O Violista (III – Andante)

Véspera do concerto, dia do segundo ensaio. Romeu caminhava lentamente para o teatro obedecendo a ordem do maestro Marc Tardue. A secretária da orquestra havia-lhe deixado um recado para que chegasse meia hora antes. Romeu imaginava o conteúdo da conversa e preparava-se, refletindo que deveria argumentar com segurança, mas o que lhe passava pela cabeça era um tumulto de frases soltas, de conteúdo bastante agressivo.

Entrou e a jovial secretária avisou que ele já era esperado. Tardue estava ao telefone. Sem parar de falar, levantou-se para cumprimentar Romeu e voltou a sentar-se atrás de sua mesa. O assunto era algum problema administrativo que não interessou a Romeu. Quando desligou, ofereceu um café ao violista e reclamou que as tarefas administrativas inerentes ao trabalho de maestro tomavam-lhe muito tempo.

– É difícil ser artista e administrador ao mesmo tempo – replicou Romeu.

Não fora um começo muito promissor e ele tentou emendar imediatamente.

– Quero dizer que deve ser irritante ter de negociar e eventualmente fazer concessões. O ideal para um artista seria a recusa a quaisquer concessões, mas creio que um regente morreria se não as fizesse.

Tardue, acostumado a afagos, estava mais surpreso do que ofendido com o início da conversa e resolveu ignorá-la, indo na direção do assunto principal.

– Sr. Martins, convidei-o à minha sala com a finalidade de saber o que causou aquele desempenho inteiramente insatisfatório no ensaio com Elena Sofonova. O Sr. me deixou muito preocupado.

Romeu tinha preparado uma justificativa de ordem pessoal para sua atuação – um mau dia, problemas em casa, quem sabe? -, mas ao ver o ar autenticamente interrogativo e nada hostil de Tardue, optou por outro caminho. Explicou-lhe que as facilidades de um violista de orquestra acostumaram-lhe mal e que chegara muito relaxado ao ensaio.

– Determinado grau de tensão e mobilização é necessário, maestro – completou.

Tardue pegou uma caneta e pareceu hesitar. Fez uma pequena anotação na folha sobre a mesa e foi ainda mais direto.

– O que desejo saber é se precisaremos adequar os andamentos às dificuldades dos solistas ou não. Esta é a primeira obra de Mozart que está fora da concepção galante, é a primeira vez que aparece uma arquitetura mais monumental, ao mesmo tempo que íntima. Não é música superficial e é muito dialogada; sendo que a viola muitas vezes é instada a repetir imediatamente o que foi tocado pelo violino e, se houver erros nas repetições, será um fiasco, toda a platéia notará.

– Não se preocupe maestro, o que aconteceu no ensaio… – tentou Romeu.
– O ideal seria um primeiro movimento afirmativo, um movimento central dramático e um presto bem rápido e virtuoso, superficial até.
– Maestro, eu e Elena faremos a música que …
– Sr. Romeu, desculpe interrompê-lo, mas, quando rejo uma orquestra, eu faço a música e vocês tocam as notas. Eu sou o fator de inspiração e quero saber se meus recursos estão à altura daquilo que irei exigir.

O sangue subiu ao rosto de Romeu. Pensou que deveria responder apenas que ele era um recurso com o qual Tardue poderia contar para qualquer obra e interpretação, que estava disposto a colaborar e obedecer com o melhor de si. Foi o que fez. E despediu-se.

Faltavam dez minutos para o ensaio e o violista foi ao banheiro na tentativa de acalmar-se. Passou água fria no rosto e após fechou-se numa privada. Sentado e de olhos fechados, tentou esquecer a conversa com Tardue e retornar ao espírito de seu ensaio em casa. Lembrou do Boavista e dos gols de Nuno Gomes, mas conseguiu rejeitar as más lembranças. Na hora exata, entrou no palco dirigindo-se diretamente a Elena, à qual cumprimentou efusivamente, sem olhar para seus pés e ignorando a diferença de altura. A moça era mesmo bonita. Tardue, depois de perguntar se todos estavam presentes e preparados, escolheu ensaiar o segundo movimento da Sinfonia Concertante. Elena, que parecia ser incapaz de parar de sorrir, aproximou sua cabeça loira da de Romeu e cochichou-lhe em inglês, pedindo que ele ouvisse atentamente seu violino e seguisse dialogando com ela.

