda a minha família e meus amigos mortos se eu tiver outra mulher. Sei lá que nota é essa, nem como foi parar numa camisa minha. E, porra, dar um ferro de passar para a amante? Pra quê? O ferro dela ia ser outro…

— Para de brincar, idiota.

Demoraram a dormir. Daniel puxava qualquer assunto, enquanto tratava a mulher mais carinhosamente que o habitual. Tarde da noite, dormiram. Pela manhã, Ana teve a impressão de não ter descansado. Preparou o café para Daniel e saiu atrasada com o vestido listrado, que estava mais à mão. Chegou à casa de dona Valéria quando esta já tinha saído.

Ao entardecer, com o rádio de pilha desligado, passava novamente camisas e pensava no ferro de cento e noventa e nove reais, enquanto sentia o cheiro do vapor quente misturar-se com o perfume de seu vestido e o do suor de Daniel, ainda presente em sua lembrança, no vestido, em tudo. As lágrimas desciam silenciosamente pelo seu rosto quando dona Valéria entrou em casa com um amigo. Ele olhou admirado para Ana, que se recortava contra a luz vinda da veneziana em seu típico gesto de encobrir o rosto com o braço esquerdo. Aquela imagem ficou gravada na memória do artista.

PassandoCamisasGravura de Coccarelli

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Objeto de Desejo

Para ela, os cheiros sempre foram importantes. Percebia grande parte do mundo através deles. Ao chegar a um restaurante, por exemplo, rapidamente notava a qualidade da comida; ao chegar o prato, adivinhava seus condimentos e a forma como fora preparado; ao retornar para casa, reconhecia o cheiro de banho do marido ao deitar — o mesmo há 30 anos –, assim como o cheiro da cama ao acordar. Havia também os cheiros ruins, que a afastavam. Ela dizia que baratas tinham determinado odor, assim como o pó da casa. Seu marido balançava negativamente a cabeça… Ora, cheiro de barata…

Impossível dizer se era seu sentido mais importante, mas era aquele do qual mais se orgulhava; sabia que o fato de ser excelente cozinheira devia-se à habilidade olfativa, um talento discreto e pouco considerado, mas que nunca a abandonara ou fora-lhe hostil. Tudo começou em sua infância no interior; corria à cozinha para sentir mais forte o cheiro do pão que sua mãe fazia para vender nas padarias; ficava feliz ao sentir entrar pelas janelas as delícias da terra molhada no início da estação das chuvas. Até hoje, quando os primeiros pingos batiam na janela de seu apartamento na cidade grande, sua memória trazia-lhe a fragrância da terra carente e dos telhados empoeirados, sugerindo felicidade e risos.

Hoje, ao acordar, veio-lhe à memória um cheiro inesquecível. O do perfume “Toque de Amor”. Ainda hoje, o vidro é o mesmo de sua trinta anos atrás. Ela o tinha visto pela primeira vez no quarto da irmã mais velha de uma amiga.

Avon Toque de AmorNuma quente tarde de sábado, conseguiu entrar sozinha no quarto da moça. Estava com um pouco de medo, mas era-lhe necessário olhar de perto aquele perfume. No quarto havia uma penteadeira algo aristocrática para a simplicidade daquela gente e lá estava, bem no meio, uma bombinha para borrifar perfume, algo lindíssimo, com uma cordinha púrpura na ponta. E, ao lado, o vidro de “Toque de Amor” da Avon. Aos quatorze anos, sua pele ainda não conhecera um perfume de verdade, apenas sabonetes e talco, quando havia. O maior luxo de sua família de raras posses permitia-se era a Água de Colônia, apenas usada com parcimônia em ocasiões especiais. Ela olhava o vidro e sentia pela primeira vez o desejo irrefreável de caminhar rente às pessoas pelas ruas da cidadezinha, deixando uma leve fragrância que as faria voltarem a cabeça.

A partir daquele momento, o vidrinho passou a povoar sem tréguas sua imaginação. Dali a dois meses depois, haveria a de formatura do ginásio. Iria usar um vestido novo, amarelo, com pequenas tranças de tecido realçando o decote, uma obra de carinho costurada por sua mãe. Mas sua noite de princesa seria incompleta sem o “Toque de Amor”, garantia absoluta de sucesso.

Criou coragem e foi falar com a privilegiada proprietária do perfume; expôs a importância de uma leve borrifada do “Toque”. Sua resposta foi um fraco não, disse que, se cedesse, teria também que aspergir ou pingar ao menos uma gota em cada irmã, que até então não tinham merecido tamanha distinção. Jurou segredo absoluto, mas a outra não aceitava. Passada uma semana, ela lhe propôs não apenas um, mas três borrifos.

Em troca, ela apenas precisaria levar uma carta até um endereço comercial na Pinheiro Machado. Fácil demais! No grande dia, deu uma passadinha na casa da amiga e pôs na bolsa do colégio o desejado aparato. “Três borrifadas só”, ouvi-a repetir, “se colocares mais, fica insuportável de tão forte. Não dá para chegar perto!”. Então, já vestida para o baile, recebeu de si mesma as três gloriosas borrifadas e foi para a festa de formatura. No salão de festas do colégio, sobre o piso vermelho de cimento queimado, dançou embalada por um conjunto estreante da própria cidade: eles arrasaram em covers de “Renato e seus Blue Caps” e Jerry Adriani.

Foi uma noite inesquecível. Dançou “Feche os Olhos” com um menino que nunca tinha visto e que certamente sentira o “Toque de Amor” em seu pescoço e no colo cheio de trancinhas amarelas aspergidas.

Feche os olhos e sinta um beijinho agora
De alguém que não vive sem você
Que não pensa e não gosta
De outra menina e tem medo de lhe perder

Na semana seguinte, pagou a dívida. O homem era gerente da agência do Banco do Brasil da cidade. Era bonito, de meia idade. Muito velho, em sua opinião.

Dois meses depois, toda a cidade comentava. A esposa traída fez todo alarde possível. A patrocinadora do perfume, aos 19 anos, foi expulsa de casa. Passou a morar com uma tia na capital e o moço acabou transferido. Nunca mais se soube da moça e ela nunca mais usou “Toque de Amor”.

Publicado em 2008. Tinha esquecido dessa historinha simples.

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O concerto de ontem nas Dores / Todos os Pecados Perdoados

A Pequena Missa Solene é o principal “pecado da velhice” de Rossini

Ontem, às 19h30, houve um especialíssimo concerto na Igreja das Dores. A obra apresentada foi a Pequena Missa Solene, de Rossini. Tinha missa antes, e o padre fez atrasar o concerto. O público do concerto ficou lá fora, esperando sob imenso calor; Afinal, nossa religião é outra, é a da música. A apresentação foi muito boa, com destaque para o mezzo-soprano Angela Diehl, o baixo Daniel Germano, o coral Madrigal Presto e a dupla Olinda Alessandrini e Fernando Cordella, no piano e no órgão. Impressionou-me de forma muito forte o Agnus Dei, muito bem conduzido pelo regente João Paulo Sefrin.

Abaixo, deixo uma história que, de forma muito particular, descreve esta obra de Rossini. Deixei os comentários do post original, apenas acrescentando esta introdução.

.oOo.

