Para não falar de todas essas mulheres (continuação)

(Continuação daqui)

Publicado em 17 de julho de 2007

Juliano voltou ao escritório transtornado. Era um tímido que passara dias sonhando com Luana e que, no momento da abordagem, apesar de todas as divagações sobre uma confluência tranqüila e galante, acabara, com a súbita coragem dos medrosos, por ceder ao primeiro momento em que estiveram “a sós”, realizando tudo de forma desastrada, inaceitável, simplória, na frente do buffet de um restaurante. De uma forma intensa e particular, Juliano estava verdadeiramente apaixonado por sua colega de trabalho.

Ignorou as tarefas da tarde e ficou imaginando o que estaria passando pela cabeça de Luana, algumas mesas adiante da sua. Ele ficara surpreso com sua resposta absolutamente curta e afirmativa – ou negativa -, detera-se humilhado. Juliano, Luana e os outros participantes do almoço estavam desenvolvendo um projeto juntos e teriam que reunir-se novamente à tarde, mas ele decidiu que hoje seria impossível. Avisou ao coordenador que tinha um compromisso e deixou-se ficar sentado em sua mesa. Desesperou-se em silêncio, ruminando sua falta de jeito e a idéia que Luana, a amante dos homens maduros, teria sobre as pretensões dele, um menino incompetente. Teclou algumas coisas no computador e enfim chamou o editor de textos.

Luana.

Peço desculpas por ter falado tão daquela forma no restaurante, porém estava apenas dando fraca expressão à fatos com os quais convivo diariamente e que tentarei deixar agora por escrito.

Quando de nosso primeiro contato na W., te reconheci imediatamente. Já tinha te visto na universidade. Ao conversar contigo, ao te ver de perto, falando e se movimentando, vi mais do que um belo rosto, eu intuí um pouco do que ele carregava e que, com o tempo, foi se confirmando.

Primeiro, que tu eras mais inteligente e competente do que eu. Segundo, que era melhor ter cuidado, pois as palavras ditas e ouvidas por ti possuíam peso de decisão e não de “depois a gente vê”. Terceiro, que acostumada a sair vencedora das discussões, eras teimosíssima. E mais: que podias te enfurecer rapidamente, que era fácil fazer-te rir, que apreciavas comentários maldosos ou mesmo perversos, que podias ficar conversando horas e horas e… que eu gostava muito de tudo isso.

Assim, fui confirmando aquelas impressões e também outras, bem mais complicadas de se escrever. Se a vaidade feminina tem boa observação e memória, notaste como não te fiz nenhuma pergunta naquela nossa última visita ao cliente. No caminho, conversávamos sobre nossas famílias; então, de repente, me fizeste umas dez perguntas pessoais em seqüência – algumas inesperadas. Porém, apesar da minha enorme curiosidade a teu respeito, não me saiu nenhuma pergunta. Estava feliz com tua atenção e aquilo me bastou.

Uma vez, quase sem querer, falando no telefone, escapou-me dizer que tu me eras uma pessoa especialmente agradável. Deveria ter continuado na mesma linha e terminado com um convite, mas, sem estar preparado, deixei passar a oportunidade e decepcionei-me quando tu voltaste a um meio-tom profissional chamando-me, rindo, de um bom colega…

Agora, só consigo ficar repetindo para mim mesmo: “Que droga, que droga, que droga”.

Beijo.

Deixou o esboço assim mesmo e o enviou por e-mail para Luana, com cópia oculta para seu endereço pessoal. Cogitou em mandar flores com um pedido de desculpas, mas concluiu que seria um gasto inútil.

Quando estava quase resolvendo-se a subir para a reunião da equipe do projeto, viu chegar a resposta de Luana.

Juliano, meu amigo.

Bobagem pedir desculpas! Li com atenção teu e-mail agora que nossa reunião foi cancelada. Olha, preferia que não me tivesses dito nada, nem escrito. Se quiseres conversar em outro momento, podes contar comigo. Talvez pudéssemos almoçar amanhã.

Tchau, Luana.

O Amor em Tempos de Copa (com exclusivo final feliz!)

Publicado em 19 de junho de 2006

Ana Cristtina fazia aniversário em 12 de junho, Dia dos Namorados. É claro que isto apenas a prejudicava. Ganhava menos presentes, ora! Seus namorados, pensava, aproveitavam-se do fato e davam-lhe somente um presente. Mais: tornava-se hiper-sensível neste dia e nos precedentes. Tanto que, no dia anterior, um domingo, mandara seu namorado passear ao ser trocada por Portugal x Angola. Se ainda fosse um jogo do Brasil ou da Argentina, tudo bem, mas Portugal x Angola era demais.

Ramiro respirou aliviado. Estava sem grana e agora mesmo é que não lhe daria presente algum, quem manda ser histérica. Depois, passado o dia 12, tentaria reatar. Afinal, Ana Cristtina valia a pena. Era bonita e boa de cama. Seu único problema era aquela eterna mania de querer discutir a relação aos prantos e tarde da noite, quando ele estava louco para dormir e já pensando na encheção de saco do dia seguinte. Era motoboy por influência de Ana, que fazia o mesmo serviço.

Ana passou o dia 12 recebendo ligações de seus clientes e, cada vez que desligava o celular, dizia em voz alta:

– Puta que o pariu. De novo, não era o filho da puta.

Durante a tarde, chegava e saía dos clientes com os olhos marejados. Alguns, que lhe conheciam há mais tempo, cumprimentavam Ana pelo Dia dos Namorados e faziam seus cumprimentos extensivos a Ramiro. Perguntavam se onde eles iriam à noite, um jantarzinho íntimo, um motel? Ela sorria e não respondia nada. Depois, na moto, mais lágrimas. Ao final da tarde, mais nervosa, passou a acelerar mais e a fazer suas freadas bem próxima aos automóveis. Pensou que um pequeno acidente seria uma boa. Neste momento, como por mágica, uma carro à sua frente deu engatou a ré acertando-lhe em cheio o joelho. Ana deu um grito, descarregando todo o seu ódio naquela má motorista que certamente comprara sua carteira. Mas a mulher que batera em Ana parecia preocupada, saiu do carro pedindo-lhe desculpas, dizendo que iria levá-la imediatamente a um hospital e que aquele estava sendo um dia terrível para ela. Não parecia grave, mas Ana não estava conseguindo apoiar o pé no chão sem dor.

Estacionaram a moto e foram ao hospital. No carro, ambas pegaram seus celulares:

– Ramiro, me acidentei com a moto. Não queria te ligar, mas a quem poderia pedir ajuda?
– Ronaldo, meu amor, aconteceu algo horrível.
– Um carro deu ré bem na minha frente e…
– Sei que não devia te ligar, mas és homem e talvez…
– … acertou o meu joelho. Estou sendo levada para o hospital…
– … saibas a burocracia que envolve um acidente. Tenho…
– … com muita dor… Não, a própria mulher que bateu em mim. Tu poderia vir aqui?
– … seguro e tudo, mas sei lá. Isto é coisa de homem.

Na sala de espera, dois homens esperavam vendo Itália x Gana. Um estava vestido como um executivo, o outro de calças jeans e capacete no colo. Trocavam observações sobre o jogo. O pênalti não marcado por Carlos Simon a favor dos ganeses foi recebido com compreensão. Afinal, todos os gaúchos sabem que Simon é um dos piores árbitros brasileiros, mas que deve ter amigos importantes. Deram risada. Quando ele não deu o segundo pênalti, riram mais ainda. Quando a Itália fez o segundo gol, ambos ficaram vacilantes entre ver o gol e receber Ana e Mônica que apareram no corredor. Ana vinha claudicante, apoiando-se a Mônica.

Os dois homens notaram a simetria da situação e, já sérios, encaminharam-se para suas mulheres.

– Ai, tá doendo, me fizeram uma atadura e me mandaram ficar em casa à noite.
– Eu estava nervosa com nossa discussão, Ronaldo. Imagina que engatei a ré em vez da primeira.
– Tu podes me levar para casa? Putz, logo no meu aniversário…
– Poderia ter matado a menina. Sou uma idiota.
– Obrigado. Mas, acho que não dá para deixar a moto onde ela está estacionada.
– Só quero ir para casa tomar um banho e que este dia passe.

Quando atravessaram a sala de espera, os dois viraram-se para a TV a fim de ver que o jogo tinha terminado 2 x 0. Ronaldo piscou o olho para o amigo.

Ramiro passou a noite com Ana Cristtina. Deu-lhe os parabéns repetidas vezes pela dupla data e, se não houve presentes, não faltaram beijos e suspiros no pequeno apartamento dela. No lugar de discutirem até altas horas, a única provocação que houve foi a de Ramiro dizer que os dois tês do nome de Cristtina significavam “tesão” e “TPM”. Riram. Do outro lado, Ronaldo, o cidadão um pouco gordo que namora Mônica, fez o mesmo, dormindo fora de casa.

Por serem pessoas normais, não viveram felizes para sempre, mas garanto-lhes que, naquela noite, tiveram a ilusão de que isto seria possível.

O Salário Moral de um Dia Triste

Publicado em 1º de junho de 2006

Comecei o dia lendo no jornal a pior das notícias. Morrera o pai do melhor amigo de meu filho. Acordei-o e dei-lhe a notícia quando saía do banheiro. Fora uma uma longa doença, o fato era esperado, mas ficamos muito tristes, é claro. Daniel Herz era um jornalista e intelectual, mas antes disso era alguém doce, que gostava de conversar e que tinha recebido o Bernardo em sua casa por centenas de vezes, assim como recebemos o Guilherme. Gostava de conversar com ele. Era alguém inteiro.

Macambúzios, descemos antes das sete da manhã para que eu levasse os meninos à escola. Nosso carro, pela primeira vez em anos, não ligou. Bateria, motor de arranque, alternador? Não sei. Fomos de táxi até a casa de minha santa sogra – santa mesmo! – para pegar seu carro emprestado. Os guris chegaram atrasados na aula.

Depois de um compromisso que me tomou metade da manhã, voltei para devolver o carro e fui em casa ver o que tinha acontecido com o nosso. Com meus inexistentes olhos de mecânico, achei tudo normal. Chamei o seguro e fui ver meus e-mails. Havia este:

(Para tudo! Antes tenho que contextualizar meus sete leitores para que compreendam o e-mail:

Um dia, pelo MSN, Paulo José Miranda, escritor português e meu amigo, contou a história de uma pequena grande livraria da cidade de Aveiro, em Portugal. Esta livraria, chamada O Navio de Espelhos não é um estabelecimento comercial trivial. Ela tem como donos pessoas que conhecem livros e que, além de promover encontros entre leitores e escritores em ambiente agradável, patrocinam uma programação diária de serões de narração, noites de poesia, serões de contos, debates, comunidades de leitores, etc., tudo entre chás e bolos. Até aí tudo muito civilizado. O incivilizado começa agora. Ao lado da livraria, foi inaugurado um shopping e, no shopping, uma destas megalivrarias onde não há espaço para nada disso e muito menos para livreiros cultos. Então, Paulo propôs uma reação ainda mais civilizada. Sugeriu que fossem distribuídos aos leitores contos inéditos de escritores amigos da Navio de Espelhos. Aí entrei eu. Completo dizendo que Aveiro – cidade que não conheço – é a cidade onde nasceram meus avós paternos.)

Agora o e-mail que li:

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Caríssimo Milton,

Antes de mais, muito obrigada por nos ter enviado um inédito seu.

Nós imprimimos numa edição caseira, que temos a “petulância” de achar muito bonita. Imprimimos 50 exemplares à vez aqui na nossa “oficina”. Depois vestimos, cantamos, dizemos, pintamos o seu texto e os demais. Fizemos “quase” tudo. Na prática esta ideia do Paulo fez-se gente e está a crescer devagarinho mas de forma preciosa. É uma história dos afectos.

Esta ideia dos inéditos é uma história de amor. Do que se pode fazer quando se quer lutar por alguma coisa incondicionalmente.

Obrigada por participar.

Envie-nos, por favor, a sua morada e nós enviamos o seu inédito impresso por nós e também os outros inéditos, a fazer de conta que nos veio visitar.

Mais uma vez,

Obrigada.
—————————-

Fiquei absolutamente feliz, mas não pude responder porque tinha que tratar do carro – que foi rapidamente consertado – e de buscar meu filho a fim de levá-lo ao velório. Foi com um misto de pressa e cuidado que respondi quando cheguei ao escritório.

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Querida Sónia.

Talvez seja difícil imaginar o que esta proposta do Paulo teve de “afetos” também deste lado do mundo. Nunca fui à Portugal, mas meus avós vieram de Aveiro. Tua cidade é a única de Portugal com a qual tenho ligações afetivas. Sempre penso: “E Aveiro? Quando?”.

Quando o Paulo me falou sobre a idéia dos inéditos e tua livraria, aderi imediatamente ao plano e o farei sempre que desejares. Podes (e deves) usar e abusar daquilo de bom (ou ruim…) que eu venha a produzir. Nunca senti tão fortemente aquilo que Borges chamava de “a nostalgia do desconhecido”. Anteontem, o Paulo avisou-me que nossos livros estavam na vitrine (montra) de tua livraria. Logo pensei: puxa, estou em Aveiro. Adoraria – e como! – receber o exemplar de minha modesta farsa de tuas mãos, dentro da tua livraria, mas… Já que não é possível, vamos a meu endereço:

Outra coisa: muitas vezes escrevi – e até comentei certa vez com o Luís Graça – sobre as grandes livrarias sem personalidade, com caras de shopping e com atendentes que parecem nunca ter aberto um livro. São uma praga. Nego-me a fazer compras nestes lugares da pressa e da falta de contato humano.

E mais: se considerares que tens poucos exemplares dos outros inéditos, por favor, não os envie. De forma alguma gostaria de deixar um de teus clientes a ver, por assim dizer, navios. Mas faço questão de ter o meu! Afinal, quero a minha parte nesta história de amor….

Um beijo carinhoso e muito obrigado.
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A expressão “salário moral” do título me foi trazida por outro escritor amigo, o pernambucano Fernando Monteiro. Significa aquilo que ganhamos em centímetros quando um fato nos envaidece. Creio que ele poderia nos explicar melhor nos comentários.

Observações Finais:
1. Não dei o nome da livraria porque ainda não pedi autorização a seus donos para contar esta história.

Up-date das 9h: Recebo outro e-mail de Aveiro:

Milton, venho secretamente trabalhar nos papeis quando o resto da cidade ainda tem a cara encostada ao lençol. É nesse instante que abro o seu e-mail. Bela maneira de começar o dia.

Autorização concedida.

Muito obrigada.
Sónia.

2. O conto que está sendo publicado é uma versão corrigida e ampliada deste aqui. Minha mulher e a revisora não gostam dele. Eu o acho divertido. Aqui no blog está sua primeira versão.

3. Além do site cujo link coloquei acima, a livraria O Navio de Espelhos – nome mais português impossível! – ainda tem um blog aqui.

O Milton de 2005 reúne-se aos de 2001 e 2003 (IV)

O Milton de 2005 junta-se a seu duplo e triplo mais jovens. Ficam conversando na calçada.

