Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVI – A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVI – A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek

A Guerra das SalamandrasEu tinha lido A Guerra das Salamandras (Record, 334 páginas, R$ 59,90) lá pelos anos 80, em uma edição portuguesa, creio que da Livros do Brasil, Coleção Argonauta. O livro me ficara na lembrança como a melhor distopia que já tinha lido. Busquei esta edição da Record, de 2011, para conferir minha impressão. Seria em equívoco? Não, de modo algum.

Não sou um grande leitor de distopias ou de ficção científica, mas creio ter lido todos os clássicos do gênero. E nenhum foi tão envolvente quanto este livro de Karel Čapek (1890-1938).

Vejamos as razões. Em primeiro lugar, a obra tem muito humor. Na verdade, o livro é uma sátira. Ciência, política, economia, jornalismo, capitalismo, fascismo, Hollywood… Tudo vai na receita do tcheco. É um humor sutil e sempre bem-vindo, mesmo que a história conte detalhadamente a derrocada final da raça humana.

Outro motivo é são as 3 divisões do livro. Primeiro, ficamos sabendo sobre o surgimento das salamandras e da enorme importância econômica que elas passam a ter no mundo. As salamandras Andreas Scheuchzeri foram descobertas pelo capitão Van Toch. Ele foi o primeiro a notar a alta inteligência dos bichos. Elas viviam nos Mares do Sul, em uma baía, lutando eternamente contra os tubarões que insistiam em comê-las. Van Toch descobre que são inteligentes — são salamandras grandes, de 1,20m, com jeito para usar ferramentas e para estabelecer comunicação com humanos. Ou seja, elas aprendem nossa língua. E Van Toch passa a lhes fornecer ferramentas simples como facões a fim de elas se defendam dos tubarões. Em troca, os inteligentes bichinhos, oferecem-lhe pérolas — elas sabem que os seres humanos gostam delas. Então, Van Toch corre para propor sociedade a um milionário tcheco, que logo vê uma oportunidade de lucro. Afinal, ferramentas por pérolas… Bom negócio! E elas — com notável capacidade de reprodução — acabam por se espalhar pelo mundo, tomando conta de todos os litorais. A humanidade progride espetacularmente, pois, é óbvio, o que fizemos com elas? Fizemos com que trabalhassem para nós e não apenas catando pérolas, ora!

O segundo capítulo traz um tratado científico sobre as salamandras Andreas Scheuchzeri. É discutido como elas falam, como acasalam e se reproduzem (há uma manual do sexo entre salamandras), seus rituais e sua tremenda disposição para o trabalho e resistência.

E nasce o Sindicado das Salamandras. É claro que as elas são cada vez mais necessárias e exploradas. Ao mesmo tempo, porém, criam consciência de si mesmas.

Ao final, vem a guerra. Com tudo o que o ser humano lhes disponibilizou, as salamandras vêm com tudo. Elas passam a ter um comandante, talvez humano. São numerosas, contam-se em bilhões e por isso querem aumentar os litorais do planeta, explodindo continentes. Os europeus, defendendo suas vidas e “cultura superior”, querem dar a China às salamandras. (Não esqueçam que, logo após a morte de Čapek, a Europa entregou a Tchecoslováquia a Hitler, em uma tentativa de apaziguar o expansionismo nazista). Mas nada as acalma.

As causas da derrocada são não apenas biológicas como também guardam um profundo e nada esquecível paralelo com fatos políticos do século XX.

Čapek não apela para o fantástico nem para o tecnológico. É tudo “biológico” e, é claro, altamente maluco e cômico. As salamandras são como seres de outro planeta que estavam escondidas num canto e que, sob condições favoráveis, vieram nos conquistar. Do princípio ao fim, o autor guarda um tom humano, preocupado e cômico.

É simplesmente demais.

Čapek morreu de pneumonia em 1938. Os nazistas foram atrás dele — ele era um inimigo e a Gestapo queria prendê-lo.  Mas encontraram apenas um cadáver.

Ou seja, os tchecos não tiveram apenas Kafka na primeira metade do século XX.

Karel Čapek: visto assim, parece normal

 

A Ilha da Infância (Minha Luta 3), de Karl Ove Knausgård

A Ilha da Infância (Minha Luta 3), de Karl Ove Knausgård

Este é o volume 3 do imenso painel autobiográfico Minha Luta, de Karl Ove Knausgård. Me programei para ler um por semestre, mas garanto que foi complicado colocar este volume na estante sem pegar o quarto. E já tenho o quinto… Dizem que são os melhores da série. Em 2017, Knausgård recebeu o prêmio de melhor livro publicado na França por Uma Temporada no Escuro, o quarto volume.

===

Aqui, a resenha do primeiro volume. E aqui, a do segundo.

===

Neste A Ilha da Infância, Knausgård conta os primeiros anos de sua vida até a descoberta do sexo. Como sempre, ele parece estar contando nada, mas vamos sendo envolvidos de tal forma pelos detalhes de uma vida bem contada que acabamos grudados no livro. A memória do autor é prodigiosa em relação às impressões e sensações da infância. O segundo personagem do livro em importância é o pai de Karl Ove. O pai é um professor violento, astuto e às vezes sádico. Tem aguda intuição para descobrir os erros e as brincadeiras proibidas dos filhos — Karl Ove tem um irmão mais velho. O nervosismo no contato com o pai não ajuda muito. Ele deixa Karl Ove paralisado, em casa e fora dela. E ele tem medo de tudo, pois qualquer coisa pode irritá-lo e Karl Ove chora muito — em casa e fora dela, repito –, foge muito e, claro, aprende a enganar, apesar da esperteza paterna.

Há cenas patéticas envolvendo o pai. Numa delas, Karl Ove está tomando leite com corn flakes e nota que o leite está talhado. Mas segue comendo a coisa porque denunciar o problema com o leite poderia irritar o pai… Uma vez, ele foi comprar uma camiseta de futebol — presente de aniversário — com o pai. O menino torcia para o Liverpool, mas na loja tinha não nenhuma de seu tamanho. Então pai o fez comprar uma do Everton. Para quem não sabe, o Everton é o grande rival de Liverpool na cidade. É como ir comprar uma camiseta do Inter e sair da loja com aquele horror que os gremistas usam. Outra vez, Karl Ove pegou duas maçãs a mais durante a noite. Pela manhã, seu pai deu pela falta delas e fez com que o menino comesse todas as restantes. Um monte delas, até se sentir bem mal.

As intrusões do pai contrastam com a ingenuidade e o bucolismo de uma infância decorrida num vilarejo de uma ilha norueguesa. As casas ficam afastadas uma da outra e a bicicleta é o meio de transporte para quase tudo — escola e diversão. As coisas proibidas — revistas pornográficas, brincadeiras mais livres, beijos — acontecem na floresta ou atrás dos morros. Todos se conhecem e uma ação vergonhosa tem boa repercussão entre pais e crianças.

Lendo este livro, lembramos de muitas sensações, pensamentos e vergonhas de nossa infância. Também lembramos de algumas lógicas particularmente equivocadas. O totalmente sem noção, a falta de jeito. A descoberta das mulheres é parte fundamental do livro. O menino de oito anos já se sentia atraído por elas. E até seus doze ou treze anos, ele olha, se apaixona, sente os cheiros dos cabelos, anda de mãos dadas, dá selinhos, apalpa, beija , sonha, fricciona. Mas a história sempre retorna ao medo na presença do pai.

A ilha da infância é menos reflexivo do que os volumes anteriores. Mas traz sua formação como leitor, as tardes solitárias, as lembranças, as histórias cômicas da inexperiência, as pequenas tragédias. Um livro mais leve e divertido.

