O Monólogo Amoroso (XV)

Se duas pessoas se amam, não pode haver final feliz.

ERNEST HEMINGWAY

Nina fica sabendo que irá para casa no dia seguinte. Bem humorada, pergunta se suas dores foram avisadas da transferência e ouve sua filha dizer que haverá três enfermeiras revezando-se para cuidá-la e lhe ministrar as medicações. “Será como aqui, mãe”, diz ela. Nina não deseja maiores informações. Depois, Ana explica cuidadosamente que gostaria de organizar uma pequena festa de aniversário para a mãe. Nina concorda com um rápido sorriso logo substituído por um conhecido esgar de contragosto, que significa: “Preferia não comemorar, mas, já que fazes questão… me submeto”. A reação deixa a filha aliviada e risonha. “Não esqueça de convidar meus médicos e enfermeiros”, recomenda a mãe. A filha ri e começa a falar sobre como são afetuosas e maternais as três enfermeiras e o trabalho que passou para escolhê-las. Nina pensa que conviver com um monte de mulheres maternais será bem chato, porém não tanto quanto o hospital com seus horários malucos de refeições e sua cautelosa gastronomia. Após a saída de Ana, ela olha pela janela e retoma o monólogo.

Para minha sorte, o Estudantil foi só da primeira vez. Depois, eu e Antônio passamos a ir sempre a motéis. Melhor. A cada sexta-feira, ele me perguntava educadamente se eu tinha algum compromisso. Raramente tinha e então ele vinha me buscar em casa. Nos sábados, era o mesmo. Tornou-se rotineiro. A única repercussão destes encontros veio de Raul que, certa vez, ao vir te buscar, resolveu dizer na tua frente que eu não ficava muito tempo sozinha. Não respondi.

Apesar de nunca falar nisso, as acusações de Raul me incomodavam. Eu pensava que a insistência dele em me qualificar como vadia talvez tivesse um fundo de verdade. Me preocupava e costumava “me examinar” do ponto de vista moral. Afinal, todas as comoções que sofria pareciam ser determinadas exclusivamente pelo desejo. Primeiro, Ricardo; segundo, a consequência de sua ausência: Raul; e agora, novamente Ricardo e Antônio. Não tinha crises, mas as palavras vadia e puta me ofendiam especialmente.

Naquela época, procurei finalmente ganhar algum dinheiro e comecei a fazer revisões de textos de trabalhos e teses; depois, porque estava decidida a me sustentar, estendi minhas aulas a qualquer disciplina do ensino básico. Aos poucos, minha casa transformou-se num entra e sai de crianças e universitários, além de mestrandos e doutorandos. O pior eram as teses, que deixava para revisar quando tu estavas com teu pai. Era necessária muita paciência e concentração. Quando eram ruins, o que era a regra, os problemas começavam na dedicatória e seguiam por todo o texto. A chateação começava pela dedicatória: depois de sempre citar uma centena de pessoas a quem se sentiam gratas – professores, todos os familiares, vivos e mortos, os animais de estimação –, os autores terminavam mais ou menos assim: “Foram tantos mais os que me deram do que aqueles que receberam! Eis o fruto do esforço e da dedicação que tenho recebido de vocês”. Um saco. O fruto era enjoativo, mal e mal expressava-se, tanto que dava vontade de devolvê-lo para ser reescrito. Só que aquilo dava um bom dinheiro. Então, eu telefonava para o autor e perguntava humildemente se ele não estaria tentando expressar o seguinte: “Todos vocês me deram muito mais do que receberam”, frase menor, mais elegante e que deixaria a dedicatória mais realista, pois o mundo não é dividido entre doadores e receptores. Às vezes, eles nem entendiam seus erros ou inconsistências. Lembro que a maioria dos mortos homenageados eram pais, raramente mães, o que só demonstra que meu câncer é uma exceção. Divertia-me mais com as crianças, apesar dos adultos pagarem mais. É incrível a energia que temos aos vinte e poucos anos. Eu não descuidava da faculdade nem de ti, estudava, brincava contigo, passava instruções à babá, dava aulas – às vezes fora de casa -, fazia revisões com prazos apertados, lia, ia ao cinema e saía à noite. Não pedia mais dinheiro a meus pais, o que gerou mais respeito em casa. E, penso, distância. Eles não ousavam mais se imiscuir gratuitamente em meus assuntos. Minha periclitante independência financeira me protegia.

E Antônio era minha companhia fora de casa. Difícil imaginar alguém mais disponível. Nossos encontros costumavam obedecer ao seguinte esquema: eu escolhia um filme, dizia o horário a partir do qual estava livre e ele decidia todo o resto. Não era apaixonado por mim ou ao menos não me demandava mais tempo, nem ser apresentado à família, essas coisas. Durante a semana mal falávamos, voltávamos a ser amigos. Tenho certeza de que eu necessitava mais dele do que ele de mim. Não tínhamos conversas íntimas especialmente carinhosas, mas íamos adiante; brincávamos um com o outro dizendo que o balcão de reclamações e desistências estava aberto 24 horas; comentávamos a respeito dos (e das) colegas com quem gostaríamos de sair, mas permanecíamos juntos. Ele morava com os pais. Não imaginava quanto ele ganhava como professor auxiliar da universidade, mas tenho certeza que grande parte de seu salário era desviado para pagar motéis, bares e discos de jazz. Conhecíamos quase todos os motéis de Porto Alegre e as noites do fim de semana costumavam terminar tarde, muito tarde. Se eu tinha trabalho, estudo, revisão ou compromisso contigo, tudo bem, Antônio ia fazer sei lá o quê; se eu estava disponível, Antônio estaria comigo. Não me fazia nenhuma exigência, não parecia ter vontades incondicionais de ver um filme, ler um livro ou conhecer algo ou alguém; seu único desejo autêntico era o de ouvir e ler tudo o que fosse relacionado a Charlie Mingus. Via uma comédia e achava legal, via Blow-up e achava a mesma coisa, não entabulava conversas sobre assuntos delicados, nem em sonho desejava “discutir a relação”, mas estava sempre a meu dispor. Por outro lado, fazia questão de escolher o restaurante ou bar onde iríamos após o filme — se eu pudesse ficar até um pouco mais tarde, é claro, pois ele sempre consultava a ocupada mamãe –, e invariavelmente dirigia seu carro a um motel — se eu pudesse ficar até bem mais tarde, é claro — após o bar. Lembro de ter desistido da programação padrão antes de ir ao bar, às vezes estava com trabalhos pendentes, mas nunca abri mão exclusivamente da última parte do programa. Aliás, após a adolescência, nunca nenhum achaque ou dor de cabeça foi suficiente para que eu evitasse dormir com alguém; quando começo a beijar, toda e qualquer dor some, talvez mesmo agora sumisse… Veja bem, Ana, a utilidade de organizar meus pensamentos nesta fita: acabo de descobrir que talvez trocássemos disponibilidades, o que era certamente um bom negócio. Ele era pouca coisa mais alto do que eu, usávamos as mesmas calças de brim, frequentemente os mesmos tênis, éramos magros e até parecidos fisicamente; ele amava seu Mingus — um brilhante compositor erudito que gostava de jazz, segundo suas palavras –, e eu meu Bach; eu com vinte anos, ele com vinte e sete. Sim, ele era um doce de pessoa.

Uma vez, ao encontrá-lo na porta de um cinema, depois de ter avançado na leitura de O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, dei-lhe um susto:

— Antônio, tu és meu amor por mim mesma. Sempre me faltou consideração por mim e agora, por um engano qualquer, ele se corporificou em ti, em vez de estar em mim. Me reconcilio comigo através de ti.

Ele me olhou surpreso. Porém, apesar de saber que aquele tipo de expansão estava na direção oposta de nosso habitual, segui em frente:

— Não tenho uma boa relação comigo mesma, o que aparentemente a maioria das pessoas têm naturalmente. Sempre cultivei relações falsas com meus namorados. Eram ilustrações de caprichos meus, fazia caricaturas deles. No fundo, sempre me relacionei com homens que não amava ou que iam me abandonar.
— Distrações temporárias? — perguntou ele.
— Sim e não, quem sabe representações da opinião que tenho de mim — respondi e ele seguiu a conversa.
— Então eu sou tua última distração? Uma distração que carrega teu amor por ti? É loucura. Quero ir agora ao balcão de desistências.

Lembre-se, Nina, nada de conversas sérias. E repliquei:

— Por quê? Nada disso, é que somos parecidos, temos o mesmo fenótipo, gostamos de nos vestir igual e eu me enxergo em ti e me gosto um pouquinho em ti. E talvez tu te gostes em mim, sei lá.

— Isto faria de nós irmãos siameses?

— Por que siameses? O que têm os gatos ou o Sião a ver com esta merda?

— Xipófagos… ou xifópagos? Nunca sei o certo — perguntou Antônio.

— É xifópagos. Mas isto é horrível. Esqueça — encerrei o assunto, rindo.

E assim íamos. Tinha a impressão de que meu sucesso junto ao público masculino era até crescente, mas jamais considerei a possibilidade de trair Antônio. Estava tranqüila, não havia tensões, tínhamos muitos amigos, foi uma época feliz.

Eu me formei e imediatamente ingressei num mestrado com a intenção de depois tentar um concurso para a universidade. Era muito agradável tratar com crianças, mas lucraria mais se um dia orientasse aquelas teses bestas. Antônio me auxiliou muito, falou com as pessoas certas. Os concursos, naquela altura do final dos anos 60 e início dos 70, sob a ditadura militar, eram uma extensão da corrupção do país. Entrava no serviço público quem conseguisse fazer com que os “canais competentes” se abrissem. Eu não tinha a mínima idéia de quem pudesse fazê-lo, mas Antônio parecia saber de tudo. Durante meu tempo de mestranda, Antônio falou de meus planos para o Prof. Roberto Simões. Ele fez algumas ligações para Brasília, criou uma necessidade, a vaga, apresentou a candidata (eu, claro) e obteve a aceitação. Serviço completo. Fui contratada. Aquilo foi surpreendente. Roberto, que logo se tornaria diretor do Departamento de Letras da universidade e que subiria como um foguete no organograma da Universidade, parecia ter o toque de Midas no trato burocrático. Pouco falou comigo, apenas ajudou, advertiu-me para não me meter em assuntos políticos, nem chegar perto de manifestações estudantis. “Afinal, todos precisamos de emprego”, completou. Não tive prurido moral algum, não queria saber de nada. Entrar na universidade, mesmo como contratada, era tudo que eu queria; significava alguma estabilidade, um salário fixo – coisa que nunca vira — depositado no fim do mês e eu, no papel de mãe solteira necessitada, aceitei tudo com a maior cara-de-pau. Porém, mesmo que não fosse uma ativista — minhas manifestações, como as de quase todos, limitavam-se a meu círculo de amigos –, era contra a ditadura e todas as pessoas que admirava eram de esquerda e ateias. Ou seja, preferi desconhecer a certeza de que estava traindo alguma coisa. O estranho é que lembrava do Prof. Roberto Simões referindo-se de forma muito pouco laudatória aos militares, ao mesmo tempo que ganhava cargos e importância… E por que me ajudou? Por que simpatizava comigo ou com Antônio? Por que sabia que eu ficaria gratíssima? Seria uma troca? E por que era fácil para ele fazer aquilo? Sei lá. O fato é que assenti à sua advertência e acabei por aceitar agradecida. Profilaticamente, não comentei com ninguém a forma como obtive a vaga e esperava mais do que tudo que não fosse necessário nada além do que ter um pouco de cuidado ao externar opiniões na universidade de que tanto gostava. E também publicamente. Logo fiquei sabendo que Antônio, que não poderia ser chamado de reacionário, também era uma invenção do Prof. Roberto.

Foi com a convicção de não merecer meu cargo, vestindo roupas mais formais a fim de parecer mais velha e competente; com a necessidade de escolher cuidadosamente as palavras, comecei a ensinar literatura.

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O Monólogo Amoroso (XIV)

O médico informa a Nina sobre sua liberação do hospital nos próximos dias. Ela pensa que aquilo só pode ser resultado de um pedido de Ana. Afinal, o dia de seu aniversário está próximo e é provável que a filha deseje ver a mãe passá-lo em casa. Meu último aniversário, ela diz para si mesma. Não pergunta sobre o significado daquela “alta”, nem quando acontecerá. Permanece longamente em silêncio; depois, pega o gravador, deita-se de lado como lhe foi aconselhado e continua sua história para Ana.

Continuando… Bem, se eu vivia sob alguma oposição em casa, era muito feliz na universidade. Ana, tu conheces Brueghel, não? Há um quadro chamado A Batalha entre o Carnaval e a Quaresma. Não é bem uma batalha, é antes o encontro de dois grupos, um alegre e bizarro, o outro contrito. Mas o autor não parece simplesmente aprovar a felicidade do primeiro grupo – há até alguns estropiados e pedintes que são ignorados pelos “carnavalescos” -, nem desaprovar a contenção religiosa do segundo. É uma pintura curiosa e eu, naquela época, pensava viver a Quaresma em casa e o Carnaval no Instituto de Letras. Talvez a analogia não fosse feliz porque não é razoável considerar minha relação contigo como parte da Quaresma, mas, enfim, está dito. Obviamente, eu não tinha muito jeito para a contrição e a castidade e fui cada vez mais me aproximando e permanecendo preferencialmente com o grupo carnavalesco.

