Poemas, de Wisława Szymborska

A edição da Cia. das Letras

A edição da Cia. das Letras

Na semana passada, minutos após comprar este livro na Ladeira Livros, fui almoçar com meu amigo Norberto Flach no Tuim. Cheguei à mesa onde ele estava sentado e lembrei que tinha esquecido o celular. Estamos passando pela tortura de reformas em casa e é sempre bom estar com o aparelho por perto. Antes de voltar rapidamente ao Sul21 ali pertinho para pegá-lo, disse para o Norberto meio de brincadeira: “Fica lendo isso aqui que eu já volto”. Quando voltei, ele falou que parecia que a poetisa falava em seu ouvido. Boa observação. A sensação de profunda, inteligente e simpática empatia, além da beleza, talvez sejam mesmo as características mais fortes da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, escritora vinda do mais poético dos países onde as consoantes mandam recados assustadores aos ignorantes como eu.

O personagem japonês de Paterson — no final do filme, lembram? —  diz que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva, mas a única forma de tomar conhecimento com a maravilhosa obra da polonesa Szymborska é a tradução e eu achei lindos, verdadeiramente inesquecíveis, os poemas traduzidos por Regina Przybycien. Não sei o quanto perdi usando capa de chuva, mas o que sobrou foi muito.

Alguns chamam Szymborska de o Mozart da Poesia e creio que a comparação não é nada absurda. A irresistível de combinação de ousadia e leveza é Mozart, mas a de sinceridade e intimidade são Tchékhov. Quando a comparo alguém a Tchékhov, estou fazendo comparações com o escritor que mais valorizo, com aquele que, como disse Konchalovsky, a gente fala quando escreve alguma coisa duvidosa. “O que você acharia disso, Anton?” e só prossegue após o consentimento do russo.

Em 60 anos de vida literária, Szymborska publicou apenas uns vinte livros curtos. Ela explica: “Escrevo os poemas à noite, mas releio-os à luz do dia, e nem todos sobrevivem”. Aprendam, meninos.

Szymborska tem humor de Drummond, boa filosofia, amor pelo humano, fluência, fabulação, ou seja, tudo o que gosto. É uma poesia coloquial, anti-sentimental e despojada de efeitos fáceis, de sofisticada simplicidade. Faz perguntas “inocentes”, terrivelmente inocentes. A clareza é absoluta. Fico imaginando o que são seus famosos artigos em revistas, onde dava mais vazão à veia humorística.

É difícil falar sobre um livro tão delicado e do qual se gostou tanto sem a indelicadeza da adjetivação. Talvez seja melhor dizer logo que — agora que o li e vou pegar outro — tenho vontade de morder o livro para seguir sentindo seu gosto.

Ah, os poemas dela, mesmo em português, estão por toda a internet. Então só vou deixar um com vocês. Um dos mais famosos. E super recomendo o livro.

Alguns gostam de poesia

Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Wisława Szymborska (1923-2012)

Wisława Szymborska (1923-2012)

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O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

O Ruído do Tempo Julian BarnesO Ruído do Tempo usa o enorme drama que foi a vida de Dmitri Shostakovich como material ficcional. É um livro dividido em três seções maiores que contêm, cada uma delas, capítulos curtos e fora de ordem cronológica, muitas vezes de apenas um parágrafo. Tais capítulos vão adicionando informações curiosas ou estarrecedoras sobre o compositor, tudo com bastante invenção, mas sobre um esqueleto rigorosamente biográfico, verdadeiro.  As três seções mostram os três traumáticos encontros de Shosta com o poder, em 1936, em 1948 e em 1960. Todos em anos bissextos, todos separados por 12 anos. A ideia é boa, mas…

O livro é pouco sofisticado, extraordinariamente conservador e chega a ser “matado” em vários trechos, não fazendo jus às nem à arte de Shostakovich, nem a seus dramas. As críticas ao regime soviético são naturais e inteiramente razoáveis, não fosse a profusão de clichês bobos ao estilo da CIA. O pior é que a ficção de Barnes não faz a biografia ou os dramas vividos pelo compositor avançarem em qualquer direção.

FaulknerPara quem, como eu, acredita que só a ficção arranha a realidade, o livro foi uma decepção. Espécie de jornalista gonzo imaginário, Barnes vai ficando cada vez mais afastado da obra de seu biografado, perdido em detalhes triviais. Não há complexidade ou verdadeira tensão, apenas contradições — verdadeiras — e medo mal descrito. O livro de Barnes toma um baile das poucas páginas dedicadas a Shosta no clássico de Alex Ross O resto é ruído, de quem parece ter roubado o título.

O livro é, em parte, um exercício de nostalgia da Guerra Fria. Coisa muito inglesa para descrever um soviético. Seus melhores trechos são aqueles que examinam a natureza da integridade pessoal. A ótima arte pode nos resgatar do “ruído do tempo”, superar tudo e, portanto, desculpar o comportamento ruim? E era possível comporta-se melhor? Acho que faltou a Barnes alguma vivência sob regimes ditatoriais. Sua descrições são de um tranquilo inglês que examina à distância um Shostakovich que é muito mais herói — e concordamos nisso, Mr. Barnes — do que Mephisto.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Julian Barnes

Julian Barnes

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A Noiva Jovem, de Alessandro Baricco

A Noiva Jovem Baricco(Sem spoilers). De escrita primorosa e de grande originalidade, A Noiva Jovem deixou-me verdadeiramente embasbacado. Em entrevista que li agora, concedida ao Estado de S. Paulo, Alessandro Baricco afirma que se propôs a escrever um livro com 20% de realismo mágico, 20% de Lampedusa e 60% dele mesmo. Deu razão a este leitor que, sem entender de onde vinha aquele argumento, pensou em uma mistura de García Márquez e Lampedusa. Uma mistura altamente poética e potente. Só que ainda predominam, é claro, os 60 % de Baricco, com as constantes e curiosas intervenções do escritor no texto, que fala até num notebook perdido e numa namorada que critica a obra que está sendo escrita, além das perfeitas mudanças de foco narrativo. Também há Baricco na criação de um clima estranho, que faz com que o livro grude em nossas mãos, como já me acontecera na leitura de Mr. Gwyn.

Tudo acontece em um ambiente familiar muito curioso. Não há nomes, mas um Pai, uma Mãe, um Filho, uma Filha, um Tio. E a Jovem Noiva. O único que ganha nome é Modesto, o gentil mordomo que tudo vigia para que a felicidade seja um estado permanente. As relações são delicadamente insanas, as manias e medos são muitos.

O Filho conhece a Jovem Noiva ainda adolescente e ela é prometida a ele. Conheceram-se na Europa, mas a família dela, falida, foi tentar a sorte na Argentina. Quando completa 18 anos, a Jovem Noiva atravessa o oceano de volta para chegar a uma paisagem que parece a Sicília de Lampedusa. Vem para juntar-se ao Filho. Ela entra numa casa que parece cheia de personagens de García Márquez, todos eles docemente malucos, dando respostas e tomando atitudes entre o desconcertante e o poético, mas de um realismo mágico altamente racional.

Mas o Filho não está lá e demora. Entre os mil fatos, novidades e experiências que a casa oferece, o far niente começa trabalhar. Passam-se meses e a tensão cresce. E o Filho não chega. Isto atormenta e faz amadurecer a Jovem Noiva. Ela mantém a certeza de que ele virá.

Parabéns para a excelente tradutora Joana Angélica d`Avila Melo. Não deve ser fácil traduzir um livro que muda tantas vezes seu foco narrativo.

Baricco é um escritor altamente sofisticado que também faz crítica musical de música erudita, é pianista e apresenta um programa na televisão italiana. Seria bom iniciar correntes de orações para que tivéssemos alguém tão talentoso por aqui.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

Baricco também faz critica musical. De eruditos, claro.

 

 

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Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Gustavo Melo Czekster não há amanhãQuando recebi este livro de Gustavo Melo Czekster, sorri imediatamente. Conheço o Gustavo. Ele é um cara simpático de 1,90m e tem o sorriso mais fácil do mundo. Invejo-o. Trata-se de um craque das fotos, algo que nem sempre é fácil para este que vos escreve. Porém, se eu tirasse uma foto com o autor de Não há amanhã, sei que sorriria de forma muito convincente. Inevitável. Parece um sujeito muito alegre. Mas… Ao ler os 30 contos de Não há amanhã, ficam claras as sombras de envolvem esta criatura que, de forma concomitante ao lançamento do livro, mudou sua foto de perfil no Facebook, antes sorridente, por uma muito séria (abaixo). Não vou especular.