Gostei muito.

Assombrações, de Domenico Starnone

Assombrações, de Domenico Starnone

Eu jamais pensei que este livro fosse de assustar, mas o fato é que ele me envolveu de tal forma — e o caso é tão preocupante — que não consegui largá-lo da metade até o final. Precisava saber o final da história e, bem, ela me ASSUSTOU de verdade. Mas não vou estragar a leitura de vocês contando a trama. Também peço a meu leitor que não reduza Assombrações (Todavia, 184 páginas, R$ 49,90) aos sustos que citei, pois o livro carrega enorme simbolismo e real dramaticidade. Deste modo, sigamos sem spoilers.

Daniele Mallarico é um respeitado ilustrador que já passou dos 70 anos. Vive solitário em Milão, é abastado e está convalescendo de uma cirurgia quando é chamado a cuidar por uns dias de seu neto Mario. Os pais de Mario, Saverio e Betta, filha do ilustrador, passam por um péssimo momento. Saverio é um daqueles ciumentos trágicos que imagina, pensa ou tem absoluta certeza de que a mulher está apaixonada por um poderoso professor do Departamento de Matemática onde trabalham.

Mas o livro gira muito mais sobre a relação entre neto e avô, entre o pequeno ser de quatro anos cheio de energia e o velho debilitado. À carência e à fraqueza de Daniele, Mario responde de forma mimada e descontrolada, típicas da infância super-protegida de hoje. Pior: aos quatro anos, demonstra enorme talento para o desenho, o que perturba o velho ilustrador. Enquanto cuida de Mario, Daniele deve produzir ilustrações para uma edição de luxo de The Jolly Corner, de Henry James. O editor que fez encomenda recebeu os primeiros esboços e está muito descontente, o que faz Daniele pensar que a fonte secou.

Daniele mal suporta o neto que parece saber tudo sobre a casa napolitana onde mora e que é a mesma onde passou sua infância. “Eu copiei do vovô”, é a última frase do livro. O inferno de Assombrações está nos detalhes de uma narrativa onde o velho busca um impossível acordo com suas opções e ambições.

Infância, decrepitude, inadequação, raiva, desconforto, inveja. Starnone é um mestre que faz com que grandes temas fluam através da descrição de pequenas ações cotidianas.

Recomendo muito.

Domenico Starnone

O Capote & O Retrato, de Nikolai Gógol

O Capote & O Retrato, de Nikolai Gógol

Sem jamais perder sua gloriosa e característica verve humorística, Gógol faz de O Capote uma obra-prima de compaixão humana para com a pobreza e a falta de perspectivas de outrem. “Todos nós descendemos de O Capote“, afirmava Dostoiévski. Otto Maria Carpeaux escreveu, concordando com Dostô: “Gógol é o fundador da grande literatura russa do século XIX. Do Capote descende toda aquela literatura de compaixão algo sádica de Dostoiévski e a sensibilidade cinzenta de Tchékov que, assim como o próprio Gógol, chorava por trás do riso do humorista”.

Sem spoilers. O Capote narra a história de Akaki  Akakiévitch, funcionário público em São Petersburgo. O protagonista é um solitário e  copista de processos que vive para seu trabalho mas que é alvo das brincadeiras de seus colegas em razão de seu casacão — o tal capote — gastíssimo e puído. Ele passa frio com ele durante o inverno. É claro que não contarei o restante da ótima história.

A novela O Retrato é menos conhecida, mas não é muito inferior, não. Tchartkov é um pintor em início de carreira que se vê pressionado por dívidas e está sob a perseguição do proprietário do apartamento onde mora. Um dia, num mercado, ele adquire por baixo preço uma pintura, um retrato que o deixa muito intrigado. Há ali um olhar perturbador, impossível de não considerar. E ele vai cumprir uma rotina de Fausto. O segundo e esclarecedor capítulo é extraordinário.

Recomendo.

Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane

Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane

Este livro foi um presente de um leitor deste blog e amigo meu do Facebook. Jonas Fernando Pohlmann é um gaúcho e colorado de Ijuí que mora em Maputo, Moçambique. É inexplicável, porém, como a maioria dos que leem este blog, Jonas é uma pessoa altamente qualificada, tendo estudado na Ufrgs e na London School of Economics and Social Science.

Já Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, em 1990. Suas histórias têm gerado discussões em um país que pratica a poligamia. É o caso de Balada de Amor ao Vento.

A história do amor de Sarnau e Mwando é longa e cheia de reviravoltas dentro do contexto do sul de Moçambique. Não vou contar tudo, claro, só que Mwando queria ser padre, mas também desejava Sarnau e, por isso, acabou expulso do seminário. Ela engravidou e ele a rejeitou, pois seus pais tinham-lhe arranjado outro casamento. O casamento é infeliz e ele tenta voltar para Sarnau, que já era uma das esposas do chefe local. E mais não conto.

Para a compreensão completa do livro é importante saber o que é o lobolo. Lobolo é um costume cultivado até hoje no sul de Moçambique. Segundo esta tradição, a família da noiva recebe dinheiro pela perda que representa o seu casamento e a ida para outra casa. A cerimônia consiste numa oferta de bens — gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros — à família da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família do homem. Por esse motivo, aos olhos ocidentais e dos colonizadores portugueses, a mulher estaria a ser vendida. O dote oferecido serve de fundo para a família da moça. E também como um seguro, pois para anular a união seria necessária a devolução do dote… Imaginem o problema de uma mulher querer se separar: isto obriga sua família a devolver o dote ao seu esposo. Assim funciona o lobolo.

A história de Sarnau e Mwando faz-nos pensar. Ela gira e espreme algumas tradições, dando-nos uma visão clara do que representa a poligamia —  e até dando algumas vantagens a ela quando diz que é uma forma do pai jamais deixar os muitos filhos abandonados –, mas sempre deixando claro que é uma vida insatisfatória para a mulher — brigas, ciúmes entre as esposas, tudo pela atenção do homem — e que garante a inteira supremacia do homem.

A prosa de Paulina Chiziane é leve, fluida e colorida. Não pense que ela discute o lobolo, a pobreza e o colonialismo através de teses ou discursos. SE fosse assim, o livro perderia muito de sua força. Ela apenas demonstra as situações e é brilhante nisto.

Recomendo.

A escritora moçambicana Paulina Chiziane.

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson

O Médico e o Monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde) é uma novela escrita por Robert Louis Stevenson para o Natal de 1865. Este período é tradicionalmente associado a histórias horripilantes na Inglaterra. Lembram de A Christmas Carol de Dickens e de O Ladrão de Cadáveres do próprio Stevenson? Pois é, são o mesmo tipo de narrativa, mas inferiores em qualidade. A publicação de O Médico e o Monstro acabou adiada para janeiro de 1886. Era uma encomenda, devia ter aproximadamente 100 páginas para custar bem baratinho. O resultado foi espantoso: o livrinho foi um enorme sucesso, vendeu 40 mil exemplares nos primeiros seis meses na Inglaterra, foi lido por todo mundo, inclusive pela Rainha Vitória, influenciou toda a literatura de inspiração gótica de sua época, que costumava usar castelos, épocas e locais remotos como palco de estranhos acontecimentos.

Já a novela de Stevenson era diferente. Tinha sua ação situada na Londres da época, com suas ruas escuras e seu fog. Não havia precedentes de histórias que pudessem acontecer na casa vizinha. Mais: não havia precedentes de histórias relativamente plausíveis. Mr. Hyde não é sobrenatural, não é um monstro, apesar de pisar em criancinhas.