2003: (Hesitante) Vieste nos ver… Vamos saber tudo?
2005: Tudo? Não, não tudo. Tenho só dois anos a mais que tu… Se a vida de um brasileiro médio dura 70 anos, só vivi uns 3% a mais que tu e 6% mais do que o 2001. Vivi 69% do total. Restam 31% que não conheço. Mas sei o que te espera nos próximos dois anos. Não te preocupa, foram bons anos.
2001: Não trouxeste nenhum resultado da Megasena para nós?
2005: (Dá um tapa na cabeça.) Como sou burro! Mas, pensando melhor, se tu ganhasses a Megasena antes de chegar a quem sou hoje… que efeito teria isto sobre mim?
2003: Talvez estivesses com uma aparência menos cansada.
2001: É.
2005: (Rindo) É surpreendente a deselegância a que nossos duplos podem chegar. Estão me achando velho, acabado?
2003: Velho, não; sem dúvida cansado, usadinho.
2005: Podemos entrar ali no shopping depois? Quero ver minha cara num espelho. Estamos trabalhando muito, com planos de construir uma casa. E, quando chegamos em casa, há a Claudia, que é ótima, mas tem uma energia inesgotável. (Os duplos primeiro fazem cara de pasmo, depois sorriem.)
2001: Ela está acabando contigo? Que azar…
2003: Nos sugando a energia?
(Risadas)
2005: Não, não é por aí… É que chego em casa e quero ler, ouvir música como sempre fiz. Mas ela quer fazer planos, têm dúzias de idéias, enquanto que eu não tenho nenhuma… São horas de trabalho que continuam em casa!
2003: O bom da festa é quando chegamos em casa e tiramos os sapatos.
2001: Bêbados, de preferência.
2005: Como se bebêssemos muito… A casa será num terreno do pai da Claudia. O plano é construirmos um pequeno edifício com o irmão dela.
2001: Conte mais!
2005: O Grêmio caiu para a segunda divisão no ano passado.
(Todos riem, felizes)
2003: Que belo futuro nos espera! Mais, mais novidades!
2005: Vamos para a Libertadores no ano que vem. Quase ganhamos o Campeonato deste ano, mas o Corinthians o comprou antes. Ah, e publicamos 1/12 de livro: uma antologiazinha com outros.
2001: 1/12 de livro… Isto torna alguém publicado?
2003: Não.
2005: Claro que não. Mas também não temos a menor vontade de procurar editora. Contam cada história a respeito. Só o fato de ser estigmatizado como “estreante velho” já nos dará engulhos. Mas temos duas novelinhas e um livro de contos dentro do micro.
2001: Faça back-up, viu?
2003: É coisa boa?
2005: Não estou seguro. É bem escrito, mas talvez seja excessivamente cronístico.
2001: Como somos exigentes.
2003: Para que publicar qualquer merda? Já basta o que há.
2003: E nossa mãe?
2005: Alzheimer.
(Silêncio por algum tempo.)


René Magritte – O Duplo Secreto (1927)

2003: E os outros da família? E os amigos?
2005: Os outros estão inteiros.
2003: Mais alguma surpresa?
2005: A Bárbara quer morar conosco.
2003: Poxa, que legal! Que bom. Mas… há problemas entre ela e a mãe?
2005: Ela fala pouco a respeito; evita o leva-e-traz de informações.
2001: Boa menina.
2003: E como ficará isto?
2005: Não tenho a menor idéia, falei sobre as desvantagens que eu tenho a oferecer: casa pequena — atualmente — , expliquei que não vou ficar o tempo todo em casa, que ela ficará sem pátio, que passará as tardes sozinha, mas ela não quer saber, quer vir.
2003: É que há vantagens.
2005: O que tu sabes a respeito disso?
2003: Ora, eu conheço o funcionamento da família da Claudia, principalmente das figuras femininas. Há mulheres de personalidade, inteligentes. Vaidosas, também. São modelos muito sedutores para uma pré-adolescente. Há a Bianca, a Lia, a Claudia, claro, e até a “vódrasta”. Sabe como é.
2001: Discordo. Uma criança de 11 anos como ela em 2005 só quer carinho e atenção. É isso o que damos e daremos a ela e é isso o que ela quer e precisa. Não acredito nesta coisa de “modelos femininos”. Depois, quando ela for maior, talvez a grana que está do outro lado a atraia. Hoje, ela está se lixando.
2003: Que é isso? Por que este ataque a minha filha, digo, nossa filha. Que coisa absurda.
2005: Ele não está nada bem, 2001. Além disso, sabe que a grana em parte ficará lá porque ele botou nossa assinatura boba num monte de papéis que nos apresentaram.
2001: …
2005: Isso tem que mudar, né?
2003: Escute 2005, vamos negociar, da próxima vez que vieres, não dá para trazer uns números da Megasena?
2005: Porra, tu fazes as cagadas, mas só pensa em dinheiro. Até entendo tua loucura por dinheiro depois de sair de uma sessão com a Adriana Vergerus! (*)
(Risadas)
2003: Como vai ela? – pergunta ele rindo a 2001.
2005: (Ainda rindo) Com a diferença de que esta Vergerus não está num filme de Bergman, está na tua frente, te torturando.
2001: Psicológica e financeiramente.
2005: Tirando todo e qualquer advogado do caminho para fazer os acordos.
2003: Mas acaba logo, 2001, haverá muito sofrimento mas acaba. E bem, agora preciso trabalhar para sustentar o 2005 aí.
2001: Digam-me uma coisa: eu poderia ir para o futuro visitar algum de vocês ou só vocês podem vir para 2001?
2003: Só imagino o quanto ficarias confuso, mas acho que não há nada que te impeça. Adoraria te apresentar a Claudia. Vais gostar dela.
2001: Espero que sim.
(Sorrisos)
2005: Talvez fosse melhor não vires, ficarias ansioso por nossas mancadas, que são inevitáveis.
2001: (Alegre) Vou pensar a respeito. E tu, 2005, cuida bem de nós.
2005: Pode deixar.
2003: Quando vamos nos rever?
2005: Qualquer hora destas.

(*) Adriana Vergerus é um nome fictício. Os personagens perversos, assim como os que atraem ou prognosticam o mal nos filmes de Ingmar Bergman têm muitas vezes este sobrenome. Ao longo da obra do maior de todos os cineastas, há mais muitos Vergerus, todos monstruosos, quase todos médicos ou clérigos.

Maiores detalhes sobre os Vergerus e também sobre os Vogler neste post.

O Milton de Março de 2001 Entrevista o Milton 2003 (III)

O Milton de 2001 saía de um elegante edifício de uma das zonas nobres de Porto Alegre, quando foi novamente abordado por seu mais novo amigo, o Milton de 2003. Eles caminham juntos.

2001: Ah! Demorou mas cumpriste a promessa de me encontrar aqui.
2003: Vim outras vezes na saída da terapia familiar, mas fui embora por medo de que nossa ex me visse.
2001: Tua ex, não minha!
2003: Pode ser, mas imagine o pasmo dela ao me ver.
2001: De que servirá esta terapia?
2003: Bom, sabes que não somos hostis a este tipo de tratamento, mas a presença da shrinker servirá apenas para que a lei seja ignorada (com nossa concordância), para que as crianças fiquem bem (não ficariam sem a terapia?) e para que montássemos nossa agendinha. De qualquer maneira, aprendemos muito lá dentro, sem dúvida. No fundo tudo vale a pena, não?
2001: Vamos mudar de assunto. Podemos falar sobre as tuas perspectivas ou vai me enrolar de novo?
2003: Após a separação ficarás sem dinheiro, sem mulher e sem “um teto todo seu”, entre aspas, como diria Virginia Woolf… A propósito, ficarás até sem A Room of One’s Own (risadas). Portanto, conhecendo tuas péssimas perspectivas a curto prazo, a situação de hoje é muito melhor.
2001: E as contas?
2003: Serão pagas com alguma dificuldade, mas dará tudo certo. Um dia, em 2002, terás um grande chilique, pois nos colocarão no SERASA, mas descobriremos em 5 minutos que foi um engano do Itaú, do qual nos desligaremos imediatamente, é claro. Isto é, nossos atrasos nos pagamentos serão pequenos. Não venderemos carro, sala, nada. Será só aperto.
2001: É, mas fico nervosíssimo com estas coisas.
2003: Ficamos ainda, meu amigo.
2001: E o futuro?
2003: Vejo o futuro com otimismo pela primeira vez em muitos anos. (2001 fica com lágrimas nos olhos, abaixa a cabeça e procura esconder o descontrole. É muito feio se emocionar em público.) Nossa baixa auto-estima será obrigada a recuar e, de certa forma, ficará sem argumentos. Acontecerão muitas coisas boas. Mas por que estás olhando para o outro lado?
(Longo silêncio)
2003: Posso continuar agora?
2001: Sim.
2003: Primeiro começarás a te reeerguer financeiramente; será uma coisa tímida, mas importante. Depois virá a Claudia, que nos apoiará incondicionalmente e auxiliará em tudo, inclusive em nossos projetos. Ela é muito inquieta, na verdade é um furacão. Nem bem planeja e já está agindo. Depois virá o blog…
2001: O que? Vou ser proprietário de uma lavanderia?
2003: (risadas) Blog é a contração de “web logger”, uma forma de publicar na Internet que se tornará muito popular. Mas às vezes vira conversa de lavadeira mesmo… Temos sorte e, em nosso caso, não acontece com freqüência. Em tempo saberás melhor o que é. O importante é que neste tipo de lavanderia poderás te expor da forma que sempre desejaste.
2001: Escrevendo?
2003: É claro.Vamos escrever pequenos textos que serão muito grandes para um blog convencional. Um pequeno grupo de leitores nos lerão, porém são de tão alto nível, que é como se fossem milhares. Quase sempre escreveremos a nosso respeito. Seremos nossos melhores personagens.
2001: Como será o nome do… conjunto da obra?
2003: Milton Ribeiro.
2001: Não poderia ser “Sob minha pele”?
2003: Under my skin? É um belo nome, mas a Doris Lessing escreverá um livro de memórias com este nome, traduzido no Brasil como “Debaixo de Minha Pele”. Acho que Milton Ribeiro está bom.
2001: Quem é aquele que vem lá na esquina?
2003: Não sei.
(Vem ao encontro deles, sorridente, um homem extremamente parecido com a dupla de amigos que conversam. Porém, é mais velho e, não obstante o semblante animado, tem a aparência cansada.)
2001: Eu não acredito!
2005: Bom dia, senhores, já devem adivinhar quem sou, não? Venho de 2005!
(2001 fica feliz. Já 2003, até então senhor da situação, fica visivelmente perturbado. Não esperava por esta.)

(Continua)

O Milton de 2001 encontra o de 2003 (II)

Na saída do cinema, Milton 2003 aguardava sua versão 2001. Caminham juntos.

2003: Que filme original e triste, né? Gostaria que dissesses algo para que eu pudesse recuperar meu sentimento pós-filme.
2001: O filme é muito bom e comovente, mas não tenho nada de especial para dizer. Acho fantástico o fato de alguém ter tido a coragem de fazer um musical inusitado, realista. É um grande filme. Quem imaginaria Björk – atuando como atriz – e Catherine Deneuve num filme dirigido pelo Lars von Trier? A cena do assassinato coloca a personagem de Björk frente a uma questão sem solução. As duas opções que o homem lhe dá são terríveis e ela escolhe seu filho, é claro.
2003: Não entendo, não ias ver o Henry Fool, que é excelente?
2001: Mudei meu ingresso na última hora, não quis ver o filme de um fracassado.
2003: E então escolheste o da cega?
2001: Sim! (risadas de ambos)
2003: É, nós também escolheremos nossos filhos na separação. Sairemos sem nada. Deixaremos tudo o que pudermos. A intenção será a da busca da tranquilidade mediante uma tremenda auto-agressão, uma coisa inócua a qualquer que um não fosse nós mesmos e que visava demonstrar uma certa nobreza de caráter, uma certa elegância ao estilo século XIX… Será uma tentativa de recomeço aos 44. Logo depois, teremos a certeza de ter cometido um erro. Nosso amigos não entenderão, acharão injusto e até seremos instigados por eles a fazer uma revisão das coisas. Porém, não faremos nada. Talvez o reconhecimento deles baste para nos deixar tranqüilos.
2001: Acho que prefiro assim mesmo. Mas pelo menos vou ficar com os meus livros e CDs, não?
2003: Claro que vais. Vais te livrar das posses, não de ti mesmo. (risadas)
2001: Até porque é meio complicado conseguir uma coisa dessas. Vai ficar alguma coisa minha lá?
2003: Não muito, não será necessária uma troca de prisioneiros em grande escala, até porque vais deixar quase tudo. Além disto, mesmo hoje, as coisas já estão separadas, prontas para a cisão.
2001: Eu quero que tu respondas as perguntas que fiz antes do entrar no cinema. Quero saber das tuas perspectivas, sobre minha situação com esta Claudia, onde vamos morar, etc.?
2003: Novamente estás confuso, peço-te calma. Falaste na mesma frase sobre “minha situação”, “tuas perspectivas” e “onde vamos morar”, são muitas conjugações diferentes.
2001: É que nunca estive conversando com meu duplo futuro…
2003: Me encare como um gêmeo um pouco mais grisalho. Observe como as pessoas não demonstram muita surpresa ao nos ver. Vamos às perguntas: sairás da tua casa para morar com a mãe. Terás muita vergonha de dizer isto.
2001: Como é que é? (Engolindo em seco) Eu vou voltar para casa? Vou dormir no quarto de onde saí para morar sozinho?
2003: Sim. E, apesar da vergonha que terás de teu domicílio e de tua depressão inicial, viverás muito bem lá. Nossa querida Maria Luiza não será invasiva, nem chata e não vai ficar perguntando coisas. Te dará a mais consoladora das hotelarias e a maior liberdade.
2001: Bela peça de propaganda imobiliária…
2003: Não seja injusto. Acabarás enchendo de música e de roupas para lavar e passar a vida de duas velhinhas… As crianças adorarão a casa enorme cheia de quinquilharias e o serviço cinco estrelas que terão. A Inah, a empregada, vai tornar lei cada pedido deles. Dará tudo certo.
2001: E esta Claudia?
2003: Não vou te tirar a surpresa descrevendo-a. Posso te dizer que ficaremos longo tempo em duas casas. Dormiremos fora 5 dias da semana e nos outros dois ficaremos com as crianças na casa da avó. Será uma fase muito cigana, até feliz, se compararmos com o pós-separação. Muitas vezes vamos errar as roupas. Levaremos roupas leves e o dia amanhecerá frio. Então, ficaremos tiritando sob roupas leves e amarrotadas, sempre amarrotadas.
2001: Como vou conhecê-la?
2003: Tu vais ficar muito tempo em casa e te dedicarás à música, à leitura e à Internet. A Claudia virá através da rede, será uma surpresa. Redescobrirás quão grudento podes ser quando apaixonado. Ficarás todo o tempo possível junto dela. Ela está muito presente no capítulo perspectivas.
2001: E as crianças?
2003: Quando souber da Claudia, o Bernardo dirá que tu és um cara legal e que merece ter uma namorada, mas não vai querer conhecê-la logo. Demorará uns 2 meses. A Bárbara ouvirá tudo com aparente frieza, mas, depois de uma semana, perguntará: “Vou ter 2 mães?”, responderás a ela que a Claudia será somente mais uma amiga. Contrariamente ao Dado, ela vai querer conhecê-la imediatamente. Serão amicíssimas. O primeiro encontro das duas será antológico. A Bárbara não falará nada, ficará escondida em seus próprios cabelos, espreitando a novidade.
2001: E as perspectivas? Quais serão meus desejos e planos?
2003: Façamos uma terceira sessão qualquer hora destas.
2001: Por que não agora?
2003: Tenho que voltar. Te encontrarei na saída de uma destas sessões de… terapia familiar. (risadinha infame)
2001: Não entendi a graça.
2003: Se eu te explico o motivo, talvez isto mude nosso futuro. Quero chegar aqui assim, estamos melhor agora.

(Continua)

O Milton de 2001 encontra o de 2003 (I)

O Milton de 2001 estava sentado num bar, fazendo hora antes de entrar no cinema, quando viu entrar e dirigir-se a ele uma pessoa extremamente parecida consigo, talvez um pouco mais velha.