– Vou tocar lentamente, vamos sem pressa, como fazem os casais… – foi o que falou a Romeu de forma bem humorada e não isenta de cinismo.

Ele gostou do que ouviu e Tardue fez a orquestra tocar a breve introdução ao Andante. Elena iniciou seu solo muito lentamente e Romeu respondeu-lhe da mesma forma com o som mais grave da viola. A música seguiu seu colóquio verdadeiramente apaixonado e, enquanto sentia que a música estava passando de seu cérebro a seus dedos, Romeu reviu em imaginação vagas imagens do filme Afogando em Números, que utiliza o tema. Ele sorria, mas não era páreo para a luminosa violinista. Os dois sentiam-se refletindo perfeitamente a música de Mozart um no outro quando Tardue interrompeu tudo. Nervoso, reclamou dizendo que os solistas estavam arrastando-se e que aquilo era intolerável. Elena permaneceu com sua cara feliz, agora olhando para a platéia vazia e, quando Tardue acabou seu discurso, voltou-se para Romeu, não sem antes balançar ligeira e negativamente a cabeça. Naquele gesto havia um acordo tácito: a de repetir tudo de forma exatamente igual. Ela estava satisfeita. Romeu também.

A segunda tentativa foi interrompida pelo maestro já no primeiro solo de Elena. Ele mandou-a acelerar. Na terceira vez, Elena fez exatamente o mesmo e Tardue fê-la parar novamente. Durante a explicação, Romeu, com surpreendente coragem se considerarmos o temor que a orquestra tinha de seu regente titular, interrompeu-o argumentando, um tanto romanticamente, que Sofonova estava determinando sua expressão à música e que esta estava de acordo com a concepção que ele, Romeu, também tinha. Até Elena ficou séria, temendo que a resposta do regente ao violista tivesse que ser medida por sismógrafo.

Tardue não perturbou-se, apenas fez piada citando um estudo que mostrava serem os músicos os profissionais mais insatisfeitos em sua profissão, seguidos dos médicos. Completou dizendo que muitos médicos tinham por hobby tocarem algum instrumento e que vários na orquestra davam aulas particulares para doutores. “O mundo é paradoxal e as relações se alteram de forma meio carnavalesca… às vezes”, disse. Depois ergueu os braços, perguntou maldosamente se os solistas estavam prontos para sua dar expressão à obra, e mandou a orquestra reiniciar o Andante. Elena acelerou um pouco, bem pouco, no que foi imitada até o final por Romeu, encantado com seus novos poderes.

Depois atacaram o majestoso primeiro movimento. Tardue deu diversas instruções, mas não à dupla solista. Quando considerou boa a execução, falou a todos em voz alta que, afinal, estava aliviado pois

– Não haverá o temido fiasco anunciado no ensaio de anteontem.

Seguiu depois para o terceiro movimento, em que fez novas solicitações à dupla solista, mas cada uma delas possuía o civilizado tom de sugestão.


Ah, querem ouvir/ver o andante? Claro!

Continua amanhã às 12h.

O Violista (II – Presto agitato)

Romeu voltou a seu pequeno apartamento envergonhadíssimo de seu desempenho. Um vexame, pensava, um instrumentista com sua experiência não poderia ser suscetível a chiliques daquele gênero. Afinal, construíra uma reputação segura, ainda que obscura, e não poria tudo a perder.