As caronas de meu professor preferido tornaram-se frequentes — eu o aguardava ou ele a mim e quando algum motivo o impedia de me levar, era avisada com antecedência e vice-versa –, assim como os encontros e idas aos bares com os colegas. Se as caronas significavam uma amizade de natureza um pouco dúbia, os encontros em bares acabaram ganhando grande importância. Sair à noite, beber e rir era uma novidade para mim. Nossa vida quieta em casa era afetuosa e sem incômodos, tu retribuías minha dedicação com sorrisos e amor; porém a ruidosa vida da rua prometia, finalmente, fatos novos. Tratei de manter a Quaresma organizada e emiti repetidos sinais de que precisaria passar mais tempo na universidade. Também providenciei comentários para as caronas que ganhava. O atraente professor Roberto, que depois soube ter vinte anos a mais do que eu, tornou-se “o velho que mora aqui perto e me traz em casa”. Ele morava do outro lado da cidade. Por uma questão profilática, também não fazia questão de ser visitada pelos amigos da faculdade; diferentemente (ou não) do quadro de Brueghel, achava que poderia ser perigosa a introdução do mundo carnavalesco na circunspeção de casa. Os pontos de interseção entre os dois mundos poderiam tornar-se problemas a serem administrados e o máximo de aproximação que admitia era o carro tcheco do professor na frente do edifício. Várias vezes ele brincou que acabaria apanhando do marido ou de um namoradinho nervoso. Nunca respondi se este era ou não um risco real, preferia fazer a mulher misteriosa. Na verdade, acho que inconscientemente criei uma personagem de ficção para meu professor: uma jovem madura, discreta, elegante e delicada (puf!) destinada inexoravelmente a tornar-se uma mulher inteligente, sedutora, culta e ativa (puf!). Investia na personagem em cada contato e é provável que meu objetivo fosse apenas o de satisfazer minha vaidade, pois não projetava o caminho que me levaria a ter um caso com ele. Pensava que ter uma aventura com um homem casado àquela altura seria como me drogar na tua frente ou virar alcoólatra. Seria muito bom tê-lo, mas pouco inteligente. E eu já tinha uma visão prática o suficiente para não considerar novos conflitos como “produtivos”. Claro que havia a atração física e como! Porém, por impressões difíceis de explicar, tinha certeza que ele não tomaria a iniciativa. Talvez minha presença servisse a ele de forma análoga, isto é, talvez eu servisse para satisfazer sua vaidade e estávamos empatados. Era bom ser alvo de suas atenções e retribuir me deixava feliz.

Então, é claro, ele fez jus a nosso jogo sem consequências e, num desses dias de carona, falou que estava com pressa porque precisava comprar um presente para o aniversário de seu cunhado. Naquela noite haveria a festa e Isabel tinha-lhe passado a incumbência. Isabel? Pela maneira como tinha sido citada, sem maiores explicações, era inequívoco: tratava-se de sua mulher. Ele dispunha de pouco tempo para comprá-lo. Fingi não dar importância à novidade e até tentei auxiliá-lo: perguntei que idade tinha o cunhado, do que gostava, quais eram seus interesses, grau de intimidade, etc. Mas saí do carro decepcionada, pensando que era uma imbecil. Tinha recebido, em minha opinião, a confirmação de que seríamos “apenas bons amigos”.

Nada grave, apesar de lembrar que Roberto tinha escancarado seu interesse por mim e eu por ele. Ou não? Eu o evitei? Ou ele era um medroso, apenas se regozijando em travar um joguinho de sedução com uma aluna mais jovem? Ou desinteressou-se subitamente?

Mas não foi nada grave, já disse, e decidi que me adaptaria ao papel de aluna e amiga meio-solteira do professor casado. Passados alguns dias, ele me convidou para um jantar em sua casa, onde estariam presentes Isabel e uns poucos amigos. Fui apresentada a Isabel como uma “brilhante” aluna do curso de Letras e, é claro, fiquei me comparando com ela. Minha maldade fez com que eu não me impressionasse nada. Era alta, sorridente, usava roupas caras — logo achei que fosse de família rica –, tinha trinta e poucos anos, estava em boa forma e só. Tratou-me muito bem. Eu estava bastante contrariada porque Isabel e Roberto eram muito carinhosos um com o outro, trocavam carícias, beijinhos e até fizeram um brinde particular depois de servido o vinho, como se estivessem numa festinha íntima com a libido a mil. OK, estava enciumada, mas, em torno da mesa, já indulgente pelo efeito do vinho e refletindo sobre meus fracos direitos sobre o mestre, pouco a pouco entrava na conversa e sentia-me ironicamente agradecida a meu ex-futuro amante pelo convite. Era um grupo de pessoas muito interessante e eu fora distinguida por ele para estar ali. Era a única estudante presente, a pessoa mais jovem, a mais inexperiente, a que precisou explicar que não era parente nem de Roberto, nem de Isabel, que era uma simples… estudante de graduação. Roberto respondeu que eu não era uma simples aluna, que eu era “a aluna”, alguém muito capaz, com luz própria – lugar comum roubado ao futebol – e, além de tudo – olhem bem para ela! –, muito bonita. Estava comovida, sentindo como me acolhiam e matutando, com álcool, que adoraria me integrar a um grupo assim. Isabel permanecia tranqüila e sorridente, sem demonstrar nenhum ciúme ou hostilidade. Comecei a simpatizar com ela. Depois de dois cálices, talvez simpatizasse com Hitler. Não, a comparação é injusta, sou amiga de Isabel, gosto dela.

Acabei me integrando mais rapidamente do que esperava… Como estava meio alta, um professor amigo do casal ofereceu-se para levar-me em casa. Só que no meio do caminho, ele me convidou para ir ao Alaska, onde bebemos algumas batidas de coco – eram chamadas de coquinhos – e depois ainda fomos ao Estudantil, um antro frequentado por menos intelectuais e que tinha um garçom chamado Ataliba e dois ambientes: o da frente, iluminado e com mesas, e o de trás, que era escuro e destinado às atividades sexuais. Do amasso ao coito, podia tudo. Foi interessante.

Nina desliga o gravador.

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O Monólogo Amoroso (XIII)

Após uma noite de paranoia e preocupação, em que temeu algumas maquinações dos médicos e de sua filha, Nina recebeu os calmantes prescritos e continuou o monólogo.

O retorno à vida normal não foi nada fácil. Era como ter saído de uma piscina num dia quentíssimo para enfrentar uma longa caminhada. Porto Alegre é uma cidade insuportável no verão e neste período deveria alterar seu nome para Forno Alegre. Minha paciência encurtava na medida em que considerava os dias de convivência amorosa, pacífica e interessante que tivera e vislumbrava como seriam os seguintes. Em nossa despedida não houve promessa alguma; a vida deveria correr livremente então. E havia outro modo? Certamente não, mas ficava incomodada com a indeterminação, sei lá. Estava decidida a cumprir o que tinha planejado fazer e, antes que o verdugo da rotina me hipnotizasse, disse para minha mãe, em voz um tanto histérica, que desejava deixar as coisas claras para mim e para todos – parentes e amigos. Queria a separação. De enfiada, pedi para continuar morando em meu quarto contigo. Ela me pediu calma, o que significava “Olha, filha, vamos varrer esta sujeira para baixo do tapete e aguardar”. Era óbvio que o paradoxo da mãe solteira porém casada lhe agradava. Meu pai, sempre ausente e ao sabor dos ventos, desta vez entrou na discussão: insistiu para que eu desse uma chance para o rapaz; afinal, Raul era um bom menino. A mim, os dois pareciam doidos varridos; ainda contavam que acabaríamos formando uma harmoniosa família a três… Resolvi então falar com Raul.

Anunciei-lhe que queria me separar oficialmente. E logo. Mas uma separação não é simples. Ou melhor, acho que até poderia ser se eu fosse direto a um advogado, sem muita conversa. Porém, alguns casais primeiro tentam enfiar seu inferno pessoal um na cabeça do outro, precisam tornar impossível o entendimento para então poder encher a boca e declarar: não dá mais, é insustentável! Ele ouviu, deu meia volta e sumiu. Dias depois, voltou, disse que me amava mas que eu nunca lhe dera uma chance real, que tínhamos uma filha e que eu deveria ser responsável e pensar no teu futuro. Quando ouvi aquilo, parecia que ia ter uma convulsão, tal o ódio de que fui tomada. Passei a gritar, será que o menininho despreparado e silencioso, que morava na casa da mãe após minha negativa de ir para um apartamento com ele, o surdo-mudo que evitava falava sobre a relação paupérrima que tínhamos, que evitava inclusive a relação, agora estava pronto a mudar de vida? Éramos uns namoradinhos que tinham gerado uma criança e ele se escondera na hora de resolver o problema e mais ainda quando tu nascente, quando passou a ser um objeto figurativo enquanto eu cuidava de ti e estudava. Estava transtornada e disse, claro, verdades e injustiças. Acusei-o de não fazer absolutamente nada, de nunca me ajudar e de passar o tempo maquinando coisas com sua mãe. Ele respondia no mesmo tom: ele sustentava uma prostituta que tinha sua filha como refém, eu o ignorava, eu o expulsava da casa em que sua filha morava, ele estava trabalhando ao passo que eu ficava em casa fazendo coisa nenhuma, indo para a rua procurar homens, eu usava os serviços de uma babá inútil e explorava a ele e a minha família fazendo um curso para mulheres desocupadas, uma faculdade de espera-marido, etc.

Enfim, quase conseguimos. Tanto fizemos que quase tornamos impossível qualquer diálogo. Eu não sei, não sei mesmo quem tinha razão e nem se interessava saber. Não sei o dia nem a hora em que deixamos de conversar para viver cada um sua vida com uma criança entre nós. Ele entrava em nossa casa, brincava contigo – tu adoravas o papai – e ia embora. É, acho que nunca dei-lhe uma chance, mas ele também nunca se impôs, sempre foi omisso e obediente. E cometi mais um erro. Propus dar um tempo… Pouco depois, voltei ao assunto.

E tudo recomeçou. Raul passou a falar comigo duas ou três vezes por dia, fazendo os mais incríveis pedidos e promessas. Eram súplicas que me deixavam acabrunhada. Eu era ora má, ora a mulher com que ele sempre sonhou, ora excelente mãe, ou péssima, era linda e inteligente, mas também burra e pretensiosa, um martírio. Eu nunca sabia que versão de Raul encontraria, ele mais parecia uma fila inteira de suplicantes e… Procurei mais um adiamento, cuidando para que tu ficasses fora da discussão. Mas agora ele tomava as iniciativas. Eu encarnava ao mesmo tempo tudo o que havia de bom e ruim, tudo o que ele precisava e o que ele conhecia de mais nauseabundo. Era adorável e repugnante, uma boa e desejável mãe e, ao mesmo tempo, uma megera aproveitadora e calculista que estava destruindo sua vida e planos. Como as discussões eram na minha casa, meus pais opinavam: ele dizendo nem tão veladamente que eu era uma inconseqüente, ela me aconselhando a deixar a coisa como estava. Não foi nada divertido, passei três meses no pior dos ambientes, já era março e nada tinha acontecido, pois eu estava aguardando que Raul parasse com as brigas. Mas um belo dia brigamos tanto que efetivamente conseguimos. Era impossível a menor conversa. Deves estar rindo de toda essa bagunça, Ana. Afinal, ainda hoje, deitada nesta cama de hospital, sou oficial e inutilmente casada com teu pai. Nunca nos separamos, apenas permanecemos alguns anos falando mal um do outro pelas costas e depois nem isso.

As aulas recomeçaram e, quando entrou na sala o professor de Literatura Brasileira Roberto Simões, pensei: este homem, apesar daquela aliança, me atrai. Nunca houve nada entre nós, nunca nos tocamos, mas ele me ajudou muito. Comecei a me arrumar melhor para assistir suas aulas. Fazia-lhe perguntas tentando mostrar-me inteligente. Como não estava alcançando meu intento, passei a estudar a matéria antes que fosse ensinada para poder fazer perguntas ainda mais inteligentes. Trazia as perguntas prontas e passamos a conversar depois das aulas; ele me emprestou um livro e lembrei de Ricardo; vi que ele almoçava no bar da Filosofia e resolvi que iria almoçar ali quando, coisa rara, tivesse algum dinheiro ou tempo sobrando. Nunca consegui almoçar com ele, mas passei a sentir-me observada. Dias depois, em plena aula, ele me usou como exemplo de beleza para caracterizar a bela Virgília, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, personagem de quem não gostava muito, mas que, naquele momento, me servia; só não gostei quando ele disse que Virgília tornara-se amante de Brás aos 28 anos e concluiu que eu ainda precisaria esperar alguns anos. (Procurei esta idade no livro e não encontrei). Um dia, ele, o professor Roberto Simões, chefe do Departamento de Letras, ofereceu-me carona para casa.

O percurso foi uma comédia. Ele mostrou-se engraçado descrevendo a vida de um professor sob a censura e me contando que tinham sido excluídos todos os autores contemporâneos do currículo do curso de Letras por absoluta falta de distanciamento histórico… Não valia a pena estudar autores que ainda estavam produzindo suas obras, ora. Depois, discorreu sobre o incrível número de alunas desinteressadas das letras, da literatura, da cultura. Chamou-me de avis rara e eu respondi mentalmente avis rara, avis cara. Sim, minha filha, se antes dos militares não tivessem retirado também o latim do currículo dos colégios, saberias que este ditado faz referência a uma visita rara, porém bem-vinda. Ele brincava comigo: enquanto eu flertava, ele satisfazia sua vaidade com uma aluna, mas não queria problemas. Despediu-se como um agente secreto, revelou que seu carro era um Skoda, fabricado na Tchecoslováquia, e que, portanto, eu tinha sido transportada num carro comunista. Aquela carona era a antítese do que estava vivendo em casa. E repetiu-se nos dias seguintes, repetiu-se na verdade por anos. Tudo indicava que eu ficaria célebre como a promíscua do bairro.

Ainda agitada, mas agora sorridente, ela desliga o gravador.