Todos os Pecados Perdoados

A Fernando Monteiro

Eu estava estudando na Itália, mas o tema de maior interesse, aquele sobre o qual me debruçava com verdadeira afeição, era Antonella, minha pequena e saltitante romana. Um dia, tivemos uma discussão acerca de algumas grosserias que, segundo ela, eu cometera, e ela rompeu nossa ligação.

Dias depois, telefonei-lhe e convidei-a para assistirmos à Pequena Missa Solene de Rossini, que estaria sendo apresentada na Parrocchia dell’Assunzione, no Tuscolano. Depois de alguma hesitação e surpresa – ela não esperava uma ligação minha, ainda mais sem referências a nosso impasse -, ela aceitou. Antonella amava a música de tal forma que eu não tinha como saber se a aceitação do convite significava um perdão ou a mera impossibilidade de recusar a missa de Rossini.

Caminhamos lado a lado, sem nos tocarmos. Tive todo o cuidado em ser verbalmente o mais gentil com ela, já que as circunstâncias não permitiam nada além. Quando a Missa começou, ela se riu. Disse em meu ouvido que achara engraçada a pobre instrumentação que Rossini utilizara. Passaram-se alguns minutos e notei que Antonella estava muito emocionada. Abracei-a e ela apoiou sua cabeça em meu peito. Enquanto lhe acariciava o rosto, sentia suas lágrimas molhando meus dedos. Soube que estava perdoado.

Rossini começou a escrever música muito jovem. Era prolífico e compunha, em média, duas óperas por ano. Então, aos 37 anos – enfadado do freqüente contato com cantores temperamentais e diretores de teatro ainda piores -, parou de trabalhar seriamente com música, tornando-a um divertimento pessoal. Riquíssimo e célebre, dedicou-se ao lazer e a um irônico e gentil convívio com todos, itens nos quais era mestre. Costumava promover freqüentes festas em sua casa. Ali, bebia-se champanhe, vinho, comia-se esplendidamente e ouvia-se música. Às vezes, Rossini apresentava ao piano peças de um certo compositor anônimo… O compositor ressurgiu surpreendentemente aos setenta e poucos anos publicando duas extraordinárias peças sacras – o Stabat Mater e a Petite Messe Solennelle (Pequena Missa Solene) -, além de peças para piano. Tais obras foram agrupadas sob o título genérico de Péchés de vieillesse.

Fomos a meu apartamento, onde nos amamos e dormimos como fazem os casais. Quando acordei, não vi Antonella. Havia somente um bilhete em italiano sobre meu criado-mudo. Meu amigo, fomos engolfados por um dos “pecados da velhice” de Rossini. O que aconteceu não tem nada a ver com nossa situação. Não me procure mais. Antonella.

Nunca mais vi minha pequena Antonella. Porém, ontem, recebi de um amigo uma gravação da missa de Rossini. Comecei a ouvi-la, mas logo interrompi a audição por pudor. Deixei todos dormirem para religar o aparelho de som. Então, enquanto minha mulher dormia, ouvi toda a gloriosa Missa, imóvel, sentado no escuro, sentindo a presença de minha adorável Antonella e de uma outra vida perdida.

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Os Velhinhos (um filme de Polanski por escrito)

Há trechos de cinco filmes de Polanski neste conto. Divirtam-se procurando, se quiserem.

Os familiares conversavam entre si, fingindo normalidade, enquanto ele observava a porta da megalivraria. Evitava seus olhares, sentado atrás da mesa adornada por uma pilha de exemplares de seu primeiro livro. Até aquele momento, apenas autografara para a família e uns poucos amigos. Penalizados com a ausência de público, alguns de seus familiares ficaram zanzando por ali a fim de ocupar mais espaço. Os amigos foram rapidamente embora, talvez assustados com sua cara de enterro ou, quem sabe, com receio de que o insucesso fosse contagioso. Ou por ambos os motivos. Então, inesperadamente, uma pequena fila se formou. Três senhores de idade deram seus nomes e receberam os autógrafos. Logo vieram outros, todos velhos. O autor pensou que uma caravana da terceira idade tivesse aberto suas portas em frente à livraria. Era inusitado e ele se comoveu pelo interesse daqueles senhores por seu simples volume de prosa poética, Liber Amoris. Sim, ele era old fashioned, na verdade, um indignado contra as modernidades, porém jamais imaginaria que seu livrinho – meu modesto opúsculo, dizia – falaria tão de perto à velha geração, àquela que sabia o que era efetivamente bom.

Ficava cada vez mais eufórico com a afluência dos idosos. Seus parentes também, tanto que recuaram de suas posições anteriores para não atrapalhar. Os integrantes da fila obtinham seus autógrafos, cada vez mais longos e carinhosos, e permaneciam em torno, caminhando lentamente, olhando as estantes. Enfim, um respeitável senhor chegou-se à mesa e, após receber de volta o livro, pediu-lhe para assinar uma folha avulsa. Parecia um contrato, mas era escrito em caracteres desconhecidos. Ouviu o senhor dizer: “Meu filho, assine aqui”. Feliz com o sucesso geriátrico de sua noite de autógrafos, o autor jogou o corpo para trás, libertando o sorriso que guardava dentro de si há alguns minutos.

Ao jogar o corpo para trás, percebeu um sujeito pequeno, de aproximadamente quarenta anos, cabelos castanhos encaracolados, usando uns óculos redondos sobre sobrancelhas grossas, abaixo de cujo centro partia um nariz de consideráveis proporções. Era Roberto Bolaño que, de longe, fazia-lhe sinais inequívocos para assinar o contrato. O senhor voltou-se para ver o que chamava atenção do autor.

– É um de nossos contratados – disse.

Obviamente, o escritor experimentou leve perturbação, mas nada turvaria seu humor facilmente; além do mais, não acreditava em “sinais”, acreditava em Deus mas não nas religiões, nunca vira ETs, discos voadores, nem temia cemitérios. Decidiu que sua alucinação visual era um augúrio e, sorridente, apôs sua firma ao documento.

Chegou em casa com dores estomacais. Devia ser a emoção. Tomou um analgésico e foi dormir. Pela manhã, foi presa de verdadeiro milagre criativo. Depois da grande noite, sentia forças para finalmente empreender uma obra de fôlego. Recusou o primeiro conto que escreveu — achou-o uma derivação da literatura de Carver. O segundo já tinha sua voz e o terceiro era uma demonstração tão eloquente de virtuosismo que decidiu sair à rua para uma caminhada. Estava cansado. Quando chegou ao parque, as dores voltaram. Sentou-se num banco, aguardando por uma trégua. Observou uma criança que estava próxima, num carrinho de bebê: o menino tinha aproximadamente um ano – já podia estar livre do carrinho – e atirava para longe seu brinquedo a fim de que a mãe, já definitivamente entediada da maternidade, buscasse. Era insuportável. Como era de se esperar, a mãe desistiu de abaixar-se para pegar o chocalho e ouviu-se o berreiro de decepção do menino. Aquilo irritou de tal modo o Escritor que ele ergueu-se, dirigiu-se à criança, deu-lhe um sonoro tabefe e gritou

– Nojentinho!

com voz alterada. Seguiu seu caminho meio curvado pelas dores, mas ainda assim falava em voz alta, explicando aos circunstantes que a vaca daquela mãe não deveria ter tido um filho se o estava criando para a neurose. A mãe reagiu protestando contra a grosseria, mas o Autor apenas voltou-se para ela e sorriu de longe. Interessou-se por seu rosto desfeito, era-lhe inspirador.

