Bilhete

Meus queridos. Papai saiu cedo para trabalhar e deixou vocês dormindo. Vocês estavam tão lindos e tranqüilos nas camas que achei sacanagem acordar. Volto ao meio-dia e trinta para buscá-los. Enquanto isso, espero que vocês sobrevivam. Sofia, sei que vais acordar primeiro, ali pelas 8h30. Olha para o relógio e confere. Guria, olha agora! Teus parmalatinhos estão na geladeira, à altura da tua cabeça, do lado esquerdo. Bebe no mínimo dois. Tenta também COMER alguma coisa, dizem que é importante. Há pães de ontem à noite sobre a mesa da cozinha e outros novinhos no freezer, é só deixar um deles por 30 segundos no microondas e estará perfeito para receber e desmanchar a manteiga. Hummm. A geléia de morango está também na geladeira, pega a que não for light. Se tiveres tema para fazer, por favor, faze-o. Não deixa a TV com o som muito alto para não acordar teu irmão e, quando ele acordar, não briga com ele. Lembra-te de que ele é maior e que eu não estarei aí para te defender. O melhor mesmo é que fiques brincando com o pensamento ou no computador. Poderias também aproveitar o tempo e o silêncio da casa para ler um pouquinho, não, dona Sofia? Quando eu era pequeno, adorava acordar para acompanhar o movimento do sol. O sol entrava por minha janela de manhã. Eu colocava um lápis no chão, exatamente sobre a fronteira mais interna, entre sol e sombra. E lia; lia umas dez páginas e depois conferia quantos centímetros a luz do sol tinha caminhado em seu percurso para fora. Eu estudava no turno da tarde e ficava no quarto até que o sol abandonasse inteiramente o quarto. Aí sim, podia fazer outra coisa. Não sei se isso acontece aqui em casa, não lembro, não faço mais isso e que sei eu da orientação solar? Coisa nenhuma. Sou um adulto chato. No máximo, sei que nosso apartamento tem boa orientação, pois ainda não morremos assados nem congelados em nossa cidade maluca. Quando o teu irmão acordar, mostra este recado a ele, ele é muito desatento. Felipe, teus toddynhos estão ao lado dos parmalatinhos da Sofia na geladeira. Não precisas comer todo o conteúdo da geladeira e não mates tua irmã sem eu estar aí para te matar junto. Deixa o computador para ela, porque ontem tu já ficaste demais nele. Sei que tu tens de ler O Visconde Partido ao Meio para o colégio, então manda bala. Se quiseres sair, há uns trocados no balcão da cozinha; acho que falaste em ir ao Centro comprar uns CDs usados com um amigo teu, do inglês. O dinheiro que está ali dá para ir e vir de lotação. Usa o teu para as compras. Só não te atrases, pois eu chego ao meio-dia e trinta. Marca o encontro no centro do Mercado Público que é um lugar bom para esperar alguém. Tem sempre brigadianos por ali. Cuida-te, pois há assaltos e ladrões e as pessoas somem, mesmo sendo tu um adulto de 14 anos… O cara vai e não volta. Volatiliza-se. Porto Alegre é perigosa e não quero a tua mãe no meu pé. Já pensou eu falando pra ela? Olha, ele foi fazer umas compras na Stoned ou na Porto Alegre CDs e não voltou mais. Imagina, somem tantas pessoas anualmente numa cidade como Porto Alegre que talvez jamais sejas encontrado. Uma vez, em 2004, ou 5, sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Parque da Redenção e até hoje nada. Minha mãe leu no Correio do Povo, ficou com o jornal embrulhado na memória. Mas vá. Lembra que o “pãe” te ama e que as ruas não mudarão seus traçados para que demores além da conta. Se sobrar algum dindin, pergunta pra mim sobre um CD que procuro há anos, tá? É aquele em que Carlos Drummond de Andrade recita Desaparecimento de Luísa Porto. Mas, se ficares em casa, não te esqueças do Calvino e trata tua irmã com calma, senão te acuso de pedofilia e te mando para a FEBEM, ou FASE. Hoje tem jogo à noite, queres ir ao estádio? Então faça tudo direitinho, senão não te levo. Hoje de manhã tenho que fazer um monte de coisas, algumas para vocês. O pessoal do colégio me chamou para conversar porque tu, Felipe, inventaste de chamar uma menina de lobisomem e agora ela não quer ir mais à aula. Tá certo que ela é peludinha nos braços, mas – caramba – chamá-la de lobisomem! Há que ser mais delicado. Por falar em delicadeza, no final de semana vou apresentar a Mônica para vocês. Chega de adiamentos, né? Sofia, não é preciso ter ciúmes, ela não me tirará de ti e nem eu vou descuidar de vocês só porque estou namorando. São necessidades adultas. Vocês têm as de vocês, nós temos as minhas as nossas. A Mônica também não será outra mãe, será mais uma amiga para conviver conosco. Ela não é chata e gosta de crianças, mas é claro que ela vai se embananar com vocês, pois não tem filhos e, de repente, estará recebendo um kit completo de namorado, dois filhos, duas calopsitas e uma cachorra. Não é fácil para nenhum de nós, então tolerância, educação e delicadeza são as palavras. Como digo sempre: “Nada de flatulências ou eructações!”. Eu mato vocês. Putz, são sete e meia. Estou atrasado. Beijos do pai.

Shostakovich – Vida, Música, Tempo (de Lauro Machado Coelho)

Foi uma surpresa descobrir a existência deste calhamaço de 502 páginas, uma biografia do enorme compositor russo-soviético Dmitri Shostakovich (1906-1975). O que não foi absolutamente surpreendente é o fato da biografia ter sido escrita por Lauro Machado Coelho, autor de alentadas obras sobre ópera que têm preenchido o deserto de publicações do gênero com alguns bem-equipados oásis.

Este livro sobre Shostakovich é imprescidível a quem se interessa pelo autor. O volume de informações é inacreditável e fiquei de tal forma envolvido pelo livro que seria quase uma injustiça criticar o trabalho de Lauro, porém, em meio a tanta novidade, consegui vislumbrar o guichê de reclamações e pretendo fazer uso dele. O texto é muitas vezes descuidado. Tenho a impressão de que Lauro necessitava finalizá-lo no ano de 2006 – ano dos cem anos de nascimento de Shosta – e deixou passar alguns parágrafos que são quase anotações esparsas. Pressa, certamente. A editora poderia tê-lo alertado. Deve haver leitores profissionais na Prespectiva, não? Outro fato é que o autor claramente arrepende-se de ter sido tão anticomunista durante o texto e escreve um inteligente e equilibrado último capítulo – talvez o melhor do livro – chamado “O Caso Shostakovich”. É um curioso e necessário recuo. Afinal, Shostakovich utilizou o mais abstrato dos meios para dar o depoimento mais realista da história da música sobre sua contemporaneidade e há controvérsias por todo lado. Shostakovich não nos legou testemunhos confiáveis. Há momentos de descontrole e outros em que já vemos o LMC do último capítulo. Ou seja, carece de revisão.

Agora, só um louco ousaria criticar o que realmente importa: a detalhada cronologia, a notável descrição das obras, a palavra de um indiscutível conhecedor, as valiosas opiniões de um excelente ouvinte. Também elogio a diagramação do livro, que nos deixa duas boas colunas para que façamos anotações e possamos discutir com o autor e suas fontes… Coisa que adoro fazer.

Vocês sabiam que L&PM lançou em pocket a tradução de Lauro Machado Coelho dos poemas de Anna Akhmátova – Poesia: 1912-1964? Pois é, é bom lê-los.

Quando as pernas (todas) e os decotes (nem todos) desaparecem

Tom Jobim cantava as águas de março que fechariam nossos verões. Eu mentiria se as cantasse em Porto Alegre, pois março e abril foram quentes e parcos em chuvas. Foi uma seqüência de dias lindos, os tais dias lindos do mais puro azul que Drummond dizia acontecerem na segunda metade de abril.

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

TOM JOBIM em Águas de Março – Grande autor, péssimo meteorologista.

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE em Os Dias Lindos – Grande autor, razoável meteorologista

Drummond tem razão, o estatuto do calor está abolido, mas no segundo dia de maio caiu o mundo em forma de chuva. Dirão vocês que não importa, que Drummond é um dos picos da evolução humana e que a culpa deve ser do aquecimento global. OK, sou simpático a qualquer argumentação que enalteça o itabirano, porém lamento dizer que minha contestação aos dias lindos vai além. Saúdo-os ao mesmo tempo que lamento as perdas.

Hoje fui ao centro da cidade. Acostumei-me a caminhar pelas ruas quentes vendo as pernas e decotes das gaúchas. Ficava feliz com a crescente e elegante ousadia daquelas que mostram sua boa forma, suas belas formas, seus bronzeados e seus seios remodelados ou originais. Também apreciava a classe das mulheres que exibiam o que tinham de melhor, escondendo sob panos coloridos o indesejável, o inevitável, o irremediável ou o inexorável. Sou um admirador das artes femininas. Só que hoje o panorama era outro. Os decotes estavam mais fechados, as pernas haviam quase sumido e o colorido das roupas tendiam à diluição. Viram? O dia lindo e seus dezoito graus matinais derrubaram a libido do caminhante.

Mas quem viverá seu qüinquagésimo inverno nesta cidade, sabe que este é um fenômeno sazonal e logo nós, os homens, estas criaturas tão visuais para com o outro sexo, iremos nos readaptar. Ficaremos excitados apenas com um belo rosto e pelo prenúncio de um tornozelo. Conheço alguns que enlouquecerão por um mero salto alto. Pior, há os que abraçarão suas mulheres e amigas apenas para sentirem o aroma do perfume que acompanhará o ar expulso de suas peles pelo abraço. Voltaremos a adivinhar as formas sob as roupas e teremos vontade de levar em nossos carros as mulheres encolhidas nas paradas de ônibus. (Tratar-se-á da mais desinteressada e solidária gentileza.)

Drummond esquece-se de dizer que os dias lindos são o prenúncio de uma época em que o espírito vencerá a observação, em que a cogitação precederá o fato, em que os cobertores serão os companheiros mais adequados a quaisquer primícias e que serão jogados longe apenas durante os clímax. Os dias lindos nos fazem lembrar que, daqui seis meses, haverá uma primavera onde as flores, os plátanos, os guapuruvus e as mulheres reapararecerão. Deslumbrantes.

Porém, o leitor atento que há dentro de mim bate em meu ombro a fim de chamar minha atenção. Diz ele que Drummond vivia no Rio de Janeiro, que lá as pernas e decotes nunca desaparecem, que este é um fenômeno gaúcho, subtropical e que não tenho razão em reclamar do poeta. Acabo esta crônica fazendo tamborilar os dedos da mão direita sobre a mesa. Um por um, repetidamente. É o movimento característico da contrariedade do vencido.

Ássia, de Ivan Turguêniev

Assia Ivan TurguenievComparar Dostoiévski e Tolstói sempre me pareceu coisa de amador. Os dois são tão diferentes que parecem trabalhar em faixa própria. Tolstói tem melhor texto, se o encararmos do ponto de vista clássico, e, de certa forma, é um escritor que aspira à imortalidade. Ele a obteve com folgas… Já Dostoiévski é mais escabelado e moderno, fazendo com que sua prosa dobre-se aos personagens. Eu, que não sou bobo, não faço escolhas e gosto de ambos. Porém, havia outros enormes escritores circulando pela Rússia czarista e havia um que trabalhava na faixa de Tolstói. Era Ivan Turguêniev. Escritor de grandes recursos, criou algumas novelas perfeitas e um romance idem: Pais e Filhos.

Tenho especial consideração pelas novelas, estas narrativas que ficam entre o conto e o romance, seja em tamanho, seja em alargamento de intenções. Grandes escritores se dedicaram ao gênero. Kafka escreveu A Metamorfose, A Colônia Penal e outras; Henry James tem obras-primas como A Volta do Parafuso, Os Amigos dos Amigos, A Vida Privada, O Altar dos Mortos, a insuperável A Fera na Selva, etc.; Isak Dinesen tem Os Sonhadores e outras; Heinrich von Kleist escreveu uma inesquecível: Michael Kolhaas; Tolstói tem seu trio de ferro: Sonata a Kreutzer , A Morte de Ivan Illich e A Felicidade Conjugal; Goethe tem Werther. Estes exemplos foram os primeiros a me ocorrer, há muitíssimos mais.