Entrando em casa, passou a falar sozinho e a guardar suas coisas da forma organizada e sistemática que só os solteirões convictos são capazes. Não admitia nada fora do lugar e ficava furibundo quando esquecia-se de deixar os óculos, as chaves ou o casaco no lugar correto. A sala do apartamento tinha aspecto bastante original: havia uma grande e confortável cadeira bem no centro. De cada lado, duas mesas menores onde o usuário da cadeira poderia talvez servir-se de iguarias, livros, jornais, etc. Sua posição ficava estrategicamente voltada para o real destaque da sala: um enorme televisor, tão imenso e inadequado ao tamanho do aposento que parecia estar ali temporariamente, quiçá por empréstimo de um amigo. Mas este narrador, atento, fixou-se num detalhe sobre a TV. Ali, existia um cachecol preso à parede, estendido diagonalmente, e que parecia ser ainda mais importante que a TV e a cadeira.

O narrador onisciente então posicionou-se entre a cadeira e a televisão, voltado para o cachecol do Boavista F.C., girou 180 graus e viu claramente muitas marcas de cigarro sobre a cadeira. Quem sentava ali fumava como uma chaminé. Então, o dono retornou à sala e o narrador sumiu em suas brumas. Romeu pegou o telefone e pediu uma pizza grande. Escolheu o sabor, informou-se do preço, confirmou a solicitação e prestou informações desnecessárias tais como que “morava sozinho mas queria uma pizza grande para que sobrasse para a próxima refeição”. Brincou com a atendente perguntando-lhe qual era a diferença entre um maestro e uma pizza grande:

– Ora, é que uma pizza satisfaz, de uma vez só, quatro pessoas.

A moça do outro lado da linha deu seu risinho protocolar e ouviu Romeu dizer que tomaria um banho durante os próximos 20 minutos e que a pizza não deveria chegar antes. Estava loquaz.

No dia seguinte, voltou a praticar a Sinfonia Concertante. Não entendia porque tocara tão mal no ensaio. Não era uma peça fácil, o primeiro e terceiro movimentos requeriam alguma habilidade, mas o movimento central era cantabile e Romeu apenas precisaria acentuar as notas da forma correta. Não era uma obra grandiloqüente, era bonita e Romeu poderia esquecer o detestável romantismo tão comum dos metais em brasa e violinos ardentes. Violinos ardentes… Como seria a lituana na cama? Sempre pensara que as loiras altas de seios grandes eram as mulheres que mais mantinham relações sexuais dentre todos os outros fenótipos e começou a irritar-se novamente. Estudou a peça por mais de seis horas e disse para si mesmo que o fiasco não se repetiria. Recuperara a auto-confiança.

Olhou o relógio e assustou-se, faltavam pouco menos de quarenta minutos para o início de Benfica x Boavista. Correu à cozinha, abriu o congelador e jogou a pizza no forno de microondas. Caminhou preocupado pela casa, torcendo as mãos; trouxe um peculiar rádio pintado de branco e preto como um tabuleiro de xadrez, colocando-o à sua frente, no chão. A geringonça, bastante usada e remendada, ficou ali cuspindo detalhes acerca da partida enquanto Romeu enchia um balde de gelo e garrafas de cerveja que pousou na mesa à esquerda da cadeira e arrumava três maços de cigarros sobre a mesa da direita, acompanhados de um isqueiro com as cores do Boavista. O narrador desconfiou estar observando um ritual e sorriu levemente ao leitor. Momentos antes do início da peleja, ligou a TV sem som, buscou a pizza e colocou o prato sobre o colo. Mesmo olhando muitas vezes para a TV com ar preocupado, devorou o prato com extraordinária rapidez e, quando a bola foi para o centro do gramado, correu à cozinha a fim de jogar o prato sujo na pia.

Retornou estalando os dedos, vendo e ouvindo o Benfica armar seu primeiro ataque. Acendeu um cigarro sem tirar os olhos da televisão, mas, antes que este chegasse à metade, acendeu outro. Dizia palavrões, chamava o presidente do Boavista de mafioso, os jogadores de imbecis e proferia coisas que este narrador trata de filtrar cuidadosamente a fim de não escandalizar o leitor mais sensível. Estava transtornado! O Boavista jogava miseravelmente e o primeiro gol da “equipa” lisboeta não tardaria, era mera questão de tempo, conforme disse o pobre homem do rádio antes de levar um potente chute de pé direito desferido por Romeu, fazendo com que as pilhas e pedaços do aparelho voassem longe. Preocupado em remontar o rádio, Romeu não viu o gol de Cardozo, o qual cumpria as previsões do recém chutado narrador.

