A estupidez triunfante: o ódio de Sartori e de certa direita à cultura e à ciência

O Tribunal de Justiça Militar permanece. Só Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo têm tais maravilhas de notável utilidade. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já sinalizou que poderiam ser extintos para dar lugar à criação de câmaras especializadas nos Tribunais de Justiça dos estados para julgamento de processos de competência militar. O órgão gasta R$ 36 milhões ao ano, 26% de tudo o que o governo da anta Sartori pensa economizar com a extinção de fundações estaduais. Mas são milicos, não fazem pesquisa nem divulgam cultura. São gente boa.

Já a Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), a Fundação Piratini (TVE e FM Cultura), a Fundação de Economia e Estatística (FEE), Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), a Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps), a Fundação de Zoobotânica (FZB) e a Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (Corag) têm grande ligação com a produção científica e cultural do estado. Então devem ser extintas.

A burrice do governo olha apenas a despesa, sem buscar novas receitas. Não creio que nosso modelo federativo livre-se das isenções fiscais que somam R$ 9 bilhões por ano — pura e puta renúncia fiscal. Mas o governo recusa-se a ir atrás dos R$ 7 bilhões por ano de sonegação realizada basicamente por empresários. E quando vemos que a economia prevista com a extinção das empresas constantes no pacote de Sartori é de 137 milhões anuais — eu escrevi milhões, não bilhões –, só posso concluir que há um enorme ressentimento e ódio à ciência, à cultura e ao conhecimento.

Por outro lado, não temos uma imprensa plural. Os governos petistas nem tentaram alterar tal situação. Não houve a tão propalada democratização dos meios de comunicação, só o pagamento de alguns blogs. O monopólio da informação permanece e atrapalha qualquer reflexão crítica. A RBS, por exemplo, faz a assessoria de comunicação de todos os governos alinhados com o mercado, com a direita e com o senso comum evangélico. Servidor é vagabundo? Sim, é. Então vamos acabar com esses caras que só mamam na teta do estado.

Se as extinções ocorrerem como parece que vão, certamente haverá uma corrida de CCs vindos dos partidos aliados. Afinal, como ficar sem a FEE, por exemplo? Em substituição, vão contratar consultorias dos amigos, claro.

Eu não votei em Sartori, é claro. Não tenho grande visão política, mas o mundo me ensinou a avaliar pessoas e jamais votaria num cara flagrantemente mais ignorante, inepto e palerma do que eu. Ele está no posto para fazer um trabalho em benefício de grandes empresários. E só.

Fico deprimido de pensar que o local onde hoje está a TVE / FM Cultura talvez vire outra coisa. Fico fulo ao ver empresários e empresas sonegadoras protegidos. Fico desapontado com quem votou neste asno. Paralelamente, sorrio ironicamente com o ridículo discurso de fachada de que tais atos tirarão nosso Estado da situação de calamidade.

Sartori apontando sua falha.

Sartori apontando sua falha.

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Um pequeno comentário sobre a agressão do ex-presidente Fernando Miranda

Mirabnda chega ao fim da linha.

Mirabnda chega ao fim da linha.

Nada tinha contra o ex-presidente do Inter Fernando Miranda. Até admirava sua corajosa passagem pelo Inter, nos anos 2000 e 2001, brigando e vencendo o célebre grupo conhecido como Império Otomano, que afundara o Inter nos anos 80 e 90 do século passado. Ele pagou contas, montou um time mais ou menos cumpridor e foi embora irritado com todo mundo, achando-se injustiçado, creio. Sempre me pareceu uma pessoa a ponto de explodir, mas enfim, jamais vira ele louco, totalmente descontrolado como ontem à noite.

Anos atrás, Miranda criou um blog onde explicava muitas de suas atitudes como dirigente. Eu lia tudo e aprendia muita coisa. Suas explicações eram longas, detalhadas, claras, de uma sinceridade rara no futebol. Depois, saiu de circulação. Como tenho vários amigos próximo do clube, ouvia volta e meia comentários a respeito dele. Eles diziam mais ou menos isso: o Miranda está cada vez mais louco.

Ontem, ele reapareceu na TV Ulbra, canal 21, dentro do programa Cadeira Cativa, de Luiz Carlos Reche. Deveria ter ido a outro lugar. Em determinado momento, ele e o jornalista Julio Ribeiro iniciaram um bate-boca. Acontece que Miranda fizera uma longa exposição e Julio desejava rebater alguns pontos. As vozes ficaram mais altas, Miranda chamou o jornalista de “asqueroso” e “bacaca”, este não gostou, gritou mas permaneceu sentado, e logo depois foi agredido por um soco desferido pelo ex-presidente. A cena de Miranda erguendo-se e dando uma corridinha até a cadeira onde estava Julio é especialmente ridícula. O homem estava fora de si. Dizem que é comum.