Voltemos a Turguêniev ou Turguenev, como queiram. Quando vi que a Cosac & Naify tinha lançado a novela Ássia, animei-me imediatamente – seria ela um outro O Primeiro Amor, seria ela outra grande novela de Turguêniev? Não, não é tão boa, mas estão lá todas as características que fizeram deste russo um escritor tão singular. Lá está a prosa impecável do russo e lá estão os aristocratas inúteis de sempre, porém o narrador de Ássia é, além de inútil, um covarde emasculado. Ássia é uma jovem que se apaixona por ele. Só que o narrador fica confuso no momento decisivo e deixa a moça pensar que ele não a ama.

Este tema é um clássico em várias literaturas. Inclusive Machado de Assis constrói um de seus melhores e mais importantes contos sobre o tema do momento decisivo – o Missa do Galo (que é muito melhor que Ássia, bem entendido). Só que Turguêniev não deseja apenas mostrar um desencontro fortuito entre dois amantes, mas uma “história moral de sua geração”. Talvez por isto tenha criado um narrador tão inerte e irritante. Esta aristocracia russa, cuja psicologia é tão bem descrita neste livro e em grande parte da obra de Tchékov, mereceu plenamente a revolução que a sepultou.

Não ignoro que na literatura russa do século XIX havia eslavófilos e europeístas. Eu passei intencionalmente por cima desta esta classificação, OK?

Confesso ser um privilegiado

Monica Salmaso 11. Ela é uma cantora musicista, se vocês entendem o que quero dizer: é que o termo cantora está tão perniciosamente ampliado por artistas performáticos, midiáticos e macaquéticos que talvez seja necessário explicar que ela é uma artista que singelamente entra no palco e canta. Só? Não, ela é a melhor. E é apaixonada (muito) pelo que faz e é simpática (muito) e é inteligente (muito) e é uma solidária antidiva (muito) que divide seus méritos com os músicos. Mônica Salmaso se apresentará hoje em Porto Alegre, fazendo soprar, pelo velho Teatro São Pedro, o melhor ar sonoro deste sábado. Eu, Carol e Bernardo – graças à Helen, que comprou os ingressos há quase vinte dias e ainda não recebeu ressarcimento… – estaremos lá. Um privilégio, sem dúvida. Na saída, um bar ou análogo com todos exibindo moralmente alguns centímetros a mais.

2. Ontem, participei como entrevistado de uma aula do Curso de Letras da PUC. Fui muito bem tratado pela turma do professor Charles Kiefer. Assuntos: literatura, blogs, internet e alguns temas inesperados — como o levantado por aquela bela moça sobre a vaidade de todo escritor-blogueiro, de todo escritor, de todo blogueiro… Falei por quase duas horas a 60 atentos alunos, mas minha vaidade despertada teria suportado outras três. Sou um privilegiado, n’est-ce pas? Resta-me agradecer à Simone Vey pelo convite.

Entrevista (Literatura de Mercado)

Abordagem Nº 2 ao fracasso da literatura.

Na próxima sexta-feira, se até lá não descobrirem que sou um embusteiro, uma turma do curso de Letras da PUC-RS fará uma entrevista comigo. Enviaram-me uma série de perguntas para me servir de roteiro e, acho, para que soubesse onde pisaria. Espero que sejam bonzinhos e não me retalhem. O assunto é a chamada “literatura de mercado” versus a “literatura artística”.

1) Qual a sua opinião sobre a literatura de mercado? Ela é literatura?

Antes de responder, acho que devo tentar definir o que é literatura. Na minha opinião, literatura é tudo que é lido como literatura por determinado grupo de pessoas. É aquilo que desperta a imaginação do leitor e lhe provoca emoções de índole literária, sentimental, matemática, lógica, de curiosidade, etc.

Eu, que adoro matemática e até fiz faculdade na área, acho alguns teoremas modelos de concisão e elegância. Para mim, são como poemas. Sei que o tipo de emoção causada por eles é semelhante à poética. Seria literatura? Sim, se forem lidos como tal.

Porém, de forma geral, literatura é a arte que usa a palavra como matéria-prima. Então, considero válida a literatura oral – afinal, foi início de tudo! – mas, para ser literatura, o texto tem que ser escrito com a intenção de provocar efeito estético. Talvez Paulo Coelho provoque efeito estético em seus leitores, certamente pessoas cujos modelos e exigências são muito limitados. Eu preferia dizer que não é literatura, mas, infelizmente, penso que seja, ao menos para aqueles a quem se destina. Mesmo Sidney Sheldon, que talvez escrevesse seus livros sob determinadas fórmulas comerciais, não preocupando-se com nenhum refinamento de forma ou conteúdo, talvez provoque emoção literária em gente idiotizada. A Bíblia também pode ser considerada literatura porque, para quem acredita ou vai acreditar, causa efeito estético, emoção… O que fazer? Tudo aqui, como aliás em qualquer campo do conhecimento, é complexo e depende da interação com o outro, com o receptor.

Mais: a literatura, em minha opinião, engloba tudo, de crônicas do dia-a-dia até a poesia mais diáfana, passando por obras de não-ficção cuja construção textual ultrapasse a simples função informativa. O raso ou o profundo dependem da qualidade do leitor.

2) Quais as razões do sucesso desse tipo de literatura?

Ora, o marketing estuda como chegar à boa vendagem e ao lucro. Eu não entendo de marketing, mas creio que o livro – capa, conteúdo, lançamento e divulgação – obedeça a um cuidadoso esquema pré-estabelecido. O marketing cria a ilusão de necessidade no consumidor. Confunde e funciona.

3) Por que Paulo Coelho é o escritor mais bem sucedido do país? Qual é o valor literário de sua obra? O que falta aos seus romances?

Eu não li Paul Rabbit, só trechos. O mundo me contra-indicou e sou um bom menino. Certa vez, vi o Prof. Cláudio Moreno lendo e indicando erros num trecho de um romance dele. Era uma prosa miserável, não preciso daquilo. Ah, enquanto cortava o cabelo, li numa Playboy que ele sabia como não sair numa fotografia, mesmo que tenha sido clicado. Ou seja, talvez o caso de Rabbit não seja literário, mas médico.

4) Acredita que a literatura de mercado tem como mérito a formação de novos leitores?

Apenas de forma casual. Eu e meus dois filhos, por exemplo, desde pequenos, sempre rejeitamos intuitivamente a literatura de má qualidade. As crianças logo identificaram o que não era bom. Então, não passamos por essa fase. Ao menos a nós, a literatura de mercado não formou.

5) A literatura menor pode ser uma forma de introduzir a população arredia à leitura a obras maiores?

Os livros conversam entre si. Um cita o outro. Talvez alguém chegue a algo maior através de Paulo Coelho, por exemplo, mas depende da sorte ou de si mesmo. Acho que nós temos a tendência a pensar que mandamos nos leitores, que ele tem que ser orientado, mas não é assim. É só mostrar ao leitores potenciais que existem coisas de todo tipo. Ele escolhe o que desejará ler e se desejará.

6) “A cada ano, morrem setenta leitores e apenas dois são substituídos. Eis um modo bem fácil de visualizar a questão”, Roth disse. Por “leitores” ele entende pessoas que lêem livros sérios regular e seriamente. A prova de que “a era literária chegou a seu final está por toda parte”, ele afirmou. “A prova é a cultura, a prova é a sociedade, a prova é a tela, a passagem da tela do cinema para a tela da televisão e para a do computador. Não temos muito tempo, nem muito espaço, e poucos hábitos mentais determinam o modo como as pessoas usam seu tempo livre. A literatura exige um hábito mental que desapareceu. Exige silêncio, algum tipo de isolamento e a concentração continuada na presença de um fator enigmático. É difícil apreender um romance maduro, inteligente, adulto. É difícil saber o que fazer da literatura. Por isso digo que dizem coisas estúpidas sobre ela, pois, a não ser que as pessoas sejam suficientemente educadas, elas não sabem o que fazer dela.”

REMNICK, David. Dentro da floresta: perfis e outros escritos da revista The New Yorker.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Muito apocalíptico este Sr. Remnick. Discordo dele. A boa literatura irá sim recuar, recuar, e virará coisa de especialistas e de gente inteligente, que se diverte com coisas mais complexas e que pode ouvir a música de um texto misturada a múltiplos significados, nem sempre claros. A sensibilidade não irá morrer, mesmo que a educação seja uma porcaria. E, quem conseguir se destacar como autor desta rarefeira confraria, até ganhará dinheiro, penso. Cresci ouvindo falar na morte do romance e do rock n`roll. Mas eles vivem de suas crises e estão aí. O mesmo, penso, ocorrerá com a literatura de arte.

7) Qual é a sua opinião sobre o público leitor sério existente no Brasil: ele está crescendo ou diminuindo? A criação de literatura de qualidade está fadada ao desaparecimento?

Não sei se cresce ou não, mas não desaparecerá. Só se pessoas como nós desaparecerem. E a gente se reproduz…

8. Existe literatura de mercado direcionada a grupos especiais, como indivíduos de um determinado sexo ou nível cultural?

Não sei.

9) Você gostaria de apresentar outra discussão sobre o tema literatura artística versus literatura de mercado?

Sim. A decadência é geral. O cinema é menos do que uma sombra do que foi no passado e nesta área é ainda mais complicado, pois há a intervenção direta de muita grana, de investimento pesado. Pensem que nos anos 70 tínhamos Bergman, Buñuel, Fellini, Visconti, Antonioni, Kurosawa, todos ativos; quem são seus análogos atuais? O cinema foi infantilizado a fim de buscar mais espectadores. Grandes investimentos, grandes lucros – é do capitalismo. O cinema hoje, principalmente o americano, não significa nada em termos de arte. Outra crise? A música brasileira tinha Tom, Chico, Milton, Gil, Edu Lobo, Caetano em pleno auge, no mesmo período. Olhe a cena de hoje: Guinga é um compositor quase secreto, Mônica Salmaso é uma cantora desconhecida. Voltando ao cinema, onde estão Hal Hartley e Kusturica? Estes mal conseguem fazer filmes e, quando conseguem, talvez não tenham distribuição… Ou seja, não adianta a literatura achar que é a única desgraçada, pois o marasmo e a vulgaridade grassam.

Dois Poemas para Shostakovich

O primeiro, de Anna Akhmátova:

Música

Para Dmitri Shostakovich

Algo de miraculoso arde nela,
e fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar,
depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.
Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

2. O segundo, de Fernando Monteiro:

O dia 24 era um domingo e no dia seguinte, 25 de setembro de 2006, minha filha completaria doze anos. No mesmo dia, o mundo musical comemorava os cem anos de nascimento de Dmitri Shostakovich. Lá pelas tantas, naquele tranqüilo domingo, resolvi olhar os e-mails e havia um do escritor Fernando Monteiro.

Era um poema, uma litania que Fernando escrevera e dedicara a mim – seu geograficamente longínquo amigo – e a Bárbara. Fiquei honradíssimo com a dedicatória, li o poema para minha companheira de filha e aquela Litania nos cem anos de Shostakovich acabou publicada em alguns jornais. Lembro que planejei fazer referências a estas publicações, mas nunca as fiz.

Hoje, ao procurar uns papéis, encontrei a Litania grampeada a outros dois papéis: um da imagem de uma página de 23 de fevereiro de 2007 do caderno “Anexo – Idéias” do jornal A Notícia de Joinville, onde a Litania tinha sido publicada, e outro, um e-mail de Fernando, explicando-me que as alusões “venezianas” do poema – detritos, crianças, gradis, febre, scirocco -, eram uma homenagem a Mahler que, para ele, é o que Shostakovich é para mim.

Fernando, digo-te que meu coração musicalmente promíscuo coloca Mahler ao lado de meu amado Shostakovich…

Antes de escrever este post, examinei demorada e amorosamente a primeira folha, a da litania sozinha, onde há a linda e enorme letra infantil de minha filha. Bem sobre o B.R., ela escreveu Bárbara Ribeiro.

Litania nos cem anos de Shostakovich

Para M.R. e B.R.

O torso de beleza afastando-se
Como se afasta um afogado
Das margens da praia
Também recuada para trás
De onde o Mediterrâneo
Vinha beijar os pés das sílfides,
Debaixo do sol silencioso.

Abandonados pelas crianças,
Os brinquedos da marina
Zunem de calor no metal
Aquecido como as águas.

O planeta está mais quente
E mais enlouquecido
Entre os pios nublados
Do pássaro escondido
Em árvores molhadas
Da chuva ácida que se filtra
De um céu de tempestade.

Aviões caíram nesta manhã,
Levando passageiros
Para o fundo de uma laguna
E o nenhum lugar da selva
Remota que irá retomar
Seu espaço sobre azulejos
Encardidos e embalagens
Não-degradáveis
Num mundo que prefere o desastre.