Sempre que recebo um livro de um amigo, fico na dúvida se devo ler ou não. Porque é chato criticar pessoas que cruzam com a gente. Tenho graves problemas nesta área. Já dei palestras a respeito do tema de ser crítico em nossa província. Na palestra, contei sobre a Ospa, sobre alguns escritores que passaram a me negar cumprimento, sobre ameaçadores e-mails, sobre músicos que dizem que eu não entendo nada de nada, sobre pequenos linchamentos patrocinados por autores e músicos no Facebook que costumam dar o link de meu texto e perguntar para seus amigos: “Vocês concordam com este crápula?”. Quem está de fora, ri, enquanto eu procuro ignorar, o que é difícil às vezes.

Abri Não há amanhã, segundo livro de Gustavo — não li o primeiro — e, após o susto de ler seu prefácio histericamente laudatório — autoria de um sujeito que fala em “estonteante linha final” –, fiquei surpreso por sua alta qualidade. Estou com sorte porque, nos últimos seis meses, li três excelentes livros escritos por vizinhos: o de Nelson Rego, o de Julia Dantas, o de Iuri Müller e este. Ufa, vou passar mais um tempo sem problemas, já que desisti de escrever sobre a música de Porto Alegre.

Não há amanhã é um livro de 160 páginas e 30 contos que variam entre o curtíssimo — praticamente crônicas ficcionais — e o longo. Mas a característica principal é que, mesmo que autor transite bastante na área do fantástico, suas criações não são nada leves, ligeiras ou meramente mágicas. São histórias de impacto que não prescindem de um pós-prandial reflexivo. Eu não conseguia partir para a próximo conto sem parar para pensar sobre o que tinha lido. Algumas histórias são dignamente grandiosas, outras são irônicas, mas todas elas perturbam através de elementos representativos de fatos exteriores que amplificam o texto.

Gostei muito do insolucionável Problemas de Comunicação, do ofegante A Passionalidade dos Crimes, do curioso e igualmente ofegante Neve em Votkinsk, dos conselhos de Os que se arremessam, das multiplicações de Os problemas de ser Cláudia (que merecia perder seus 3 últimos parágrafos *), do mímico Mas não falam, das elegantes equações de A revolução como um problema matemático, da bela cena de O silêncio e do parque de Um outro sentido. Mas nada do restante é esquecível.

Os contos guardam fartas doses de unidade entre si e, repito, não são de modo algum literatura descartável, de entretenimento. Czekster consegue fabular e ser autenticamente filosófico, por todo o tempo. É literatura séria, até um pouco dura e sombria, onde o fantástico e a morte estão muito presentes.

Recomendo fortemente.

* Explico: como um devoto da ficção, não gosto quando entra certo “tom de tese”. Não estraga o conto, mas ele poderia ser perfeito, não?

Gustavo Melo Czekster

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Dívida: os primeiros 5000 anos, de David Graeber

divida david Graeber

David Graeber é antropólogo e economista. Mas sua cultura é tão vasta que a leitura de Dívida faz-nos pensar se não seria também historiador, filósofo e filólogo. Quase só leio ficção, mas um grupo secreto e bastaste qualificado do Facebook convidou seus membros para discutir o livro entre os dias 20 e 21 de abril deste mês e, bom menino que sou, lá fui eu enfrentar o calhamaço. Tinha curiosidade para saber o que poderia haver de tão importante nele. Não me arrependo de tê-lo lido, ao contrário. O volume possui 702 páginas, mas imaginem que as últimas 199 são apenas de Notas Bibliográficas. Uma das principais teses do livro é de que as economias primitivas jamais apoiaram-se no escambo. Isso parece ser muito importante para o acadêmico que Graeber é. No posfácio, escrito em 2014 — o livro é de 2008 –, ele se declara feliz por ter alterado algo que era um fundamento da economia. Acho que é intuitivo achar que as economias primitivas baseavam-se no escambo e que os sistemas de crédito são mais recentes. A história padrão dizia que a ordem era escambo, depois dinheiro físico e então o crédito. Mas foi o exato oposto, o crédito veio primeiro — muitas vezes acertados e anotados em templos. Já a moeda foi inventada e cunhada dois mil anos depois das primeiras transações de crédito. E o escambo sempre foi uma improvisação para ser utilizada quando as pessoas perdiam o acesso ao dinheiro em lugares onde o usual seria utilizá-lo. O juro (ou interesse) veio por último. Graeber, que não é de modo algum um autor livre de sarcasmos, faz pouco da antropologia e da economia que não encontrava casos reais de escambo, mas que os tinha como pedra fundamental.

A segunda tese é a que tornou Dívida: os primeiros 5.000 anos (Ed. Três Estrelas) um inesperado best-seller. O livro mostra a história econômica como um reflexo da relação entre credores e devedores. Graeber desenvolve este raciocínio em ritmo adagio e a coisa é realmente linda, com todo um instrumental fático e até filológico a apoiá-lo. Em 5000 anos de história, a dívida sempre foi uma questão de poder e os verdadeiramente poderosos apenas pagavam suas dívidas se quisessem. E ele dá diversos exemplos de bom senso: nas sociedades antigas chegava-se a um momento no qual todas as dívidas — eu disse todas — eram simplesmente perdoadas para que a vida pudesse voltar a ser possível. É algo inconcebível nos dias de hoje e Graeber sugere que não é necessário pagar todas as nossas dívidas. Uma das epígrafes do livro é “Se você deve ao banco 100 mil dólares, o banco controla você. Se você deve 100 milhões de dólares ao banco, você controla o banco”.

Outro ponto interessante é a longa discussão moral sobre a seguinte noção: “Devemos pagar nossas dívidas porque é o correto”. O devedor que não paga é alguém que merece castigo, mas ninguém vê o credor com grande simpatia… É que a dívida, antes mais próxima de uma troca de favores tornou-se um instrumento de escravização e dominação. No início, presumia-se que as relações humanas precediam a economia e a estrutura jurídica de contratos, tribunais e governos. E ele escreve: “Nem todos nós temos que pagar nossas dívidas. E apenas alguns pagam. Nada seria mais importante do que passar uma borracha na divida das pessoas, marcar uma ruptura em nossa moral e começar tudo de novo”.

E nos prova que ninguém tem o direito de nos dizer o que realmente devemos.

Não é um livro adequado para conservadores amantes do capitalismo, do neo-liberalismo, etc., e nem para cagões. Pois discute abertamente que o sistema capitalista nunca foi organizado em torno da mão de obra livre. Uma empresa capitalista precisa de base moral e sua única moralidade é… a dívida — moral ou monetária. O livro defende que o trabalho assalariado não é livre — pois alguém que apenas pode vender sua capacidade de trabalho não pode ser considerado livre — e que existe, e sempre existiu, uma curiosa afinidade entre trabalho assalariado e escravidão. E nos enche de argumentos e documentação.

Não, não é uma leitura fácil, mas funciona como um machado que abre nossa cabeça para outras realidades. Sim, a analogia é deselegante, mas não me surgiu outra.

O norte-americano Graeber fala de um capitalismo impotente e vai destruindo uma série de mitos históricos. É claro que se trata de um anarquista, mas de um anarquista altamente brilhante e culto. Ele foi um dos criadores do Movimento Occupy em 2011 e co-autor do bordão “Somos os 99%”. É um acadêmico raríssimo, que vai para o pau na rua e que foi demitido de Yale em um episódio controverso, com os alunos fazendo uma petição contrária a sua saída com 4500 assinaturas que não foi aceita pela direção da Universidade. Ganhou Londres. Hoje ele dá aulas na Goldsmiths, University of London e na London School of Economics.

Ele também é autor de outro calhamaço espetacular: The Utopia of Rules: On Technology, Stupidity, and the Secret Joys of Bureaucracy [A utopia das regras: Sobre tecnologia, estupidez e as alegrias secretas da burocracia”].

Eu copiei umas partes para mim e para vocês. Espero que gostem:

Há uma boa razão para acreditar que, daqui uma ou duas gerações, o próprio capitalismo não existirá mais — muito provavelmente, como sempre lembram os ecologistas, porque é impossível manter uma máquina de crescimento perpétuo em um planeta finito, e a forma atual de capitalismo não parece ser capaz de produzir as mobilizações e os avanços tecnológicos revolucionários necessários para que comecemos a colonizar outros planetas. Contudo, diante da perspectiva do fim do capitalismo, a reação mais comum — mesmo por parte de quem se diz “progressista” — é o puro medo. Nós nos agarramos ao que existe porque perdemos a capacidade de imaginar alguma alternativa que não venha a ser ainda pior. 