Voltou para seu quarto com uma descoberta. Grande parte das obras imortais eram escritas por raiva, contra alguém ou alguma coisa. Pensou num argumento para uma novela, hoje clássica, sobre dois casais que têm filhos apenas para satisfazer seu relógio biológico e que logo cansam deles, indo resolver suas culpas em psiquiatras. É da sua autoria a tese sobre a má utilização da culpa: esta só serviria para provocar uma dor admitida e calculada a quem certamente causara sofrimentos muito maiores. Era uma novela cheia de ódio e que fez imenso sucesso. Escreveu suas 53 páginas de um só fôlego, sem dores, e, quando foi dormir, foi visitado por sonho.

Reviu Bolaño e desta vez compreendeu o sinal que este lhe fizera na noite de autógrafos. O chileno pegava sorridente um volume de 2666 e o mostrava. O detalhe é que sua mão direita tapava o número 2. Acordou sorridente, planejando um longo romance de formação, com 100 personagens, que seria um amálgama da severidade alemã, da ironia inglesa, da auto-ironia judaica, do drama platino e da sensualidade nacional. Batizou-lhe provisoriamente de A Grande Pornofonia Brasileira. Quase não saía mais de casa. Um livro de contos e outro de novelas deram-lhe dois Jabutis e dois Portugal Telecom e ele já tinha como sustentar-se por alguns anos sem pensar em patrões. Sua única providência fora do âmbito criativo foi mandar queimar todos os exemplares de Liber Amoris. Renegava seu primeiro livro, o qual tornara-se relíquia de colecionadores — agora sua obra iniciava-se pelo seminal livro de contos Abra e Leia!, não pelo enjoativo Liber Amoris. Retirou-se da Flip à simples pergunta do entrevistador:

– Gostaríamos que você falasse sobre Liber Amoris, sua primeira obra.

Após o lançamento de A Algaravia dos Ignaros (ex-Pornofonia), planejou de um dia para outro sua obra magna, As Repartições Suprimidas, livro inspirado pelo serviço público brasileiro e que inaugurou o movimento literário e filosófico da Regurgitação, uma reação saudável ao Politicamente Correto, que passou a ser considerado fascista e anacrônico. Novamente mal saía de casa, sua saúde ia de mal a pior – os médicos não tinham diagnóstico para as malditas dores – , estava relegado a uma cadeira de rodas e era atendido por uma bela estudante de letras francesa, Catherine, que assumira as funções de secretária, pesquisadora, porta-voz e massagista. Ela dizia que o Autor sentia terríveis dores cada vez que se retirava de casa, mas que essas eram suportáveis enquanto trabalhava. Sua única missão, completava, parecia ser a de produzir e deixar uma grande obra. Foi nesta época que ocorreu o lançamento de A Alegria do Mundo, romance antirreligioso que ensinava que tais crenças eram tão inerradicáveis quanto o nascimento de idiotas. De leitura tão vertiginosa quanto violenta, iniciava com um parágrafo de 203 páginas tratando do assassinato ritual de uma adúltera grávida de oito meses por um grupo de evangélicos; finalizava com outro parágrafo de 312 páginas, que descrevia com naturalidade e poesia um coito de um homem de 44 anos com uma menina de 13, cujo pai tinha subornado um juiz e um padre a fim de permitir-lhe o casamento aos 12 e assim, legalizar a pedofilia.

Foi quando a desgraça ocorreu. A vaidade, sempre a vaidade! A Algaravia tinha recebido um prêmio nos Estados Unidos e o Autor, apesar de doente, quis recebê-lo in loco, fazendo um discurso e recebendo em contrapartida os salamaleques aos quais seus compatriotas raramente têm direito. Ao chegar aos EUA, os grupos religiosos não foram nada receptivos e pressionavam a organização para retirar o prêmio ao autor de A Alegria do Mundo. Um homem de barba, com jeito de hippie e olhar alucinado, deu-lhe um tiro pelas costas.

No dia seguinte, alguns dos idosos liam os jornais brasileiros. Sorriam às manchetes de que o Brasil perdera um provável futuro Nobel de Literatura e aos Cadernos de Cultura que choravam aquele estranho e violento artista. Depois, começaram a telefonar um para o outro.

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Adaptações

Para
Pierella Bedoyan

Como de hábito, ela estava passando mais um fim de semana sozinha em casa. Domingo pela manhã, bateram violentamente em sua porta. Quem chegou tinha ignorado a campainha, percutindo a porta com toda a força. Era uma batida que não admitia dúvidas, quem estava lá fora queria entrar. Ela — que assistia na TV a um filme inglês em que rei e rainha seriam decapitados dali a minutos — saiu correndo da cama enquanto vestia um chambre. Foi até a porta e olhou pelo olho mágico. Viu um desconhecido, com cara de desesperado, no corredor. Decidiu não abrir, claro. O homem bateu novamente, com violência. Teve medo de que a porta cedesse. Taquicárdica, mas procurando manter a respiração inaudível para quem estivesse do outro lado, observou melhor o rosto de quem batia. Não, não conhecia. Em seguida, viu-o sair da entrada de seu apartamento e fazer o mesmo em outra porta. Aquilo a apavorou. O homem desejava entrar em qualquer apartamento. Ficou mais assustada ainda quando ele passou a correr de uma porta a outra, tentando arrombá-las. Ele tomava distância e arremessava-se com o ombro contra elas, sempre sem sucesso. O som de seus gritos e das portas dobrando-se era aterrador.

Repentinamente, o homem voltou-se para sua porta e gritou:

— Estou vendo a tua sombra. Abre a porta, porra!

Ela se afastou do olho mágico e voltou trêmula ao quarto. Fez cara de choro quando ouviu o homem atirar-se contra sua porta. Cada vez mais amedrontada, começou a chorar enquanto via vagamente na TV a jovem rainha, vivida por Helena Bonham-Carter, ser destituída por uma bruxa velha chamada Mary. Ela não se deu conta de destituição nenhuma, estava em pânico. Ligou para o 190 e o policial atendeu:

— Brigada Militar, bom dia.

— Há um homem dentro do meu edifício que quer entrar a todo custo em qualquer apartamento. Ele está se atirando em todas as portas, tentando arrombar, mas acho que ou todos estão escondidos com medo ou estou sozinha no prédio.

Enquanto falava, ouvira várias vezes o homem explodir contra a porta. Ia acabar entrando, ela precisava imediatamente de socorro. Foi quando ou ouviu o homem gritar

— quero algo para comer, estou com fome!

Ela foi para perto da porta a fim de ouvi-lo melhor e notou que ele falava mais baixo.

— Eu só quero um pouco d`água e um pão. Não me deram nada hoje, não consegui nem na igreja. Eu posso ficar no meio do corredor, o senhor confere olhando pelo buraco da porta. Então, o senhor se tiver alguma comida e água abre a porta, deixa na frente e eu só me aproximo para pegar quando o senhor fechar a porta. Pode ser?

Ela, ainda trêmula, voltou ao olho mágico. O homem estava a meia distância e viu sua sombra. Ele disse

— olha, eu dou mais três passos atrás para que o senhor possa me ver bem.

Ela foi à cozinha e, momentos depois, ouviu uma leve batida na porta. O homem falava, agora em voz alta.

— O senhor foi na cozinha buscar alguma coisa para eu comer, né? Por favor, faça isto. Eu preciso.

