Maria – Uma Peça e Cinco Histórias, de Isaac Bábel

D_Q_NP_506905-MLB25117564480_102016-Q“Em cima de uns tijolos, havia um caldeirão com carne de porco cozinhando, que fumegava como fumega ao longe a casa paterna na aldeia, confundindo dentro de mim a fome e uma solidão sem igual”.

Isaac Bábel, no conto Meu Primeiro Ganso

Excelente livrinho lançado pela Cosac & Naify nos idos de 2003 e certamente apenas encontrável em sebos, como eu encontrei o meu.

Bábel viveu entre 1894 e 1941. Morreu vítima de grande violência física durante o stalinismo, que o prendera em 1939. Este livro mostra o enorme talento de um escritor que escrevia perigosamente, considerando a época. Mas vamos antes a uma curiosidade.

Minha mulher é linda e russa e culta. E de origem judaica. Ela me disse que a impressão que Bábel causa é irreproduzível em outra língua, pois seus personagens judeus falam um russo muito primitivo, às vezes errado, utilizado por eles na época. Há muitas frases com expressões invertidas, provavelmente trazidas do ídiche e, quando alguém começa a falar desse jeito, sabe-se que é um judeu. Até hoje, quando os judeus russos se auto-ironizam — prática mais do que comum –, o estereótipo cômico é o de fazer inversões, entonações e inserções indiscriminadas de “então”, “pois”, “daí”, etc. Além do mais, o povo da revolução não era lá muito alfabetizado e Bábel deliciava-se reproduzindo seus erros nos diálogos. Ou seja, nem os russos de Bábel falavam corretamente. Os judeus falavam, por exemplo: “O que você quer o quê?”. Elena diz que eles começavam com uma pergunta e a repetiam no final… Então, ela acha que traduzir Bábel… Bem, o português utilizado nesta tradução é sempre perfeito. Mas Maria é uma peça de teatro cheia de judeus…

Ela diz que só a revolução culturalizou todo mundo, unificando o russo e tornando este modo de falar algo típico do passado. Quando estava muito irritada, sua avó, professora de alemão, também falava como os personagens de Bábel.

Um amigo de minha mulher, Yakov Soloveichik, filólogo e poeta, deu uma bela contribuição:

Penso que existem vários aspectos.

1. Para os judeus, a língua russa era estrangeira. A língua nativa era o iídiche. Falando em russo, eles apenas colocavam palavras russas nas frases que costumavam usar. É claro que seu russo era errado. Então, um certo estilo foi desenvolvido.

2. Odessa é uma cidade portuária. Em cada porto havia um jargão – uma grande quantidade de palavras emprestadas de uma variedade de línguas dos marinheiros visitantes.  Por sinal, no mar Mediterrâneo nos séculos 16-19, também houve um idioma falado apenas nos portos do Mediterrâneo – na Itália, Grécia, Israel, Espanha, Argélia, Marrocos, etc. Este idioma era uma língua franca que incluía elementos de todas as línguas mediterrâneas. As pessoas não eram muito alfabetizadas e, portanto, todas as palavras estrangeiras eram altamente distorcidas. Os portadores desta língua eram marinheiros e prostitutas portuárias, que vagavam de um porto para outro. A mesma coisa aconteceu em Odessa.

3. E o último – uma espécie de humor judaico, que está presente em todas as frases.
Das “Histórias de Odessa”:
Benya Creek conta a Froim Hrach:
– Froym, resolvi o seu problema.
– Como você decidiu, Benya?”
– Eu decidi que não era um problema.

E, bem, há duas vertentes de tradução. Uma que tenta a complicada tarefa de tentar reproduzir o original com seus erros e sonoridade em outra língua, e outra que apenas verte o conteúdo, opção tomada pelo tradutores deste livro.

Os contos deste volume são fruto da passagem de Bábel pelo Exército Vermelho, lutando ao lado de cossacos, contra os poloneses, entre 1920 e 1921. Já a peça Maria foca na miséria dos primeiros anos pós-revolucionários.

O belíssimo História do Meu Pombal versa sobre a vida de uma criança judia de Odessa, mostrando o anti-semitismo ucraniano. O menino não apenas precisa vencer o preconceito e a perseguição dos professores na escola — havia uma lei que ditava que, para cada 20 alunos matriculados na escola, apenas um podia ser judeu e isto gerava uma grande disputa no exame de admissão — mas ainda há os pogroms (pilhagens e assassinatos de judeus, realizados sob a aprovação das autoridades).

Em outra história, vemos a incapacidade do narrador de dar o tiro de misericórdia em um de seus colegas mortalmente ferido. Em outra, comprovamos como uma demonstração de violência dá autoridade a alguém. São contos excelentes.

A peça Maria — assim como o primeiro conto do livro Mamãe, Rimma e Alla — trata da decadência de uma família durante a Revolução. Os sobreviventes são obrigados a dispor de tudo o que tem, inclusive da filha. Filha de um general, Liudmila antes costumava frequentar a corte, mas agora tenta sobreviver seduzindo um judeu oportunista, três estropiados de guerra e um ex-príncipe que toca violino para trabalhadores. A outra filha, Maria, é a favorita do velho e encarna a salvação. Todos a esperam. Só que ela está ocupada, servindo ao Exército Vermelho. Os que ficaram apenas a esperam, sobrevivendo de migalhas.

Claro que, publicada em 1935, a peça nunca foi encenada. Quatro anos depois, Bábel perseguido pelo stalinismo. Preso em 1939, Bábel morreu dois anos depois. Durante uma transferência de presos, feita durante o inverno e a pé de uma cidade para outra, ele caiu de fraqueza. Foi deixado para morrer na estrada.

Isaac Babel

Isaac Babel

 Livro comprado na Ladeira Livros.

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O louco no espelho, de Lúcio Humberto Saretta

O louco o espelho SarettaEste é um bom livro de crônicas sobre futebol e boxe — muito mais sobre futebol –, misturados com música e cerveja. Na verdade, Saretta nem fala muito de cerveja, mas dá vontade de ler O louco no espelho bebendo geladas num bar e, bem, eu li o livro dentro de um avião. Pena, porque tudo parece uma longa e agradável conversa. O cronista deriva de um assunto para outro até dentro de um mesmo texto, o que reforça o tom de conversação. As crônicas não estão ordenadas por temas nem cronologicamente, outro mérito do livro.

Saretta parece saber tudo de futebol, podendo escrever tanto sobre o artilheiro do Vasco da Gama nos anos 20 quanto sobre fatos mais recentes como a sequência de técnicos gaúchos na Seleção Brasileira. Para quem gosta do esporte e até para quem não gosta, vale muito a pena a leitura. Um fato que chama atenção no livro é o de o autor apresentar vários argumentos contrários ao boxe como esporte, mas sucumbir cabalmente ao fascínio daquele espetáculo. “Meu trabalho é machucar as pessoas”, diz o grande Sugar Ray Robinson, citado por Saretta.

O autor fala dos grandes, mas seus melhores textos são sobre os fracassados, viciados, bêbados, esquecidos, doentes ou azarados. A maioria dos textos são sobre coisas que não funcionaram. Heleno de Freitas, Jake LaMotta e Syd Barrett surgem como as grandes figuras que efetivamente foram nos textos de O louco no espelho.

Apesar da última observação, trata-se de um livro extremamente agradável e fluido, ideal para as férias. Eu curti e recomendo.

Lúcio Humberto Saretta aguardando para autografar alguma coisa

Lúcio Humberto Saretta aguardando para autografar outros de seus livros

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Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi

022148Quando finalmente os espanhóis conseguiram desembarcar nos Açores, em 1581, a invasão foi rapidamente rechaçada. Os açorianos aguardaram o exército espanhol sair dos navios e lhes lançaram manadas de touros enfurecidos morro abaixo, o que matou boa parte dos homens, fazendo o restante voltar às pressas e borrados para os navios. Até aqui, nada demais além dos touros, é claro. Mas só até aqui, quando lhes direi que, entre os que se salvaram, estavam Miguel de Cervantes e Lope de Vega, que recordou aquela ‘selvageria’ em seus poemas.

Antonio Tabucchi, em Mulher de Porto Pim (adaptado)

Este é um livrinho lá dos anos 80 escrito por Antonio Tabucchi, o escritor italiano mais português que já existiu. Apaixonado por Portugal, por Pessoa, Antero, pela cidade de Lisboa e que tais; tradutor de literatura portuguesa para o italiano, autor de vários e deliciosos pequenos livros — verdadeiros azulejos portugueses plenos de arte e poesia, formando um belíssimo mosaico –, Tabucchi escreveu seus últimos livros direto em português, pois não fazia mais sentido escrever em italiano. Teve também o bom gosto de casar-se com uma portuguesa. (Ah, as lisboetas!).

Neste Mulher de Porto Pim, sua lusofonia chegou ao ponto de levá-lo ao arquipélago de Açores a fim de lá pesquisar ficções, provavelmente do gênero baleeiro. Deu mais ou menos certo. O fato é que Tabucchi acabou foi fazendo uma bela crônica de suas andanças pelas ilhas e escreveu um conto bastante bom — Mulher de Porto Pim. Tudo isso entremeado de notícias históricas das ilhas.

É um livrinho delicioso de menos de 100 páginas. Como não amar Açores? No século XIX, principalmente à noite, os navegantes costumavam bater nas ilhas rochosas e naufragar. Então, os açorianos recolhiam os restos dos navios, pegavam suas proas por inteiro, cortavam-nas e construíam suas casas com elas. Explico: as casas eram triangulares, duas paredes eram a proa original e a terceira era a pedra do morro onde a proa era encostada. As janelas eram escotilhas e tudo, mas tudo lembrava o navio de onde fora retirada a casa. Dois viajantes ingleses que estiveram nas ilhas em 1839 ficaram atônitos com a beleza de algumas casas. Tudo — lanternas, assentos, mesas e até camas — quase tudo tinha sido retirado do mar. E as proas estavam lá enormes, pintadas de cores variadas…

Claro que o povo vive da pesca de baleias e todos os peixes e de seus rebanhos. Devia ser o máximo morar em uma proa…

Bem, eu curti muito a crônica de Tabucchi. Recomendo!

Tabucchi em algum lugar lusófono

Tabucchi em algum local lusófono

 Livro comprado na Ladeira Livros.

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As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez

As coisas que perdemos no fogoAs coisas que perdemos no fogo entrou para a lista de melhores livros de 2017 do Sul21. Dizem alguns amigos que a literatura argentina é, disparada, a melhor do mundo. E isso aconteceria há várias décadas.