Depois de recolocar a última pilha e já com rádio falando, permaneceu prostrado sobre a cadeira durante o intervalo. Quando começou o segundo tempo, houve um fulminante contra-ataque do Boavista que resultou no gol de empate: Benfica 1 x 1 Boavista, gol de Jorge Ribeiro!

Em cena que causou algum receio ao narrador, Romeu passou a beijar o rádio, a pedir desculpas ao radinho querido de seu coração, mais parecendo um psicótico. Abriu uma cerveja e aumentou o volume do rádio, logo depois, abria a segunda, convidando-a de forma acentuadamente lúbrica:

– Vem cá, loirinha!

Abriu a terceira, a quarta e a quinta, cada vez mais lentamente, pois o Benfica parecia cada vez mais contrariado com o placar. Repentinamente, este narrador ouviu o outro mudar de tom ao mesmo tempo que uma garrafa voava em direção a uma parede lateral. Por pouco não voou pela janela. Como o inteligente leitor já percebeu, o Benfica fizera mais um gol, através de Maxi Pereira. Um belo gol, arriscaria dizer, mas não em voz alta. Romeu não preocupou-se com os cacos da garrafa e voltou aos cigarros.

Passou novamente a acendê-los um no outro, tragando como se daquilo dependesse sua existência, só parando para ver a falha do defensor que permitiu a Cristian Rodriguez assinalar o 3 x 1. Mais quatorze minutos e Romeu vê um jogador do Boavista acertar desgraçadamente o poste do gol do Benfica e, na seqüência, observa com ar bovino um defensor do Boavista fazer o quarto gol benfiquista contra suas próprias redes. Romeu estava arrasado. Houve um pênalti e Nuno Gomes fez o quinto, marcando logo depois também o sexto. “Dois golos de Nuno Gomes em apenas quatro minutos!”, berrava o aparelho. O Boavista perdera o controle da partida e Romeu o de sua pessoa. A partir daquele momento, tremia enquanto fumava sofregamente e lamentava cada passe errado do desgraçado clube desportivo português dirigido por mafiosos burros, formado por jogadores imbecis, canalhas e pusilânimes e orientados por um certo Jaime Pacheco – alguém que não deveria ter nascido, tamanho o mal que fez ao mundo. Quando o radinho gritou dizendo que os Panteras Negras estavam inapelavelmente batidos em campo, Romeu levantou-se e simulou um chute no estranho aparelho axadrezado, mas preferiu sair da sala com cara de choro e deitar-se. Emitia urros de dor e lamentava-se:

– Que porcaria de merda de bosta de time! Pelas luvas pretas de João Alves, matem esse treinador, enterrem o presidente demissionário, troquem todos os jogadores e envenenem o Nuno Gomes traidor! Dois gols, os últimos, uns gols desnecessários e humilhantes daquele jogador que já foi nosso! Meu Deus, por que escolhi o Boavista, por que não escolhi o Porto e o violino, ficando com o Boavista e a viola?

Acabou adormecendo.

Agora que meu personagem está apaziguado, apresento-lhes a ficha técnica da partida.

Continua amanhã às 12h.

O Violista (I – Largo)

De hoje até sexta-feira, sempre ao meio-dia, publicarei os cinco capítulos desta novela.

O violista entrou lentamente no teatro. Não costumava falar muito com os colegas, era metódico e silencioso. Chegava até seu armário, deixava seus pertences, abria a caixa do instrumento, fazia-lhe rápida revisão, afinava-o e seguia para o ensaio. O repertório romântico ao qual a orquestra prioritariamente dedicava-se era conhecido e para Romeu quase não havia diferença se o programa do concerto semanal fosse este ou aquele: a viola era um ornamento orquestral a quem nem compositores nem regentes davam muita atenção. Uma nota aqui, outra ali e longas e repetitivas séries depois. Fazia tempo que não estudava mais.