Tudo o prenuncia, de certa forma,
E nada está perdoado
Nem foi esquecido
Com todas as coisas que já foram
E com aquelas que ainda serão
Ou que apenas dormem na tarde
À espera dos anos sem emoção.

Os humanos repousam
No sono da sombra de toldos
Estalando na Veneza insalubre
Deste lado do Atlântico
De exímios nadadores
que não viram as crianças
Se afogando.

Sim, eu prefiro estar
Por apanhar um resfriado
Antes da peste
No limite da cerca-viva
De mato e detritos do lixo
Avançando até o antigo gradil
De gladíolos brancos.

É minha a opção de não manter
A saúde, fumar e perder esperança
Na vigilância sem objeto,
Exposto ao vento da tarde,
Ao siroco da mente
Igualmente desistindo
Das perguntas a ninguém
Muito depois de Pã
Anunciado como morto
Antes da morte dos mares.

Então, não importa molhar
Os sapatos da espuma de solfejos
Rumorejando as queixas do Adriático
Como outrora o mar dos gregos
Deixava leve gosto de salgado
Entre os artelhos limpos
De náiades banhando-se
Nos oceanos mitológicos
Que hoje são de plástico
Cor de chumbo.

Literatura e Sensibilidade Feminina

Meu amigo S. era muito desejado pelas mulheres. Bonito e inteligente, falava com voz estereofônica e as moças do escritório – trabalhávamos numa grande multinacional – o seguiam com os olhos para cá e para lá. Nós, homens, reconhecíamos sua superioridade. Ele nascera em Antônio Prado, uma cidade histórica gaúcha. Certa vez, um jornal publicou uma reportagem sobre as velhas construções dos italianos da região. O título da matéria era “Toda a Graça de Antônio Prado”. Nossa secretária pôs a página no mural e completou com caneta vermelha: “Toda a Graça de Antônio Prado ESTÁ CONOSCO”.

Um dia, S. confidenciou-me algo espantoso:

– Milton, tenho inveja de ti -, pensei que vinha uma piada qualquer e esperei.

– As mulheres que saem contigo são intelectuais, inteligentes, de bom nível. Já meu séquito é formado por mulheres burras que se apaixonam pela minha cara.

Fiquei espantado. Seguimos conversando, mas o assunto não prosperou. Meses depois, S. sofreu um grave acidente. Dormira ao volante e fora de encontro à traseira de um caminhão parado. Estava a 80 quilômetros por hora. A comoção foi geral, era uma pessoa querida por todos. Após um mês no hospital, ele retornou com duas grandes cicatrizes no rosto. Falou-me de sua intenção de submeter-se a todas as cirurgias possíveis para recuperar o rosto de Adonis. Ao comentar com minha (então) mulher a respeito, ouvi uma opinião discordante.

– Milton, ele era perfeito demais. Agora ficou humano! Acuse-o de não entender nada de mulheres! É muito grave.

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Passei grande parte das últimas três décadas procurando entender as mulheres. Evoluí muito. Hoje sei da atenção que elas demandam, das flores, dos pequenos agrados e mimos, da importância de ser bom ouvinte mesmo quando morrendo de sono, e de muitos outros detalhes que não penetram a alma feminina, mas que a fazem respirar melhor. As mulheres têm um gênero de sensibilidade diversa da nossa, queiramos ou não. Trabalham, adornam-se, falam, escrevem e criam obras literárias distintas. Têm expressão tão diversa da masculina quanto sopranos e contraltos diferem de tenores e baixos.

Os primeiros críticos ingleses que escreveram sobre Jane Austen (1775-1817) referiram-se a tea-table novels. É uma interpretação muito superficial. Austen – que escrevia seus romances em seu quarto, temendo que alguém entrasse e interviesse – põe lentamente em movimento grandes e complexos personagens. Esta escritora genial é absolutamente irônica e realista. Foi a primeira a retirar a nota trágica do romance sério. Criou personagens e diálogos inesquecíveis dentro das velhas histórias tradicionais de mocinhas que só pensam em noivar e casar. Quem leu “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice) nunca esquecerá Elisabeth Bishop e Fitzwilliam Darcy e alguns críticos consideram Emma Woodhouse, de “Emma”, a maior personagem da literatura inglesa. Não é pouca coisa. Sua voz em “Orgulho e Preconceito”: Mary não compreendia seus sinais. Uma tal oportunidade de exibir-se era-lhe deliciosa e ela começou a cantar. Os olhos de Elisabeth se fixaram nela com os mais dolorosos sentimentos. Ouviu as várias estrofes com uma impaciência muito mal contida, pois Mary, ao perceber entre os agradecimentos a sugestão de que ela pudesse ser instada a renovar o prazer que estava dando a seus ouvintes, recomeçou a cantar, depois de uma pausa de meio minuto.

A admiração atual por Virginia Woolf (1882-1941) é estrondosa e merecida. Foi romancista, contista, ensaísta e memorialista de primeira linha. Anos atrás, o Oscar de melhor filme foi dado à adaptação de um livro baseado na biografia de Woolf e em uma de suas obras, “Mrs. Dalloway”. “As Horas” (The Hours) era o título inicial de “Mrs. Dalloway”. Não pretendo resumir em poucas palavras uma escritora tão conhecida, ampla e de voz tão original, seria uma temeridade. É curioso saber que, nas margens de seus manuscritos havia observações como esta: Eu não consigo escrever & todos os diabos aparecem – pretos e peludos. Ter 29 anos e ser solteira – ser um fracasso – Sem filhos – também doida, e não escritora. E, ao lado, esta outra: Fico deitada & penso na minha adorada fera, que me torna mais feliz a cada dia & instante de minha vida do que jamais pensei ser possível. Não há dúvida de que estou terrivelmente apaixonada por você. Ponho-me a pensar no que estará fazendo, & tenho que parar porque começo a querer muito beijar você. Tais anotações, quais romances?

Lembro-me de George Eliot, Sylvia Plath e Doris Lessing, porém concluo com Clarice Lispector (1925-1977). Para mim é difícil chamar Clarice de intimista; ela é mais do que isto, torna-se íntima de quem a lê. Ela me é ou ela torna-se eu, poderia ter escrito Clarice. Longe dos padrões estabelecidos, temos de abdicar da segurança das convenções da literatura tradicional para deixar que sua maravilhosa invenção nos leve. A palavra é protagonista tão importante em sua criação que temos a sensação de que vem antes do pensamento: Como poderei saber o que penso até que veja o que digo? (*) Sua arte é de tal forma envolvente, que quando relemos nossas anotações anos depois, não compreendemos mais do que se trata. É melhor recomeçar o livro, reentrar em seu espaço, é melhor ir direto a Clarice de, por exemplo, “Água Viva”: Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

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Querem saber se S. fez as tais cirurgias? Não, não fez. Talvez a vaidade masculina seja tão boa ouvinte quanto a feminina…

(*) André Gide, em “Os Moedeiros Falsos”.

O OPS complica a vida dos blogueiros

Obs.: Assunto de Interesse Geral, seja você blogueiro ou não.

O Pensador Selvagem, recentemente adquirido pela Google, criou um novo método de nos avisar quando recebemos comentários em nossos blogs. Nada daqueles contadores e e-mails mal formatados. O novo produto alerta imediatamente o blogueiro da chegada de um comentário, esteja onde ele estiver. É o OPS, a New Comment Arrived! Trata-se de um microrreceptor que é inserido sob nossa pele – Under Your Skin, diz a propaganda, obviamente tendo ao fundo a música de Cole Porter. Quando chega um comentário, o receptor avisa o blogueiro através de uma leve descarga elétrica. Isto na Versão Básica, porque na Versão Plus são oferecidos mais recursos. Além de um exclusivo friso lateral no receptor, podemos configurar o equipamento para interpretar o conteúdo das mensagens. Os primeiros testes foram realizados no Brasil e revelaram-se um sucesso técnico. Junto com a Lulu, o Marconi, o Grijó e o Felipe (o Biajoni queria pôr o aparelho noutra região do corpo e foi rejeitado pelo colegiado de psiquiatras), participei da equipe de testes e hoje possuo um destes aparelhos fixado na axila. No começo, tudo funcionou à perfeição, principalmente porque nós e nossos leitores tínhamos ciclo biológico semelhante. Afinal, morávamos dentro do mesmo fuso horário e normalmente dormíamos e acordávamos aproximadamente juntos. Toda a equipe recebeu a Versão Plus do OPS, a New Comment Arrived! e, quando percebíamos um pequeno choque no sovaco, corríamos ao primeiro local info-incluído e abraçávamos o carinho do comentário simpático ou elogioso. Passamos a denominar este aviso de “choque amigo”. Porém, quando o choque era mais forte e longo, íamos furibundos responder à discordância ou ofensa. Tais descargas eram raras, pois os blogueiros costumam ser de natureza lhana. Os problemas começaram quando os blogueiros portugueses, afetivos e educados mas com fuso horário diferenciado, começaram a nos acordar em circunstâncias extremamente matinais. Isto nos impedia de completar nosso sono adequadamente; porém, como a maioria da equipe de testes era insone por natureza, só o de vida mais rotineira, eu, ficou incomodado. A crise só estourou quando um blogueiro de Goa começou a fazer repetidas visitações, sempre acompanhadas de comentários maldosos. Com seu disparatado horário indiano e suas observações de hostilidade e violência inauditas, sempre escritas num terrível português arrevesado, ele começou a torturar repetidamente toda a equipe de testes. A cada intervenção do homem de Goa, o aparelho fixado sob minha axila aplicava-me contundentes choques, proporcionais ao grau das ofensas presentes no comentário, demonstrando o perfeito funcionamento do OPS, a New Comment Arrived! Creio que vocês possam imaginar o grau de perturbação e os paroxismos de ódio assassino a que cheguei. Mas houve algo pior que fez tudo degringolar: foi o momento em que, avisados pelo homem de Goa, blogueiros dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, também conhecidos como PALOPs, descobriram o teste e começaram a nos dar choques em novos horários. Nosso desespero chegou a tal ponto que, transtornados, perdemos inteiramente a elegância e passamos a atacar os africanos com frases racistas. A combinação entre piadas de português e piadas de negros tornaram a experiência uma letal tour de force do politicamente incorreto. Se acrescentarmos a isto nosso cansaço, vocês podem imaginar o desvario geral. Apesar disto, o OPS confirmou o lançamento do produto e espera que um grande percentual de blogueiros o adote. Uma rede de hospitais psiquiátricos está fazendo a comercialização, instalação e manutenção dos receptores. Os mesmos oferecem, dentro do pacote promocional de lançamento, apoio médico baseado em Florais e Corais de Bach. Maiores detalhes aqui.

[Off Topic]: Meu ex-chefe e algoz, Tiago Casagrande me veio com essa brilhante citação de Thiago Gonçalves:

Os blogs são possibilidades incríveis de subversão da ordem posta. São ferramentas impressionantes na difusão de informações – e, preferencialmente, de conhecimento. Têm a chance de motivar mudanças estruturais em todo o aparato de produção dessas informações. E de fato têm feito isso; não são poucos os exemplos nesse sentido.

Se o que é anárquico, não-hierárquico, fluido, descentralizado, acessível, em suma, livre, ganhar correntes, deixa de ser o que é, e se transforma no que já existe – e não nos ajuda. O que põe as crises existenciais numa perspectiva tão profunda quanto um pires. Aqui, na blogosfera, tudo é possível.

Tem razão o moço.

100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

Este post foi publicado em 13 de dezembro de 2007 em meu blog anterior na Verbeat. Como ainda rende comentários e comentários por lá – e não os acompanho -, decidi copiá-lo aqui.

Há algumas semanas, a revista Bravo lançou uma edição especial em que fazia comentários sobre os 100 livros essenciais da literatura mundial. A edição está vendendo muito, disse o dono da banca de revistas meu vizinho, e eu vi a revista na mão de adolescentes, uma espécie que raramente anda pela rua com revistas à mostra. Como me relaciono muito bem com jovens e estes me perguntam muitas coisas, sei que este se tornará um post de referência ao menos no meu recionamento com eles.

No final da revista, há uma página de Referências Bibliográficas de razoável tamanho, mas o editor esclarece que a maior influência veio dos trabalhos de Harold Bloom.

