Um Fígado para Roberto Bolaño (Final)

Os livros modernos que mais amamos nascem da confluência e do choque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar e de estilos de expressão. Ainda que o desenho geral tenha sido cuidadosamente planejado, o que conta não é a construção de uma figura harmoniosa, mas a força centrífuga que libera, a pluralidade de linguagens como garantia de uma verdade imparcial.

ITALO CALVINO, Seis propostas para o próximo milênio

Roberto Bolaño é fácil de ler. Sua prosa é fluida e bem humorada até quando descreve o bizarro, a desgraça e o patético. Só que esta opção pela clareza parece ser um artifício para nos colocar problemas abismais e demonstrar uma realidade dividida e ramificada de tal maneira que precisei recorrer a esquemas gráficos para entender quem conhecia quem e o que quando li Os Detetives Selvagens. Mas a tentativa não melhorou minha leitura e desisti. É estranho como a orelha da edição da Companhia das Letras involuntariamente diminui a obra. Dizer que o livro é sobre a procura de dois poetas, Arturo Belano e Ulises Lima, por uma terceira, a misteriosa Cesárea Tinajero, é o mesmo que dizer que Os Irmãos Karamázovi discute apenas quem, afinal de contas, teria matado o velho Fiódor…

Os Detetives Selvagens tem 3 partes. A primeira, de mais ou menos cem páginas, uma longa segunda parte de 500 páginas e uma terceira, um epílogo curto. Apesar da esplêndida introdução, o que interessa está na segunda parte: esta é formada de textos escritos na primeira pessoa do singular. São mais de 50 narradores que se alternam para contar a história dos personagens e outros fatos que aparentemente não tem muito a ver. Eles são extremamente envolventes, apesar de quase sempre finalizarem de forma abrupta, como um Tchékhov enlouquecido que resolvesse retirar não um, mas os dois ou três últimos parágrafos. A gente fica… com vontade de ler o próximo, que é, normalmente, sobre outro assunto envolvente e que novamente nos deixará na mão. É claro que nos acostumamos e acabamos por achar divertido o autor que nos tira o pão da boca. Só que o efeito geral da obra é devastador. Quando você se afasta do livro, acaba descobrindo que as narrativas complementares estão se afastando do plot, ao invés de formar um todo tranqüilizador. O romance é minuciosamente descontrolado por um homem de visão nada indulgente para com toda aquela turba. O resultado de toda a alegria de viver demonstrada é o desencanto e é mais, é o horror do vazio.

Tudo é parcial e tem múltiplas significações no mundo falsamente simples de Roberto Bolaño. Para referenciar o vazio, Bolaño recorre, como me ensinou a Meg, à hipérbole, ou seja, a intensificar a vida de forma inconcebível, de forma a negá-la. Explicando melhor, Bolaño escreve infinitamente suas belas histórias sem origem nem fim, preenchendo infinitamente todos os espaços ficcionais com sua prosa agradável e de inícios e finais abruptos, conseguindo, com isso, negar seu preenchimento, mostrando o inconsolável vazio de seus inteligentes e simpáticos personagens. De que outra forma apreenderíamos o vazio senão valendo-se da hipérbole? Mais: Bolaño utiliza-se brilhantemente de repetições, só que elas são normalmente imprecisas, diferentes, perturbadoras.

Não estou com o livro a meu lado, mas creio que a única história onde o horror é descrito de forma direta é uma das mais belas que já li: o episódio de Auxilio Lacouture. Trata-se do seguinte: quando a Universidade Autônoma do México foi invadida pelo exército em setembro de 1968, Auxilio decidiu permanecer no banheiro, onde já estava, resguardando o último reduto de autonomia universitária. Ela lê um volume de poesias, e às vezes observa e ouve os militares que cuidam para que ninguém entre na Universidade. Permanece ali por vários dias (não lembro quantos), em plena resistência e com “uma certeza meio vaga” de que ia morrer. Não morreu, tornando-se uma heroína aos olhos de alguns amigos, enquanto outros duvidavem da história. (Depois, a uruguaia Auxilio transformou-se em protagonista do romance Amuleto (1999), mas este é outro assunto).

Mas por que, céus, escrevi quatro posts sobre Bolaño? Porque acredito que seu projeto literário seja realmente importante e pode ter continuidade sob a mesma ou outras formas; porque acho que os jovens que o lêem com tanta dedicação têm razão; porque acho que Bolaño é um escritor que finalmente escreve para o futuro e não repisa experiências gastas; porque tenho certeza que ele desejava ser popular e lido; porque ele foi um vanguardista que se preocupava em não ser um serial killer de leitores e porque ele era humano o suficiente para dizer que escrever era…

Correr por el borde del precipicio: a un lado al abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida.

ROBERTO BOLAÑO – Discurso quando do recebimento do Prêmio Rómulo Gallegos

Obs.: As citações de Calvino e Bolaño constantes neste post foram retiradas deste trabalho de Rafael Gutiérrez Giraldo.

Um Fígado para Roberto Bolaño (III)

Em 2004, achei que era brincadeira quando li que um certo chileno chamado Roberto Bolaño morrera em julho do ano anterior, aos 50 anos, em Barcelona. Até aí, tudo bem, as pessoas morrem jovens e é uma injustiça mesmo; mas é que vários jornais e revistas lamentaram o desaparecimento de um dos três principais autores contemporâneos da América Latina. Os outros eram García Márquez e Vargas Llosa. Roberto Bolaño? Quem é, ops, quem era? Esqueci do assunto até que a Companhia das Letras anunciou o lançamento de Noturno do Chile. Comprei-o logo. Resultado: engoli o livro num final de semana e, penso agora, que Susan Sontag não estava brincando quando disse que Noturno do Chile é o que há de melhor e de mais precioso.

A seguir, deixo para vocês duas críticas sobre o livro. Volto nos primeiros minutos de amanhã para comentar Os Detetives Selvagens, livro que li no final do ano passado e que não me sai da cabeça. Ah, a primeira crítica é de Adelto Gonçalves e saiu na Gazeta Mercantil:

São Paulo, 27 de Novembro de 2004 – A morte do escritor chileno Roberto Bolaño em 2003, por insuficiência hepática, aos 50 anos de idade, em Barcelona, interrompeu prematuramente uma carreira literária que já o colocara entre os maiores autores da literatura de um país que já teve dois ganhadores do Prêmio Nobel – os poetas Pablo Neruda (1904-1973) e Gabriela Mistral (1889-1957).

Quem duvida que leia “Noturno do Chile” (Nocturno de Chile), que acaba de ganhar tradução em português de Eduardo Brandão pela Companhia das Letras, de São Paulo, um apaixonante monólogo interior de um padre crítico literário às vésperas da morte. Embora não se deva confundir a persona com o seu autor, é impossível deixar de ver no religioso Sebastián Urrutia Lacroix um alter ego e, no texto, um acerto de contas do escritor com o seu passado.

Bolaño estava em plena atividade literária: em 2001, havia publicado o livro de contos “Putas asesinas” (Barcelona, Alfaguara) e era autor de “La pista de Hielo”, “Llamadas telefónicas” e do romance “Los detectives salvajes” (1998), com o qual obteve o Prêmio Rómulo Gallegos. Mas a notoriedade, ele havia obtido mesmo com o livro “La literatura nazi en América” (1996). Bem, a rigor, isto é o que se informa na edição brasileira, o que leva o leitor que não conhece Bolaño a imaginá-lo um autor de poucos títulos.

Não é. Ainda em 2002, Bolaño lançou o romance “Amberes” (Barcelona, Anagrama) e “Una novelita lumpen” (Barcelona, Mondadori), breve romance que conta a história de uma jovem que, a partir da morte dos pais num acidente automobilístico, converte-se na “mãe” do irmão menor, reorganizando o sentido de sua existência – aparentemente, também um romance de formação, pois, claro está, é inspirado na vida atribulada de um chileno desarraigado por força da situação política em seu país.

Em 2000, Bolaño publicou pela editora “El Acantilado”, de Barcelona, o livro híbrido “Tres”, que está dividido em três partes: “Prosa del otoño en Gerona”, “Los neochilenos” e “Un paseo por la literatura”. A primeira e a segunda partes estão em prosa e a terceira, em verso, um poema narrativo que inclui personagens, diálogo e histórias que contam uma viagem ao Norte do Chile, Peru e Equador por um grupo musical de jovens na faixa dos vinte anos e de seu cantor, o mais maduro deles. O poema emprega endecassílabos, octassílabos e heptassíbalos, deixando entrever que foi escrito para ser falado em voz alta.

De 2000 ainda é a segunda edição do romance “Estrela distante” (Barcelona, Anagrama), que ganhou tradução francesa em 2002 (Étoile distante). Seu tema é inspirado no último segmento de “La literatura nazi en América” (“Ramírez Hoffman el infame”) e recupera os anos de 1968 e de 1973 no Chile, especialmente em relação a sua literatura e seus poetas.

Depois de ter saído do Chile com a família para o México em 1968, Bolaño retornou em 1973, entusiasmado com os rumos do país sob o governo socialista de Salvador Allende, mas, depois do golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet, ficou detido.