Pois bem, este livro de Mariana é um exemplo que dá força a tal afirmativa. As coisas não é um livro de peso filosófico e muito menos erudito. Trata-se de contos magnificamente bem escritos (traduzidos por José Geraldo Couto) que oscilam entre a crítica social e o puro terror a la Stephen King. E é originalíssimo. E um belo exemplo de que a literatura popular também deve ser boa.

São doze contos, alguns realmente espetaculares. Outros têm o mérito de mostrar o mais desbragado terror misturado à realidade contemporânea da América Latina. Mariana Enriquez foi uma adolescente “leitora de Stephen King, das irmãs Brontë, de Ray Bradbury e de escritores de terror avulsos, surripiados entre nas livrarias de livros usados – além das histórias de fantasmas contadas pela avó, cheias de religiosidade misturada com superstições e criaturas assustadoras“. Não há melhor descrição para o que lemos. Apenas acrescentaria que os personagens vivem realidades muito próximas da nossa aqui no Brasil, o que torna tudo muito familiar, apesar do humor tipicamente platino.

O livro abre com o melhor conto do volume, O Menino Sujo, onde se tem um leque de temas bem construídos. A incapacidade para ajudar, a pobreza, um país sem direção, um auto-retrato da autora — ela mesma sub-editora do Página/12 e que se acha muito provocadora, bacana e rebelde, quando é apenas impotente.

A qualidade não cai. Em Teia de Aranha temos um retrato de macho realmente repugnante, Pablito clavó um clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo é absolutamente assustador, Sob a Água Negra traz uma juíza visitando uma favela e As coisas que perdemos no fogo é surreal. Todos são arrebatadores.

Como disse, o ambiente é 100% latino-americano. Há a nossa noção difusa de moral, as pessoas que se preocupam com os pobres batem de cabeça nas mais incríveis impossibilidades, a pobreza faz tudo para isolar-se e todos parecem estar (e viver como) loucos. Neste livro não há nenhum final feliz e quando não estamos falando de nosso continente, ouvimos a banda tocar a marcha do macabro, do bizarro e do apavorante.

Um livro sombrio, contemporâneo e muito, muito bom.

Recomendo.

Mariana Enriquez

Mariana Enriquez

Livro comprado na Bamboletras.

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O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret AtwoodNa área das distopias, creio que este foi o melhor romance que li. Não é pouca coisa. Para não irritar os admiradores de clássicos como 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Nós e outros, não pretendo entrar em comparações, apenas elogiarei o livro de Atwood.

É curioso. Assisti Margaret Atwood palestrar em uma Flip lá por 2004 ou 2005. Achei-a muito fraca e desisti de lê-la. A única coisa que lembro de sua palestra foi o fato de ela ter reclamado de seu agente literário, que lhe obrigava a uma rotina de festivais que nem sempre eram em locais com a paisagem e o ambiente de Paraty. Ela apontou o dedo para o sujeito e disse que pretendia se rebelar. Ela falava muito sério, pouca gente riu da irritada intervenção.

Rebelar-se é praticamente impossível na república teocrática e totalitária de Gilead. O livro é de 1985, mas recentemente voltou à moda, impulsionado pela eleição de Donald Trump e pela, dizem, excelente série televisiva homônima, The Handmaid’s Tale. E, como é um livro que trata basicamente de mulheres que são divididas em categorias, Atwood têm sido muito entrevistada e… Bem, tem decepcionado algumas de suas mais ardentes admiradoras que hoje participam do #MeToo não por defender abusos, mas a presunção da inocência dos acusados. É uma democrata clássica, alguém de moralidade e ética à antiga.

Mas vamos lá, sempre sem spoilers. Nas primeiras 150 páginas, o leitor não entende plenamente o funcionamento de Gilead. Atwood mostra-se uma mestra em jogar informações que vão nos deixando curiosos. Nem se importa de criar um conflito. Até que faz um balanço na página 173. Sim, um balanço.

As mulheres de Gilead são divididas em categorias, cada qual com uma função de Estado muito específica. Offred é uma Aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar depois que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas. As Aias são as mulheres não estéreis, que ainda podem engravidar. São úteros de duas pernas, receptáculos sagrados.

Elas são entregues a um Comandante que é casado com uma Esposa (outra categoria). Tais casais fazem parte de um escalão superior de governo. As Aias são obrigadas a fazerem sexo periodicamente com os Comandantes, sob o olhar de suas Esposas, até engravidarem. Depois de darem à luz, elas amamentam a criança por alguns meses. Ela e a criança são propriedade do casal. Elas têm nomes como Offred, que significa “of Fred” (“de Fred”) ou “pertencente ao homem chamado Fred”. Assim, ao longo da vida, uma aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwarren…

Após a bela introdução, a história toma direção e força assustadoras, mesmo que Atwood recorra a flashbacks. O livro é triste e atualíssimo, obrigando-nos a pensamentos pouco ortodoxos sobre liberdade, direitos, sanidade, poder, abuso e fragilidade.

Lê-lo é para quem tem estômago forte. O livro é violento, desconfortável, perturba mesmo. Publicado em 1985, o romance tem um pé na Revolução Islâmica de 1979, que transformou o Irã em uma república islâmica teocrática, e outro pé na Argentina, no roubo de bebês de presos políticos por parte de militares. Sem ser panfletário nem de leitura leve, O Conto da Aia é uma distopia que, anos depois de seu lançamento, voltou a ser lida e, certa ou erradamente, assimilada por uma nova geração de leitores.

Recomendo fortemente.

Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar...

Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar…

Livro comprado na Bamboletras.

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Laços, de Domenico Starnone

Laços D StarnoneUm tremendo livro que figurou entre os dez melhores do ano passado no Guia21. Que grande final! Na vida real, o autor Domenico Starnone é o marido de Anita Raja, a tradutora que estaria por trás do pseudônimo Elena Ferrante. Outros dizem, em hipótese mais inverossímil, que ele seria Elena Ferrante… Bem, se uma autora ou autor deseja permanecer anônimo, devemos respeitar tal opção, penso. E meu objetivo aqui é outro: é o de comentar rapidamente o excelente romance que é Laços.

Aldo e Vanda formam uma família convencional com seus dois filhos Sandro e Anna. Ele é professor e dramaturgo, ela é dona de casa. O livro é narrado em primeira pessoa por três vozes, as de Vanda, Aldo e Anna. O personagem principal é Aldo, o homem que abandona Vanda e a família por uma mulher mais jovem, Lidia. As consequências disso são analisadas em detalhe por Starnone, dentro de um romance sintético, de linguagem ágil e paradoxalmente densa. Não estarei dando um spoiler ao dizer que o casal se reconcilia logo no início do romance, após um hiato de anos. O que interessa aqui é o processo e vou passar longe do que há para se descobrir apenas nas duas últimas páginas. Tem toda a razão o crítico e escritor Carlos André Moreira ao dizer que a reconciliação de ambos é uma paródia rançosa. Que durará décadas. Na reconciliação, ensina Aldo, é preciso dizer “bem menos do que calamos”. Pelo visto no romance, muitíssimo menos. O adultério cometido por Aldo é bastante comum, banal, mas a narrativa do desmoronamento é envolvente. Ao fundo, há certeza de que a felicidade é frágil e de que os laços, esses são bem mais fortes.

Cada mudança de voz narrativa funciona como um furacão. Boa parte do que está organizado e coerente numa voz é desmanchado pela próxima. E a entrada em cena da voz da filha vem com o poder de uma muito eficiente máquina de demolição.

É claro que muita gente está fazendo comparações entre Laços e Dias de Abandono, de Ferrante. Mas vamos deixar pra lá.

Quando você comprar este romance da editora Todavia, procure esquecer o mau prefácio de Jhumpa Lahiri. Talvez seja melhor pulá-lo de vez. Já a tradução de Maurício Santana Dias é ótima.

Recomendo fortemente!

Elena Ferrante... Não, espera, Domenico Starnone.

Elena Ferrante… Não, espera, Domenico Starnone.

Livro comprado na Bamboletras.

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O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (nova tradução de Irineu Franco Perpetuo)

O Mestre e MargaridaComo também aconteceu com o Ulysses de Joyce, este é o terceiro O Mestre e Margarida que leio. Ambos os livros têm três traduções no Brasil — na verdade, O Mestre tem quatro, mas uma é do inglês.

A primeira leitura foi feita em uma edição da Ars Poetica com tradução direta do russo por Konstantin G. Asryantz, Eu não indico, pois achei o texto truncado, nada fluido. Se não me engano, era uma edição de 1992 (não possuo mais o exemplar).

A segunda, igualmente do russo, era de Zoia Prestes e saiu pela Alfaguara em 2009. Já era bem melhor, mais ainda não de todo satisfatória.

Esta terceira tradução, de Irineu Franco Perpétuo (Editora 34) é excelente, sem dúvida, a melhor de todas. Porém, ainda houve outra tradução que desconheço, feita a partir do inglês. Ela foi publicada em 1975, pela Nova Fronteira, e em 1985, pela Abril Cultural. É de Mário Salviano Silva.

Importante informar que o texto utilizado por Irineu foi aquele estabelecido pela mais recente edição crítica russa. Acontece que Bulgákov jamais publicou seu livro em vida, tendo deixado várias versões dele. Os atuais estudos buscaram chegar o mais próximo possível do que seria o desejo do escritor.

Abaixo, republico um artigo que escrevi recentemente para o Guia21 a respeito de Bulgákov e sua obra-prima, quando dos cem anos da Revolução Russa, mas eu já tinha publicado outro artigo aqui no blog em minha antologia pessoal de 50 maiores livros.

Foi muito prazeroso percorrer as 408 páginas da nova edição. São 32 capítulos e um epílogo. 28 deles e mais o epílogo se passam basicamente em Moscou e 4 em Jerusalém — consistindo no fragmento do romance do Mestre. Então, vamos ao texto que não seria possível sem o auxílio de minha Elena Romanov.

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Stálin tinha real interesse por arte, costumando ir a concertos, óperas e peças de teatro. Foi ele, pessoalmente, quem assistiu, reprovou e fez proibir uma ópera de Shostakovich, por exemplo. Também assistiu quinze vezes — não é exagero — à peça Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov. Simplesmente adorou. Stálin também costumava telefonar de madrugada para assessores e outras pessoas quaisquer com quem tivesse assuntos a tratar. Sofria de insônia e, com sua fama, é claro que assustava quem recebia as ligações. Telefonou uma vez para Bulgákov após este lhe enviar quase uma centena de cartas pedindo permissão para emigrar. A lenda diz que foram várias ligações, mas uma aconteceu com certeza.