O primeiro rascunho de Jekyll e Hyde foi queimado. A esposa de Stevenson, Fanny, reclamou que a alegoria não era forte o suficiente e simplesmente jogou o manuscrito no fogo. Stevenson ficou de cama por três dias e depois escreveu uma nova versão. Envergonhado, disse que era a pior coisa que tinha escrito, mas Fanny gostou da nova versão. Ela sabia das coisas.

O impacto do romance foi enorme e tornou coloquial a expressão “Jekyll e Hyde” usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente, dependendo da situação. A obra explora brilhantemente não somente o terror e a violência, mas o fenômeno das múltiplas personalidades — ou, no mínimo, do lado escuro, mau e escuso que carregamos.

Ou seja, a novela é uma parábola que assusta não somente por conter acontecimentos extraordinários, mas também por estar muito perto de nossa vida psicológica. Quem não tem um lado escuro que por vezes deseja o mal, quem não peca em segredo? E quem não cultiva uma imagem melhor do que a que vê de si mesmo? Note-se também que a Inglaterra vitoriana respeitava neuroticamente reputações e aparências. E Stevenson nos mostra um médico com um lado indefensável.

Quando a Escócia tinha seu próprio dinheiro, Stevenson estava no verso das notas

Sem spoilers: na narrativa, o advogado londrino Gabriel Utterson investiga estranhas ocorrências entre seu velho amigo médico Henry Jekyll e um certo Edward Hyde. Utterson estava preocupado, pois recentemente seu cliente, o respeitável médico Dr. Henry Jekyll, tornou Hyde beneficiário de seu testamento. Quem seria Hyde?

Alguns dias depois, o advogado consegue se encontrar com Hyde e fica muito impressionado. É um ser repugnante e asqueroso, lombrosiano. Sua simples visão deixa o advogado congelado e enojado. Após um jantar na casa de Jekyll, Utterson discute o assunto com o médico, mas este garante que está tudo sob controle e que não precisa absolutamente se preocupar. Meses depois, numa noite, Hyde espanca um importante membro do parlamento com uma bengala que Utterson presenteara a Jekyll.

E não vou contar o resto.

A narrativa é espetacularmente bem escrita. Seu estilo foi tão copiado, mas tão copiado que parece conter clichês. É claro que há mistério e reviravoltas na luta entre o bem e mal. O palco desta luta é interno, psicológico. Não é uma novela apenas para assustar, ela deixa-nos espreitar que toda pessoa carrega diferentes características dentro de si. Algumas delas são exibidas, outras não.

Recomendo demais.

Robert Louis Stevenson

O Outro Lado, de Aldyr Garcia Schlee

O Outro Lado, de Aldyr Garcia Schlee

Dias antes do falecimento de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018), em novembro do ano passado, recebemos na Bamboletras seu último livro, O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Ardotempo, 152 páginas). A leitura do livro, realmente muito bom, só pode nos deixar ainda mais tristes pela perda. A primeira coisa que chama a atenção é a linguagem fronteiriça, algo que talvez só se mantenha naquela região. Costumava ouvir muitas daquelas palavras e expressões da boca de meus pais, parentes e amigos. E isso só até os anos 60 ou 70, porque depois parece que fomos invadidos por um dicionário urbano, feio e descolorido. A linguagem utilizada por Schlee é linda, muito influenciada por uruguaios e argentinos.

Schlee foi escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. Fundou a Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas / UCPel e de lá foi expulso durante o golpe civil militar de 1964. Sua cidade, Jaguarão, é ligada ao Uruguai pela bonita ponte que está na capa de O Outro Lado.

O Outro Lado conta a história de Martita e José Jacinto, personagens humildes em uma paisagem deserta. José Jacinto é um andariego sem paradeiro que gosta mais de pueblos do que de cidades e que vive circulando entre as coxilhas. Martita é a mulher que o espera. É daqueles livros em que delicadas nesgas poéticas giram em torno de um fato muito forte que… não contarei. É um livro é comovente sem ser piegas — ou uma história nada simples de gente humilde. É diferente daqueles livros amalucados de Schlee – também ótimos — sobre Gardel, Jaguarão e Melo, como, por exemplo, O Dia em que o Papa foi a Melo, livro de contos que deu origem ao filme O Banheiro do Papa.

Schlee tem extremo senso de estilo e bom gosto literário. Ele amava o Brasil de Pelotas e o Inter de Porto Alegre. Nossa, foi uma pessoa perfeita, daquelas que estavam lá no topo da evolução.

Recomendo muito.

Aldyr Garcia Schlee | Foto: Gilberto Perin

A Vegetariana, de Han Kang

A Vegetariana, de Han Kang

Em 2016, A Vegetariana venceu o Man Booker International Prize, em cuja lista de finalistas estavam livros de Elena Ferrante, Orhan Pamuk e José Eduardo Agualusa.

No início, A Vegetariana parece ser um romance sobre pessoas absolutamente comuns. Kang brinca de Gógol, ao dizer que Yeonghye era alguém que não tinha nada de especial: não era alta nem baixa, tinha o cabelo nem curto nem comprido, não era atraente nem repulsiva etc. Quando a conhece, o marido pensa que não havia motivo para não casar com alguém tão modesta, silenciosa e comum. Mas um dia ela subitamente decide deixar de comer carne. O marido — também um ser mediano, nem inteligente nem burro, nem bonito nem feio –, acha um absurdo vê-la jogando fora tudo o que tinha de carne na geladeira.

O fato não parece ter grande importância a não ser para o marido, mas leva a vida do quarteto principal de personagens — a vegetariana Yeonghye, a irmã dela e seus maridos — a uma espiral de destruição.

O livro tem três capítulos bastante distintos. O primeiro é narrado pelo marido da vegetariana; o segundo, pelo marido da irmã, que tem enorme tesão por Yeonghye, e o terceiro vem da parte da irmã da vegetariana.

O livro perde muito se for lido como uma história fechada em si, basta erguer os olhos do livro para concluirmos que há muitas referências externas e atuais. Há uma pesada ironia na repetida frase da vegetariana que diz  que “teve um sonho”, frase que ressoa outras vozes ligadas aos direitos civis dos negros americanos. Daí, podemos pensar que ela tem direito a seu próprio corpo e a não aceitar que se cometam o que pensa ser violências. O texto de Kang é literalmente muito próximo da pele da personagem. Yeonghye murcha, desenha flores sobre a pele, engorda, definha, respira, tudo sob os nossos olhos.

Não é um livro pra cima, claro. É um sufoco ler um história muito bem escrita a respeito de uma pessoa que quer abandonar a vida. Só não me venham reclamar que é um livro contra os vegetarianos ou veganos. Aí, sou eu quem se mata. Afinal, temos que usar metáforas e representações de coisas que estão no mundo, correto?

Han Kang

A Aventura do Estilo, de Henry James e Robert Louis Stevenson

A Aventura do Estilo, de Henry James e Robert Louis Stevenson

Este é um curioso livro que reúne dois escritores muito diferentes: Henry James (1843-1916) e Robert Louis Stevenson (1850-1894). O volume abre com dois ensaios, um de James sobre A Arte da Ficção e a devastadora resposta de Stevenson na forma de outro ensaio. Depois vemos formar-se uma improvável amizade entre ambos — escritores de estilos, interesses e forma de viver muito diversos — que ficou registrada em numerosa correspondência que pode ser lida em A Aventura do Estilo.  O livro finaliza com mais dois ensaios de James, ambos, é claro, sobre Stevenson.