2003: Como vai, mal?
2001: Sim, muito mal. Quem és tu?
2003: Nós somos o mesmo Milton Ribeiro, só que eu vim de 31 de outubro de 2003 para te visitar e auxiliar. Sei que sofres muito. É muito natural que tenhamos grande apreço um pelo outro. (risada da parte de 2003) Vais te separar, tua vida vai mudar completamente nos próximos meses e eu voltei no tempo para te dizer que sobreviveste.
2001: Putz. Não basta eu estar começando aquela terapia familiar! Ainda me vem um louco…
2003: A terapia familiar só funcionará para as crianças e não somos loucos.
2001: E como poderias me provar que és… eu?
2003: Vou te provar quem sou. Ouça com atenção: nossa primeira relação sexual foi com uma colega de aula chamada Maria Cristina, que morava na Rua Santana e, depois de termos beijado apaixonada e insistentemente a moça – que era esplêndida! – na porta de sua casa, colocamos o dedo indicador em seu peito e a empurramos delicadamente para dentro. Entramos junto, é claro. O ato foi consumado na sala, atrás do sofá, enquanto os familiares dela dormiam com os anjinhos. Tu nunca contaste isto para ninguém.
2001: E tu, já contaste?
2003: Contei para ti agora, mas antes já tinha contado para a Claudia.
2001: Que Claudia?
2003: Uma pessoa que vamos conhecer em 3 de abril de 2002, através de um site.
2001: (risadas) Eu vou conhecer uma pessoa através de um site? Que baixaria!
2003: É surpreendente que digas isto. Principalmente se considerarmos a absoluta convicção com que fizeste… a baixaria.
2001: Tu estás mais gordo e grisalho.
2003: É o tempo, né? Quanto ao peso, discordo. Aumentamos pouca coisa, só dois quilos. Tenho 72 kg, tu tens 70 kg. Para nosso 1,71m está bom.
2001: Minha vida vai melhorar?
2003: Hoje não sofro tanto.
2001: Vou me separar?
2003: Sem dúvida, já disse isto.
2001: Vamos por partes. Quando e como vou me separar?
2003: Em julho de teu ano. Não haverá traição, histeria, grandes cenas, nada. Apenas será dado um ponto final a esta relação indigente. Será o caso clássico, vais pensar seriamente em suicídio e, também de forma clássica, não darás nenhum passo nesta direção. Terás vontade de chorar na frente dos outros ou dentro dos cinemas, farás enormes esforços para se conter; porém, sozinho, não derramarás nenhuma lágrima. Será desespero seco.
2001: E as crianças?
2003: Serão as tuas melhores lembranças do período. Vão te dar apoio e serão indulgentes com tua “nova pobreza”.
2001: Pobreza?
2003: É claro, os ganhos do casal não vão duplicar com a separação e vocês terão de manter duas casas. É uma questão de matemática simples. E saibas que a ausência a que pensas que relegarás teus filhos te deixará muito desprendido de bens materiais, muito despojado.
2001: Acho que eu não quero continuar conversando.
2003: A curiosidade pode matar…
2001: A mágoa mata mais.
2003: É verdade e é um livro do Saul Bellow. (risadas de ambos)
2001: Vou fazer uma pergunta.
2003: Vim aqui para isto.
2001: Hoje tenho a perspectiva que conheces, quero saber qual a perspectiva que terei em 2003. É outra? E quem é esta Claudia? Eu já casei de novo? Onde vou morar?
2003: Calma, estás muito ansioso e tuas perguntas não são inteligentes.
2001: …e… neste ínterim… vou comer muitas mulheres?
2003: Olha, Milton, não quero te atrasar para o cinema, vais adorar este filme. Ele vai para a tua lista de melhores de 2001. Apesar disto, vou te responder a última pergunta: só umas 3. Depois, a Claudia vai te açambarcar…
2003: (risadas) Que bom! Que me devore!

O Milton de 2001 entra na sala escura a fim de ver As Confissões de Henry Fool, de Hal Hartley, enquanto sua versão 2003 some na rua.

(Continua)

Mônica acorda, Paulo pragueja, Adriana seduz, Marcos viaja (fragmento)

Mônica acordou lentamente com a luz da manhã entrando por sua janela. Deitada ainda, seu rosto estava voltado para o céu nublado, o que fazia seus olhos parecerem muito úmidos e claros. Tinha 40 anos e gostava deste despertar lento e preguiçoso. Sempre evitara trabalhar cedo; alguns pensavam que ela ou tinha dificuldades para dormir ou tinha uma vida noturna movimentada demais para sair de casa cedo. Raramente alguém estranho a tinha visto em pé antes das 10h da manhã.

Sem virar o corpo, tateou atrás de si para assegurar-se da ausência do marido. Estava sozinha e a comissura de seus lábios denunciaram um leve sorriso. Durante o dia, aquele era o único momento todo dela, em que podia ficar apenas lendo, ouvindo música muito baixo ou pensando… Movo-me no vago plano estético da literatura. O que o autor desejará de mim hoje? Sorrindo a tais pensamentos, conjeturava sobre a agenda do dia, até que os barulhos da casa começam a chegar até ela. Reconhece o som de sua mãe caminhando pelo corredor, depois o da porta do banheiro, descarga, pia, escovar de dentes, porta do banheiro novamente e o som da cadeira de balanço. Por que sentou-se antes de tomar café?

Decide não preocupar-se com isto e estende o corpo para pegar a biografia do pianista Glenn Gould que está sobre o criado-mudo. Abre o livro na página 105 e lê. Desde o início de sua carreira de concertos, Gould falava bastante em abandoná-la. Fecha o livro e vira-se, deitada agora de costas, olhando o teto. O silêncio do quarto era um obstáculo às palavras.

~o~

Sou um homem pequeno, culto e pacífico. Raramente altero meu tom de voz gentil e cortês. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mantenho uma postura tranquila. Na verdade, minha gentileza é tão completa que tenho o costume de atrair todas as desgraças e culpas para minha pequena pessoa. Isto me torna alguém muito adequado para certos amigos e mulheres. Esta disposição é belamente ornamentada por meu aspecto físico. Parece ser mais simples culpar alguém que — além de gentil — é pequeno. Minha extrema gentileza retarda ou extingue qualquer reação de minha parte e, mesmo que reagisse descontroladamente — com uma agressão física, por exemplo — penso que causaria mais surpresa do que lesões a um homem comum. Há momentos em que me torno irritadiço e exacerbado. Mas só consigo chegar a este estado quando solitário.

É bom que lhes diga que tenho absoluta necessidade de não criar uma imagem própria que seja muito diferente da realidade. Da que represento. Às vezes, me atrapalho ao oscilar entre a gentileza de não querer magoar e a franqueza de não distorcer, coisas que estão entre minhas mais imperiosas necessidades internas. Tão imperiosas que muitas vezes hesito e deixo minhas frases pela metade.

Estou vivendo temporariamente com uma mulher bem maior do que eu, em todos os sentidos. Sim, meus amigos, ligar minha vida a alguém fisicamente tão abundante, com uma personalidade tão magnífica, com uma inteligência tão abrangente e com um poder econômico tão avassalador foi, no mínimo, uma imodéstia, pois sou diminuto em todos estes quesitos. Deixei-me levar pela euforia de ter-lhe conquistado a confiança. Ela queria um filho imediatamente, estava na idade de tê-lo. Temos um filho.

(continua?)

O conto que não queria calar

No tempo em que as pessoas comentavam e, portanto, interagiam mais em blogs, os leitores resolveram encrencar com Para não falar de todas as mulheres. Disseram que o conto não tinha final… E três escreveram finais para minha história. Outros também fizeram o mesmo, como dá para deduzir pelos comentários. Eu mesmo escrevi um depois, mas rejeitei. Abaixo, o post com as continuações e sua interessante caixa de comentários.

Alguns de vocês leram Para não falar de todas essas mulheres que publiquei há mais ou menos 10 dias. Por iniciativa do Valter Ferraz, houve três continuações do conto, a dele, a da Adelaide Amorim e a da Lulu.

Isto nunca tinha me acontecido e fico entre o homenageado, o feliz e o desconcertado. Os personagens Luana e Juliano me vieram assim de surpresa, durante um almoço com minha filha. Não tenho grande intimidade com eles. Duas horas depois, enquanto esperava o final de sua aula de equitação, escrevi o conto – que é curtíssimo – em menos de uma hora. Uma semana depois, mesmo achando que o o conto estava completo, rascunhei uma continuação, mas não fiquei satisfeito. Abaixo, estão, em ordem alfabética, a continuação da Adelaide, e a do Valter. A da Lulu vem depois, pois continua a do Valter.

~. ~

Adelaide Amorim deu-lhe continuidade:

Para não falar de todas essas mulheres (continuação)

Luana saiu do restaurante Velho Quintino convencida de que Juliano não passava de um menino mimado, incapaz de perceber as coisas em suas devidas proporções – e, pior que tudo, sem o mínimo senso de humor. Onde já se viu, fazer beicinho por causa de um fora dado em plena hora de almoço num quilo comercial?! Não devia nem ter começado, que aquele não era o lugar adequado. O que é que ele estava pensando? Por quem a tomaria, afinal? Devia ter percebido logo que daquele jeito conseguiria no máximo seu desdém, e que talvez mesmo esse já fosse demais. Na verdade, gostaria de nem estar mais remoendo essa historinha insossa.

Houve quem disfarçadamente acompanhasse o diálogo dos dois, e a olhasse com uma censura velada no olhar. Percebeu isso durante o trajeto em frente ao bufê, enquanto faziam seus pratos. Danem-se os outros. Tinha sido honesta, isso ninguém podia discutir. Dissera a ele tudo que fizera por ouvir. Como dizia sua avó, quem diz o que quer, ouve o que não quer. Um cara que mal tinha começado a fazer barba, estreando o primeiro emprego, imaginar que ela lhe daria atenção, era demais. Não se tocava, o Juliano, francamente. Depois, seus planos de futuro estavam traçados, e não havia de ser por causa de um fedelho daqueles que iria desistir de seus projetos. Crescesse e aparecesse. Que é que um carinha daqueles podia oferecer a uma mulher igual a ela, apta a fazer a felicidade de um homem maduro, experiente e realizado?

Trabalhou o resto da tarde tomada de certo mau humor, como se o almoço não lhe tivesse caído muito bem. Uma dorzinha de cabeça persistente piorava ainda mais seu mal-estar. E mesmo sem se aperceber disso, a presença de Juliano a incomodava como um sapato apertado. Acabou esquecendo o assunto com o telefonema de um amigo jornalista, recém-chegado de uma cidade do interior, cheio de novidades interessantes para contar. Combinaram almoçar no dia seguinte e isso restabeleceu sua disposição habitual.

Às sete chegou a seu apartamento, carregando um sanduíche natural da lanchonete ao lado do trabalho, como fazia quase sempre. Cheia de fome, ligou a secretária para ouvir os recados, enquanto largava os sapatos na área de serviço, deixava a bolsa no cabide do quarto e tirava o relógio e os anéis para lavar as mãos.

Pois não é que a primeira mensagem vinha na voz do boboca do Juliano? Num primeiro impulso, não quis escutar o recado. Deixou a torneira da pia toda aberta, e o ruído da água se misturou com a voz na fita. Só fechou torneira quando o recado chegou ao fim, para ouvir as outras mensagens gravadas. Eram só duas, uma de sua mãe e outra de uma amiga com quem conversava quase todas as noites. Tinha esperado outro recado numa outra voz, mas não havia mais nada para ouvir. Sentou à frente do sanduíche e percebeu que havia perdido a fome.

Desapontada, voltou à sala e tornou a ligar a secretária. Dessa vez ouviu a voz contida de Juliano como se estivessem sentados lado a lado. “Desculpe aquela história lá no restaurante. Não queria chatear você. Você tinha razão. Acho que até devo agradecer pela reação, mesmo que no momento tenha me parecido brusca demais. Foi como uma sacudida, que me abriu os olhos para o mundo que, na minha idade, está cheio de possibilidades que eu, feito um bobo, iria jogar fora. Afinal, ganhei o dia e talvez tenha ganho a minha vida. Obrigado mesmo, valeu, Luana.

Mas não se leve tão a sério. Mesmo que consiga fisgar seu velho milionário, nada impede que a gente possa se divertir juntos. Ainda não estou na idade de assumir compromissos, mas sou um cara cheio de saúde, com uma queda por mulheres gostosinhas. Além disso, você sabe, às vezes a idade e as preocupações que o dinheiro traz prejudicam um pouco o desempenho de um homem nas horas mais críticas.

Pense nisso, querida. Conte comigo. Beijos.”

Desligou a secretária e o clique da tecla pareceu estalar dentro de sua cabeça. A dor tinha voltado, o apetite fora embora de vez e ela empurrou a almofada do sofá para longe. Palhaço, rosnou, irritada. Palhaço, repetiu com menos força. Cafajeste, disse, um pouco mais alto, e repetiu lentamente, escandindo as sílabas.

Da janela chegava um resto da claridade do verão, que ainda não tinha terminado.

~. ~

A do Valter Ferraz é totalmente diferente e começa citando o comentário que Cláudio Costa escreveu em meu blog:

Existem muitas ‘Luanas’ por aí, dessas que sonham com homens mais velhos. Têm explicações racionais – “os mais velhos tratam-nos melhor” – talvez para esconder motivos ocultos, desejos outros. Nem é necessário recorrer ao austríaco Sigmund para pensar nos conflitos edipianos de ‘luanas’ e ‘julianos’: ela, a menina, busca proteção, carinho e experiência; ele, meninão, carece de colo, compreensão e ternura. Sexo também, claro, pois Éros já habita em nós desde os cueiros. Troca, compartilhamento, doação? Nem pensar! São versões de uma novela antiga. Diria, por pura exibição: père-versions. Voltemos à mesa e brindemos: – Evoé!

O grupo saiu do restaurante na noite fria. Andavam apressados, conversavam animadamente. Menos Juliano. Ía pensando nas palavras de Luana. O quê exatamente ela esperava da vida, meu Deus do céu! pensou quase em voz alta. Há tempo sentia-se apaixonado pela garota. Vinha testando as possibilidades. Naquela noite, depois do vinho animara-se. E ela lhe parecia tão acessível. Enganara-se. Completamente. Ela não lhe deixou esperança alguma. Cortou em meio às palavras que ele começava a lhe dirigir. E sua alegria esfuziante como se nada mais tivesse importância, pelo ao menos a mesma importância que ele emprestava ao fato, achatava-o de encontro aos próprios sentimentos. Reduziam-no a um nada. Um boboca sonhador. À frente em meio ao grupo barulhento, Luana seguia sua vida. Completamente esquecida do quanto magoara e ferira os sentimentos do jovem Juliano. O que ele buscava exatamente nela? Bom, pensou: amor, carinho e companheirismo. Estava farto daquelas saídas alegres, descompromissadas, inúteis. E queria sexo, também. Mas não o sexo fácil que se consegue em qualquer esquina. Não aquele sexo que não resiste à segunda tentativa. Aquele em que a parceira diz não, querendo dizer venha, me come. Não aquele em que burocratica e insensivelmente as mãos vão caminhando, descobrindo, tateando e abrem caminho para o sexo penetrante, impessoal e competente. Um gozo, um boa noite e uma nota de cinquenta. Não, não era esse o sexo que queria. Era aquele de uma noite inteira de dedicação, sem pressa e sem objetivos a ser atendidos, em que o único compromisso é ser feliz, por quanto mais tempo for possível. E tinham as palavras carinhosas, a cabeça descansando no seu peito, o ressonar tranquilo da fêmea que satisfeita dormece. Era isso o que ele queria. O único sentimento bom que tinha e Luana desprezara. Ah! mulheres! Tinha muito o que aprender o jovem Juliano. Resolveu naquela noite ao virar a esquina e se despedir do grupo que tudo agora seria diferente. Muito diverso do que fora até alí. Na calçada do outro lado um saxofone toca um jazz. Invade-lhe a alma. Ele estanca, decide: vai entrar, beber e ouvir. Foi o que fez.

~. ~

E a Lulu – que casualmente chama-se Luana Chnaiderman de Almeida — segue assim:

Será que ele lhe era insuportável? Sim, era.