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O conteúdo desta ligação é bem conhecido. Bulgákov ficou com medo e teve receio de insistir quando Stálin disse que preferia que ele permanecesse na URSS. O líder prometeu-lhe um emprego em um teatro, o que acabou acontecendo. Assim ele encontrou trabalho no Teatro da Juventude de Trabalho de Moscou (TRAM), e depois no Teatro de Arte de Moscou. Neste século, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma peça que começa com o famoso telefonema de Stálin para Bulgákov, chamada Cartas de Amor para Stálin.

Anos depois da conhecida ligação, Bulgákov tentou se tornar um escritor “soviético”, dento dos padrões do realismo socialista. Em 1939, ele começou a trabalhar em uma peça laudatória ao líder. Mas Stálin, ao ler os esboços, parece não ter ficado satisfeito e, sem falar com o autor, indiretamente proibiu Bulgákov de terminá-la, não permitindo o acesso do escritor e de sua esposa aos arquivos em Batumi, cidade georgeana onde Stálin iniciou sua vida política. A peça era cheia de clichês socialistas, nada era vivo. E o Secretário-Geral sabia como Bulgákov podia escrever.

Nós também. Bulgákov morreu em 1940 e sua maior obra, O Mestre e Margarida, veio a público somente em 1966-67. Ou seja, ela permaneceu desconhecida de seus contemporâneos. Mas ele já tinha publicado peças de teatro e outras obras em prosa, como as extraordinárias novelas Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro. Sua arte é de absoluto virtuosismo. Se o campo onde se sente melhor é o da sátira corrosiva, ele também sabia descrever cenários bíblicos, como fez em partes de O Mestre.

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Mikhail Bulgákov (1891-1940) nasceu em Kiev, na Ucrânia, que era então parte do Império Russo. Ele foi o primeiro filho de Afanasiy Bulgákov, professor da Academia Teológica de Kiev. Seus avôs eram clérigos da Igreja Ortodoxa Russa. No início da Primeira Guerra Mundial, voluntário na Cruz Vermelha, foi imediatamente enviado para o front, onde foi gravemente ferido em duas ocasiões. Em 1916, formou-se médico na Universidade de Kiev e depois, junto com seus irmãos, alistou-se no Exército Branco.

Após a Guerra Civil, com a derrota dos brancos e a ascensão do poder dos soviéticos, sua família emigrou para o exílio em Paris.  Apesar de sua situação relativamente privilegiada durante os primeiros anos da Revolução, Bulgákov viu-se impedido de emigrar da Rússia devido a um insistente tifo. Nunca mais viu sua família.

As lesões da guerra tiveram graves efeitos sobre sua saúde. Para aliviar sua dor crônica, especialmente no abdômen, foi-lhe administrada morfina. Ficou viciado, mas parou de injetá-la em 1918. O livro Morfina, publicado em 1926, atesta a situação do escritor durante esses anos. Em 1919, ele decidiu trocar a medicina pela literatura.

Elena Shílovskaya

Elena Shilovskaya

Em 1932, Bulgákov casou-se com Elena Shilovskaya, que seria a inspiração do personagem Margarida de sua novela mais famosa. Durante a última década de sua vida, Bulgákov trabalhou em O Mestre e Margarida, além de escrever peças, fazer revisões, traduções e dramatizações de romances. Alguns foram para o palco, outros não foram publicados e ainda outros foram destruídos.

20171021-tenorPara quem hoje lê Bulgákov, o fato do escritor não apoiar o regime comunista é apenas uma informação complementar. O que interessa é que ele foi o mais brilhante dos gozadores, dos zombeteiros. O autor ria da burocracia e dos governantes. Porém, como dissemos acima, Stálin adorava de uma de suas peças. Não obstante o amor do chefe, o escritor suportou grande assédio da NKVD, que chegou a procurá-lo em casa e prendeu-o em mais de uma ocasião.

Muitas evidências sobreviveram sobre a atitude do escritor em relação ao poder soviético na década de 1920.  Entre eles há artigos na imprensa branca e materiais de interrogatórios. Porém, curiosamente, os brancos o criticavam por ser pró-revolução e os revolucionários pelo motivo contrário. Para os comunistas, sua arte era um “brancovanguardismo” e ele seria um “reacionário social”; para os brancos, ele seria apenas um vendido. É curiosa a posição de admiração de Stálin, apesar da polêmica. Muitos escritores que não apoiaram a liderança de Stálin foram presos. Bulgákov não.

Bulgákov morreu de um problema renal em 1940, aos 49 anos.

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Korovin com seu monóculo quebrado

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Koroviev com seu monóculo quebrado

Em vida, Bulgákov ficou conhecido principalmente pelas obras com as quais contribuiu para o Teatro de Arte de Moscou de Konstantín Stanislavski. Foram muitas comédias e adaptações de romances para o teatro, casos, por exemplo, de Dom Quixote e Almas Mortas. Bulgákov também escreveu uma comédia grotesca fazendo com que Ivan, o Terrível, aparecesse em Moscou na década de trinta. Um sucesso.

20171020-um-coracao-de-cachorro-e-outras-novelas-mikhail-a-bulgakovEm meados de 1920, Bulgákov conheceu os livros de H.G. Wells e, profundamente influenciado, escreveu várias histórias com elementos de ficção científica. Um exemplo é a extraordinária novela Um Coração de Cachorro, onde Bulgákov critica abertamente — e com impressionante cinismo e ironia — a primeira década do poder soviético. Outro é a hilariante Os Ovos Fatais.

Morfina merece menção especial. Trata-se do diário de um companheiro do protagonista, o médico Poliakov. É uma crônica da autodestruição, escrita em termos perturbadores. Ele escreve no início do livro: “Eu não posso ajudar a louvar quem primeiro extraiu a morfina das cabeças das papoulas”. No mais, é uma história clínica escrita por um mestre. “Como viciado, eu declararia que o ser humano só pode funcionar normalmente após uma injeção de morfina, mas eu era médico”.

A grande obra-prima

A novela satírica O Mestre e Margarida, escrita para a gaveta, sem chances ou tentativas de publicação durante sua vida e que foi publicada por sua esposa vinte e seis anos após a morte do escritor, certamente lhe garante a imortalidade literária. Por muitos anos, o livro só pôde ser obtido na União Soviética como samizdat, antes de sua aparição por capítulos na revista Moskva. É o grande romance do período soviético e que contribuiu para criar várias expressões do dia a dia russo. É que um manuscrito do Mestre, destruído, constitui um elemento importante da trama e, de fato, Bulgákov teve que reescrever o romance após ter queimado o próprio manuscrito.

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Sabem aqueles livros que valem por cada palavra? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida pelo reflexo da obra não somente na cultura russa, mas na mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a letra da canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita logo após Mick Jagger ter lido o livro, assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou. Mas nem só a literatura e o rock homenageiam Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

O romance começou a ser escrito em 1928. Em 1930, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra novela de sua autoria. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte. Na época, apenas sua mulher sabia da existência do romance.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova edição — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor.

Uma amiga russa me escreve por e-mail: “Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland ‘Manuscritos não ardem’ é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é ‘Ánnuchka já derramou o óleo’, para dizer que o cenário de uma tragédia está montado”.

As cenas de Pôncio Pilatos, a do teatro, a do belíssimo voo de Margarida e a do baile são citadas aqui e ali com enorme admiração. E a fama é justa.

A ação do romance ocorre em duas frentes, alternadamente: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia espetacularmente. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista. Em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Koroviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua.

Arte: Elena Martynyuk

Arte: Elena Martynyuk

Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam por apartamentos e férias melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que formam uma atordoante série de cenas hilariantes.

Naquela Moscou o diabo está em casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram notável criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde sempre à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas a base de criação de Bulgákov é outro cômico ucraniano: Gógol.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira à Rússia soviética ou como crítica à superficialidade das pessoas. Há mais pontos bem característicos: Bulgákov jamais demonstra nostalgia da Rússia czarista — apenas da religião — e Woland não está em oposição direta a Deus. Ele é como um ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas. E as punições de Woland são criativas, desconcertantes.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista.

Mikhail e sua Margarida

Mikhail e sua Margarida

Nas imagens finais de O Mestre, Mikhail Bulgákov dá uma dura avaliação do mundo que encontrou. Ele seria infernal e sem esperança. Era óbvio que as tentativas de se tornar parte do mundo soviético falharam. Ele não entendia aquele novo idioma.

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 298 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgákov, com sua esposa Elena Shilovskaya

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgákov, com sua esposa Elena Shilovskaya

(*) Com pesquisa de Elena Romanov

Livro comprado na Bamboletras.

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A noite da espera, de Milton Hatoum

A noite da espera, de Milton HatoumFoi um choque iniciar e leitura de A noite da espera logo após ler Oblómov. Foi como cair num pântano após quilômetros de caminhada tranquila. O livro simplesmente não me envolveu e eu esperava muito dele. Imaginem que cheguei a dá-lo de presente a um amigo, na certeza de que era um excelente romance. Não é. E tinha tudo para eu gostar: era um romance escrito por um grande autor sobre a geração que esteve na universidade durante a ditadura militar nos anos 70, a minha geração. Tive vontade de abandoná-lo, mas fui até o fim. Logo de cara vê-se uma estrutura frouxa, como um tênis desamarrado. Fiquei esperando por alguma virada, mas nada aconteceu. Não tem boa trama, o conflito é contra algo que não se vê e que não parece perigoso ou incompreensível, o cenário é pintado com superficialidade, enfim, dá vontade de largar. O protagonista e narrador da história é desinteressante. Burro, até diria. Perdido na cidade, mudando de moradia a toda hora e, incrivelmente, refletindo pouco sobre os fatos de sua vida — a separação dos pais, o sumiço da mãe, o pai entusiasmado com a “revolução” dos milicos, os amores — Martim vê tudo passar sem intervir e, pior, sem refletir muito. O livro vai ficando cada vez mais difícil de entender em razão de sua superficialidade e péssima construção. Eu, como leitor, tive que anotar o nome dos personagens e como eles se relacionam, pois todos falam e agem igualmente, sem a menor distinção. São chatos nos dois sentidos. Todos dizem insignificâncias. A política também não é muito tocada. Só se sabe que há censura, perigo e corrupção. Bem, não é uma novidade. E onde ficou a trama, o romance, a tensão, a reflexão, a humanidade? Oblómov tinha setecentas páginas e este romance tem duzentas e poucas, só que muito mais longas. Um saco.

Não recomendo. E, digo-lhes, meus sete leitores, este é o primeiro volume de uma trilogia… Tô fora.

Livro comprado na Bamboletras.