A lista é a seguinte (talvez haja erros de digitação, talvez não… Os digitadores da lista foram meus filhos):

1. Ilíada, Homero
2. Odisséia, Homero
3. Hamlet, William Shakespeare
4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes
5. A Divina Comédia, Dante Alighieri
6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
7. Ulysses, James Joyce
8. Guerra e Paz, Leon Tolstoi
9. Crime e Castigo, Dostoiévski
10. Ensaios, Michel de Montaigne
11. Édipo Rei, Sófocles
12. Otelo, William Shakespeare
13. Madame Bovary, Gustave Flaubert
14. Fausto, Goethe
15. O Processo, Franz Kafka
16. Doutor Fausto, Thomas Mann
17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire
18. Som e a Fúria, William Faulkner
19. A Terra Desolada, T.S. Eliot
20. Teogonia, Hesíodo
21. As Metamorfoses, Ovídio
22. O Vermelho e o Negro, Stendhal
23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
24. Uma Estação No Inferno,Arthur Rimbaud
25. Os Miseráveis, Victor Hugo
26. O Estrangeiro, Albert Camus
27. Medéia, Eurípedes
28. A Eneida, Virgilio
29. Noite de Reis, William Shakespeare
30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway
31. Coração das Trevas, Joseph Conrad
32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
34. Moby Dick, Herman Melville
35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
36. A Comédia Humana, Balzac
37. Grandes Esperanças, Charles Dickens
38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
40. Finnegans Wake, James Joyce
41. Os Lusíadas, Luís de Camões
42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
43. Retrato de uma Senhora, Henry James
44. Decameron, Boccaccio
45. Esperando Godot, Samuel Beckett
46. 1984, George Orwell
47. Galileu Galilei, Bertold Brecht
48. Os Cantos de Maldoror, Lautréamont
49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé
50. Lolita, Vladimir Nabokov
51. Tartufo, Molière
52. As Três Irmãs, Anton Tchekov
53. O Livro das Mil e uma Noites
54. Don Juan, Tirso de Molina
55. Mensagem, Fernando Pessoa
56. Paraíso Perdido, John Milton
57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe
58. Os Moedeiros Falsos, André Gide
59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello
62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll
63. A Náusea, Jean-Paul Sartre
64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O’Neill
66. A Condição Humana, André Malraux
67. Os Cantos, Ezra Pound
68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake
69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams
70. Ficções, Jorge Luis Borges
71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco
72. A Morte de Virgilio, Herman Broch
73. As Folhas da Relva, Walt Whitman
74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati
75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar
79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger
82. Huckleberry Finn, Mark Twain
83. Contos de Hans Christian Andersen
84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa
85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
86. Passagem para a Índia, E.M. Forster
87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
88. Trópico de Câncer, Henry Miller
89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
90. O Náufrago, Thomas Bernhard
91. A Epopéia de Gilgamesh
92. O Mahabharata
93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
94. On the Road, Jack Kerouac
95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse
96. Complexo de Portnoy, Philip Roth
97. Reparação, Ian MacEwan
98. Desonra, J.M. Coetzee
99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki
100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

A lista é ótima, mas há critérios bastante estranhos.

Se não me engano, só três semideuses têm mais de um livro na lista: Homero, Shakespeare e Joyce. OK, está justo.

No restante, é uma lista mais de autores do que de livros e muitas vezes são escolhidos os livros mais famosos do autor e dane-se a qualidade da obra. Se a revista faz um gol ao escolher Doutor Fausto como o melhor Thomas Mann, erra ao escolher Crime e Castigo dentro da obra de Dostoiévski – Os Irmãos Karamázovi e O Idiota são melhores e posso prová-lo -; ao escolher Guerra e Paz de Tolstói – por que não Ana Karênina? -; na escolha de O Complexo de Portnoy, de Philip Roth; que tem cinco romances muito superiores, iniciando por O Avesso da Vida (Counterlife) e ainda ao eleger Retrato de Uma Senhora na obra luminosa de Henry James. Li por aí reclamações análogas sobre as escolhas de Brás Cubas e não de Dom Casmurro, de Cem Anos de Solidão ao invés de O Amor nos Tempos do Cólera e de As Cidades Invisíveis de Calvino, mas acho que é uma questão de gosto pessoal e não de mérito. Ah, e é absurda a presença do bom O Náufrago e não dos imensos e perfeitos Extinção, Árvores Abatidas e O Sobrinho de Wittgenstein na obra de Thomas Bernhard.

Saúdo a presença de grandes livros pouco citados como Tristram Shandy, obra-prima de Sterne muito querida deste blogueiro, de Viagem ao Fim da Noite, de Céline, de A Consciência de Zeno, genial livro de Ítalo Svevo, de O Deserto dos Tártaros (Buzzati) e do incompreendido e brilhante Grandes Esperanças, de Charles Dickens, de longe seu melhor romance.

Porém é estranha a escolha de A Comédia Humana, de Balzac. Ora, a Comédia são 88 romances! Não vale! Estranho ainda mais a presença de autores menores como Orwell (com o famigerado 1984), Kerouac, Hesse, Malraux e do romance que não é romance – ou do romance que só é romance em 100 de suas 1200 páginas: O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.

Também acho que presença de MacEwan e de Coetzee prescindem do julgamento do tempo, o que não é o caso de alguns ausentes, como Lazarillo de Tormes, de Chamisso com seu Peter Schlemihl, de George Eliot com Middlemarch, de Homo Faber de Max Frisch e de O Anão, de Pär Lagerkvist, só para citar os primeiros que me vêm à mente. Se autores modernos podem entrar na lista, acho que talvez Roberto Bolaño e Antonio Lobo Antunes sejam superiores a MacEwan e Coetzee.

(O Bender escreve um comentário reclamando a ausência de Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa. É claro que ele tem razão! Esqueci. Coisas da idade.)

Com satisfação pessoal, digo que este não-especialista não leu apenas Os Miseráveis, o livro de Blake e os de Lautréamond, Mallarmé, Ovídio e Hesíodo. Isto é, seis dos cem. Tá bom.

P.S.- Milton mentiroso! Não li Finnegans também!

Gosto literário se discute

Em 2003, respondi por escrito a um questionário cujo título era “Gosto literário se discute”. Sou um compulsivo respondedor de questionários e testes. Se, por exemplo, vejo em alguma revista um daqueles testes do tipo “Como está seu coração” ou “Descubra se você será traído por sua mulher?”, saio respondendo na hora. É claro que não resistiria a tal proposta, assim como não resisti a responder um teste sobre TPM numa revista Cláudia da minha mãe…

Não sei quem criou as perguntas a seguir.

Qual o livro que você mais relê?

“A Metamorfose”, de Franz Kafka.

E que livro relido ficou melhor?

“O Idiota”, de Dostoievski.

Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.

São tantos!:
– “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
“- Laços de Família” de Clarice Lispector,
– “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio;
– “Quatro-Olhos”, de Renato Pompeu;
– “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva;
– toda a obra de Sergio Faraco e
– mais uns 100.

Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas?

“Alta Fidelidade” de Nick Hornby, o filme sugeria algo melhor. Os últimos livros de Günther Grass e de João Gilberto Noll estão firmes nesta disputa.

E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?

“A Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)”, de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.

Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.

Vou arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Há o famoso capítulo 8 deste livro, mas penso que este interesse mais a músicos e melômanos.

Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor?

– Dom Quixote, em “Dom Quixote”;
– Sílvia, de “O Tempo e o Vento” (Parte III, “O Arquipélago”), de Erico Verissimo;
– Vania de “Tio Vania”, de Anton Tchekhov;
– Tristram Shandy, de “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne;
– o narrador de “Opiniones de um Payaso” (trad. para o espanhol), de Heinrich Böll;
– Alejandra, de “Sobre Heróis e Tumbas”, de Ernesto Sábato;
– o Homo Faber, de Max Frisch;
– o Conselheiro Aires, do “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
– Anna de “O Carnê Dourado” de Doris Lessing;
– Lucien de Rubempré de “Ilusões Perdidas”, de Balzac;
– Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; etc.

Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?

“Berlim Alexanderplatz”, de Alfred Döblin.

E qual o que lhe deu mais prazer e alegria

Foram tantos… Como foi pedido só um, vai lá: “Sete Novelas Fantásticas” de Isak Dinesen ou “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, escolha você!

E o que mais lhe fez pensar?

Um só? “Extinção” de Thomas Bernhardt.

Cite…

a) um livro meio chato, mas bom

“V.” de Thomas Pynchon.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu

Apenas “Finnegans Wake”, de James Joyce.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático

“Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

d) um livro difícil, mas indispensável

“Os Mímicos” de V.S. Naipaul.

e) um livro que começa muito bem e se perde

“Maus presságios” de Günther Grass.

f) um livro que começa mal e se encontra

“Brincando nos Campos do Senhor”, de Peter Mathiessen.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário

O olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson em “A Mulher do Tenente Francês” de John Fowles.

Qual o início de livro mais arrebatador para você?

“A Metamorfose” de Franz Kafka.

De que livro você mudaria o final? Como?

“Crime e Castigo”. Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.

Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?

“Guerra e Paz”, que prescinde daquela longa tese no final (mais ou menos 50 páginas).

Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?

Eu odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline: “Morte a Crédito”, “Viagem ao Fundo da Noite”, etc.

A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça (m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima (s).

– “O Avesso da Vida”, de Philip Roth;
– “As Confissões de Lúcio”, de Fernando Monteiro (*);
– “Afirma Pereira”, de Antonio Tabucchi;
– “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago;
– “As Horas”, de Michael Cunningham.

(*) Sou amigo de Fernando Monteiro, mas esta amizade só existe porque elogiei “Aspades, ETs, etc.”; ou seja, minha admiração por seus trabalhos antecede nosso contato.

Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?

Para “Memorial de Aires”, de Machado de Assis. Tenho certeza de que seria muito convincente.

Cite um vício literário que considere abominável.

As explicações nos rodapés por parte dos autores.

E qual a virtude que mais preza na boa literatura?

Pensei muito e seria complicado de explicar, mas a virtude que mais prezo é uma certa serena ousadia encontrável em mestres como Anton Tchekhov.

De que livro você mais tirou lições para seu ofício?

Não sou escritor, mas, se fosse, diria que o mais “pedagógico” são os contos de Machado de Assis.

E que a frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?

Ora, só pode ser….

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente na livrarias:
Preciso de todos.

Mundo Grande (Fragmento) – Carlos Drummond de Andrade

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 É sacanagem. Não conseguia sair da frente do rádio e fazer o que tinha para fazer. A Rádio da Universidade atrapalhou todo o meu dia programando a seguinte seqüência:

– J.S.Bach: Sonata em lá maior, BWV 1032, p/flauta e cravo obbligato – parece tão simples esta espetacular obra do pai de
– J.C.Bach: Sinfonia Concertante em lá maior, p/violino e cello – o Bach de Milão que criou o estilo galante, cujo maior mestre foi
– Mozart: Serenata nº 12, K. 388, em dó menor – cuja gentileza faz-nos lembrar os primeiros anos daquele jovem arrogante que reivindicava para si o título de
Tondichter (poeta dos sons) o qual chamava-se
– Beethoven: Quarteto de cordas nº 5, Op. 18, em lá maior – que nos lembra sempre espantosas obras de câmara e grandiosas sinfonias, o que nos trouxe
– Bernstein: Sinfonia nº 2, “A Idade da Angústia”, baseada em poema de Auden – sinfonia ab-so-lu-ta-men-te perfeita e que abriu espaço para um belo
– Programa Olinda Alessandrini – sobre a ignorada música erudita brasileira
.

É que às vezes eles resolvem que não servirão de música de fundo. Decidem que a gente tem que ouvi-los. Aí, não dá para trabalhar.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que sua respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela – àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser assim descrita: seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

– Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu, Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma seqüência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

– Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem da mensagem que gravara. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

– Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos – principalmente para cuidar de seu filho -, que ele entendeu tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro específico.

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Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

– Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a idéia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?
– Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse uma música que a Maria Bethânia canta.
– Que música?
– Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

(Ou seria melhor chamá-lo “Da Humana Pretensão”?)

Ludwig van Beethoven e Thomas Mann – Sonata No. 32 em dó menor, Op. 111

Há um capítulo muito famoso, mais exatamente o oitavo, no Doutor Fausto de Thomas Mann, em que o imaginário professor Kretzschmar dá uma aula sobre o tema “Porque Beethoven não escreveu o terceiro movimento da Sonata Op. 111”.

Talvez não haja verdades absolutas sobre algo tão aberto, criado numa arte que é intangível ar sonoro, mas o resultado é que, relendo o espetacular capítulo, resolvi pensar um pouco sobre uma questão que, se é significativa no romance de Mann, é apenas curiosa fora dele. Houve um corajoso Schindler (jornalista ou músico) que perguntou a Beethoven sobre a razão da inexistência do terceiro movimento. A resposta do compositor foi típica de seu mau humor: “Não tive tempo de escrever um!”. Mann explorou habilmente a história e só quem leu o Dr. Fausto sabe da profunda impressão que a aula de Kretzschmar causou a Adrian Leverkühn, o personagem principal do livro que no capítulo XXV.