E que idéia, convidá-la para sair, daquele jeito, ali, na fila do buffet. Era melhor ser o mais direta possível nessas horas, porque senão os caras não entendem, e grudam. Deixar tudo claro de uma vez por todas, com simpatia: um cinema, ok; mais que isso, não, já aviso logo de cara que é para não criar expectativa. E a cara que ele fez? Cara de cão sem dono – pior, cão abandonado pelo dono, no meio da chuva, no dia de natal. Vai ficar com essa cara? Ele nem respondeu… dava logo para ver que ele queria uma História. De amor, sessão da tarde, pipoca, essas chatices de menino. Ah… mas como são tolos esses moleques. Imagina se ela ia se apaixonar por um menino como ele? Tenha dó! E além disso ele não tirava os olhos do decote dela, nunca, jamais. Parecia falar com o pingente que caía entre os seios, não com ela, Luana. Não fora para aquilo que ela tinha feito a cirurgia nos seios, não… queria coisas melhores, e haveria de ter. Havia prometido a si mesma: chega de sair com moleques. E respirava aliviada, queria grandes histórias, com Homens Interessantes.

Queria um homem mais velho, que lhe soubesse tocar, grisalho, as mãos calejadas, o coração calejado, que pagasse a conta e abrisse a porta do carro, lhe ensinasse sobre a vida e vinhos e tomasse as decisões. Que soubesse ouvir e falar, tivesse casa, dinheiro, carro. Que lhe contasse histórias de longe e de perto, de outros lugares, que soubesse línguas e fosse educado. Queria uma voz rouca, uma vida já construída, um porto seguro, um olhar cansado e sábio, vivido. Nada dessas besteirinhas apaixonadas de alguém que tem ainda cara de menino. Um Juliano… Nada de dedicação sem fim, de carinho, de ficar olhando enquanto ela dormisse. Queria uma certa indiferença e uma certa malícia, uma certa autoridade de homem mais velho. Sem essa de gente que fica sonhando acordada, olhando olhando, que perde a fala e mal sabe fazer um convite decente. Queria que lhe agarrassem, que lhe arrebatassem, que viessem e dissessem: vem, é por aqui. E a deixassem sem fôlego.

Melhor ser direta nessas horas. Falar logo de uma vez: só saio com homens mais velhos. E ele amuou que parecia que ia derreter por baixo da mesa. Havia até gente reparando, ela notou. E depois, sim, ela falara sem parar, porque o cão abandonado e sem dono era cada vez mais insuportável.

Pô, nunca teve um convite recusado na vida? Ele murchara, foi minguando, não conversava mais com ninguém, até olharam feio para ela. E ela tinha culpa? O olhar dele quase batia no chão, e ele nem quis sair depois com a turma. Ficou sozinho, ela reparou, e tinha como não reparar?

Lembrou do collie que tivera na infância, ele tinha uns olhos tristes assim. O collie morreu. E Luana foi ficando com mais raiva. Quanto maior a raiva, mais falava, jogava o cabelo para lá e para cá, como fazia quando ficava nervosa. A turma inteira conversando e o Juliano lá quieto, sorvendo as palavras… Não podia mais ver aquele menino, diria logo no dia seguinte: Juliano, não podemos nem ser amigos. Não aguento essa sua cara de bebê chorão. Não ia conseguir dormir. Não havia jeito. Decidiu ouvir um jazz, tomar um uísque, antes de voltar para casa. Sempre há homens interessantes e mais velhos, nesses buracos onde se ouve jazz.

~. ~

Minha continuação era diferente, talvez mais desesperada por eu ter fixado minha atenção em Juliano durante uma tarde terrível no escritório em que travalhavam… Um dia publico, tá?

~. ~

Comentários do blog anterior (primeiro está o comentário, depois o autor; tudo de trás para frente, OK?):

Milton, são 4:00hs da madruga, chove muito aqui na praia. Venho lá do Ery. O cara estraçalhou. Botou um Billy Joel na história. Aí fica difícil, homem. Comecei a brincadeira sem saber que iria dar nisso aqui. Nem poderia imaginar os caminhos que as palavras percorreriam. Ainda faltam alguns amigos a contar suas versões. Mas o que lí até agora me deixou num misto de alegria incontida, vontade de partilhar emoções, mostrar para amigos que não sabem o que é partilhar de um ambiente como esses. Fico muito grato a você por generosamente ter aceito que eu me apropriasse de tua criação, colocasse teus personagens em minha história. Acho que o resultado compensa todo o atrevimento e ousadia de minha parte. Convido a todos a lerem o que o Ery escreveu. Só um lembrete: cliquem no player lá embaixo e leiam o texto com a música ao fundo, imperdível. Parabéns, Ery. Abraço, Milton

valter ferraz Jun 28 2007

Milton, em princípio não me senti capaz. Mas ao aceitar, avistei um desafio muito bom por ser uma experiência inédita pra mim. Os participantes até agora deram mesmo um banho. Concluí minha “tentativa” como sendo uma continuação da sua idéia. Postei hoje. A brincadeira está ótima. E fico cada vez mais curioso pelo “seu final”. Abraço.

Ery Jun 27 2007

Olá Milton Estou surpresa, com tudo que está rendendo a idéia de continuar o seu conto. Já se pronunciam quase que tratados sobre uma questão que me parecia tão simples. Se duvidar, isso ainda vira um assunto de pesquisa científica…rs E sendo franca, a idéia que eu tive era que cada um dos convidados continuasse a estória de onde o anterior parou. Mas o pessoal decidiu dar várias continuações para o seu conto inicial. De qualquer forma, tá muito legal ler todo este pessoal que se propôs a participar da “brincadeira”. Mas por favor, depois das continuações dos amigos blogueiros, gostaria muito de ver a sua. Vou ficar na expectativa. Abraço Leila

Leila Larson Jun 27 2007

Interessante essa história com várias possibilidades. Prova que há várias maneiras de interpretar um discurso. A minha, em relação à Luana, é que ela simplesmente não quer ficar com o rapaz em questão. Se ele lhe agradasse, ela não ia vir a priori com essa história de gostar de homem mais velho. Pelo menos é o que parece. E aí, Sr. Milton? Quanto tempo! Apareça lá na Estante, estou com saudades suas! Beijão, Ana

Ana Lúcia Merege Jun 27 2007

Milton, publique a continuação!!!! 🙂

Serbão Jun 27 2007

Milton, não é por nada não mas é a melhor versão de tudo o que apareceu até agora. O Lord coloca Billie Holiday com My Old flame entremeando o texto, assim ele quebra as nossas pernas. Grandioso. Só isso. Acho que eu estava certo quando comecei esse trem aqui. E um parabéns para aLeila que foi quem teve a idéia. Abraço forte

valter ferraz Jun 27 2007

Milton, Conforme compromisso assumido com o amigo Valter, acabo de postar minha continuação lá no Lord. Abração

lord broken pottery Jun 27 2007

Geeenteee!! que engraçado que tá tudo isso aqui! 🙂 uma brincadeira é uma brincadeira é uma brincadeira. 🙂 só para constar, meu espírito ao entrar no jogo não foi interpretativo, nem literário, porque eu não sou escritora. No espírito de homenagem, ao Milton e ao Valter. Queria dizer isso. e dizer que está divertido, e que os comentários sobre a Luana e o Juliano estão ótimos. e a mim, essa Luana minha xará está dando uma certa aflição, confesso! 🙂 FC, que bonito que ficou seu texto! agora falta a SUA continuação, né Milton? beijinho, lulu.

lulu Jun 27 2007

Vou ver se aqui cabe… Amigos e Amantes As coisas são como são, acontecem porque isso faz parte. A arte é um separar de pequenas coisas, tratadas como se nelas se desse uma metamorfose. Procuremos deixar passar de crisálida a borboleta a história da Juliana, afinal bem simples. Ela é uma rapariga nova e independente, vê-se exactamente como a vêem: é uma presa que anda à caça das suas próprias experiências e já não tem grandes ilusões. Verem-na como presa desenvolveu nela um sentido subtil de ironia, como é inteligente brinca sem ofender nem aleijar e aproveita o que se aproveita. É sempre bom ter relações saudáveis. Acaba de receber uma mensagem no atendedor, a voz de Juliano. Juliano & Luana, se montassem uma empresa, até que não estaria mal, pensou, como quem quer rir, sorri. O amigo estava a dar a volta brilhantemente ao “fora” que lhe dera, era capaz de vir a ter sorte… Agora para a estória dum inventado narrador omnisciente, à procura de dar por concluída a conclusão de ter pegado numa continuação… Luana anda mesmo com um homem mais velho, é delicado e sensível mas não lhe abre a porta do carro nem lhe alimenta vícios, a não ser que o vício dela seja ele. Ela, sem romantismo, vê a história deles, não como uma estória, essa vou eu resumir e deixo-a inacabada: uma história de amor. Começada há dois anos num bar, ouvindo jazz. A música baixou num swing de harmonias e sensibilidades dum trio brilhante, ao lado dela estava ele. Poisou-lhe a mão numa mão que ela abandonara sobre o balcão, piscara-lhe um olho. Ao piscar do olhou retirou a mão que pegou no copo, beberam e continuaram até ao final da música a ouvir o gozo dum perfeita improvisação. Depois ele seduzira-a, nem tinha como contar, fora brilhante. Convidara-a a ir com ele, para lhe poder mostrar uma “colecção de poemas”. Fora e continuavam… amigos e amantes. Abraços.

FC Jun 26 2007

Milton, a Aninha postou um comentário aqui e ainda não apareceu. Dá prá dar uma olhada aí? abração

valter ferraz Jun 26 2007

Luana, que tem 24 anos, exagerou propositadamente ao falar de homens de 40 anos. Talvez ela pense nos 30 anos. Ela tem 24. Juliano tem 22 (uma criança !). Para Luana o sexo vem depois, não é entretenimento para já. Pretende um homem com experiência da vida, em que possa confiar, que case com ela, um homem que pareça apto a ser amigo de sua mulher pela vida fora. É verdade, Luana simpatiza com Juliano. Tem pena. Ele é demasiado novo. Afasta-o para lá. Quando já na rua os quatro seguem ainda juntos só ela fala. Vai excitada, lutando secretamente e mais uma vez vitoriosa, seguindo pela linha que traçou para si. Luana deseja ter o seu lar, e que nele os seus filhos tenham um bom pai, um homem que pela vida fora mostre ser hábil na luta contra as armadilhas da vida.

Fernando M-P Jun 26 2007

Milton, você plantou um pé de contos e ele está entrando na floração! Uma beleza. Todo mundo dando opinião, imaginando e criando novos caminhos. Parece o jardim do Borges, não? 😉 Beijos e parabéns pela boa mão…

adelaide Jun 26 2007

Além de bem escritos, os diferentes capítulos demonstram as possibilidades infinitas de variações sobre um mesmo tema: o tema da busca, da incompletude, do ilógico nas relações afetivas. Cada um de nós, quando menos espera, topa com aspectos desconhecidos dentre de si. Por isso os romances, as novelas, os contos, enfim “A PALAVRA” nos atravessa e desencadeia associações multifacetadas. A Luana, que parecia do Milton, não é mais dele: agora existem outras, fruto da imaginação de cada leitor/escritor… Isso é bonito, não? A propósito, publiquei hoje um texto de um mineiro: À procura da mulher bem resolvida.

Cláudio Costa Jun 26 2007

Penso de maneira semelhante ao Luciano Lazzari. Espero que a Luana páre com essa bobagem demodê de submestimar os mais jovens e descubra que bom mesmo é crescer junto com alguém da mesma idade. Meninas que buscam por homens mais velhos tendem a ser inseguras de si. Ela rejeita o Juliano porque vê nele a própria insegurança, mas ele, ao menos, teve a coragem de convidá-la pra sair, ainda que de um jeito desastrado.

LucianA Jun 26 2007

Engraçado. Não era uma tese e não tenho uma posição definida anti ou pro Luana, nem pensei em minha opinião. Registrei o fato ficcional e fui embora. A mim, não interessam os motivos de Luana, nem os inventei… Talvez esteja apaixonada por outro homem, mais velho ou não; talvez goste de mulheres e use de subterfúgios; talvez apenas ache Juliano um chato; talvez ele seja muito feio ou talvez ela tenha lhe dito a verdade e só goste de caras maduros… O que sei? Será que gosto tanto de Tchekhov que aprendi a desaparecer sem julgar ninguém? Francamente, não tenho opinião sobre a história, ela é apenas um flagrante que acho muito expressivo. Será que devo mesmo mostrar a continuidade que escrevi ou deixo assim? Agora *num* sei mesmo!

Milton Ribeiro Jun 26 2007

Ficaram bem boas. Agora vamos ao pai da criança!

Eduardo.P.L Jun 26 2007

Mirto: Há alguns dias, tenho acompanhado essa movimentação, fui inclusive convidada por um dos participantes a quem dei minha sincera opinião. Mas, como todos sabem email é coisa confidencial. e essa confidencialidade só pode ser quebrada se for uma questão de… digamos, honra ou morte:-)as you know. Mando – ou talvez não seja necessário, pois ela está nas entrelinhas deste comment – minha opinião, fraquíssima e desprovida de valor, pois não tenho cacife nem autoridade para tanto. Mas, de qualquer forma, quero dizer ao querido Claudio Costa que fez uma leitura de forma lacaniana (isso é um perigo, pois Lacan é importante demais) que não vi na resposta de Luana nenhuma, mas nem sequer sombra de *père_version*. Nem do atrativo En nom du père?-))) hohoho. Sabe, gente, e Claudio também, (aliás não estou dizendo nenhuma novidade devem todos saber disso), de repente quando uma mulher diz *não* a um homem é simplesmente um *NÃO* , um dado cultural: todos nós temos o direito de dizer *NÃO*. Se o narrador escreveu que ela apontou a causa de sua negativa: a preferência por homens mais velhos, isso tanto pode ser ou não, também um dado cultural, dar uma ‘aliviada’ a quem leva o nosso *não*. Porque, Claudio, meu querido Doktor Claudio a quem muito admiro, pras cabeças pensantes , nem sempre um *não* oculta outras razões que não a de ser simplesmente… um não. É ou não é? C’est pas vrai? Tal como o autor, o Milton, que é autor dse excelentes textos, contos, e até quase-romances ou seja matéria ficional, eu me sinto algo, um ninquinho assim desconcertada.;-0) Fazer o que? Um beijo a todos e espero que o Milton continue a produzir os bons textos que cria. E dou parabéns a quem aceitou o repto e escreveu..sobre um *não* que a moça tinha todo o direito dizer. Vai que o Juliano, ou Luciano, enfim o HOMEM, tivese er…halitose? Na verdade, ou melhor na ficção, o narrador trata é do efeito desse *não*. Esse pra mim é o *xis* da questão: o que se faz para lidar com um *NÃO* e se iso for da parte de uma mulher, então…:-) mas em todo caso, é como o ser humano (todos nós) lida com o não-poder. Quando esbarra com a fronteira da vontade do outro. Repito, em minha fraquíssima e pobre, paupérrima opinião. Beijo, portanto, para todos do *sequitur* – para o autor do original e outro muito especial para o querido, repito, Dr. Claudio Costa:-) Meg P.S Agora que é sempre legal, não deixar passar uma oportunidade *lúdica*. ah isso é. Mais beijos

Meg (Sub Rosa) Jun 26 2007

Olha, a história principal eu tinha lido a uns dias e tinha achado muito interessante, o problema pra mim são as continuações. Gostei apenas a do Valter. As mulheres foram muito rudes com o rapaz. Não entenderam nem quiseram entender sua situação, assim também como eu não quero entender a situação da Luana. Por que alguém mais velho? Pra dar segurança, dinheiro, estrutura, experência, cultura? Uma pergunta. Ela procura um parceiro pra usurpar os prazeres do corpo e da alma ou um pai? Porque pra mim quem me da dinheiro, experiência, cultura, segurança é meu pai, a menos que fosse orfão e sofresse de todas essas carências não iria procurar por isso. Acho que essa de procurar um tiozinho da sukita não está com nada, ela tem mais e que fica com o garotão, curtir um motel, aproveitarem as férias juntos, quem sabe casar, sofrer a pressão pra adquirirem uma casa e construirem uma família, e ambos crescerem juntos. Assim funciona a ordem natural das coisas, ou ela vai querer um sujeito que quando ela tiver seus 40 anos ele vai estar com 60 (trocando suas fraudas quem sabe) o filho vai achar que se trata do avô e não de um pai, vai crescer em meio a toda liberdade que quiser (sem a proteção do pai), sem ser protegido das adversidades do mundo, quem sabe esse filho(a) vai ser uma Luana no futuro, pois vai carecer muito de um pai, ou quem sabe vai ser um delinquente. Acho que Luana não é a mulher que mereça um Juliano, e ele devesse seguir adiante e entender que o mundo está cheio de pessoas com lesões psíquicas e que mais cedo ou mais tarde ele iria encontrar alguém que se encaixasse em seu perfil. E como diz o ditado: “Enquanto não encontra a pessoa certa, se divirta com as erradas”; É assim que vivi ate agora quando finalmente encontrei a minha pessoa certa. Abraço Milton

Luciano Lazzari Jun 26 2007

Eu já tinha lido todos. Tô querendo saber o que aconteceu depois que os dois entraram no bar. Ao som do jazz. Minha imaginação tá coçando, alguém escreva a continuação aí, please. Abraço. Janaína.