Como chegamos a esse ponto? Suspeito que estamos vendo as últimas consequências da militarização do próprio capitalismo norte-americano. Na verdade, podemos dizer que nos últimos trinta anos assistimos à construção de um vasto aparato burocrático cujo objetivo é criar e manter a desesperança, uma máquina gigantesca feita para, antes de mais nada, destruir qualquer ideia de possíveis futuros alternativos. Na sua origem está uma verdadeira obsessão por parte dos governantes do mundo todo — em resposta às revoltas dos anos 1960 e 70 — por garantir que os movimentos sociais não nasçam, floresçam ou proponham alternativas; de que os que contestam os acordos de poder existentes jamais sejam vistos, sob quaisquer circunstâncias, como vencedores. Para isso, é preciso criar um vasto aparato formado por exércitos, polícia, vários tipos de empresas de segurança privada e de sistemas de inteligência militar, além de instrumentos de propaganda de todos os tipos concebíveis. A maior parte deste aparato não ataca diretamente as alternativas, mas cria um clima de medo universal, de conformidade chauvinista e puro desespero que faz com que qualquer ideia de mudar o mundo pareça uma fantasia inútil. Manter esse aparato parece ser ainda mais importante para os defensores do “livre mercado”, mais ainda do que manter qualquer tipo viável de economia de mercado.

(…)

Nossa imaginação coletiva, como observei, sofreu uma espécie de colapso. É quase como se as pessoas tivessem sido levadas a acreditar que os avanços tecnológicos da nossa época, e a sua tão grande complexidade social, tivessem o efeito de reduzir nossas possibilidades políticas, sociais e econômicas, em vez de expandi-las.

(…)

Para começarmos a nos libertar, o primeiro passo que precisamos dar é nos ver novamente como atores históricos, como pessoas que podem fazer alguma diferença no curso dos acontecimentos mundiais.Isso é exatamente o que a militarização da história está tentando evitar. 

(…)

O que tentei fazer neste livro não foi propor uma visão de como será nossa próxima era, mas sim abrir novas perspectivas, ampliar nossa percepção das possibilidades e começar a perguntar o que significaria pensar com profundidade e grandeza apropriadas ao momento.

.oOo.

Missionário: Veja só você! Está jogando a vida fora ao ficar deitado o dia inteiro desse jeito.

Samoano: Por quê? O que acha que eu deveria estar fazendo?

Missionário: Ora, tem um monte de cocos por aí. Por que você não seca a polpa e vende?

Samoano: E por que eu faria isso?

Missionário: Você pode ganhar muito dinheiro. E, com o dinheiro que ganhar, pode comprar uma máquina para secar a polpa mais rapidamente e ganhar ainda mais dinheiro.

Samoano: Certo, mas para que eu faria isso?

Missionário: Bom, você ficaria rico. Poderia comprar terras, plantar mais árvores, expandir suas atividades. A partir de então, nem precisaria mais fazer o trabalho pesado, poderia contratar pessoas para isso.

Samoano: Certo, mas por que eu faria isso?

Missionário: Bom, ao final, cheio de polpa, propriedades, máquinas, empregados e dinheiro, você poderia se aposentar como um homem rico. Então não teria que fazer mais nada e poderia passar o dia inteiro deitado na praia.

David Graeber dando um rolê por Londres.

David Graeber dando um rolê por Londres.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

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O Tribunal da Quinta-feira, de Michel Laub

O Tribunal da Quinta-Feira

É preciso ser muito estúpido para transformar um registro teatral e hiperbólico entre duas pessoas conversando em privado numa declaração literal e pública que revela intenções e caráter.

Michel Laub, O Tribunal de Quinta-feira

Sem spoilers, tá? O publicitário José Victor, de 43 anos, está se separando após um casamento de 4 anos com Teca. Ele sai de casa deixando o computador e, poucos dias depois, ela descobre uma série de e-mails trocados entre seu ex e Walter, um velho amigo gay de Victor. Eles têm um tratamento bastante franco, jocoso e “incorreto” nos e-mails, mas suficientemente irritante e informativo para Teca, que bota os melhores lances no maior dos ventiladores, as redes sociais. (Não pensem que os amigos tinham um caso, nada disso, Laub não se utiliza de lugares-comuns). E começa o linchamento típico da Internet, cujas consequências são tratadas por Laub. Este é um resumo que ignora boa parte da complexidade do romance, que também envolve AIDS, relações profissionais, culpa e hipocrisia.

O livro é ótimo, mas há algo que me incomodou. Laub é um narrador poderoso e, em capítulos curtos, vai montando uma complexa teia que nos traz um contexto bem real da situação. Seu ritmo é lento e inexorável. A cada capítulo, vamos sabendo mais e mais, mas não gostei das pequenas intervenções ensaísticas inseridas na narrativa e nem da aceleração final da mesma. Me pareceu que Laub, controlando magnificamente a história, decidiu deixá-la sensacional nos últimos capítulos. Ou seja, já tinha ganho a partida quando decidiu massacrar. Acabou tomando um contra-ataque que resultou num inútil gol do adversário e manchou o que estava perfeito. Tipo 7 x 1.

O tribunal do título refere-se principalmente à explicação que ele terá de dar que à pessoa que realmente feriu durante o episódio, mas tal fórum pode ser expandido para o descontrole, suscetibilidades, desinformação e distorção das redes sociais.

Excelente livro. Recomendo.

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Serena, de Ian McEwan

Serena McEwanResenha sem spoilers, tá? Serena conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres e Brighton, misturando amor, literatura, costumes e política (Guerra Fria). Serena Frome é uma jovem que vai trabalhar no MI5 (Military Intelligence, Section 5), serviço de inteligência do governo inglês. Ela estudou matemática em Cambridge, mas gosta mesmo é de literatura ligeira. No início do livro, diz preferir Jacqueline Susann a Jane Austen… e, sim, ela se torna mais razoável depois. Em razão de seu amor pela literatura e por ser de direita (além de linda), ela é convidada a participar de um projeto bem comum na época: com a finalidade de combater as ideias comunistas, o MI5 passa a financiar autores talentosos que escrevam a favor do capitalismo. Normal. Até Orwell participou de um programa desses. Após alguns casos amorosos, inclusive com o homem que de certa forma a colocou no MI5, Serena envolve-se com um escritor que recrutou, um certo Tom Haley. A partir deste ponto, paro de contar a trama.

Dito assim rapidamente, parece ridículo. Não é. McEwan é um baita escritor, realiza sempre minuciosas pesquisas e consegue manter esta trama vintage — meio espionagem, meio farsa, meio romanção — bem escondida sob uma prosa sempre interessante. Só que o livro não chega a ser bom. O final que o leitor elabora em sua cabeça, imaginando as cenas que virão antes do desenlace sugerido, é menos elegante do que aquilo que é descrito por McEwan. E a gente fica pensando que ele não explicita a história porque ela não é tão boa. Fica uma sensação estranha e insatisfatória.

McEwan nasceu em 1948, eu em 57. Muitas das referências feitas por ele àquele período de minha juventude foram-me absolutamente deliciosas. Talvez eu e ele tenhamos sucumbido nostálgica e apaixonadamente à música popular e aos problemas em voga na época. As descrições detalhadas de como Serena se veste ou pensa são ótimas e a certa ingenuidade sempre presente dão um perfume especial à esta narrativa longa (382 páginas).

Mas, vocês sabem, um mau McEwan é superior do que o melhor livro de muito autor consagrado e Serena é exatamente isso, um equívoco de um excelente autor. Afinal, sempre se espera deste cara que diz vencer seu bloqueio criativo lavando louça.