Mas era a viola quem lhe dava um bom salário em euros na Orquestra Nacional do Porto, para a qual fora aprovado há dez anos, quando ainda tinha algum entusiasmo pela música. Viera do Brasil, de Porto Alegre, onde era violista da valorosa Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Uma vez, enquanto esperava o ônibus a fim de ir para casa após um concerto, numa noite fria e chuvosa do inverno portoalegrense, olhou para o homem mal vestido a seu lado, que também esperava pacientemente o miraculoso aparecimento de uma condução. Chegou-se e eles uma jovem também esperançosa de ir para casa. Notou o olhar da moça: estava receosa de algum assalto ou abordagem e o violista teve consciência do ridículo de estar com o estojo da viola numa parada de ônibus. Será que ela pensou que o estojo contivesse uma metralhadora como no cinema? Disse baixinho para si mesmo:

— Calma moça, um é músico e o outro também não tem dinheiro. Mas somos do bem.

Tais ressentimentos eram comuns na vida de Romeu. Em sua juventude, não achara-se suficientemente bom para o violino e logo correra para a viola. Ser violista normalmente não é uma opção, é o que sobra, e ele escolheu sua sobra muito cedo, depois de ouvir, por meses, gravações de seus amados Jasha Heifetz e Henryk Szeryng. Concluiu, de forma triste e calada, que sua técnica nunca chegaria a dez por cento daquilo que ouvia… e passou à viola. Depois, quando via os violinistas da Orquestra de Porto Alegre em ação, dava-lhe ganas de recomeçar sua vida. Sabia que enquanto ele e seus colegas violistas, agarrados a seus instrumentos, coçavam-se como um cães pulguentos, repetindo eternamente a mesma nota, os violinistas atraíam os olhares dos espectadores, mesmo errando lamentavelmente.

Quando soube, em 1997, da fundação de uma orquestra na cidade do Porto, em Portugal, pensou ser esta uma boa chance de receber mais do que o modesto salário em reais de funcionário público. Se sua vida futura seria a de tremer como uma máquina de lavar roupas no meio de um palco, acompanhando quem pensava fazer música, talvez chegasse a roupas mais limpas na Europa, com melhores músicos. Fez o Concurso e acabou surpreendentemente aceito após interpretar uma obra solo de Hindemith e uma transcrição de uma suíte para violoncelo de Bach. Seus concorrentes, um bando de instrumentistas da Europa Oriental, eram assustadores e ele autenticamente admirou-se quando viu seu nome anunciado: Romeu Martins.

Os primeiros tempos na cidade do Porto foram felizes, tudo era novo e ele logo adaptou-se à vida portuguesa. Tornou-se torcedor – ou adepto, como lá dizem – do Boavista FC. Seu principal adversário do clube era o multi-campeão FC Porto, mas ele preferiu o alvinegro por não ter o odioso azul do Grêmio de Porto Alegre.

A única vez que Romeu foi visto em pé durante um concerto da ONP – além das ocasiões em que o maestro pede que todos levantem para receber os aplausos -, foi quando alguém resolveu apresentar a Sinfonia Concertante de Mozart para Violino e Viola. O maestro titular Marc Tardue o chamou e perguntou se ele poderia tocar a Concertante dali a um mês. Ele respondeu que sim, claro, que iria estudar a música para os ensaios.

Hindemith, Bartók e Mozart foram os únicos compositores a voltarem suas luzes para a viola. O primeiro era violista, os outros dois talvez fossem bons corações que deixaram-se levar por amigos violistas, deprimidos com um repertório de terceira linha.