Janaína Jun 26 2007

Milton, acho que ficou muito legal agora ainda mais, com todos na sequência. Quem ler vai ter uma idéia geral, sem quebra. Agora, desconcertado? Fica não, tio. Só quis te homenagear pois o teu conto mexeu comigo. Acho que ainda vem coisa boa por aí. Peço licença para colar pois o pessoal estava pedindo a sequência toda para os novos posts. Posso? Abraço forte, tchê!

valter ferraz Jun 26 2007

Para não falar de todas as mulheres

Ela e três rapazes estavam sentados em torno de uma mesa do Velho Quintino, restaurante de Porto Alegre. Tinham, presumivelmente, entre 20 e 25 anos e faziam muito barulho com suas conversas e risadas. A moça e um dos rapazes dirigiram-se para a fila do buffet. Ela não tinha um rosto muito bonito, porém seu corpo silenciaria qualquer crítica nascente; a natureza fora-lhe pródiga: era alta, magra sem ser anoréxica e um observador maldoso diria que a natureza recebera um auxílio para que os seios tivessem aquele tamanho e formato. Entrou na fila com o rapaz atrás. Ficaram em silêncio e, neste ínterim, o narrador entrou na fila depois deles. Com uma voz especialmente impostada, o moço perguntou:

— Quando é que nós vamos sair, Luana?

Ela sorriu compreensivamente para ele e disse que poderiam sair qualquer dia, mas que ele poderia ir logo perdendo as esperanças em algo além de um cineminha.

— Mas por que toda essa resistência?

Ela fez um ar de enfado e disse que só se interessava por homens de mais de 40 anos e, ao olhar surpreso e interrogativo do moço, explicou calmamente:

— Vocês -– sim, ela disse “vocês” –- não sabem como tratar uma mulher. Não me interesso por jovens. A mim só atraem homens mais velhos.

Ele a mirou por alguns segundos como quem fosse contestá-la. Mas, hesitante e subitamente falando com certo descontrole, perguntou:

— Quantos anos tu tens?
— Vinte e quatro.
— Eu tenho vinte e dois.

O rapaz passou a servir-se em silêncio. Ela também. O narrador, esquecido de encher seu prato, seguia a cena desejando que aquele não fosse seu final. Mas o silêncio persistia. Luana já estava quase no final do buffet e o rapaz demorava-se. Ela terminou de servir-se e esperou. Quando ele se aproximou, trazendo um prato quase vazio e este narrador à reboque, ela jogou a cabeça para trás, fez um movimento para deixar os cabelos em posição mais confortável e ordenou:

— E tu, Juliano, não vai ficar com essa cara de quem perdeu o pai, né?
— Que cara?
— Essa cara de menininho que não ganhou o brinquedo. Detesto!

Voltaram à mesa. A conversa seguia, porém com uma voz a menos. Juliano parecia em estado de choque, seu rosto mostrava que não perdera somente o pai, mas a mãe e toda a família, num acidente de avião, subitamente, no meio do mato. Era uma tristeza imensa. Parecia que seu rosto inchara. Talvez seu videogame também tivesse sido roubado.

O narrador não era maldoso e procurou não olhar muito para ele. Fixava-se em Luana, em sua perfeita naturalidade, rindo e conversando com os restantes, ao lado do rapaz feito criança. Será que ele lhe era insuportável?

Quando levantaram, ela se voltou rapidamente para ele, que estava de cabeça baixa. Fez um olhar de pena. Saíram primeiro os dois outros amigos, seguidos de Luana e de seu admirador. O narrador pensou num cortejo fúnebre.

Como o restaurante é envidraçado por fora, o narrador viu quando os dois aproximaram-se e caminharam lado a lado. Só ela falava.

No Psiquiatra

E então o psiquiatra me ouviu por cinco horas, três horas no primeiro dia e duas no segundo. Um tempo espantoso e inesperado para quem, como eu, pensava que eles só trabalhavam de 50 em 50 minutos. Perdi compromissos. Ele me perguntava sobre tudo e eu disse que havia apenas 3 ou 4 períodos de minha vida que interessavam, que os outros eram ociosos. Mas não, ele quis uma coisa cronológica e organizada, queria uma visão geral. Eu despejava detalhes que ele ia anotando e a garganta me doía de tanto falar, pois raramente era interrompido. Aí, cheguei na parte em que eu, rindo do absurdo, contei que, apesar do que pago, apesar de ter deixado tudo para ti, de ter me despojado, tu ainda querias mais e declaravas-te insatisfeita e desatendida, dizendo que eu não fazia nada de bom para ti e as crianças. Quando falei isto, ele me interrompeu como um guarda de trânsito. Sim, ele levantou o braço; eu vi a mão dele espalmada na minha direção. Parei imediatamente e ele tomou a palavra. Disse que tu tinhas razão, que o fato de eu só ter tirado da casa minhas roupas, meus discos, meus livros e nada mais era incomparável ao vazio que uma pessoa rígida e de poucos amigos reais sente ao perder alguém sociável e um elo de comunicação com as novidades, desde as fofocais até as culturais, principalmente as últimas. Seguiu falando que provavelmente tinhas passado por uma fase em que foras a todos os concertos, viagens e filmes, uma fase em que não poderias perder nada, nenhuma festa ou encontro, a fim de tentar preencher o espaço que eu estava desocupando, mas que isso não o deixaria repleto e tu necessitarias de mais ainda. E me acusou, na fala pausada e tranquila dos psis: “Na verdade, ela não mente, tu a despojaste”. E sorriu. E voltou a seu silêncio. E eu, com aquele negócio que nunca tinha considerado, com aquele disparate perfeitamente lógico que nunca tinha me ocorrido, com a repugnante e conhecida sensação de burrice e ignorância dos fatos, simplesmente não conseguia mais reencontrar meu assunto e reouvia tu dizeres que era um absurdo eu ter levado duas estantes de livros, que aquilo deixara um enorme buraco naquela parte da biblioteca e que estavas tentando desesperadamente tapá-lo para que os amigos e as crianças não notassem o quanto a parede era feia. E eu, com tudo aquilo dando voltas na minha cabeça, enquanto já falava sobre outro assunto, pela primeira vez depois de horas andando em linha reta e cronológica, retornei e perguntei ao psiquiatra se ele falara sério e ele assentiu e mandou eu continuar porque já estava anoitecendo.

(E eu até hoje desconfio que ele declarou aquilo só para me motivar a falar mais.)

-=-=-=-=-=-

Análise:

1. Imagino que o texto é a culpa porque você é quem cobra, de “fato” e de forma razoável e participativa, o estudo dos filhos pois sei que você é que “senta” para estudar junto. Agora você vai dizer que também tem que se sentir culpado por deixar um vazio de civilidade na vida de quem lhe sufocou por anos? Não conta a sua solidão nem ter que deixar casa e filhos enquanto ela se agarrava a tudo – segundo a nova explicação do “psi” – para preencher o vazio que você deixava? Pergunto: Se um é “estantes de livros” – cultura, lazer – o outro seria a “parede feia” que precisava se esconder dos filhos e amigos? É super preconceituoso crer que mães amem que pais ou que sejam mais capazes de criar, nada prova isso mas as leis ainda dificultam a guarda aos pais e, mesmo “pães” como você, que se despojam de tudo para aplacar a culpa de se sentir ausente no dia dos filhos, mesmo sem ter criado a situação.

2. Tudo bem, tudo bem, a psicanálise busca um olhar além do obviamente conhecido por você sobre você mesmo. Não esse aí, não sobre ela. Vc há de me perdoar, esse seu psiquiatra nada tem de psicanalista, duvido até que seja psiquiatra. Vai ver era o advogado dela disfarçado (que aliás era um bom final para o texto…rs). E o espaço que ficou na sua vida afetiva pela ausência dela e dos filhos, era muito maior, não era? E na vida física, digamos assim, a falta da casa e TUDO que tinha dentro e te dizia respeito, não deixou um ” espaço vazio”? A psicanálise nada tem a ver com esta coisa que sabemos, óbvia, e sim aquelas que nos angustiam e que não conseguimos perceber o porquê de nos angustiarem e as vamos repetindo na vida. Bah, tchê, tu devias ter me perguntado por uma indicação. : ) O texto está ótimo!! Só reclamo do formato de “tijolo”. Beijos. PS: e que história era aquela de vc gostar de poemas melancólicos? Taí, novidade pra mim.

3. Alguém me disse certa vez que a pior coisa que alguém pode te fazer é mudar a tua própria percepção da realidade. Parece que este teu “psicodoido” segue esta linha. PQP.

4. Quero o endereço do seu psicanalista: quem sabe me dá um curso? “Descentralizar e desconstruir” nossas convicções pode ser doloroso, mas é na brecha entre a fantasia e a realidade que surge o “Real da Coisa” (!). Inda por cima, lhe deu o mote.

5. O que mais me impressiona é que depois de ouvir tudo o que você ouviu, rever e revirar as suas convicções, adquirir um sentimento de culpa com a sensação de que jamais conseguirá cancelar o mal causado, um sentimento de dívida impagável, como algo que não tem conserto, como o balão de gás que escapa da mão e se perde no céu imenso; o que mais me impressiona, nem chega a ser a mudança de postura e um certo mal-estar permanente, mas é saber que você ainda precisa pagar o psicanalista.

6. Fazer psicanálise é fugir tanto ao controle dos autopadrões que deu até vontade de voltar, lendo o texto. Grandes epifanias. E com o tempo, a gente não se sente mais burro de não ter pensado *daquela forma. a coisa mais fascinante que descobri é que minhas armadilhas são tão inteligentes quanto eu julgo ser.

Hoje é o Dia do Aborto

Hoje é o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. Nossa região é uma das mais atrasadas do planeta em matéria de legislação do direito ao aborto. É importante dizer que a mulher ou o casal não fazem um aborto por prazer. É uma decisão dolorosa, mas muitas vezes as consequências de uma gravidez indesejada são ainda piores.

Quando uma mulher não pode ter filho, ela faz o aborto de qualquer forma, usando agulhas de tricô no banheiro de casa ou com “especialistas” de fundo de quintal, que fazem o aborto perigosamente. As mulheres que têm situação econômica mais privilegiada, muitas vezes têm condições de pagar por serviços que não colocam suas vidas em risco. Porém, segundo a Organização Mundial da Saúde, quase a metade dos 50 milhões de abortos realizados mundialmente, todos os anos, são feitos de forma ilegal e em péssimas condições, resultando na morte de, aproximadamente, 90 mil mulheres, por ano, vítimas de infecções, hemorragias, danos uterinos e efeitos tóxicos de agentes usados para induzir o aborto.

Meu último aborto

Ela veio até minha mesa e disse:

— Depois preciso falar com o Sr. em particular.

Era uma de nossas estagiárias, a que fazia um misto entre auxiliar de escritório, substituta da secretária e telemarketing. Só os três estagiários me tratavam como “senhor”. Nossa empresa era pequena – quatorze pessoas – e ela, com 16 anos, era de longe a mais jovem. Todos nós trabalhávamos muito e acumulávamos funções muitas vezes díspares. Sendo um dos sócios, além de alguns trabalhos técnicos, responsabilizava-me pela parte financeira e de pessoal.

— É assunto urgente?

— Sim.

Ao final da tarde, enquanto os outros funcionários iam embora, fechei-me com ela na sala de reuniões.

— Olha, seu Flávio, preciso de um adiantamento.

Era só o que faltava, a estagiária de 16 anos e que mora com os pais pedindo adiantamento. Só lhe daria se fosse para algo relacionado com seus estudos. Comecei a pensar na desculpa. Porém, na realidade, sempre deixava algum valor reservado para esses pedidos. Os solteiros raramente solicitavam adiantamentos, os casados sem filhos também não, só os que tinham filhos ou estavam a ponto de tê-los é que vinham pedir-me valores para serem descontados no dia do pagamento dos salários. Éramos uns duros, mas estávamos crescendo. Quando ouvira a reclamação de que não tinham dinheiro para almoçar, fizemos vales-refeição para todos. Quando financiara o parto da mulher de um funcionário, colocamos todos em planos de saúde. Quando houve problemas com os altos preços dos remédios, fizemos cartões de farmácia cujos valores eram descontados ao final do mês. Mesmo assim, e apesar de que, considerando o mercado, pagávamos bons salários e raramente perdíamos funcionários, havia sempre os apertos de última hora. Era difícil evitar dar algum adiantamento, pois éramos todos muito próximos e eu tenho o coração mole, costumo assumir o problema dos outros, apesar das reclamações de meu sócio.

— De quanto tu precisa? — perguntei; afinal, ela ganhava apenas R$ 450,00 e talvez pudesse pagar do meu bolso.

— Preciso de R$ 2.000,00.

Tomei um susto e quase ri de sua pretensão.

— Mas, Mariana, tu recebe R$ 450,00 mais transporte e refeições…

— É, só que eu preciso mesmo! Tenho um grande problema.

Que saco, ela quer que eu pergunte qual é.

— Mariana, eu não posso adiantar um valor que é quatro vezes o teu salário. Além do mais, tu não tens vínculo empregatício e como é que vais passar os próximos meses sem receber?

— É que eu preciso fazer um aborto e o cara que faz isto direito, numa clínica, com higiene, cobra isso.

É, ela desejava realmente dizer qual era seu problema. E que problema. Nada mais típico; um caso de gravidez na adolescência. Sentindo-me cada vez mais desconfortável e sabendo que não deveria me envolver, fiz o contrário:

— E o pai?

— O pai? Bom, seu Flávio, não tenho bem certeza, mas acho que é o Chico.

— Chico? Ai, meu Deus, o nosso melhor analista estava comendo a menina. Ao menos era solteiro.

— Ele sabe?

— Sim, mas o Chico quer ter o filho. Eu não quero. Imagine, não tem nada a ver, eu com uma criança na casa dos meus pais em Guaíba. Meu pai me mata. E não vou ficar cuidando de filho nessa idade. A barriga é minha. E eu, casada? Brincadeira, né?

Dizia para mim mesmo: não te envolvas, mas… Acabei falando uma besteira.

— Mas o Chico tem um apartamento.

— É um cu – respondeu, fazendo um círculo com o polegar e o indicador — e eu já disse que não quero ser mãe agora! – Só não fala com ele, ele vai vir com o papo de que é filho dele, que é contra o aborto, vai falar em religião, etc.

— Vou ver o que dá para fazer; não posso te dar um adiantamento desses sem falar com o Leonardo.

No outro dia, não falei com Leonardo, meu sócio; porém Chico sentou-se a minha frente.

— A Mariana veio te encher o saco?

— Não entendi.

— A Mariana não te pediu dinheiro?

— Pediu.

— Quanto?

— R$ 2.000,00.

— Pois é, cara, e eu nem sei se o filho é meu. Essa guria trepa com meio mundo, cheira e fuma de tudo, deu para um colombiano que vende artesanato na Praça da Alfândega e o filho é meu?