Pois o incrível é que descobri que havia a intenção de um terceiro movimento para esta sonata e que Beethoven parece ter desistido dele. Inclusive no manuscrito onde está o primeiro movimento há uma anotação: segundo movimento – Arietta; terceiro movimento – Presto. Também não encontrei referências de que a Arietta (segundo movimento) fosse algum tipo de adeus, conforme disse o Kretzschmar de Mann. Claro que a invenção dessa despedida foi uma das muitas liberdades poéticas tomadas pelo ultra-entusiasmado professor. Está bem, foi a última sonata para piano de Beethoven, porém ao Op. 111 seguiram-se obras até o Op. 137 e dentre estas há todos os últimos quartetos, a Nona Sinfonia (Op. 125), as Variações Diabelli (Op.120) , as Bagatelas (Op. 126), a Missa Solemnis (Op. 123), etc. Ou seja, quando Beethoven escreveu o Op. 111, ele era um compositor em plena atividade e com vários projetos diferentes a desenvolver, não obstante a doença.

Porém, o mais interessante é tentar explicar porque esta obra provoca tanto e a tantas pessoas. A linguagem altamente abstrata que Beethoven alcançou em suas últimas obras nos perturba tanto aqui como nos últimos quartetos. A imaginação de quem criou a Arietta é arrebatadora. O professor Kretzschmar tem toda a razão ao proclamar que tudo aquilo vem de um simples dim-dada, ou seja, de três notas que não despertariam a atenção de nenhum artista comum, e é sobre este quase nada que Beethoven cria uma imensa construção, onde há lugar para a delicadeza, a simplicidade, o sublime e até para a explosão de uma desenfreada dança semelhante ao jazz que os negros inventariam 100 anos depois. Ele sempre foi dado à utilização de temas curtos e afirmativos, mas convenhamos, aquele dim-dada está mais para um balbucio de criança… Não seria isto o que nos surpreende tanto? A música se inicia como um balbucio, depois cresce mui modernamente, quase que por livre associação e depois retorna ao início. Será esta a despedida a que Kretzschmar se refere? Nascimento, vida e morte?

Não reli a aula de Kretzschmar antes de escrever este post. Fazendo rápida e severa auto-análise penso que talvez tenha entrado neste assunto apenas como pretexto para pensar em músicas que não são somente belas, mas demonstrativas de inteligência e engenhosidade. Outras do mesmo gênero seriam os quartetos de Béla Bártok, alguns dos últimos quartetos de Beethoven (principalmente o Op. 132), as Variações Goldberg, a Oferenda Musical de J.S. Bach e outras raríssimas. Não sei se me faço entender, mas acredito que o espítito mozartiano – que adentra muito no campo emocional – não poderia entrar aqui. São obras por demais cerebrais. São as minhas preferidas.

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A estadia do Idelber processa-se calma, amigável e bastante etílica. Mas que diabo se me deu vontade de falar em música neste fim de noite?

Livros (falo de milhares deles) em Domínio Público

Amigos, neste site governamental há mais de dois mil documentos disponíveis gratuitamente, entre romances, contos, teses, etc. Então, quem tem pouca grana faz o seguinte: clica sobre o título do livro e manda para sua impressora… Ou para a do patrão, do pai, do(a) namorado(a) mais endinheirado(a)… ou lê no monitor mesmo. Todas as obras estão em “.pdf” e podem ser baixadas livremente. Mais: se você é autor e deseja disponibilizar textos para serem lidos livremente, o Domínio Público está preparado para recebê-los. Afinal, entre editar e não ser lido, talvez seja melhor mandar direto para o Domínio Público, não? Lá alguém pode baixar e você será lido. O que mais deseja um autor? Viver da venda de livros? Sim, claro, mas é uma quimera, certo? Talvez o melhor seja largar logo seu filho na vida.

Meu amigo Aurélio Dumitru me mandou um cuidadoso e-mail com duzentas e doze obras que destaca no site. No ano em que Machado de Assis completa cem anos de morte, pode-se tomar um porre – inteiramente gratuito – do Bruxo do Cosme Velho. Confiram abaixo a lista e visitem o site:

  • A Divina Comédia – Dante Alighieri
  • A Comédia dos Erros – William Shakespeare
  • Poemas de Fernando Pessoa – Fernando Pessoa
  • Dom Casmurro – Machado de Assis
  • Cancioneiro – Fernando Pessoa
  • Romeu e Julieta – William Shakespeare
  • A Cartomante – Machado de Assis
  • Mensagem – Fernando Pessoa
  • A Carteira – Machado de Assis
  • A Megera Domada – William Shakespeare
  • A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca – William Shakespeare
  • Sonho de Uma Noite de Verão – William Shakespeare
  • O Eu profundo e os outros Eus. – Fernando Pessoa
  • Dom Casmurro – Machado de Assis
  • Do Livro do Desassossego – Fernando Pessoa
  • Poesias Inéditas – Fernando Pessoa
  • Tudo Vai Bem Quando Acaba Bem – William Shakespeare
  • A Carta – Pero Vaz de Caminha
  • A Igreja do Diabo – Machado de Assis
  • Macbeth – William Shakespeare
  • Este mundo da injustiça globalizada – José Saramago
  • A Tempestade – William Shakespeare
  • O pastor amoroso – Fernando Pessoa
  • A Cidade e as Serras – José Maria Eça de Queirós
  • Livro do Desassossego – Fernando Pessoa
  • A Carta de Pero Vaz de Caminha – Pero Vaz de Caminha
  • O Guardador de Rebanhos – Fernando Pessoa
  • O Mercador de Veneza – William Shakespeare
  • A Esfinge sem Segredo – Oscar Wilde
  • Trabalhos de Amor Perdidos – William Shakespeare
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
  • A Mão e a Luva – Machado de Assis
  • Arte Poética – Aristóteles
  • Conto de Inverno – William Shakespeare
  • Otelo, O Mouro de Veneza – William Shakespeare
  • Antônio e Cleópatra – William Shakespeare
  • Os Lusíadas – Luís Vaz de Camões
  • A Metamorfose – Franz Kafka
  • A Cartomante – Machado de Assis
  • Rei Lear – William Shakespeare
  • A Causa Secreta – Machado de Assis
  • Poemas Traduzidos – Fernando Pessoa
  • Muito Barulho Por Nada – William Shakespeare
  • Júlio César – William Shakespeare
  • Auto da Barca do Inferno – Gil Vicente
  • Poemas de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa
  • Cancioneiro – Fernando Pessoa
  • Catálogo de Autores Brasileiros com a Obra em Domínio Público – Fundação Biblioteca Nacional
  • A Ela – Machado de Assis
  • O Banqueiro Anarquista – Fernando Pessoa
  • Dom Casmurro – Machado de Assis
  • A Dama das Camélias – Alexandre Dumas Filho
  • Poemas de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa
  • Adão e Eva – Machado de Assis
  • A Moreninha – Joaquim Manuel de Macedo
  • A Chinela Turca – Machado de Assis
  • As Alegres Senhoras de Windsor – William Shakespeare
  • Poemas Selecionados – Florbela Espanca
  • As Vítimas-Algozes – Joaquim Manuel de Macedo
  • Iracema – José de Alencar
  • A Mão e a Luva – Machado de Assis
  • Ricardo III – William Shakespeare
  • O Alienista – Machado de Assis
  • Poemas Inconjuntos – Fernando Pessoa
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias – Júlio Verne
  • A Carteira – Machado de Assis
  • Primeiro Fausto – Fernando Pessoa
  • Senhora – José de Alencar
  • A Escrava Isaura – Bernardo Guimarães
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
  • A Mensageira das Violetas – Florbela Espanca
  • Sonetos – Luís Vaz de Camões
  • Eu e Outras Poesias – Augusto dos Anjos
  • Fausto – Johann Wolfgang von Goethe
  • Iracema – José de Alencar
  • Poemas de Ricardo Reis – Fernando Pessoa
  • Os Maias – José Maria Eça de Queirós
  • O Guarani – José de Alencar
  • A Mulher de Preto – Machado de Assis
  • A Desobediência Civil – Henry David Thoreau
  • A Alma Encantadora das Ruas – João do Rio
  • A Pianista – Machado de Assis
  • Poemas em Inglês – Fernando Pessoa
  • A Igreja do Diabo – Machado de Assis
  • A Herança – Machado de Assis
  • A chave – Machado de Assis
  • Eu – Augusto dos Anjos
  • As Primaveras – Casimiro de Abreu
  • A Desejada das Gentes – Machado de Assis
  • Poemas de Ricardo Reis – Fernando Pessoa
  • Quincas Borba – Machado de Assis
  • A Segunda Vida – Machado de Assis
  • Os Sertões – Euclides da Cunha
  • Poemas de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa
  • O Alienista – Machado de Assis
  • Don Quixote. Vol. 1 – Miguel de Cervantes Saavedra
  • Medida Por Medida – William Shakespeare
  • Os Dois Cavalheiros de Verona – William Shakespeare
  • A Alma do Lázaro – José de Alencar
  • A Vida Eterna – Machado de Assis
  • A Causa Secreta – Machado de Assis
  • 14 de Julho na Roça – Raul Pompéia
  • Divina Comedia – Dante Alighieri
  • O Crime do Padre Amaro – José Maria Eça de Queirós
  • Coriolano – William Shakespeare
  • Astúcias de Marido – Machado de Assis
  • Senhora – José de Alencar
  • Auto da Barca do Inferno – Gil Vicente
  • Noite na Taverna – Manuel Antônio Álvares de Azevedo
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
  • A “Não-me-toques”! – Artur Azevedo
  • Os Maias – José Maria Eça de Queirós
  • Obras Seletas – Rui Barbosa
  • A Mão e a Luva – Machado de Assis
  • Amor de Perdição – Camilo Castelo Branco
  • Aurora sem Dia – Machado de Assis
  • Édipo-Rei – Sófocles
  • O Abolicionismo – Joaquim Nabuco
  • Pai Contra Mãe – Machado de Assis
  • O Cortiço – Aluísio de Azevedo
  • Tito Andrônico – William Shakespeare
  • Adão e Eva – Machado de Assis
  • Os Sertões – Euclides da Cunha
  • Esaú e Jacó – Machado de Assis
  • Don Quixote – Miguel de Cervantes
  • Camões – Joaquim Nabuco
  • Antes que Cases – Machado de Assis
  • A melhor das noivas – Machado de Assis
  • Livro de Mágoas – Florbela Espanca
  • O Cortiço – Aluísio de Azevedo
  • A Relíquia – José Maria Eça de Queirós
  • Helena – Machado de Assis
  • Contos – José Maria Eça de Queirós
  • A Sereníssima República – Machado de Assis
  • Iliada – Homero
  • Amor de Perdição – Camilo Castelo Branco
  • A Brasileira de Prazins – Camilo Castelo Branco
  • Os Lusíadas – Luís Vaz de Camões
  • Sonetos e Outros Poemas – Manuel Maria de Barbosa du Bocage
  • Ficções do interlúdio: para além do outro oceano de Coelho Pacheco. – Fernando Pessoa
  • Anedota Pecuniária – Machado de Assis
  • A Carne – Júlio Ribeiro
  • O Primo Basílio – José Maria Eça de Queirós
  • Don Quijote – Miguel de Cervantes
  • A Volta ao Mundo em Oitenta Dias – Júlio Verne
  • A Semana – Machado de Assis
  • A viúva Sobral – Machado de Assis
  • A Princesa de Babilônia – Voltaire
  • O Navio Negreiro – Antônio Frederico de Castro Alves
  • Catálogo de Publicações da Biblioteca Nacional – Fundação Biblioteca Nacional
  • Papéis Avulsos – Machado de Assis
  • Eterna Mágoa – Augusto dos Anjos
  • Cartas D’Amor – José Maria Eça de Queirós
  • O Crime do Padre Amaro – José Maria Eça de Queirós
  • Anedota do Cabriolet – Machado de Assis
  • Canção do Exílio – Antônio Gonçalves Dias
  • A Desejada das Gentes – Machado de Assis
  • A Dama das Camélias – Alexandre Dumas Filho
  • Don Quixote. Vol. 2 – Miguel de Cervantes Saavedra
  • Almas Agradecidas – Machado de Assis
  • Cartas D’Amor – O Efêmero Feminino – José Maria Eça de Queirós
  • Contos Fluminenses – Machado de Assis
  • Odisséia – Homero
  • Quincas Borba – Machado de Assis
  • A Mulher de Preto – Machado de Assis
  • Balas de Estalo – Machado de Assis
  • A Senhora do Galvão – Machado de Assis
  • O Primo Basílio – José Maria Eça de Queirós
  • A Inglezinha Barcelos – Machado de Assis
  • Capítulos de História Colonial (1500-1800) – João Capistrano de Abreu
  • CHARNECA EM FLOR – Florbela Espanca
  • Cinco Minutos – José de Alencar
  • Memórias de um Sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida
  • Lucíola – José de Alencar
  • A Parasita Azul – Machado de Assis
  • A Viuvinha – José de Alencar
  • Utopia – Thomas Morus
  • Missa do Galo – Machado de Assis
  • Espumas Flutuantes – Antônio Frederico de Castro Alves
  • História da Literatura Brasileira: Fatores da Literatura Brasileira – Sílvio Romero
  • Hamlet – William Shakespeare
  • A Ama-Seca – Artur Azevedo
  • O Espelho – Machado de Assis
  • Helena – Machado de Assis
  • As Academias de Sião – Machado de Assis
  • A Carne – Júlio Ribeiro
  • A Ilustre Casa de Ramires – José Maria Eça de Queirós
  • Como e Por Que Sou Romancista – José de Alencar
  • Antes da Missa – Machado de Assis
  • A Alma Encantadora das Ruas – João do Rio
  • A Carta – Pero Vaz de Caminha
  • LIVRO DE SÓROR SAUDADE – Florbela Espanca
  • A mulher Pálida – Machado de Assis
  • Americanas – Machado de Assis
  • Cândido – Voltaire
  • Viagens de Gulliver – Jonathan Swift
  • El Arte de la Guerra – Sun Tzu
  • Conto de Escola – Machado de Assis
  • Redondilhas – Luís Vaz de Camões
  • Iluminuras – Arthur Rimbaud
  • Schopenhauer – Thomas Mann
  • Carolina – Casimiro de Abreu
  • A esfinge sem segredo – Oscar Wilde
  • Carta de Pero Vaz de Caminha. – Pero Vaz de Caminha
  • Memorial de Aires – Machado de Assis
  • Triste Fim de Policarpo Quaresma – Afonso Henriques de Lima Barreto
  • A última receita – Machado de Assis
  • 7 Canções – Salomão Rovedo
  • Antologia – Antero de Quental
  • O Alienista – Machado de Assis
  • Outras Poesias – Augusto dos Anjos
  • Alma Inquieta – Olavo Bilac
  • O Violista (Final – Allegro Maestoso)