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O Monólogo Amoroso (XII)

Quando cheguei em casa aquela noite, contemplava o abismo entre minhas fantasias e a realidade. Voltara a indignação adolescente com o fato de não ser “livre”, de ter sido forçada a ter uma filha e até me culpava por meu corpo não ser mais o de antes. As fantasias tinham sempre como fundo uma vida com um músico – adivinha quem? –, aqui ou no exterior. E, sim, elas incluíam invariavelmente nós três! Só que Ricardo me dissera ao vivo e por carta que esperava trabalhar como músico de orquestra e, veja só, apenas agora eu pensava que havia somente uma em Porto Alegre, talvez com todas as vagas de violinistas ocupadas. Ou seja, ele iria para qualquer lugar onde pudesse trabalhar. E eu? Para começar, eu era duas, eu e tu, e ainda estudava. Uma estudante universitária com uma filha e sem sustento próprio iria se desvencilhar de uma situação dúbia com seu “marido” para ir à Itália em busca seu amor, um músico, acabando todos nós três juntos aqui ou noutra cidade? Oh… convenhamos! Estava era criando péssima ficção. Procurava me acalmar refletindo que nada tinha mudado, que estava na mesma situação de antes e que poderia resolver as coisas calmamente depois, com tempo, uma a uma, porém a sensação de incapacidade, de fracasso e incompetência me invadira. Esta versão realista de Nina resolveu primeiramente que eu me separaria formalmente de Raul de modo a deixar clara a situação. Seria o que era: uma mãe solteira, ou quase, pois seria desquitada. Já seria um bom começo. Quanto a Ricardo, talvez melhor fosse deixar acontecer com naturalidade; era uma situação sem futuro, mas que não causava danos. Talvez devesse pensar nele como o paliativo para uma situação de estresse.

Na manhã seguinte, com tudo organizado em casa, fui visitar Ricardo procurando me sentir menos mãe e mais sexy. Mesmo assim, avançava a passo prussiano em direção a seu edifício. Subi os degraus as escadas de dois em dois, como se estivesse muito atrasada.

— Estava te esperando – disse ele.

Respondi com um tom de raiva inesperado para mim mesma, como se não estivesse com a menor vontade de romantismos:

— Surpreendente.

— Por que surpreendente?

— Ora, porque me comportei como uma idiota ontem.

Em contradição com a chegada, a voz saiu-me emocionada e ele virou a cabeça para o lado numa atitude de quem admite o que escuta, mas que o assunto é desagradável. Enquanto ele se dirigia ao sofá, eu não sabia se seguia comentando a noite anterior – o que diria a ele? – ou se agradecia aliviada por ele desejar mudar de assunto; sei que ele chegou ao sofá absolutamente sujo da sala, fechou um livro – antes devia estar ali deitado, lendo – e sentou-se. Disse-lhe rindo que aquele sofá era uma completa vergonha e ainda decidia o que ia dizer quando vi que ele me examinava de cima a baixo, ignorando minhas palavras. Olhou para minhas pernas em saia de verão, subiu vagarosamente o olhar passando por minha cintura, mais interessadamente por meus seios, chegando minuciosamente a meu rosto. Fiquei em silêncio. Adorei aquilo. Se sua presença física mostrara-me a realidade de meus planos destrambelhados que homem nenhum poderia resolver, se o Natal deixara nua uma situação que achava pobre e triste, aquele olhar meticuloso e deleitado pintava meu rosto de outro vermelho que não o da raiva ou vergonha. Gostei de ser admirada, do calor no meu rosto, da obviedade de intenções daquele exame; não sabia se alguém já me observara assim antes, se o fizera, certamente eu desviara os olhos. O inesperado daquela abordagem franca… Aproximei-me. Pus a mão em seus cabelos e ele segurou meus joelhos e coxas por trás. Pensei que tínhamos, desde o dia anterior, um tratamento de namorados saudosos um do outro, mas na verdade éramos desocupados afetivos que deviam tornar-se amantes durante as férias. Melhor me adequar. Sua mão começou a subir devagar. Entendi porque ele tinha chegado alguns dias antes do Natal, entendi porque ele lia sobre um sofá imundo quando podia fazer o mesmo num parque sem sentir tanto calor, compreendi que eu devia ter esperado por aquilo não com a finalidade de livrar-me de minha vida, mas para ser empurrada alguns centímetros acima do muro onde estava encalacrada e pudesse ver algo fora do universo de minha casa. Ou não percebi nada daquilo e apenas continuava a passar meus dedos entre seus cabelos enquanto fechava os olhos prestando atenção numa mão que, depois de passear por minhas coxas, recebia o auxílio de outra para puxar minha calcinha. Disse-lhe:

— Nem Paul Newman, nem mesmo Gary Cooper ou Mastroianni me convenceriam a deitar neste sofá.

Ele riu e respondeu que eu não vira nada, ainda havia louça para eu lavar na cozinha. Mandei-o tomar no cu e ele respondeu que não era ele quem estava perto disso. Repliquei que tal opção era tão inviável quanto o sofá e fomos para o quarto abraçados, rindo.

Nada me fará esquecer aquelas semanas cujas manhãs passei naquele apartamento cada vez menos imundo mas sempre quente, no qual eu me sentia… – não sei dizer como me sentia, apenas acho que estava finalmente convivendo e amando como deveria ser sempre possível. Ou não. Ainda hoje, quando fecho os olhos, posso sentir o cheiro e a pele de Ricardo e penso em como foi perfeita aquela rotina matinal de cama, conversa, geladeira e chuveiro. Only romance, como dizíamos. Era impossível sair de casa, pois estávamos perto de onde eu morava e seria um erro expor-me. Consegui, afinal, passar calmamente aqueles dias, não perguntei a Ricardo sobre nosso futuro – que futuro? – e, no final de nossa temporada, Raul descobriu como eram minhas manhãs e com quem. Fiquei triste por ele e preocupada com as fofocas, mas estava certa ao pensar que Raul não queria escândalos que o deixassem na situação ridícula de “marido traído” e decidi que podia deixar a questão de Raul e de minha sogra para quando Ricardo fosse embora. Nem contei para ele. Sim, minha filha, depravei-me com convicção…

Em seu último dia, fomos ao cinema ver Acossado numa sessão da tarde, no cinema Marabá. Caminhamos separados na rua, lado a lado, com um ar divertido; quando chegamos na bilheteria, simulamos surpresa com a presença um do outro.

— Quando chegaste? – falei em altos brados e nos abraçamos e beijamos longamente na rua.
Lá dentro os abraços seguiram e, como sempre fazia, tratei logo de nos imaginar na pele de Jean Seberg e Belmondo.

No outro dia, Ricardo foi embora.

Nina aperta a tecla STOP.

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O Monólogo Amoroso (XI)

Raul senta-se calmamente diante do psiquiatra e recomeça.

Eu era muito moço e não sabia que uma separação era algo tão terrível. OK…, sim, na vez passada eu falava sobre como descobri que a Nina estava se encontrando com seu ex-namorado, é isso? Bem, um amigo me contou. Um dia, o Flávio veio cheio de dedos, dizendo que ia me contar uma coisa pela amizade que nos ligava e que eu não me irritasse. E falou claramente que a Nina entrava e saía e passava a noite no apartamento do tal de Ricardo. Minha primeira reação foi de ódio, mas acho que uma hora depois minha tristeza e desespero eram tão profundos que eu não queria voltar a conversar sobre o assunto. Enquanto estava com Flávio, perguntei duas ou três vezes se ele tinha certeza daquilo, se ele vira, se o fato se repetira, se era ela mesmo. Quis saber sobre horários e até sobre suas roupas. Não havia a menor sombra de dúvida: era ela, era ele e só se meu amigo fosse um louco de filme americano para inventar tantos detalhes. Pior: sua mãe era quem tinha visto primeiro.

O ciúme é o inferno, o ciúme é o inferno, o ciúme é o inferno. Nossa relação quase não existia mais, mas quando vi que nosso pobre relacionamento estava sob ameaça, ele tornou-se a coisa mais valiosa de minha vida. Como não me enganava a respeito da Nina – a qual mal possuíra e agora me fugia para sempre –, punha toda minha frustração sobre o afastamento que sofreria de Ana e em minha frustração e azar de ter casado com uma puta, etc. Mas o pior era o que eu sentia. O ódio que tivera dela no primeiro momento retornou contra mim sob muitas outras formas. Passei a me sentir incapaz, infeliz comigo mesmo, perdi o prazer de participar das brincadeiras no trabalho, passei a achar tudo uma idiotice. Não tinha concentração para fazer a mais simples das tarefas, o cansaço tomou conta de mim e comia o mínimo. Minha mãe notou que eu não estava bem e disse que tudo era culpa de Nina, que eu devia obrigá-la a morar comigo ou que a mandasse pedir o desquite. (Suspira). Mas eu não queria conversar sobre o que me deixava tão triste e, se conversasse, não seria com minha mãe, sempre muito alterada quando o assunto era Nina. Fui me isolando cada vez mais; imagina que até os carros passaram a ser coisas pouco importantes, assim como a família e os amigos; sentia-me burro, incapaz, azarado, inferior a todos os que conhecia.

Então, um dia, ao visitar a Ana, segui a Nina até seu quarto, uma atitude cada vez mais rara, mas que não chegava e ser uma invasão de privacidade porque aquele era supostamente “o nosso quarto”, e perguntei com voz embargada, louco de vontade de chorar – uma constante, apesar de que nunca chorava –, como nós ficaríamos. Naqueles dias, o ar de desinteresse dela por tudo o que eu dissesse era evidente, até suas brincadeiras e piadas tinham diminuído muito, ela estava vivendo livremente sua vida, mas parecia que eu precisava ouvir dela palavras ainda mais duras, aquelas que me fariam mergulhar com maior convicção ainda na minha incompetência e desespero. Ela me olhou com ar casual e respondeu que nada mudara.

— Por que isso agora? E Raul, teu humor funéreo vai acabar assustando a Ana. Tua cara não recomenda.

— É. Acho melhor tu ficar com ela. Eu me afasto por completo e tu educa ela. Mando dinheiro.

— Mas, por favor! O que está acontecendo? É o apocalipse?

— Tu sabe o que está acontecendo. Quero dizer, eu estou nesta merda e tu feliz por aí.

— Que merda, o que está acontecendo? Poderia ser mais claro? Tu está me criticando por ser ou estar ou parecer mais feliz do que tu? É isso?

— Nina, nossa situação é uma tragédia. Eu gostaria de morar contigo, temos uma filha, a chance de construir alguma coisa e tu fica por aí balançando o rabo como uma inconseqüente.

— Raul, eu não pretendo responder a tuas agressões. Acho que a única expectativa que tu deves depositar em mim é a de que eu cuide e ame nossa filha. E mais nada. Para mim, tu és um ex-namorado ou ex-marido, se um dia chegamos a tanto. É assim que tu deverias me tratar. Fui clara?

— E já que tu acha que é assim, isso te permite encontros com ex-namorados e outras putarias por aí?

O rosto dela ficou muito vermelho. O meu também. Conseguira falar. Incrivelmente, meu objetivo interno era reconquistá-la e viver uma vida confortável noutro lugar, mas tinha feito com ela o que não fazia com mais ninguém: despejei nela um pouco do que estava pensando e sofrendo, um pouco do meu enorme ressentimento. Hoje sei que virar meu caminhão de lixo em cima dela não me traria resultado nenhum, só que eu não conseguia pensar, só tinha certeza que minha vida estava sendo destruída pela única pessoa que me interessava no mundo. Pensei que a vermelhidão no rosto dela era de raiva, mas tinha mais: ela se sentira atingida por eu saber de suas escapadas. Ela falou calmamente:

— Então tu e o mundo já sabem.

— Não, acho que só eu, o Flávio e a mãe dele.

— E todas as amigas dela e os dele.

— Mas tu tens te encontrado mesmo com o tal de Ricardo?

— Sim, Raul. Eu me sinto separada de ti, apesar de tu me veres como a prometida.

— É que temos toda a possibilidade de uma vida…

— Pára com isso, Raul. Está tudo atravessado, fora do lugar. Eu sou a mulher casada que dá para outro e tu és o corno. Até o “nosso futuro” da tua imaginação é impossível. Tua família logo vai saber e eu serei tratada como uma bruxa a ser queimada.

— Eu não deixarei que aconteça isso.

— Bah, tu não tem mesmo pudor de ser patético, hein? Agora, dane-se. A culpa é minha de não ter me protegido. Me encontro com Ricardo em qualquer lugar, entende? Não fico me esgueirando.

Com a confirmação, comecei a fantasiar todo tipo de suicídio, viagens para lugares longínquos onde me estabeleceria deixando tudo para trás. Era um merda. Por meses não conversei pessoalmente com Nina. Escrevi me comprometendo a pagar para minha filha um valor que inventei e até hoje ela não me respondeu. Mas eu pagava. Era um valor decente. Quase tudo o que ganhava. Em finais de semana alternados, ia a sua casa pegar Ana e retornava para entregá-la de volta segunda pela manhã. Nada disso, mas absolutamente nada disso melhorou meu humor e minhas negativas a comentar os fatos. Meu trabalho voltou ao normal, o resto demorou muito mais ou nunca voltou ao normal. Quando minha mãe me perguntava sobre meu casamento, recebia de volta um grito dizendo que aquilo não interessava a ela, ela que fosse cuidar de sua vida. Meu pai dizia que a “véia” estava muito triste e preocupada comigo e eu o mandava à merda. Comecei a sair à noite e ia bastante com prostitutas. Parecia bem, acho, mas a nuvem em torno da minha cabeça me ameaça até hoje. Uma separação, qualquer separação, é o maior dos horrores e não desejo para ninguém. A auto-estima some. Não é assim com todo mundo?

O psiquiatra aponta para o relógio e Raul ergue-se lentamente, dizendo-lhe que seu emprego era chato, mas que não dava incomodação.

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O Monólogo Amoroso (X)

“…a supressão de certos acordes ´esperados´ funciona como elemento de surpresa”.

J. JOTA DE MORAES, sobre Leos Janácek

Nina segue seu discurso.

Cheguei ligeiramente atrasada ao Alaska. Ao atravessar a Osvaldo Aranha, vi Ricardo sentado numa das pequenas mesas do lado esquerdo; entrei, cumprimentei o Isake e recebi um longo abraço – complementado por sorriso e dois beijinhos protocolares — de um Ricardo muito mais magro e cabeludo. Sentamos e logo disse que tinha trazido um mimo para ele. Dei-lhe o romance Crônica da casa assassinada e recebi um pesado disco com as Variações Goldberg executadas por Glenn Gould, além de um livro com a tradução portuguesa do Doutor Fausto de Thomas Mann, que ainda não existia no Brasil. Era o céu depois de três anos.