O incrível é que o pai do presidente recém-eleito Marcelo Medeiros, o qual se chamava Gilberto Medeiros, também na TV, tinha tomado uma surra do ex-presidente do otomano José Asmuz, um dos piores presidentes da história do clube, mas que nunca nos levou à segunda divisão. O caso foi muito mais grave. Asmuz deu-lhe uma série de socos na cabeça pelas costas, sem grande reação de Gilberto, que permaneceu sentado, apenas protegendo-se com os braços. Júlio Ribeiro também não reagiu, apenas tratou livrar-se do agressor, certamente sem acreditar que estivesse participando de uma baixaria daquele nível.

Quando vi, também não acreditei. Sou amigo de Júlio. Nem sempre concordamos — aliás, discordamos frequentemente — e por isso mesmo sei que se trata de um ser humano altamente civilizado. Não vi o que houve antes do momento da agressão, mas Miranda devia estar muito descontrolado para deixar Júlio respondendo em voz bem alta “Babaca é tu”.

Olha, ninguém gostou de ir para a segunda divisão e todos sabem os motivos pelos quais lá chegamos. Brigue (verbalmente, no máximo) com o Vitorio causador de tudo, brigue com Carvalho, Argel e Roth. Agora, Fernando Miranda, uma agressão física a alguém que não dirigia o clube é algo patético, coisa de torcedor marginal.

Isso diz mais sobre o Sr. do que qualquer opinião sua.


Mais completo, aqui:

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Meu pitaco sobre a tal cena da manteiga entre Maria Schneider e Marlon Brando em ‘O Último Tango em Paris’

Em uma entrevista concedida ao Daily Mail em 2007, Maria Schneider falou do estupro que sofreu por parte de Marlon Brando em frente às câmeras de Bernardo Bertolucci para o filme O Último Tango em Paris. A cena faz parte da produção e o uso da manteiga foi decidido entre Bertolucci e Brando na manhã anterior à filmagem. Não houve consentimento por parte de Maria, uma menina de 19 anos que contracenava com um monstro do cinema e com um cineasta extremamente talentoso que já era autor de O Conformista e A Estratégia da Aranha. Quando sentiu o que Brando fazia, é óbvio que ela pensou num estupro real.

“Deveria ter chamado meu agente ou meu advogado para vir ao set porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas, naquela época, eu não sabia disso. Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, embora o que Marlon fizesse não fosse real [não houve penetração], eu chorava de verdade. Senti-me humilhada e violentada por Marlon e Bertolucci. Pelo menos foi só uma tomada”.

tango-manteiga

Engana-se quem pensa que, se não houve penetração, não houve estupro. Vale lembrar a definição do termo: “O crime de estupro é qualquer conduta, com emprego de violência ou grave ameaça, que atente contra a dignidade e a liberdade sexual de alguém”. O elemento mais importante para caracterizar esse crime é a ausência de consentimento. A lei brasileira, por exemplo, diz que não é preciso penetração para que o crime se caracterize como estupro.

A cena é polêmica desde o surgimento do filme. É a tal “cena da manteiga” e Bertolucci quis filmar de forma realista a reação de Schneider. Lembro que comentávamos a cena durante meu segundo grau no Colégio Júlio de Castilhos. Só que é indiscutível que houve violência e sadismo. Foi uma atitude deplorável. Uma atitude de dois estupradores famosos contra uma jovem de carreira ainda obscura.

Há anos conheço essa história e sempre quis que ela fosse mentira. Não é. Bertolucci e Brando levaram a um nível repulsivo a afirmativa de Hitchcock de que atores são gado. (Lembro de Bergman pedindo desculpas e mais desculpas a Gunnar Björnstrand antes de grudar uma vela acesa sobre a careca do ator, que ria). É incrível pensar que um dos maiores momentos do cinema — o monólogo de Brando ao lado do caixão da esposa suicida — esteja acompanhado da cena da manteiga e pelo que foi feito para que ela fosse filmada de forma “realista”. O pior é que Maria Schneider sempre será lembrada por este Último Tango, apesar de sua melhor atuação ter sido no esplêndido Profissão: Repórter, de Antonioni. Depois desse absurdo, ela não fez mais cenas de nudez.

tango-estupro

Me irrita especialmente, repito, o fato de que Bertolucci e Brando, “o maior ator do mundo”, serem dois artistas famosos e consagrados a pegarem uma menina que até ali devia estar feliz trabalhando com eles. Nojo total. Dizem que Maria jamais se recuperou do fato.

“Fui horrível com Maria, porque não lhe disse o que iria acontecer”, declarou o diretor na entrevista de 2013, e ainda completou que a intenção era que Schneider reagisse “como uma menina, não como uma atriz”. Bem… Contudo, Bertolucci nunca pediu desculpas para a Maria Schneider e até hoje afirma que sacrifícios precisam ser feitos em nome da arte.