Libertado por um amigo de infância, seguiu para o exílio e, depois de uma passagem por El Salvador, radicou-se na Cidade do México, onde criou o grupo de vanguarda Infra-Realismo e passou a publicar poemas. A partir de 1977, estabeleceu-se na Espanha e lá permaneceu até o fim, pois retornar ao Chile ao tempo de Pinochet equivalia a uma condenação à morte.

Noturno do Chile é um romance que, publicado na Espanha em 2000, ganhou tradução em 2002 na Inglaterra e nos Estados Unidos e em 2003 na Itália. Escrito em linguagem que contagia o leitor desde o início, não tem divisões nem segmentações.São 118 páginas com apenas dois parágrafos – aliás, o segundo, inspirado em Norman Mailer, diz apenas o seguinte: “E depois se desencadeia a tormenta de merda”.

O narrador, testemunha do tempo que precede o assalto ao poder pelo general Pinochet e seus sequazes, repassa a sua vida num monólogo febril, reconstruindo na memória dois momentos especiais da vida chilena – antes e depois do golpe. Lacroix é um religioso ainda aferrado aos dogmas da Igreja, que não dispensa a sua batina surrada, usando-a como se fosse uma bandeira.

Jovem talentoso, entra para a elite das letras chilenas pelas mãos de Farewell, o crítico literário mais respeitado do país e também proprietário rural. Vários escritores chilenos – e alguns estrangeiros – são citados com seus nomes completos ou sob pseudônimos. Críticos importantes do jornalismo chileno da segunda metade do século XX também surgem disfarçados como Alone e Nicasio Ibacache, personagens que apareceram pela primeira vez em “Estrella distante”.

Há ainda uma alegoria anagramática em dois personagens – Odeim e Oidó (medo e ódio em espanhol escritos de trás para a frente) -, empresários de comércio internacional que convidam o padre para fazer um trabalho na Europa: visitar igrejas de referência em matéria de soluções antidesgaste, estudar as técnicas de conservação, cotejar os distintos sistemas e escrever um relatório.

De volta da Europa, Lacroix encontra o país convulsionado pela crise do governo de Salvador Allende, pressionado pela conjuntura financeira internacional e pela burguesia assustada com suas promessas socialistas. O religioso, porém, passa a ignorar o que corre pelas ruas, fechando-se em casa para ler freneticamente autores gregos. Depois do golpe, curiosamente, é contratado pelos novos donos do poder para dar aulas de marxismo a ninguém menos que o general Pinochet e seus companheiros de junta militar.

Com um ponto de vista ético irônico e malévolo, o memorialista recorda uma festa entre intelectuais ao tempo da ditadura Pinochet num casarão localizado nos confins de Santiago, de propriedade de uma ricaça candidata a escritora, Maria Canales, casada com um norte-americano, Jimmy Thompson.

Lá pelas tantas, um teórico da cena de vanguarda, um tanto bêbado em busca de um sanitário, descobre no porão da casa um homem amarrado numa cama metálica, de olhos vendados, ainda vivo, a respirar com dificuldades, cheio de feridas, “supurações, como eczemas, mas não eram eczemas, as partes maltratadas de sua anatomia, como se tivesse mais de um osso quebrado”. Soube-se, depois, quando chegou a democracia, que Thompson havia sido um dos principais agentes da Dina, a sanguinária polícia política de Pinochet, e que usava a sua casa como centro de interrogatórios e torturas.

Com a descrição de casa dos horrores, o memorialista compõe a metáfora do Chile que lhe coube viver, um país hoje organizado economicamente, às portas do seleto clube do Primeiro Mundo, mas que, pela insânia de seus generais e das elites nacionais e estrangeiras que os financiaram, teve de descer ao inferno e viver um pesadelo que haverá de perturbar o sono de todos os chilenos por várias gerações.

Ao reconstituir a vida social e literária do Chile da segunda metade do século XX, às vezes, de maneira sedutora e, outras, de modo corrosivo, Bolaño não faz só mais uma denúncia política da tragédia latino-americana de nossos dias, mas revolve o esterco de que é feita a espécie humana.

A segunda é de Francisco Foot Hardman e foi publicada na Folha de São Paulo:

São 110 páginas num só fôlego, por isso mesmo num só parágrafo. Imagine que você está mal, não lhe resta muito tempo, e agora mesmo deva passar em revista todos os acontecimentos de sua desafortunada existência, você que foi poeta e crítico literário de ponta, que serviu à inteligência do país como poucos de sua geração. Imagine-se no lugar deste protagonista agônico, padre Lacroix. Sua memória confunde-se com a da história do país, “entre um descampado e um crepúsculo interminável”. Não há mais testemunha do seu solilóquio: há apenas este fantasma renitente do “jovem envelhecido” que lhe perturba as imagens, afeta o juízo. “Noturno do Chile” pode ser lido como uma elegia para um país impossível, para uma pátria literária que é só pesadelo e contra-senso.

É possível falar de “literatura chilena” após Pinochet?, parece-nos indagar Roberto Bolaño, atualizando os termos de Adorno, mas desviando o discurso da metalinguagem filosofante, da novela-ensaio, em prol de uma ficção que corrói todas as ilusões de estéticas redentoras ou de romances da denúncia catártica. Ficção do real arruinado pela contra-revolução na América Latina, definida pelo autor em conto recente como “o manicômio da Europa”. Ao que acrescenta: “O manicômio, há mais de 60 anos, está queimando em seu próprio azeite, em sua própria gordura”. Literatura “visceral-realista”, como costumou-se chamar, no mundo hispano-americano, a corrente de poetas e escritores exilados, entre os quais Bolaño, que se formou no México, em meados dos anos 70. Denominação adequada porque a aspereza dessa prosa torrencial incorpora-se às sensações corporais mais primárias.

A violência é internalizada em imagens rápidas e ríspidas, tragicômicas, absurdamente triviais em sua cotidianidade, que, num repente, irrompem como um soco no estômago capaz de quebrar nossos automatismos perceptivos, mas sem nunca transpor o limiar de suas terríveis cadeias, de seus equívocos sinistros.

Se “Noturno” consegue enfrentar o duro dilema da ficção pós-desastre no Chile, “Estrella Distante” (1996) tinha sido o romance inaugural dessa linhagem, trazendo para a primeira cena os efeitos da repressão genocida sobre toda uma geração, não como prática social ou política, mas como experiência mental e corpórea imediata. Já nos ótimos contos de “Putas Asesinas” (2001), saídos um ano depois de “Noturno”, a marca que perpassa é a da memória deslocada pelo exílio, “o calor de uma certa desmedida”, que é o vagar sem rumo dessas escrituras de proscritos.

Tendo vivido metade de sua vida na região de Barcelona (Roberto Bolaño morreu no ano passado, com 50 anos, e lá viveu desde 1978), é “visceral” mesmo sua desconfiança com respeito à instituição literária, sobretudo no que diz respeito à construção de mitologias e martirológios nacionais. O vigor incisivo de sua prosa espiralada não redime nenhuma das ilusões de uma nacionalidade fundadora, seja antes, durante ou pós-era Pinochet.

Em “Noturno”, a narrativa investe contra o mundo dos artistas (a personagem María Canales é casada com um agente norte-americano da Dina, o temível órgão de repressão e tortura), críticos (na figura de Farewell, autoridade absoluta do mundo literário chileno, cujo declínio já se insinua no nome) e poetas (desconstruir o mito Pablo Neruda é um dos esportes favoritos dos narradores de Bolaño).

Também a Igreja Católica não passa incólume, nessa presença em muitos lances patética do padre Lacroix, membro da Opus Dei: contratado por dois comerciantes obscuros (os senhores Odem e Oidó, anagramas respectivos de medo e ódio, detalhe muito bem apanhado pelo tradutor brasileiro, Eduardo Brandão), ele oferece aulas introdutórias e clandestinas de marxismo à junta militar golpista, apoiado, entre outros textos, no manual de materialismo histórico da chilena Marta Harnecker, hit das esquerdas latino-americanas dos anos 60 e 70.

Mas “Noturno do Chile” não é libelo, nem pote amargo. Se a paisagem é a da noite elegíaca de uma barbárie que ultrapassou os portais do absurdo, e a atmosfera ronda sempre o pesadelo, sobra entretanto humor, imaginação, erudição literária e um lirismo que se espraia em detalhes só acessíveis a um escritor que começou a escrever, viveu e morreu como poeta, no epicentro de terremotos que solaparam as utopias de sua geração. Cujos rostos talvez se pareçam com o desse “jovem envelhecido”, “fantasma”, ternamente admissível, contudo, se não pretendermos continuar o vôo cego.