Li muitos livros de James durante a juventude. Adorava suas análises psicológicas, seus personagens sofisticados e sua forma literária de fazer muito com pouco. A literatura de James dá imensa importância ao psicológico e, durante o ensaio A Arte da Ficção, ele cita de passagem Robert Louis Stevenson.

Já Stevenson é uma admiração mais recente. Este escocês é totalmente diferente ao inserir fatos espetaculares e muito de romanesco em suas histórias. Em seu ensaio-resposta, Stevenson detona James principalmente ao dizer que o romance não tem a capacidade de imitar a vida, mas apenas de  representá-la. Ademais, seu projeto literário é totalmente diferente, dando grande importância ao entretenimento e à imaginação.

O resultado é que, de forma surpreendente, James admite tacitamente os argumentos de Stevenson e eles se tornam grandes amigos, tendo acontecido inclusive o fato de James ter alterado (de leve) sua forma de escrever sob a influência do amigo. Ambos eram escritores conhecidos e respeitados. James era tido por profundo enquanto Stevenson era mais popular.

A correspondência entre ambos fala sobre literatura, mas também sobre as dificuldades de cada um. Stevenson é um britânico cuja saúde não pode com o frio e ele se muda para Samoa, no meio do Oceano Pacífico. Lá, pode viver. Ele tem sucesso literário e talvez fosse rico na Inglaterra. Já em Samoa, tem que lavrar a terra para poder comer. Enquanto isso, James é um norte-americano naturalizado inglês que é mais inglês do que qualquer outro escritor. Ama Londres e a cultura da Europa, mas ganha muito pouco com seus livros. Na correspondência, ficamos sabendo que ele até tenta escrever peças de teatro a fim de levantar alguma grana.

No final do livro, após a morte de Stevenson, James faz dois ótimos ensaios laudatórios ao amigo.

A Aventura do Estilo é bom livro, principalmente se você tem familiaridade com a dupla de autores.

O aristocrata norte-americano James e aventureiro britânico Stevenson.

Balcão de Livraria, de Herbert Caro

Balcão de Livraria, de Herbert Caro

Raramente um livro é tão prazeroso para mim quanto foi este. Fui amigo do Dr. Herbert Caro. Durante anos, aos sábados pela manhã, eu e um pequeno grupo de jovens íamos até o porão da King`s Discos, na Galeria Chaves, onde se vendiam discos de música erudita, menos para comprar discos e mais para ouvi-lo falar. As palestras eram sobre quase qualquer coisa, pois ele parecia dominar todos os assuntos relativos à música, literatura e artes plásticas. E havia os dias mais maravilhosos, onde um tema principal não se estabelecia e podíamos falar de Bach, Vermeer, Beethoven, Bosch, Mozart, Canetti, Thomas Mann, Hördelin e da literatura brasileira, tudo misturado. Não eram bem palestras, eram conversas, mas que conversas!

O Dr. Caro tinha algo de muito peculiar. Ele se expressava bem, tinha muito humor e, mesmo sabendo infinitamente mais do que nós, deixava-se interromper a cada momento. Ou seja, ele nos ouvia. Uma vez, brinquei que encontrara um problema em sua tradução de A Montanha Mágica. Ele se voltou para mim com simplicidade e disse que depois eu deveria lhe mostrar onde estava o equívoco. Todos riram, mas ele não. Ele achara natural que eu o corrigisse.

Ganhei este volume de presente de uma amiga da Bamboletras que sabia de minha relação com o Dr. Caro. É uma verdadeira relíquia e estou muito agradecido. Afinal, todos sabem que o Dr. Caro escrevia ainda melhor do que falava, vide suas inigualáveis traduções e notáveis crônicas. E ele tinha um uso peculiar do idioma, talvez apenas explicado pelo fato de conhecer as raízes dos vocábulos.

Bem, vamos contextualizar. O tradutor, crítico musical e erudito Herbert Caro foi um dos grandes alemães que aqui aportaram fugindo da perseguição aos judeus na Alemanha. Chegou em 1935. Antes de viajar, teve aulas de português — sim, ainda na Alemanha, aprendeu suas três mil primeiras palavras na língua de Camões e nossa gramática. Veio para Porto Alegre e, entre outros trabalhos, foi balconista de uma extinta livraria da Rua da Praia, a Americana. Na verdade, além de balconista, era gerente da seção de livros importados da livraria. Lá permaneceu por 5 anos. Enquanto trabalhava, publicava suas crônicas de livreiro no Correio do Povo. A coluna chamava-se Balcão de Livraria. Ele deixou a Americana antes de 1960.

Em razão da alta qualidade dos textos, as crônicas eram reproduzidas por jornais do centro do país. Caro costumava antes mostrá-las a Erico Verissimo, que as revisava, mas a voz é de Caro. (Conheço-a bem por ter  lido durante anos, semanalmente, suas críticas sobre música erudita, também publicadas no Correio).

O livro Balcão de Livraria é de 1960 e traz 17 crônicas selecionadas. Os textos são deliciosos, o humor está sempre presente e é refinadíssimo. A forma como Caro dominava o português é algo absurdamente perfeito. Os temas tratam desde de pedidos errados ou amalucados de clientes, como propostas educacionais para promoção da leitura no Brasil dos anos 50-60, reclamações de que não há no Brasil publicações para livreiros e editores que tragam os lançamentos mensais de uma forma organizada e reflexões gerais sobre o ofício e a vida brasileira.

Garanto-lhes, o livro é de qualidade espantosa.

Leia um trecho do que ele diz sobre vender livros na época do Natal:

“Cabe ao livreiro envidar esforços para impedir os erros. Ele, que tem a obrigação de saber alguma coisa sobre o conteúdo de cada uma das obras expostas, pode servir de casamenteiro entre o presente e o destinatário. Como na maioria das vezes desconhecerá o segundo, deverá indagar do tipo de pessoa que este representa, dos assuntos que lhe interessam e, melhor ainda, dos livros que nos últimos tempos tenha lido com agrado. Embora na época do Natal haja muito movimento, sempre sobrará o tempo necessário para fazer algumas perguntas rápidas neste sentido. No começo, alguns fregueses estranham o pequeno interrogatório ao qual os submete o livreiro, mas depois de pouco tempo notam que desta forma se facilita a escolha. Em última análise ficam bem impressionados e retornam à livraria”.

Herbert Caro, Balcão de Livraria (1960)

Aqui, provavelmente Caro estava falando de Canetti, sempre com humildade, ouvindo seu interlocutor.

O Rei das Sombras, de Javier Cercas

O Rei das Sombras, de Javier Cercas

O Rei das Sombras é Manuel Mena, um tio do autor Javier Cercas. Aos 19 anos, em 1938, este tio morreu na Batalha do Ebro, a mais sangrenta de toda a Guerra Civil Espanhola. Para vergonha de Cercas, o tio era falangista, um apoiador de Franco. Mas era (é) o verdadeiro herói de sua família, principalmente de sua mãe e tias que o citavam (citam) como um ser perfeito. Pura idealização, claro. Mena morreu quando era tenente de um grupo de atiradores, uma unidade de assalto. O livro conta duas histórias entrelaçadas: o da investigação de Cercas a respeito de seu tio e a crônica de sua história até a morte.

Na narrativa dos acontecimentos, Cercas não faz conjecturas, não chuta nada. É tão pragmático que exagera, evitando usar a primeira pessoa e chamando a si mesmo de Javier Cercas, um membro a mais da família. O autor passa boa parte do livro tateando entre sombras e revelações, dúvidas e descolamentos pela Espanha, e os melhores momentos são as conversas com os companheiros de viagens e as testemunhas do passado, na tentativa de reconstruir a história fática e moral dos envolvidos.