Inicialmente, não houve silêncios em nossa conversa. Foi uma densa e atrapalhada atualização de tudo. Eu previa que teríamos dificuldades para conversar, mas errei. Ele foi gentil passando ao largo de tudo o que poderia me constranger, porém perguntou bastante a teu respeito, quis saber sobre minha situação em casa, faculdade, horários e planos. Raul voltava a inexistir. Teu nascimento ocorrera por geração espontânea, obviamente. Se o teatro era aquele, eu tratava de cumprir meu papel não perguntando sobre as italianas. Se aquilo tornava nosso encontro assexuado, ao menos… Mas foi mesmo assexuado? OK, só falamos sobre coisas objetivas, porém havia um tão grande interesse e simpatia mútua, havia tanta vontade de intimidade que lembro de nossos sorrisos, das paredes sujas e das mesas escuras do Alaska daquela noite como algo intensamente sexual. Lá pelas tantas, abri o livro de Mann pela segunda vez e descobri que antes a primeira página grudara da capa, não me permitindo ler a dedicatória, que era mais ou menos assim:

“O compositor tcheco Leos Janácek, aos 73 anos, dedicou seu segundo Quarteto de Cordas para uma mulher. Ele escreveu:

— Aqui, pude encontrar lugar para colocar minhas mais belas melodias. Exprimirão o medo que sinto de você.”

Fiquei comovida com a beleza das palavras mesmo sem entender seu significado e, quando ergui a cabeça para dizer isso a Ricardo, ouvi sua voz:

— O medo que sinto de ti.

Não entendi absolutamente nada. Medo? O que ele queria repentinamente dizer? Fui paralisada por aquela frase solta cujo significado acho que não desejava saber. Houve enfim algum silêncio e sem jeito perguntei quem era a mulher que recebera a dedicatória. Ele suspirou longamente como se tivesse sido interrompido, mas não resistiu a sua inclinação pedagógica:

— Foi escrito para Kamila Stösslová, pela qual ele se apaixonou aos 62 anos. Ela tinha 26, ambos eram casados, ele dedicou muitas obras a ela. Foi um amor platônico que durou até a morte de Janácek. Trocaram mais de 700 cartas.

Novo silêncio. Eu voltei a pensar na dedicatória. Ricardo fez uma piada misteriosa: explicou que Janácek costumava suprimir alguns acordes esperados pelo ouvinte, deixando-o em suspenso, mais ou menos como nós naquele momento.

Era a ocasião perfeita para qualquer um de nós tomar alguma iniciativa. Porém, era uma oportunidade dele, apenas dele. O Alaska era um lugar cheio de homens e, em 1966, uma moça não tomava posturas sedutoras em público; era adequado fazer um ar de sonsa. Demorou, mas ainda bem que ele fez. Havia uma mesa entre nós e Ricardo castamente pegou minha mão e acariciou-a. Aquilo teve o efeito de me desmilingüir imediatamente. Sim, Ana, talvez tu estejas rindo, mas foi muito emocionante. Ele pegou minha mão — aquilo na frente de outros e naquele ambiente era puro hardcore! Ficamos assim até ele dizer meu nome, de forma quase inaudível. No momento em que uma onda me invadia, a verdade mais inadequada me veio à cabeça provocando uma ressaca que revelava letras enormes, escritas infantilmente na areia: “Voltarás para casa”. Em minha completa estupidez, não preparara nenhuma desculpa para ficar na rua até tarde. Sentia-me comovida, feliz, excitada e em apuros… Como uma idiota, não tinha planejado uma noite fora, mas agora a desejava. Saímos do bar e fomos até seu apartamento. Lá, nada havia mudado, só que o cheiro de pó e tempo ainda sobrepujava o de limpeza. Ali estava nosso lugar, ali estava Ricardo e eu pensava numa forma de deixar para depois. A estranha era eu, que agora era casada, mãe, tinha horários a cumprir e até um marido de mentira. Não era mais a Nina incandescente e feliz com o sentimento de estar enganando papai e mamãe. Como fazer para trazer de volta a Nina jovem, insurgente e discretamente depravada? Olhei o relógio. Não queria dizer que era obrigada a voltar cedo para a casa. Tratei de atropelá-lo. Puxei-o para o quarto. Ricardo pediu licença para ir antes ao banheiro e consultei o novamente o relógio. Concedi mais uns quinze minutos para mim. Simplesmente, estava temerosa de ser descoberta, tinha pressa de voltar para casa e invocava os céus para que sustentassem em mim a vontade apossar-me de Ricardo. O medo era meu.

Tomada do desejo de, ao mesmo tempo, precipitar os fatos e agradá-lo, atirei-me sobre ele em seu retorno. Minha confusão era tanta que logo tratei de modular um orgasmo em decibéis. Ao reduzir os gemidos, fingi breve epilepsia e passei a esperar o sinal de finalização de Ricardo. Um fiasco.

Perguntei a ele quando poderíamos nos encontrar novamente, e ele foi pela primeira vez irônico. Falou que eu parecia mais ocupada do que ele e que eu deveria marcar. Senti vontade de chorar. Ele era o de antes; eu não. Eu sabia que ia soar como uma esposa explicando seus problemas ao marido ou pedindo para que ele pusesse o lixo lá fora porque o cheiro estava insuportável, mas fui em frente. Respondi que era melhor de manhã, quando tu tinhas a Márcia para te cuidar.

— OK — ouvi em resposta –, amanhã então?

Eu me sentia tão decepcionante que o olhei procurando descobrir se ele viera da Itália só por umas trepadas. Voltei para casa a pé, irritada com o mundo. No meio do caminho, ouvi uma voz me chamar. Era Ricardo, que vinha com os presentes que eu esquecera no seu apartamento. Mais uma mancada. Porém, se eu voltaria amanhã de manhã, para que me trazer? Sei lá. Recebi, pedi desculpas e, mesmo estando em plena rua, dei-lhe um rápido beijo na boca.

Apressei o passo. Afinal, se é aceitável a fatalidade de ter um ataque cardíaco na rua, chorar pelas calçadas é uma coisa patética.

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O Monólogo Amoroso (IX)

Ela acorda muito mal. O longo tempo deitada faz suas costas doerem tanto quanto aquilo que lhe rói. Mesmo assim, ela volta a pressionar a tecle REC e grava para a filha.

Nunca dei muita importância a datas como o Natal. Gosto das celebrações de aniversários; afinal, às vezes só conseguimos ver nossos amigos anualmente nessas festas. As datas restantes são apenas feriados para mim. Mas tu estavas tão excitada com o Papai Noel que entrei junto na onda natalina daquele ano. Com antecedência, montamos a árvore, comprei presentes e organizei as pessoas para que dessem aquilo que tu querias ganhar. Meus pais diziam que tu tinhas mudado totalmente minha postura, o que era óbvio; eles viam tudo pelo benigno. Só que em minha atitude colaborativa havia a intenção de sumir algumas horas naquelas semanas de Natal, Ano Novo e de resoluções a não serem cumpridas. Era o nosso Natal. Meu e teu. Mas não imaginava quando nem como encontraria Ricardo, e nem se aconteceria mesmo. Não combináramos nada de concreto, apesar de minha imaginação criar as mais altas expectativas.

Nina pára, olha para o gravador e pensa que ele está desligado. Pressiona novamente o botão REC e recomeça.

Aquele era o nosso Natal. Meu e teu. Tu estavas excitadíssima com o que te traria o Papai Noel e eu também… Nunca dei importância a datas e comemorações, gosto apenas de aniversários, só que naquele ano eu fantasiava muito criando expectativas para ti e para mim. Acho que te deixei louca imaginando as surpresas que o Natal podia trazer. Arrumamos árvore, enfeitei tudo para o velhinho comparecer, organizei quem daria o que para ti, pensei nas comidas; fiz tudo com a antecipação necessária para ficar livre alguns turnos durante as semanas fatídicas em que Ricardo estaria na cidade. Mas não sabia se realmente o encontraria e já ia compensando a possível decepção com uma atividade febril. Quando passava por algum espelho, parava cinco minutos, me olhava bem, fazia testes com o cabelo, pensava na roupa e nos três quilos a mais pós-gravidez. E voltava à atividade. Precisava me atualizar. Tinha temor de uma conversa muito intelectual e fazia uma toalete literária, cinematográfica e musical como preparo para o encontro. Mas era só um amigo, mentia para mim. E ia para o cinema, informava-me o quanto podia lendo o Caderno B (ou seu similar) do Jornal do Brasil de cabo a rabo, dava especial atenção às críticas e tinha absoluta certeza de que aquilo era necessário e que serviria para criar uma atmosfera… Sei lá que atmosfera!

Não conseguia ler em casa. Dispersava-me imediatamente. Naquele verão, chegaram aos cinemas dois filmes: Blow-up de Antonioni (Depois daquele Beijo, no Brasil) e Persona de Bergman (Quando duas mulheres pecam, outra invenção nacional). Por que logo esses dois filmes? Blow-up, talvez o tenhas visto, é um filme filosófico disfarçado de suspense. É a história de um fotógrafo profissional de moda que vai a um parque ou campo. Um casal apaixonado atrai sua atenção e ele, ao ampliar as fotos, percebe, ao fundo, quem cometera o crime contra o homem apaixonado. Havia um homem armado, escondido na densa vegetação. É um filme de suspense e não é, porque Antonioni vai tão fundo que o filme torna-se um estudo sobre real versus imaginário. Como cenário, uma Londres (uma Europa, uma Veneza) colorida e cheia de maravilhosas mulheres disponíveis. Não era bem o que precisava ver, mas tudo sempre pode piorar.

Em Persona, uma atriz nega-se a falar. É internada e depois vai para um exílio acompanhada por uma enfermeira. Ficam isoladas. Numa praia, se não me engano. Sim, numa praia. Conversam, ficam íntimas. As duas mulheres tinham problemas relacionados à maternidade: enquanto Elizabeth simplesmente renegava o filho, Alma não aceitava o aborto ao qual fora obrigada.

Nenhuma tinha minha história, mas existiam interseções com ambas. Parecia ser a antítese de Alma: se eu desejara o aborto e não o obtivera, ela não o desejara e o obtivera. Porém sua frustração era semelhante à minha — a dissolução brusca de um sonho, de um projeto — e eu pensava compreender inteiramente Alma. (Minha filha, não estou aqui gravando estas coisas para parecer melhor do que fui. Estou falando a verdade. Além disto, o silêncio em que envolvia cada vez mais teu pai era em tudo semelhante ao mutismo de Elisabeth.) A repetida troca de identidades entre as mulheres perturbou-me muito e a surpreendente fusão de seus rostos – fato de que apenas me dei conta lendo uma crítica e que só pude constatar revendo o filme, pois na primeira só pensei em como Liv Ullmann ficara subitamente feia — foi especialmente aterrorizante.

Sempre procuro me identificar com algum personagem, em Persona esta segurança cresceu muito para esvair-se lentamente. As duas mulheres misturam-se em monólogos e há a terrível leitura da carta, principalmente daquela parte sobre a orgia com os meninos na praia, cuja conseqüência viria a ser o aborto indesejado. Sabia que meu rosto também poderia misturar-se aos de ambas na montagem de Bergman. Passei horas e horas pensando no filme ou, melhor dizendo, em mim. Voltei à época da gravidez.

A semana do Natal chegou e nada de notícias de Ricardo. Estava irritada, não podia conceber aquilo. Então, chegou mais uma carta, na verdade um envelope cheio de cola que ele pusera na caixa do correio. Reconheci a letra. Fui para meu quarto, pus uma música e fiquei olhando para o envelope sobre a mesa. Resolvi antes tomar banho. Fiz tudo lentamente. Pensei que a carta lida por Alma estava aberta, sem aquela absurda quantidade de cola. Durante o banho, planejei todas as combinações de roupas para o encontro. Sabia o que fazer se fosse um encontro matinal, vespertino ou noturno; se chovesse, se estivesse frio, quente ou se nevasse… E desconfiava que mudaria tudo na última hora. Deitei-me na cama.

“Nina.

Podemos nos encontrar dia 23, no Alaska, na esquina da Osvaldo Aranha com a Sarmento Leite, às 18h?

Saudades. Ricardo.”

No Alaska? Um bar de estudantes universitários recém inaugurado e vazio por causa das férias? E com um garçom conhecido, de nome Isake, e que diria para mim “Oi, Nina, tudo bem?”. OK. Um pouco decepcionada, mas decidida a não pensar muito a respeito, fui pessoalmente ao conhecido endereço indicado em “Remetente”, e depositei minha resposta na caixa do correio dentro de um envelope no mesmo estilo, só que com menos cola e conteúdo ainda mais sucinto:

“Ricardo.

Combinado! Estarei lá.

Nina.”

Parecia coisa de agente secreto. Todo o complexo planejamento de roupas foi alterado. Ao Alaska só se adequariam jeans e camiseta. Tudo bonitinho, novinho, apertadinho, é claro, mas nada além de jeans e camiseta. Investiria tudo no cabelo e no perfume.

Com dificuldade, ela vira-se para o lado da parede, desliga o gravador e sorri.

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O Monólogo Amoroso (VIII)

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.

VIRGINIA WOOLF

Ricardo abre seu caderno e escreve.

Falo (ou escrevo) sério. Não esperava que Nina se mantivesse fiel a alguém que, com o tempo e a distância, se tornaria uma lembrança; não esperava que ela, como uma mocinha vitoriana, ficasse apaixonadamente aguardando enquanto seu amado não voltasse da guerra ou, no meu caso, me qualificasse e me divertisse na Itália. Também não acreditava que eu viesse a fazer muitos esforços para evitar quaisquer tentações italianas. Só que há esperas e esperas, promessas e promessas, compromissos e compromissos. Na minha visão, nesses casos há um acordo tácito mínimo de, digamos, confidencialidade e relativa sinceridade. Ou eu não deveria ficar sabendo de nada ou saberia através dela. O fato de ter sabido através de um amigo que “minha namorada” estava casada e com filho é uma quebra grave daquele acordo, não? Fiquei mais indignado do que pasmo; ou talvez fosse mais fácil ficar indignado do que fantasiar sobre a biografia de Nina após minha viagem. Trato de fingir para mim mesmo que sou indiferente, mas fui muito feliz com ela nos últimos dias de Porto Alegre. Mesmo sem planejar nada, contava com ela, queria voltar àquela intimidade. Tinha certeza de que aconteceria. E agora esta merda.