    Romeu foi cedo para o concerto em que interpretaria a Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra, K. 364, de Wolfgang Amadeus Mozart. Chegando ao teatro, arrumou-se, afinou atentamente o instrumento e, como não tinha nada para fazer, foi ver quem estava no teatro antes de praticar mais um pouco. Logo que entrou na área administrativa, viu o maestro Tardue conversando com as secretárias. Procurou evitá-lo, não precisaria de uma discussão naquele momento, mas ele lhe fez um gesto amistoso convidando Romeu a aproximar-se. O maestro tratava de alguma questão administrativa e não dirigiu-lhe a palavra até terminar seu assunto.

    – Já paramentado, Romeu? Que horas são? – perguntou finalmente.

    Romeu riu e respondeu que o Dia do Violista era uma instituição rara e que pretendia aproveitá-la ao máximo. Tardue levou-o cordialmente até sua sala e disse que sua evolução nos ensaios fora surpreendente.

    – Entendo perfeitamente o fato de alguém motivar-se agredindo quem lhe pareça um obstáculo.

    Romeu não respondeu e Marc seguiu:

    – Sim, eu acredito que você fantasiou uma hostilidade que nunca ocorreu entre nós. Eu, ao menos, não tive a menor intenção. Por que eu teria convidado justo você para substituir o húngaro?
    – Que húngaro, maestro?
    – Ora que húngaro?! Aquele que habitualmente interpreta a Sinfonia Concertante com Elena e que passou a faltar compromissos por motivo de saúde.

    Romeu entendeu que Tardue desejava humilhá-lo citando um fato que antes evitara: o fato de que ele estava no papel de um mero substituto de última hora. Intuitivamente, evitou desconcentrar-se e respondeu

    – puxa, maestro, não sabia. Que sorte a minha, não? Pois fazer minha estréia como solista em nossa orquestra com alguém do porte de Elena Sofonova é como entrar em campo ao lado de Zidane ou…
    – Zidane e Pelé, certamente. E fui eu quem defendeu a introdução de um membro da orquestra ao lado de Elena. O Conselho não desejava, mas, por insistência minha, consegui. Será um belo concerto.

    Romeu assentiu de forma entusiasmada e refletiu que aquele seria o momento exato para despedir-se do maestro; afinal, não seria nada bom não exercitar sua ironia a apenas duas horas do concerto. Tinha que manter-se mobilizado, concentrado. De voltar ao corredor, viu que havia luz num dos camarotes e bateu na porta. Como imaginava, após alguns segundos, a luz tornou-se ainda mais intensa com a presença de Elena à sua frente, sorridente e convidando-o a entrar. Falando num inglês menos estropiado que o de Romeu, ela lhe falou que trouxeram-na muito cedo do hotel para que ela se preparasse, mas que aquilo não era necessário a uma moça despojada e despreocupada como ela. Estava de calças jeans e camisa, ambas muito justas, que demonstravam ainda mais claramente sua beleza.

    Tranqüilo, Romeu perguntou-lhe quantas vezes ela tinha interpretado a Sinfonia Concertante antes e ela respondeu-lhe que apenas duas ou três vezes além da gravação que fora lançada pela ECM.

    – Ah, sim. E com quem foi a gravação?
    – Com Kim Kashkashian. O convite partiu dela, claro. As you know, ela é filha de armênios e fomos parte do mesmo país até alguns anos. Acho que ainda é natural uma armênia procurar uma lituana para tocar, mesmo uma inexpressiva como eu – disse Elena.
    – Vocês ainda têm muito contato entre si? Isto é, russos e lituanos e armênios e húngaros… São colaboradores habituais ou tudo ficou no passado?
    – Não, há uma certa inimizade, até. Ou toco em meu país com grupos de lá ou estou no ocidente. Ultimamente, mais no ocidente, as you can see.
    – Pensei que costumavas tocar esta obra com um húngaro… – tentou Romeu.
    – Ainda não o conheço! – respondeu Elena com seu melhor sorriso. – Mas se der um bom marido, estou interessada!

    Desta vez, Romeu e Elena Sofonova finalmente sorriam com a mesma intensidade. Depois, ela lhe perguntou sobre o Brasil, achando incrível que alguém abandonasse um país de natureza tão pródiga e que produzia tão bons músicos, como ela comprovara em muitos CDs e nos últimos dias. Romeu estava encantado com a simpatia da moça que agora lhe oferecia um doce que ganhara e que não deveria comer para manter a fama de que as russas, ou quase, eram sempre loiras, altas e magras.

    Ele se despediu, dirigindo-se depois a seu armário. Um colega avisou que hoje ele tinha direito a um camarote ao lado da deusa, mas Romeu rejeitou, preferindo que o lugar de sempre entre os músicos. Ensaiou muitas vezes a belíssima entrada que faria em uníssono com Elena. Lembrou do filme Amadeus, em que aquele início fora utilizado; Romeu sabia que o público ficaria encantado desde os primeiros segundos daquela música perfeita.

    Repetiu-a muitas vezes até ver Elena, já de vestido longo, juntar-se a ele, refazendo os primeiros compassos agora em dueto. Romeu notou que, pouco a pouco, os dois alteravam a dinâmica de tal forma que sua entrada, após a longa introdução orquestral, pareceria um bem humorado mergulho na massa sonora da orquestra. Não pensava absolutamente em mais nada.

    O concerto foi um sucesso. Elena, Romeu e a Orquestra Nacional do Porto foram ovacionados, com os solistas e Tardue retornando duas vezes ao palco. No segundo retorno, Tardue fez questão de entrar com o braço sobre os ombros de Romeu, demonstrando ao público seu apoio a um instrumentista da orquestra, a alguém que fazia seu dia a dia ali e que não era um solista internacional.

    Foram os três jantar juntos, acompanhados de alguns amigos. Era a despedida de Elena, que viajaria no dia seguinte para Paris. Foi um jantar feliz e cansado; Romeu sentou-se ao lado da lituana e recebia os cumprimentos junto com ela. Não estava preocupado nem ressentido; sabia que fizera boa figura. À saída, quando se dirigiam para a porta do restaurante, Marc Tardue fez questão de pôr-lhe o braço novamente sobre os ombros, perguntando como tinham sido seus trinta minutos de glória. Romeu não respondeu, apenas desvencilhou-se do maestro para despedir-se do restante do grupo. Trocou um longo abraço com Elena.

    Chegando em casa, o violista tratou de arrumar a casa antes de dormir. Recolocou a cadeira de frente para a televisão, o cachecol do Boavista voltou a ornamentar a TV, o rádio temático retornou à mesa e só então foi preparar a cama para dormir, pensando que sua sala era melhor que o Bessa Século XXI, o estádio do desastrado Boavista daquele ano.

    -=-=-=-=-=-

    O primeiro movimento da Sinfonia Concertante está aqui, a entrada dos solistas ocorre lá pelos dois minutos, após a longa introdução:

    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=xWxtMYLfuA4&feature=related[/youtube]

    E termina aqui:

    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Q2QmmYVSu1I&feature=related[/youtube]

    Observação final: Marc Tardue foi o regente da Orquestra Nacional do Porto por oito anos até o final do ano passado. Não o conheço e nem sei nada a respeito dele. Os outros nomes e personagens foram inventados, exceto o de Elena Sofonova, que foi a atriz principal de Olhos Negros, filme de Nikita Mikhálkov.

    O Violista (IV – Presto)

    Romeu retornou à casa e procurou imediatamente o telefone para pedir uma pizza. Estava feliz e falou em voz muito alta que queria o mesmo de ontem. A moça disse-lhe o preço e ouviu Romeu perguntar:

    – Você sabe qual é a diferença entre Deus e um maestro?
    – Não, senhor – disse a atendente brasileira acostumada às piadas de seu consumidor.
    – É que Deus sabe que não é maestro!

    Ela, excepcionalmente, deu uma autêntica risada. Romeu replicou:

    – Depois de meses, consegui fazer-te rir!
    – Sim, o Sr. é muito engraçado e hoje o dia está calmo.
    – Poucas encomendas? – perguntou Romeu que nunca tinha falado com a moça sobre quaisquer outros assuntos.
    – Sim, poucas. Mais tarde começa a correria. O Sr. é músico?
    – Sim, toco na Sinfônica do Porto.
    – Que interessante! E que instrumento o Sr. toca?
    – Viola, sou violista.
    – Não sabia que havia violas numa orquestra. Violas são como violões, né?
    – Não, viola é um violino maior, de som mais grave.
    – Ah, sei. Vocês colocam o instrumento no chão e ficam de pernas ab…
    – De pernas abertas? Não, aqueles são os violoncelos… – Romeu tentou resistir… Mas não conseguiu. – Para tocá-lo é necessário ficar como as mulheres gostam de ser tocadas.

    Ela não respondeu nem riu e Romeu tentou inicialmente preencher o silêncio com uma risada, depois com um pedido de desculpas. Não houve reação, à princípio, depois – com um tom entre a decepção e a irritação, talvez ambas – ela lhe disse apenas que tinha que trabalhar. Ele insistiu desculpando-se novamente até que ela respondeu com voz tranqüila:

    – Não esperava que um brasileiro me tratasse como alguns portugas daqui fazem. Não sou uma prostituta, sou uma brasileira que tenta ganhar a vida neste país. Sou igual ao Sr.
    – Desculpe, não foi minha intenção ofendê-la. Por favor, acredite.

    Desligaram e ele explodiu:

    – Sou um imbecil! Um idiota!

    Imaginando a idade e a aparência da moça, Romeu começou a arrumar a casa, retirou o cachecol do Boavista da parede e teve vontade de jogar o rádio alvinegro no lixo. Não o fez, mas tirou ambos de sua vista. Sentou-se na cadeira de sempre, postada no meio da sala, com a caixa da viola sobre os joelhos, achando-se desconfortável. Girou a cadeira até ficar de costas para a televisão e, com um leve sorriso, atacou o Presto, terceiro movimento da Sinfonia Concertante. Sentia-se reconciliado com o instrumento. Tocou de tal forma que agradou até este narrador. Enquanto repetia alguns trechos mais rápidos e difíceis, pensava no conflito com o maestro Tardue. Vários de seus colegas o cumprimentaram ao final do ensaio, parabenizando-o pela coragem de enfrentar o todo-poderoso.