A voz agora era branda, educada, quase sedutora. Ele seguiu falando, disse que não era perigoso, que estava fazendo barulho para chamar atenção, que tinha ficado desesperado quando pensou que não tinha ninguém em todo o edifício que lhe pudesse remediar a fome. Ela foi até a porta e perguntou:

— O senhor gosta de manteiga com ou sem sal?

— Meu nome é Francisco, pode me chamar de Chico. Como o pão como a senhora quiser.

— E o café? Com ou sem leite?

— Com leite, por favor.

— Açúcar ou adoçante?

— Açúcar, por favor, dona.

Ela foi até a cozinha. Na passagem, viu Helena ser decapitada. Decidiu que aquilo não era um sinal e que tentaria dar o café da manhã a Francisco, desde que ele permanecesse à distância quando ela abrisse a porta, senão fecharia correndo. Preparou lentamente o café. Aqueceu a xícara no microondas, abriu o pão com a faca e cortou alguns tabletes de manteiga, colocando-os lado a lado dentro do pão. Trocou o café com leite do forno pelo pão; sabia que, em 20 segundos, o pão cacetinho ficaria no ponto, com a manteiga entranhando-se gostosamente.

Voltou à porta, deixou a bandeja no chão e pediu para que Francisco recuasse. Através do olho mágico, viu-o ir até o meio do corredor. Em resposta, ela destrancou a porta; voltou a observar a posição do homem e falou em voz alta:

— Vou abrir agora.

— Por favor — ele respondeu.

Ela abriu a porta alguns centímetros e empurrou cuidadosamente a bandeja com o pé, sem deixar nunca de olhar para o homem. Ele ficou onde estava, apenas ergueu os braços alertando-a de que não faria nenhum movimento brusco. Então perguntou se ela estava sozinha em casa.

— Sim, eu moro sozinha.

— A senhora é corajosa. Obrigado.

— De nada.

— Já morou com alguém?

— Sim, faz tempo.

Ele se calou e ela recuou, fechando a porta. Francisco enfim avançou, sentou-se com as costas apoiadas na porta e começou comer o pão, empurrando-o com o café. Do outro lado da porta, ela ouvia sua respiração. Preocupou-a a rapidez com que ele comia e bebia. Devia ser uma fome de dias. Ela se sentou com as costas encostadas na porta e ficou, naquele momento, separada dele por apenas três centímetros. Sem pensar, ouviu a si mesma sussurrar.

— Queres entrar?

— Como? — respondeu ele.

— Queres entrar, tomar um banho, almoçar mais tarde, algo assim?

— Sim, quero.

Ela sabia da loucura que estava cometendo; sabia de crimes, estupros, violência e que tinha recém ligado para o 190, mas cometeu a insânia. Levantou-se e abriu a porta. O homem aguardava-a com a bandeja na mão. Entregou-lhe e entrou, olhando para os lados. Viu um sofá velho todo puído; acima dele, montes de fotos presas com percevejos num mural de cortiça; no quarto, ao fundo, um colchão com lençóis amarfanhados e o som da televisão; viu-a sair do quarto trazendo uma toalha de banho e algumas roupas velhas de homem, fora de moda. Ele recebeu a camiseta com a estampa de Syd Barrett que parecia um sino de tão usada; notou à esquerda uma estante de livros construída de ripas de madeira apoiadas em tijolos. Ela falou:

— Acho que tu gostarias de tomar um banho antes do almoço.

— Obrigado, muito agradecido.

Ele entrou no banheiro. Ela correu ao telefone para dizer à polícia que não precisava mais vir, que o homem tinha saído do edifício. Sentada no sofá, ela esperou. Francisco saiu e, com roupas imensamente maiores que ele, sentou-se sobre um mocho de madeira, afastado dela alguns metros. Perguntou se poderia ficar com aquelas roupas, afinal, tudo o que ele tinha fora vendido. Ela pensou logo em drogas, sentiu um calafrio e respondeu desajeitadamente que, a partir de agora, aquelas roupas eram dele.

Almoçaram gentil e tranquilamente. Ela disse que era jornalista, que tinha 47 anos; ele contou que era um estudante de medicina que há um ano trancara sua matrícula no oitavo semestre. Morava na garagem da casa de sua mãe. Falou que a garagem só tinha saída para fora, pois seus irmãos não gostavam que ele fosse fazer rapina na casa. Ela tinha medo, mas também pensava em como gostaria de ser abraçada por ele.

— A senhora quer que eu saia agora, certo?

— Sim, claro.

— Não tem mais nada que eu possa levar? Algo estragado ou fora de uso?

— Não, nem dinheiro. Por favor, vá.

Ele perguntou se podia levar mesmo as roupas, foi ao banheiro pegar as suas e, com elas na mão, despediu-se com um sorriso. Ela lavou toda a louça com água quente. Depois, abriu a geladeira para servir-se de água. Viu um garrafão de vinho pela metade. Apanhou o garrafão, um funil e, cuidadosamente, passou a dividir o conteúdo do garrafão em garrafas menores. Deixou os três frascos exatamente no mesmo nível e procurou rolhas. Enfileirou o resultado na porta da geladeira, fechou-a e voltou para a frente da TV, no quarto.

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O teclado onde pomos nossas mãos

Um pássaro canta melhor na sua árvore genealógica.
JEAN COCTEAU

Dedicado a Ricardo Branco e Marcelo Backes.

Você olha para o teclado de seu computador ou para a velha máquina de escrever de seu avô e lê, no alto, à esquerda, abaixo dos dos atuais F1, F2, etc., e dos números, a seqüência QWERTY.

Até poucos dias, o americano Robert Qwerty estava esquecido. Seu estranho sobrenome é uma corruptela do alemão Kuerten que, por coincidência, é também o sobrenome de nosso mais notável tenista, Gustavo Kuerten, o Guga. Em 1904, Qwerty era um simples funcionário da Remington quando foi realizado um concurso interno para se saber como deveriam ser colocadas as teclas das máquinas de escrever que a fábrica pretendia produzir. Era importante para a empresa criar um padrão. Resolvido a vencê-lo, Qwerty quis imortalizar seu nome pondo-o em posição de destaque. Fez mais, montou uma verdadeira árvore genealógica em seu teclado. Sim, a maioria das pessoas que teclam diariamente em seus computadores nem imaginam que homenageiam a família de Robert, passando delicadamente suas digitais sobre ele e sua ancestralidade. Analisando seus nomes, concluiremos tratar-se de uma família que perambulou muito pela Europa, principalmente a oriental e pela Escandinávia.

Vejamos: sob o nome Qwerty, vemos as letras A e S, que são, coincidentemente, as iniciais de seu pai, Arne Saknussemm Kuerten, e de sua mãe, Anna Kuerten, née Seghers. (O sobrenome Kuerten tornou-se Qwerty devido a um americano brincalhão, que ria das idéias malucas do pai de Robert no guichê da imigração do porto de Nova Iorque. O casal viera de Marselha após longa espera nesta cidade.) Mais abaixo, temos os nomes de apenas três de seus avós, pois seu avô por parte de mãe, Peter Schlemihl Seghers, ficou à sombra, para não repetir o S; ou seja estava atrapalhando seu neto. Ironicamente – fato que é hoje piada familiar -, Qwerty deixou o P de vovô Schlemihl lá do outro lado do teclado, bem longe dele. Mas desçamos um pouco no teclado a fim de conhecermos mais sobre seus avós.