Mídia promocional do programa Impressões do Brasil (TV Brasil)

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXII – Oblómov, de Ivan Gontcharóv

Oblómov

Ivan Gontcharóv viveu uma longa vida para alguém do século XIX. Nasceu em 1812 e morreu em 1891, aos 79 anos. Passou longos anos como aposentado — desde 1867 –, dizem que sempre reclamando da vida. Publicou apenas quatro livros, sendo três romances. Ele considerava o último, O Precipício, o melhor. Peço desculpas, Ivan, mas é difícil acreditar que seja melhor que este célebre Oblómov. Valeu muito a pena enfrentar suas mais de setecentas páginas.

(Aqui, os outros livros desta série.)

Oblómov é a história de um indolente e apático latifundiário russo. Ele passa seus dias admirando o teto, embora seus muitos e graves problemas, principalmente os relativos a sua fazenda, que cada vez mais gera menos benefícios e onde é claramente roubado por seu administrador e servos. Mas a mera ideia de deixar sua poltrona ou cama causa-lhe desconforto. Então, ele deixa a inércia guiar sua vida.

Iliá Illich Oblómov é o personagem principal de um épico, trata-se de um Ulisses de roupão, desprovido de vontade. Não age, optando por ficar imóvel, na contracorrente dos eventos. Quando deita no sofá, sente-se protegido de todo estresse, da grosseria e da confusão que rege as ações humanas. Porém, sua atividade mental é grande. Não nasceu para ser um gladiador na arena, mas um pacífico espectador. No fundo era uma alma boa, pura — como tantas vezes sublinha Gontcharóv — e preguiçosa.

Na primeira parte do livro, vemos o personagem principal receber amigos em seu quarto. Os rápidos e vivos diálogos nos enganam: parece que estamos diante de um romance cômico, tal é a galeria de visitantes. A prosa de Gontcharóv é leve. Seu criado Zakhar — também preguiçoso, muito atrapalhado e burro — é uma criação hilária, digna da alta comédia. Essas esplêndidas 200 páginas iniciais são finalizadas com uma visita do amigo de infância Stolz e com o sonho de Oblómov. O sonho é uma longa e famosa passagem, escrita dez anos antes da publicação do romance, que ocorreu em 1859.

Zakhar e Oblómov

Zakhar e Oblómov: já já alguma coisa vai cair no chão…

Neste capítulo IX, o do sonho, o autor fala poética e debochadamente sobre como se formou a visão de mundo de Oblómov e seus ideais de vida. Podemos resumi-lo assim: Iliá Iliich adormeceu e sua infância distante vem até ele. Ele está de volta à propriedade dos pais, na aldeia de Oblomovka. A aldeia era mais ou menos isolada, a cidade mais próxima ficava a cerca de vinte quilômetros de distância e os Oblómov não faziam muita questão de facilitar o acesso à cidade, pois eram avessos a mudar sua vida e ainda mais ao progresso. Durante séculos viviam ali, presos a uma ordem patriarcal, cheios de histórias malucas e crendices, levando a sério cada “sinal”. A vida fluía com tranquilidade e tudo era deixado para depois. Os camponeses viviam despreocupados, não se esforçando por nada, não conheciam ou queriam outra vida.

O dono da propriedade, Oblómov pai, era igualmente preguiçoso e apático. Todos se espantavam pelo fato de um telhado não cair, mas na véspera tinham se admirado por ele se aguentar suspenso por tanto tempo sem manutenção. O pai nunca pensava em conferir o cereal produzido e vendido, nem em cobrar explicações por alguma negligência na fazenda, mas, se demorassem a trazer seu lenço de nariz, fazia uma gritaria. Todos os interesses da família eram as refeições e um bom sono nas pausas. É arrebatadora a cena em que as mulheres fazem tricô e riem, enquanto os homens olham pela janela. Neste interminável far niente, o objetivo era não se incomodar. Os pais não atribuíam grande importância à educação e Oblómov era relutante em ir à escola. Seu amigo mais próximo, o citado Andrei Stoltz, filho do professor da aldeia, ajudava-o a fazer suas lições de casa.

Oblómov no elogiado filme homônimo de Nikita Mikhalkov

Oblómov no elogiado filme homônimo de Nikita Mikhalkov

O “Sonho de Oblomov ” parece uma descrição irônica do Paraíso na Terra, do País da Cocanha. O autor ridiculariza implacavelmente o modo de vida satisfeito e inativo da maioria dos proprietários desta época. O texto caracteriza o estilo de vida do adulto Iliá Ilitch Oblómov, apenas o local muda.

Como dissemos antes, o sonho foi escrito e publicado numa revista em 1849, dez anos antes de surgir Oblómov. Ele foi a gênese do romance. Só que Gontcharóv ficou muito chateado de os leitores tirarem conclusões de todo trabalho a partir apenas de sua extraordinária primeira parte. Gontcharóv chegou a alertar Tolstói: “Não leia a primeira parte de Oblomóv, leia o resto. Isso de 1849 não é bom”. Impossível concordar, Ivan. A primeira parte é espetacular, viva, engraçada, tendo como destaques não apenas o sonho como a relação do personagem principal com o mundo e com seu criado Zakhar, espécie de reflexo do patrão.

Pieter Bruegel, o Velho – O País da Cocanha

Pieter Bruegel, o Velho – O País da Cocanha (1567)

Nesta primeira parte, o livro pode ser considerado uma sátira à nobreza russa, cuja função econômica e social era cada vez mais discutida na Rússia, em meados do século XIX. O romance tornou-se imediatamente popular quando foi lançado e alguns de seus personagens e ações tiveram influência sobre a cultura e a linguagem russas. “Oblomovismo” tornou-se uma palavra usada para descrever alguém que exibe os traços de personalidade de preguiça ou inércia semelhantes aos do personagem principal do romance.

Ao final da primeira parte, entra em cena Stolz. Ele, homem prático e de resultados, procura repetidamente mudar seu amigo Iliá. O próprio admite seus problemas e tenta superar sua apatia. Faz reavaliações, mas o processo é sempre complicado, cheio de objeções. Em suas poucas horas vagas, Stolz ajuda Oblómov a consertar seus graves problemas financeiros, enquanto Tarantiev — outro amigo de Oblomovka — busca roubá-lo.

Graças ao amigo Stoltz, Oblómov conhece Olga, uma jovem por quem se apaixona. Então, vive um despertar. Ela exige que ele resolva os assuntos de sua propriedade, que ele esteja atualizado com o que está acontecendo no mundo, só que isso é demais. Não, não vou contar a boa história do amor entre ambos, apenas alguns detalhes “externos”.

Stolz contou para Olga da inteligência e do potencial do amigo. Eles se conheceram e as apaixonaram. Olga, muito mais madura, começa a planejar sua vida com Oblómov. É ela quem conduz o casal. Mas Oblómov, cheio de indecisões, oferece resistência passiva quando se trata de dar passos significativos na direção do casamento. Olga decepciona-se ao perceber que não é motivo suficiente para arrancá-lo da letargia e que Oblómov se contenta com um amor platônico. Em cena altamente emocional e tensa, daquelas em que a gente come o livro para saber como o autor vai fazer para que Oblómov cumpra seu destino, Gontcharóv… Não, nada de spoilers.

Na imagem de Oblómov também há características autobiográficas. O autor admitia sua indolência pessoal. Amava a paz e o silêncio. Durante uma longa viagem de navio, passou a maior parte do tempo na cabine, deitado no sofá. Seu apelido era “Príncipe”.

Do filme de Mikhalkov

Do filme de Mikhalkov

O aparecimento do romance coincidiu com o tempo da crise mais aguda da servidão. A imagem de um senhor de terras apático e incompetente, que cresceu e foi criado em uma serena propriedade que vivia do trabalho pouco produtivo de servos, era muito relevante para seus contemporâneos. Dobrolyubov, em seu artigo “O que é o oblomovismo?”, agradeceu ao romance por dar uma visão clara do problema. A pessoa de Iliá Iliich Oblómov mostraria como o calmo ambiente da aristocracia russa e a falta de uma educação desfiguram a natureza do homem, engendrando um inútil.

O caminho de Oblómov é típico dos nobres russos do campo nas décadas de 1840 e 1870. Eles iam para a capital e tornavam-se funcionários públicos. Queixavam-se, faziam fofocas, escreviam petições, estabeleciam relações com os chefes. Oblómov cumpriu a mesma trajetória, mas demitiu-se. Não quis escalar na carreira, preferindo fazer planos em seu sofá, sem aspirações.

Gontcharov foi depreciado por várias gerações de escritores russos: Dostoiévski descreveu-o como “um funcionariozeco com olhos de peixe cozido a quem Deus (...) concedeu um talento brilhante” (Legenda copiada o Publico.pt)

Gontcharov foi depreciado por várias gerações de escritores russos: Dostoiévski descreveu-o como “um funcionariozeco com olhos de peixe cozido a quem Deus (…) concedeu um talento brilhante” (Legenda copiada do Publico.pt)

Gontcharóv escreveu sobre seu herói: “Eu tinha um ideal artístico inicial, era uma natureza gentil e honesta, que pensava em lutar o tempo todo, buscando a verdade, enganando-se e caindo em apatia e impotência; depois criei uma variação disso”. Oblómov faz e refaz planos, planeja apenas, agita-se sobre o sofá e adia mesmo a simples tarefa de escrever uma carta. É o rei da procrastinação. Sua alma é a de um poeta, pronto a fruir da beleza e se apaixonar. A percepção que tem da música o demonstra. Cada reunião com o amigo de infância Stolz tira-o da pasmaceira, mas não por muito tempo: a determinação de fazer algo dura sempre um curto período de tempo. No entanto, Stolz tem sua vida, não tem tempo suficiente para colocar Oblómov em outro caminho. Mas em qualquer sociedade há pessoas como Tarantiev, sempre prontas para roubar um trouxa desinteressado por seus negócios. São eles, Stolz e Tarantiev, que determinam os dois caminhos possíveis. Oblómov, contudo…

Publicado em 1859, o romance foi um evento público. Apareceu numa época de excitação social, alguns anos antes da reforma camponesa, e foi visto como um chamado para combater a estagnação da Rússia. Imediatamente após a publicação, o livro foi assunto de discussões em críticas de jornais e entre escritores. Muitos viram na imagem de Oblómov a compreensão filosófica do caráter nacional russo, bem como uma indicação da possibilidade de um caminho moral diferente, que se opusesse ao agitado “progresso” que consome a existência… O fato é que Gontcharóv fez uma descoberta artística. A publicação de Oblómov e seu enorme sucesso deram-lhe a fama de um dos mais destacados escritores russos de sua época.