Ian-McEwan-escritor

Livro comprado na Bamboletras

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A Descoberta da Currywurst, de Uwe Timm

A descoberta da currywurstLi este livro durante uma longa viagem pela Europa. Queria algo leve e achei que o best seller A Descoberta da Currywurst combinaria bem a já gasta mas agradável fórmula de “gastronomia e história”. E, com efeito, apesar de quase tudo se passar logo após o final da Segunda Guerra Mundial, trata-se de um livro leve. Uwe Timm simula uma longa entrevista com Lena Brücker, a possível inventora da iguaria. Porém, antes de dizer qual é a origem da currywurst, Lena, enquanto tricota num asilo de velhos, faz questão de contar sua aventura de final de guerra. E o que ela conta por quase todo o livro é seu caso amoroso com o jovem soldado alemão Hermann Bremer. Ele fora designado para uma unidade de caça de blindados, mas, nos dias finais da guerra, Lena o convence a tornar-se um desertor, arrastando-o primeiro para um abrigo antiaéreo e depois para seu apartamento. Bremer fica escondido ali, tentando adequar-se a mil cuidados para não ser ouvido pelos moradores do prédio. Já Lena sai bastante de casa. Trabalha numa cantina e é lá que, não obstante a escassez, rouba alimentos para si mesma e Bremer. Também consegue enganar Bremer, dizendo que a guerra não acabou. Ela mente que não há jornais e confirma que a Alemanha juntou-se aos aliados para atacar a União Soviética. Ou seja, a guerra segue e ele ainda seria um desertor. É interessante a relação entre ambos. O fato é que ela o quer e ponto final. Transam todos os dias e vão engodando. Então, o livro cai em outro clichê, saindo de “história e gastronomia” para o “romance de cativeiro”. Só nas páginas finais sabemos da origem da currywurst. Até curti o livro, queria saber seu final, não obstante o amontoado de clichês. Timm escreve muito bem, a tradução é boa, só que a história é um amontoado de coisas há muito tempo vistas ou lidas.

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

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Ruína y leveza, de Julia Dantas

ruina-350Gosto de resenhas curtas, mas acho que esta será pouca coisa maior do que o habitual.

Muitos de meus amigos elogiavam Ruína y leveza e faziam cara de espanto quando eu dizia que ainda não tinha lido. De certa forma, eles me enganaram. Não quanto à qualidade do livro, que é efetivamente excelente, mas quanto ao tema. Esperava uma espécie de “romance de viagem” pela América Latina, com descrições das minas de Potosí, de Nazca, do Salar de Uyuni, de Machu Picchu, misturadas com a vida sentimental da narradora, algo assim. Eles me falavam do livro e eu imaginava algo de inspiração goethiana ou hessiana, solitária e paisagística, sempre com a viagem como centro, abrindo espaço para uma viagem interior de auto-conhecimento. E pensava que talvez não fosse o livro mais adequado a este leitor… Só que Dantas me ganhou facilmente.

Porque é o inverso. A crise pessoal da personagem — fim de um caso amoroso, súbita demissão de seu trabalho como publicitária — é que a leva a viajar e as tais transformações e recomeço ocorrem como resultado dos contatos de Sara com figuras como a do argentino Lucho e a da peruana Carmem e não através de lições ou grandes frases forçadas. Ou seja, tudo parte da simples interação. Ponto para Dantas. Ou seja, não é um livro de um narrador solitário, apesar de Sara buscar ficar sozinha. Sim, escrevo uma resenha mais dizendo o que Ruína y leveza não é, mas a culpa é de quem me fez ler o livro…

E o que é o livro? É um livro sobre um processo de retomada da vida, de um recomeço. Da crise à retomada. Ele gravita em torno das experiências passadas e da viagem de Sara, uma narradora de voz muito sedutora e envolvente. Em segundo lugar, é um texto bem escrito, fluente, inteligente e realista. Os capítulos alternam entre as experiências da viagem e os motivos a levaram até ali. Então, boa parte do livro é urbana e porto-alegrense. Sara está deprimida, mas sempre permanece interessante e até divertida — o livro contém boas piadas e histórias. Não se trata de uma pessoa perdida e desesperada “que se encontrou”, pelamor.

A frase que parece dar título ao livro é do duro Lucho, que afirma: “Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza”. Gosto especialmente da palavra leveza e a uso com cuidado. Na acepção que prefiro, ela não é confundida com simplicidade ou falta de profundidade, mas com delicadeza e viço. Mozart, para mim, seria uma mistura de leveza e ousadia. Julia Dantas a utiliza bem.

Recomendo a leitura.

Julia Dantas em foto sem crédito encontrada na rede

Julia Dantas em bonita foto sem crédito encontrada na rede

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Luz em Nevoeiro, de Iuri Müller

luz-em-nevoeiro-iuri-mullerVolume de estreia de Iuri Müller na área da ficção, Luz em Nevoeiro traz doze contos, alguns já conhecidos meus da internet. Mas nada como lê-los em grupo. Neste caso, a desvantagem da leitura esparsa foi a de dificultar a distinção da boa voz de Iuri e de prejudicar a observação da unidade e da coerência do trabalho do autor. Em livro, tudo ficou mais claro. Os contos são escritos em ritmo decididamente adágio, tendo por base, quase via de regra, as ações dos personagens. Há também há uma peculiar integração entre eles e os diversos ambientes. Por ambiente, entenda-se as ruas e as cidades. A coisa acontece de tal maneira que é impossível imaginar o belíssimo e original Andava a te buscar fora de Montevidéu ou o ótimo Avenida Salgado Filho fora da conhecida e infernal rua de Porto Alegre. As histórias vêm grudadas às características específicas de cada habitat.

(Intervenção gonzo: li o livro durante uma viagem à Europa na qual mudei 4 vezes de cenário. Era curioso receber a enorme carga de informações da cada nova cidade onde me hospedava, enquanto lia um livro tão ligado a outras cidades também conhecidas de mim. Caminhava por Berlim, Praga, Amsterdam e Londres, vagando literariamente por Montevidéu, Buenos Aires, Porto Alegre, Santa Maria, Lisboa…)

A atmosfera ficcional de Luz em Nevoeiro é cuidadosamente rarefeita. Os contos não dizem tudo, deixando bom espaço para a imaginação do leitor e para a poesia. Iuri Müller nos joga detalhes sem ser exageradamente explícito (ou explicadinho), criando lentamente boas histórias de conflitos contra a situação política, a pobreza, a falta de perspectivas. Papéis Molhados, Edifício Paris e Acevedo, poeta são bons exemplos de sua arte. Os personagens são lenta e maravilhosamente bem construídos. E costumam tomar atitudes desconcertantes.

Além dos contos citados, gostei muito de O Estado das Coisas. Importante salientar: citei seis, mas a outra meia dúzia não é nada esquecível. Recomendo a leitura.

P.S. — Iuri Müller já tinha publicado anteriormente a reportagem Estilhaços de Rodolfo Walsh, comentado aqui no blog.

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O Céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena

o-ceu-de-lima-juan-gomez-barcenaJosé Galvéz e Carlos Rodríguez são dois jovens ricos que, com o futuro garantido, escolhem viver de maneira leve e superficial. São daquele tipo de estudantes universitários que raramente frequentam as aulas. Amam a literatura, sobretudo poesia, apreciando especialmente o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez. Querem ler seu novo livro, mas não o encontram na provinciana Lima da primeira década do século XX. E resolvem pedir o livro diretamente ao autor. Para que dê certo, fazem com que uma mulher o faça, criando assim a personagem Georgina Hübner – uma moça apaixonada pela obra de Juan Ramón. É ela quem lhe escreve uma doce e inteligente carta solicitando o livro, preparada pela bela e feminina caligrafia de Carlos. Ambos ficam loucos de felicidade quando a edição chega, acompanhada de uma resposta. E começa uma longa correspondência que forma um romance, tanto literário quanto amoroso.

É curioso. A narrativa é inspirada em uma história real. Sim, o grande Juan Ramón Jimenez foi iludido por dois dândis limeños. A partir desta uma introdução de comédia, Bárcena constrói minuciosamente a relação entre José e Carlos, além da deles com seus aconselhadores. Mostra-nos como se envolvem cada vez mais na farsa. Também a elite de Lima e suas relações sociais com os empregados e serviçais é retratada com particular exatidão. O contexto histórico é rico e esclarecedor, auxiliando e tomando boa parte da narrativa.