Antes de conhecê-la, observava Nina na rua, conversando nas escadas da frente de meu edifício, indo e vindo. Sua beleza doía como a de qualquer mulher que não podemos tocar. Quando a conheci, ela acabou despertando em mim não apenas aquilo que os meninos sentem mas o instinto pedagógico que sempre soube ter. Queria mostra-lhe e ensinar-lhe tudo o que conhecia e sabia, colhendo sua admiração. Seus primeiros dias em minha casa foram algo que nunca esquecerei: ela ficava por lá, toda feliz, comendo as porcarias que eu fazia e ouvindo tudo o que lhe dizia. Tinha (ou tem) um respeito que beira a devoção pela cultura. Acha que encontrará um livro, uma música ou um filme que mudará sua vida. E o procura. Era (ou é) muito inexperiente e tenho certeza de que proporcionei-lhe muitas primeiras vezes – a primeira cerveja, o primeiro vinho, o primeiro porre, o primeiro jantar a dois, o primeiro Bach, o primeiro Thomas Mann -, todas escondidas sob o guarda-chuva da primeira relação sexual. Aqueles dias não foram nada sofridos, nós naturalmente criamos uma terceira intimidade a dois. Então como não sentir-se afetado pelas notícias? É inevitável.

Mesmo incomodado, escrevia-lhe. Meu tom era o do amigo longínquo. Não sabia se deveria seguir escrevendo, mas outra coisa era inevitável. Internamente, eu seguia dialogando com Nina, narrava-lhe os acontecimentos, planejava como iria contar isso e aquilo, então de vez em quando escapava uma carta para ela. O tom era de amizade. Eliminei qualquer referências às saudades e era frio. Ela está longe de ser burra e estaria certa se interpretasse minhas novidades como um convite que pedisse: conte-me, esclareça com tuas próprias palavras o que já sei. Mas ela seguia mentindo. Perguntei a meu amigo se ele tinha certeza absoluta, se não estava enganado. Até que toquei no assunto com ela. Recebi uma resposta longuíssima e pouco convincente. O marido – um menino como ela – não interessava, era um ser remoto pelo qual não tinha nenhum apego, para não dizer amor… Como acreditar que o pai de sua filha não importava?

Então, agora, cometi o maior dos erros ao comentar com Fiorella sobre a namorada que deixara do Brasil. Ela me perguntou com a maior simplicidade como fora nosso rompimento. Eu fiquei sem história para contar. Confusamente desejei fazer um agrado à Fiorella dizendo-lhe que escrevera para o Brasil contando sobre nós, causando uma grande desilusão. Por que inventei aquilo? As datas não fechavam direito, pois não havia tempo para colocar a gravidez e o nascimento entre o dia em que a conhecera e hoje; então me atrapalhei ainda mais ao afirmando que a criança recém nascera, mas isso não fechava com o que dissera o amigo. Ela me fez um bombardeio de perguntas cujas respostas eram tão insatisfatórias que acabamos nos despedindo bruscamente. Fiz tudo errado. Por que entrei nesse assunto? Por que comecei minha tentativa de agrado pela descrição de uma triste despedida de dois apaixonados no Hemisfério Sul…? Para que ela me valorizasse, certamente. Um horror.

Perdemos algo, eu e Fiorella, aquela noite. Ainda mais que ela citou o fato de eu não ter ido ao Brasil em meus períodos de férias anteriores e que desta vez queria ir. Como é ela? Uma mulher como outras. Tens fotos dela contigo? Como responderia que não? Me mostra. Para quê? Quero conhecer, ora. Te mostro depois.

Não mostrei ainda, nem ela pediu novamente. Algumas pessoas gostam de se comparar, de sofrer com o desconhecido. Fiz tudo para melhorar o clima, tratava-a com atenção. Nada resolvia, nem suportar por horas uma ópera de Puccini no La Fenice. Hoje, Fiorella voltou ao assunto: disse que não tinha ciúmes e sabia que eu, quando retornasse em definitivo, retornaria sem ela (até porque ela não iria), mas fez questão de deixar claro que não merecia ouvir mentiras de mim.

Ele fecha o caderno.

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O Monólogo Amoroso (VII)

Ela, bem humorada, liga o gravador e prossegue seu monólogo para a filha.

Obviamente minha resposta não fora planejada mas teve um inesperado efeito de cisão: meus pais me apoiaram. Aquilo comprovaria que, para eles, eu era imatura para ter uma vida em comum com meu marido? Que eles me queriam próxima por acharem que eu seria nova demais para um afastamento da família? Teus avós nos amariam a ponto de verem minha resistência como um argumento para seguirem vivendo com sua filha e neta? Ou será que suas exigências morais já tinham sido satisfeitas pela recusa ao aborto e posterior casamento e julgavam que unir um casal sem futuro seria uma demasia? Na época, eu não pensava nas motivações deles, estava encantada demais por finalmente ter obtido apoio. Minha mãe defendeu que eu iria morar com Raul quando e se desejasse e a sogra ficou de tal maneira atônita com a súbita deserção que começou a discursar que eu era pessoa difícil, suscetível a crises passageiras e com a qual havia que se ter paciência. Seria uma questão de tempo, ela tinha certeza de que eu acabaria me mudando contigo para o apartamento a ser alugado. Tudo bem.

Algo havia se movimentado em minha circunstância e eu não tinha notado. Era casada, mas estava mãe solteira com a concordância de meus pais. E os amigos? Alguns me olhavam ainda como se minha existência fosse moralmente reprovável; na faculdade, outros ficavam desconcertados quando eu dizia que era uma mulher casada com filhos… Preocupava-me neuroticamente em obter a aceitação do mundo e agora recebia de graça a aceitação em casa. Bom, devia ser assim mesmo. É claro que viver com Raul significava uma situação de casamento real e, teoricamente, a aceitação de todos ficaria mais simples, principalmente em relação a nós duas. Sim, do ponto de vista social, as coisas seriam mais fáceis se vivesse com Raul; só que viver com ele era tudo o que eu não desejava e meus pais deviam ter entendido aquilo. Talvez eu tivesse feito um acordo tácito com eles, sei lá. Deves estar te perguntando porque eu não rompia logo com ele. Não sei te responder, não sei o motivo de minha opção por aquela resistência silenciosa. Medo? Timidez? Vês?, não sabia nada. Teu pai, agora ofendido, dormia mais vezes na casa de sua mãe do que conosco e passara a me cobrar abertamente que eu decidisse logo residir com ele, num apartamento que seria alugado perto dali, que seu pai seria o fiador, etc. Eu lhe respondia que não queria, mas não dizia o motivo. A insistência foi tanta que um dia ele conseguiu que eu chegasse ao paroxismo de afirmar que o via como um amigo com o qual tivera, casualmente, uma filha. OK, não foi um grande paroxismo, mas foi o que consegui ter.

Sou lenta e difícil. Sabes o quanto demoro para escolher um sapato, imagine então para tomar decisões importantes que magoem pessoas. Ele perguntou se aquilo equivalia ao rompimento e eu respondi que não, claro que não, que ele devia deixar era a vida seguir. Convivia contigo, com minha mãe, com Márcia, e estudava. Foi neste período que notei o quanto podia ser atraente para determinado gênero de homens. Uma mãe “meio solteira” e jovem era alguém que tinha um bom potencial sexual. Houve um que, subitamente, na praça, com outras mães por perto e enquanto brincavas na caixa de areia, pegou minha mão perguntando se não me sentia solitária. Não era necessário muito respeito por mim. Às vezes, ao fazer compras no supermercado, era subitamente abordada. Do nada, perguntavam se eu já tinha utilizado tal produto ou se já comera tal guloseima; daí, elogiavam meus olhos ou falavam que não tinham notado antes que dirigiam a palavra a uma beldade. E iam adiante. O que me fazia rir lá fora era motivo para lágrimas em meu travesseiro.

Enquanto isso, estranhava o silêncio de Ricardo àquelas cartas em que despejava toda minha biografia recente. Escrevi-lhe novamente, agora sobre os últimos acontecimentos e um pouco sobre a faculdade. Tempos depois, recebi uma imensa carta que continha muitas histórias suas. Porém era uma carta impessoal, ignorando o que lhe havia contado; falava apenas e exclusivamente de si. Uma reportagem irritante. Li de novo. Não narrava apenas as histórias em que brilhava, contava também seus fracassos em Veneza. Dizia que, quando voltasse ao Brasil, tinha boas chances de obter colocação no naipe de violinos de alguma sinfônica, mas que seu nível era insuficiente para permanecer na Europa. Li de novo. Ficava desconcertada pelo fato de haver recebido folhas e folhas de informações sobre acontecimentos pessoais ou musicais e nenhuma linha acerca de “meus assuntos”. Porém, se ficava triste por isto, sabia que ele tinha sentado e trabalhado horas redigindo aquela longa carta só para mim e que isto tinha de ser considerado. Mais uma vez. Tantas folhas serviam para que ele sufocasse os acontecimentos que eu lhe contara e sentia-me deprimida; concluía que ele ficara com pena de mim e sentia-me mal novamente; ou imaginava seus cuidados para não mandar uma palavra de carinho a alguém que inevitavelmente ficaria apaixonada e planejava um suicídio; raras vezes, entretanto, achava que estava recebendo atenção. Atenção sem nenhuma qualidade, mas ainda assim atenção. Em quaisquer dos casos, o resultado eram mais lágrimas noturnas.

Escrevi-lhe de volta. Deu-me o maior trabalho. Se não superava a dele em tamanho, minha alentada réplica procurava intencionalmente misturar tudo. Sua música, minha falta de música; a vida em Veneza, minhas leituras; seu retorno, minha situação; suas piadas de músico, minhas mancadas de jovem mãe; seu doutorado, minha faculdade, etc. Talvez tenha sido o texto que mais me esforcei por escrever em toda minha vida: havia objetividade, brincadeiras, vida pessoal; mas principalmente minha aspiração de que ele percebesse o quanto tinha de saudade e um pedido de socorro. Acho que quem lesse aquela coisa intricada e bem-humorada, dificilmente concluiria que, ao fim e ao cabo, tratava-se simplesmente de uma tentativa de sedução.

Naquela época, as cartas do exterior levavam semanas para chegar e a resposta demorou mais de um mês. E chegou na forma de outro catatau. Desta vez, ele não recuava, acabando por considerar “meus assuntos”. Mas era muito superficial, bem como eu não desejava. Sua abordagem era de modo a não me ofender e seu evidente desconhecimento sobre a vida e os esforços despendidos por uma mãe mostravam quão longe de sua perspectiva estava a convivência com uma criança pequena. Aquilo deixou-me deprimida e meu travesseiro voltou a ficar úmido. Só que, inesperadamente, três dias depois, chegou outra. Esta dizia que, no período de Natal e ano novo, viria para Porto Alegre. Passaria um mês na cidade antes de voltar para seu último ano de curso em Veneza. Estávamos na primavera.

Para meus padrões habitualmente contidos, fiquei em estado de total alegria. Sorria eufórica para o mundo. Mas também pensava, tensa, em como seria nosso encontro.

Ruborizada, como se estivesse revivendo aqueles momentos, vira-se com dificuldade na cama e desliga o gravador.

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O Monólogo Amoroso (VI)

Ela acorda, pega o gravador de cima do criado-mudo, pressiona a tecla REC e recomeça seu monólogo para a filha.

Logo depois que nasceste, procurei estabelecer uma rotina. Sabes que tenho certa tendência a adequar-me a procedimentos que acabam por tornar-se verdadeiros algozes… Tu fazias com que eu me acordasse cedo e cedo te trocava e levava para fazer passeios no carrinho; ficavas felícissima observando a rua e as pessoas. Meu ganho secundário, pensava, era o de conviver menos tempo em família. Teu pai entrou no curso de Administração e estudava no turno da manhã; à tarde ia para aquele simulacro de trabalho na loja do teu avô paterno. Raul parecia cada vez mais perdido numa casa que não era a dele; estava constrangido, perdera a naturalidade. Muito lentamente e em razão da disponibilidade dela, passei a dividir-te com minha mãe. Na época, considerava-a como alguém a ser combatida ou ao menos não imitada, mas acabamos companheiras no trabalho maternal. Precoce e involuntariamente, comecei a retribuir-lhe um fluxo de amor que preferia antes desconhecer. Teus dias, a partir de então, eram passados entre nós. Raul não apenas parecia ser um estorvo como passara a encarar-se como tal. Sempre tivéramos grandes diferenças de caráter, de postura e de predileções. Se acrescentar a isto a maturidade forçada e o ceticismo que adquiri durante a derrota para as famílias, via que me afastara mais e mais dele.

Foi durante um daqueles passeios que conheci Márcia. Ela tinha dois filhos pré-adolescentes que levava todas as manhãs à escola e, nos dias bonitos, costumávamos conversar na praça em frente ao Colégio Júlio de Castilhos. Era uma pessoa simples e simpática; seu marido era balconista de uma loja de ferragens e quando eu disse a ela que desejava voltar a estudar, Márcia propôs-se a cuidar de ti pela manhã por uns trocados. Era afetiva e gostava de crianças. Minha mãe apoiou a idéia – já tinhas quase um ano – e Márcia passou a freqüentar nossa casa para adaptar-se a ti e tu a ela. Só que esqueci de informar teu pai e minha sogra de minhas decisões. Esqueci também de estudar. Ficava em casa com Márcia ou, no máximo, saía para passear.