O notável e paradoxal era que o fato de que autor trabalhou como censor do czarismo… Era necessário ganhar dinheiro de alguma forma e o funcionário público Gontcharóv foi discreto. Jamais tomou decisões muito conservadoras, apesar de odiar o “niilismo”, uma “doutrina miserável e dependente do materialismo, socialismo e comunismo”. Imagina-se que, por ele, possam ter passado obras de Dostoiévski e Tolstói, entre outros. Ou seja, estranhamente, ele trabalhava defendendo os princípios do governo após criar uma poderosa arma de discussão social que o fez, décadas depois, um ídolo da URSS. Seguiu censor até o final de 1867, quando se aposentou por vontade própria. Terminou sua vida em profunda depressão, acusando outros autores de roubarem suas ideias.

Oblómov é um tremendo livro. Não vou contar a história a partir da segunda parte para não atrapalhar a leitura de vocês. O romance é sempre interessante em suas 700 páginas, tendo momentos de alta tensão na quarta parte.

A má notícia é que, hoje, o livro virou raridade no Brasil. Com o fim da Cosac Naify, nenhuma editora herdou o calhamaço maravilhosamente bem traduzido por Rubens Figueiredo. Neste minuto, a Estante Virtual tem um exemplar da edição da Cosac: ele custa R$ 500. O Mercado Livre tem duas, uma a R$ 349 e outra a R$ 475. A Amazon também indica um “novo” por 660,00. Assim fica difícil.

Gontcharóv é o da esquerda. Com a mão na cabeça, parece desejar dormir. Como Oblómov.

Gontcharóv é o da esquerda. Com a mão na cabeça, parece desejar dormir. Como Oblómov. De braços cruzados, Tolstói.

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Balzac: o autor favorito de Marx chega ao século XXI

 Balzac: realismo e café

Balzac: realismo e café

A história do adjetivo balzaquiana – qualificativo para as mulheres que chegam aos 30 anos de idade – é no mínimo estranha e baseia-se num aparente equívoco. A leitura da Comédia Humana demonstra que as balzaquianas são exceção na obra de Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850). As mulheres mais utilizadas nos romances de Balzac são as jovenzinhas e as tias velhas, raramente as mulheres de 30 anos. O termo originou-se a a partir de apenas um livro de Balzac, A Mulher de 30 Anos. Trata-se de um de seus piores romances. O autor, que se caracterizou por criar um minucioso mundo de personagens que apareciam e reapareciam em vários romances em diferentes fases de suas vidas, que foi o construtor de todo um mundo que sob o grande guarda-chuva da Comédia Humana, o criador de personagens e tramas extremamente completos e complexos, escreveu, em A Mulher de 30 Anos, uma história frouxa, desarticulada e meio sem pé nem cabeça. Ruim mesmo. Balzac devia estar apressado e premido por dívidas, o que frequentemente lhe acontecia. Apesar disto, o título do pequeno livro inspirou os brasileiros a criarem o termo “balzaquiana”, que só existe em nosso país.

Na época de Balzac e mesmo depois, a idade de 30 anos era um turning point decisivo para as mulheres. Quando aproximavam-se do precipício da quarta década, elas ou estavam caindo fora do mercado casamenteiro para tornarem-se tias – tolerados fracassos sociais – ou, se estivessem vivendo casamentos infelizes, estariam perplexas ante o irremediável, como a personagem de Balzac.

A capa de um dos 17 volumes da edição original da Globo

A capa de um dos 17 volumes da edição original da Globo

No século XXI, os romances de Balzac seguem recebendo novas traduções e edições como talvez apenas Dostoiévski e Tolstói. Ao menos no Brasil, a “culpa” inicial possivelmente deva ser atribuída ao monumental trabalho realizado por Paulo Rónai nos anos 50, que fezo trabalho de organização, revisão, anotação, introdução e comentários dos romances de A Comédia Humana, publicada pela Editora Globo entre 1946 e 1955. São 17 alentados volumes com 88 romances. Dentre estes, memoráveis obras-primas e outros, como A Mulher de 30 anos, são “romances de mero divertimento, escritos às pressas para ganhar dinheiro”, como disse Otto Maria Carpeaux.

Eu adoro os inícios dos romances de Balzac. Eles começavam com uma calma e elegante apresentação dos personagens. O texto avançava e nos açambarcava, pois já trazia os conflitos grudados a cada um dos personagens como parasitas. Honoré de Balzac viveu apenas 51 anos e foi prolífico como poucos. É considerado o fundador do realismo na literatura moderna, mas é bem mais do que isso: é o autor clássico por excelência, um dos que solidificaram a popular forma do romance do século XIX. E ele conseguiu isto demonstrando sistematicamente como se fazer romances realistas realmente envolventes, grudentos. Como disse, o esquema é simples mas complicado de imitar. Uma apresentação dos personagens e do contexto social – Balzac era um gênio em fazer isso sem ser maçante, caracterizando cada um dos protagonistas com amor e ironia, sem deixar de fazer considerações sociológicas nada desprezíveis –, depois vinha a construção do conflito, o clímax e o desenlace. Obviamente, o esquema não é tão simplório e havia variações, além de aguda e surpreendente análise psicológica.

Marx e Engels: dois dos maiores admiradores do escritor

Marx e Engels: dois dos maiores admiradores do escritor

Mas ainda estamos no terreno das reduções, pois o imenso painel de Balzac oferecia uma visão tão completa da sociedade francesa que Karl Marx costumava declarar que A Comédia Humana tinha sido mais importante para a sua compreensão da sociedade francesa do que os muitos tratados de economia, história e filosofia lidos por ele. A mesma opinião era partilhada por Friedrich Engels, que afirmou ter aprendido com Balzac “mais do que aprendi com todos os historiadores, economistas e estatísticos profissionais do período”. O monumental romance As Ilusões Perdidas, que ocupa um volume inteiro da Comédia, inclui tem todas as características citadas. Seu realismo vai ao ponto de apresentar detalhes da contabilidade de Lucien de Rubempré. Ela é apresentada em números. Sua matéria-prima era a sociedade francesa e a “comédia humana” era encenada em suas instituições sociais.

Curiosamente, o criador de O Pai Goriot, Eugênia Grandet,  César BirotteauA Prima Bette, Esplendor e Miséria das Cortesãs e de pequenas joias como Pierrette, não era considerado um escritor talentoso. Seu realismo radical fez com que não apenas seus contemporâneos o considerassem um escritor menor, como se fosse um  documentarista dos costumes de uma época, cuja meta fosse a de expressar as modificações que ocorriam na sociedade francesa do século XIX, desde o período do Antigo Regime até o fortalecimento da burguesia.

Assim, Balzac discorria sobre temas que nunca antes haviam sido abordados em ficção, tais como a tensão entre as classes sociais na França, a economia, os meios de transporte, a recém-nascida profissão de jornalista, a vida nos cartórios, as concordatas, as práticas místicas como o espiritismo, a homossexualidade e a política num grau de detalhamento nunca antes visto, tudo dentro da forma do romance do século XIX.

Balzac, de Rodin

Balzac, de Rodin

Balzac construiu a Comédia Humana durante pouco mais de vinte anos. Morreu aos 51, após trabalhar incansavelmente por anos. Aliada à paixão pela literatura, havia a necessidade de pagar as dívidas que acumulava. Ele dormia pouco e era viciado em café, que consumia para manter-se acordado. A ideia de uma enorme série de livros que retratariam “todos os aspectos da sociedade” ocorreu-lhe em 1832, depois já ter escrito diversos romances. Quando a concebeu, correu para ao apartamento de sua irmã e disse: “Estou prestes a me tornar um gênio.” No início, o projeto chamava-se Études des Mœurs (Estudos de Costumes). Na Comédia, ele incluiu parte do que já tinha escrito e todos os romances seguintes. O mosaico de romances e novelas foi o trabalho de sua vida.

Ao mesmo tempo que sua obra, Balzac não deixava de lado a ideia de ficar rico com algum negócio. O primeiro desses empreendimentos foi a fundação de uma editora dedicada aos clássicos franceses. Embora os livros fossem muito baratos ou por causa disto, o negócio fracassou. Voltou aos negócios tipográficos depois de pedir dinheiro a amigos, no entanto, sua inexperiência causaram de novo sua falência. Depois, conheceu e se apaixonou por Laure de Berny, mulher casada com quem teve um caso. Ela lhe deu sociedade comercial a fim de abrir outra editora que não tardou em falir. Ele passou a empresa a um amigo que acabou rico como editor, mas que cobrou de Balzac boa parte do rombo com que esta lhe fora entregue. Sabe-se que, em certa época, devia cerca de 50.000 francos à própria mãe…

Esta aspiração por uma grande jogada comercial jamais abandonou Balzac. Anos mais tarde, teve a ideia de cortar 20 mil hectares (81 km²) de madeira de carvalho na Ucrânia e transportá-la até à França para vendê-la no país. Mais dívidas. O autor também fundou jornais cuja intenção era a de demonstrar uma total imparcialidade e equidistância. Também faliram.

Luciano de Rubempré, numa ilustração para uma edição de "As Ilusões Perdidas" de 1867

Luciano de Rubempré, numa ilustração para uma edição de “As Ilusões Perdidas” de 1867

Toda esta experiência de fracassos teve repercussão em sua literatura. Alguns de seus maiores romances focam-se em personagens obcecados pela ascensão social. Tais pessoas chafurdam em inglório pântano, envolvidas em questões amorosas — que muitas visavam exclusivamente o alpinismo social — , em negócios e heranças. O incrível número de romances de Balzac deve-se a um método de trabalho que incluía frequentemente 15 horas de por dia escrevendo e revisando. Nestes períodos, comia uma refeição ao final da tarde e dormia até meia-noite. Então, acordada e trabalhava até a tarde seguinte com pequenas pausas para tomar café preto. “O café é a bebida que desliza para o estômago e põe tudo em movimento.”

Engana-se quem pensa que a pressão das dívidas tornou-o um escritor descuidado. Poucas vezes isto aconteceu. Balzac era preocupadíssimo com a qualidade de seus textos, revisando-os compulsivamente. A intenção de Balzac era que a Comédia Humana tivesse 137 títulos, mas ele só obteve chegar aos 88 livros.

Se pudéssemos indicar quatro livros aos leitores do Sul21, não fugiríamos do lugar comum.

7 eu-gr

Eugênia Grandet (1833) conta a história de uma típica provinciana filha de pai rico e que é disputada por potenciais maridos. Ela se  apaixona por seu primo que,  aconselhado pelo de Eugênia, antes parte em busca de fortuna. Eugênia fica resignada à espera. Tal sinopse parece apontar para um romance triste e sentimental. Nada disso. Há uma grande ebulição em torno do personagem principal do livro, o pai de Eugênia, rico comerciante de vinhos que é um dos maiores avarentos da história da literatura.