Mas há limites, não?

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Por um Judiciário menos desafinado!

clipboard01Ai ai que bom,
o Judiciário existe;
lutar, vencer,
é por você
que a gente persiste

É de chorar de rir a hiperkitsch auto-homenagem que servidores e magistrados do Tribunal de Justiça de Sergipe cometeu. Eu estava ouvindo o clipe e, ao mesmo tempo que ria, baixava o som para que as pessoas que moram comigo não ouvissem os disparates. Pois há a desafinação e há a letra… A canção que serve de base é We Are The World, sucesso de promoção de bons sentimentos gravado nos anos 1980 por um grupo norte-americano de estrelas pop. A autoria do original é de Lionel Richie. Esperamos que ele não tenha ouvido o desastre. A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Sergipe apressou-se a informar que a gravação do vídeo não teve nenhum custo aos cofres públicos e que, bem, ele foi exibido durante um Encontro de Planejamento Estratégico, em agosto.

Viram? Muitas metas a cumprir causam estresse e podem resultar nisso.

Charlles Campos completa: Devia se fazer um vídeo de resposta por parte da população carcerária, que tem suas penas vencidas mas que continua presa, e todos os querelantes que aguardam anos seus processos parados na mesa dos juízes da comarca. Sugiro uma adaptação de “I have a dream”, do Abba.

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Um mistério

Sempre que passamos por esta propaganda que está num enorme outdoor na Padre Chagas, eu e Elena olhamos um para o outro e comentamos:

— Que cara de burro! Por que colocaram justo um modelo com cara de idiota? Quem vai querer entrar nesta loja?

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Violinista barroca desiste de dar prazer a si mesma com o uso de vibrador

Da Submedia.
Tradução livre do dono do blog

Annika Müller, violinista barroco | Foto: Denys Kornylov

Annika Müller, violinista barroca | Foto: Denys Kornylov

Annika Müller, uma violinista especialista em repertório barroco em instrumentos originais de época, anunciou a repórteres nesta segunda-feira (29) que começou a dar prazer a si mesma sem o uso de vibrador.

A violinista alemã revelou, em entrevista coletiva, que se decidiu no ano passado não apenas a dedicar-se exclusivamente às interpretações barrocas com instrumentos originais, mas também a abandonar o prazer de tocar-se com um vibrador, passando a fazer tudo por si mesma.

“Se eu vou dar descanso a meu queixo, deixando de lado os vibratos, também vou dar uma folga definitiva a meu vibrador”, radicalizou Müller. A violinista barroca disse este foi o modo que encontrou para resolver uma contradição que sentira crescendo dentro dela.

“Músicos dos séculos XVII e XVIII não tinham a eletrônica para auxiliar no ato de prazer”, sentenciou. “Se tais dispositivos tivessem existido, pensem no efeito que isso teria sobre sua música e desempenho?”

Müller negou ter experimentado uma diminuição em seus prazeres desde que descartou seu Hitachi Cordless Magic Wand ™.

Hitachi Cordless Magic Wand

“Dar prazer a mim mesma sem o vibrador tem sido um desafio, mas é muito mais fácil do que lidar com o primeiro arco com cordas de tripa”, disse ela.

Ironicamente, os abandonados vibratos da técnica moderna de violino, têm vindo a calhar para Müller durante a sua transição para o prazer manual.

“Em vez de aplicar o vibrato moderno para o meu instrumento, tenho usado entre as minhas pernas”, disse Müller, pressionando seu dedo indicador esquerdo na palma da mão direita e balançando-o suavemente para demonstrar o procedimento. “Se eu fechar meus olhos e imaginar que eu sou Anne-Sophie Mutter tocando o Concerto de Brahms, posso atingir o clímax quase instantaneamente.”

Para Müller, a mudança é parte de uma missão mais ampla para transformar todas as facetas da sua vida diária de acordo com costumes europeus do século XVII. Além de desistir da eletrônica, ela planeja vestir-se exclusivamente em saias e corpetes, e restringir sua dieta para misturas de vegetais orgânicos, raízes, batatas e chucrute.

O processo também envolve Müller subordinar-se aos homens, como era a norma para as mulheres na Europa durante o período barroco. “Pode soar humilhante, mas vou ter que me acostumar a me sentir como um acessório”, disse ela. “Quanto mais eu deixar que os homens me tratem como um objeto, o mais autenticamente vou tocar violino.”

Quando perguntada sobre sua vida romântica, Müller disse que ela ainda está aguardando pretendentes. “Se eu puder encontrar um homem cuja libido seja a metade da de Johann Sebastian Bach, eu estarei satisfeita “, disse ela .