Quem soube primeiro foi tua avó paterna, que ficou escandalizada por não ter sido avisada. A conversa que teve com seu filho determinou-lhe que as coisas estavam viradas de cabeça para baixo na casa onde morava sua neta e ela, sim , ela, ameaçou-me com a separação. O inacreditável é que Raul parecia achar naturais aquelas interferências da mamma. Eu estava num período melhor, as coisas estavam voltando à normalidade e eu queria voltar um dia a estudar. Resolvi agir diplomaticamente sobre aquela interferência, pois seria improdutivo entrar em discussão. Procurava agir com inteligência desta vez. Pedi-lhe desculpas sob o pretexto de que tudo acontecera muito rápido, expliquei-lhe que um novo ano letivo estava começando, que gostaria de aproveitar Márcia, em quem confiava, e que tudo isto fora uma sorte. Falei também que tuas repetidas otites eram menos freqüentes, etc. Ela foi embora mais calma, porém, internamente, com a certeza de que estavam fazendo de seu filho um estúpido.

Não precisei estudar muito para entrar no curso de Letras. Havia poucos candidatos. Foi uma tentativa realizada com o menor estudo e a maior ansiedade. Falo sério, não sabia nada para passar. As odiadas provas de Matemática. Física e Química foram um festival de chutes, mas como só os piores alunos ou os absolutamente apaixonados por literatura tentam Letras, acabei conseguindo. Os que gostam de escrever e são um pouco mais espertos fazem jornalismo. Até hoje é assim, só que agora existe a alternativa da publicidade. Acabei classificada entre os últimos… Grande coisa!

E voltei a estudar. Foram meus primeiros passos fora do âmbito da maternidade naqueles meses todos. Era uma estranha na faculdade; raramente era vista fora das aulas. Apesar de assídua e dedicada, não freqüentava o bar e conversava pouco com os colegas; chegava pontualmente e saía rapidamente para casa. Por isso, meu apelido era “Turista”. Não ficava muito tempo longe de ti. Ademais, meu contexto era outro, minha mente estava longe dos assuntos do interesse dos outros estudantes: eu só sabia falar das próprias aulas, dos professores e da música erudita que tocava na Rádio da Universidade – herança de Ricardo que abrangia grande parte de meu tempo em casa. Preferia tua companhia e era feliz com minha agenda de aulas, passeios – agora vespertinos -, estudos, babá, mãe, pediatra, música, almoço, janta, etc., cada vez mais ignorando Raul.

Ele não queria me irritar ou não sabia se impor. Raramente me convidava para ir a cinemas ou festas. Normalmente deixava-o ir sozinho, mas quando íamos, ele voltava a ficar orgulhoso de minha presença – gostava de apresentar sua “bela mulher” – e tratava de omitir a existência de uma filha aos amigos, porque desejava mostrar-se jovem e sem compromissos. Aquilo fez crescer meu desprezo por ele e, longe de querer iniciar uma conversa sobre fraldas com as namoradas de seus amigos, observava tudo com alguma ironia e cada vez menos ressentimento, pois apenas via futilidade naquele grupo. Eu era uma mãe, ele ainda era um filho. Quando desejei o aborto, ele sofrera a súbita crise mística que uniu nossas famílias para manter a criança e a moral; agora, com a criança no mundo, ele procurava desconhecê-la para viver de acordo com sua idade… Sempre passivo e vago, ele não forçava atritos comigo; por isto surpreendi-me um dia ao ouvir dele a reclamação de que eu me comportava de forma superior com seus amigos. Nunca fui capaz de grandes explosões e, na verdade, sabia o que ele estava pedindo: Raul não estava referindo-se nenhum gênero de arrogância que eu tivesse manifestado, mas sim à dificuldade que eu tinha de acompanhar as conversas que considerava fora de qualquer contexto que vivenciava e que me faziam divagar longe dali. Até me esforçava, mas meu pensamento perdia-se e muitas vezes devolvia apenas as réplicas mínimas da civilidade. Porém, quase tive uma convulsão de ódio quando ele completou dizendo que eu estava me vestindo como uma mulher mais velha. Respirei fundo com o coração acelerado e apenas respondi-lhe que não era verdade. E não era.

E Ricardo enfim escreveu sobre a gravidez. Ele sabia. Disse que um amigo seu, morador da Azenha, a rua paralela à João Pessoa onde morávamos, um tal de Zeca, avisara-lhe sobre a barriga e o bebê. Perguntava-me como aquilo tinha acontecido e quem era o pai. Nenhuma reclamação, nada, nem sombra do namorado, era uma carta de amigo, simples e interessada. Ele sempre soubera. Li tudo aquilo coberta de vergonha. Porra, ele sabia e certamente considerava minhas espaçadas cartas mero exercício de… de que mesmo? Procurei reparar o erro despejando toda a história em longas e detalhadíssimas cartas. Uma bosta.

Foi naquela época, durante um jantar familiar em nossa casa, que meus sogros noticiaram que Raul agora tinha condições financeiras para alugar um apartamento para nós três. Seu trabalho na loja do pai dera-lhe condições financeiras. Para mim, não foi surpresa o fato de Raul não ter sido o portador da nova. Olhei para ele e vi sua cabeça baixa, com um meio sorriso nos lábios, talvez de orgulho. Sorrindo também, ergui a cabeça, antegozando o efeito da frase:

– Eu gostaria de dizer a vocês que não pretendo morar com Raul. Vou ficar aqui.

Minha afirmativa apagou-lhe o sorrisinho; fez-lhe levantar a cabeça e abrir a boca.

Cansada, desliga o gravador.

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O Monólogo Amoroso (V)

O psiquiatra abre a porta e cumprimenta Raul. Ele entra, senta e continua o discurso da semana anterior.

É… acho que estava naquela época do nascimento da Ana, né? Hum… acho que estava. Vou seguir daqui, pode ser…? Bom, foi uma época de grandes mudanças. Eu estava terminando o segundo grau, isso que chamam hoje de ensino médio, e meu pai me aconselhou a ir trabalhar com ele para assim manter a família que teria. Eu adorei aqueles primeiros dias na loja. Meu pai tinha uma loja de venda de carros usados. Me deu dois. O lucro da venda deles ficaria para mim, que deveria reinvestir o valor de cada um e, com o tempo, comprar outros. Ficava lá todas as tardes e os sábados. A Nina brincava a respeito dizendo “Carros usados. Bons carros usados. Automóveis usados, quase novos. Transporte barato. Ford 1927, em perfeito estado. Carros garantidos, carros reformados. Rádios de graça. Auto com cem litros de gasolina, a gasolina grátis. Carros usados”. Sempre ria recitando aquela besteira tirada de um livro, As Vinhas da Ira, parece. Eu também ria.

Comecei a juntar dinheiro. A loja era bem localizada e isto é fundamental para um negócio desses. Quando os clientes entravam na loja, a gente, nós, os donos, ficávamos lá dentro, paradinhos. Meu pai pensava mais ou menos assim: o cliente tem que se emocionar com o carro e o interesse começa com o encontro. Era um momento em que o cara tinha que ficar só. Agora, se ele tentasse abrir o carro ou se começasse a dar voltas num deles, um de nós, normalmente o dono daquele carro – pois a única coisa que nos diferenciava de meu pai era que a loja era dele –, vinha lentamente lá de dentro, com aquela má vontade de quem vai desfazer-se por preço baixo do melhor carro da loja, que tinha sido descoberto pelo brilhante cliente. Neste momento, cabia a nós intervir. Havia muita sacanagem, porque às vezes o dono não estava e a gente tinha que vender o carro de outro. Recebíamos uma comissão, claro, mas não era o mesmo valor recebido por quem, afinal, era o proprietário. O pior era quando o cara entrava seduzido por um carro nosso e depois mudava de idéia. Porra, a gente tenta manter o cara fixado no nosso, sem permitir uma escapada. É complicado. Tem que ter uma habilidade que custa a aprender. Eu estava feliz aprendendo e ganhando uma graninha. E devo ter aprendido. Ainda hoje… Pago essas sessões com a loja, né?

A Nina ficava chocando em casa, recitando o “Carros usados. Bons carros usados. Automóveis usados, quase novos. Transporte barato…”, etc. quando me via. Ela parecia uma inconseqüente. Nossos pais nos pediram para casar a fim de proteger a ela e à criança, mas ela ficou puta com aquilo. Reclamava e ameaçava sumir, mas não fez nada.

Meu pai falava muito comigo, me aconselhava a aproveitar o que a situação tinha de boa. Se eu me tornaria um chefe de família, que fosse de uma forma digna, ganhando meu próprio salário e ficando logo independente. Não via e nem vejo problema naquilo. Então, eu finalizava meus estudos no colégio pela manhã, trabalhava à tarde com carros e tratava de agüentar as brincadeiras ou o mau humor da Nina à noite. Mesmo suas brincadeiras eram “mau humor”, pois sempre visavam ridicularizar algum de nós. Eu era o maior alvo, minha mãe vinha logo depois, mas eu tentava não brigar com ela, porque ela estava grávida e poderia prejudicar a criança ou fazê-la voltar àqueles pensamentos de aborto. Olha, eu não tenho nada contra o aborto, mas nunca admitiria que um filho meu fosse vítima. É uma questão de princípios: acho que se deve ter a possibilidade de fazer isso em casos justificados, só que a Ana teria uma casa, alimentação, meios, pais, presentes, tudo. Então para que tirar?

A Nina me acusava de traição. Dizia que eu tinha falado, combinado tudo e agido com meus pais sem que ela soubesse. Na verdade eu falei com meu pai, ele avisou minha mãe e ela foi atrás dos pais da Nina. Não queria dizer a ela que não me arrependia, que achava legal ter uma filha ou um filho com ela, que gostava dela e que aquilo era também uma prova de amor, mas ela estava irônica e intratável. Nina era uma mulher linda. Bem como eu gosto. Era pequena, 1,60 m, cabelos castanhos e olhos azuis, um rosto muito bonito. Ela era “admirada” por todo mundo no colégio, apesar de não fazer o gênero gostosa. Claro que sempre foi debochada e tinha aquele temperamento artístico, meio desligado do mundo, além de ser mulher, né? Então, era então bastante imprevisível e sinceramente penso que podia rir, chorar ou irritar-se ouvindo exatamente as mesmas palavras. Parece que tudo dependia da circunstância e só ela sabia qual era.

A gente transou poucas vezes durante a gravidez, mas não pense que ela reclamava de dores ou mal estar, dizia só “não quero”. Nossas discussões noturnas eram uma tortura. A única coisa que eu queria era que ela parasse de falar e de me perguntar coisas. Eu ficava paralisado, olhando para o teto, com a cabeça funcionando a mil. Era um menino e tentava adivinhar qual seria a resposta correta para as perguntas. Em vez de dizer sinceramente o que pensava sobre nossa situação, procurava aquilo que seria a fala mais correta, menos agressiva, a que apaziguasse. Era muito difícil porque ela tinha outra lógica. Muitas vezes eu ficava em silêncio, sem saber o que dizer. Ela então se virava para mim e perguntava se eu não pensava nada, se o que eu tinha para dizer era nada, se era este o tipo de resposta e atenção e consideração que o seu marido tinha para lhe dar. Uma merda. Tinha um cartaz de um filme no quarto dela, que naquela época era o nosso, e eu ficava olhando para ele apavorado, lendo e relendo o nome dos atores, do filme, produtores, essas coisas. A melhor parte do dia eram os “Carros usados. Bons carros usados. Automóveis usados, quase novos”… Lembro que um dia ela, sempre boa com as palavras, falou que mesmo sua alegria era feroz. Alegria feroz. E a barriga crescia. Eu pensava que a coisa ia melhorar com o nascimento da Ana. Doce ilusão. Parecia que o ressentimento dela crescia mais do que o nenê. O estranho é que eu ficava com ela no intervalo do colégio, ia para casa com ela e me apaixonava cada vez mais. Fora de casa ela aceitava meus beijos e carinhos, mas em casa era mais difícil. À noite, era raro ela sair daquele “não quero”. Eu ficava puto, porque o médico tinha dito que podíamos manter relações e ela nem se preocupava em dizer que estava enjoada ou com dor de cabeça. Aquilo era para me agredir, claro. A Nina não era nada frígida. Não era uma alfafa com palmito. Existem mulheres que são simplesmente assexuadas, frígidas, zumbis… Aí não há muito o que se fazer… a não ser tocar a bronha, digo, a vida… Mas ela não. O que me indignava era a forma franca que ela escolhia para me rejeitar, aquele “não quero, não quero”.

Quando a Ana nasceu, tivemos alguns bons momentos. O trabalho era tanto que não havia tempo para discutir a relação à noite. Muitas vezes acabávamos agarrados sobre os lençóis e, mesmo cansada, ela cedia. Tinha esperança de que ela fosse pouco a pouco me detestando menos. Também íamos a algumas festas juntos, mas na maioria eu ia sozinho. Ela me mandava ir e me divertir. Dizia para eu ir encontrar os amigos e não encher o saco em casa. Eu ia, mas só ficava feliz quando ela estava junto. Se ia desacompanhado, nem bebia para estar pronto se precisasse ajudá-la em qualquer eventualidade com o bebê e para não feder à bebida na cama. Eu ajudava à noite. Fazia a Ana dormir. Devo ser muito masoquista, porque, nas festas, ficava quieto no meu canto quando não estava com ela e aparecia para sorrir e conversar quando ela vinha junto. Eu sentia que tinha que protegê-la. Ela era uma mãe ao lado de jovens solteiros e eu sabia que devia demonstrar como estávamos bem. As outras gurias eram solteiras, descompromissadas, free as birds… e sempre poderia haver alguma indireta, sabe-se lá.

Bom, mas o que posso te dizer é que viver pisando em ovos é uma bosta e eu era infeliz. Mesmo quando a camaradagem, o carinho ou o sexo preponderavam eu tinha a impressão de que havia apenas ganhado uns pontinhos num campeonato onde ia de mal a pior. Houve um dia – a Ana já estava maiorzinha — que discutimos forte. O assunto era…

Raul interrompe seu discurso a um sinal do psiquiatra. Hoje terminou.

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O Monólogo Amoroso (IV)

Ela senta na cadeira do quarto do hospital, põe o gravador sobre o colo, liga-o e fala.