— Chico, eu não tenho nada a ver com essas histórias, mas também não quero que a empresa vire uma novela mexicana, nem colombiana.

— Sou contra o aborto. Não vou à igreja, mas sou católico. E é um crime. As clínicas são clandestinas. E se ela morre?

Fiquei em silêncio.

— Eu propus assumir a criança, mas ela está louca. Chegou a levar cocaína lá para casa, só para mostrar como era irresponsável. Brigamos e ela foi para Guaíba de madrugada.

— Ela é drogadita mesmo?

— Claro — disse ele, num simulacro de riso. -– Mora na periferia, é difícil ser diferente.

Fiquei em silêncio, pensando idiotamente em qual seria a frequência dos ônibus para Guaíba de madrugada.

— Ela passa muitas noites lá em casa. Sai com as amigas e depois vai para lá. Bate no porteiro à uma, duas da madrugada. Às vezes só deita e dorme.

— Chico, e se ela persistir com a intenção de tirar a criança? Eu não vou emprestar essa grana para ela. Tenho que ser um pouquinho profissional.

Chico era muito importante em nosso trabalho. Sempre ficava com a parte mais difícil dos projetos. Tinha formação sólida e era competente, interessado.

— Chico, olha aqui. Fala com ela. Vocês têm que resolver. Não querem que eu decida, né?

— Tá bom, mas tu farias um aborto?

— Sei lá. Não sou eu quem deve resolver.

— Tá, mas eu quero ouvir a tua opinião — insistiu Chico.

— Já sou responsável por muita coisa. Pára com isso.

— Mas uma namorada tua fez aborto há duzentos anos atrás, tu falaste nisso uma vez.

— Sim, mas nada a ver com vocês, cara, resolve – disse-lhe.

Passaram-se duas semanas, Mariana faltou ao trabalho e Chico veio conversar:

— Fizemos a porra –, disse ele. — Ela vai ficar hoje em casa.

— Tu foste com ela?

— Não, só paguei. Ela foi com a irmã.

Meu papel parecia ser o de ficar quieto. No dia seguinte, Mariana estava toda feliz e dava saltinhos de felicidade pelas salas. Logo depois, sumiu por uma semana sem dar explicações. Retornou dizendo que estivera em Santa Catarina, numa praia. Achei a coisa verdadeiramente engraçada e tivemos uma longa e divertida conversa ao final da qual lhe disse que tinha que suspender seu estágio. Ela riu, deu-me dois beijos e despediu-se de todos.

Hoje, nove anos depois, Chico é casado e sua mulher está grávida do primeiro filho, que será, segundo ele, um menino torcedor do Internacional. Há dois anos, vi Mariana na rua quando ia almoçar. Estava magérrima, estranha. Fingiu que não tinha me visto, mas, por puro acaso, reencontrei-a uma hora depois no elevador. Nossos olhares se cruzaram rapidamente e não a cumprimentei, pois não sabia se ela queria ser reconhecida, mas notei um sorriso nascente e fiz-lhe um sinal com a cabeça. Ela perguntou se o escritório tinha se mudado para aquele edifício. Respondi que sim. Saímos juntos do elevador no meu andar e conversamos. Ela estava agitada, contou-me que coisas “muito loucas” tinham acontecido, que passara três anos na Suíça, que fazera faxinas e participara de colheitas, que sabia como viver lá com pouco dinheiro, quase sem pagar comida nem locomoção e que queria voltar logo, nem sabia por que estava aqui. Como se ainda trabalhasse conosco, pediu-me uma grana, qualquer coisa. Dei-lhe R$ 50,00. Eu queria me livrar dela. Aquele encontro estragou meu dia.

Contei o encontro ao Chico, que ainda trabalha conosco. Muito emocionado, disse-me que Mariana tivera aquela criança e que ela estava abandonada na casa de sua mãe. Ele soubera por uma amiga comum e procurou Mariana; só depois de muito esforço conseguiu um contato telefônico. Ele queria fazer um exame de paternidade. Ela o mandou se foder, mas Chico foi a Guaíba e encontrou a menina em situação miserável. A avó deu graças a Deus achando que finalmente ia livrar-se daquele peso que sua filha tinha-lhe deixado. Foi fácil convencer a velha a fazer o teste, só que o resultado apontou para outro pai. Mesmo assim, Chico insistiu com sua mulher para adotar a criança ou para dar mensalmente algum dinheiro à família, porém isso quase custou-lhe o casamento. Então voltou a Guaíba, deu um monte de roupas e presentes para a criança e ouviu a mãe de Mariana dizer que ele era um desgraçado de um pau no cu.

As mãos de Karajan no Allegretto da Sinfonia Nº 7 de Beethoven

As mãos de Karajan… OK, é um belo vídeo e o Allegretto da 7ª é estupendo. Houve até um sujeito que escreveu um continho do qual o Allegretto era o cerne… Leia abaixo.

Ou clique a seguir, se a imagem insistir em não surgir em seu monitor.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que a respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela — àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser descrita como seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

— Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu…. Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma sequência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

— Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem que deixara gravado. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

— Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos — principalmente para cuidar de seu filho — , que ele logo pensou tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro.

— Não surpreende — disse para si mesmo ao desligar.

Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

— Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a ideia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?

— Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse aquela música que a Maria Bethânia canta.

— Que música?

— Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

Luciana e o hedonismo

Meio sem tempo, repito um post antigo que acho divertido.

Sexta-feira à noite. Chegou o dia que Luciana temia: depois de meses desempregada, deixaria de pagar suas contas. Na sua frente, sobre a mesa da sala, estavam o aluguel, a luz, a água, algumas faturas de cartões de crédito e outras assombrações. Viu que sua conta bancária estava quase chegando ao limite do cheque especial – faltavam apenas R$ 15,59 para encostar lá -, e decidiu que segunda-feira trataria de entrar em contato com seus futuros credores para evitar o que pudesse ser evitado, sabe-se lá como.

Acordou no sábado ainda com os documentos sobre a mesa. Seu desalento era completo. Precisava de um dinheiro qualquer e procurou na agenda do celular algum amigo que pudesse emprestar-lhe o necessário para a comida e o gás de cozinha. Ligar para sua mãe estava fora de cogitação. Enquanto passava por nomes de conhecidos, viu, num cantinho, sob a papelada remexida no dia anterior, um cartão. Pegou-o. Era um cartão de crédito recebido meses atrás, quando ela ainda tinha emprego. Um desses que a gente recebe sem pedir, pelo correio. Revirou-o de um lado para outro. Digitou no celular o número do desbloqueio. A ligação era gratuita. Recitou seus dados para a atendente e ocorreu o milagre. Nascia a possibilidade de gastar mais R$ 3.500,00.

Foi ao supermercado e pôs no carrinho boas quantidades dos produtos de consumo básico. Leite em pó, arroz, feijão, frango para congelar, sabonete, detergente, pasta de dentes e o último chocolate, uma extravagante caixa de Bis ao custo de R$ 3,97. Eram estes seus víveres para a guerra que tinha pela frente. Caminhou em direção ao caixa e pagou R$ 346,32 com o novo cartão. Funcionou! Foi auxiliada por um funcionário do supermercado no transporte das compras, mas antes avisou-lhe que não tinha dinheiro para gorjeta.

– Não tem problema, moça. Eu levo assim mesmo.

No caminho, pensou naquele blogueiro que tinha a mania de estampar belas mulheres todos os sábados. Para ele o sábado devia ser uma festa, é o dia em que ele pode enfim gastar os milhares de reais ganhos em uma semana de trabalho. Deve ser rico, o filha da puta. Rico e machista. Só como vingança, eu deveria publicar fotos de homens no meu blog, para mostrar que também tenho desejos. E grandes desejos – de uns 15 cm, no mínimo – e pesados – de 70 Kg para cima. Merda. Vou ver quem ele colocou hoje.

Chegando em casa, não resistiu a dar R$ 1,00 ao menino, guardou as compras e sentou-se frente ao computador. Tenho que vender esta porcaria antiquada, refletiu. Olhou o blog do infeliz e viu várias fotos de uma peituda. Credo, como os homens são patéticos, mas bem que eu gostaria de um que tivesse um emprego. Decidiu não deixar comentários no post, o Milton que se fodesse.

Saiu a caminhar pela rua pensando no que fazer com o cartão e em como arranjar logo emprego e companhia. Mais víveres? Talvez. Achou que o cartão poderia ajudar também na companhia. Iria ao bar do Beto naquela noite; suas amigas diziam que qualquer mulher saía de lá casada, se quisesse. Deixaria todos os pruridos de lado, podia ser um velho grisalho, carente e impotente que ela agarraria do mesmo jeito. Passou por seu antigo colégio e pela igreja que freqüentara na infância. Subiu a longa escadaria da Igreja das Dores e entrou, buscando tranqüilidade e inspiração. Fazia anos que não entrava numa e achou cômica uma velhinha de preto ajoelhada no confessionário. Que pecados poderia estar expiando? Provavelmente tinha envenenado o gato da vizinha. Bem feito pro gato.

Sentou-se e bocejou longamente. Viu a velhinha levantar-se e, para pasmo próprio, levantou-se e ajoelhou-se no confessionário.

– Bom dia, padre.
– Bom dia, minha filha.
– Padre, eu preciso de uma solução para minha vida. Urgente. Estou desempregada e caindo em desespero.
– Como é seu nome?
– Luciana, mas me chame de Lu.
– Lu, pense em Cristo que morreu por nós…
– Padre, por favor.
– Sim?
– Sou uma mulher adulta, não vou perder meu tempo com carolices e preces. Quero conversar.

O padre silenciou por instantes. Então ela o ouviu dizer:

– Vamos conversar, então.
– Quero uma opinião pessoal.
– Vou lhe dar a opinião pessoal de um padre, de um religioso, de alguém que dedicou até hoje sua vida ao Criador.
– Que seja.
– …
– Bom, acabo de decidir que vou utilizar um cartão de crédito apenas em atividades que me levem ao prazer. Acho que o prazer de ir à bares poderá me levar ao prazer de obter companhia masculina e isto pode significar, se eu for competente e legal com o cara, financiamento da minha comida, ao menos. Além disso, se eu gastar um pouquinho… ou melhor, esqueça… Não, é que acredito que o prazer de comprar algumas roupas poderá me levar a ter uma melhor apresentação e me auxiliará a encontrar um emprego. E um homem, quem sabe.
– Um hedonismo útil?
– Sim, é uma boa definição, padre!
– Lu, o hedonismo pode consistir em prazer sensorial imediato ou em prazer moral. Epicuro, por exemplo, não liga a idéia de hedonismo ao prazer imediato e fugaz. Este, o hedonismo sensorial, seria inferior; o espiritual é inequivocamente superior.

Seguiu-se um longo silêncio que foi quebrado pelo padre.

– E o verdadeiro hedonismo só existe se houver sofrimento.
– Como?
– O prazer se tornaria chato e até o evitaríamos se fosse seguido sempre de mais prazer.
– Ah, padre, não sei não. Se o Sr. soubesse da minha pindaíba não diria isso!
– Se você não conhecesse a pindaíba, se conhecesse apenas a segurança, talvez te tornasses desinteressada e entediada, que são outras desgraças a serem evitadas. Talvez inventasses problemas e deixarias tua segurança, digo, teu dinheiro, no psiquiatra, como tantos fazem.
– Pára com isso, meu! Queres dizer que a segurança é tão ruim quanto a insegurança? Esse papo só serve para o conservadorismo da igreja.
– Não, Lu. Eu só estou te explicando…
– Que a felicidade não existe?
– Preste atenção, veja minha missão: aqui onde estou, neste confessionário, há tanto a necessidade do Mal quanto do Bem. O pecado é tão dialeticamente necessário quanto os bons atos.
– O Sr. quer dizer que o hedonismo, para ser hedonismo, precisa do sofrimento para justificar-se, como um contraste para que o hedonismo possa ser hedonismo?
– Certamente.
– O hedonismo não teria a menor graça se não fosse seguido de desprazeres ou de algo menor? Ou pior?
– Muito pior, Lu. Senão não teria graça.
– O Sr. é padre mesmo ou invadiu a casinha aí?
– Sou padre sim. Mas acredito em dialética. O que há de errado nisso?
– Não sei. É que o Sr. abandonou a bobajada católica com tanta facilidade….
– Não diga isso, Lu.
– … que mais parece um livre-pensador.
– Nenhum de nós é livre-pensador, Lu. Isso não existe, nenhum de nós é independente, todos temos um chefe. Aliás, outrora, eu mesmo contava uma piada sobre esse tema. É curta: “o mais feliz dos subordinados na Terra é o Papa de Roma, porque todos os dias pode contemplar seu chefe crucificado!”.

Lu deu uma gargalhada que ecoou na igreja. O padre não gostou.

– Lu, que desrespeito!
– O quê, minha risada?
– Claro.
– Culpa sua. Não devia contar piadas, só abençoar e mandar rezar.
– Não era isso o que você queria.

Novo silêncio, desta vez quebrado por Luciana.

– O que devo fazer com meu cartão?
– Não posso entrar na sua vida privada.
– Como não? É o que a igreja faz sempre! Se eu lhe perguntasse se deveria transar com uma amiga o Sr. teria resposta. Por que não pode falar sobre o cartão?
– Luciana, Luciana. Não vou te explicar os conceitos fundamentais da religião católica.

Após dizer isto ele riu, como se estivesse deliciando-se previamente com o que iria dizer. Porém, Luciana ouviu um simples

– corrijo dizendo que não devo entrar em tua vida econômica.
– Karl Marx disse que a economia está em tudo. E está.
– Deus está em tudo, Lu.
– …
– Tudo bem. Dialeticamente, já expiaste tua dor analisando tuas contas e tuas terríveis perspectivas. Não foi uma anedonia, que é o contrário perfeito do hedonismo, formando uma unidade dialética com ele, mas, enfim… dou-te uma penitência inversa. Beba, dance e compre belas roupas. Só não diga que um padre te aconselhou a isso.
– E o Sr. me abençoa? O Sr. reza para que a anedonia não me invada?
– Claro, minha filha. Rezarei também para que um dia você respeite e receba os prazeres morais em tua vida.
– Mas o hedonismo moral não oferece subprodutos econômicos, padre.
– Talvez sim, secundariamente.
– É, pode ser.
– Agora vá, rezarei por ti.
– Tá bom, padre. Obrigado.
– Mais uma coisa. Por que a igreja oferece este serviço?
– Porque tanto o pecado quanto a virtude nascem de idéias e o habitat das idéias é o diálogo, é onde se transformam e são testados. Nós, confessores, não fazemos nada. És tu quem – ouvindo tua própria idéia vinda de tua própria voz – faz a correção e a punição.
– Chega, padre. Muita filosofia prum sábado de sol.

Luciana ficou sentada nos degraus de Igreja Nossa Senhora das Dores por mais de uma hora. Olhava a rua que se descortinava à sua frente com o Guaíba ao fundo e os passantes na Rua dos Andradas. Refletia com o cotovelo no joelho e a mão no queixo. O que faço? De repente, ouviu sons de passos atrás de si, voltou-se e viu um padre descer lentamente as escadas, passar por ela e ir em direção à rua. Seria o padre dialético? Fez uma aposta consigo: se ele dobrasse à esquerda, hedonismo; se à direita, víveres para a guerra.

O padre atravessou a rua e seguiu em linha reta.

Luciana levantou-se e finalmente decidiu: víveres para a guerra, mas hoje, hedonismo! Pegou uma ficha telefônica e ligou para seu amigo Doni, o escolhido para sua primeira abordagem hedonista. Seria sua primeira vítima.

Uma Virose e Duas Miniaturas

Meu início de semana foi muito ruim. Quando decidia fazer alguma coisa vinha a febre; então, tomava o antitérmico e deitava-me para sentir naúseas ou ser atacado pela diarréia. (Este negócio de ir ligeirinho para o banheiro como uma gueixa em fuga é das coisas mais humilhantes, não?) Aí sentava na cama para melhorar da náusea e acabava me interessando por alguma coisa e começava a me mexer. Animava-se mais e saía da cama para voltar a sofrer os tremores da febre. Um saco!