Se Müller adotar práticas de higiene barroca, no entanto, ela poderá permanecer solteira por algum tempo. “É um longo caminho este de viver uma vida historicamente original”, disse Müller. “Por enquanto, estou focada em tocar o melhor possível meu instrumento de forma a emocionar meu público e a mim”.

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Horrores da Eleição: mais um para a Bancada Evangélica

Será que ele vai para a Bancada Religiosa? Claro que sim! Ele é candidato a deputado estadual pela coligação Paraná Mais Forte (PSC-PR-PTdoB).

Clark Crente

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Parece piada, mas não é

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Tinha tanta gente no meu comício que resolvi mostrar uma foto pra vocês

Imagens de um candidato do PSB-PE. Maravilhoso, não? Clique para ampliar mais um pouquinho.

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Paulo Coelho: Ulysses, de James Joyce, é "prejudicial" para a literatura (bem que eu desconfiava)

Não posso dizer que lamentei esta matéria. Ao contrário. Por admirar Jorge Luis Borges, Paul Rabbit já escreveu livros com os títulos de O Aleph e O Zahir. Acho que ele jamais escreverá sua versão de Ulysses. Que bom!

Traduzido livremente por mim, do The Guardian

Escritor brasileiro descarta clássico modernista sobre um dia da vida de Leopold Bloom. Chama-o de “puro estilo”

Paulo Coelho põe no lixo o Ulysses, de James Joyce. "Não há nada lá".

Ulysses, de James Joyce, tem vencido enquetes e mais enquetes como o maior romance do século 20, mas, segundo Paulo Coelho, o livro é “uma idiotice”.

Antes, porém, falou de si ao jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Coelho disse que o motivo de sua popularidade é o de ser “um escritor moderno, apesar do que dizem os críticos”. Isto não significa que seus livros sejam experimentais, acrescentou — sim, “eu sou moderno porque faço o difícil parecer fácil e então eu consigo me comunicar com o mundo inteiro”.

Os escritores se dão mal, de acordo com Coelho, quando se concentram na forma e não  no conteúdo. “Hoje em dia escritores querem impressionar outros escritores”, ele disse ao jornal. “Um dos livros que causaram maior dano foi Ulysses de James Joyce, que é puro estilo. Não há nada lá. Desmontado, Ulysses é uma idiotice”.

Os livros e romances espirituais de Coelho — cujo último, Manuscrito encontrado em Accra, passa-se na Jerusalém de 1099, prestes a ser atacada por cruzados — já venderam mais de 115 milhões de cópias em mais de 160 países. Ulysses, o romance modernista de Joyce, com 265.000 palavras sobre um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, foi publicado pela primeira vez com uma tiragem de 1.000 exemplares em 1922. Essas primeiras edições pode ser adquiridas hoje ao valor de R$ 320 mil e a existência do livro é comemorada todos os anos e em todo mundo no dia em 16 de Junho, data em que Bloom vagou por Dublin.

Embora Ulysses frequentemente encabece listas de melhores livros, não é raro que o critiquem. Coelho não é o primeiro a criticar obra-prima de Joyce. Roddy Doyle disse em 2004 que duvidava que as pessoas que os colocavam no topo tivessem sido realmente tocadas por ele.

P.S. — Este post só foi possível porque a Caminhante Diurno — que é também a Caminhando por fora — me indicou a matéria no The Guardian.

P.P.S. — Idelber Avelar escreve para mim no twitter, prenhe de razão: há um probleminha de tradução: “stripped down, Ulysses is a twit”. É um TUÏTE, não uma ‘idiotice’. Abraços.

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Sayad diz que a TV Cultura perdeu qualidade, e tornou-se cara e ineficiente

O estranho é a falta de inteligência do pessoal do PSDB. Então, após 8 anos de adminstração do estado de São Paulo — leia-se José Serra — , o presidente da TV Cultura João Sayad vem à público e, numa nota oficial que é uma confissão de incompetência, avisa que a Cultura é altamente deficitária — sempre foi, não? — e que vai demitir 1400 funcionarios para ficar com 400, número que considera “mais do que suficiente”. Juro que não entendo esta atitude ao apagar das luzes, principalmente se considerarmos que a lei, por causa das eleições de outubro, o impede de demitir antes dezembro.

Além da ineficiência, há o grave problema de ordem social, pois são 1400 funcionários que serão colocados no olho da rua. Eu também admito que, provavelmente, 1800 seja um número alto de profissionais, mas pensemos: Sayad, em sua nota, fala em “perda de audiência e qualidade”. Meu caro Sayad, aí tem segunda e terceira intenção. Em primeiro lugar, a TV Cultura nunca competiu com as TVs comerciais, em segundo lugar, se a Cultura é hoje uma porcaria — e é — é por culpa do abandono de projetos que, um dia já foram muito bem-sucedidos. Não preciso dizer que meus filhos adoravam o Castelo Rá-tim-bum e o notável e educativo O Mundo de Beakman.