A famí­lia Qwerty chega aos EUA. Robert está à direita, com o cão.

Os avós por parte de pai chamavam-se Zoltán Xzéperécki Kuerten (ZX) e Crysantemus Vrrschtzztwitsch Kuerten (CV). Pode ser que o nome polaco Xzéperécki soe algo rude a nossos ouvidos latinos, mas assevero que é extremamente belo naquela língua. Porém, para pronunciar-se corretamente o primeiro sobrenome de vovó Crys, é necessário espirrar, coisa comum na fungante e fria Varsóvia de seu nascimento. O avô por parte de mãe era o já citado Schlemihl e sua mulher era Betina Nina Schlemihl (BN), a preferida de Robert.

Observem a comprovação abaixo e comparem-na com seus teclados:

Qwerty………P
AS
ZX CV BN

É a árvore genealógica da família Qwerty!

Pois bem, houve o concurso na Remington e Qwerty não ganhou o primeiro prêmio. Este ficou com outro Robert, Robert Wise, o qual não deve ser confundido com o cineasta. Wise propôs um teclado alfabético, começando no A, indo deste para o B e daí para o C; uma coisa simples e lógica. Qwerty argumentou contra este teclado com crassas mentiras. Dizia que uma nova ciência, a ergonometria, assegurava que sua distribuição de teclas era a mais confortável. Ficou furibundo ao ver contestada a tentativa de imortalizar sua família e passou a utilizar argumentos baseados na numerologia e na seção áurea (ou série de Fibonacci). A briga foi tão violenta que a direção da Remington colocou os dois querelantes juntos, a trabalharem numa mesma sala, até se acalmarem e conseguirem um acordo. Um dia, Robert escreveu em sua máquina Qwerty:

Eu tenho uma mentalidade pacífica. Meus desejos são: uma cabana modesta, telhado de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga; em frente à janela, flores; em frente à porta, algumas belas árvores. E, se o bom Deus quiser me fazer completamente feliz, me permitirá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos nelas pendurados. De coração comovido eu haverei, antes de suas mortes, de perdoar todas as iniqüidades que em vida me infligiram – sim, temos de perdoar nossos inimigos, jamais antes, porém, de eles serem enforcados.

Este parágrafo, roubado a Heine, obviamente não deve ser interpretado como a fumaça branca vinda do recinto onde os dois homens deveriam buscar um entendimento; este parágrafo, isto sim, abre-nos as portas para um terrível crime. O delito, conhecido agora como “O Crime da Remington”, acaba de ser revelado pela revista Newsweek, numa edição de maio de 2008: Robert, ao falecer, em 1958, declarou, em seu testamento, que apenas permitiria ter revelados fatos relativos a sua vida 50 anos após sua morte. E agora, em 2008, temos a explicação. Não, Robert Wise não morreu engasgado por um sanduíche após tentar dizer o segundo nome da avó paterna de Qwerty enquanto mastigava. Foi assassinado, conforme confessa Qwerty nos papéis de seu espólio.

Não vou incomodar meus leitores com narrativas sanguinárias e escatológicas. Procurem por mais detalhes na Newsweek.

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Para não falar de todas essas mulheres (continuação)

(Continuação daqui)

Publicado em 17 de julho de 2007

Juliano voltou ao escritório transtornado. Era um tímido que passara dias sonhando com Luana e que, no momento da abordagem, apesar de todas as divagações sobre uma confluência tranqüila e galante, acabara, com a súbita coragem dos medrosos, por ceder ao primeiro momento em que estiveram “a sós”, realizando tudo de forma desastrada, inaceitável, simplória, na frente do buffet de um restaurante. De uma forma intensa e particular, Juliano estava verdadeiramente apaixonado por sua colega de trabalho.

Ignorou as tarefas da tarde e ficou imaginando o que estaria passando pela cabeça de Luana, algumas mesas adiante da sua. Ele ficara surpreso com sua resposta absolutamente curta e afirmativa – ou negativa -, detera-se humilhado. Juliano, Luana e os outros participantes do almoço estavam desenvolvendo um projeto juntos e teriam que reunir-se novamente à tarde, mas ele decidiu que hoje seria impossível. Avisou ao coordenador que tinha um compromisso e deixou-se ficar sentado em sua mesa. Desesperou-se em silêncio, ruminando sua falta de jeito e a idéia que Luana, a amante dos homens maduros, teria sobre as pretensões dele, um menino incompetente. Teclou algumas coisas no computador e enfim chamou o editor de textos.

Luana.

Peço desculpas por ter falado tão daquela forma no restaurante, porém estava apenas dando fraca expressão à fatos com os quais convivo diariamente e que tentarei deixar agora por escrito.

Quando de nosso primeiro contato na W., te reconheci imediatamente. Já tinha te visto na universidade. Ao conversar contigo, ao te ver de perto, falando e se movimentando, vi mais do que um belo rosto, eu intuí um pouco do que ele carregava e que, com o tempo, foi se confirmando.

Primeiro, que tu eras mais inteligente e competente do que eu. Segundo, que era melhor ter cuidado, pois as palavras ditas e ouvidas por ti possuíam peso de decisão e não de “depois a gente vê”. Terceiro, que acostumada a sair vencedora das discussões, eras teimosíssima. E mais: que podias te enfurecer rapidamente, que era fácil fazer-te rir, que apreciavas comentários maldosos ou mesmo perversos, que podias ficar conversando horas e horas e… que eu gostava muito de tudo isso.

Assim, fui confirmando aquelas impressões e também outras, bem mais complicadas de se escrever. Se a vaidade feminina tem boa observação e memória, notaste como não te fiz nenhuma pergunta naquela nossa última visita ao cliente. No caminho, conversávamos sobre nossas famílias; então, de repente, me fizeste umas dez perguntas pessoais em seqüência – algumas inesperadas. Porém, apesar da minha enorme curiosidade a teu respeito, não me saiu nenhuma pergunta. Estava feliz com tua atenção e aquilo me bastou.

Uma vez, quase sem querer, falando no telefone, escapou-me dizer que tu me eras uma pessoa especialmente agradável. Deveria ter continuado na mesma linha e terminado com um convite, mas, sem estar preparado, deixei passar a oportunidade e decepcionei-me quando tu voltaste a um meio-tom profissional chamando-me, rindo, de um bom colega…

Agora, só consigo ficar repetindo para mim mesmo: “Que droga, que droga, que droga”.

Beijo.

Deixou o esboço assim mesmo e o enviou por e-mail para Luana, com cópia oculta para seu endereço pessoal. Cogitou em mandar flores com um pedido de desculpas, mas concluiu que seria um gasto inútil.

Quando estava quase resolvendo-se a subir para a reunião da equipe do projeto, viu chegar a resposta de Luana.

Juliano, meu amigo.

Bobagem pedir desculpas! Li com atenção teu e-mail agora que nossa reunião foi cancelada. Olha, preferia que não me tivesses dito nada, nem escrito. Se quiseres conversar em outro momento, podes contar comigo. Talvez pudéssemos almoçar amanhã.

Tchau, Luana.

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O Amor em Tempos de Copa (com exclusivo final feliz!)