O final do livro é excelente. Sem spoilers, digo que Cercas viaja para Bot a fim de visitar o hospital de campanha que viu os últimos momentos de Manuel Mena. Um vizinho local e sua mãe sabem quase tudo, mas como arranhar a realidade do que pensava Mena?

Pobre morador do pequeno povoado onde nasceu Cercas, há sinais de que Manuel Mena talvez tenha compreendido que estava perdido numa guerra que não era sua. Mas como fazê-lo sair de seu silêncio?

Por vergonha, Javier Cercas sempre relutara em investigar a história do tio-avô fascista herói familiar, na verdade um anônimo fora das salas da família que ostentavam sua única foto vestido como milico.

O Rei das Sombras não chega ao nível da obra-prima que é Soldados de Salamina. Há muita informação desnecessária sobre a investigação de Cercas. Apesar da prosa sempre ágil, bem humorada e original de Cercas, há muita erudição sobre movimento de tropas, batalhas ganhas e perdidas, coisas que podem fazer a alegria de um historiador, mas que incomoda um leitor comum como eu. Mas a análise dos mistérios do heroísmo pessoal e coletivo é interessante. 

Cercas: bom livro, mas que só deve ser procurado por quem já leu Soldados de Salamina

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXV – Almas Mortas, de Nikolai Gógol

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXV – Almas Mortas, de Nikolai Gógol

Tinha lido Almas Mortas quando adolescente, lá nos anos 70. O romance era o volume 42 da coleção Os Imortais da Literatura Universal, da Abril Cultural (livros vermelhos, capa dura, letras douradas, já viram?). Mas aquela velha tradução — mesmo sendo de autoria da ótima Tatiana Belinky — não se compara com o esplêndido trabalho de Rubens Figueiredo na edição recém lançada pela fundamental Editora 34.

Almas Mortas é um livro especialíssimo por diversas razões. Comecemos pelo fato de ser um romance inacabado. Explico: após publicar a primeira parte, Gógol tentou várias vezes completar o romance. Na segunda parte, ele demonstraria seu amor à Rússia e aos russos. Ele fez várias tentativas de escrevê-la e queimou várias vezes os manuscritos da mesma. O caso foi grave. Ele trabalhava um, dois anos e queimava. Escrevia mais e voltava a queimar tudo. Acho que o artista venceu. Ele não quis matar a primeira parte, dobrando-se a quem o criticara por ridicularizar seu país.

Em segundo lugar, há a modernidade. Na verdade, em muitos manuais de literatura o romance é qualificado como a primeira obra moderna da literatura russa. A leitura do livro confirma. O romance é moderno na criação de personagens nem bons nem maus, nem virtuosos nem exatamente corruptos, nem lindos nem feios, nem isso nem aquilo, nem gordos nem magros, como tantas vezes brinca Gógol. Durante a leitura, você esquece que aquilo foi escrito há quase dois séculos e com o romantismo ainda lacrimejando na Europa. Gógol concebeu uma obra que mostra a náusea da sociedade russa (e, por que não, de qualquer sociedade) através de uma história que se desenrola com extrema agilidade. Porque o enredo do livro, longe de ser um acessório, é um elemento importante. Vamos a ele SEM spoilers.

O hilariante Almas Mortas conta a história de Tchítchikov, um personagem que chega um dia à cidade de N. para empreender um negócio desconcertante. Ele busca estabelecer relações com os mais importantes proprietários de terra do lugar e faz a eles uma estranha oferta: comprar seus servos já falecidos a fim de que eles não precisem mais pagar ao Estado os impostos relativos àqueles. Ou seja, em linguagem do Brasil Imperial, ele comprava escravos mortos. As reações variam muito, mas ninguém sabe exatamente o motivo pelo qual Tchítchikov precisa das tais almas mortas.

As viagens de Tchítchikov dão-nos uma excelente visão da relação entre proprietários e servos e do funcionamento da economia da Rússia czarista. Mas há mais: de forma brilhante, Gógol cria alegorias, dando sentido a uma série de fatos aparentemente desconexos e de lógica escorregadia. Sob o manto de uma história cheia de humor e caricatura, de fervilhante energia, há outra realidade que o autor apenas nos deixa espreitar em momentos arrebatadores.

A resposta para a questão da compra de almas não é o ponto crucial do livro, mas contribui significativamente para criar uma atmosfera misteriosa em torno do personagem principal e de suas ações. Fundamental é o modo como Gógol retrata seus personagens. Tchítchikov é nobre na forma, mesquinho em pensamento. O cocheiro Selifán é bêbado e mentiroso. Nozdrióv é trapaceiro e escandaloso. Outros são corretíssimos e burros. Ou inteligentes. Ou corruptos. Enfim, uma fauna. São muitos personagens para descrevermos aqui, mas fica-se impressionado pela vivacidade deles. A gente devora o livro. Não há seres atormentados como em Dostoiévski. As criaturas de Gógol são mais amostras humorísticas de tipos sociais provavelmente existentes, acentuadas pela visão impiedosa do escritor.

Gógol ama descrever a figura do funcionário administrativo e retrata-o sempre de uma forma burlesca e satirizada. Todas as descrições apontam para uma sociedade extremamente burocratizada e de complexa hierarquia. Quando Tchítchikov chega à província, vai cumprimentar o governador, o vice-governador, o procurador, o presidente do tribunal, o chefe da polícia, os maiores donos de terra, os menores, os famosos alguéns, todo mundo. Ou seja…

O tema de Almas Mortas foi oferecido a Gógol por Púchkin. Os dois tinham-se conhecido em 1831. O seu relacionamento seria estreito e Gógol revelou a Púchkin os manuscritos do romance para serem avaliados. Púchkin esperava algo ainda mais cômico, mas aprovou o livro. Em 1842, os censores autorizaram a publicação do romance na Rússia e o escândalo, sobretudo entre as classes dirigentes, foi imediato. Acusaram Gógol de descrever uma Rússia falsa, muito pior do que ela seria. No livro, o país estaria afundado em tolice, ineficiência e corrupção.

Como já disse, a continuação de Almas Mortas foi destruída várias vezes. Naqueles anos, Gógol desenvolvera uma relação obsessiva com a religião. Sucessivas depressões levaram-no a recusar-se a ser tratado e alimentado, vindo a falecer em 1852, dez dias depois de ter queimado novamente o segundo tomo de Almas Mortas. Ainda hoje, gerações de leitores se perguntam como acabaria Tchítchikov. Um tanto cruelmente, podemos considerar a queima dos manuscritos de Gógol como seu último grande ato como escritor. Assim, ele nos legou uma obra incerta e ambígua. Sabemos que ele queria, nesta segunda parte, demonstrar a bondade do povo russo. Ele desejava melhorar a relação com quem o criticara… Ora, cremos que… Foi melhor deixar assim o herói canalha… A obra-prima está incompleta e isto é perfeito.

Trechos de uma carta de Nikolai Gógol:

Eu teria sido perdoado se [em ‘Almas Mortas’], tivesse retratado monstruosidades, mas por mostrar a vulgaridade não me perdoaram. O que assustou o homem russo foi a insignificância, mais do que os vícios e limitações. É um fenômeno impressionante! Um belo susto!

(…)

Quando eu comecei a ler para Púchkin os primeiro capítulos do livro, ele, que sempre rira com minhas leituras (ele era um apreciador do riso), foi aos poucos ficando soturno. Quando a leitura terminou, ele articulou em tom de voz melancólico: “Meu Deus, como é triste a nossa Rússia”.