Meu caro (e ineficiente) Sayad, com 1800 funcionários, com estúdios, alguma inteligência e pouco dinheiro, qualquer um monta dezenas de programas como o americano Beakman, algo baratíssimo que divulga ciência às crianças de forma divertida. Mais: com boa negociação, um dos seus 1800 funcionários poderia fechar contrato com a OSESP (também estatal) a fim de registrar, divulgar e até vender DVDs de concertos. Com outro grupo, o Sr. poderia refazer o Cartão Verde dos domingos, não?

Se houvesse um mínimo de boa vontade, o Sr. proporia o que propõe em sua nota …

uma “revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.”

… ANTES das demissões e não depois.

Há toda uma cultura de descarte em nossa sociedade, mormente nas pessoas de direita. Eles não veem que reconstruir coisas pode ser ecológico para a alma e para os seres humanos. E… Nossa, Sr. João Sayad, o Sr. detesta o Serra, hein? Eu também! Que fanfarronice!

O brilhante João Sayad preparando o enterro da TV Cultura

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Dia de provocar (light)

A eleição do Cristo Redentor como uma das sete maravilhas modernas só me afetou ontem, quando meu filho me apresentou a Estátua da Mãe Rússia, erguida em 1967 na cidade de Volgogrado, ex-Stalingrado. (Bernardo costuma viajar pelo mundo com o Google Earth). Logo pensei nas linhas retas e sem graça de nossa falsa maravilha, comparando-as com as de uma estátua muito maior, mais bonita e de significado mais concreto que o das linhas retas e sem graça do sólido “realismo socialista” de nosso Cristo. Do alto do Corcovado, temos uma vista deslumbrante de 360 graus, mas é melhor esquecer aquele cara de braços abertos sobre a Guanabara.

Então, além de ser muito mais bela, heroica e trabalhada, além da vantagem de não ter o significado rarefeito de um monumento religioso, a Mãe Rússia mede 85 metros contra os 30 do Cristo.

Vejam:

Sim, falta o Corcovado, mas sobra estátua. Ela foi construída em homenagem aos mortos da Batalha de Stalingrado.

As formiguinhas na foto acima são pessoas… E mais uma foto, esta tirada do parque que circunda a colina Mamayev, onde está localizada a estátua.

Mother Russia 10 x 0 Cristo Redentor. E não me venham com os 45 metros da Estátua da Liberdade (aquela mulher em posição de árbitro de futebol apresentando um cartão vermelho ao mundo), nem com os 67 metros do obelisco bonairense (um taxista me disse que era uma homenagem aos políticos argentinos — todos os veem, mas ninguém sabe para que servem).

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O peso relativo das palavras no Judiciário

Digamos que as palavras tenham seus pesos determinados não por sua densidade ou consistência, nem por sua massa multiplicada pela aceleração da gravidade, mas pela quantidade de leitores atentos que elas possam obter durante sua vida útil. Peço aos meus sete leitores que comparem a “perenidade dos livros” com o número de pessoas paradas e atentas em frente a um dazibao. Se, após editado, uma palavra dentro de um livro obtiver 500 leitores que passarão os olhos por ela e a compreenderão, ela terá peso menor que outra, chinesa, que terá 10.000 leitores no jornal mural chinês e que amanhã será substituída por outra. Aqui, neste texto, não me interessa a beleza ou a razão, mas o número de leitores compreensivos — adjetivo que uso na acepção que Herbert Caro utilizava em nossas manhãs musicais de sábado na King`s Discos, onde compreensivo era o intérprete ou tradutor que demonstrava empatia para procurar sempre entender o autor. Deste modo, uma palavra dita no rádio para 50.000 ouvintes também teria peso superior a de qualquer palavra escrita por um bom e ignorado escritor brasileiro.

Curioso, este assunto me ocorreu quando estava na presença de um psiquiatra forense. Tive duas sessões com ele, cada uma de quase três horas. A finalidade era a de saber se eu poderia obter a guarda de minha filha, ou seja, a de saber se eu era louco ou não. Sua opinião foi muito benigna a meu respeito e, ao final da segunda sessão, ele me comentou que achara meu processo confuso e mal montado. Montado? Ele me explicou que num processo o mais importante é a montagem e o motivo era simples. Os juízes não liam os processos, apenas davam davam um “vistaço”. Vistaço? Ah, sim, folheavam os processos, liam os títulos, algumas frases de um ou outro item e decidiam. Como? Ora, através da experiência. Os juizes então liam os processos como lemos um livro que estamos detestando, mas do qual, meio de má vontade, queremos vagamente descobrir o final? Sim, só que eles não avaliam a qualidade, apenas têm pressa.