As visitas de Raul a meu quarto tornaram-se uma rotina nada insatisfatória. Passávamos muito tempo fechados ali. Porém, eu era desonesta. Mesmo em sua companhia, pensava em Ricardo ou num próximo namorado – lindo, inteligente, ideal, que me fizesse companhia em tudo. Era uma adolescente orgulhosa sei lá do que e desprezava Raul, considerando-o provisório, apesar de não tomar nenhuma atitude para afastá-lo. Acho que não suportaria ficar só. Estávamos sempre juntos e nos tocávamos muito, éramos reconhecidamente um casal. Minhas exigências adolescentes desejavam o grande amor com alguém admirável que reconhecesse a divina pérola que eu efetivamente era… Divagava muito, abraçava-o com o pensamento longe, planejando coisas, muitas vezes não prestando atenção ao que ele dizia. Minha vida era muito outra no âmbito mental… Não obstante, era carinhosa e tratava-o bem. Ele pensava que eu era assim, meio distraída. Minha sensação era a de que estava apenas cedendo a seus desejos sem envolver-me muito. Imaginava que estava passando por um período temporário e que logo viria – ou voltaria – algo maior e açambarcador.

As cartas para Ricardo eram poucas mas apaixonadas. Tinha criado uma ética peculiar: eu não mentia, apenas ocultava fatos. O curioso de organizar as memórias dessa maneira é que minha imagem muito piora frente a que tinha antes: naquela época, achava justo o que fazia. Ora, se perdera temporariamente quem eu queria, substituíra-o por outro, aguardando pelo retorno da situação inicial. Não contava a Ricardo sobre meu caso com um colega de turma. Seria humilhante e certamente o mesmo que romper com ele. Pensava que se ele descobrisse algo poderia resolver o problema negando peremptoriamente o fato. Ou talvez ele nem fosse se importar, sei lá. Céus, como era confusa! Só que Raul, o presente possível, acabou se tornando, digamos…, constitutivo de minha vida.

Sabes o que houve. Durante as férias, antes de nosso último ano de colégio, a menstruação não veio. Eu sempre tentava impedir os dias férteis, fazendo a contagem dos dias na agenda. Entre nós, havia a figura da “tabelinha”, a qual poderia desviar qualquer entusiasmo para outra solução. Tive certeza da gravidez. Não queria contar nada a Raul, pretendendo realizar o aborto proibido sem discutir com ninguém; porém, deu tudo errado. Fui a um médico que, como era de conhecimento corrente, cometia em seu consultório os tais “crimes”. Entrei lá nervosa, saí apavorada. Fazer um aborto bem feito em uma clínica limpa e com segurança era caríssimo, impraticável, considerando o dinheiro que tinha guardado e o que recebia semanalmente em casa. Ingenuamente, pensava que estaria pagando apenas o médico, não seus riscos. Então, alterei a primeira parte do plano e propus a Raul que dividíssemos o valor. Foi a sua vez de não me ouvir. Ignorou meus argumentos, ouviu somente que eu estava gerando um filho seu e, mesmo atemorizado e não sendo nada religioso, foi acometido de uma crise que foi, afinal, a segunda e decisiva causa de estares ouvindo esta gravação. Hoje não me arrependo, ganhei muito com teu nascimento, mas voltemos a Raul: disse-me que aquilo não era direito, que a alma da criança ficaria eternamente por aí e outras bobagens que nem lembro mais. Acabou contando o acontecimento a seus pais, que ficaram abismados e comunicaram os meus, que ficaram boquiabertos.

O resultado foi uma ação moral entre as famílias com o objetivo de fazer-me ver que não tinha direito nenhum. Era uma irresponsável. Meus sentimentos, opiniões, súplicas e revolta foram ignorados. Queriam silêncio sobre o assunto. Sabiam que eu não teria coragem de me submeter a uma aborteira qualquer e que, a cada dia, meus argumentos ficariam mais fracos à medida que “aprendesse a amar” o(a) inquilino(a) de meu corpo. Dissesse o que dissesse, a criança deveria nascer. Minha vida, planos – que planos? –, minha educação e carreira – que carreira, minha filha? – que se danassem. Em troca de apoio financeiro, ainda fomos forçados a uma discreta cerimônia civil num cartório. Tenho fotografias. Toda a ironia que utilizei durante aquele dia está… está onde? Vejo-me metida num vestido que adorava, vejo meu sorriso protocolar e só identifico algum desagrado no par de sapatos feios e gastos que escolhi, para horror de minha mãe. Do meu lado direito, vinte centímetros acima de meu sorriso de poucos dentes, está Raul. Parece feliz.

Foi uma gravidez tranqüila. Contudo, as mudanças que me aguardavam e aquele casamento forçado me deixavam muito assustada. Como seria o futuro entre o amor e a dedicação que demandarias de mim e o ódio que sentia daqueles familiares de atitudes repugnantes? Procurava preservar Raul de meu sarcasmo, mas era muito difícil. Falava mal de todos, achava que minha vida e sanidade mental estavam sendo minuciosamente destruídas aos 17 anos e tinha especial argúcia para criar objeções a minha sogra. Talvez esta fosse a forma que escolhi para atingir seu filho, que parecia perdido em meio a tantas pessoas cheias de opiniões. Ou talvez ele apenas estivesse como eu: acessório e paralisado.

Outro fato perturbador eram os outros. Meu papel mudara: de bela e cobiçada adolescente passei a “jovem gestante de mau passo”; deixara de ser a alegre e simpática Nina para tornar-me uma espécie de mulher fácil que errara lastimavelmente, adquirindo como punição uma gravidez que parecia ser uma doença transmissível que deixava consternadas as amigas, afastados os amigos e que me tornava inimiga de todos os pais. Era o exemplo a não ser seguido. Não tinha energia para responder àquele ambiente e procurava não chamar ainda mais atenção.

Nasceste pouco depois do final das aulas e, de acordo com o que ficara tratado entre os quatro avós, tu, eu e Raul ficaríamos algum tempo morando na casa de meus pais. Lá, várias mães — as duas avós, as parentes, as vizinhas e quem mais aparecesse — te disputavam e, quando notavam alguma hesitação em mim, logo procuravam “vender” suas bem sucedidas experiências à inexperiente que quase sempre as rejeitava. Detestava aquilo. Porém pouco a pouco fui adquirindo respeitabilidade. Resolvi abandonar temporariamente os estudos para dedicar-me exclusivamente a ti, deixaria a universidade para depois. Fui boa mãe, sabes. Acho que ficava abraçada a ti muito mais tempo do que aconselharia o bom senso e impedia outros de te trocar e alimentar. Observava e descrevia, naquele caderno que conheces, teu desenvolvimento e as novidades diárias. Penso que a Grande Revolução foi decidida lentamente naquele período. Prometia a mim mesma não esquecer o que passara durante a gravidez: o casamento às pressas a que fora sujeitada, a má cara de uns, a passividade de Raul, o tratamento que recebera como futura mãe adolescente, as pequenas agressões dos pais de Raul, a falta de apoio dos meus… – sem dúvida, aquilo tudo era um sólido curso para formação de ressentidos. A mãe de Raul, tua avó, lutava para interpor-se entre nós com a finalidade de ensinar-me sobre como sua neta deveria ser educada. Isto tudo me ofendia, e eu cobrava de Raul algum tipo de postura. Inútil, pois ele apenas circulava idiotamente pela casa sem achar o que fazer, assentindo a tudo. Fui uma boa mãe, certamente melhor que tua avó paterna foi. Permaneci meses em casa, só saindo para visitar pediatras e passear contigo.

Uma enfermeira entra para tirar-lhe a pressão e ela desliga o gravador.

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O Monólogo Amoroso (III)

Ricardo pegou um caderno espiral, escreveu lentamente “Cartas a Alguém” na capa, olhou sua letra irregular e pareceu-lhe ter escrito “Cartas à Algema”. Abriu-o.

Há quatro anos, vim à Itália em viagem de passeio com meus pais. A finalidade da excursão era mais sentimental que turística; eles queriam conhecer a pequena cidade de Oppeano, de onde seus pais, meus avós, vieram para o Brasil. Procurariam seus parentes. Seria, pois, uma viagem entediante pela Itália de tantas possibilidades. Para mim, a simples idéia das lágrimas, dos encontros a princípio incompreensíveis daqueles vênetos separados desde o Pré-Antigo de seus familiares de outro continente, era suficiente para causar náuseas. Armei-me de estoicismo para encarar o infortúnio, mas, antes de chegar à Oppeano, consegui, não sem segundas intenções, ingressos para um concerto em Verona – o que me obrigaria a ficar mais tempo na cidade – e lá, já em plena rebeldia, comprei uma e somente uma passagem para Veneza. Fingi uma segurança que ainda não tinha, aos 21 anos, para aproveitar a meu modo a viagem proporcionada pelos pais. Ora, eu queria conhecer o que pudesse da Itália, não de meus parentes. Fiquei surpreso ao ver que minha insubmissão fora recebida com condescendência; foi débil a tentativa de meu pai de me colocar em culpa para com “nosso passado comum” e para com o fato de eles não poderem apresentar seu único filho…

Fui direto de Verona a Veneza e, a médio prazo, acabei deixando orgulhosos meus pais: apaixonei-me tanto pelo país, adaptei-me com tanta facilidade, que meti em minha cabeça que, um dia, viria morar nesta região, nem que fosse por poucos anos. A profissão de músico não deixa ninguém rico, porém as chances de viagens para mestrados, doutorados ou simples formação são grandes. Já a aventura de meus pais foi mal sucedida, os tais parentes foram evasivos e até antipáticos para com aqueles descendentes de imigrantes subitamente materializados. Foi complicado converter sua viagem de sentimental em turística. Passaram quase todo o tempo da viagem no Vêneto, certamente decepcionados com o final melancólico da empreitada.

Estudei muito para voltar à Itália. Meu objetivo era, na realidade, ser aceito no Conservatório de Veneza, mas dizia a todos que estava indo para Roma, pois tinha consciência das dificuldades de um violinista do meu nível em Veneza. Mas fui lá, com meus parcos oito anos de instrumento, fazer minha tentativa. Cheguei de trem a Veneza, vindo novamente de Verona. Mesmo chegando na cidade pela segunda vez e no mesmo local, tomei o mesmo choque. A saída da estação de trens dá-nos uma visão extraordinária e inesquecível. Há a calçada por onde caminhamos, uma calçada normal, há edifícios normais do outro lado da rua, só que no meio há água salgada e barcos, ou seja, é mar. E há os gritos de vendedores querendo que se entre neste ou naquele barco. Mas é difícil decidir qualquer coisa, pois o estrangeiro fica ali, embasbacado. Parece uma perturbadora montagem de cinema, um efeito especial em que os carros e o pavimento são substituídos por barcos e água, algo que poderia ser uma piada ou um belo quadro surrealista, não fosse verdadeiro. Peguei o barco para a Piazza da Catedral de San Marco lembrando A Morte em Veneza, de Thomas Mann, e o escritor Gustav Aschenbach – transformado, anos depois, em compositor no filme de Visconti. Abobalhado, fiquei imaginando qual seria o tom exato do cabelo do Padre Rosso Vivaldi e nos rostos das meninas do Conservatório do Ospedale della Pietà. As lembranças literárias e o Estro armonico que começava a ser executado em minha cabeça, misturado com o barulho do motor do barco que nos levava, era o contexto dentro do qual chegava à cidade, confiante num futuro brilhante. Antes que Algema pergunte, já vou respondendo que não!, não procurei adolescentes bonitinhos pela cidade…

Desci em San Marco e iniciei uma caminhada pela cidade que deveria começar pela pensão em que me hospedaria e que terminaria pela visita ao local de minha audição. Dois dias depois, fosse pela beleza da cidade, que favorece naturalmente às artes – acredito nisso! -, fosse por uma esquizofrenia recém adquirida, fui perfeitamente calmo para a audição, com a certeza de que seria rechaçado pela banca. Despreocupadamente, imaginei que estava em meu quarto com Nina, tocando a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach para seus olhos azuis. Sabia que minha “interpretação” era ridícula, mas que, bem concentrado, poderia colocar todas as notas em seus lugares, nada além disto. Foi o que fiz. Porém, talvez por pena, talvez por meu sobrenome vêneto, meu ingresso acabou sendo confirmado ali mesmo.

Na comemoração, bebi minha primeira garrafa de vinho a preço veneziano e, entusiasmado e até acreditando num futuro em alguma orquestra da cidade, escrevi para Nina e para os amigos, contando sobre a atmosfera da cidade e minha vitória. Logo, travei amizade com uma dupla de argentinos que engordavam suas bolsas apresentando em bares um novo compositor hermano: Astor Piazzolla. Ele não me empolgava muito, mas os venezianos ficavam fascinados pelo novo tango, que apresentávamos em versões para violino, violoncelo e piano. Aquele simulacro portenho em Veneza logo se tornou absolutamente necessário a meu orçamento. O italiano que falava ainda era péssimo e a convivência com aqueles argentinos que só falavam espanhol entre si e comigo me atrapalhava mais. Tornamo-nos grandes amigos. Estes “concertos” de fim de semana não perturbavam meu desempenho no Conservatório, que era, como sempre, mediano.

Fecha o caderno.

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O Monólogo Amoroso (II)

Ela pressiona a tecla REC.

Fiquei muito mal nos primeiros dias. Em sua primeira carta da Itália, Ricardo escreveu sobre nós. Lembro que tentou descrever os papéis que tínhamos um em relação ao outro. Dizia que eu lhe proporcionava um fluxo de carinho tão constante que acabava fazendo-o recuar a uma posição de mero recebedor de amor. Muitas vezes ele tomava iniciativas espasmódicas, mas estas eram infinitamente inferiores – em número e em intensidade – a minha constante secreção de confortos. Assim, eu o deixaria numa falsa posição egoísta. Porém, quando algo fazia com que eu diminuísse “minha enorme capacidade de doar amor”, ele se voltava imediatamente para mim. Nestes casos, sempre constatava que algo tinha acontecido e tinha de ser resolvido, normalmente uma desatenção maior da parte dele. Escreveu que aquele era nosso equilíbrio. Ele, o artista recebedor de atenções; eu, sua dedicada amante. Não sei se isso exprimia nossa realidade. De minha parte, meu lado amante negava tanto o amado, que me via muitas vezes tomada por um grande cansaço e uma sensação de falta incurável, a que não saberia dar nome. E, em sua ausência, havia uma falta efetivamente incurável e que me deixava repleta de tristeza.