No dia do primeiro ensaio, foi apresentado à violinista com quem faria o duo. Ela o deixou instantaneamente irritado. Era jovem, muito jovem e bonita, tinha os cabelos loiros e olhos azuis que denunciavam uma origem nórdica e fria. Era lituana. Romeu não deu a menor importância à beleza da moça, mas fixou-se em seus pés. Viu que ela estava de sapato baixo. Concluiu que todo seu esforço, dormindo dias e noites sobre a partitura de Mozart, seria solapado por alguém com 15 anos e 15 quilos a menos que ele, e com – o mais importante – 15 centímetros a mais de altura. Ninguém veria um arredondado, pequeno e feio violista brasileiro. E, pior, ela certamente viria de salto alto ao concerto.

O ensaio foi um fiasco. Apesar do estudo intensivo da obra, Romeu tocou pessimamente e nem suas desculpas (“Estou num mau dia, maestro.”) acalmaram o todo-poderoso Tardue. Ele pensava apenas no regime que teria que submeter-se para estar um pouco mais esguio, aflautado. Arranhava seu Mozart, atrasando-se sempre após a longa introdução do primeiro movimento, porque conjeturava que tinha de deixar de comer até o concerto, que procuraria sapatos com saltos um pouco maiores e que, finalmente, precisaria tocar adequadamente a peça.

Continua amanhã às 12h.

Um Carnaval

Todos, ou quase todos, foram para o litoral a fim de desfrutarem seus carnavais, mas ele ficara em Porto Alegre. Nesses dias, a cidade quente pode ser atravessada em poucos minutos de carro, pois fica esvaída de sua população. Ele sentou-se na cama, pensando nos filhos pequenos que estavam na praia com sua ex-mulher e nos jornais do dia seguinte com a tradicional foto da avenida vazia, o título “Cidade Deserta” e a seguinte legenda: “Foto da Av. Ipiranga às 16h de ontem, sábado de Carnaval”.

Pegou o telefone celular e revisou a agenda de contatos. O calor de 33 graus e a umidade alta eram desanimadores. Escolheu o número de uma colega de sua ex-esposa. Para sua surpresa, Maria respondeu:

— Alô?

Ele desligou o telefone, assustado com o fato de ter obtido contato tão rapidamente. Mas, logo, envergonhado, refez a ligação.

— Alô – repetiu Maria.
— Alô, gostaria de falar com a Maria.
— Sim, é ela.
— Aqui é o Artur, não sei se tu lembras de mim.
— Lembro, claro. Tudo bem?
— Tudo bem. Estava ligando para todos os números da agenda do celular atrás de alguém que tivesse ficado em Porto Alegre. Depois de muitas tentativas, cheguei a ti.
— Puxa! Ligaste para todos os números até o “M” e até agora sou a única sobrevivente do holocausto?
— Sim, a cidade foi abandonada.
— Bom, eu fiquei. Tenho alguns plantões a cumprir no hospital; por isso, não pude viajar.
— Estava querendo conversar.
— Bem, é o que estamos fazendo.

Essa última frase não era muito promissora, mas ele seguiu falando que nós, os últimos representantes da civilização porto-alegrense, não somos proibidos de nos encontrar para tentar matar este calor com uma cerveja.

Ela o surpreendeu fazendo um convite para que ele a visitasse:

— Não tenho nada de importante para fazer até o plantão de amanhã, ia ficar em casa vendo os desfiles na TV mesmo.

Ele registrou novamente a frase nada prometedora e perguntou:

— Marcamos para que horas?
— Pode ser agora.

Melhorou, pensou ele. Hesitou entre tomar ou não um banho. Tomou e saiu.