 

8 pa-goO Pai Goriot (1834) conta a visceral história de um velho comerciante que se deixa arruinar para que as filhas, que o desprezam, possam frequentar a alta sociedade. Aqui estão também Rastignac, especie de alter ego de Balzac, jovem pobre e ambicioso da província que deseja enriquecer em Paris a qualquer custo; e Vautrin, personificação do diabo que aparecerá em vários romances da Comédia Humana. Mais que a história do personagem-título, contam-se aqui as transformações porque passa Rastignac, de interiorano ingênuo a cínico e inescrupuloso.


9 il-peIlusões Perdidas
 (1843) é o mais longo dos romances de Balzac, ainda mais se somarmos a ele sua continuação, Esplendores e Misérias das Cortesãs. No romance está o maior dos personagens balzaquianoso poeta Luciano de Rubempré, que deseja sair da província para se  famoso em Paris. Em sua tentativa, Luciano deixa-se influenciar por todos com quem cruza numa Paris onde é proibido ser ingênuo. O livro também inclui David Séchard, um impressor que inventa um tipo de papel barato, mas que sucumbe à concorrentes que se associam para destruí-lo.

10 a-prA Prima Bette (1846) é outra das obras-primas de Balzac. Pertence ao subgrupo “Os Parentes Pobres”, do qual faz parte também O Primo Pons. Neste livro, a ressentida, pobre e solteirona Lisbeth Fischer, a personagem-título, vinga-se minuciosamente de todas as humilhações verdadeiras e imaginadas, que sofreu ou teria sofrido de seus parentes ricos. Suas vítimas, várias sem nenhuma estatura moral, vêem nela um exemplo de fidelidade e sinceridade. Um estupendo estudo sobre o ressentimento.

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Lendo Oblómov

OblómovEstou lendo cada vez mais lentamente Oblómov e não é por não estar gostando. É que não dá para interromper os capítulos no meio, há que ler cada um deles por inteiro, pois são peças muito perfeitas do mosaico que está sendo formado para serem lidas com interrupções. Dá mais prazer ler cada capítulo completo. O próximo capítulo tem 20 páginas, então preciso de 20 páginas de tempo sem correr riscos de ser atrapalhado.

Oblómov é a história de um latifundiário russo que se caracteriza pela indolência e apatia, para não dizer coisa pior. Deitado em seu sofá, olhando para o teto, ele deixa passar os dias. Embora vários problemas o atormentem — principalmente sua fazenda, que cada vez gera menos dividendos –, ele apenas planeja a melhor maneira de resolvê-los, sem agir. A mera ideia de deixar sua poltrona causa-lhe desconforto, então ele deixa a inércia guiar sua vida, que vai de mal a pior. A vida passa ao largo. Mas não pensem que é um livro monótono, muito pelo contrário, é bastante movimentado e os diálogos e os pensamentos de Oblómov são vivíssimos. Ele realmente tem o ócio como bandeira.

Ele tem um amigo de infância, Stolz, que é o que poderíamos chamar de homem de ação. No pequeno tempo livre de que dispõe, ele tenta retirar seu amigo da inação em que vive imerso. Instiga-o a resolver imediatamente seus problemas, a viajar e viver. Graças a Stolz, Oblomov conhece uma jovem por quem se apaixona. Então, vive um curto despertar. Aluga outra residência, visita e visita a amada. Porém, antes de casar, tem que resolver os assuntos de sua propriedade. Além disso, Olga quer que ele esteja atualizado com o que está acontecendo no mundo. Mas tudo isso parece ser uma demasia para ele.

Ele mora na cidade, mas planeja construir uma casa em sua propriedade para lá morar com Olga, mas seus rendimentos são decrescentes e o descontrole é absoluto. O que faço, o que faço, o que faço? Ele tem boas ideias a respeito, está consciente de tudo o que lhe ocorre, só que é o Rei da Procrastinação, o Príncipe da Indolência… Dispõe de criados que o servem e roubam. Zakhar, o principal deles, é um tremendo personagem, assim como todos os que circulam pelo romance.

O livro gerou uma expressão na Rússia: oblomovismo. Iliá Ilitch Oblómov representaria a velha Rússia czarista, com suas relações de trabalho e corrupção feudais. Os patrões são aristocratas inúteis, os servos são escravos. Já Andrei Stolz representaria o futuro e o progresso. Era uma estrutura social onde uns e outros estavam em decadência e se os grandes temas da humanidade são o amor, a morte e a existência ou não de Deus, creio que a decadência mereça o quarto lugar.

P.S. — Estou na página 490 de 736.

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

Cena do filme Oblómov, de Nikita Mikhalkov

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Sobre “As Academias de Sião”, conto de Machado de Assis

O conto completo está aqui, dentro do site Domínio Público.

As Academias de Sião, de Machado de Assis, dá pano para muitas mangas, apesar de não ser um de seus maiores contos. O pano para as mangas é tecido ao longo de um plot mais do que original para a época: as academias de Sião tentavam resolver um peculiar problema: “Por que é que há homens femininos e mulheres masculinas? O que as induziu a discutir isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminilidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros siameses gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram danças, comédias e cantigas, à maneira que o rei não cuidava de outra coisa”.

Uma das academias venceu com a seguinte certeza: “A alma é neutra; nada tem com o contraste exterior”. Porém, Kinnara, a mais bela concubina do Sião, durante um encontro privado com rei, questionou a decisão dizendo existirem almas sexuais. Assim como o rei era o homem feminino, Kinnara seria a mulher máscula: “Um búfalo com penas de cisne”. Depois de um beijo, Kinnara convence o rei para que suas almas troquem de corpo por seis meses. Cumprido o prazo, cada uma seria restituída ao corpo original. A fábula de Machado pega emprestado temas orientais, sobretudo hindus. Basta lembrar o parentesco do conto com a “história hindu” de Thomas Mann As Cabeças Trocadas, onde há um personagem belo, mas com um corpo magérrimo, e outro feio, mas de belo corpo. Em Mann, há a troca de cabeças; em Machado, a de almas.

Após a troca, Kalaphangko, ou o corpo do rei agora com alma de Kinnara cuidou da fazenda pública, da justiça, da religião e matou uns tantos que não pagavam impostos. “Sião finalmente tinha um rei”, afirma Machado. Já a alma do rei “espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara”. Sim, Machado de Assis diverte-se sempre conosco. E nós com ele.

O conto parece indicar que a alma masculina seria mais ativa e racional, enquanto a feminina seria passiva e emocional. Mas Machado de Assis não está aqui criando teses e sim controvérsias e boas piadas. Um pouco mais sobre Kinnara. Quando há a troca de almas, ela passa a um plano secundário e Kalaphangko planeja matá-la para não desfazer a troca, porém ela revela estar grávida e o rei sente-se incapaz de matar seu próprio filho, símbolo de sua virilidade e da continuidade da linhagem real. Ou seja, primeiro Kinnara consegue fazer a troca de corpos através de um beijo e depois logra não ser morta pela maternidade, um predicado físico feminino. Neste sentido, a simples Kinnara é mais uma mulher decisiva num mundo machadiano cheio delas. As mulheres de Machado seduzem, escolhem, querem e conseguem, expelindo sensualidade tanto em lentas e inexoráveis secreções ou como em espasmos (ou jatos…).

Tenho vontade, mas reluto em fazer uma interpretação do século XXI sobre um conto que não é mais do que um scherzo de Machado. Mas há outros aspectos intrigantes neste conto cheio de curiosidades que independem do instrumental psi de nossos dias. (1) Machado não cai em momento algum nas piadas fáceis e depreciativas de uma sociedade machista — e estamos em 1884. (2) Diferentemente de Tolstói, por exemplo — um escritor absolutamente contemporâneo de Machado — , o brasileiro não está nem um pouco preocupado em explicar o mundo ou em trazer a Verdade e a Solução a seus leitores. Ele apenas narra brilhantemente os fatos e nos deixa aqui pensando… (3) Os acadêmicos consideram um ao outro perfeitos estúpidos, mas permanecem academia, inclusive protagonizando o festivo momento final de As Academias de Sião, cantando todos juntos o hino “Glória a nós, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!”.

A bela Kinnara — àquele momento já destrocada — não entendia como os membros da academia podiam ser a claridade do mundo quando reunidos e se detestarem separadamente… Mas sabemos que é assim. É notável que o fundador da Academia Brasileira de Letras nos passe uma noção tão bufa e verdadeira do comum das academias — locais que  podem ser melhor descritos como cestas de ofídios do que como clarões para o mundo.

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Requiem: uma alucinação, de Antonio Tabucchi

Requiem TabucchiNão hesito em chamar este Requiem: Uma Alucinação de obra-prima. Vamos manter a grafia original da palavra “requiem” sem acento porque o livro foi escrito diretamente em português de Portugal pelo italiano Tabucchi. Antonio Tabucchi (Vecchiano, 24/09/1943 – Lisboa, 25/03/2012) foi o italiano mais português de que tenho notícia. Chegou a se naturalizar. Ele era professor, escritor e tradutor de Fernando Pessoa. Amava o país. Ele escreveu vários excelentes pequenos livros e sua grande obra, como escreveu Simenon sobre si mesmo, foi o mosaico formado por estes pequenos romances. Todos são excelentes, mas por favor, este Requiem é um exagero.

Requiem: Uma Alucinação foi o único livro que Tabucchi escreveu diretamente em português. A obra é uma homenagem a Lisboa, a Portugal, a Fernando Pessoa e até a Saramago — vide os diálogos sem pontuação. Também se come muito bem neste livro. Lisboa, como se sabe… Bem, escrevo próximo do horário do almoço e é melhor deixar de lado aquela maravilhosa gastronomia. O livro é literalmente um sonho. No calor do verão português, o personagem principal deita, dorme e sonha. São 12h que começam em um encontro que não acontece. Este seria, supõe-se, com Fernando Pessoa, chamado de “O Convidado”. Calma, gente, o  encontro acontecerá ao final do romance.

Enquanto isso, veremos o personagem que sonha deambulando por Lisboa. Ele encontrará amigos quase todos mortos, andará de táxi, terá uma linda cena numa pensão onde descansará, entrará no Museu de Arte Antiga onde encontrará um Pintor Copiador de Bosch, conversará e suará muito no escaldante calor. É tudo muito verossímil, contado em tom de conversa ao pé do ouvido, mas é a realidade de uma alucinação. Em Requiem, é natural acertar as contas afetivas com os mortos. Pouco a pouco, o vaudeville vai diminuindo seu ritmo e tornando-se melancólico. Uma obra-prima.

Recomendo fortemente. A edição é da extinta Cosac; isto é, acho que só pode ser encontrada em sebos.

 (Livro comprado na Ladeira Livros).