(o final será publicado nos primeiros minutos de amanhã, sexta-feira)

Um Fígado para Roberto Bolaño (II)

E então, após sua morte, os livros de Bolaño começaram a vender cada vez mais. Há muito Bolaño nos blogs de língua espanhola e <em>Os Detetives Selvagens</em> e <em>Estrella Distante</em> são os preferidos de meus colegas. Alguns deles traçam linhas de continuidade e conexões entre <em>Os Detetives</em> e <em>O Jogo da Amarelinha</em> de Julio Cortázar ou <em>Adán Buenosayres</em> de Leopoldo Marechal. Falam não apenas das qualidades literárias de Bolaño, mas de suas obsessões como a eterna busca de personagens perdidas, amores e cidades. Li <em>Os Detetives Selvagens</em> na virada deste ano, mas como minha leitura d`<em>O Jogo</em> data de mais de 30 anos, não consigo estabelecer tais conexões, apesar de não ignorar que qualquer livro que contenha 50 ou mais narradores deva alguma coisa à Cortázar…

Santificado hoje e diabólico ontem, Bolaño se comprazia em fustigar seus inimigos literários. Ele os depreciava de frente, não obedecendo aos habituais salamaleques. Sobre Isabel Allende disparou: “Digo calmamente que Allende é má escritora. Para qualificá-la como escritora, uso de certa indulgência, pois nem isso ela é”. Isabel respondeu: “Dei uma olhada a dois de seus livros e eles me entediaram profundamente”. Até aí, tudo normal. A novidade é que, quando Bolaño morreu, Allende seguiu firme: “Não o lamento. É uma pessoa que nunca disse nada de bom a respeito de alguém. O fato de estar morto não o faz melhor. Era um senhor bem desagradável”. Isabel Allende foi bastante exagerada ao escrever que seu conterrâneo nunca disse nada de bom sobre alguém.

“Skármeta é um personagem televisivo. Sou incapaz de ler qualquer um de seus livros. Sua prosa me vira o estômago”, torpedeou Bolaño. O colombiano Fernando Vallejo respondeu pelo colega afirmando que a prosa de Bolaño é demasiadamente simples, plana, elementar, do tipo “Eu, Tarzan; tu, Jane”.

Bolaño teve problemas também com Diamela Eltit. Eu, Milton, os acho tremendamente cômicos… Ela o convidou para um jantar em sua casa. OK. Só que depois, ele publicou uma impiedosa crítica a um livro de sua anfitriã e aproveitou para também fazer referências à péssima gastronomia oferecida pela autora, dando detalhes. “Este é um tema sobre que prefiro não tocar. O que se passou foi algo absurdo e hipertrofiado. Bolaño morreu e eu prefiro não dizer nada a respeito”.

Bolaño deu também tiros que alcançaram o Brasil, atingindo Nélida Piñon e Paulo Coelho…

<em>Hace poco, Nélida Piñon, celebrada novelista brasileña y </em>serial killer<em> de lectores, dijo que Paulo Coelho, una especie de Barbusse e Anatole France en versión telenovela de brujos cariocas, debía ingresar en la Academia brasileña, puesto que había llevado el idioma brasileño a todos los rincones del mundo. Como si el “idioma brasileño” fuera una ciencia infusa, capaz de soportar </em>(sobreviver a)<em> cualquier traducción, o como si los sufridos lectores del metro de Tokio supieran portugués. Además, ¿qué es eso de “idioma brasileño”? Idea tan desmesurada como si habláramos del idioma canadiense o australiano o boliviano.</em>

Javier Cercas, autor de <em>Soldados de Salamina</em>, romance onde Bolaño é personagem, sustenta que há dois tipos de lendas em torno de Bolaño. Uma que foi construída pelos leitores e fãs e outra criada pelo próprio autor, voluntária e involuntariamente. Diz Cercas que ambas não se ajustam à realidade, mas que a de Bolaño é, em certo sentido, “mais real que a realidade” e que a outra é uma quase mentira ou uma mentira com elementos de verdade. O escritor espanhol enumera fatos em favor de uma construção mítica em torno de seu amigo: morreu jovem; morreu no melhor momento de sua carreira; morreu e foi recebido pela de braços abertos pela tendência que os meios literários possuem de falar bem dos mortos (com fartas cotas de hipocrisia — exceto Allende, claro). “A história da literatura está cheia de exemplos de canonização após uma morte prematura. Mas o que acho assombroso é que o mesmo homem que escreveu <em>A Pista de Gelo</em>, escreveria 3 anos depois <em>Estrella Distante</em> e seis anos depois <em>Os Detetives Selvagens</em>. É estupefaciente que, entre 1996 e 2003, ano de sua morte, ele tenha evoluído e escrito tanto!”.

Eu me pergunto se Bolaño sobreviverá a isto. Hoje, a única pergunta que cabe é se Bolaño é genial ou extraordinário. A última entrevista concedida por Bolaño foi para Mônica Maristain, da Playboy mexicana; ela perguntou: “O que você diz daqueles que pensam que <em>Os Detetives Selvagens</em> é o melhor romance mexicano de todos os tempos?”. Ele respondeu: “Dizem isto de pena. Me vêem decaído e desmaiando em praça pública e não lhes ocorre nada melhor do que uma mentira piedosa, que é o mais indicado nesses casos. Não é pecado fazer isso”.

Graças a boa relação existente entre o editor Jorge Herralde (Anagrama) e a família de Bolaño, chegaram às livrarias em 2007 textos que formaram mais dois livros: <em>El Secreto Del Mal</em> e <em>La Universidad Desconocida</em>. Também chegou um livro de poemas: <em>Los Perros Românticos</em>. Jorge Herralde foi amigo, editor e promotor da obra de Bolaño. E hoje é mais: é quem garante a subsistência de sua mulher e filhas, cuidando para que os direitos autorais cheguem a elas. Cumpre o que prometeu ao escritor antes de sua morte. Foi e é, repito, um amigo.

<em>(continua amanhã com comentários sobre obras de Roberto Bolaño)</em>

<small>Fontes consultadas: Livros de Bolaño, Caderno de Cultura do Clarín de 22/09/2007 e blogs hispano-americanos.</small>

Um Fígado para Roberto Bolaño (I)

Alguns o vêem como o sucessor de Borges e Cortázar, outros como um autor intranscendente e plano, porém, indiferente a quaisquer avaliações, segue engrossando o culto a Roberto Bolaño na América de língua espanhola.

Ícone chileno, mexicano, argentino e espanhol, ele tem multiplicado seus leitores de forma permanente e os que o lêem parecem ser tomados pelo vírus de tal forma que passam logo ao estado de fãs e seguidores. Para nós, brasileiros, é estranho que um autor de alta qualidade seja incensado pelo grande público; afinal, estamos sob uma vaga de ignorância tão grande que é bastante desconfortável saber que os grafiteiros destes países costumam escrever nos muros das cidades: “¡Un hígado a Bolaño!”. Aqui, Paulo Coelho, Marcelino Freire e Bruna Surfistinha; logo ali, atravessando a fronteira, Roberto Bolaño.

Além da América espanhola, ele está sendo traduzido com sucesso para a Europa e Estados Unidos. Busca-se mais contos, romances e poemas do autor cujas cinzas foram jogadas por sua mulher e filhas no Mediterrâneo em 2003.

Bolaño era chileno, mas se reconhecia como “autor latino-americano”. É compreensível: teve vida breve, nasceu em 1953, viveu largas temporadas no México e na Espanha — o golpe de Pinochet, por exemplo, aconteceu quando morava com sua família no México — e sua morte ocorreu em Barcelona.

Enrique Villa-Matas diz que a morte de Bolaño fechou uma vida destinada a tornar-se uma lenda. Ele está certo e é por este fato que estou escrevendo a série de quatro artigos que começo aqui. Minha motivação é a de comprovar que talento, coragem, idealismo e loucura, características tão raras na era do politicamente correto e do incontroverso, são absolutamente necessárias à arte.

Sua morte prematura aos 50 anos — enquanto esperava, em Barcelona, um fígado para transplante — foi o último ato da formação de um mito para o qual Bolaño contribuiu de forma direta. Morreu em 14 de julho de 2003 no hospital Valle de Hebrón. Passou 10 dias em coma por complicações hepáticas enquanto esperava em vão. Deixou textos para publicação póstuma e outros inconclusos. Estava preocupado com o futuro de sua mulher e das filhas. Entre os papéis deixados havia os cinco grandes textos que deveriam – e formaram – o estupendo romance 2666, que gira em torno de um escritor desaparecido (Benno von Archimboldi) e onde há cenas que descrevem o horror dos feminicídios em Ciudad Juárez, onde as mulheres parecem ser caça.

Mas voltemos à biografia do autor.

Roberto Bolaño nasceu em Santiago do Chile em 1953. Com 13 anos, mudou-se com sua família para a Cidade do México. Ali, praticamente morava dentro da Biblioteca Pública. Permanecia tanto tempo lendo que, pasmem, não terminou a escola média nem entrou para a universidade. Curiosamente, hoje existe a cátedra Roberto Bolaño na Universidade Diego Portales de Santiago… Em 1973, caiu Salvador Allende e Roberto retornou ao Chile de carona, com a intenção de unir-se à resistência contra a ditadura que se instalava. Foi preso. Salvou-se graças a um amigo, ex-colega de colégio, então já milico, que o reconheceu e conseguiu liberá-lo. Ano depois, diria que não falava sobre política pois “os que detém o poder, ainda que por pouco tempo, não sabem nada de literatura”. Porém, a literatura ocupa-se do político e Bolaño viria a escrever o brilhantíssimo, premiado e inteiramente político Noturno do Chile.

Em seu regresso ao México, juntamente com o poeta Mario Santiago Papasquiaro –- a inspiração para a criação do personagem de Ulises Lima, o amigo de Arturo Belano do romance Os Detetives Selvagens — fundou o movimento poético infra-realista que se opôs dissonante e ferozmente aos principais pilares da literatura mexicana, representada especialmente por Octavio Paz.