Publicado em 19 de junho de 2006

Ana Cristtina fazia aniversário em 12 de junho, Dia dos Namorados. É claro que isto apenas a prejudicava. Ganhava menos presentes, ora! Seus namorados, pensava, aproveitavam-se do fato e davam-lhe somente um presente. Mais: tornava-se hiper-sensível neste dia e nos precedentes. Tanto que, no dia anterior, um domingo, mandara seu namorado passear ao ser trocada por Portugal x Angola. Se ainda fosse um jogo do Brasil ou da Argentina, tudo bem, mas Portugal x Angola era demais.

Ramiro respirou aliviado. Estava sem grana e agora mesmo é que não lhe daria presente algum, quem manda ser histérica. Depois, passado o dia 12, tentaria reatar. Afinal, Ana Cristtina valia a pena. Era bonita e boa de cama. Seu único problema era aquela eterna mania de querer discutir a relação aos prantos e tarde da noite, quando ele estava louco para dormir e já pensando na encheção de saco do dia seguinte. Era motoboy por influência de Ana, que fazia o mesmo serviço.

Ana passou o dia 12 recebendo ligações de seus clientes e, cada vez que desligava o celular, dizia em voz alta:

– Puta que o pariu. De novo, não era o filho da puta.

Durante a tarde, chegava e saía dos clientes com os olhos marejados. Alguns, que lhe conheciam há mais tempo, cumprimentavam Ana pelo Dia dos Namorados e faziam seus cumprimentos extensivos a Ramiro. Perguntavam se onde eles iriam à noite, um jantarzinho íntimo, um motel? Ela sorria e não respondia nada. Depois, na moto, mais lágrimas. Ao final da tarde, mais nervosa, passou a acelerar mais e a fazer suas freadas bem próxima aos automóveis. Pensou que um pequeno acidente seria uma boa. Neste momento, como por mágica, uma carro à sua frente deu engatou a ré acertando-lhe em cheio o joelho. Ana deu um grito, descarregando todo o seu ódio naquela má motorista que certamente comprara sua carteira. Mas a mulher que batera em Ana parecia preocupada, saiu do carro pedindo-lhe desculpas, dizendo que iria levá-la imediatamente a um hospital e que aquele estava sendo um dia terrível para ela. Não parecia grave, mas Ana não estava conseguindo apoiar o pé no chão sem dor.

Estacionaram a moto e foram ao hospital. No carro, ambas pegaram seus celulares:

– Ramiro, me acidentei com a moto. Não queria te ligar, mas a quem poderia pedir ajuda?
– Ronaldo, meu amor, aconteceu algo horrível.
– Um carro deu ré bem na minha frente e…
– Sei que não devia te ligar, mas és homem e talvez…
– … acertou o meu joelho. Estou sendo levada para o hospital…
– … saibas a burocracia que envolve um acidente. Tenho…
– … com muita dor… Não, a própria mulher que bateu em mim. Tu poderia vir aqui?
– … seguro e tudo, mas sei lá. Isto é coisa de homem.

Na sala de espera, dois homens esperavam vendo Itália x Gana. Um estava vestido como um executivo, o outro de calças jeans e capacete no colo. Trocavam observações sobre o jogo. O pênalti não marcado por Carlos Simon a favor dos ganeses foi recebido com compreensão. Afinal, todos os gaúchos sabem que Simon é um dos piores árbitros brasileiros, mas que deve ter amigos importantes. Deram risada. Quando ele não deu o segundo pênalti, riram mais ainda. Quando a Itália fez o segundo gol, ambos ficaram vacilantes entre ver o gol e receber Ana e Mônica que apareram no corredor. Ana vinha claudicante, apoiando-se a Mônica.

Os dois homens notaram a simetria da situação e, já sérios, encaminharam-se para suas mulheres.

– Ai, tá doendo, me fizeram uma atadura e me mandaram ficar em casa à noite.
– Eu estava nervosa com nossa discussão, Ronaldo. Imagina que engatei a ré em vez da primeira.
– Tu podes me levar para casa? Putz, logo no meu aniversário…
– Poderia ter matado a menina. Sou uma idiota.
– Obrigado. Mas, acho que não dá para deixar a moto onde ela está estacionada.
– Só quero ir para casa tomar um banho e que este dia passe.

Quando atravessaram a sala de espera, os dois viraram-se para a TV a fim de ver que o jogo tinha terminado 2 x 0. Ronaldo piscou o olho para o amigo.

Ramiro passou a noite com Ana Cristtina. Deu-lhe os parabéns repetidas vezes pela dupla data e, se não houve presentes, não faltaram beijos e suspiros no pequeno apartamento dela. No lugar de discutirem até altas horas, a única provocação que houve foi a de Ramiro dizer que os dois tês do nome de Cristtina significavam “tesão” e “TPM”. Riram. Do outro lado, Ronaldo, o cidadão um pouco gordo que namora Mônica, fez o mesmo, dormindo fora de casa.

Por serem pessoas normais, não viveram felizes para sempre, mas garanto-lhes que, naquela noite, tiveram a ilusão de que isto seria possível.

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O Salário Moral de um Dia Triste

Publicado em 1º de junho de 2006

Comecei o dia lendo no jornal a pior das notícias. Morrera o pai do melhor amigo de meu filho. Acordei-o e dei-lhe a notícia quando saía do banheiro. Fora uma uma longa doença, o fato era esperado, mas ficamos muito tristes, é claro. Daniel Herz era um jornalista e intelectual, mas antes disso era alguém doce, que gostava de conversar e que tinha recebido o Bernardo em sua casa por centenas de vezes, assim como recebemos o Guilherme. Gostava de conversar com ele. Era alguém inteiro.

Macambúzios, descemos antes das sete da manhã para que eu levasse os meninos à escola. Nosso carro, pela primeira vez em anos, não ligou. Bateria, motor de arranque, alternador? Não sei. Fomos de táxi até a casa de minha santa sogra – santa mesmo! – para pegar seu carro emprestado. Os guris chegaram atrasados na aula.

Depois de um compromisso que me tomou metade da manhã, voltei para devolver o carro e fui em casa ver o que tinha acontecido com o nosso. Com meus inexistentes olhos de mecânico, achei tudo normal. Chamei o seguro e fui ver meus e-mails. Havia este:

(Para tudo! Antes tenho que contextualizar meus sete leitores para que compreendam o e-mail:

Um dia, pelo MSN, Paulo José Miranda, escritor português e meu amigo, contou a história de uma pequena grande livraria da cidade de Aveiro, em Portugal. Esta livraria, chamada O Navio de Espelhos não é um estabelecimento comercial trivial. Ela tem como donos pessoas que conhecem livros e que, além de promover encontros entre leitores e escritores em ambiente agradável, patrocinam uma programação diária de serões de narração, noites de poesia, serões de contos, debates, comunidades de leitores, etc., tudo entre chás e bolos. Até aí tudo muito civilizado. O incivilizado começa agora. Ao lado da livraria, foi inaugurado um shopping e, no shopping, uma destas megalivrarias onde não há espaço para nada disso e muito menos para livreiros cultos. Então, Paulo propôs uma reação ainda mais civilizada. Sugeriu que fossem distribuídos aos leitores contos inéditos de escritores amigos da Navio de Espelhos. Aí entrei eu. Completo dizendo que Aveiro – cidade que não conheço – é a cidade onde nasceram meus avós paternos.)