Antonio Tabucchi (1943-2012)

Antonio Tabucchi (1943-2012)

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O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

TORCICOLOGOLOGISTA-280Duas pessoas, ou excelências, como prefere Gonçalo M. Tavares, conversam sem parar sobre os mais variados e, às vezes, disparatados assuntos. Não há descrições, introduções, “palavras do autor”, nada disso. O que há são diálogos cerrados, como uma peça de teatro onde dois indivíduos (ou travessões) falam sem parar. São muitos capítulos, todos eles com títulos que parecem ter sido buscados nos romances ingleses do século XVIII. Dito assim, parece confuso, mas não é. O Torcicologologista, Excelência é um livro fluido em que a lógica é subvertida ou seguida de forma tão rigorosa que acaba em absurdo. Os assuntos são os mais variados. O livro inicia tratando de revoluções, e vai para qualquer lado, como a dança, a preguiça, o corpo, as ideias — há uma guilhotina que corta ideias tolas — , a moda, a tradição, a covardia, a coragem e a linguagem, a linguagem, a linguagem. É um livro cheio de filosofia e ironia, onde as pequenas e grandes questões individuais e coletivas têm o mesmo tamanho.

O Torcicologologista, Excelência mostra um escritor único, desses que nos provam que nem tudo ainda foi feito. Se as frases são claras, o todo é desconcertante e estranho. E com desvios. “Tudo o que é sério tem dois lados divertidos”, escreve Tavares. Desta forma, nada deixa de passar por sua máquina de experimentações que atenta moderada ou crassamente contra o sentido convencional das coisas.

Eu adorei o livro. Ele não apenas escancara uma superfetação de fantasias e possibilidades como aponta para um mundo impossível no Brasil literal e burro de hoje. Um mundo onde a linguagem nem sempre fala daquilo que deixa no papel.

Eu penso muito que a criação crítica sobre o contemporâneo é uma criação crítica sobre a linguagem, porque nas democracias grande parte das batalhas essenciais são linguísticas. E nós percebemos que a linguagem é uma máquina que pode funcionar de diferentes maneiras: uma máquina por vezes irônica, por vezes de manipulação, por vezes uma máquina de cercar, muitas vezes uma máquina de tentar explicar a realidade. Portanto a linguagem está sempre no centro da democracia. Felizmente, de alguma maneira, a arma foi substituída pelo verbo. E o que me parece interessante é que as pessoas deveriam ter uma espécie de manual de defesa da linguagem e não têm, um pouco como aprender uma arte marcial, aprender a estrutura da linguagem, a forma como ela funciona. E no Torcicologologista, os diálogos partem muito dessa ideia de que as frases não dizem apenas uma coisa, elas têm vários sentidos, podem ir por um caminho, ou pelo caminho oposto; que a linguagem pode ser sabotada, que a linguagem pode aparentar que está a falar de uma realidade mas está a falar de outra. Percebemos que a linguagem depende de quem a diz, pois mais importante que perceber a frase de alguém é perceber o que essa pessoa quer. De alguma maneira os diálogos andam muito à volta dessas ideias, pois o diálogo é uma maneira da pessoa dizer coisas que não sabia que sabia. É o outro, através de suas questões, de suas frases, que faz que eu diga algo novo para mim, portanto o diálogo não é um somatório de monólogos, é mesmo uma possibilidade de descobrir coisas diferentes. E nesse aspecto esses diálogos são claros herdeiros dos diálogos clássicos, de Platão, e daquela ideia socrática das perguntas até como uma espécie de tortura. São questões que de alguma maneira não têm resposta prévia e, portanto, provocam uma investigação individual. Nesse sentido O torcicologologista é um herdeiro desse mundo.

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

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Nosso Capitão, de Sadi Schwerdt

20170907-1-sadi-capa-706x1024Eu nasci em 1957 e acompanho futebol diariamente desde 1966, quando a Copa da Inglaterra me fisgou. Por outro lado, um núcleo familiar 100% colorado me trouxe para o Inter. Então, por ter vivido os fatos como expectador e torcedor, conheço boa parte daquilo que é descrito pelo lateral Sadi Schwerdt, o Sadi, neste livro franco e belamente escrito. Li feliz e muito rapidamente suas 222 páginas de texto simples e direto.

De certa forma, aos 75 anos, Sadi segue sendo o capitão do Inter. Sua visão ainda é a de identificar problemas e denunciá-los, mas também guarda a postura de proteger colegas e a instituição. Os anos 60 foram terríveis para os colorados. O Campeonato Gaúcho era o máximo que Grêmio e Inter podiam aspirar e, entre 1956 e 1968, o Grêmio ganhou todos, à exceção de 1961. A derrota de 1962 foi especialmente ridícula. Sadi chegou depois disso à titularidade, para ser a estrela de um Inter que destinava recursos para a construção do Beira-Rio e deixava os investimentos em futebol para um plano secundário. Lembro que o time nem era tão ruim, mas os dirigentes do futebol faziam coisas, que vistas de hoje… Como é que deixaram Alcindo escapar para o Grêmio? Como é que Sérgio Lopes também foi parar no tricolor? E por que contrataram Foguinho para técnico em 68? (É o mesmo que o Grêmio contratar Falcão hoje para dirigir a equipe ou o Inter contratar Renato). José Alexandre Záchia era tão perdido quanto seus filhos Pedro Paulo e Luiz Fernando, que afundaram novamente o Inter nos anos 90. Ou seja, os dirigentes da época deram enorme contribuição para o adversário.

Tais confusões ficam claras no livro de Sadi, mas jamais pensem que ele grita cada um dos fatos. Não, eles são citados elegante e calmamente pelo Capitão do time. É como se perdoasse. Menos tranquilas são as referências feitas ao ambiente de sacanagem e politicagem barata da Seleção Brasileira, onde ele se destacou sem ser capitão. Analisando suas atuações por lá — que, sei, foram sempre muito boas –, Sadi é mais explícito e explica o funcionamento dos grupos de cariocas e paulistas e as pressões.

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Quando cheguei ao futebol mesmo, em 1969, já entendendo escalações, um pouco de tática e a importância de cada um, Sadi já tinha iniciado a série de lesões que o impediram de ir à Copa de 70. Já se tornara um lateral mais comedido no ataque, mas mantinha a segurança defensiva. Lembro do meu desespero cada vez que Jorge Andrade era escalado em seu lugar. Lembro também dos gritos da torcida do Grêmio com a finalidade de perturbá-lo. Gritavam até o nome de sua esposa… E sei que só os grandes jogadores recebem tal tratamento. (Lembro também de vaiar Ronaldinho e outros grandes jogadores do Grêmio… Puro medo, né? Ninguém perde tempo e voz com as ruindades).

Como disse João Saldanha, nos anos 60, o Inter era um time modesto com um grande jogador. Ficou assim até 1968, quando começaram a aparecer Claudiomiro, Bráulio, Sérgio, Valdomiro, etc, e um novo período de glórias chegou.

Nosso Capitão dá um belo painel do clube e do Rio Grande daquela época sob a ditadura militar. Também traz fotos e a recordação especialíssima abaixo. Esta é a foto do álbum Gigante da Beira-Rio que dez entre dez crianças coloradas completaram, incluindo este que vos escreve. É óbvio que reconheci na hora.

Recomendo o livro, mas antes de terminar, digo que Sadi, quando entrou para a política, rejeitou a Arena. Escolheu a oposição. Isso diz muito de meu ídolo.

O lançamento de Nosso Capitão será dia 14 de Setembro, quinta-feira, no Restaurante Terra & Cor Gastronomia (Avenida Praia de Belas, 1400) com a presença de velhos ídolos colorados.

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Passado Perfeito, de Leonardo Padura

Padura Passado PerfeitoBêbado, logo após uma virada de ano bastante alcoolizada, o detetive Mario Conde é acordado por seu chefe, o Velho, com uma urgência: Rafael Morín, um executivo do Ministério da Indústria, homem que viaja pelo mundo negociando produtos da ilha, está desaparecido. Morín é um ex-colega de aula que ostenta a fama de ser rigorosamente honesto e competente. Um grande quadro, dos maiores. Conde chega a reclamar dos elogios unânimes que são feitos a ele. Tinha um passado perfeito. Para completar é casado com Tamara, espécie de símbolo sexual da escola, a mulher por quem todos eram apaixonados 17 anos antes. Já Mario, triste e desiludido, é a antítese de Rafael.

Não leio muitos livros policiais. Alguns amigos mais especializados na área aprovam com reservas a série de livros policiais de Padura que tem Conde com personagem principal. Faltariam o humor e as frases de efeito típicas do gênero, sobrariam sexo e cenas de Havana. Chego à conclusão de que, com efeito, não sou um grande admirador do gênero, pois achei que Passado Perfeito está muito acima da média que gênero. Gostei demais da cor do romance, da criação do ambiente e das pessoas que circulam tratando uns ao outro como latinos — queridos, afáveis e corruptos. Importante: Padura jamais deixa de fazer críticas à cidade e ao país. Parece ter menos medo de criticar a situação do que os escritores brasileiros, que desejam convites para feiras e eventos e evitam críticas aos políticos…

Li, em algumas outras críticas, certa má vontade com o fato de haver tanta gente esperta e viva em Havana. Também com o fato de Padura descrever a prostituição, a pobreza, a vida de pessoas que vão se ajudando, se amando e sobrevivendo bem — inclusive a do amigo Magro, que ficou paraplégico em razão de um tiro que levou na Guerra de Angola –, sem grandes ranzinzices. Mas estes são os nossos tempos, né?. Já eu, que estou aqui pela literatura mesmo

Recomendo.

Livro comprado na Bamboletras.

padura

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Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi

correr com rinocerontesDespretensão, sinceridade, texto curto e fluido. Era isso o que queria quando comecei a escrever resenhas de livros neste blog. A merda é que esta é a 243ª resenha que escrevo e hoje o Google me encontra fácil quando alguém quer saber de um livro que eu tenha lido nos últimos anos. Hoje, o desafio é fazer de conta que ninguém lê estas resenhas. Não é fácil fingir esquizofrenia. Pois se considerar que alguém pode balizar sua compra por mim, vou revisar e revisar o texto, inclusive retirando o que mais gosto, o estilo gonzo das resenhas.

Então começo dizendo que tive a impressão de que o livro de Cristiano Baldi, Correr com Rinocerontes, cresce muito à medida que avança, mas que isso talvez tenha mais a ver com a lentidão com que iniciei a leitura — estava bem atrapalhado pessoalmente — e com o tempo que finalmente pude dispor para ler a segunda metade.