“Poderíamos dizer que o infra-realismo o moldou como escritor e romancista, mas também o México teve importância nesta transformação. Ela amava o México noturno, o México das ruas e dos cafés, a fala cotidiana e seu indiscutível humor desencantado. Não é casual que seus dois maiores romances – Os Detetives Selvagens e 2666, sejam centrados no México”, escreveu o escritor Juan Villoro.

Anos depois emigrou para a Espanha, onde já vivia sua mãe. Colheu uvas em alguns verões, trabalhou como vigilante noturno em Castelldefels, foi balconista de armazém, lavador de pratos, faxineiro de hotel, estivador, lixeiro e recepcionista até tornar-se escritor em tempo integral.

Como todo apaixonado por literatura, também foi um hábil ladrão de livros, quando não tinha dinheiro para pagar por eles. (Tal fato, que destaco em parágrafo especial, talvez sirva de atenuante para os articulistas de vida pregressa plena de roubos nunca descobertos…).

(continua)

Fontes consultadas: Livros de Bolaño e o Caderno de Cultura do Clarín de 22/09/2007.

Noites Florentinas, de Heinrich Heine

Noites Florentinas HeineNoites Florentinas, de Heinrich Heine (1797-1856), é um livro surpreendente. Publicação póstuma, é de notável contemporaneidade, antecipando procedimentos que teríamos de volta somente 70 anos depois, com Isak Dinesen. Refiro-me especificamente à intromissão a todo momento de uma poesia muito pouco comedida, às histórias que surgem dentro das histórias, à simbologia e à aparente livre associação dos fatos. Quanto às duas últimas, talvez seja melhor acolher um conselho da própria Dinesen e aceitar que, numa história, não é adequado compreender tudo.

Achei que o livro estivesse mais para o cômico, pois o excelente tradutor Marcelo Backes salienta bastante este aspecto na introdução. Na verdade, as Noites Florentinas devem ter sido um divertissement para Heine e são lúdicas, muito lúdicas para o leitor de hoje. Por exemplo, é muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade – uma mulher – contava histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian – um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. Além da história se passar ao pé do leito, o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. Mas a mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, seguido pelo toque dos lábios de Max nos pés de Maria, e ainda pelo “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos faz sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação.

O trabalho do tradutor Backes é impecável. O desafio de traduzir uma obra do século XIX, tendo que dar ao texto uma feição antiga, foi cumprido com naturalidade. Usando uma expressão da música erudita, diria que ele possui perfeito senso de estilo. Para comprovar, basta ver a diferença entre o Backes da introdução e o Heine-Backes do texto de Noites Florentinas. A edição é da gaúcha Mercado Aberto. Vale a pena ler!

Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll

BerkeleyOs livros de Noll quase sempre tratam do mesmo personagem: o próprio Noll. As características biográficas, físicas, étnicas e profissionais do tal personagem coincidem inteiramente com as do autor. No começo do livro, é impossível não sermos tomados de simpatia pelo personagem quando o mesmo declara sua extrema pobreza – vive apenas de literatura e de pequenos trabalhos correlatos – e com todos os fatos que o levam a aceitar dar um curso sobre “Cultura Brasileira” em Berkeley. Os fatos são descritos sumariamente. Estava envergonhado de “filar” inumeráveis almoços na casa dos outros, de pedir dinheiro emprestado, etc. Ao mesmo tempo, parece sentir alguma culpa por estar prestes a mamar na teta de uma universidade americana.

Então, ele aceita o convite para o curso e chega à California com menos de 100 dólares no bolso e sem saber falar inglês. Suas aventuras, primeiramente em Berkeley (para dar aulas) e depois em Bellagio (onde fica em uma “oficina criativa” em frente ao Lago de Como), poderiam ser bastante interessantes do ponto de vista humano, porém nosso autor está mais a fim é de descrever as aventuras sexuais. Tudo bem, o sexo faz parte da vida, mas não é, digamos, mais que 88% dela. Apesar de conviver com ensaístas, músicos, pintores e ficcionistas, nada de intelectual acontece. Já de sexual…. é do caralho. As lavanderias de Bellagio devem ter se surpreendido com os sucrilhos deixados nas cortinas de seus salões, pois o autor declara ter limpado seu pênis nelas.

Intermezzo: o personagem principal é homossexual, talvez o Noll também o seja, sei lá. Nada tenho contra a opção dele, mas sou totalmente contra as descrições pós-sexo que o autor nos impinge. Ora, depois de cada relação, a narrativa é atacada daquela indireção poética ao estilo de Clarice Lispector. A narração pós-ragazzo em Belaggio é longuíssima para o tamanho do livro e… é chata, chata, chata, como Clarice NÃO o faria.

O final do livro, quando o narrador retorna à casa em Porto Alegre é muito emocionante. O fato inesperado de estarem lá um ex-namorado pai-solteiro com sua filha é surpreendente e é também uma brisa depois do prolongado claustro. Tá bom, não é nada original aparecer uma criança ou uma jovem para dar uma refrescada e mudar o contexto da história, mas com o Noll a coisa funcionou. A vida também é assim, não?

Não sei porque voltei a ler o Noll. Não tinha gostado de outros livros lidos anos atrás. Acontece que o vi em uma entrevista na TV e gostei dele. Mas valeu a pena retomar o contato com sua literatura. Uma curiosidade: toda a vez que abria o livro vinha aquela baita saudade de ler Thomas Bernhardt, pois, quando via seu parágrafo único, lembrava-me de como aquilo poderia ser bom, se tivesse mais solidez, racionalidade e raiva. E um pouco mais de arte narrativa, é claro.

O Conselheiro

Passei boa parte de minha vida em Salvador. Ou, sendo franco, uma má parte dela. Salvador não é para mim, sabe? Nada tenho contra negros, mas detesto trepar com negras. Tudo bem, atualmente quase todas são limpinhas e algumas podem até ler razoavelmente, o que não suporto são aqueles beições aproximando-se de meus lábios caucasianos. Dá-me arrepios.

Uma vez, logo ao chegar, saí à noite com um amigo a fim de arranjar mulher. Meu atraso naquela cidade era monumental, estava a ponto de comer qualquer uma, sabe? Coisa inteiramente contra meus princípios. Meu amigo chamava-se Rudá e apareceu com um carro enorme, luxuoso mesmo, dizendo que seu pai era produtor de Gilberto Gil e de Jorge Amado — talvez ele pensasse que Amado estivesse vivo e fosse cantor — e, enfim, entramos na geringonça. Claro, o que nos apareceu foram negras, mas eu estava tão a fim que toparia até a Aracy de Almeida. A moça era bonita para quem gosta de samba e fez de tudo comigo. Porém, apesar de meu pau estar em riste, meu sangue caucasiano negava-se a doar esperma para aquela mulher. Ela, inteligentemente, pensou que eu quisesse outra coisa e resolveu oferecer-me o traseiro, que foi aceito de bom grado. “Assim, ela fica de costas”, pensei. Não vou entrar em detalhes a respeito, mas o ato provocou-lhe um efeito de supositório e, meus amigos, o fecaloma desceu com espetacular pressão. O filho do dono do carro ficou absolutamente possesso com aquilo. Eu também, claro; afinal, o desarranjo ocorrera no meu colo. Só que eu não tinha nada a ver com o resto. Os bancos eram de couro, mas grande parte da cabine ficou suja por aquela explosão inesperada. Havia salpicos por todo lado, pois eu tentara escapar de qualquer jeito. O que fazer? A menina pediu desculpas, ficou mesmo penalizada com a involuntária lavagem intestinal que fizera sobre mim e quis ir embora. Meu amigo berrou que ela tinha que lavar tudo, mas eu fui contra, pois como ela poderia limpar o carro no estado em que se encontrava? Fomos até o MacDonald`s mais próximo, onde entramos no banheiro. Os clientes nos olharam admirados, pensando que talvez fosse barro, mas logo sentiam em suas narinas a inequívoca verdade. Empestamos todo o banheiro. Estava tão maluco que pensei ter visto vermes subindo em minhas calças. O segurança da casa queria nos tocar para fora, mas eu lhe respondi que só sairia dali abraçado com ele e o cara foi embora tapando o nariz.

Usamos todos os papéis higiênicos e mais o conteúdo dos vidrinhos de sabão líquido. Meu amigo pediu mais:

— Ô Segurança! Acabou o sabão e o papel!

Veio o gerente da loja. Estava irritadíssimo e nos corrigiu dizendo que o MacDonald`s não tinha seguranças e sim Agentes de Prevenção à Perturbações e Interferências. Bem, acho que a caganeira entrava na segunda parte. E na primeira também. Mas ele foi buscar o que pedimos, sob a condição de que saíssemos imediatamente após a limpeza. Era um pobre de cabelo bem cortado, vestido de dândi, como o Mac gosta. Ele entrou com o material, entregou-nos e acendeu um cigarro. Fiquei puto com aquilo, sou pela saúde, mas o cara me respondeu que agüentaria melhor nossa presença com um cheiro conhecido. OK.