Nunca soube muito sobre seus estudos romanos e venezianos, soube foi de shows em bares em que se executavam músicas de Astor Piazzolla, então uma novidade quase indecorosa, arranjadas para violino, violoncelo e piano. Ficava lindo, mas não é este meu assunto.

Nesta idade, vai-se muito a festas e meus colegas, sabendo-me sozinha, partiram a abordagens às quais não teriam coragem se eu estivesse com ele. Minha reação? Ora, eu tinha 16 anos… Estava cheia de saudades, mas era difícil ficar solitária. Nas aulas, rejeitava a abordagem dos amigos, mas nas festas, dançando, aceitava ser minuciosamente amassada durante as músicas lentas. Os garotos sentiam-se à vontade comigo, pois imaginavam estar em contato físico com alguém com alguma experiência sexual – afinal, eu parecia namorar um homem! – e que, por conseguinte, cederia com maior facilidade. Talvez tivessem razão. Naquela época era assim mesmo. Havia as iniciadas e as inexpugnáveis. Eu pertencia ao primeiro grupo. Um dos que mais me abraçava, me apertando a ponto de me machucar, tirando-me do chão em certos momentos – e não se engane, não era por eu estar na nuvens -; um que tinha um ar meio desesperado de desejo e que todos temiam por ser grandalhão, bem, Ana, este era teu pai.

Se os amassos nas festas eram o apogeu daqueles dias, sua antítese estava na vida familiar e na falta que sentia de Ricardo. Sofria, mas também pensava que o amor por ele era algo inserido nas coisas não permitidas a alguém da minha idade e, então, à minha saudade misturava-se certo alívio. O restante que Ricardo levara consigo, toda minha vida cultural, era em parte recuperada através da leitura e da Rádio da Universidade, além dos concertos gratuitos de domingo de manhã. Trocávamos cartas, porém a demora do correio e uma inexplicável preguiça faziam com que as notícias e os afagos por escrito também ficassem pouco a pouco à deriva. Logo cansei daquele namoro epistolar, com suas belas promessas e juras de amor, acrescentadas de um descumprimento de parte a parte, pensava. Apesar disto, sentia falta de Ricardo. Ele me perguntava o que estava acontecendo e eu lhe respondia que tudo estava igual, que o aguardava. Só que ambos sabíamos que não era verdade, havia uma indireção em minha forma de agir que abria espaço para o rompimento.

Tu deves estar te perguntando se os causadores desta postura não seriam os meninos das festas – especialmente aquele que veio a ser teu pai. Mas, olha, aquelas noites, para mim, tinham maior importância pelo assunto que geravam no âmbito do colégio e dos amigos, do que qualquer outra coisa. Um dia, de forma totalmente egoísta, pensei que convidar teu pai para ir ao cinema poderia representar uma evolução em minha vida. Ricardo, na Itália, sempre me escrevia indicando filmes com seus diretores e títulos traduzidos em várias línguas a fim de que eu os localizasse na libérrima tradução brasileira, mas o cinema – principalmente as sessões noturnas – era algo inatingível para uma adolescente com pouco dinheiro e liberdade. Porém, com Raul a meu lado, obtinha automaticamente dois privilégios: a permissão para sair à noite – meus pais tinham mais confiança e simpatia por ele do que no distante, adulto e perigoso Ricardo – e o ingresso pago. Raul usava a sala escura exclusivamente como mais uma oportunidade de beijos, abraços e bolinações. É claro que eu adorava aquilo; quase sempre ignorávamos inteiramente o que se passava na tela e lembro de não ter visto vários filmes absolutamente atenta a seus lábios e mãos. Raras vezes dividia-o com filme. Então, ocorreu uma noite muito especial. Fomos ao cinema e, no dia seguinte, supliquei-lhe para ver o filme novamente. Raul equivocou-se ao pensar que meu pedido tinha a finalidade de obter a repetição da intimidade acrobática das salas escuras.

O motivo era Jeanne Moreau e François Truffaut. Enquanto caminhávamos, disse-lhe:

— Raul, este filme é muito bom e desta vez eu quero assistir de verdade, tá?

A onda de decepção que tomou conta dele foi respondida por uma enorme onda de ternura. Abracei-o e repentinamente perguntei se ele não queria ir a meu quarto na próxima noite, após o filme. Afinal, meus pais e irmãos dormiam cedo e, com sorte… Quem sabe? Seria nossa primeira experiência não improvisada, as outras tinham sido em festas, portões de edifícios, cinemas e em outras circunstâncias difíceis.

Fico pensando se o que sentia por ele era amor. É certo que não podia causar-lhe nenhuma mágoa sem senti-la retornar com toda força a meu peito. Naquela noite, pude ver o filme inteiro. Fantasiava ser Catherine, Ricardo era Jules e Raul era Jim. Saí da sessão eufórica, feliz e decidida a cumprir minha promessa. A mesma voz que narrava em off o filme de Truffaut (a voz do próprio Truffaut?), dizia-me em português: “Agora, Catherine decidira ir a seu quarto com ele, custasse o que custasse. Seria a melhor reparação que poderia oferecer a Jim.”

Estava nas nuvens. Se não tínhamos as bicicletas de Catherine, Jules e Jim, fomos correndo a minha casa. Ele me puxava pelo braço, eu quase caía nas calçadas irregulares, mas, ao chegarmos ao edifício onde morava e com receio de acordar meus pais, substituímos a pressa pela cautela. Ficamos na porta do edifício e tentei conversar sobre o filme, mas logo vi que era complicado conversar com Raul sobre sua leve e ousada indecência. Além disto, ele estava muito inquieto e utilizara expressões como putaria e outras, as quais serviram para que eu descesse alguns andares de minhas nuvens. Mudei de assunto.

Sem parar de conversar e fingindo ignorar o imenso ganho secundário programado para aquela noite, fomos nos aproximando da porta. Enquanto acontecia, baixávamos progressivamente a voz. Não nos tocávamos. Quando deixei a porta do apartamento entreaberta, sussurrávamos. Voltada para fora, apoiei meu ombro no marco de porta e dava respostas rarefeitas a ele. Sabíamos que outro discurso escondia-se sob as banalidades que pronunciávamos e este dizia algo como “Há alguém ainda acordado?” ou “Quando poderemos finalmente entrar?”, etc. Depois de um tempo infinito, ele colocou delicadamente o dedo indicador em meu peito empurrando-me para dentro do apartamento. Calados, chegamos a meu quarto.

Virou rotina. Em muitos dias, amanhecia com olheiras por dormir muito tarde; tinha aula pela manhã. Raul saía no meio da noite e eu tinha certeza que meus pais suspeitavam mas que não tentariam comprovar nada e nem fariam perguntas.

Ela desliga o gravador.

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O Monólogo Amoroso (I)

Que importância tem isso? Tuas palavras servem a tua realidade; as minhas, à minha. Se trocarmos as palavras, elas passam a não valer nada.

INGMAR BERGMAN – Sonata de Outono

Ela se virou com dificuldade para o lado e, com o gravador sobre o travesseiro, ligou-o e começou a falar.

Minha querida filha. Ontem fiquei surpresa com nossa conversa. Não esperava tuas expressões desencantadas e as comparações que fizeste entre a minha vida e a tua. Disseste que minha existência era a comprovação de que todo amor e intimidade transformava-se inexoravelmente em indiferença ou ódio. Não concordo. Não é minha experiência geral e, se é a tua, só posso lamentar. Como penso que não sobreviverei à doença, quero deixar aqui um registro sobre fatos de nossas vidas que talvez ignores. Prometo gravar meus monólogos nos intervalos entre minhas crises de dor. Não suportas minhas lamúrias de doente e, além disto, há outro motivo para pensar que estas gravações sejam ideais para mim: sabes que tenho dificuldades em discussões e discursos; me emociono facilmente e, se antigamente os bons argumentos acabavam me chegando tarde, comumente quando já em retirada, na situação atual talvez eles nunca aparecessem. Não tenho pressa, alguém diria que tenho todo o tempo do mundo; espero tê-lo ao menos para organizar meus pensamentos. Não tenho expectativas de que aquilo que vou contar agora tenha grande repercussão em ti, mas gostaria que soubesses. Minha história começa lá por 1963, durante minha adolescência.

Li num livro qualquer uma frase em que o autor dizia que não tivera adolescência, que passara da infância diretamente para a inexperiência adulta. Parece ter sido o meu caso. Apaixonei-me por Ricardo quando tinha 15 anos. Ignoro o que ele, um estudante universitário nove anos mais velho, teria visto numa tapada como eu. Está bem, diziam que eu era bonita, mas era só. Em nosso mundo da Avenida João Pessoa, ele era o vizinho desconhecido, o que entrava e saía de seu apartamento de solteiro pouco menos que cumprimentando os outros moradores. Eu o via raras vezes, apesar de passar horas conversando com os amigos, sentada na escadaria de entrada do edifício ao lado, onde morava. Ele não tinha nada de especial; entre nós, seu apelido era o “cara dos discos”, pois quase sempre carregava alguns deles, junto com uns cadernos não muito grossos, que depois soube serem partituras, e uma caixa de violino. Um dia, eu estava comprando sorvete no bar perto de casa quando ele entrou e puxou conversa. Não acreditei que qualquer tipo de amizade pudesse prosperar entre eu e um homem adulto e, toda sorridente, caminhei com ele até seu edifício, pensando no que os outros diriam daqueles cem metros de conversa. Mas ninguém vira o que para mim fora uma lisonja e fui obrigada a anunciar deselegantemente a epopéia a minhas amigas: eu falara com o “cara dos discos”, ele se chamava Ricardo e era músico, violinista. Houve algumas referências sobre sua profissão e sobre como os discos que ele levava seriam ruins. Sentindo que nosso encontro não aumentaria nem prejudicaria minha reputação, acrescentei, também sem sucesso, que ele era fazia um mestrado na Universidade.

Como por mágica, passei a vê-lo quase todos os dias. E sempre conversávamos. Às vezes, conjeturava se era a minha vaidade o que fazia alongar excessivamente nossos diálogos ou se era Ricardo quem desejava minha companhia. Eu não tinha objetivos. Ele estava muito distante de meu ideal de adolescente e me parecia algo entre o não desejado e o inatingível. Um dia, mostrou-me alguns discos de que não lembro e estendeu-me um de Sonatas para Viola da Gamba e Cravo, de Bach. Deu-me vontade de não aceitar o disco, pois viera acompanhado da frase “Este eu não ouço tanto”, o que denunciava sua opinião sobre minha importância. Porém, minha enorme timidez impediu-me qualquer negativa. Assim, com toda a dedicação, ouvi pela primeira vez aquele emaranhado de notas, sem saber nada sobre as leis que regiam o que me parecia um novelo inextricável e menos ainda o motivo pelo qual uma música tinha várias partes, umas rápidas e outras lentas, que eram mais chatas que as primeiras. Porém, uma hora depois, já tinha pesquisado e entendido que aquilo que chamava de partes eram movimentos e que uma música, ou obra, era formada por vários movimentos, sendo que os rápidos eram “Allegros” ou “Vivaces” e os lentos “Adágios”. Com toda esta bagagem cultural e tendo descoberto que Bach nascera em 1685, ouvi com mais simpatia o disco emprestado.

Dois dias depois, Ricardo surpreendeu-me ao perguntar direta e seriamente o que eu achara do disco. Disse que tinha gostado e ele me prometeu outros. Estávamos ficando amigos. Ele perguntava e parecia interessar-se por meus assuntos de estudante secundarista e eu lhe retribuía ouvindo seus discos e comentando-os a meu modo. Depois de tantos encontros, eu já o achava legal, às vezes bonito e era natural que eu o visse como uma possibilidade de namorado. Meus amigos nos viam e também conversavam com ele, principalmente as amigas, mas eu escondia o fato de acompanhá-lo diariamente até o Instituto de Música da Universidade – uma longa caminhada – e que ele perguntara sobre os horários de saída de colégio, pergunta que fingi não ouvir.

OK, aproximei-me por vaidade, esta transformou-se lentamente em atração física, misturada à intuição de que havia naquele rapaz com a barba por fazer a possibilidade de ser salva de uma vida familiar e futuro vulgares. O rosto de Ricardo carregava em si objetivos, concentração e interesses em coisas que não diziam respeito a meu cotidiano: ele ensinava-me sobre música, cinema e leituras, trazia um outra esfera para mim. Contava-me também sobre sua angústia: a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach. Quando chegou seu violino novo – que depois mostrou-se quase igual àquele que seu pai lhe dera -, permaneceu semanas ensaiando-a em casa, afastado de todos. Sim, de todos, porém eu era recebida. Minhas visitas não eram de forma alguma assexuadas, mas não havia contato físico. Minha primeira cerveja e copo de vinho foram tomados em seu apartamento. Ríamos muito, eu tinha evidente admiração por ele e tal sentimento apenas aumentou quando soube afinal o motivo de tanto esforço: ele estava preparando-se para uma audição em Roma que poderia dar-lhe uma bolsa de estudos. Uma semana antes da viagem, ele me beijou apaixonadamente. Na hora, a novidade deu-me vontade de rir, como se estivesse participando de uma coisa para a qual estivesse despreparada, mas por nada desistiria, ainda mais tendo à frente uma longa separação. Foram dias em que fiquei mais em sua casa do que na de meus pais. Deixei de ir às aulas no turno da tarde para ficar abraçada a ele sob as cobertas. Meus amigos logo desconfiaram do cara dos discos. Naquela altura, creio que nos amávamos muito.

Ela desliga o gravador e fecha os olhos para dormir.

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