Ele (Tchítchikov) percorre a nossa terra russa, encontra gentes de todas as condições, nobres e gente “pequena”. Se eu o escolhi foi para evidenciar não os méritos e as virtudes do povo russo, mas sim os seus defeitos e vícios.

É em vão que o senhor se indigna com o tom imoderado de alguns dos ataques a ‘Almas Mortas’. Isso tem seu lado bom. Por vezes, é necessário ter contra si os amargurados.

A apresentação de eventos ocorridos provam o caso muito melhor do que simples palavras e verborragia literária.

Nikolai Vassílievitch Gógol (1809-1852)

Aqueles que queimam livros, de George Steiner

Aqueles que queimam livros, de George Steiner

Este curto e brilhante ensaio de George Steiner, recém lançado pela Âyiné, divide-se em três partes: Aqueles que queimam livros, O povo do livro e Os dissidentes do livro.

Steiner é um mestre absoluto. Erudito e metódico, ele é autor de um impressionante número de clássicos para os estudiosos de humanidades — entre os quais Nenhuma Paixão Desperdiçada, Lições dos Mestres e este livro que ora comento.

Steiner não é um otimista, mas dá alguns remédios: os livros seriam um meio seguro para nos tornamos melhores. Pode parecer algo já muitas vezes dito, mas o que vale é a argumentação certeira de Steiner. Li o livro fazendo inúmeras anotações, não dá para abrir meu exemplar sem que se vejam frases ou parágrafos sublinhados. Tudo parece fundamental, necessário, perfeito.

A primeira parte trata do encontro, da relação entre leitor e livro. Esta é imprevisível, vulnerável à mudanças de espírito ou de idade, muito semelhante às afinidades mediadas por Eros.

O encontro com o livro, assim como aquele encontro com o homem ou a mulher destinada a mudar nossas vidas, pode ser completamente casual. O texto que vai nos converter a uma fé, que vai nos fazer aderir a uma ideologia, que dá a nossa existência um fim ou um critério, pode estar a nos esperar na estante de livros de ocasião, de usados, com desconto. Talvez empoeirado e esquecido, ao lado do livro que procurávamos. (…) Um texto é sempre capaz de ressuscitar. Walter Benjamin ensinava, Borges construiu sua mitologia: um livro jamais é impaciente. Ele pode esperar séculos para despertar um eco vivificante.

A segunda parte trata dos judeus e de seu amor pelos livros. Trata do fato de um religioso judeu ter de ler e estudar a Torá, de ser um povo que tem um lápis na mão ao ler um livro. Também fala na resistência da igreja católica à invenção da imprensa. A invenção de Gutenberg serviu muito mais aos protestantes, pois os católicos desejavam seguir com a informação oral, pelos padres.

AM Bamboletras Horizontal 630x123 Contatos

A terceira parte fala sobre a tirania do celular, o livro digitalizado e sobre as condições políticas e culturais que favorecem ou não o livro. Fala-se da postura dos escritores e filósofos nazistas — habitantes de um país altamente culto e produtivo mesmo durante Hitler –, de Wagner, da variedade demencial de lançamentos de livros — 121 mil novos títulos são lançados no Reino Unido a cada ano — e de sua efemeridade, pois se não vendem vão para o balcão de ofertas em 20 dias. Fala-se também na relação entre censura — a grande propulsora de metáforas, segundo Borges — e criatividade.

Sem dúvida, um livro de um mestre, um clássico moderno.

George Steiner (1929) | Wikimedia Commons

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa

Daniel, o narrador, sonha com pessoas que não conhece. Moira fotografa os próprios sonhos. Hélio construiu uma máquina de filmar os sonhos de seus pacientes. Hossi passeia por pelos sonhos alheios. Karinguiri sonha com utopias.

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários fica um degrau abaixo de Teoria Geral do Esquecimento e de O Vendedor de Passados, o que é um elogio generalizado a estas três obras de Agualusa. Poético — claramente influenciado por García Márquez — e violento, é um gênero de literatura que cabe ao país sem perdão que talvez nos tornemos nos próximos quatro anos.  Hossi teve participação na Guerra Civil que sucedeu a independência de Angola, Karinguiri atua na luta pela democracia.

Eu fui um jovem que amava as grandes frases e citações. Sublinhava tudo. Tentava lembrar depois. Se tivesse lido este livro em minha juventude, eu o amaria pelas belas imagens e expressões perfeitas.

Como um avião atrasado, a trama passa muito tempo taxiando, isto é, demora a se colocar na pista para decolar. Só ganha velocidade quando o narrador nada na frente de hotel de Hossi e encontra uma máquina fotográfica boiando na água, com fotografias que incluem uma mulher nua. Daniel descobre que a máquina pertence a Moira Fernandes, a mulher que o visita em sonhos. E ele vai ao encontro dela na África do Sul para lhe devolver a máquina e tentar entender os próprios sonhos com gente que nunca conheceu.

Enquanto isso, sua filha é presa pelo regime de José Eduardo dos Santos e faz uma greve de fome — baseada num episódio real –, despertando um país que dorme acordado. Personagem fundamental do romance também é Lucrécia, ex-mulher e mãe da filha de Daniel, Karinguiri. Lucrécia é uma filha de um poderoso do regime. Ela culpa Daniel pela filha contestadora. Cada um de seus telefonemas rende…

Um dos melhores e mais originais livros de Agualusa.

Mudança, de Mo Yan

Mudança, de Mo Yan

Maravilhoso livrinho agridoce do chinês Mo Yan. Mudança só é passível de ser encontrado em sebos porque se trata de uma edição da pranteada Cosac Naify. Uma pena.

Bem, Mo Yan é um mestre. Mudança é um livro de memórias. Porém, além de lançar flashes biográficos com muito humor, o autor se propõe a mostrar algumas mudanças ocorridas na China durante a segunda metade do século XX. Digamos que ele vai da revolução à corrupção (última linha do livro).

Alternando com histórias de dois colegas de escola, Mo Yan cria um retrato singular e simpático da vida na China. Retrato singular e simpático da DIFÍCIL vida na China. É curiosa a participação que dois caminhões soviéticos Gaz 51 têm na narrativa. Delicadamente, em tom menor, Yan conta sem ênfases ou dramas como saiu do campo para o quartel e depois para a literatura.

Em 2012, Mo Yan (1955) se tornou o primeiro cidadão chinês a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Ele nasceu na província de Shandong, numa família de trabalhadores rurais. Deixou a escola durante a Revolução Cultural e, com 20 anos, alistou-se no Exército Popular de Libertação, as forças armadas do país. Nessa época começou a escrever. Seu pseudônimo foi escolhido logo no início da carreira e significa “não fale”. Numa entrevista recente explicou que o nome se refere ao período revolucionário da década de 1950, quando seus pais o instruíam a não falar tudo o que pensa quando em público.

A Cia. das Letras publicou faz poucos anos o também elogiadíssimo As Rãs.

Mo Yan: mestre.

Um Outro Amor (Minha Luta 2), de Karl Ove Knausgård

Um Outro Amor (Minha Luta 2), de Karl Ove Knausgård

Neste segundo volume, lá perdido no texto, Knausgård diz que “apenas está tentando ser uma pessoa decente”. E céus, como é complicado! É óbvio que a tentativa dele me atinge profundamente, página a página, linha a linha. Difícil largar o livro. E aí a gente entende porque o título geral da obra é “Minha Luta”. 5 livros já foram traduzidos. Falta o sexto.