    – Deixaste-o com a pata na poça – disse um.
    – Ele parvou e te sentiste no dever de fazer-lhe ver a verdade? – riu outro.

    Porém, à saída, o maestro olhou-o bem nos olhos e Romeu teve a certeza de que, como as guerras, aquela discussão não finalizaria enquanto o dominado não aceitasse a superioridade do dominador.

    Era heróico, talvez, mas não era inteligente um violista desafiar o maestro publicamente, assim como um recruta não deve fazer sugestões ao General em frente à soldadesca. Ele que esperasse. Mesmo refletindo dessa maneira, Romeu sorria, feliz com a vitória parcial. Será mesmo que Tardue se vingaria dele? E quando? Não acreditava numa demissão; afinal, não havia descumprimento nem extraordinária insubmissão. Vamos ver, pensava ele, ainda sorrindo.

    O problema resume-se nisto, refletia Romeu: quanto menos tempo temos, menos conteúdo comunicamos ao ouvinte. Acelera-se a música quando ela tenta expressar a alegria, ou o contraste com algum momento anterior; também apressamos o andamento se buscamos o virtuosismo ou o aplauso. Porém, alguns regentes fazem adágios precipitados por pura incapacidade de expressar conteúdo. Quando pressentem que este será inevitavelmente pobre e entediante, aumentam a velocidade da execução da música para que esta cause alguma impressão. Substitui-se a beleza pela habilidade. A lituana era mesmo muito boa, avaliava Romeu, pois sublinhava nuances que ele nunca percebera no movimento lento da Concertante. E mandava em todos, como muitas mulheres conseguem fazer. Afinal, a cada frase que seu violino pronunciava, ela sugeria ou impunha um sotaque à resposta do violista. A luta, na verdade, era entre ela e Tardue, tinha pouco a ver com o novo herói da orquestra. De modo submisso, ele, e depois a orquestra, foram induzidos por Elena que, consciente de que introduziria o tema do Andante, tinha o poder de arrastar todos consigo, não obstante a resistência do regente. Assim, garantiria uma interpretação cheia de intenções e conteúdo; aquilo não era para qualquer um.

    A relação entre conteúdo e tempo é mesmo curiosa, às vezes paradoxal, pensava Romeu, e tem de ser levada em conta. Faz parte de nossa época este desrespeito ao conteúdo; a TV mostra diariamente as notícias mais complexas de forma condensada, o que nos torna todos críticos e “sumidades” sobre qualquer assunto, ao mesmo tempo que nos priva dos meios para exercer críticas consistentes. Só agora ele dava-se conta que comprara uma briga que, na verdade, era de Elena Sofonova. Tardue ignora ser impossível fazer aquele Mozart sob o formato tacanho que lhe agrada e Elena Sofonova combatia a superficialidade do maestro.

    Porém, no movimento que Romeu ensaiava, a velocidade era fundamental e ele acelerava seu solo ao ritmo de seus pensamentos. Pensava que era um violista rápido e nas piadas que inventaria, ao mesmo tempo que orgulhava-se de saber que estaria acompanhado, no dia seguinte, por uma instrumentista de primeira linha.

    Voltou ao telefone a fim de conferir se seu sapato já tinha recebido o salto que o faria acompanhar Elena com mais quatro centímetros de altura. O homem o tranqüilizou. Estava feliz, refletindo que a experiência já valera a pena e que o público aficionado da cidade do Porto reconheceria nele um instrumentista seguro e eficiente.

    Não pensou no Boavista nem enquanto devorava a pizza. Esqueceu todos os programas esportivos que normalmente assistia para ficar apenas ensaiando. Tinha a impressão de que o tempo retrocedera e que podia tornar-se aquilo que ambicionara na juventude. Imaginava a formação de um grupo com outros músicos da orquestra para interpretar Hindemith ou, quem sabe, talvez fosse mais fácil criar um quarteto de cordas?

    Abaixo, o Presto com Maxim Vengerov (Violino) e Yuri Bashmet (Viola):

    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=DO3a_nPtOr0[/youtube]

    Amanhã, às 12h, o final.

    O Violista (III – Andante)

    Véspera do concerto, dia do segundo ensaio. Romeu caminhava lentamente para o teatro obedecendo a ordem do maestro Marc Tardue. A secretária da orquestra havia-lhe deixado um recado para que chegasse meia hora antes. Romeu imaginava o conteúdo da conversa e preparava-se, refletindo que deveria argumentar com segurança, mas o que lhe passava pela cabeça era um tumulto de frases soltas, de conteúdo bastante agressivo.

    Entrou e a jovial secretária avisou que ele já era esperado. Tardue estava ao telefone. Sem parar de falar, levantou-se para cumprimentar Romeu e voltou a sentar-se atrás de sua mesa. O assunto era algum problema administrativo que não interessou a Romeu. Quando desligou, ofereceu um café ao violista e reclamou que as tarefas administrativas inerentes ao trabalho de maestro tomavam-lhe muito tempo.

    – É difícil ser artista e administrador ao mesmo tempo – replicou Romeu.

    Não fora um começo muito promissor e ele tentou emendar imediatamente.

    – Quero dizer que deve ser irritante ter de negociar e eventualmente fazer concessões. O ideal para um artista seria a recusa a quaisquer concessões, mas creio que um regente morreria se não as fizesse.

    Tardue, acostumado a afagos, estava mais surpreso do que ofendido com o início da conversa e resolveu ignorá-la, indo na direção do assunto principal.

    – Sr. Martins, convidei-o à minha sala com a finalidade de saber o que causou aquele desempenho inteiramente insatisfatório no ensaio com Elena Sofonova. O Sr. me deixou muito preocupado.

    Romeu tinha preparado uma justificativa de ordem pessoal para sua atuação – um mau dia, problemas em casa, quem sabe? -, mas ao ver o ar autenticamente interrogativo e nada hostil de Tardue, optou por outro caminho. Explicou-lhe que as facilidades de um violista de orquestra acostumaram-lhe mal e que chegara muito relaxado ao ensaio.

    – Determinado grau de tensão e mobilização é necessário, maestro – completou.

    Tardue pegou uma caneta e pareceu hesitar. Fez uma pequena anotação na folha sobre a mesa e foi ainda mais direto.

    – O que desejo saber é se precisaremos adequar os andamentos às dificuldades dos solistas ou não. Esta é a primeira obra de Mozart que está fora da concepção galante, é a primeira vez que aparece uma arquitetura mais monumental, ao mesmo tempo que íntima. Não é música superficial e é muito dialogada; sendo que a viola muitas vezes é instada a repetir imediatamente o que foi tocado pelo violino e, se houver erros nas repetições, será um fiasco, toda a platéia notará.

    – Não se preocupe maestro, o que aconteceu no ensaio… – tentou Romeu.
    – O ideal seria um primeiro movimento afirmativo, um movimento central dramático e um presto bem rápido e virtuoso, superficial até.
    – Maestro, eu e Elena faremos a música que …
    – Sr. Romeu, desculpe interrompê-lo, mas, quando rejo uma orquestra, eu faço a música e vocês tocam as notas. Eu sou o fator de inspiração e quero saber se meus recursos estão à altura daquilo que irei exigir.

    O sangue subiu ao rosto de Romeu. Pensou que deveria responder apenas que ele era um recurso com o qual Tardue poderia contar para qualquer obra e interpretação, que estava disposto a colaborar e obedecer com o melhor de si. Foi o que fez. E despediu-se.

    Faltavam dez minutos para o ensaio e o violista foi ao banheiro na tentativa de acalmar-se. Passou água fria no rosto e após fechou-se numa privada. Sentado e de olhos fechados, tentou esquecer a conversa com Tardue e retornar ao espírito de seu ensaio em casa. Lembrou do Boavista e dos gols de Nuno Gomes, mas conseguiu rejeitar as más lembranças. Na hora exata, entrou no palco dirigindo-se diretamente a Elena, à qual cumprimentou efusivamente, sem olhar para seus pés e ignorando a diferença de altura. A moça era mesmo bonita. Tardue, depois de perguntar se todos estavam presentes e preparados, escolheu ensaiar o segundo movimento da Sinfonia Concertante. Elena, que parecia ser incapaz de parar de sorrir, aproximou sua cabeça loira da de Romeu e cochichou-lhe em inglês, pedindo que ele ouvisse atentamente seu violino e seguisse dialogando com ela.

    – Vou tocar lentamente, vamos sem pressa, como fazem os casais… – foi o que falou a Romeu de forma bem humorada e não isenta de cinismo.

    Ele gostou do que ouviu e Tardue fez a orquestra tocar a breve introdução ao Andante. Elena iniciou seu solo muito lentamente e Romeu respondeu-lhe da mesma forma com o som mais grave da viola. A música seguiu seu colóquio verdadeiramente apaixonado e, enquanto sentia que a música estava passando de seu cérebro a seus dedos, Romeu reviu em imaginação vagas imagens do filme Afogando em Números, que utiliza o tema. Ele sorria, mas não era páreo para a luminosa violinista. Os dois sentiam-se refletindo perfeitamente a música de Mozart um no outro quando Tardue interrompeu tudo. Nervoso, reclamou dizendo que os solistas estavam arrastando-se e que aquilo era intolerável. Elena permaneceu com sua cara feliz, agora olhando para a platéia vazia e, quando Tardue acabou seu discurso, voltou-se para Romeu, não sem antes balançar ligeira e negativamente a cabeça. Naquele gesto havia um acordo tácito: a de repetir tudo de forma exatamente igual. Ela estava satisfeita. Romeu também.

    A segunda tentativa foi interrompida pelo maestro já no primeiro solo de Elena. Ele mandou-a acelerar. Na terceira vez, Elena fez exatamente o mesmo e Tardue fê-la parar novamente. Durante a explicação, Romeu, com surpreendente coragem se considerarmos o temor que a orquestra tinha de seu regente titular, interrompeu-o argumentando, um tanto romanticamente, que Sofonova estava determinando sua expressão à música e que esta estava de acordo com a concepção que ele, Romeu, também tinha. Até Elena ficou séria, temendo que a resposta do regente ao violista tivesse que ser medida por sismógrafo.

    Tardue não perturbou-se, apenas fez piada citando um estudo que mostrava serem os músicos os profissionais mais insatisfeitos em sua profissão, seguidos dos médicos. Completou dizendo que muitos médicos tinham por hobby tocarem algum instrumento e que vários na orquestra davam aulas particulares para doutores. “O mundo é paradoxal e as relações se alteram de forma meio carnavalesca… às vezes”, disse. Depois ergueu os braços, perguntou maldosamente se os solistas estavam prontos para sua dar expressão à obra, e mandou a orquestra reiniciar o Andante. Elena acelerou um pouco, bem pouco, no que foi imitada até o final por Romeu, encantado com seus novos poderes.

    Depois atacaram o majestoso primeiro movimento. Tardue deu diversas instruções, mas não à dupla solista. Quando considerou boa a execução, falou a todos em voz alta que, afinal, estava aliviado pois

    – Não haverá o temido fiasco anunciado no ensaio de anteontem.

    Seguiu depois para o terceiro movimento, em que fez novas solicitações à dupla solista, mas cada uma delas possuía o civilizado tom de sugestão.


    Ah, querem ouvir/ver o andante? Claro!

    Continua amanhã às 12h.

    O Violista (II – Presto agitato)

    Romeu voltou a seu pequeno apartamento envergonhadíssimo de seu desempenho. Um vexame, pensava, um instrumentista com sua experiência não poderia ser suscetível a chiliques daquele gênero. Afinal, construíra uma reputação segura, ainda que obscura, e não poria tudo a perder.

    Entrando em casa, passou a falar sozinho e a guardar suas coisas da forma organizada e sistemática que só os solteirões convictos são capazes. Não admitia nada fora do lugar e ficava furibundo quando esquecia-se de deixar os óculos, as chaves ou o casaco no lugar correto. A sala do apartamento tinha aspecto bastante original: havia uma grande e confortável cadeira bem no centro. De cada lado, duas mesas menores onde o usuário da cadeira poderia talvez servir-se de iguarias, livros, jornais, etc. Sua posição ficava estrategicamente voltada para o real destaque da sala: um enorme televisor, tão imenso e inadequado ao tamanho do aposento que parecia estar ali temporariamente, quiçá por empréstimo de um amigo. Mas este narrador, atento, fixou-se num detalhe sobre a TV. Ali, existia um cachecol preso à parede, estendido diagonalmente, e que parecia ser ainda mais importante que a TV e a cadeira.