O ambiente psiquiátrico é dos mais civilizados que conheço. Peço desculpas a meus amigos terapeutas, mas aquilo é pura diversão para alguém que nunca precisou de tratamento. A gente vai lá e tem uma boa conversa com um sujeito especializado em conviver e manipular, fazendo-nos mudar de assunto ou penetrar em coisas que nem sempre apreciaríamos, mas que ali, bem, ali vale tudo. É como uma dança. O terapeuta faz uma forcinha para um lado sugerindo uma mudança de rumo ou ritmo e nós vamos atrás; se quisermos comandar, vamos ter de enganá-lo ou convencê-lo, tarefa bem complicada, pois ele tem interesses muito definidos e normalmente dá mais importância à nossa insistência em comandar do que ao conteúdo que desejamos introduzir. Sempre saí leve das poucas consultas que fiz, pois era agradável ser “levado” numa dança em que tudo o que não precisara fazer era pensar. Deixava-me ser manipulado e gostava. Mas aquilo que ouvira era demais! Por isso, mudei de posição na cadeira e comecei a questionar. A partir do momento em que ele dissera que eu não era doido varrido e não daria muito dinheiro às pessoas de sua profissão (sim, ele O disse), eu, bem, poderia me mostrar ao natural… Então, resumindo, o processo tem de ter bons títulos, que fossem sedutores ou escandalosos o suficiente para chamar a atenção do apressadinho? Sim, claro. E letras bem grandes? Evidentemente. E os textos deveriam ser curtos e grossos? You got it.

Naquele momento, eu descobri duas coisas: (1) que perderia um outro processo e (2) que qualquer advogado de inteligência mediana saberia que não adianta escrever laudas e laudas citando Pontes de Miranda, Ortega y Gasset e milhões de artigos perdidos na teia de fios em curto circuito do “sábio legislador”, quando o melhor seria a abertura de um processo twitter, que receberia inclusive a simpatia de um incompreensivo (ainda na acepção de Caro) juiz.

Cheguei em casa e liguei para meu advogado. Perguntei-lhe quantas páginas ele escrevera (um monte!), o tamanho da fonte (10, imaginem!) e o número de títulos de itens (poucos). Stendhal dizia ironicamente que sonhava escrever como um advogado, pretendia que seus livros saíssem direto do cartório para o prelo, pois admirava a exatidão jurídica — hoje nem lida… Ali, as palavras eram exploradas em seu preciso significado, as metáforas estavam varridas, mas Stendhal, o imenso, seco, esquecido e genial Henri-Marie Beyle, faleceu em 1842, estamos quase dois séculos adiante e, apesar de os advogados tentarem manter a utilização de palavras etimologicamente corretas… hoje escrevem para não serem lidos.

Então, quando anunciam como grande coisa a informatização do Poder Judiciário, com a eliminação daquelas montanhas de processos, só posso pensar que é um caminho naturalíssimo. Há milhões de processos mal analisados atravancando as salas e agora tudo ficará registrado, e não lido, em discos rígidos. Ah, mas os juízes terão acesso mais rápido aos textos? Pode ser, porém você tem de considerar o novo suporte.

Os monitores e as janelas têm características físicas que favorecem o Reino da Desatenção que é a Internet. Tudo no computador favorece o “scanning”, a busca de palavras-chave ou trechos de interesse. Há a ansiedade da informação, há a janela em background piscando ali embaixo, tudo é difuso. Como diz este interessante site, Manifesto contra a leitura desatenta, a leitura rápida é útil, mas só leitura rápida é fútil. Eu reformularia a frase do Fred, só que a rima iria para o saco (expressão impensável juridicamente — a que saco Vossa Senhoria se refere?). A leitura não será como a do músico que lê a partitura em clusters (conjuntos, pencas) de notas conhecidas e que as toca todas. A qualidade do “vistaço” será menor ainda nos vídeos, pois a ele associa-se a pressão das janelas abertas e do fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Então, meus caros advogados, eu sugiro que vocês deem peso a suas palavras treinando no twitter. Ou que tuítem direto com os juízes. Claro que estou brincando. Mas acho mesmo que o sucesso do twitter deve-se à diluição da atenção provocada pelo suporte onde trafegam textos que são só mais ou menos lidos. 140 caracteres é um bom número para um “vistaço”.

Obviamente, tudo isso NÃO passou pela minha limitada cabeça enquanto estava sentado na frente do psiquiatra forense, até porque, ainda que estivesse arguindo, estava com resquícios daquele clima bom de dança. Todavia, fiz-lhe as perguntas decisivas, aquelas duas óbvias, as que não iriam calar. Como então eles decidem? Ora, pelo senso comum, sem atentar a detalhes. Essa era a resposta que temia ouvir e suas consequências nefastas dariam assunto para vinte posts. Poderia abrir um curso para advogados, pois o peso, a importância de suas palavras será diretamente proporcional à aderência, fingida ou não, ao senso comum. Quem estiver mais perto de nossa tradição cultural, de nossos costumes e do Programa Raul Gil irá vencer. Meu curso prometeria aos advogados que suas palavras teriam o insustentável peso de uma palavra de juiz. E fiz-lhe a outra pergunta. Juízes fazem psicanálise? Sentem-se culpados? Eu achei que ele apenas riria e já até olhava para um canto qualquer quando ele, rindo muito, cruzou as pernas e respondeu com uma frase avassaladora. Não precisam, a maioria vai à igreja.