Explicou-nos que a segurança é satisfatória quando é capaz de retardar ao máximo uma possibilidade de agressão e é capaz de desencadear forças – no menor espaço de tempo possível – capazes de neutralizar a agressão verificada. Não sei bem onde entrávamos nós e o cigarro naquela bela falação, porém ele continuou dizendo que estava ali porque nada devia impedir o curso normal da empresa e devíamos sair dali com ar satisfeito, mesmo que tivéssemos entrado como entramos. Foi um interessante momento cultural com que Salvador me brindou.

Depois que saímos todos molhados do estabelecimento, Fred queria achar a mulher que causara aquilo a fim de que lhe limpasse o carro. Claro que ela havia sumido. Vi o estado do carro e declarei a Fred que aquilo não era trabalho para uma empregada doméstica, aquilo requeria uma limpeza profunda com higienização interna, lavagem e aplicação de bactericida em carpete. Ficou claro que a cidade de Salvador e as soteropolitanas não eram para mim.

Ademais, havia poucos leitores de Chesterton na cidade e, os que haviam, ficavam tresloucados ao primeiro rufar de um tambor. Não era possível levar nada à sério e sou um homem assim, sério, empenhado nas coisas e que tenta guardar alguma coerência perante a vida. Sou um neoliberal culto que não fica tantalizado por tambores, que não se alegra em ver gente pulando e que teve sua última grande alegria com a queda do muro de Berlim e a ascensão de Collor. Poderia dizer que sou um neoliberal da linha dura. Sou íntegro, pragmático, mas costumo dar minha rezadinha, e, se hoje dedico-me ao comércio, demonstro minha honestidade em cada ato, fazendo questão de pagar os impostos extorsivos que não resolvem os problemas de nosso país, servindo apenas a que ministros desta nova dita esquerda roubem e se locupletem em convescotes, muitas vezes regados a canções de nosso ministro-cantor.

É um absurdo fazer-nos pagar essas coisas, mas eu pago. Só soneguei quando não me restava mais nada a fazer. Coerência é algo importante, porém ela só poderia ser cobrada se as atitudes de nossos governantes formassem uma linha reta, uma estrada plana, não a cobra peçonhenta e tortuosa que vemos. Somos então obrigados a refletir sobre cada mudança e decidir, sempre segundo a ideologia que nos apóia. Olha, não é fácil, há que ter força mental e muitos caem pelo caminho, seduzidos pelo fácil.

Já lhes disse que o nome de meu amigo cujo pai era produtor de Gilberto Gil (e Jorge Amado) era Rudá. Seu pai deu-lhe este nome ridículo por causa do filho de Oswald de Andrade. Quando conheci seu pai, para tentar agradar, perguntei sua opinião sobre Memórias Sentimentais de João Miramar. Como resposta, obtive um “o que é isso, é um livro?”. Então, naquele momento, entendi que o produtor cultural gostava de uma fachadinha, de um polimento bonito, de uma citação e que só sabia da Semana de Arte Moderna e olhe lá. Esse pessoal é muito imbecil mesmo. Só que ele me arranjou emprego para auxiliá-lo. Não houve risco algum, não refutei as idéias que me movem. Minha função era arranjar belas mulheres para os artistas que se apresentassem na cidade. Era um trabalho fácil, ao qual dedicava-me com afinco. Tinha catálogos com características e fotos de muitas moças e, do outro lado, procurava descobrir o que cada artista gostava mais. Foi assim que descobri que os negros escolhiam sistematicamente as loiras; só que pele branca e o cabelo amarelado eram produtos raros naquela zona tropical.

Foi neste ínterim que conheci Isaura, mas creio que é chegada a hora de abrir novo capítulo.

(continua)

Os Emigrantes, de W. G. Sebald

Os Emigrantes Wg SebaldSe, como escreveu Michel Laub, Austerlitz é o grande lançamento de 2008, W. G. Sebald já havia comparecido no Brasil com outro extraordinário livro: Os Emigrantes. Trata-se do relato de quatro expatriados numa obra que mistura gêneros habilmente. Cheios de fotografias de família, seus capítulos podem começar como um romance de ficção, tornar-se ensaio para depois virar relato de viagem e ainda autobiografia, tudo no tom de uma conversa outonal ao pé do ouvido. Este híbrido é absolutamente envolvente.

Vou falar sobre um episódio suscitado por Os Emigrantes. Estava lendo o livro na cama enquanto a Claudia via TV sem som a meu lado, certamente pensando em outra coisa, como sempre faz. Então, resolvi ler em voz alta um trecho para ela e, quando dei por mim, estava lendo há duas horas. A Claudia tinha passado a costurar e não queria que eu parasse. Minhas qualidades de locutor são apenas aceitáveis, minha voz não é nada boa, portanto acredito que esta cena ao estilo do século XIX foi gerada principalmente pelo crescente interesse dos dois nesse cara que morreu, jovem e estupidamente, num acidente de carro em dezembro de 2001. Sebald sofreu um enfarto enquanto dirigia. Não sei de detalhes, mas dizem que morreu do acidente, não do enfarto… OK.

As pessoas quase não lêem mais livros uns para os outros, este ato de amor e consideração ficou extraviado em alguma esquina do século XX, fora de nossas salas e quartos atuais; porém alguns textos nos permitem recuperar esta delicadeza. Qualquer hora destas vou pegar de novo um bom livro, com uma boa “conversa narrativa”, e entregarei a minha amiga todas as meias furadas, calças de bolsos rotos e camisas com botões caídos que tiver…

Bom, afastei-me do Sebald, mas acho que ficou claro: é um baita livro.

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

futebol_e_identidade_social_arlei_sander_damoEm primeiro lugar, preciso falar um pouco sobre como consegui este livro. Ele me foi enviado por Idelber Avelar, professor da Universidade de Tulane, em New Orleans. Em vão, tentei comprá-lo, apesar de ser um livro novo, de 2002. Em minhas tentativas, escrevi para a Editora da UFRGS, tendo recebido como resposta o mais completo silêncio. Procurei novo contato, pois queria dá-lo de presente aos criadores do Impedimento, mas nada, não parece haver ninguém por lá. Por que então existe um Fale Conosco bem aqui? Então, meu sobrinho conseguiu o e-mail do próprio autor. Foi atendido mui educadamente, obtendo a confirmação de Damo de que a obra era muito procurada, mas que só a editora podia resolver o caso. Bem, ao menos isto não é culpa da corrupção do futebol, nem de Ricardo Teixeira…

O livro de Arlei Sander Damo tem o subtítulo de “Uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes” e originou-se da dissertação de mestrado do autor, escrita entre 1996 e 1998, aproximadamente.

É obra interessantíssima para quem queira sair da mesmice das notícias diárias sobre futebol — aquelas mesmas que tanto deprimem nosso noturno cidadão de uma república enlutada — e adentrar de forma inteligente e bem conduzida na história da formação desta loucura que vemos. Damo nos explica o nascedouro da dupla Gre-nal e de sua rivalidade. “Se queres ser universal, canta tua aldeia”, dizia Tolstói de forma mais esperta que Wianey Carlet. Cantar sua aldeia é o que faz Damo, fazendo-nos descobrir claras analogias com outras cidades, estados e rivalidades clubísticas brasileiras. As explicações são do autor, as projeções são nossas; há leitura mais produtiva e agradável do que conjeturar junto com o autor? Não, né? A obra começa no início do século passado, descrevendo o início do associativismo esportivo em nossa Porto Alegre – empurrado pelos imigrantes alemães, “ficiados” em clubes – para chegar aos primórdios de uma paixão e de uma rivalidade que é boa para torcer, mas que também é boa para se pensar a respeito.

São absolutamente preciosas as argumentações sobre raça e classes sociais que faz o autor, sobre o crescimento do racismo no Grêmio à época do Dr. Py e a da salvação do clube através de seu maior presidente, Saturnino Vanzelotti, o qual resolveu enfrentar os “gremistas vigilantes”, que lhe escreviam mal-disfarçados apedidos em jornais, sempre zelosos de que a camisa tricolor não fosse maculada pelos negros. (Seus textos, sempre anônimos, parecem ter como autor um Joseph Goebbels com superego fraco.) Outros fatos significativos que são analisados são as infrutíferas tentativas do autor para descobrir a origem clara do poderio colorado dos anos 40: a célebre Liga das Canelas Pretas – o que vem comprovar a pouca documentação da história negra no Rio Grande do Sul –; a derrocada do amadorismo; um exame sobre a influência dos estádios na gangorra Gre-nal e um estudo sobre a formação das torcidas sob a ótica das raças e das classes sociais.

É apenas isto o que a Editora da UFRGS insiste em nos esconder. Ainda não devolvi o livro para o Idelber. Querem cópias…?

Observações finais:
1. Apenas o texto “Sobre o regional e o nacional no futebol brasileiro” é datado e mereceria uma recauchutagem geral.
2. Arlei Sander Damo daria um bom leitor do Impedimento.
3. Apesar de não confessar, Arlei Sander Damo é um gremista nojento.

Saudações coloradas e morte à progênie do racismo!

:¬)))

Bloomsday

Agora, na volta da UTI (ver post abaixo) lembrei que hoje é o Bloomsday.

Desesperado para unir-me à comemoração, faço meio que uma transcrição — com muitíssimas alterações — do texto da Wikipedia.

O Bloomsday é um feriado comemorado em 16 de junho na Irlanda em homenagem ao livro Ulisses, de James Joyce. É o único feriado em todo o mundo que um país dedica a um livro de ficção, excetuando-se a Bíblia.