Um dia alguém me pediu para escrever histórias em 300 toques, título incluso. Não lembro bem quem foi que pediu e muito menos se foram publicadas. Sei que encontrei duas em meu micro ontem.

Além de ser um desafio para um cara que gosta de discorrer calmamente sobre os assuntos, foi muito divertido escrevê-las, Primeiro, fiz uma grade de 20 linhas, com 15 caracteres em cada uma. Depois, fiquei mais esperto e usei o BrOffice para contar os toques (opção Arquivos, depois Propriedades e Estatísticas).

O resultado está a seguir. A primeira historieta é original, a segunda é um ultrarresumo de outra pequena história já publicada.

1. Casou-se com o Corretor

Acorda e decide matar-se. O celular toca : “Filha, me deu outra crise, venha”. Vai à sacada e olha e rua, mas não quer pular de pijama. Veste-se e pensa na mãe: merda, só atrapalha. O celular de novo. A morte. Desce e dirige de olhos fechados. A despesa não supera a franquia.

2. A Erudição Rejeitada.

— Se desejas me conhecer — disse o conhecido intelectual — , ouve isto. É a 7ª de Beethoven.
Queria mostrar-se sublime.
Separaram-se na frente do prédio. Ao entrar, ela indaga ao porteiro:
— Que música te descreve?
— Ora, Gostoso Demais, da Bethânia.
Ela riu. Acabaram subindo juntos.

Domingo banal

Ele odiava os finais de tarde de domingo. Não havia pior hora. A semana era suportável em sua rotina de trabalho, cansaço e sono; o sábado era o dia de fazer as compras da semana, de jantar com a mãe e de ir ao cinema; porém aquele horário dominical de completo ócio, em que sentia possuir forças além da necessidade, era terrível. Sentado na sala, pôs um CD e começou a organizar mentalmente a agenda da semana. Sua angústia crescia ao notar os compromissos avolumando-se. Havia os imediatos e os outros, piores, que costumeiramente eram deixados para depois. Procurava organizar-se. Ergueu-se e, deixando o volume da música mais alto, foi ao armário de remédios procurar um calmante. Pegou o comprimido e abriu a geladeira para servir-se de água. Viu um garrafão de vinho pela metade. Largou o comprimido sobre o esmalte branco da geladeira, apanhou o garrafão, um funil e, cuidadosa e amorosamente, passou a dividir o conteúdo do garrafão em garrafas menores. Deixou os três frascos iguais exatamente no mesmo nível e procurou rolhas. Enfileirou o resultado na porta da geladeira, desligou a música e ligou a TV.

Continho Realista da Impotência

A empresa onde Paulo trabalhava ganhara uma licitação para reformar e ampliar uma escola da periferia de Porto Alegre. Era um trabalho que ele, um homem de esquerda, preocupado com as questões sociais, gostava especialmente: construir escolas e casas em comunidades carentes. Houve uma reunião com a diretora. Ela parecia exultante por haver finalmente obtido a verba para a construção de mais cinco salas e por ter, diante de si, alguém preocupado em realizar um bom trabalho. Era uma valorização para a escola e para a atividade de todos sob sua gestão. Acompanhado por ela, Paulo conheceu toda a escola e acertou os horários em que os pedreiros poderiam fazer barulho, pondo abaixo algumas paredes e preparando as fundações para a ampliação. Era uma obra simples para ele, acostumado à sofisticação dos condomínios e edifícios de alto luxo.

Após o encontro, Paulo saiu da escola e procurou uma ferragem nas redondezas. A experiência ensinara-o a fazer um acordo com algum dos pequenos comerciantes próximos. Afinal, sempre faltava alguma coisa miúda. Se a empresa normalmente mandava entregar o cimento e as tintas, esquecia-se de enviar pregos, pincéis e outros materiais menos onerosos. Ele encontrou o que precisava a uns cem metros da escola. Pediu para falar com o proprietário do estabelecimento e, quando este veio lá do fundo, conversaram no balcão de atendimento.

O acordo foi fechado rapidamente e o comerciante apresentou-lhe o filho, que era quem ficava a maior parte do tempo atendendo o público. O chefe de obra poderia retirar material até determinado valor, assinaria um recibo e Paulo, ao final de cada semana, pagaria a ferragem. O nome do proprietário era Fernando, “Seu” Fernando, e o do filho, Fernandinho. Todos os conheciam assim no bairro. A conversa não demorou cinco minutos.

Quando Paulo estava despedindo-se deles, dois jovens, um negro e um branco, com armas na mão, adentraram aos gritos no estabelecimento, exigindo o dinheiro que o comerciante tinha em caixa. “Todo mundo parado, queremos toda a grana!”, gritavam eles. Um deles ficou na porta e o outro se aproximou do dono da loja, quase ao lado de Paulo. Seu Fernando começou a bravejar reclamando daqueles filhos da puta que volta e meia entravam ali. Abriu a gaveta de dinheiro e deixou duas notas de cinqüenta reais sobre o balcão, dizendo que estava bom assim. O garoto chegou-se ao balcão e quase encostou a arma  no rosto do comerciante, berrando com ainda maior veemência:

— Eu quero toda a grana que tem nesta merda! Não faz falcatrua com a gente, senão eu te furo, véio!

O comerciante, vendo a arma próxima a seu nariz, empurrou-a para o lado com a mão direita, com ar agastado e até calmo, como se estivesse acostumado àquilo. O garoto voltou rapidamente à posição inicial e deu-lhe um tiro, pegando rapidamente mais alguns reais na gaveta do caixa e sumindo com seu companheiro. Paulo levou o ferido em seu carro para o pronto-socorro. Fernando e Fernandinho filho foram no banco de trás; o silêncio deles, em oposição ao som da buzina de Paulo pedindo passagem e furando sinais, demonstrava que seria tudo inútil. Quando Paulo os procurou no espelho interno do carro, viu Fernandinho com lágrimas nos olhos, olhando pela janela. Seu pai não era visível, devia estar com a cabeça no colo do filho. A bala tinha entrado no pescoço de seu pai, sufocando-o. Após o médico confirmar a morte, Paulo foi para casa. Horas depois, indignado, deprimido e com o carro todo ensangüentado, foi depor na polícia.

Enquanto depunha, foi interrompido pelo policial.

— Acho melhor o Sr. não dizer que pode reconhecer o assassino. Aliás, acho melhor o Sr. ficar fora dessa.
— Por quê?
— Veja bem, os familiares da vítima já vieram aqui. Disseram que não viram quem matou o velho.
— O filho dele esteve aqui?
— Sim.
— Fernando?
— Sim, ele mesmo, com a mãe.
— Mas como? O filho estava junto! Ele viu!
— Meu amigo, eles vivem daquele comércio; os matadores moram no bairro. Se denunciam, os próximos serão eles, entende? O mesmo pode acontecer com o Sr., que vai trabalhar na escola ali perto. É uma temeridade se meter numa confusão dessas. Melhor não se apresentar como testemunha. É perigoso. A escolha é sua.
— E o trabalho de vocês?
— Nós mal temos gasolina para buscar os presuntos, que dirá para fazer investigações.

Paulo refletiu sobre o que o policial lhe dissera, pensou em sua família e perguntou:

— O que devo fazer então?
— O senhor não é o Batman e eu não sou da polícia de Los Angeles.
— …
— Se fosse o senhor, eu me retiraria agora enquanto eu rasgo esta folha. É para a sua própria segurança.

Dias depois, voltou à escola. No tecido cinza do banco de trás de seu carro ainda estavam as marcas deixadas por uma lavagem mal feita. O resto parecia limpo. Muito limpo, disse Paulo para si mesmo. À saída, Paulo hesitou entre voltar à ferragem para renovar o acordo, procurar outra ou deixar o assunto para depois, quando ouviu alguém lhe chamar.

— E daí, chefia? — Paulo tremeu ao reconhecer o sotaque do assassino.

Mas era outro garoto, muito menor.

— Não sai um ginásio de esportes aí pra nós?

Sorriu para o menino e respondeu:

— E o dinheiro?
— O governo tá sempre inaugurando algum ginásio poli-alguma-coisa-da-porra nos outros bairro…
— Bom, isso realmente não é comigo.
— E o que é contigo?
— Eu não sei o que é comigo.

História de Natal

Aos três anos de idade, Maria foi entregue ao Templo a fim de dedicar sua vida a Deus. Era uma das muitas meninas que lá executavam todo gênero de trabalhos, desde os manuais até os de limpeza; nas horas vagas, oravam e liam as Escrituras. Um dia, aos 13 anos, notou em suas roupas as manchas vermelhas que a impediriam de continuar. Tornara-se alguém passível de contaminar a pureza das outras virgens do Templo; então, foi posta à disposição dos homens. Acostumada a não decidir sobre seu destino, não ficara muito surpresa com a resolução que sorrateiramente seu corpo tomara.

Havia uma espécie de loteria da qual participavam os solteiros e viúvos que desejassem esposas e José ganhou Maria. José era um velho — caminhava com o auxílio de um cajado — e tinha outros filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Ele não necessitava de mulher a fim de satisfazer sua rara concupiscência, mas precisava de alguém que fizesse o trabalho diário de casa e para isso Maria servia. Tendo vivido no Templo, era certamente prendada. Porém, muito magra e amedrontada, não o motivava a nada, talvez nem a seus filhos. Seria fácil manterem distância de sua mulher. Após o casamento, José deixou Maria intocada e acabou por abandoná-la por quatro longos anos, pois fora chamado a um trabalho fora da Judéia, mais exatamente em sua Galiléia natal.

Enquanto isso, ela seguia realizando o trabalho doméstico para o qual fora treinada no Templo: alimentava os filhos do marido, lavava e costurava roupas, mantinha a casa em ordem e procurava não ficar íntima dos rapazes. Sabia que sua posição de “esposa” pressupunha uma postura estranha junto aos filhos de seu marido. Era mais jovem do que eles, então retraía-se, o que para ela, crassa tímida, era fácil. Suas horas mais felizes eram aquelas poucas que passava nas feiras, trazendo a matéria-prima para as refeições do dia seguinte e admirando as roupas e tecidos. Pensava ser pecado a vaidade, mas como resistir ao colorido deles? Perguntava repetidas vezes seus preços de alguns deles, esperando até que baixassem. Comprava bastante, pois a costura fazia parte de suas funções e os homens da casa frequentemente estragavam suas vestes na lida. Como não tinham muito dinheiro, ela pechinchava, perdia a timidez e tornava-se conhecida dos vendedores. Algumas vezes, fora advertida de que as roupas que fazia ganhavam detalhes insperados, femininos. Os rapazes riam daquelas manias de menina de Maria. Gostavam dela, era como uma irmã mais nova para eles.

Certo dia, um desses comerciantes a atraiu para sua casa a fim de que ela visse alguns tecidos, verdadeiras maravilhas à preços módicos. Maria, correspondendo a seus convites, passou a visitá-lo em sua casa. Repugnava-lhe a forma como ele um dia a tratou e tinha absoluta certeza de estar fazendo algo errado, mas tinha receio do que o comerciante poderia dizer na feira. O fato repetiu-se. Os filhos de José não se davam conta de que Maria passara a possuir provisões extras de tecidos, de comida e de quinquilharias para a casa e para si. O que lhes importava é que seus serviços permanecessem de acordo com suas necessidades e neste quesito Maria era impecável. Porém, ela tinha repetidos pesadelos em que era punida severamente por seu comportamento. Neles, sempre estava presente José e seus filhos, acusando-a de ser má esposa. Muitas vezes era assassinada; outras vezes, enfrentava tribunais nos quais o comerciante a culpava por seduzi-lo e acabava condenada aos piores suplícios. Na verdade, o que Maria desejava era ter José de volta. Fantasiava com um tratamento mais viril de sua parte. Afinal, com quase 16 anos, já era uma mulher.

O anúncio do retorno de José coincidiu com a interrupção de sua menstruação e com o arredondamento de suas formas. O bico de seus seios machucavam-se contra os tecidos novos de suas roupas, os vômitos tornaram-se frequentes e sua barriga começou a adquirir um inequívoco formado convexo. José retornou e impressionou-se com Maria. Ela tinha a sua altura e, contrariamente a quatro anos, falava, dava ordens em casa e era bonita. Naquela noite, José abraçou-a carinhosamente, de um modo que fez com ela se abandonasse a ele. Ele sentiu em si o bojo crescente no ventre de Maria e perguntou-lhe o que aquilo significava. Maria abraçou-se a ele e, chorando, contou-lhe que tivera um sonho em que um anjo lhe penetrara e que, pela manhã, estava suja de sangue. Disse-lhe que o filho era daquele anjo. Só podia.

José não era um cético, longe disto, mas resolveu perguntar a seu filho Tiago — logo a ele, depois autor de um evangelho apócrifo — sobre a conduta de Maria durante sua ausência. Este assegurou-lhe que Maria era uma boa e fiel esposa, que nunca faltara-lhes nada e que ela os tratava com amor e respeito. José estava confuso, sentia-se sozinho com sua dúvida. Preocupava-se com o que os outros iam dizer de uma gravidez tão imediata a seu retorno e proibiu Maria de sair de casa. Aquela seria a solução: ninguém a veria grávida, veriam apenas a criança depois de nascida e diriam que o parto fora abreviado, que a criança nascera antes, algo assim. No fundo, depois de tantos anos longe, José queria sua esposa e seu filho, precisava da convivência e da companhia deles. Além disto, havia outros motivos para preocupações.

Herodes havia mandado matar todas as crianças da Judéia e José estava preparando-se para esconder seu filho. Jesus nasceu e José decidiu partir novamente, desta vez levando sua família. Na estrada, pararam para descansar numa estrebaria fora de uso, colocando o bebê sobre uma manjedoura. Estavam famintos quando viram três homens cambaleantes se aproximando. Seus hálitos de vinho foram sentidos por Maria e pelos irmãos de Jesus à distância. Eram bons homens que, ao verem a dificuldade daquela família, ofereceram-lhes algum dinheiro, insenso e mirra. José ficou com o dinheiro — que resolveria seus problemas imediatos — e com o insenso. Gostou do trio. Devolveu-lhes a mirra por não saber do que se tratava. Quando perguntou quem eram, eles brincaram, afirmando serem reis magos. José riu, bebeu com eles de seu vinho e dormiu, sonhando com um grande futuro para seu filho. Viu-o embrulhado num manto, vestido como se fosse uma espécie de santo. Na manhã seguinte, seguiram para a Galiléia.

Adrem Atup e os fins da razão

Adrem Atup nasceu na Finlândia em 1958. Seu pai, Neila Atup, era um simpático hippie, um andarilho que se apaixonou pela paisagem de Parati do final dos anos 60 e lá decidiu permanecer. Sua mãe? Neila dizia que era uma holandesa, de nome Stella, que desaparecera. Em seus documentos só havia o nome do pai. Adrem aprendeu no Brasil o quarto idioma de sua vida nômade e então começou finalmente sua formação regular. Nunca antes tinha frequentado salas de aulas e, apesar de interessar-se muito mais pela educação cabal que recebia de seu pai e amigos, foi excelente aluno.

Nem ele nem papai Neila tinham vivências anteriores sob ditaduras militares, mas, mesmo naquela época, não era muito difícil viver para os obscuros pintores, artesãos, bichos-grilos e assemelhados da cidade histórica. A dupla finlandesa logo confirmou a suspeita de que todas as pessoas decentes eram contra aquilo. Conviviam com artistas de esquerda e comunistas que combatiam os militares discutindo política enquanto fumavam maconha, bebiam as maravilhosas cachaças da cidade e pintavam quadros rústicos. Estaria enganado quem imaginasse um bloco monolítico de oposição aos militares, pois eles dividiam-se em infinitesimais tendências, todas com princípios muito claros e impermeáveis a quaisquer influências que as pudessem macular. A inteligência de Adrem, tal como a de seu pai, nunca serviu para o entendimento da política; eram antes dois sonhadores que passavam o tempo conversando e repetindo quadros para os rarefeitos turistas que vinham à cidade naqueles anos. Um dia, Neila comprou a preço de banana uma casa caindo aos pedaços no atual Centro Histórico de Parati; ali, vendiam sua produção e a de outros artistas e artesãos, principalmente aquarelas representando a antiga igreja da cidade vista do litoral e pequenos quadros, cartões e broches revolucionários que ostentavam, o mais das vezes, a figura de Che Guevara.