Agora o e-mail que li:

—————————-
Caríssimo Milton,

Antes de mais, muito obrigada por nos ter enviado um inédito seu.

Nós imprimimos numa edição caseira, que temos a “petulância” de achar muito bonita. Imprimimos 50 exemplares à vez aqui na nossa “oficina”. Depois vestimos, cantamos, dizemos, pintamos o seu texto e os demais. Fizemos “quase” tudo. Na prática esta ideia do Paulo fez-se gente e está a crescer devagarinho mas de forma preciosa. É uma história dos afectos.

Esta ideia dos inéditos é uma história de amor. Do que se pode fazer quando se quer lutar por alguma coisa incondicionalmente.

Obrigada por participar.

Envie-nos, por favor, a sua morada e nós enviamos o seu inédito impresso por nós e também os outros inéditos, a fazer de conta que nos veio visitar.

Mais uma vez,

Obrigada.
—————————-

Fiquei absolutamente feliz, mas não pude responder porque tinha que tratar do carro – que foi rapidamente consertado – e de buscar meu filho a fim de levá-lo ao velório. Foi com um misto de pressa e cuidado que respondi quando cheguei ao escritório.

—————————-
Querida Sónia.

Talvez seja difícil imaginar o que esta proposta do Paulo teve de “afetos” também deste lado do mundo. Nunca fui à Portugal, mas meus avós vieram de Aveiro. Tua cidade é a única de Portugal com a qual tenho ligações afetivas. Sempre penso: “E Aveiro? Quando?”.

Quando o Paulo me falou sobre a idéia dos inéditos e tua livraria, aderi imediatamente ao plano e o farei sempre que desejares. Podes (e deves) usar e abusar daquilo de bom (ou ruim…) que eu venha a produzir. Nunca senti tão fortemente aquilo que Borges chamava de “a nostalgia do desconhecido”. Anteontem, o Paulo avisou-me que nossos livros estavam na vitrine (montra) de tua livraria. Logo pensei: puxa, estou em Aveiro. Adoraria – e como! – receber o exemplar de minha modesta farsa de tuas mãos, dentro da tua livraria, mas… Já que não é possível, vamos a meu endereço:

Outra coisa: muitas vezes escrevi – e até comentei certa vez com o Luís Graça – sobre as grandes livrarias sem personalidade, com caras de shopping e com atendentes que parecem nunca ter aberto um livro. São uma praga. Nego-me a fazer compras nestes lugares da pressa e da falta de contato humano.

E mais: se considerares que tens poucos exemplares dos outros inéditos, por favor, não os envie. De forma alguma gostaria de deixar um de teus clientes a ver, por assim dizer, navios. Mas faço questão de ter o meu! Afinal, quero a minha parte nesta história de amor….

Um beijo carinhoso e muito obrigado.
—————————-

A expressão “salário moral” do título me foi trazida por outro escritor amigo, o pernambucano Fernando Monteiro. Significa aquilo que ganhamos em centímetros quando um fato nos envaidece. Creio que ele poderia nos explicar melhor nos comentários.

Observações Finais:
1. Não dei o nome da livraria porque ainda não pedi autorização a seus donos para contar esta história.

Up-date das 9h: Recebo outro e-mail de Aveiro:

Milton, venho secretamente trabalhar nos papeis quando o resto da cidade ainda tem a cara encostada ao lençol. É nesse instante que abro o seu e-mail. Bela maneira de começar o dia.

Autorização concedida.

Muito obrigada.
Sónia.

2. O conto que está sendo publicado é uma versão corrigida e ampliada deste aqui. Minha mulher e a revisora não gostam dele. Eu o acho divertido. Aqui no blog está sua primeira versão.

3. Além do site cujo link coloquei acima, a livraria O Navio de Espelhos – nome mais português impossível! – ainda tem um blog aqui.

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O Milton de 2005 reúne-se aos de 2001 e 2003 (IV)

O Milton de 2005 junta-se a seu duplo e triplo mais jovens. Ficam conversando na calçada.

2003: (Hesitante) Vieste nos ver… Vamos saber tudo?
2005: Tudo? Não, não tudo. Tenho só dois anos a mais que tu… Se a vida de um brasileiro médio dura 70 anos, só vivi uns 3% a mais que tu e 6% mais do que o 2001. Vivi 69% do total. Restam 31% que não conheço. Mas sei o que te espera nos próximos dois anos. Não te preocupa, foram bons anos.
2001: Não trouxeste nenhum resultado da Megasena para nós?
2005: (Dá um tapa na cabeça.) Como sou burro! Mas, pensando melhor, se tu ganhasses a Megasena antes de chegar a quem sou hoje… que efeito teria isto sobre mim?
2003: Talvez estivesses com uma aparência menos cansada.
2001: É.
2005: (Rindo) É surpreendente a deselegância a que nossos duplos podem chegar. Estão me achando velho, acabado?
2003: Velho, não; sem dúvida cansado, usadinho.
2005: Podemos entrar ali no shopping depois? Quero ver minha cara num espelho. Estamos trabalhando muito, com planos de construir uma casa. E, quando chegamos em casa, há a Claudia, que é ótima, mas tem uma energia inesgotável. (Os duplos primeiro fazem cara de pasmo, depois sorriem.)
2001: Ela está acabando contigo? Que azar…
2003: Nos sugando a energia?
(Risadas)
2005: Não, não é por aí… É que chego em casa e quero ler, ouvir música como sempre fiz. Mas ela quer fazer planos, têm dúzias de idéias, enquanto que eu não tenho nenhuma… São horas de trabalho que continuam em casa!
2003: O bom da festa é quando chegamos em casa e tiramos os sapatos.
2001: Bêbados, de preferência.
2005: Como se bebêssemos muito… A casa será num terreno do pai da Claudia. O plano é construirmos um pequeno edifício com o irmão dela.
2001: Conte mais!
2005: O Grêmio caiu para a segunda divisão no ano passado.
(Todos riem, felizes)
2003: Que belo futuro nos espera! Mais, mais novidades!
2005: Vamos para a Libertadores no ano que vem. Quase ganhamos o Campeonato deste ano, mas o Corinthians o comprou antes. Ah, e publicamos 1/12 de livro: uma antologiazinha com outros.
2001: 1/12 de livro… Isto torna alguém publicado?
2003: Não.
2005: Claro que não. Mas também não temos a menor vontade de procurar editora. Contam cada história a respeito. Só o fato de ser estigmatizado como “estreante velho” já nos dará engulhos. Mas temos duas novelinhas e um livro de contos dentro do micro.
2001: Faça back-up, viu?
2003: É coisa boa?
2005: Não estou seguro. É bem escrito, mas talvez seja excessivamente cronístico.
2001: Como somos exigentes.
2003: Para que publicar qualquer merda? Já basta o que há.
2003: E nossa mãe?
2005: Alzheimer.
(Silêncio por algum tempo.)