O Bloomsday é festejado pelos amantes da literatura em qualquer lugar ou língua. Trata-se de uma iniciativa dos leitores de Ulisses e admiradores da literatura de Joyce. Anualmente, eles relembram os acontecimentos vividos pelos personagens de Ulisses por dezenove ruas da cidade de Dublin.

James Joyce

Ulisses relata a “odisséia” do personagem Leopold Bloom durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904. Há controvérsias sobre quando o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns especialistas indicam 1925, três anos após o lançamento do livro, a década de 1940, depois da morte de James Joyce, enquanto a hipótese mais aceita indica é que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulisses.

Joyce escolheu o dia 16 de junho para ser imortalizado em sua obra porque foi nesse dia que manteve relações sexuais com sua futura companheira Nora Barnacle, à época uma jovem virgem de vinte anos, apesar de a imprensa irlandesa publicar que nesse dia eles apenas “caminharam juntos” pela primeira vez. Na verdade, Nora teve medo de completar o coito e o masturbou “com os olhos de uma santa”, como Joyce relatou em uma carta em que relembrou o acontecido.

James Joyce Piano

É sempre bom lembrar aos tementes a Joyce que Ulisses não é apenas aquele livro de erudição quase inalcançável que afasta algumas pessoas, o romance também é divertidíssimo e perfeitamente compreensível. As minúcias e a complexa teia de referências são importantes, mas podem permanecer semi-entendidas sem esfacelamento de sua essência. Prova de que o mais puro ludus nem sempre está associado à compreensão cabal.

Hoje é o dia de comemorar o duro, engraçado, divertido, pornográfico, sexual e erudito livro de Joyce. Lembremos de Leopold Bloom, de sua mulher Molly, de Stephen Dedalus e de Buck Mulligan. (Lembro agora do final absolutamente arrepiante de Ulisses.) Era isso.

P.S.- O Odisséia Literária, de Leandro Oliveira, faz, como sempre, a comemoração mais completa e adequada.

Thanks, Mr. Roth

Philip Roth Douglashealeyap4601Michel Laub escreve e repete que Austerlitz, de W. G. Sebald (1944-2001) é o lançamento de ficção do ano, mas não sei não. No dia 20 de junho chega Fantasma sai de cena (Exit Ghost), romance de Philip Roth (1933) que marca a despedida de seu personagem e alter ego Nathan Zuckerman. Qualquer livro de Roth é um acontecimento pois trata-se de um dos romancistas mais importantes em atividade — talvez o mais importante –, só que este Fantasma adquire contornos especiais que vão além da despedida de um personagem que o acompanha desde 1979 ou nove romances.

É que a obra serve de epitáfio (expressão da Bravo) para a geração de escritores intelectuais cujos livros pautavam o debate cultural americano e que foram substituídos, como no mundo inteiro, por nenhuns. Esta geração possui ainda vivos Gore Vidal e John Updike e perdeu recentemente o imenso Saul Bellow e o nem tanto Norman Mailer. O romance vai direto ao ponto ao perguntar sobre quando houve a separação entre tais escritores e seu país. Roth apresenta um Zuckerman aos 71 anos, lutando contra uma incontinência urinária resultante da retirada da próstata e impotente, vivendo num mundo incompreensível, afastado de si e que dele prescinde. Amy Bellette, outra personagem de Roth que está em vários romances, diagnostica a cultura de fácil digestão e o culto à celebridade como culpados, mas parece que Roth não aceita apenas esta conclusão “simples” e avança sobre o jornalismo cultural e sobre a própria geração de grandes escritores, que não soube enfrentar a nova situação e que, de certa forma, tornou-se vítima dela ao manter-se deslocada e crítica.

Sabemos que os romances que analisam quaisquer decadências possuem indiscutível charme. Dei-me conta disso desde a leitura de Os Buddenbrook há mais de 30 anos. As grandes obras literárias raramente são otimistas ou felizes e até na vida pessoal há certo encanto quando vemos, por exemplo, os amigos de nossa ex esforçando-se para nos olhar bem e quem nos acompanha para depois irem embora como se não nos conhecessem. A decadência é um olhar de conhecimento, desconfiança e nostalgia ao passado e de rejeição ao presente que quase todo literato adora. E é tanto o retrato da decadência metafórica quanto da física (de Zuckerman) e cultural (dos EUA) que espero ler no novo romance de Philip Roth.

O título deste post justifica-se por outros dois que escrevi sob a categoria de “O Fracasso da Literatura” e que foram recebidos com agrado por alguns e com maior ou menor hostilidade, por outros. As acusações de que estaria ficando velho por referir-me repetidamente à decadência das artes em geral são respondidas melhor por jovens ratos de biblioteca, pelos adolescentes que têm discotecas semelhantes a que eu tinha há mais de 30 anos e pelas meninas freqüentadoras das estandes de clássicos das vídeolocadoras — tão lindas, efusivas e desfrutáveis –, que me perguntam se há alguém melhor do que Bergman e Antonioni, porque já viram e sabem de cor as obras destes. Elas às vezes me chamam de “tio”… Viram? Adoro a decadência. Inclusive a minha.

Enquanto os psicanalistas se divertem

Marcos era um analista de sistemas que se interessava por arte. Gostava de ouvir música até tarde da noite e a solidão destes momentos levava-o a produzir pequenos textos que não mostrava a ninguém. Na verdade, eles se constituíam de anotações que muitas vezes acabavam em meio a uma frase ou ficavam só no título. Fazia com maior empenho listas de filmes ou músicas e lia, lia muito. Era um apaixonado que ia pouco a pouco sendo reconhecido pelos amigos como um catálogo ambulante. Parecia feliz. Sua mulher era uma advogada que repassara seus clientes para tornar-se exclusivamente professora universitária. Ela estudava muito e, contrariamente ao marido, produzia bastante na área do Direito de Família, área na qual era respeitada, apesar da juventude. Os dois tinham interesses em comum, iam a muitos concertos, filmes e freqüentemente liam os mesmo livros.

Após o jantar, Marcos estava lavando os pratos para a pia — sempre gostara de lavar a louça — quando o telefone tocou. Pensou que sua mulher o atenderia e continuou cuidando dos restos do jantar. Ouviu-a atender e logo foi chamado:

— Telefone para você!

Roberson queria falar com ele. Achou estranho, pois o conhecia somente dos aniversários e festas que a família de Álvaro, um amigo comum, promovia. Roberson era um psicanalista de quem todos pareciam gostar.

— Marcos, acabo de falar com o Álvaro e ele me indicou teu nome para uma atividade que nossa Associação fará daqui a três semanas.
— Associação? — perguntou Marcos.
— Sim, a APRJ, Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro.
— Hum, e do que se trata?

Roberson explicou-lhe ser responsável por um dos cursos da associação e que estava preparando uma aula especial de fim de semestre. A aula agregaria literatura, cinema e música. “As coisas, enfim, de que gostamos”, disse, rindo. Partiria do romance Noturno Indiano de Antonio Tabucchi, que estava sendo lido pelos alunos, passaria pelo filme homônimo de Alain Corneau e acabaria na análise da música do filme, principalmente na que o diretor utilizara na cena do hospital. Veio imediatamente à mente de Marcos uma cena dilacerante, inflamada e direcionada por Schubert. O psicanalista desejava um apoio externo, sobretudo para a parte musical. Acrescentou que o evento todo era algo a ser encarado como diversão.

— O Quinteto de Schubert… — externou vagamente Marcos.
— Exatamente. Vejo que você conhece o filme. O Álvaro me falou que você era o cara.

Era uma pessoa delicada e gentil; o que Roberson não sabia é que, apesar de Marcos nunca ter lido o livro de Tabucchi, este filme fora-lhe muito marcante, com suas cenas lentas mostrando o desolação do português Xavier a vagar sem destino pela Índia.

— Não sei…
— É sim. É bom que você leia o livro, mas sua maior participação, acho, será na parte musical. O filme nem precisa rever, nós vamos passar.

Enquanto lembrava-se com saudades das cenas finais passadas em Goa e sem necessitar de maior avaliação, aceitou e agradeceu o convite. Feliz, comentou o assunto com Lúcia, que não entendeu nada.

— Mas por que você? Não há músicos que possam comentar? — perguntou ela com voz um tom acima do habitual.
— Não sei, só sei que foi um músico, o Álvaro, quem me indicou.
— Estranho.
— Talvez eles pensem que eu possa contribuir com a história do Quinteto. E vou falar pouco; afinal, a aula é do Roberson — completou Marcos, conjeturando sobre os motivos que tornaram Lúcia agressiva.

Encontrar o livro de Tabucchi foi fácil. Lê-lo foi ótimo, rever o filme foi novamente emocionante e estudar sobre as circunstâncias da composição de Schubert ensinou-o sobre fatos que desconhecia. A presença do Quinteto no filme não era casual. Reviu diversas vezes a cena do hospital e foi aos poucos compreendendo as intenções de Corneau, construídas sobre a base de Tabucchi e catalisadas por uma das músicas mais tristes jamais compostas: o adágio do Quinteto de Cordas D. 956. Ou seja, dentro do espírito anunciado por Roberson, Marcos estava divertindo-se e a oposição de sua mulher — que o via para lá e para cá com o livro e o VHS do filme — não o preocupava.