Sentados no sofá, travavam uma conversa assexuada. Ele tinha ficado um pouco decepcionado com o envelhecimento e aparente cansaço da amiga e pensava que ela havia notado seu desgosto. Porém, inesperadamente, Maria fixou seu olhar no amigo, enquanto ele tergiversava sobre a música de Bach e alguns de seus simbolismos matemáticos. Ele notou a mudança de postura e concluiu que ela não responderia a mais nenhuma afirmativa e que agora teria um longo solo pela frente. Enquanto lhe explicava que a arte da composição de Bach era tão perfeita que o alemão, por puro prazer de fazer bem feito, procurava sempre desafios adicionais para ser por eles testado, percebia a beleza dos braços de Maria, mormente durante o movimento que acabou por deixar seu cotovelo direito pousado no espaldar do sofá e que levou sua mão desde o colo até o queixo, a fim de apoiar aquele rosto que o observava fixamente, em silêncio. Vendo Maria tirar lentamente suas sandálias, ainda sem tirar os olhos dele, citou várias obras onde as notas B-A-C-H – como inequívoca assinatura – apareciam em seqüência e contou-lhe das referências escondidas a vários “fatos” bíblicos, como o dos trinta dinheiros. Durante a argumentação seguinte, que o levou à constatação de que os Concertos de Brandenburgo eram o grupo de concertos mais distintos em instrumentação e estilo da história da música, Maria – sempre com o mesmo olhar – ajeitou seu vestido e pôs o pé esquerdo sobre o sofá, deixando à mostra o pico lustroso do joelho. Então, finalmente, ele se deu por vencido. Estendeu o braço e segurou a mão esquerda de Maria. Ela arqueou uma das sobrancelhas, retirou a outra mão de sob o queixo e sorriu levemente.

— Se não pegasse a tua mão, tu não pararias de me olhar… – disse ele.
— Foi por isso que a pegaste? Para que eu parasse de te olhar?

Apesar do tom carinhoso, não era uma pergunta muito auspiciosa e ele preferiu deixar seu olhar vagar pela sala, sempre com a mão esquerda de Maria em sua mão direita. Resolveu que, inequivocamente, seria o momento de lhe dar um beijo, não poderia deixar passar aquele momento.

Quando se aproximou de sua boca, Maria ergueu-se subitamente, puxando-o para o alto, junto a ela. Abraçados, beijaram-se longamente.

No quarto, ele passeava seus dedos lentamente sobre os seios e o ventre de Maria, notando inúmeras pequenas marcas, talvez criadas pelo excesso de sol numa pele tão branca. Ela estava falante e contava sobre sua viagem ao Egito, enquanto ele conjeturava sobre a idade de Maria, analisando seus seios bem mais jovens que o rosto. Depois de reclamar dos preços egípcios, ela lhe disse que não tinha cerveja em casa e que seria necessário saírem a fim de cumprirem a pauta.

Ela tomou um banho rápido e foram para a rua procurar os bares habituais. Estavam todos fechados. Finalmente, entraram num bar de bêbados, de propriedade de um amigo dele, um uruguaio. O bar estava cheio e cheirava mal. Eles beberam a cerveja da pauta e dirigiram-se a um cinema. O ar condicionado do cinema quase vazio congelava-os enquanto o personagem principal matava sua bela amante grávida, à queima-roupa, na porta do apartamento dela, com uma espingarda. Assistiram ao final do filme abraçados – um aquecendo ao outro. Durante a apresentação dos créditos, faziam comentários jocosos sobre a temperatura dos cinemas de Porto Alegre e que como eventualmente podia ser contornada.

No retorno ao apartamento de Maria, ele fez o carro ziguezaguear no meio da Av. Ipiranga vazia. Estava feliz. Ela lhe preparou uma massa, feita rápida e eficientemente. Só então ele lembrou o fato de que ela conhecia sua ex-mulher, pois, inexplicavelmente, ao ir cozinha fazer o café, Maria referiu-se a ela, gritando de lá qualquer coisa desabonadora sobre A Sorbonne do Bonfim, seus artigos e congressos.

Ele riu do pequeno discurso, pensando que estava ligado a uma pessoa que odiava, estigmatizado como “ex-marido”. Sentindo o humor esvair-se, decidiu que precisava conhecer outras pessoas. Ela serviu os cafés e anunciou que iria ao toalete. Durante sua ausência, ele ergueu-se e foi embora lentamente, sem tomar a bebida.

Com o celular desligado, dirigiu até o Morro de Santa Teresa para refletir e ver a lua espelhada no Guaíba. Ficou dentro do carro, despreocupado com os ladrões. Afinal, eles deviam estar também fazendo seu carnaval. Suado e em dúvida, acordou sozinho no mirante, com o sol batendo no carro fechado.