O livro é dividido em quatro capítulos: I- Uma Comédia; II- Uma História de Amor; III- Uma Tragédia e IV- Um Poema. Neles, lemos algumas cartas de Georgina, que acaba se tornando cada vez mais real, além de alguns trechos das cartas que o escritor Juan Ramón Jiménez lhe envia. Há sutil e inteligente metalinguagem. Os dois farsantes acabam discordando muitas vezes. Buscam conselhos de um homem que trabalha no centro da cidade redigindo cartas de amor. Carlos não deseja aderir às sugestões. Depois, outros amigos acabem se envolvendo, o que leva a dupla a um quase rompimento. A coisa fica séria e eles apenas voltam a se encontrar quando…

O Céu de Lima é excelente e foi uma grande surpresa. Comprei-o por indicação do amigo Iuri Müller e só porque tinha algum dinheiro sobrando no bolso, coisa rara. Valeu muito a pena. Recomendo!

Juan Gómez Bárcena

Juan Gómez Bárcena

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Índice médio de felicidade, de David Machado

indice-medio-de-felicidade-david-machadoDe uma forma muito pessoal, gostaria de caracterizar o excelente romance Índice médio de felicidade como uma “história pânica”. Em nenhum momento consegui um afastamento emocional do livro, pois ele tocou profundamente em um de meus maiores medos — o do desemprego, ainda mais na minha idade de 59 anos. O texto do português David Machado é envolvente, profundamente humano e nervoso, impondo um ritmo forte à leitura.

Após décadas de crescimento, Portugal soçobra em uma profunda crise econômica e o desemprego cresce. O romance é narrado por Daniel, um jovem na casa dos 30 anos que se vê sem ter o que fazer. Demitido de uma agência de viagens, passa a realizar pequenos trabalhos, vê sua esposa mudar-se para o interior com os filhos e fica em Lisboa, aguardando a sorte e ocupando-se com todo o tipo de coisas, muitas delas perfeitamente inúteis para tirá-lo do buraco, meros reflexos de sua situação.

Otimista ao mais alto grau, Daniel vai resistindo de uma forma muito peculiar e humana: procura não encarar a dura realidade e a falta de perspectivas. Mesmo a vergonha que sente de expor-se aos filhos e à mulher é mostrada pelo filtro de leveza de Daniel. Porém, à medida que lemos o romance, sentimos crescer um subtexto que caminha na direção contrária ao que diz o narrador. Suas boas intenções passam a ser claramente hostis a ele próprio. Um verdadeiro achado.

A história é ótima, com um belo final. O bom humor do livro e a extraordinária capacidade narrativa de David Machado — um ex-economista que não escreve uma palavra em economês — garantem um livraço.

Índice Médio de Felicidade recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura e, dizem, será adaptado para o cinema. Recomendo MUITO.

De forma inteiramente casual, encontrei-me com David na Feira do Livro de Porto Alegre no momento em que adquiria seu livro

De forma inteiramente casual, encontrei-me com David na Feira do Livro de Porto Alegre no momento em que adquiria seu livro. O pedido de autógrafo foi inevitável.

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A Natureza Intensa, de Nelson Rego

a-natureza-intensa-nelson-regoNão sei quais são as principais referências literárias de Nelson Rego, mas não devo errar muito se falar em Bataille, Sade, Genet, Gombrowicz e Gide, além de algo mais político. Porém, este livro não segue nenhum modelo utilizado pelos autores citados, apenas fazendo com que lembremos deles. Em A Natureza Intensa, Rego faz uma curiosa literatura hedonista, onde há belas e glamurosas mulheres em posições de poder. Elas administram suas empresas a partir de fundamentos éticos muito pouco praticados, que incluem não somente a solidariedade como o sexo e a beleza.

O volume abre com o conto Garota Espiralada, onde uma modelo posa nua para um grupo de artistas. Só que estes parecem um grupo de voyeurs mais interessados no corpo da menina do que em seus trabalhos. O trabalho parece pretexto para a contemplação.

Farsantes Sinceras conta uma viagem onde duas mulheres circulam por uma Itália cheia de tentações e mistérios. Aqui, somos apresentados a algumas personagens da narrativa que fecha o livro.

Sim, o melhor é o conto final (ou novela, pois tem 75 páginas). A natureza intensa brota por todo lado trata de um homem maravilhosamente perdido na casa da dona de uma grife que retira da pobreza meninas para trabalharem como modelos. Vitória dá-lhes tudo: educação, roupas, segurança, beleza… Dá-lhes o mundo. E elas tornam-se “queridas, ousadas, nada submissas, valentes, justiceiras, taradinhas, narcisistas, perspicazes e profundas, um pouco fúteis, criativas, inteligentes e estudiosas e aplicadas em suas responsabilidades, cheias de compaixão e amor apaixonado, exibicionistas, ecológicas, solidárias, com espírito de equipe, independentes, vaidosas, uns amores, tudo de bom”.

Rego não faz pornô soft, faz boa literatura com um belo trabalho de linguagem, que lembra os autores citados na abertura desta resenha. O que é também singular no mundo de Nelson Rego é que tudo isso é temperado por posições contra o establishment. Isto é, não estamos nunca no terreno do conformismo. Os planos das poderosas mulheres incluem investimentos nos promissores editores gays de Londres que sonham em abrir uma sucursal antirreligiosa em Jerusalém e outra antirracista no Texas. Elas também pretendem abrir linhas de crédito para quintais quilombolas dedicados à agricultura orgânica nas regiões mais latifundiárias e racistas do RS… Lembram que o deputado Luis Carlos Heinze disse que quilombolas, índios, gays e lésbicas era “tudo que não presta”? Pois bem, ele ficaria louco com os planos delas.

Sem dúvida, é um mundo é bem interessante e, infelizmente, distinto de nossa realidade. Talvez, como diz a poderosíssima Jewel, verdadeira suma-sacerdotisa, a intenção seja a de dar esperança para o mundo através do tesão.

Recomendo!

Nelson Rego | Foto: Palavraria

Nelson Rego | Foto: Palavraria

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausurado-mcewanA ideia é insólita e tinha tudo para dar errado, acho. Mas do outro lado não estava um diretor de comédias norte-americanas e sim Ian McEwan. Bem, gente, o narrador de Enclausurado é um feto. Dentro do útero, ele aprende as coisas da vida ouvindo programas de rádio que sua mãe tanto aprecia. Ouvindo tais programas, que falam da política e da situação mundial, o feto teme por seu futuro. Além disso, degusta e tem opiniões acerca dos vinhos que ela ingere não obstante a gravidez. Sua mãe prefere o Borgonha, ele, o Sancerre. (McEwan afirmou que se trata de um feto alcoolista). E ali, dentro do útero de sua genitora, fica sabendo dos planos de Trudy, a mãe, para matar o pai em conluio com o amante que é irmão do pai, ou seja, seu tio.

Apesar de estarem sempre misturados ao desconforto e, às vezes, à burrice e ao descontrole, o livro tem momentos absolutamente hilariantes. Há alta e baixa comédia. O feto declara-se impotente para alterar tanto o destino da trama que vê ocorrer em torno de si, como da situação do mundo onde vai chegar, mas faz comentários acerca de tudo. Preocupa-se demais, inclusive em se esquivar das estocadas do pênis do tio, o insuportável Claude. Então, o romance tem uma base absolutamente fantasiosa, momentos de comédia e outros de grande realismo e sinceridade, guardando também pontos de contato com as tragédias shakespearianas, apesar da ambientação 100% contemporânea. O nome da mãe, Trudy, obviamente vem de Gertrudes, a Rainha da Dinamarca de Hamlet; enquanto que o nome do irmão do pai é Claude, um sujeito traidor, assassino e tolo. Lembram que o irmão de Hamlet chama-se Claudius?

O feto desaprova os planos, porém não consegue detestar a mãe e sua placenta saudável e alcoolizada. Neste livro, McEwan mantém as detalhadas descrições de seus melhores textos, mas revisita o espírito de suas primeiras obras que lhe valeram o apelido de Ian MacAbre (Ian Macabro).

Há um momento em que levantei e comecei a caminhar rindo. O marido inverte o discurso e Trudy fica enfurecida em razão de que o abandono deve ser uma decisão dela, não dele. Ela quer se separar, não ele… A raiva de Trudy é “vasta e profunda e é seu meio ambiente, sua personalidade”. Puxa, como eu conheço isso!

Enclausurado é uma pequena joia. De início tão inverossímil quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro ganha enorme força através da arte de um McEwan inspiradissimo como em Reparação e Amsterdam.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Ian McEwan

Ian McEwan

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O Inverno e Depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil

o_inverno_e_depoisDepois de Música Perdida (2006), eu tinha desistido de Assis Brasil. Sendo mais claro: sempre lia os livros do autor gaúcho em busca de algo tão vivo quanto O Homem Amoroso (1986), mas ele permanecia perdido em romances históricos que me pareciam difíceis de engolir, seja pela artificialidade de algumas situações, seja pela linguagem clássica e perturbadoramente deslocada daquilo que descrevia — normalmente o Pampa inculto e romantizado –, seja por minhas manias e gostos de velho leitor, certamente a razão mais forte.