Poucos dias antes da aula, Lúcia entregou-lhe um pequeno gravador e um livro de Adorno sobre música. Queria que ele gravasse a palestra que daria, pois “precisava ouvir”; desejava também que ele lesse algo decente sobre música. Marcos riu.

— Adorno fala sobre o Quinteto? — perguntou.
— Acho que não, mas é importante você ler isto. – Marcos viu que várias páginas estavam marcadas com pedaços coloridos de papel, cada um simbolizando um tópico.
— Lúcia, é uma coisa informal. Nem merece o nome de palestra, vamos só conversar. E estas coisas coloridas não dizem muito a um daltônico; por exemplo, qual é a diferença entre este e este papel? Estas cores representam alguma notação?

Em resposta, ela abriu o livro e começou a ler em voz alta um dos trechos indicados. Marcos reconheceu “Bach defendido contra seus admiradores”, um texto que nunca lera mas do qual já tinha ouvido falar. Era brilhante, porém inútil para o que ele faria. Enquanto ela seguia, ele estendeu o braço para o teclado do computador, entrou no Google e fez a consulta “Adorno jazz Casagrande”. Chegou ao blog de Tiago Casagrande e leu em voz alta, interrompendo-a: O objeto do jazz é a produção mecânica de um momento regressivo, um simbolismo da castração. O sujeito que se expressa (pelo jazz), expressa precisamente isto: não sou nada, sou sujo, e mereço qualquer coisa que façam comigo. Potencialmente este sujeito já se tornou um daqueles russos acusados de um crime e que, embora inocente, desde o inicio colabora com seu perseguidor e é incapaz de encontrar um castigo severo o bastante.

— Eu estou lendo algo que acho importante para você e você me vem com esta merda?
— Escrita por Theodor Adorno.

Ela ficou desconcertada.

— Bom, eu queria te ajudar e detestaria que você, como marido de uma pessoa pública, me envergonhasse.
— Pessoa pública?
— Sim, sou conhecida e não quero uma palhaçada.

No dia seguinte, ela apenas pediu para que ele gravasse a palestra.

Na aula, cerca de vinte pessoas viram Roberson apresentá-lo antes de falar sobre o livro de Tabucchi e anunciar o filme que veriam. Depois do filme, Roberson fez um curto discurso sobre o que fora visto e abriu espaço para Marcos explicar a música de Schubert, esclarecer as circunstâncias de sua composição, fazer analogias entre as três obras e entrar, com todos, num debate gentil, bem humorado e interessado, em que surgiam observações inteligentes, principalmente a respeito do livro. Em meio às argumentações, inteiramente à vontade, Marcos pensou: “Isto aqui é puro fun. É ótimo”.

Ao final, provocou protestos por não poder jantar com a turma em função de um compromisso. Era mentira e ele ignorava o motivo da recusa. Despediram-se. Já em casa, entregou o gravador para Lúcia e foi comer alguma coisa. Ainda estava na cozinha quando ela saiu do quarto reclamando que não conseguia entender nada do que fora dito por ele ou por ninguém. Ele abriu os braços, pondo a culpa no aparelho. Parabenizava-se por tê-lo enrolado cuidadosamente num lenço, deixando-o no bolso de trás das calças jeans.

Mahler e o Gordão da H8

Em 2003, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) apresentou a Sinfonia Nº 2 de Mahler, “Ressurreição”. É uma obra para 200 músicos, entre instrumentistas e coral. O pequeno palco do Teatro da Ospa não comportava adequadamente toda esta gente mas… o que fazer? Além disto, a Ospa não dispunha de músicos suficientes para executar a obra — que exige 10 trompas, 8 contrabaixos, 8 trompetes, 6 trombones, 4 percussionistas, enorme coral, etc. — mas o que fazer senão ir buscar músicos nas orquestras de São Leopoldo, Caxias e Blumenau? O que não dava era ficar sem a Ressurreição! Todo este lindo e idealista esforço foi recompensado pela lotação completa do teatro — o que provava, pela undécima vez, que o público não quer ouvir somente musiquinhas ligeiras e indulgentes.

Mahler foi o maior regente de seu tempo e tudo o que ele não tinha era indulgência para com seus músicos e público. Compunha música belíssima e de complexidade acima da média. A orquestra ora é tratada convencionalmente (tocando em grupos de instrumentos), ora os músicos são pinçados individualmente ou em pequenos grupos para executar solos nada triviais. Este contraste entre orquestra normal e orquestra rarefeita é fundamental na música de Mahler e é um suplício para o músico despreparado, desatento ou nervoso. Numa palavra, Mahler é difícil, mas vale o esforço.

Chegamos ao Teatro e fomos para nossos lugares. Todos os amigos que encontrei estavam felizes com a perspectiva daquilo que aconteceria nos 90 minutos seguintes. Sentamos no mezanino: meu filho Bernardo no I10, eu no I12, Claudia no I14 e nossa amiga Daniela no I16. Quando a música começou, o Gordão que estava sentado à nossa frente, no H8, começou uma luta contra seu guarda-chuva. Não sabia onde colocá-lo, e ele e sua esposa Gordona, sentada no H6, começaram a conjeturar em voz alta qual era o melhor lugar para a geringonça, enquanto a mesma batia nas cadeiras, fazendo concorrência com a percussão mahleriana. O trabuco, após ser colocado entre duas cadeiras da fila em frente (!), repousou. Já a dupla, não. Acho admirável que um casal ainda tenha assunto depois de 30 anos de casados, mas não seria melhor procurar um restaurante para conversar? O Bernardo, que tinha 12 anos, começou a me cochichar:

— É a baleia falante…

E, depois de alguns minutos:

— Pai, tu sabias que as baleias podem cantar? Ainda bem que estas só conversam.

Algumas crianças têm um limiar de irritação bem alto, é o caso dele. O mesmo não se pode dizer da Claudia, que, à minha esquerda, lançava olhares furibundos para o Gordão. Já eu apenas suspirava audivelmente a cada reinício de conversa. Porém, a música era tão bela que nossa alegria foi retornando e o ódio ao Gordão foi se transformando em ironia. Numa das inúmeras pausas que Mahler impõe à orquestra, o Gordão perguntou intrigado à Gordona:

— Ué, parou?

A certamente impagável resposta da Gordona foi abafada pela orquestra. Uma pena!; mas, em determinado momento, aconteceram coisas que desestabilizaram o Gordão. Para que vocês entendam, é necessária uma explicação: os dois últimos movimentos da sinfonia propõem-se a fazer uma representação exterior (se bem que, como Mahler dizia, tudo era representação interior…) de nada menos que o Dia do Juízo Final e da Ressurreição dos mortos. Para tanto, o autor manda alguns instrumentistas (trompetes, trompas, percussão) para fora do palco. Enquanto saíam, o Gordão observava:

— Ué, não tão gostando? Já vão embora?

Mahler As ConductorNão, meu caro amigo. É que de lá, dos bastidores, eles iniciarão um conflito fantasmagórico com a orquestra que está no palco. Quando a orquestra do palco executar o suave tema da redenção, dos bastidores virá o som das trompas e da percussão executando o que Mahler disse representar “as vozes daqueles que clamam inutilmente no deserto”. Este trecho fez com que o Gordão levasse seu corpo para a frente, a fim de observar bem o fenômeno. Falou a sua mulher que não sabia quem estava tocando. OK. Só que logo depois começou a marcha dos ressuscitados no Juízo Final. Em meio a este tema, as trompas e os trompetes que estão lá atrás nos bastidores — representando agora a enorme multidão de almas penadas –, enchem o ar com seus apelos vindos de todos os lados do palco. Aquilo foi demais para o Gordão. Ele se virou indignado para a Gordona e afirmou:

— Não é possível! Tem gente ensaiando lá fora! No meio do concerto!

Não foi possível conter o Bernardo. Mesmo tapando a boca com a mão, todos os que estavam perto ouviram sua risada.

Apesar disto, foi uma noite inesquecível. A OSPA, naquela noite com Isaac Karabitchevsky, esteve muito bem. Tanto que guardei os ingressos com um recadinho atrás: “Bela noite. Não esquecer do Gordão da H8 e de sua Gordinha da H6”.

Permanência

A Sérgio Gonçalves

Aos que permanecem sobram as culpas,
esquecem que
todas as decisões são solitárias.

Solitária é
a decisão de pousar as mãos
e não escrever.

Solitária é
a decisão de erguer-se todos os dias
e trabalhar.

Solitária é
a decisão do que ouve
de não ouvir.

(Solidária é
a decisão de ensinar
e aprender.)

Solitária é
a decisão de chegar ao clímax
e descansar.

Solitário é o fim.

Solitários,
decidimos que o formigueiro,
pisoteado e destruído,

seja reconstruído.
Por cada um de nós,
solitariamente.

O Tcheco

Era uma manhã ensolarada no centro antigo de Verona, na Itália. Estávamos, eu e algumas amigas, na parada de ônibus. Íamos para a estação pegar o trem com destino a Padova. Tinha 20 anos, havia chegado do Brasil há pouco tempo e não conhecia bem a língua. Fazia cursos durante a semana e aproveitava para viajar em fins de semana como aquele.