Quando terminou o secundário num colégio público de Parati, Adrem prestou vestibular e passou facilmente em Artes Plásticas na USP. Lá, entranhou-se-lhe ainda mais a certeza de que todas as pessoas confiáveis eram de esquerda e, mais, atéias. Atéias como Sílvia, uma colega de seios fartos, pela qual se apaixonara enquanto a ouvia falar das milhares de reticências coloridas contidas em cada tela de Seurat e que o aconselhara a largar o mundo de mão, pois a apreensão possível a eles era a ontológica, não a sociológica. Adrem riu como se tivesse ouvido uma piada. Não sabia o que era ontológico, mas imaginava alguma relação com o câncer. Seguia observando vagamente a cena militar e política, o que lhe parecia ser a mesma coisa. Via os eventos e ações governamentais e registrava a presença, lado a lado, de autoridades militares e religiosas dando seu apoio ao governo. Sabia, pois, que aquelas instituições estavam juntas e continuava a ver o mundo como você lê estas palavras, da esquerda para a direita. Aliás, quem não era de esquerda tornava-se instantaneamente deplorável. O mundo, então, era de fácil interpretação, tão fácil quanto desenhar os seios arredondados de Sílvia e alguns faroestes: the good and the evil, os bons e os maus, os cronópios e os famas, os legais e os caretas, os da esquerda e os da direita, os intelectuais e os militares, a cultura e a religião, a luz e as trevas.

Então, nos anos 80, o mundo tornou-se mais complexo para o quase-apolítico Adrem. Foi uma enorme euforia e os dois grupos da época de ditadura espraiaram-se num complicado “espectro político”. A esquerda foi invadida pelos cristãos, alguns intelectuais foram para a direita e o mundo começou a dividir-se, segundo Adrem interpretou, em reformistas e continuístas. Tentou analisar o mundo da direita para a esquerda e via algo muito parecido. Apesar disso, permaneceu entrincheirado na sua vaga esquerda artística, humanista e solidária. A nova mania de ver o mundo sob outra ordem, deixou-o viciado em palíndromos, tendo composto alguns muito interessantes, tais como “Ame o Poema”, “Ata-nos, sonata” e “Metáfora, farofa tem”.

Como sói acontecer, o mundo seguiu dando seus giros e Adrem fez-se um respeitado artista gráfico trabalhando em uma agência de publicidade paulista. Casou-se com uma ex-militante comunista, dona de um sobrenome cheio de flores. Tiveram dois filhos. Então, um cristão, amigo seu, tomou a si a missão de convertê-lo. Como consequência, ocorreu algo muito natural: mesmo sendo Adrem um ocupado e bem pago artista gráfico, mesmo e apesar disso, ele passou a reservar parte de seu tempo para trabalhar voluntariamente junto a uma associação de caridade que, como sói acontecer, repito, era ligada a uma instituição religiosa. Dava aulas de matemática para alunos de cursos profissionalizantes. Aquela atividade sem objetivos de lucro tornou-se uma necessidade para ele. Tinha, deste modo, contatos semanais com pessoas que achavam incompreensível que alguém tão ético, humano e solidário não fosse cristão, e que falavam a palavra “ateu” como se pronunciassem uma palavra feia, daquelas que as crianças evitam usar perto dos pais. Ele achava engraçado e não pensava muito no assunto. Um dia, bebendo com o amigo crente após as aulas, este brincou que lhe pediria uma oração no próximo almoço com os padres da escola. Adrem imediatamente ergueu-se e disse:

— Ó Pai, que estás nos céus, colocado lá pela fraqueza, medo, culpa e imaginação de alguns, feito à nossa imagem e portador de nossos defeitos, olha por nós, pobres pecadores, que não usamos teu nome para nada e que vivemos pelo mundo como cães sem dono. Permite que os cães com dono não nos mordam – aqui olhou para o amigo — e que as boas intenções e desespero enviados diariamente por eles a ti, retornem na forma de grandes chuvas de bênçãos e não como tens feito ultimamente. Que a beleza da tua figura, formada em cada poro e célula por nosso afeto a nós mesmos e nosso horror ao vazio, possa espalhar-se pelo mundo e transformar-se em vales de onde jorrarão o leite e o mel necessários a nutrir teu povo…

Ele seguiu dando aulas e ouvindo Chico Buarque; o amigo desistiu da conversão. Comentou sobre isso com sua mulher que, sendo uma intelectual muito culta politicamente, citou-lhe um monte de autores, com a finalidade de explicar-lhe o que estava acontecendo com o mundo — coisas que ouvia desatento.

Numa bela manhã de novembro, ela pediu a separação. Deprimido, Adrem despojou-se de todo seu pequeno patrimônio. Surpreendeu-se com a voracidade que a ex-comunista revelou ao procurar assenhorar-se de tudo o que fosse possível, no que ele cedeu. Com a mesma sem-cerimônia com que aplicava botox, ela procurava cristalizar para si tudo o que pudesse passar perto de ter algum valor monetário. Em contrapartida, o desinteresse de Adrem sobre seu futuro era completo. Após a separação, ela passou a provocar contatos mais longos somente se quisesse examinar mais de perto a possibilidade de ele pagar um pouco mais para ela e os filhos.

O amigo cristão procurava não intervir, apenas contava-lhe histórias sobre São Francisco de Assis… Sem dúvida, o mundo ficara ainda mais complexo. Havia cristãos amigos procurando salvar-lhe a alma, falando-lhe em conversão e emocionando-o com histórias de despojamento e perdão de São Francisco de Assis – mesmo que Adrem dissesse que não havia perdão nenhum envolvido em sua separação; havia ex-comunistas que podiam ministrar cursos de como ser pragmático, focado e açambarcante num cesto de ofídios; havia um governo de esquerda em quase tudo semelhante ao anterior e havia alguém que girava a uma velocidade inferior à do mundo e que permanecia quieto, observando tudo passivamente, não aderindo a nada e com um pouco de medo.

Nessa época, Adrem voltou a Parati para ver Neila. Passaria o fim de semana com o pai. O sotaque e a cara de estrangeiro ficavam bem a um dono de pousada; o inadequado era o empréstimo que seu pai tirara para tornar seu antigo casarão suficientemente confortável aos turistas. Afinal, nem todo mundo odeia TV, nem todo mundo gosta de austeridade e sujeira, muito menos o banco, que prefere ver seus clientes devolverem seus empréstimos de forma copiosa a cada mês. Adrem apenas conseguiu retornar a São Paulo na quarta-feira. Conversou com o banco, refinanciou os débitos, pagou alguma coisa. Um mês depois, voltou para conferir se tudo estava direito; estava; mais duas semanas e ele regressou interferindo na forma de atendimento da pousada, na organização de tudo, o diabo; cada vez vinha mais frequentemente a Parati. O pai concordava com tudo, era como se estivesse passando toda a responsabilidade ao filho, desde a compra das coisas para o café da manhã dos hóspedes até as questões financeiras.

E estava. Um dia, Adrem veio de mudança. Pai e filho seguiram como sempre conversando muito, agora fazendo planos de abrir um alambique. O nome da cachaça deveria derivar do nome do filho, imagina se não.

Obs. 1: Este é um conto antigo e algo raivoso que fora publicado no blog anterior.
Obs. 2: Os palíndromos são de autoria de César Miranda.
Obs. 3: Vi que tem muitos comentários e que já tinha sido publicado no OPS. Por que então estava como “Pending Review”? Sei lá.

Tô nervoso, porra

Vocês sabem como é, né? Não, vocês não sabem. O fato é que eu estou aqui aguardando a audiência e deveria estar na concentração para o jogo contra o Corinthians. O professor Tite me olhou no olho e me liberou meio que no bom coração. Mas me mandou voltar logo. Já está na hora, passou das 14h e o juiz não chamou. Tudo por causa daquele maldito processo de reconhecimento de paternidade que o gordo ali quis fazer quando todos sabem que a Nanda é minha filha.

Indagorinha mesmo, um débil mental me reconheceu e veio falar comigo. Queria saber se eu ia jogar, o que estava fazendo no Fórum, etc. Me deu vontade de responder que tinha vindo comprar pão. As pessoas acham que mandam na vida da gente. Todos acham isso. Ele me disse que era advogado, sócio do Inter, e, depois de me perguntar e reperguntar se eu estava bem para o jogo, me contou que o nome Corinthians veio da tradução inglesa do título de uma das epístolas (ou algo parecido) do apóstolo Paulo, que assim chamava os habitantes da cidade de Corinto, na Grécia, onde joga o Rivaldo. Ele terminou falando que Corinthians era como Maicosuel ou Uélinton — essa parte eu não entendi. Eu — bah! — estava interessadíssimo, só pensando se o Ronaldinho sabia que o nome de seu time era meio grego e ridículo… Com a graça de Deus o advogado chato sumiu e pude observar meus adversários.

Caralho, por que a Lúcia era tão puta? O primeiro que apareceu depois de mim era um magrão que eu não conhecia. Tinha cara de bom moço endinheirado. Vinha do shopping saber se tinha uma filha ou não. Calça de brim novíssima, tênis de atleta olímpico de alto rendimento, um blusão branco com o nome da loja estampado enorme e uns óculos caros e ridículos. Não era muito másculo, mas impressionava pelo investimento no visual, muito parecido com o da maioria dos jogadores. Acho que só pegaria a Lúcia se a bolinha viesse picando. Ah, Lúcia, meu amor, tão vadia. Abri o processo para descobrir o nome da figura: Juliano Martins. Esse não queria a Nanda, dizia desde o começo que teve “sexo casual” com minha mulher. Ela confirmou, mas fiquei na dúvida quando uma mulher mais velha, certamente sua mãe, chegou ao lado dele olhou para todos os lados e falou meio alto:

– Ué, a Lúcia não veio?

Melhor deixar para lá. O problema é o gordo, chamado Luís Fernando Antunes. Ele diz que a Nandinha é a cara dele e quer a guarda compartilhada. Na boa, é um cara muito mal-humorado e está puto com a situação. Na ação, disse que pagou a prótese de silicone da Lúcia, uma lipoescultura e alguns acertos no nariz que me fazem pensar em acertar o dele. Parece que tem testemunhas. Eu queria era levantar o beiço dele e bater só na gengiva. Ele é tão parecido com a Nanda quanto o Michael Jackson de qualquer fase. Se financiou as loucuras de Lúcia, se a deixou mais tesuda ainda, que fique sabendo que quem come a mulher e cria a filha sou eu. Nosso advogado me explicou a coisa assim: o gordinho seria uma espécie de “corno duplo”. É um fodido mesmo.

E eu estou aqui, nervoso. Amo a Nanda tanto quanto a Lu, vocês não imaginam. Tudo o que eu faço é para elas. Quando vim para o Inter, só pensava no carro absurdo que ia comprar. A primeira coisa que me preocupou no clube foi aquela lombada que tinha lá na Av. Beira-Rio. Como é que eu ia sair de lá na minha nave a toda a velocidade com aquela porra logo ali na saída? Desisti do carro esporte e comprei uma caminhonete que nem a do Guiñazu e mandei um troco para a família. Não sabia ainda o que me rondava.

Vi a Lúcia numa praça de alimentação. Ela estava com uma amiga. Estava linda num vestido rosa decotado. Achei que tinha direito àquilo. A sacana me sorriu de longe e eu, olha, eu nem sorri, acho que gargalhei, tal era o monumento que me dava bola. Para chegar foi fácil, a amiga dela sumiu e ela ficou me esperando. Enrolei uns dois minutos e levantei. Ela logo foi me dando lugar. A primeira coisa que me deixou maluco era que a beldade loira sabia tudo de futebol e era colorada. Tudo a ver comigo. É simplesmente inacreditável que ela tenha dado trela praquele gordo. O magrão, tudo bem, anda na moda, é bonitinho, coisa e tal, mas aquele balofo não tem nada a ver. Deixa eu ver aqui no processo: É “empresário”, o magrão é “estudante”. Vão se foder!

Aí começaram as viagens e eu acho que virei titular só pensando no que estaria fazendo a Lúcia. Nunca paro de ter ciúmes dela. Depois que a conheci, passei a treinar como o Guiña, só de ódio, pensando no que a Lu não aprontaria enquanto eu estivesse quarando na concentração. Ela gosta muito da coisa; se um dia ela enfiasse a língua numa tomada lá de casa, estouraria a rede elétrica do condomínio inteiro; se põe os olhos em alguém, é pau duro na hora. Tem que ter preparo para ela. E me aparece aquela figura roliça para me encher o saco… Como é que ela não desmontou ele? Pois montar é com ela mesmo, e aí a gente fica olhando aquela coisa perfeita em cima da gente e é uma desgraça. E, nos outros momentos, tem a Nanda, a minha queridinha. Ela é quem faz questão de ir aos jogos me ver. Ela é que se apavora quando eu caio. Ela foi a homenageada quando fiz meu primeiro gol depois de mais de trinta partidas como titular. Minha função não é a de fazer gols, mas me pifaram, fiz um e apontei para ela nas cadeiras. Sei onde elas sentam.

Até o mês passado, tudo era maravilhoso. Ganhávamos de todo mundo, aí o professor inventou de “poupar” jogadores. Eu não quero nem saber, gosto e preciso de dinheiro e por mim jogava todas. Mas o negócio de treinar mais e jogar menos acabou desentrosando o time, que hoje perde para todo mundo. Ganhamos domingo, mas eu não estava jogando. Olha, nem sei se a Lu e a Nanda devem ir amanhã. O jogo tem tudo para ser arrastado, com os corintianos fazendo o tempo passar e com a merda do Ronaldinho só esperando uma chance. Tô nervoso com o jogo, claro, e tô nervoso com o processo. Aliás, já pensou se amanhã a Nanda fosse ao jogo com o roliço? Ah, eu dava um soco naquele Elias. E se o cara for gremista e ficasse se empanturrando com ela na frente da TV, dando risada da nossa cara? E a Nanda? Não vai ser ouvida só porque tem 3 anos, caralho? Ela me adora e eu adoro ela!

Putz, eu tenho que voltar para a concentração. O professor vai me matar. Ainda bem que ele viu que isso é importante e sabe como eu sou com a Nandinha. O que a Lu viu naquele saco de gordura? A conta bancária? E a Nanda, o que acharia dele? Criança é volúvel e ela é filha da Lúcia, que parece gostar de todo mundo. Naquele dia do shopping, ela deixou o carro dela no estacionamento e fomos na minha caminhonete para o motel. Ela é louca mesmo. Vi que tinha ficado impressionada com minha BMW preta. Foi uma tarde e tanto. Vi estrelas naquela cama e mais ainda na banheira de hidromassagem. Numa hora, Lúcia ficou em pé para sair e vi seu corpo perfeito e molhado, com todas as curvas aumentadas e refletidas pela luz do quarto. Uma corpo daqueles escraviza o homem. Será que não vão considerar que amo a Nanda e sou tão ciumento dela quanto da mãe? Daria tudo para que ela fosse filha do magrão babaca, o filhinho da mamãe.

Era o destino, já no primeiro dia enquanto a via sair da banheira de hidromassagem, notei uma pequena barriguinha. A Nandinha já estava ali, com os choros e risadas que conheci depois. Conheci as duas juntas no mesmo dia, entende? Ela simplesmente não tem nada a ver com aquele babaca gordo tipo Ronaldinho.

Mas estão nos chamando para dar o resultado do exame.