René Magritte – O Duplo Secreto (1927)

2003: E os outros da família? E os amigos?
2005: Os outros estão inteiros.
2003: Mais alguma surpresa?
2005: A Bárbara quer morar conosco.
2003: Poxa, que legal! Que bom. Mas… há problemas entre ela e a mãe?
2005: Ela fala pouco a respeito; evita o leva-e-traz de informações.
2001: Boa menina.
2003: E como ficará isto?
2005: Não tenho a menor idéia, falei sobre as desvantagens que eu tenho a oferecer: casa pequena — atualmente — , expliquei que não vou ficar o tempo todo em casa, que ela ficará sem pátio, que passará as tardes sozinha, mas ela não quer saber, quer vir.
2003: É que há vantagens.
2005: O que tu sabes a respeito disso?
2003: Ora, eu conheço o funcionamento da família da Claudia, principalmente das figuras femininas. Há mulheres de personalidade, inteligentes. Vaidosas, também. São modelos muito sedutores para uma pré-adolescente. Há a Bianca, a Lia, a Claudia, claro, e até a “vódrasta”. Sabe como é.
2001: Discordo. Uma criança de 11 anos como ela em 2005 só quer carinho e atenção. É isso o que damos e daremos a ela e é isso o que ela quer e precisa. Não acredito nesta coisa de “modelos femininos”. Depois, quando ela for maior, talvez a grana que está do outro lado a atraia. Hoje, ela está se lixando.
2003: Que é isso? Por que este ataque a minha filha, digo, nossa filha. Que coisa absurda.
2005: Ele não está nada bem, 2001. Além disso, sabe que a grana em parte ficará lá porque ele botou nossa assinatura boba num monte de papéis que nos apresentaram.
2001: …
2005: Isso tem que mudar, né?
2003: Escute 2005, vamos negociar, da próxima vez que vieres, não dá para trazer uns números da Megasena?
2005: Porra, tu fazes as cagadas, mas só pensa em dinheiro. Até entendo tua loucura por dinheiro depois de sair de uma sessão com a Adriana Vergerus! (*)
(Risadas)
2003: Como vai ela? – pergunta ele rindo a 2001.
2005: (Ainda rindo) Com a diferença de que esta Vergerus não está num filme de Bergman, está na tua frente, te torturando.
2001: Psicológica e financeiramente.
2005: Tirando todo e qualquer advogado do caminho para fazer os acordos.
2003: Mas acaba logo, 2001, haverá muito sofrimento mas acaba. E bem, agora preciso trabalhar para sustentar o 2005 aí.
2001: Digam-me uma coisa: eu poderia ir para o futuro visitar algum de vocês ou só vocês podem vir para 2001?
2003: Só imagino o quanto ficarias confuso, mas acho que não há nada que te impeça. Adoraria te apresentar a Claudia. Vais gostar dela.
2001: Espero que sim.
(Sorrisos)
2005: Talvez fosse melhor não vires, ficarias ansioso por nossas mancadas, que são inevitáveis.
2001: (Alegre) Vou pensar a respeito. E tu, 2005, cuida bem de nós.
2005: Pode deixar.
2003: Quando vamos nos rever?
2005: Qualquer hora destas.

(*) Adriana Vergerus é um nome fictício. Os personagens perversos, assim como os que atraem ou prognosticam o mal nos filmes de Ingmar Bergman têm muitas vezes este sobrenome. Ao longo da obra do maior de todos os cineastas, há mais muitos Vergerus, todos monstruosos, quase todos médicos ou clérigos.

Maiores detalhes sobre os Vergerus e também sobre os Vogler neste post.

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O Milton de Março de 2001 Entrevista o Milton 2003 (III)

O Milton de 2001 saía de um elegante edifício de uma das zonas nobres de Porto Alegre, quando foi novamente abordado por seu mais novo amigo, o Milton de 2003. Eles caminham juntos.

2001: Ah! Demorou mas cumpriste a promessa de me encontrar aqui.
2003: Vim outras vezes na saída da terapia familiar, mas fui embora por medo de que nossa ex me visse.
2001: Tua ex, não minha!
2003: Pode ser, mas imagine o pasmo dela ao me ver.
2001: De que servirá esta terapia?
2003: Bom, sabes que não somos hostis a este tipo de tratamento, mas a presença da shrinker servirá apenas para que a lei seja ignorada (com nossa concordância), para que as crianças fiquem bem (não ficariam sem a terapia?) e para que montássemos nossa agendinha. De qualquer maneira, aprendemos muito lá dentro, sem dúvida. No fundo tudo vale a pena, não?
2001: Vamos mudar de assunto. Podemos falar sobre as tuas perspectivas ou vai me enrolar de novo?
2003: Após a separação ficarás sem dinheiro, sem mulher e sem “um teto todo seu”, entre aspas, como diria Virginia Woolf… A propósito, ficarás até sem A Room of One’s Own (risadas). Portanto, conhecendo tuas péssimas perspectivas a curto prazo, a situação de hoje é muito melhor.
2001: E as contas?
2003: Serão pagas com alguma dificuldade, mas dará tudo certo. Um dia, em 2002, terás um grande chilique, pois nos colocarão no SERASA, mas descobriremos em 5 minutos que foi um engano do Itaú, do qual nos desligaremos imediatamente, é claro. Isto é, nossos atrasos nos pagamentos serão pequenos. Não venderemos carro, sala, nada. Será só aperto.
2001: É, mas fico nervosíssimo com estas coisas.
2003: Ficamos ainda, meu amigo.
2001: E o futuro?
2003: Vejo o futuro com otimismo pela primeira vez em muitos anos. (2001 fica com lágrimas nos olhos, abaixa a cabeça e procura esconder o descontrole. É muito feio se emocionar em público.) Nossa baixa auto-estima será obrigada a recuar e, de certa forma, ficará sem argumentos. Acontecerão muitas coisas boas. Mas por que estás olhando para o outro lado?
(Longo silêncio)
2003: Posso continuar agora?
2001: Sim.
2003: Primeiro começarás a te reeerguer financeiramente; será uma coisa tímida, mas importante. Depois virá a Claudia, que nos apoiará incondicionalmente e auxiliará em tudo, inclusive em nossos projetos. Ela é muito inquieta, na verdade é um furacão. Nem bem planeja e já está agindo. Depois virá o blog…
2001: O que? Vou ser proprietário de uma lavanderia?
2003: (risadas) Blog é a contração de “web logger”, uma forma de publicar na Internet que se tornará muito popular. Mas às vezes vira conversa de lavadeira mesmo… Temos sorte e, em nosso caso, não acontece com freqüência. Em tempo saberás melhor o que é. O importante é que neste tipo de lavanderia poderás te expor da forma que sempre desejaste.
2001: Escrevendo?
2003: É claro.Vamos escrever pequenos textos que serão muito grandes para um blog convencional. Um pequeno grupo de leitores nos lerão, porém são de tão alto nível, que é como se fossem milhares. Quase sempre escreveremos a nosso respeito. Seremos nossos melhores personagens.
2001: Como será o nome do… conjunto da obra?
2003: Milton Ribeiro.
2001: Não poderia ser “Sob minha pele”?
2003: Under my skin? É um belo nome, mas a Doris Lessing escreverá um livro de memórias com este nome, traduzido no Brasil como “Debaixo de Minha Pele”. Acho que Milton Ribeiro está bom.
2001: Quem é aquele que vem lá na esquina?
2003: Não sei.
(Vem ao encontro deles, sorridente, um homem extremamente parecido com a dupla de amigos que conversam. Porém, é mais velho e, não obstante o semblante animado, tem a aparência cansada.)
2001: Eu não acredito!
2005: Bom dia, senhores, já devem adivinhar quem sou, não? Venho de 2005!
(2001 fica feliz. Já 2003, até então senhor da situação, fica visivelmente perturbado. Não esperava por esta.)

(Continua)

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