Foi quando um homem elegante de uns 40 anos, de óculos escuros como nós todas naquela manhã luminosa, me abordou. Estranhamente, segurou meu braço — será que é o costume daqui? — e me pediu para lhe informar quando chegasse o ônibus para Porta Vescovo. Pensei logo tratar-se de uma desajeitada abordagem galante; não gostei, fiquei um pouco irritada. Afinal, será que ele mesmo não poderia ler? Sabia que os europeus adoravam brasileiras e eu – mesmo sendo de origem italiana – tenho a tal pele olivastra, aquele tom moreno claro que eles amam. Era o Dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, e minha avó, devota do santo, tinha-me feito prometer que iria em seu santuário no dia da festa. Eu, diga-se de passagem, tinha ido para a Itália me recuperar de uma grande desilusão amorosa e estava arredia a qualquer contato com o sexo oposto. Mas por que aquele homem bonito iria me pedir logo aquilo? Por que não entabulou outro tipo de conversação? Tratei de me afastar.

Aproximei-me de uma de minhas colegas e disse:

— Que coisa estranha…
Lui è cieco (pronuncia-se tcheco) – respondeu-me Ornella.

E daí? Grande coisa, pensei comigo, ele é tcheco, eu sou brasileira. Será que os tchecos — mesmo os que falam um italiano perfeito — são idiotas? Que preconceito contra os europeus do leste…! O que dirão de mim, uma brasileira? Será que o fato do tcheco ter sido alfabetizado em cirílico o atrapalharia com o alfabeto ocidental? Porém, para ter aquele italiano sem sotaque, não teria ele antes aprendido a ler? Quando o ônibus aguardado chegou à parada, Ornella indicou-lhe delicadamente.

Fiquei pensando naquilo e questionei minhas amigas se elas achavam que uma pessoa que fala perfeitamente o italiano, mesmo sendo um tcheco, não poderia lê-lo. Elas me olharam desconcertadas e depois explodiram em risadas.

Só depois soube que Cieco era cego e não tcheco.

Esta história foi escrita a pedido da Tchela e publicada em 2003 no Repórter Saci, um site dedicado à inclusão social e digital de deficientes físicos. A história e as circunstâncias são reais.

O Poste de Vapor, de Ferenc Molnár

O escritor não sabe quando aprende.
FERENC MOLNÁR

É estranha a trajetória do húngaro Ferenc Molnár (1878-1952). Autor de crônicas em jornais húngaros, de livros infanto-juvenis — é dele o clássico Os Meninos da Rua Paulo –, de peças de teatro em sua maioria muito bem escritas mas sentimentalóides, acabou emigrando para os Estados Unidos onde tornou-se requisitado dramaturgo, principalmente para a Broadway. Várias de suas histórias cômicas foram passadas para o cinema em filmes de Henry King, Billy Wilder, Michael Curtiz e outros. Não era somente popular, mas um escritor respeitado. Imaginem que este autor da Broadway recebeu adaptações de Arthur Miller para rádio e o teatro e Tom Stoppard fez o mesmo modernamente. Molnár é um raro caso de sucesso popular e literário.

Mas isto ocorria separadamente, obra a obra: há um posfácio neste O Poste de Vapor que nos explica que Molnár produziu às vezes “para a literatura” e outras vezes “para o mercado” — expressões minhas. Concordo com o autor do posfácio: certamente, este livro pertence à parte literária de sua obra. O narrador é um jovem jornalista que descreve as loucuras de certo falso capitão, seu colega numa estação de águas termais, localizada na bela ilha Margarida, que fica entre Buda e Pest, no rio Danúbio.

As inverdades e loucuras do capitão dos hussardos, em si muito engraçadas, são apenas o primeiro plano de uma demonstração da inconseqüência de muitas atitudes — boas ou maldosas — e do oportunismo de outras. Não é um livro otimista ou que promova bons sentimentos ou de final feliz, mas é curiosamente sedutor e agradável. Vá entender.

A trégua, de Mario Benedetti

Eis um excelente escritor. Muito pouco lido no Brasil, o velhinho Mario Benedetti está às vésperas de completar 88 anos. É um poeta, romancista, cronista e ensaísta uruguaio. A trégua é o diário de Martín Santomé, um viúvo de quase cinquenta anos, pai de três filhos, que vive há mais de vinte entre a criação dos filhos, o trabalho de contabilista e casos de uma noite com mulheres quaisquer. É um sujeito apagado e deprimido, um bom funcionário que detesta seu trabalho, mas que o faz bem; um pai que, com os filhos crescidos, recebe deles a indiferença e o desejo de distância. Tudo muda lentamente com a entrada de Laura Avellaneda como sua funcionária no escritório. Jovem, tímida, contida e muito inteligente, ela proporcionará uma trégua à vida de Santomé.

Dito assim, parece uma história como tantas outras, mas não é, não da maneira como o faz Benedetti. Fino observador, ele conta a história com o exato grau de minúcia, explorando principalmente a insegurança do viúvo em sua relação com uma mulher vinte e dois anos mais nova. É quase um estudo da solidão, da felicidade e do passar do tempo em forma de ficção. Vale a pena ler este pequeno romance com mais de cem edições em espanhol.

Minha única estranheza foi a forma como Benedetti refere-se ao homossexualismo antes do episódio do politicamente correto. Não é agressivo, porém não é nada compassivo. Compreende-se, o romance é de 1960.

Soube que a editora Alfaguara traduziu mais dois livros de Benedetti: El Buzón del Tiempo, lançado como Correio do Tempo, e Primavera con una Esquina Rota (ainda sem título). Mas fiquemos antes com A trégua. Indico fortemente.

Incompletos, de Albano Martins Ribeiro (Branco Leone)

IncompletosEu acho mais simpático e engraçado Branco Leone, mas o outro nome também está adequado; afinal, meu avô chamava-se Manoel Martins Ribeiro, nascido em São João do Loure, Portugal.

De todos os autores que apareceram através dos blogs, Albano-Branco é o que mais gosto. E não li poucos. Vamos começar pelo título do livro. Fico na dúvida se Incompletos é uma referência aos personagens do livro — sempre em busca do outro (em alguns casos em fuga) –, ou se aponta para a estrutura voluntariamente fragmentária dos contos. É um belo título. E um belo livro. Os contos são curtos, parecem instantâneos de um fotógrafo muito indiscreto. São muito bem escritas “cristalizações do fugidio” amoroso, como diria Erico Verissimo, contadas na voz característica do autor, entre a bem-humorada indulgência e a absoluta crueza. A única coisa que me perturbou na coletânea foi a história da qual gostei mais. (sexta à noite, no purgatório) é a maior narrativa do volume – 28 páginas -, a mais fragmentária e a que me causou a estranha sensação de pertencer a algo maior, que não nos foi dado a conhecer… Queria mais, parece haver mais. Haverá? Talvez seja porque a mim, o sarcástico narrador deste conto fez lembrar o extraordinário narrador da obra-prima Homo Faber, de Max Frisch. Mas isso é problema meu. Tiago Casagrande, ao comentar o livro, escreveu que Incompletos era um livro rarefeito, daqueles que nos deixam com mais dúvidas que esclarecimentos. Perfeito. Quem quiser verdades estabelecidas que vá a outro quintal, quem quiser o prazer da leitura que venha aqui.

O excelente livro é da editora Os Viralata.

Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Lv MusicapQuando Música perdida fez a final da Copa de Literatura Brasileira contra Um defeito de cor tive absoluta certeza de que o vencedor seria o elogiado livro de Ana Maria Gonçalves. Ora, Ana surgiu nos blogs, Um defeito de cor recebera críticas favoráveis de todo gênero e os julgadores, seus pares, acabariam por escolhê-la, mas não foi o que aconteceu. O vencedor foi Música perdida. Tive então outra certeza: a de que se tratava de um livro superior, de uma obra cuja premiação era inexorável. E, burro que sou, enganei-me novamente.

Assis Brasil adota seu habitual tom manso para contar a história do Maestro Mendanha. No início, tudo me interessava. O personagem principal e suas circunstâncias eram muito sedutoras, principalmente para alguém que, como eu, ama e convive diariamente com a música erudita. Tanto foi assim que foi um pouco complicado inferir o que estava me incomodando no romance. Só quando o autor apresentou Pilar é que ficou clara a planura e a débil construção dos personagens. Assis Brasil nega-se a invadir suas psicologias, preferindo sinalizar acontecimentos e transições com simbolos factuais que são tão claros, mas tão notórios, que funcionam como deselegantes semáforos. Três mortes casuais ocorridas num mesmo dia – recurso estranho para uma narrativa tão tradicional – e uma enorme culpa fazem o personagem fugir de Vila Rica para uma guerra no sul, mas ele, internamente, não parece padecer grande sofrimento simplesmente porque Assis Brasil não o descreve. O livro é todo feito de narrativas de fatos, parecendo mais um roteiro cinematográfico escrito em linguagem literária. Para acabar com meu humor, o autor dedicou-se a estragar o final de minha tarde de domingo – a hora do suicídio – adotando um tom grandiloqüente em seu gran finale, equívoco que ele já havia cometido no patético final feliz de Concerto Campestre.

Pretendo ler Um defeito de cor assim que o obtiver de volta. A empregada lá de casa o pegou para ler. Ela escolhe seus livros e costuma ter bom gosto: antes leu Lolita.