Eu não era louco, mas me deu um desejo incrível de morder o pé do psiquiatra, que balançava satisfeito, disponível, bem na minha frente, divertido.

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Meio século de pretensão

Meus parabéns! E então chegas aos cinquenta anos e é apenas mais uma data. A Idade da Razão já está instalada há tantos anos que fica difícil encontrar coisas a comemorar que não sejam o novo cargo, o novo carro, a nova e sonhada situação adquirida sem refletir em los muertos de tu felicidad. Sempre buscaste o conforto e agora o tens sob várias formas, não obstante a antipatia dos circunstantes, dos filhos e o silêncio dos velhos amigos. Nunca demonstraste grande vontade de te sacrificares por alguém — mesmo tua participação política dava-se em bares, era anteação, talvez anteteórica –, mas a súbita adoção de um amor extremado pela privacidade, pela autoproteção, pela furiosa e agressiva resolução de teus problemas pessoais, surpreendeu a muitíssima gente. Sim, todos nós temos de nos adaptar aos fatos da vida mesmo sendo eles desagradáveis e avessos a nossos ideais, porém a coerência gera limites, principalmente para alguém que costumava expressar-se tanto.

Tua Idade da Razão é o medo do desconhecido e o sintoma mais aparente é teu desconforto por teres eliminado de tua vida uma das mais gloriosas e dignas necessidades humanas: a aventura da amizade. Sim, à exceção de velhos amigos, não aparece mais ninguém interessante, não acontece nada de novo. É curioso como conseguiste te encalacrar. Qual foi a última vez que alguém, digamos, na faixa dos 30 anos, te convidou para uma conversa? Quando ocorreu de um jovem repentinamente chegar à conclusão de que tinha absolutamente de conversar contigo e fez um convite para um café mais ou menos urgente? As viagens te dão autêntica satisfação, mas mesmo isso é um subproduto que roubas de teu trabalho. E os novos amigos que encontras nos congressos devem ser decepcionantes e iguais, pois quem não pode mais aquilo, fica com quem pode o mesmo isso. Achas hoje que a nova geração é feita de idiotas, que não vale a pena dar-lhes atenção, que tens perfeito bom senso e tratas de evitar os desvios daqueles que se encontram em tua zona de influência à base de berros e pressões, pois não podes conversar muito, há que ter tempo para coisas mais importantes, tais como cuidar das articulações políticas de teu trabalho, dos novos tratamentos de rejuvenescimento, da hora do médico e ainda ir ao shopping, único local que consideras seguro. Dia desses, ficaste feliz ao ver que os seguranças pediam educada e repetidamente a um senhor que, por favor, fizesse o obséquio de não correr nos corredores — um pediu aqui, outro mais adiante (este chegou a ir ao meio do corredor para cruzar com o homem, que respondeu “Estou atrasado para o cinema”, mas que obedeceu passando à marcha atlética porque temia ser detido por uma advertência mais longa. E tu pensaste “É verdade, quem corre é vagabundo, neste shopping pode-se vir”).

E, enfim, teu isolamento acabou te trazendo de volta a ti. E, olha, tu não és pessoa a ser deixada a sós sem maiores dores, coisas passam a acontecer, paranóias se criam de quase nada e melhor não pensar muito. Inventas enfermidades, te examinas com o olhar crítico de quem deveria viver para todo o sempre, ficas com receio das atitudes amalucadas dos filhos e, como não tens tempo para eles e trata-os isonomicamente, isto é, também aos gritos, eles aprenderam a te enganar com mentiras. “Vou aqui”, mas vão lá; “Estou fazendo isso”, quando na verdade farão aquilo. É a escola diária da mentira; eles sabem que, se forem francos, darão de cabeça na tua absoluta falta de negociação, na tua completa alienação de como eles vivem. Então para ti é mais fácil proibir. Pois gostas desta palavra: há coisas que devem ser proibidas e é uma sorte que teu novo amor fale tão pouco. Teus filhos não falam contigo nem quando encontram uma vestimenta íntima perdida na sala… É uma piada que fazem fora de casa. Não queres brigar com a vida que te dá conforto material, deste modo, preferes ouvir fatos concretos – mesmo que falsos. De invenção bastam as paranóias e as doenças, essas inevitabilidades.