O livro pode ser dividido em duas partes, antes e depois de um trágico acidente familiar que não vou contar. Na primeira parte, o narrador subitamente viaja de volta para Porto Alegre a fim de encontrar sua família. Algo tinha acontecido. De forma divertida, ele nos mostra que não é aquele bom-moço coisa querida tão presente nos discursos feicebuqueanos e tão ausente na atividade prática dos donos dos perfis. Ou seja, ele é franco ao expressar algumas vagas opiniões políticas e franco no prazer, desprazer e dor, assim como em narrar alguns descompromissos afetivos. Suas observações sobre Porto Alegre são lastimáveis e absolutamente cheias de razão.

Quando os motivos da viagem passam ao papel, o livro cresce muito ao mostrar a reação de cada familiar à tragédia. Cada um corre para um lado. Com personagens bem construídos, o tom é o do humor ácido, apesar dos acontecimentos narrados serem efetivamente estarrecedores. Na escolha da linguagem, creio que uma das maiores influências seja a do Salinger do Apanhador. Tal escolha impõe um narrador inteligente, suficientemente interessante, divertido e iconoclasta. É o caso. (Mas jamais pensem que a vinda para sul tenha algo da literatura de Noll, tá?).

Recomendo.

Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)

Cristiano Baldi: no livro ele é bem mais animado. (Foto roubada do Guia de Caxias do Sul)

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De Amor e Trevas, de Amós Oz

De amor e trevas Amós OzLi este livro após enorme insistência do meu amigo de Fortaleza Heitor de Lima, o Rei do Inbox Literário, que só conheço das teclas. É claro que, após a grande propaganda, minha expectativa era muito elevada. Oz não negou fogo, pelo contrário. No início, achei que estava lendo um Dickens moderno, um escritor dedicado a contar uma autobiografia detalhada, uma história familiar que acabaria — isto não é spoiler, está na contracapa e o autor reafirma a cada momento o que acontecerá no final — com o suicídio da mãe de Oz. Os avós, os tios, suas vidas na Europa, a nova diáspora ocorrida antes e durante a 2ª Guerra Mundial, tudo é contado com riqueza de detalhes.

A prosa de Oz é tão viva e humana que o desespero explícito dos filmes de judeus de Hollywood é um item menor em relação à vida interior dos personagens. A tristeza, mesmo o suicídio da mãe, vem digna, sem exageros. O sofrimento é autenticamente judeu, contado sempre com um humor levemente auto-depreciativo. O livro é um sinfonia. Tem momentos de enorme pesar e outros hilariantes. Oz é um mestre. Humor, drama e fatos familiares de então e de agora estão misturados de tal forma que tudo me pareceu potencializado, muito sensível e vivo, mas sem jamais cair na pieguice de um Dickens.

O livro foca a relação de Oz com os pais e as famílias paterna e materna. Vista pelos olhos da criança, as decepções da mãe — uma mulher linda e brilhante do ponto de vista intelectual — e a figura do pai — um erudito árido e chato, espécie de fracassado dentro de uma família com meia dúzia de escritores de peso em Israel — são descritas em pinceladas incompletas, de uma forma onde o leitor compreende o todo por sua própria vivência. Como pano de fundo, está a formação do estado de Israel, fato que encanta o pai de Amós e é visto com indiferença pela mãe.

A autobiografia de Oz é interessante também porque sua vida é muito distinta do comum. Dois anos após a morte da mãe, com apenas 16 anos, Oz saiu de Jerusalém, abandonou a futura carreira de escritor que todos os Klausner — família do pai — previam e foi viver em um kibutz, largando de vez o pai para tornar-se um “um homem do campo”. Mesmo que Oz não fale muito mal do pai, fica claro o motivo pelo qual ele muda o seu sobrenome de Klausner para Oz.

As desajeitadas aventuras sexuais do adolescente também são contadas com especial cuidado e talento. As coisas dos meninos estão lá.

(Já comecei a ler um outro livro hoje, de um escritor gaúcho. Ele logo dá duas opiniões políticas gratuitas e faz uma mal disfarçada autopromoção. Acho melhor voltar a um escritor de virtuosismo arrebatador como Oz. Após mais de 600 páginas de prosa inteligente, bela e modesta, é triste voltar a nossa realidade. E que elegância Oz demonstra em suas considerações políticas sobre Israel!).

Mas Oz é filho de pai e mãe. Afinal, tornou-se o grande escritor que os Klausner prognosticavam e sua relação com a mãe é fundamental. Sua morte marcou as escolhas de Amós de uma forma decisiva. Se numa primeira fase a revolta fez com ele fugisse da literatura, o tempo encaixou os ensinamentos de uma família que se entregava à cultura com intensidade. Também é sugerido que a mãe virou suas opiniões políticas para a esquerda.

A elegância e o perfeito senso de estilo de Oz estão por todo lado. Aqui vou dizer, ali omitir.

O final, que não contarei, é de extrema simplicidade, é comovente, curto e exato. Oz escolhe um lamento, um apelo, um rogo inútil e impotente que torna complicada a leitura das últimas linhas com aquelas letras dançando enquanto a gente tenta se controlar.

De Amor e Trevas é grande literatura. Recomendo fortemente.

Livro comprado na Bamboletras.

Amós Oz

Amós Oz

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A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

O volume da LeyaA Noite das Mulheres Cantoras

O volume da LeYa de A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge

Há poucas semanas, li com agradável surpresa o livrinho de contos de Lídia Jorge Praça de Londres. A excelente impressão que tive da escritora portuguesa ampliou-se nesta narrativa longa, o belo romance A Noite das Mulheres Cantoras (LeYa, 320 páginas). O livro inicia com o reencontro das mulheres que formavam um grupo musical dos anos 80, o Apocalipse. Durante o evento, surge João Lucena, que voa em direção a Solange Matos, narradora do romance. “Lembras de mim?”.

Toda a narrativa, contada em primeira pessoa pela letrista do grupo — a citada Solange — dedica-se a explicar e detalhar o significado deste reencontro, coisa que não faremos aqui. Além disso, mostra a trajetória do quinteto vocal lisboeta em busca de espaço no mundo pop português. O grupo tinha como projeto o estilo dançante de Donna Summers e aquilo que chamavam de “música para ver”, ou seja, mulheres que cantavam, dançavam e encantavam com suas coreografias e músicas. Para tanto, era necessária muita disciplina e a líder do grupo, Gisela Batista, chegava ao ponto de tentar impedir os namoros de suas pupilas e de trazer balanças para que elas se pesassem diariamente. Nada de engordar, meninas! Às vezes, havia clara revolta: “Música para ver, pintura para ouvir, comida para ler, roupa para cheiras, dança para roer…” — ironizou uma das cantoras –, mas o maior perigo vinha sempre silenciosamente e de lugares afastados das fofocas das moças e do controle de Gisela.

A narrativa de Lídia Jorge é estupenda do ponto de vista da criação de cada um dos clímax. Com pleno domínio de vários meios narrativos, a autora alterna trechos decididamente cronísticos com outros de grande densidade de significados. Os traumas gerados pela busca incessante da fama e dos holofotes, independentemente do preço, são graves e irreversíveis para as meninas do Apocalipse. Tal como nos livros de Jane Austen, uma série de detalhes de aparência fútil servem para mostrar um pesado pano de fundo social, em parte vindo continente africano.

A Noite das Mulheres Cantoras traz uma excelente construção de personagens, como as das cinco mulheres, a do coreógrafo João de Lucena e do estudante Murilo Cardoso — espécie de consciência da obra. Além da alternância de estilos, Lídia Jorge trabalha com esmero e bons resultados o fato de o presente estar sempre lá, lançando seu olhar perplexo sobre os anos 80. O movimento de fazer emergir fatos do passado para o presente raras vezes foi tão bem articulado.

Indico!

Livro comprado na Bamboletras.

Lidia Jorge

Lídia Jorge

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Poemas, de Wisława Szymborska

A edição da Cia. das Letras

A edição da Cia. das Letras

Na semana passada, minutos após comprar este livro na Ladeira Livros, fui almoçar com meu amigo Norberto Flach no Tuim. Cheguei à mesa onde ele estava sentado e lembrei que tinha esquecido o celular. Estamos passando pela tortura de reformas em casa e é sempre bom estar com o aparelho por perto. Antes de voltar rapidamente ao Sul21 ali pertinho para pegá-lo, disse para o Norberto meio de brincadeira: “Fica lendo isso aqui que eu já volto”. Quando voltei, ele falou que parecia que a poetisa falava em seu ouvido. Boa observação. A sensação de profunda, inteligente e simpática empatia, além da beleza, talvez sejam mesmo as características mais fortes da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, escritora vinda do mais poético dos países onde as consoantes mandam recados assustadores aos ignorantes como eu.

O personagem japonês de Paterson — no final do filme, lembram? —  diz que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva, mas a única forma de tomar conhecimento com a maravilhosa obra da polonesa Szymborska é a tradução e eu achei lindos, verdadeiramente inesquecíveis, os poemas traduzidos por Regina Przybycien. Não sei o quanto perdi usando capa de chuva, mas o que sobrou foi muito.

Alguns chamam Szymborska de o Mozart da Poesia e creio que a comparação não é nada absurda. A irresistível de combinação de ousadia e leveza é Mozart, mas a de sinceridade e intimidade são Tchékhov. Quando a comparo alguém a Tchékhov, estou fazendo comparações com o escritor que mais valorizo, com aquele que, como disse Konchalovsky, a gente fala quando escreve alguma coisa duvidosa. “O que você acharia disso, Anton?” e só prossegue após o consentimento do russo.

Em 60 anos de vida literária, Szymborska publicou apenas uns vinte livros curtos. Ela explica: “Escrevo os poemas à noite, mas releio-os à luz do dia, e nem todos sobrevivem”. Aprendam, meninos.

Szymborska tem humor de Drummond, boa filosofia, amor pelo humano, fluência, fabulação, ou seja, tudo o que gosto. É uma poesia coloquial, anti-sentimental e despojada de efeitos fáceis, de sofisticada simplicidade. Faz perguntas “inocentes”, terrivelmente inocentes. A clareza é absoluta. Fico imaginando o que são seus famosos artigos em revistas, onde dava mais vazão à veia humorística.

É difícil falar sobre um livro tão delicado e do qual se gostou tanto sem a indelicadeza da adjetivação. Talvez seja melhor dizer logo que — agora que o li e vou pegar outro — tenho vontade de morder o livro para seguir sentindo seu gosto.

Ah, os poemas dela, mesmo em português, estão por toda a internet. Então só vou deixar um com vocês. Um dos mais famosos. E super recomendo o livro.

Alguns gostam de poesia

Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Wisława Szymborska (1923-2012)

Wisława Szymborska (1923-2012)

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