    O narrador onisciente então posicionou-se entre a cadeira e a televisão, voltado para o cachecol do Boavista F.C., girou 180 graus e viu claramente muitas marcas de cigarro sobre a cadeira. Quem sentava ali fumava como uma chaminé. Então, o dono retornou à sala e o narrador sumiu em suas brumas. Romeu pegou o telefone e pediu uma pizza grande. Escolheu o sabor, informou-se do preço, confirmou a solicitação e prestou informações desnecessárias tais como que “morava sozinho mas queria uma pizza grande para que sobrasse para a próxima refeição”. Brincou com a atendente perguntando-lhe qual era a diferença entre um maestro e uma pizza grande:

    – Ora, é que uma pizza satisfaz, de uma vez só, quatro pessoas.

    A moça do outro lado da linha deu seu risinho protocolar e ouviu Romeu dizer que tomaria um banho durante os próximos 20 minutos e que a pizza não deveria chegar antes. Estava loquaz.

    No dia seguinte, voltou a praticar a Sinfonia Concertante. Não entendia porque tocara tão mal no ensaio. Não era uma peça fácil, o primeiro e terceiro movimentos requeriam alguma habilidade, mas o movimento central era cantabile e Romeu apenas precisaria acentuar as notas da forma correta. Não era uma obra grandiloqüente, era bonita e Romeu poderia esquecer o detestável romantismo tão comum dos metais em brasa e violinos ardentes. Violinos ardentes… Como seria a lituana na cama? Sempre pensara que as loiras altas de seios grandes eram as mulheres que mais mantinham relações sexuais dentre todos os outros fenótipos e começou a irritar-se novamente. Estudou a peça por mais de seis horas e disse para si mesmo que o fiasco não se repetiria. Recuperara a auto-confiança.

    Olhou o relógio e assustou-se, faltavam pouco menos de quarenta minutos para o início de Benfica x Boavista. Correu à cozinha, abriu o congelador e jogou a pizza no forno de microondas. Caminhou preocupado pela casa, torcendo as mãos; trouxe um peculiar rádio pintado de branco e preto como um tabuleiro de xadrez, colocando-o à sua frente, no chão. A geringonça, bastante usada e remendada, ficou ali cuspindo detalhes acerca da partida enquanto Romeu enchia um balde de gelo e garrafas de cerveja que pousou na mesa à esquerda da cadeira e arrumava três maços de cigarros sobre a mesa da direita, acompanhados de um isqueiro com as cores do Boavista. O narrador desconfiou estar observando um ritual e sorriu levemente ao leitor. Momentos antes do início da peleja, ligou a TV sem som, buscou a pizza e colocou o prato sobre o colo. Mesmo olhando muitas vezes para a TV com ar preocupado, devorou o prato com extraordinária rapidez e, quando a bola foi para o centro do gramado, correu à cozinha a fim de jogar o prato sujo na pia.

    Retornou estalando os dedos, vendo e ouvindo o Benfica armar seu primeiro ataque. Acendeu um cigarro sem tirar os olhos da televisão, mas, antes que este chegasse à metade, acendeu outro. Dizia palavrões, chamava o presidente do Boavista de mafioso, os jogadores de imbecis e proferia coisas que este narrador trata de filtrar cuidadosamente a fim de não escandalizar o leitor mais sensível. Estava transtornado! O Boavista jogava miseravelmente e o primeiro gol da “equipa” lisboeta não tardaria, era mera questão de tempo, conforme disse o pobre homem do rádio antes de levar um potente chute de pé direito desferido por Romeu, fazendo com que as pilhas e pedaços do aparelho voassem longe. Preocupado em remontar o rádio, Romeu não viu o gol de Cardozo, o qual cumpria as previsões do recém chutado narrador.

    Depois de recolocar a última pilha e já com rádio falando, permaneceu prostrado sobre a cadeira durante o intervalo. Quando começou o segundo tempo, houve um fulminante contra-ataque do Boavista que resultou no gol de empate: Benfica 1 x 1 Boavista, gol de Jorge Ribeiro!

    Em cena que causou algum receio ao narrador, Romeu passou a beijar o rádio, a pedir desculpas ao radinho querido de seu coração, mais parecendo um psicótico. Abriu uma cerveja e aumentou o volume do rádio, logo depois, abria a segunda, convidando-a de forma acentuadamente lúbrica:

    – Vem cá, loirinha!

    Abriu a terceira, a quarta e a quinta, cada vez mais lentamente, pois o Benfica parecia cada vez mais contrariado com o placar. Repentinamente, este narrador ouviu o outro mudar de tom ao mesmo tempo que uma garrafa voava em direção a uma parede lateral. Por pouco não voou pela janela. Como o inteligente leitor já percebeu, o Benfica fizera mais um gol, através de Maxi Pereira. Um belo gol, arriscaria dizer, mas não em voz alta. Romeu não preocupou-se com os cacos da garrafa e voltou aos cigarros.

    Passou novamente a acendê-los um no outro, tragando como se daquilo dependesse sua existência, só parando para ver a falha do defensor que permitiu a Cristian Rodriguez assinalar o 3 x 1. Mais quatorze minutos e Romeu vê um jogador do Boavista acertar desgraçadamente o poste do gol do Benfica e, na seqüência, observa com ar bovino um defensor do Boavista fazer o quarto gol benfiquista contra suas próprias redes. Romeu estava arrasado. Houve um pênalti e Nuno Gomes fez o quinto, marcando logo depois também o sexto. “Dois golos de Nuno Gomes em apenas quatro minutos!”, berrava o aparelho. O Boavista perdera o controle da partida e Romeu o de sua pessoa. A partir daquele momento, tremia enquanto fumava sofregamente e lamentava cada passe errado do desgraçado clube desportivo português dirigido por mafiosos burros, formado por jogadores imbecis, canalhas e pusilânimes e orientados por um certo Jaime Pacheco – alguém que não deveria ter nascido, tamanho o mal que fez ao mundo. Quando o radinho gritou dizendo que os Panteras Negras estavam inapelavelmente batidos em campo, Romeu levantou-se e simulou um chute no estranho aparelho axadrezado, mas preferiu sair da sala com cara de choro e deitar-se. Emitia urros de dor e lamentava-se:

    – Que porcaria de merda de bosta de time! Pelas luvas pretas de João Alves, matem esse treinador, enterrem o presidente demissionário, troquem todos os jogadores e envenenem o Nuno Gomes traidor! Dois gols, os últimos, uns gols desnecessários e humilhantes daquele jogador que já foi nosso! Meu Deus, por que escolhi o Boavista, por que não escolhi o Porto e o violino, ficando com o Boavista e a viola?

    Acabou adormecendo.

    Agora que meu personagem está apaziguado, apresento-lhes a ficha técnica da partida.

    Continua amanhã às 12h.

    O Violista (I – Largo)

    De hoje até sexta-feira, sempre ao meio-dia, publicarei os cinco capítulos desta novela.

    O violista entrou lentamente no teatro. Não costumava falar muito com os colegas, era metódico e silencioso. Chegava até seu armário, deixava seus pertences, abria a caixa do instrumento, fazia-lhe rápida revisão, afinava-o e seguia para o ensaio. O repertório romântico ao qual a orquestra prioritariamente dedicava-se era conhecido e para Romeu quase não havia diferença se o programa do concerto semanal fosse este ou aquele: a viola era um ornamento orquestral a quem nem compositores nem regentes davam muita atenção. Uma nota aqui, outra ali e longas e repetitivas séries depois. Fazia tempo que não estudava mais.

    Mas era a viola quem lhe dava um bom salário em euros na Orquestra Nacional do Porto, para a qual fora aprovado há dez anos, quando ainda tinha algum entusiasmo pela música. Viera do Brasil, de Porto Alegre, onde era violista da valorosa Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Uma vez, enquanto esperava o ônibus a fim de ir para casa após um concerto, numa noite fria e chuvosa do inverno portoalegrense, olhou para o homem mal vestido a seu lado, que também esperava pacientemente o miraculoso aparecimento de uma condução. Chegou-se e eles uma jovem também esperançosa de ir para casa. Notou o olhar da moça: estava receosa de algum assalto ou abordagem e o violista teve consciência do ridículo de estar com o estojo da viola numa parada de ônibus. Será que ela pensou que o estojo contivesse uma metralhadora como no cinema? Disse baixinho para si mesmo:

    — Calma moça, um é músico e o outro também não tem dinheiro. Mas somos do bem.

    Tais ressentimentos eram comuns na vida de Romeu. Em sua juventude, não achara-se suficientemente bom para o violino e logo correra para a viola. Ser violista normalmente não é uma opção, é o que sobra, e ele escolheu sua sobra muito cedo, depois de ouvir, por meses, gravações de seus amados Jasha Heifetz e Henryk Szeryng. Concluiu, de forma triste e calada, que sua técnica nunca chegaria a dez por cento daquilo que ouvia… e passou à viola. Depois, quando via os violinistas da Orquestra de Porto Alegre em ação, dava-lhe ganas de recomeçar sua vida. Sabia que enquanto ele e seus colegas violistas, agarrados a seus instrumentos, coçavam-se como um cães pulguentos, repetindo eternamente a mesma nota, os violinistas atraíam os olhares dos espectadores, mesmo errando lamentavelmente.

    Quando soube, em 1997, da fundação de uma orquestra na cidade do Porto, em Portugal, pensou ser esta uma boa chance de receber mais do que o modesto salário em reais de funcionário público. Se sua vida futura seria a de tremer como uma máquina de lavar roupas no meio de um palco, acompanhando quem pensava fazer música, talvez chegasse a roupas mais limpas na Europa, com melhores músicos. Fez o Concurso e acabou surpreendentemente aceito após interpretar uma obra solo de Hindemith e uma transcrição de uma suíte para violoncelo de Bach. Seus concorrentes, um bando de instrumentistas da Europa Oriental, eram assustadores e ele autenticamente admirou-se quando viu seu nome anunciado: Romeu Martins.

    Os primeiros tempos na cidade do Porto foram felizes, tudo era novo e ele logo adaptou-se à vida portuguesa. Tornou-se torcedor – ou adepto, como lá dizem – do Boavista FC. Seu principal adversário do clube era o multi-campeão FC Porto, mas ele preferiu o alvinegro por não ter o odioso azul do Grêmio de Porto Alegre.

    A única vez que Romeu foi visto em pé durante um concerto da ONP – além das ocasiões em que o maestro pede que todos levantem para receber os aplausos -, foi quando alguém resolveu apresentar a Sinfonia Concertante de Mozart para Violino e Viola. O maestro titular Marc Tardue o chamou e perguntou se ele poderia tocar a Concertante dali a um mês. Ele respondeu que sim, claro, que iria estudar a música para os ensaios.

    Hindemith, Bartók e Mozart foram os únicos compositores a voltarem suas luzes para a viola. O primeiro era violista, os outros dois talvez fossem bons corações que deixaram-se levar por amigos violistas, deprimidos com um repertório de terceira linha.

    No dia do primeiro ensaio, foi apresentado à violinista com quem faria o duo. Ela o deixou instantaneamente irritado. Era jovem, muito jovem e bonita, tinha os cabelos loiros e olhos azuis que denunciavam uma origem nórdica e fria. Era lituana. Romeu não deu a menor importância à beleza da moça, mas fixou-se em seus pés. Viu que ela estava de sapato baixo. Concluiu que todo seu esforço, dormindo dias e noites sobre a partitura de Mozart, seria solapado por alguém com 15 anos e 15 quilos a menos que ele, e com – o mais importante – 15 centímetros a mais de altura. Ninguém veria um arredondado, pequeno e feio violista brasileiro. E, pior, ela certamente viria de salto alto ao concerto.

    O ensaio foi um fiasco. Apesar do estudo intensivo da obra, Romeu tocou pessimamente e nem suas desculpas (“Estou num mau dia, maestro.”) acalmaram o todo-poderoso Tardue. Ele pensava apenas no regime que teria que submeter-se para estar um pouco mais esguio, aflautado. Arranhava seu Mozart, atrasando-se sempre após a longa introdução do primeiro movimento, porque conjeturava que tinha de deixar de comer até o concerto, que procuraria sapatos com saltos um pouco maiores e que, finalmente, precisaria tocar adequadamente a peça.

    Continua amanhã às 12h.