Impressiona a enorme capacidade do autor em transformar a vida comum em grande literatura. Além disso, a semelhança que vejo entre os pensamentos, modos, atitudes da criança, adolescente e adulto lá na fria Noruega e eu e as pessoas que conheço aqui no Brasil me deixam muito pensativo.

Depois de A Morte do Pai, neste segundo livro de sua autobiografia precoce, Karl Ove Knausgård está vivendo o início de seu segundo casamento e terá três filhos com Linda, uma poetisa sueca com aspirações à atriz pela qual teve súbita paixão. No volume, ele dá novo salto no tempo, indo direto para o período posterior ao final do primeiro casamento, quando decide sair da Noruega e ir morar na Suécia, praticamente de um dia para o outro.

Mas nada é tão fácil quanto parece. O casal discute e se irrita muito, a existência dos filhos muda suas vidas e os pressiona de todos os modos. Todos os problemas conjugais são descritos com a habitual franqueza do autor, que se irrita com a mulher e as crianças, que quer muitas vezes se isolar, que sofre humilhações que só ele nota…

Há também problemas de adaptação ao novo país. O autor chama os suecos de estúpidos, pensa que o politicamente correto adotado pelo país, com suas regras e posturas sociais, sufocam a individualidade. Knausgård é muitas vezes visto como um selvagem, tão notáveis são as diferenças entre as posturas norueguesas e suecas.

Este volume consegue o milagre de ser ainda mais fluido que o primeiro. Há muitos e bons diálogos, tanto entre o casal como entre seu melhor amigo Geir e grupos de amigos. Aliás, a arte de Knausgård torna bons quaisquer diálogos.

Também permanecem as digressões e saltos no tempo. Como “Em busca do tempo perdido” é impossível prever como será o próximo capítulo. O que novamente surpreende é a narrativa sem reservas — sem a menor intenção de esconder eventuais pontos escuros, egoístas e violentos — e a onipresença de fatos onde o autor decididamente não brilha.

O motivo do sucesso internacional? Ora, os temas são universais e humanos, narrados com notável franqueza, expondo a si, a mulher, os filhos e os amigos de uma forma pouco usual. Quem não morre de amor por seus filhos, ao mesmo tempo que se vê sufocado por eles, quem não se desespera? Knausgård descreve tudo isso com ritmo, fazendo-nos mergulhar em vidas completas, profissionais e íntimas. Dele e dos amigos.

O título sugere algum enredo romântico e ele existe. Ele, a dor, as hesitações, as idas e vindas preenchem cada espaço.

Recomendo fortemente.

Karl Ove Knausgard e sua esposa Linda | Fotos: Divulgação

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXIV – Anna Kariênina, de Liev Tolstói

KariêninaEm meio a leitura fiz a seguinte anotação:

Li rapidamente um terço do livro de 814 páginas. Incrível como minha lembrança do romance era distorcida. É ainda melhor do que eu lembrava. Tolstói não é aquele estilista perfeito — usa estranhas pontuações e repete palavras tal como o tradutor Rubens Figueiredo (excelente) referiu no prefácio. Por exemplo, nas páginas 241-242 há um parágrafo de quase uma página onde a palavra “camponeses” aparece 15 vezes. Sem problemas, o homem sabe contar uma história como ninguém. Tais repetições não revelam descaso com o texto. Tolstói era um escritor cuidadoso, revisava muitas vezes seus textos que depois eram passados a limpo à noite por sua mulher. Ele usa as repetições em seu hábil discurso livre indireto, inserindo-se nas idiossincrasias e vícios de linguagem dos personagens.

Outra coisa é que as descrições nunca são contadas sem o filtro e a emoção de um personagem. Não são descrições mortas, sem ação, Tolstói integra tudo, fica lindo. Vemos a propriedade de Liêvin enquanto o mesmo sofre e trabalha nela. Nada para, tudo narra.

Esta tremenda obra de arte muito bem planejada é cheia de pequenos detalhes significativos. Há dois personagens principais, Liêvin e Anna. Em torno deles gira toda a ação, com apenas dois ou três pontos de contato mais claros, Kitty, Oblónski e sua mulher Dolly. Duas perspectivas da mesmíssima Rússia. Um painel? Sim, mas um painel de câmara, sem e com maior grandiosidade do que em Guerra e Paz.

Tal como na primeira leitura, que fiz aos 17 anos, o bovarismo de Anna me parece mais antipático do que o da heroína de Flaubert, mas sua impulsiva irreflexão é um dos pontos altos do romance. Uma coisa de que não lembrava era da ironia de frases que se contradizem em grande parte do romance. Às vezes umas contra as outras, às vezes internamente.

(Paixão de outros: estou num banco para falar com uma gélida gerente de contas. Ela se levanta para ver se um cartão está na agência. Quando volta, interrompe arregalada o ato de sentar. Fica suspensa olhando para o livro de Tolstói e me diz lenta e saborosamente: Anna Kariênina… eu simplesmente amo esse livro! Senta-se e começa a falar comigo com se fôssemos velhos amigos).

.oOo.

Bem, alguns dias após a leitura, procurando olhar o livro com impossível distância — durante um mês travei de grande intimidade com todos aqueles russos e não dá para negar que me envolvi com eles… — , dá para notar que a obra-prima de Tolstói funciona como um Gioco delle coppie (Jogo das Duplas). A narrativa vai todo o tempo em dois focos: de Anna-Vronski para Liévin-Kitty e de volta para Liévin para Anna. Mas há também Moscou e São Petersburgo (Moscou parece São Paulo; Petersburgo, Rio de Janeiro…), Vronski e Kariênin, os dois filhos de Anna, o campo e cidade, Aglaia e a modenidade. E podemos formar outras duplas contrastantes entre Liévin e seus irmãos, Anna e Kitty, etc.

Além da boa e famosa trama, da extrema habilidade de Tolstói como narrador — que se manifesta de forma espetacular quando das crises de Anna e na cena do parto de Kitty –, chama atenção o caminhão de realismo despejado pelo autor sobre seus personagens. Anna está a léguas de poder aspirar a condição de boa pessoa do século XIX ou de qualquer tempo. Na época, ser virtuoso era o que mais contava e ela, passando por cima de Kitty, largando o marido por pura concupiscência (OK, bom motivo), renegando a filha ainda bebê e sendo suscetível a atitudes muito, mas muito impulsivas, está longe da perfeição e muito próxima do que vemos por aí. Tolstói não faz o gesto de justificá-la assim ou assado. O leitor da época devia ter ficado bastante desconfiado… Vronski, o amante, é bem melhor, mas sua entrada no romance é a de um militar bonito (o autor gosta de citar seus dentes perfeitos), vaidoso e bastante chato. Kariênin, o marido traído, é um carola que obedece aos mandamentos divinos e consegue errar em tudo, principalmente na avaliação de si mesmo. Melhor é Liévin, o alter ego das maluquices idealistas de Tolstói que tem consciência de que todos o acham meio louco. Talvez, à exceção de Anna, que vive de amor e de impulsos, seja muita gente bem intencionada vivendo junto.

Oblónski, irmão de Anna, é o brilhante personagem que liga os dois lados do romance, o de Anna e o de Liévin. É um tipo bem Turguêniev: é simpático, tem impecável trato social, trai a esposa sem deixar margem à dúvidas e vive muito feliz, endividado e endividando-se. Mas chega de personagens.

O livro de Tolstói é de açambarcante virtuosismo. As descrições estão totalmente permeadas de humanidade, a trama e os mais mínimos conflitos são construídos com cuidado. As cenas de amor pelo povo e pelo campo, protagonizadas por Liévin, poderiam ser um porre na mão de um escritor médio. Na mão de Tolstói, deixam a gente repleto de literatura.