Mas aí veio o excelente escritor, crítico literário e amigo Carlos André Moreira. Ele escreveu bobamente que gostaria de ler uma resenha de Milton Ribeiro sobre o recém lançado O Inverno e Depois. Espero que tenha se lembrado que isto aqui é um blog onde apenas me coleciono de um jeito meio estabanado. Bem, mas moço obediente que sou, liguei para a Ladeira Livros pedindo o romance. E o livro é ótimo.

A narrativa tem seu foco em Julius, um violoncelista que se isola numa estância que herdou de seus pais — e que não visitava há 40 anos — para estudar uma obra pela qual é obcecado desde seus estudos na Alemanha, o Concerto para violoncelo e orquestra, de Dvořák. Ele tem um concerto marcado como solista e quer ser digno da grande música que escolheu.

Logo no início do livro, enquanto é descrita a longa viagem de carro entre Porto Alegre e a fronteira com o Uruguai, já deu para notar que tudo estava muito bem encaixado: humor, linguagem e tema. Durante a jornada, Julius, que nascera no mítico Pampa de Assis Brasil e que mudara-se criança para São Paulo, divaga sobre seu passado. A viagem vai sendo descrita paralelamente à história de vida de Julius e, quando vi, estava totalmente envolvido. Aprendi que o maior sinal de que o livro é bom é quando abro novos espaços de tempo para apressar a leitura. Isso aconteceu e passei a achar legal que o volume tivesse 350 páginas.

Hitchcock não era escritor, mas sabia como poucos o que era uma narrativa bem feita. Na imensa entrevista que concedeu para Truffaut, disse uma coisa fundamental: um profissional vê o mundo a partir de sua profissão e trata de influenciá-lo e defender-se a partir e com o que faz. Lembram do fotógrafo de A Janela Indiscreta defendendo-se de Lars Torvald com “flashes”? Há algo mais crível do que aquilo? Ou queriam que ele pegasse em armas?

Pois Julius pensa e vê o mundo a partir do violoncelo. Foi o instrumento que o levou à Würzburg (Alemanha) e depois fez com que se fixasse em São Paulo. Suas opiniões e amores são mediados pelo violoncelo. Ele não conheceria a amiga Klarika, seu professor Brand, seu amor Constanza e talvez nem a esposa contadora sem ele. Um bom romance realista deve ter surpresas, mas não pode conter sinais de artificialidade. E Assis Brasil aceita o fato de tal forma que não recua em dar detalhes técnicos do instrumento e das peças com que Julius se debate. Os desentendimentos que ocorrem também são típicos do mundo musical. (Lembrem que sou casado com uma violinista da Ospa, conheço o ambiente).

Outro elogio que faço ao livro é o de sua arquitetura narrativa. A linguagem é aquela clássica que Assis Brasil nunca abandona, aquela que mira a clareza e a elegância. Mas aqui a construção é muito bem feita, as narrativas paralelas funcionam bem e nos levam a boas cenas simétricas, como a do recital de Constanza e a do concerto de Julius. Porém…

Algumas vezes Assis Brasil pisa a linha do melodrama e até dá um passeio por lá. A descrição da morte do professor Brand é menos digna do que poderia e algumas coisas funcionariam melhor se deixadas a cargo da imaginação do leitor. Também é surpreendente que Julius, ao retornar do outro lado da fronteira, tenha perdido todos os medos — algum artista que sofre de medo do palco pode perdê-lo 100%? —  e tenha ido de peito aberto, surpreendendo até o maestro com seu risoluto. Creio que, na cena final, ele pudesse ter deixado claro o medo inicial e a sua diminuição à medida que Julius observava a plateia e criava vínculos com Antônia, Maria Eduarda, Sílvia e Constanza. Pô, nem uma visitinha às pressas ao banheiro antes de entrar do palco? Sua súbita segurança pareceu meio mágica, como se ele tivesse incorporado Starker.

Mas isto são detalhes. É o varejo no meio de um atacado de acertos. Eu comi o livro. O romanção me convenceu fácil, fácil. E não pensem que eu não quero que Constanza e Julius vivam felizes para sempre. Garanto-lhes: fazem um belo casal!

Recomendo.

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(Livro comprado na Ladeira Livros).

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Oswald — Ponta de Lança e outros ensaios, de Éder Silveira

oswaldCVEu sempre me aproximo com receio de obras escritas por acadêmicos. Nelas, às vezes tudo fica muito esquisito, com os rodapés crescendo quase tão altos quanto a parede. Por isso, foi uma surpresa abrir a obra do historiador Éder Silveira e ver-me logo envolvido por temas culturais fundamentais do Brasil, acompanhados de elegância, boa prosa e comentários consistentes. Antes de descerrar esta cortina de elogios, aviso que sim, há os malditos rodapés, mas o autor esforçou-se para integrá-los ao texto. Deste modo e erguendo o nariz para alguns deles, a leitura ioiô ficou reduzida.

Oswald ponta de lança e outros ensaios trata de temas culturais e políticos da primeira metade do século XX, com foco na Semana de Arte Moderna de 22 e suas margens. São textos cheios de informação — e algumas fofocas — sobre figuras como Monteiro Lobato, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Di Cavalcanti e Oswald. Para mim, o verdadeiro interesse do livro está no fato de que o autor cuida mais da algaravia geral. Isto é, cuida menos de suas individualidades e mais de suas obras e dos diálogos entre eles e a política da época, vertidas principalmente em artigos publicados em jornais. No início do século passado, não havia tanto compadrio entre os autores brasileiros e muitas vezes uns criticavam aos outros. Também mudavam de opinião, o que é saudável. Ou seja, o ambiente intelectual não estava boiolizado como o que vemos hoje.

(Bem, antes que a patrulha da correção me alcance com seus dedos pegajosos, informo que boiola tem também o significado de indivíduo fraco ou medroso, tá? OK? Certo? Então tá, podem abraçar seus dicionários e dormir tranquilos).

E, além de não haver tanto compadrio, era uma época agitada, com o vanguardismo tentando abrir a golpes de facão as brumas parnasianas e naturalistas. O painel que os textos do livro toca é amplo — vai desde o higienização de Lobato até as lutas de Oswald contra o “desprezo pela inteligência” na direção do PCB, das tendências nacionalistas e conservadoras do modernismo brasileiro até o humor praticado pelo movimento, do encantamento e à frustração dos dois Andrades e, é claro, de muitos e muitos projetos irrealizados.

A pergunta de fundo não é nada fácil: o que é o Brasil, qual é sua identidade? É claro que a resposta não está no livro, mas a discussão é bonita.

Livro fundamental para quem se interessa por cultura no Brasil.

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O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21

O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21

Obs. final: o que me deixa encafifado é o fato de tão bom autor ser gremista, incidência que ele não declina em seu livro. Por anos, o mítico Impedimento andou procurando bons cronistas gremistas. Os resultados foram claros: eles não sabem escrever direito. Os raríssimos bons ou eram deprimidos ou não se mostravam suficientemente disciplinados para a tarefa. O único azul que escreve bem — além de dançar tango — em Porto Alegre é Sergio Faraco. Ele torce para o Cruzeiro, sim, o cruzeirinho de Erico Verissimo e Moacyr Scliar. O outro é Peninha.

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O feminismo do grande, imenso Um teto todo seu, de Virginia Woolf

Um teto todo seu (A Room of One`s Own, 1929) é um dos mais surpreendentes livros da célebre ficcionista inglesa Virginia Woolf. A primeira surpresa é o fato de não ser ficção; a segunda é a absoluta ousadia no trato do assunto abordado: o feminismo. Mas há mais.

O livro nasceu a partir de duas palestras chamadas “As mulheres e a ficção”, proferidas por Virginia para a plateia essencialmente feminina da Sociedade das Artes, na Londres de outubro de 1928. O texto de Virginia tem a qualidade estupenda de seus livros da época. Mrs. Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928) foram seus predecessores; As Ondas (1931) deu continuidade à série de obras-primas. Encrustado na sequência principal de romances de Virginia, o ensaio Um teto todo seu não decepciona de modo algum. O livro tem cerca de 140 páginas. Não pensem que ela o leu por inteiro em duas noites – algo como 70 páginas por dia – , na verdade o texto foi bastante ampliado para publicação logo após as palestras.