Não me arrependi de modo nenhum de relê-lo. Foi um bom investimento em 814 páginas perfeitas.

Ah, a tradução do russo de Rubens Figueiredo acompanha pari passu a qualidade de Tolstói.

leon-tolstoi-800x445

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

Vendedor de Passados AgualusaExcelente livro de José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados tem como narradora principal uma lagartixa. E esta conta a história de Félix Ventura, um negro albino que vende passados para quem não gosta muito do seu. Seus clientes são prósperos empresários, políticos e militares que têm assegurados seus futuros em Angola. Todavia, falta-lhes um passado que possa ser divulgado. O cartão de visitas de Ventura diz: “Dê a seus filhos um passado melhor”. A lagartixa Eulálio acompanha o trabalho de Félix dentro de sua enorme biblioteca, cheia de recortes de jornais e revistas de várias épocas, para consulta. Afinal, o passado tem de ser plausível, se possível colorido e sedutor. Deve ser real, ou quase.

Se a história de Agualusa é boa, a execução é ainda melhor. Sem spoilers, posso dizer que um dia aparece na casa de Félix um estrangeiro que precisa de uma nova identidade, uma identidade angolana. O livro foca-se neste trabalho. Félix arranja-lhe um passado caprichado, que é curiosamente bem complementado pelo cliente. Tudo acaba de forma surpreendente, deixando em pé a narrativa de Agualusa, a qual conta, ao final, com outros narradores. Não é possível  em alguns trechos identificá-los.

Diz Felix Ventura, citando um escritor:

Sou mentiroso por vocação. Minto com alegria. A literatura é a maneira que um verdadeiro mentiroso tem para se fazer aceitar socialmente.

E o próprio Félix acrescenta:

Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura. Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade.

É claro que o livro é uma bela fantasia lúdico-poético-política de Agualusa. Ao final do narrativa, há uma súbita e bem construída tensão. Sim, o cliente não tinha tido vida fácil.

O Vendedor de Passados (2004) foi multi-premiado. É um raro livro simples que não é raso, inteligente sem ser pedante, porém, um tanto paradoxalmente, requer atenção para ser degustado adequadamente.

Recomendo!

A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

José Eduardo Agualusa
José Eduardo Agualusa — fantasia lúdico-poético-política.

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo

Caderno de Memórias ColoniaisO impacto deste livro em Portugal foi imenso. Isto deve-se ao fato de que o texto quebrava o mito de certa versão cor-de-rosa que boa parte da sociedade portuguesa seguia cultivando sobre o período colonial africano. Este teria sido muito mais um auxílio ao continente do que violência e opressão… Mas o livro de Isabela Figueiredo vai adiante de meras observações sociológicas, tratando da traição da autora às opiniões e à memória de seu pai, um colonizador daqueles bem típicos. Na verdade, Isabela sempre foi uma loira-negra, permanecendo solidária ao sofrimento dos negros e identificado-se com sua cultura. Seu pai era excelente como pai e a autora o amava, mas havia o lado B do colonizador que podia agredir funcionários e tinha a opinião de que todo e qualquer negro era incapaz de se organizar e era tolo, mesmo que sua pele tivesse sido salva por um deles, seu vizinho.

A autora sabe do que fala. Nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo, e permaneceu no país até alguns dias depois da descolonização. Na verdade, saiu fugida porque os colonizadores estavam sendo perseguidos. É um livro raro porque há pouca informação sobre a vida real nas colônias, mesmo sob a perspectiva dos retornados. e retornadas. Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 180 págs.) nos conta tudo isso em 51 brilhantes textos escritos na primeira pessoa do singular, sem poupar detalhes. O livro reescreve a história oficial, mostrando desde o racismo do dia a dia — nosso íntimo também no Brasil — até às agressões que sofreram os colonos depois do 25 de Abril.

O testemunho de Isabela nos mostra a diferença de tratamento através dos olhos de uma criança que se retirou do país aos 13 anos, também fala da exploração do trabalho — os “pretos do meu pai” — e o medo colonial que gera e justifica a violência.

Há também o sexo. Os colonos gostavam de transar com as negras e as pagavam na frente de seus maridos, humilhando-os. As mulheres dos colonos “compreendiam” tal atração: afinal, as negras estariam mais perto da natureza, teriam a vagina mais aberta (?), fácil e convidativa… Isso era o que elas diziam.

Porém, além de toda a informação, há a excelente escritora que é Isabela Figueiredo. Sua prosa é de primeira qualidade, ao mesmo tempo clara e lírica. Se fosse um livro comum, ficaria como documento. Seu sucesso de crítica e público deveu-se à linguagem de Isabela, que catalisa sentimentos, impulsiona e dá colorido adequado a tudo que é contado.

Recomendo fortemente!

Isabela Figueiredo
Isabela Figueiredo

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXIII — Ao Farol, de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXIII — Ao Farol, de Virginia Woolf

ao_farol_virginia_woolfUm crítico escreveu algo assim: “Li Ao Farol da mesma forma como costumo comer chocolate, pretendendo fazê-lo aos poucos entre outros afazeres, só que logo me deu aquela vontade incontrolável de ler tudo sem parar”. Certamente isso não se deveu a uma trama envolvente, nem a casos românticos para os quais ele precisasse saber do desenlace. E realmente, os livros de Virginia Woolf quase deixam de lado a trama e se fixam nas minúcias humanas, mesmo que a seção central de Ao Farol fale de como uma casa se deteriora. O curioso é que sou um sujeito que pede alguma profundidade dos romances, mas a diluição de VW jamais me incomoda, pois há profundidade de observação — mesmo que seja de coisas secundárias –, assim como qualidade narrativa, clareza estrutural e estupenda criação de personagens.

O livro trata da família Ramsay, casal, oito filhos e agregados em férias. A personagem central é a Sra. Ramsay, uma bela mulher que usa seu charme e trato social para manter a harmonia entre todos. Mas ela parece ser sabotada pelo próprio marido, um homem “do contra” e amargo.

O livro é dividido em 3 capítulos. A janela funciona como uma apresentação dos personagens, temperada pela inteligente e sutil dinâmica de Virginia. Tudo se passa em um só dia na casa de veraneio da família, próxima a um farol que James Ramsay, o filho caçula, deseja muito visitar. Só que a previsão do tempo conspira contra os planos. James alimenta ódio pelo pai, por ele ser tão grosseiro em suas colocações sobre o passeio. O tempo passa, além de mostrar a degradação da casa, revela acontecimentos cruciais na família Ramsay. Já O farol é o momento em que realmente acontece o tão esperado passeio, porém de uma forma muito diferente.

Ao Farol poderia ser um livro denso escrito em insistentes “fluxos de consciência”, mas é leve ao acompanhar o vaivém dos pensamentos, dos medos e vacilações de seus personagens. Estes são mostrados em extrema proximidade no microscópio de Woolf e a compreensão das pessoas é o que vale neste extraordinário romance. Que personagem notável é Lily Briscoe! Que descrições maravilhosas temos do que lhe ocorre enquanto pinta! Não são pensamentos extraordinários ou filosóficos — na verdade, pelo contrário, ela e os outros personagens são intelectuais bastante convencionais, do tipo que se encontra em muitos livros. Pode ser dito que eles não oferecem nada novo, mas um mundo interior muito semelhante ao nosso, com pensamentos completos ou incompletos e livres-associações as mais absurdas.

Excelente tradução de Denise Bottmann para a L&PM.

Recomendo fortemente!

Virginia Woolf