Intermezzo: é notável a sorte de Virginia Woolf no Brasil. Seus tradutores foram extraordinários: Orlando foi traduzido por Cecília Meireles; Mrs. Dalloway, por Mario Quintana; As Ondas e Entre os Atos, por Lya Luft em fase pré-Veja e pré-Yeda; Passeio ao Farol, por Luiza Lobo e Um teto todo seu, recebeu tratamento impecável de Vera Ribeiro. Muita, muita sorte. Fim do intermezzo.

Dotado da mesma prosa alegre e saltitante de Mrs. Dalloway e Orlando, Um teto todo seu trata do feminismo de forma levíssima, mesmo que afirme as coisas mais terríveis sobre a vida da mulher. Alegre, feliz e livre de todo rancor, como na foto abaixo, à esquerda, Virginia Woolf cria algumas imagens fortíssimas que ficaram célebres. A primeira é a da irmã de Shakespeare. Tão talentosa quanto o irmão, ela teria vivido subjugada por tarefas domésticas e todos os seus esforços para demonstrar seu talento teriam sido esmagados pela família. Então, desesperada, ela foge, apresenta-se num teatro de onde é sem mais nem menos enxotada, para depois prostituir-se e suicidar-se. A outra é da escritora fictícia Mary Carmichael. Ela não é muito boa, sua frase é dura e seu romance, que Virginia finge ler, é mais ou menos chato. Só que lá pelo meio há uma frase: “Chloe gosta de Olivia”. E então, finalmente, naquele livro bem ruinzinho, apareceu a Grande Mudança, pois às vezes mulheres gostam de mulheres, não?

Seu raciocínio, até desembocar na tese do Teto e das 500 libras anuais, é brilhante. Virginia Woolf parte das precursoras da literatura inglesa até chegar na grande explosão do século XIX, com o aparecimento de Jane Austen, das irmãs Brontë, Emily e Charlotte, além da grande George Eliot que, em verdade, chamava-se Mary Ann Evans. Suas obras-primas não nascem de gênios isolados, mas após anos e anos de labuta conjunta. A experiência apresentada por estas escritoras dá forma perfeita ao que veio antes, à tradição. Então, escreve Woolf, Jane Austen deveria ter depositado uma coroa de flores no túmulo de Fanny Burney e George Eliot deveria ter rendido homenagem à resoluta Eliza Carter, a bravíssima escritora que amarrava uma sineta na armação da cama de forma a não dormir muito e poder estudar grego. E todas elas deveriam derramar flores sobre o túmulo de Aphra Behn, que está enterrada – surpresa! – na Abadia de Westminster, pois foi ela quem começou a assegurar a todas o direito de dizerem o que pensam. Trata-se de parafrasear o velho e bom Newton, físico presente em quase todas as opiniões literárias da tradição inglesa que costuma sempre dizer que “Se vemos mais longe, é por estarmos em pé sobre ombros de gigantes”.

Woolf faz questão de deixar claro que, casualmente ou não, as escritoras que foram melhor sucedidas são aquelas que guardaram para si seu justo rancor. Se Austen ressentia-se contra sua sociedade e família – e ressentia-se, basta lê-la com profundidade – , tratou de passar ao largo das longas tardes em que escrevia seus livros na sala sob as constantes interrupções das “coisas que são tarefas de mulher”. (Pois as mulheres do século XIX nasciam e morriam trabalhando para os homens). De George Eliot nunca se ouviu nada, pois ela se fingia de homem… Porém, em Jane Eyre, Charlotte Brontë teve seu pior momento ao escrever claramente um trecho rancoroso, o que não fez Emily, de coração de poeta e maior talento. Ah, as questões seculares! García Márquez e Saramago e todos os que podem aspirar à imortalidade preteriram-nas em suas grandes obras em favor das parábolas.

O livro, escrito nove anos após as mulheres obterem direito de voto na Inglaterra, é uma ampla análise da situação da mulher e de sua relação com o dinheiro. Virginia Woolf insiste em que as mulheres precisam de duas coisas para criarem uma nova literatura: um teto todo seu, ou seja, um quarto que pudesse ser trancado à chave para escrever, e uma renda de aproximadamente 500 libras anuais. Para tanto, a mulher deveria trabalhar (Virginia fazia parte da Liga do Trabalho Feminino) a fim de obter alguma independência.

Sim, as teses estão bem amarradas – por exemplo, Virginia demonstra que todos os bons poetas de sua época são abastados… – , mas o milagre do livro é o que subjaz às teses. É o tremendo talento da autora para fazer nascer seus argumentos e frases num texto vertiginoso, agradável e sem lugar para gritos ou deselegância. É um feminismo dócil? De modo nenhum. É um feminismo culto, fino, esclarecido, isso sim. E duríssimo e de resultados.

Mais aqui, por Cássia Fernandes.

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O Amor de Mítia, de Ivan Búnin

o-amor-de-mitiaIvan Búnin (Prêmio Nobel de Literatura de 1933) fez parte daquele grupo de nobres russos, ricos ou decaídos, que fugiu da Revolução de 1917. Era vizinho de Nabokov em seu exílio parisiense. A Rússia de sua novela O Amor de Mítia (1925) ainda era a dos nobres e grandes donos de terras tão bem descritos por Tchékhov. Não é para menos. Filho de uma antiga família de proprietários rurais, Búnin viu sua fortuna ser perdida pelo avô e depois pelo pai, um alcoolista viciado nos jogos de cartas. Teve que trabalhar cedo na cidade para ganhar a vida, mas a infância na Rússia pastoril czarista parece tê-lo marcado muito.

O tema de O Amor de Mítia não é a política, mas a inquietação e o Ciúme com C maiúsculo. Mítia tem muito a ver com o Otelo de Shakespeare. Ele ama e ama uma jovem saracoteante que se dedica a concertos, saraus e aulas de teatro. Mas o inferno do ciúme faz com que ele não viva nem aproveite nada. Tudo isto é descrito rapidamente até que ele deixa Moscou e parte para a casa da mãe no interior, cansado dos desentendimentos com Kátia. Como vários apaixonados, crê não ser correspondido.

O livro é basicamente a espera de Mítia. Ele quer receber cartas de sua amada, mas ela não manda. Estará ocupada? Não gosta mesmo de escrever? O que estará fazendo? Ela é fiel? Onde está Kátia? E ele passeia pelo campos, belamente descritos por Búnin em tradução do excelente Boris Schnaiderman. Em seus passeios, sempre acaba no Correio, à procura de cartas.

O contato com os camponeses leva-o a uma negociação direta para a compra de sexo. Búnin descreve toda a estratégia criada por um funcionário da fazenda. Mas ele não quer Alionka, quer Kátia, que persiste em seu silêncio.

É um bom e perfeitamente esquecível livrinho que dá para ler numa sentada ou deitada (118 páginas com capítulos bem curtos).

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

A guerra não tem rosto de mulherA guerra não tem rosto de mulher é mais um excelente produto do curioso, trabalhoso e eficiente método de Aleksiévitch fazer literatura. O livro é formado de pequenas introduções da autora e de trechos de entrevistas que são retrabalhadas, classificadas e ordenadas. O efeito é o de um torpedo, cheio de dor e humanidade. Os relatos são curtos, vindos todos de mulheres soviéticas que lutaram na 2ª Guerra Mundial. Suas funções são de francoatiradoras, enfermeiras, lavadeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, artilheiras, comandantes, tanquistas, sapadoras, enfim, elas estiveram em todos os gêneros de trabalho de soldados em guerra. Matavam e eram mortas. E cada sobrevivente tem uma história diferente e pessoal para contar. A morte, é claro, é onipresente. Todos os relatos envolvem sofrimento, mas também há histórias de amor, de coqueteria e de pequenas alegrias.

Todos sabem que a história é escrita pelos vencedores, mas é pior do que isso, ela é escrita por homens e apenas sobre homens. As mulheres são apenas enfermeiras? Nada disso. E a escolha do feminino no livro de Aleksiêvitch é fundamental. O masculino ama as ações honrosas, a narrativa oficial, enquanto que as mulheres são mais afeitas às “anotações da alma” e aos sentimentos. Nada de estatísticas, de narração de batalhas, apenas detalhes do que é viver dentro de um conflito como aquele..

Isto é, depois de sete anos de entrevistas e de quilômetros de cassetes gravados, Svetlana Aleksiévitch não escreveu um livro somente sobre a guerra, mas principalmente sobre o comportamento do ser humano na guerra, perseguindo menos “os grandes feitos e o heroísmo, mas aquilo que é pequeno e humano”.

A originalidade de Aleksiévitch está em nos descortinar as mulheres não reconhecidas e que participaram ativamente de uma guerra crucial do século XX. Os relatos são crus e violentos, dando-nos uma realidade despida de heroísmo. O ambiente parece muito artificial para aquelas mulheres que usavam cuecas — por falta de calcinhas –, não menstruavam e trabalhavam dias sem dormir. O paradoxo entre ser mulher e soldado é um dos principais pontos dos relatos.

Não é um livro tão bom quanto Vozes de Tchernóbil — os fatos narrados em A guerra não nos causam as cada vez mais terríveis surpresas de cada capítulo daquele –, mas a autora bielorrussa nos dá uma notável contribuição para o entendimento do que foi o dia a dia do maior conflito armado de todos os tempos.

Svetlana Aleksiévitch

Svetlana Aleksiévitch

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Alguns subornos e sacanagens do futebol narrados em Fuimos Campeones, de Ricardo Gotta

Fuimos Campeones Ricardo GottaHá algumas semanas, numa conversa, toquei naquele malfadado Argentina 6 x 0 Peru da Copa de 1978. Depois daquilo, seguiu-se uma pequena discussão e acabei pedindo para um amigo trazer de Buenos Aires o livro Fuimos Campeones, do jornalista Ricardo Gotta. Olha, tomei um susto. A reportagem tem 300 páginas de uma pesquisa imensa e muito séria. Quando a gente dá uma olhada no volume, ele mais parece uma tese de doutorado, tamanhas são as referências comprobatórias de tudo o que diz e, bem, houve suborno sim. Nem todos foram pagos, apenas alguns como o zagueiro Manzo e o presidente milico do Peru, dentre outros.

Começo por um resumo de um dos capítulos finais do livro. Depois de um trecho especialmente cruel para com a Argentina, Gotta resolve, sob um formato bem cronístico e platino, botar merda no ventilador. Achei divertidíssimo. O resumo é meu, as informações, de Gotta.

Na Copa da Itália de 1934, o árbitro belga Louis Baert no primeiro jogo e o suíço Rene Merced na revanche, roubaram descaradamente a Espanha em favor da Itália. Não temos filmes para comprovar, mas foi em 1934 que a coisa começou “em nível de Copa”… Na Copa de 2006, o espanhol Luis Medina Cantalejo deu um pênalti que nunca foi visto. Aconteceu aos 94 minutos de Itália x Austrália e salvou os primeiros, que acabaram campeões. Cantalejo foi sumido… Houve um Brasil x Bélgica nas oitavas-de-final de 2002 e mais tantos “erros” em Copas a favor do Brasil quem nem é bom começar.

Mas esqueçamos os juízes. Se em 1978, a FIFA marcou jogos de equipes envolvidas na mesma decisão da mesma vaga em horários diferentes, ela repetiu o disparate da Copa de 1982. O resultado foi Alemanha 1 x 0 Áustria. No dia anterior, a Argélia suara sangue para vencer o Chile por 3 x 2 sem imaginar que o resultado de Alemanha 1 x 0 Áustria classificaria ambos, deixando-a fora. Os argelinos viram Hrubesch marcar o gol aos 10 do primeiro tempo e depois assistiram 80 minutos de um jogo em que nenhum dos times chegaram à área alheia. No minutos finais, os técnicos Jupp Derwall e Georg Schmidt sorriam UM PARA O OUTRO. Os argelinos, indignados, foram à FIFA pedir a eliminação de ambas as seleções. Que piada! O “jogo” é conhecido como o Pacto Del Molinón e diversos jogadores, como o alemão Briegel, confirmaram o acerto.

É famoso na Europa o caso do goleiro camaronês Thomas N`Kono que resvalou da forma mais impossível, permitindo ao italiano Graziani marcar o gol que fez com que a Itália – novamente campeã daquela Copa – passasse da primeira fase… Tudo foi pago por um enorme carregamento de material esportivo que seguiu para o país africano. Quem ficou fora? Ora, o Peru de Oblitas, Cubillas e Quiroga…

Em 2001, na fase classificatória para o Mundial da França, o Uruguai precisava de um empate para chegar à repescagem. Bem no começo do jogo, Darío Silva fez 1 x 0 para o Uruguai e Claudio López empatou minutos depois. E então ninguém mais chutou a gol. Gotta diz que houve um acordo em pleno campo entre um jogador da Argentina e um amigo seu, uruguaio. Tudo em casa.

Há vários River Plate x Argentinos Juniors suspeitos. O maior ocorreu em 1997 na última rodada da Apertura. O River precisava de um empate para ganhar o campeonato. A torcida do Boca viu o Argentinos passear em campo, sem dar combate. Resultado: 1 x 1. Isto foi uma vingança, pois, em 1991, o Boca tirou o River da Libertadores, empatando com o Oriente Petrolero da Bolívia na Bombonera. Se ganhasse, classificaria o River. A hinchada gritava no lendário estádio: “Hay que empatar / hay que empatar / porque si no van a cobrar”. Paradoxalmente, o então presidente do Boca declarou: “Foi o fato desportivo mais triste de minha vida”. Isso anos depois, claro.

1974. Final da primeira fase da Copa da Alemanha. A Argentina precisava imperiosamente vencer de goleada o Haiti, mas a Polônia, já classificada em primeiro lugar, tinha que ganhar da Itália. Para que, se já era a campeã do grupo? Um empresário argentino com negócios na Polônia foi escalado para abordar alguém da delegação polonesa. O escolhido foi Gadocha, outro bom negociante. O argentino perguntou a Gadocha se “Polonia iba salir a ganar”. Ouviu o a seguinte resposta: “Isso dependerá dos argentinos”. Como a AFA não tinha cash, cada jogador argentino deu US$ 1000,00, uma fortuna para jogadores que atuavam atrás do Muro. Sim, fizeram uma vaquinha. Os polacos foram com tudo e ganharam da Itália, enquanto a Argentina fazia 4 x 1 no Haiti. Tudo certo. No dia seguinte, Gadocha avisou a seus companheiros que a grana viria no dia em que a Copa finalizasse para eles, antes da viagem de volta, para não dar na vista. Após vencer o Brasil por 1 x 0 e de conquistar o terceiro lugar, Gadocha simplesmente desapareceu. Com o dinheiro.

Em 1984, a Argentina mostrou como se domina um adversário, no caso o Paquistão. Era a Copa Merdeka, em Kuala Lumpur. A tarefa era complicada. Todos sabiam que o placar seria uns 18 x 0, talvez 32 x 0, mas um apostador de Hong Kong desejava que fosse Argentina 2 x 1 Paquistão. Toda a delegação argentina recebeu US$ 500,00 por cabeça para fazer o serviço. Deu 2 x 1, para pasmo e indignação da nação argentina. Todos os membros da delegação receberam penas que variaram entre um e três anos.

Então, a conversa com Manzo em 1998, vinte anos após o suborno de 1978, ele bêbado e chorando, num bar da pequena San Luis de Cañete, sua cidade natal, não deve surpreender tanto assim:

– Acá mismo, em mi pueblo, cuando se habla de fútbol, me dicen “eres tu que te vendiste”.

Ele confessou. Deu muito na vista. Imaginem que foi contratado no segundo semestre de 1978 pelo Vélez como forma de pagamento!

– La mucha plata que gané em el fútbol la perdi por mujeriego…

Não parece. Tanto que, depois de ter confessado o suborno, exilou-se na Itália, onde vive aparentemente muito bem.

Mais diversão? Vejam abaixo duas participações do zagueiro direito Rodulfo Manzo nos dois primeiros gols da Argentina. No primeiro, ele é o último jogador que Kempes dribla, antes de desviar de Quiroga (o qual não participou do esquema de suborno) e, no segundo, é ele quem salta na frente de Tarantini, que marca de cabeça, com os dois pés no chão, meio agachado…

Então, aos 5 segundos deste filme, Manzo é “driblado” por Kempes. É aquele que fica caído.

E aos 15 segundos, “salta” com Tarantini…

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