50 anos. 50 anos e tu simplesmente te desarticulaste. Sim, não te faltam as qualidades de alguém centrado, autocentrado, em faixa própria, de ética, tolerância e solidariedade adaptáveis, que não pula de galho em galho, pois tens galho próprio e privativo, dissociado do ser fumante e usuário de drogas leves que foste, que apenas lembra de sua existência nos anos 70 e 80 quando Caetano cantava e que hoje vê sua posição pretensamente intelectual atacada quando o ser silencioso te constrange. A criatura pichadora e comunista hoje só quer vestir coisas chiques e muiiiito caras, prenhes de grifes, com o caimento que só uma grife dá. Ainda ouves Van der Graaf, aquele horror? Quanta pretensão. Parece que esta apenas faz crescer. Esse meio século de pretensão comprovam a terceira acepção da palavra: afã, ambição, anelo, apetite, aspiração, avidez, sofreguidão.

Hoje tua fala é afirmar que não estás do lado da classe dominante, mas “que nem todos à direita estão errados”; é asseverar que é preciso “ouvir as pessoas”, mas não que não se deve cair, em hipótese alguma, na liberalidade perigosa; é garantir que não és moralista, mas que julgas; é jurar que não escondes nada, mas que algumas intromissões e perguntas passam dos limites… Piadas. Por falar em piadas, vamos a uma.

Politicamente funcionas como um homem branco, machista, neoliberal, de retórica potente, autoritária e invasiva, que arranjou alguém que comporta-se como uma mulherzinha burra para te acompanhar. Tua grande Olenka (*) particular funciona adequadamente? Já sabe de todas as tuas preocupações? Angustia-se junto? Parabéns, Kukin-Pustovalov-Smirnin! E quando tua companhia leu aquele e-mail que comprovava irrefutavelmente o fato do homem não ter ido à Lua? Tu e Pustovalov não perderam tempo para fazer-lhe mudar rapidamente de idéia, não? “Nunca mais repita uma bobagem dessas!!!”. Engraçado, rimos muito.

Mas preciso finalizar, é tarde. Tua existência surpreende, repentinamente deixaste de pensar nas igualdades do mundo, deixando-as apenas para os discursos, tão considerados quanto os de José Dirceu. Se dizem que perder uma ilusão torna-nos mais sábios, o que dizer de alguém que perdeu todas? O desconcertante é que tal fato não te trouxe a serenidade que dizem ser uma das qualidades da sabedoria. Pobre de ti. Deixar tudo, arrepender-se não implicaria necessariamente nas ações de ímpeto e má consciência — que te comprazes em fazer — típicas de quem foi enganado e precisa vingar-se. Ou talvez faças isso para externar a felicidade de, finalmente, poderes agir autenticamente: sem te dares àquele trabalhão de teus anos jovens de ter de dissociar tudo o que pensavas do que dizias. Finalmente o autêntico está bem perto de ti, é só eliminar o que vem antes do mas. O resto é tu.

(*) Personagem de um conto de Anton Tchékhov que pode ser lido no link acima.

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Disparate acadêmico

Ele era um sujeito correto. Nos jantares com amigos, em hipótese alguma pegava o dinheiro dos outros, pagando toda a conta com seu cartão de crédito em data mais vantajosa. Uma vez, para agilizar o pagamento num restaurante lotado, ele pegou um cheque de Bruno e fez o pagamento com cartão, porém, ao ser questionado dias depois sobre o motivo de não ter feito o depósito, respondeu:

— Só vou depositar teu cheque no data de vencimento do meu cartão, claro.

Quando o jantar era em sua casa e algum convidado trazia-lhe uma garrafa de vinho, ele ou a abria logo ou esperava pela próxima oportunidade em que o comensal voltasse. Fazia questão de dividir a garrafa com quem havia lhe dado. Enfim, um gentleman.

Era médico, clínico geral, casado com uma médica da mesma inespecialidade. Trabalhavam muito. Bruno conhecia-os através de sua mulher, também médica, só que urologista. O detalhe é que esta detestava trabalhar. Plantões e chamadas noturnas não eram fatos aceitáveis em sua vida. Então, procurou a tranqüila vida acadêmica desde o início da carreira. Aos pacientes, preferia alunos e pesquisa. Mais fácil.

Então houve um concurso para a Universidade. Bruno, leigo naqueles assuntos, ficou de fora enquanto os três estudavam e se divertiam. As tardes de estudo acabavam em mais jantares, pois a mulher do médico era uma espécie de Babette e, como sói acontecer, as Babettes são generosas. Bruno costumava chegar neste momento e, quando voltava para casa com sua mulher, ela elogiava fartamente o conhecimento, a capacidade e a experiência do casal. Estava aprendendo muito com eles.

Fizeram o concurso e, por uma anedota do destino, os três classificaram-se em posições intermediárias e consecutivas: primeiro a mulher do médico e depois a mulher de Bruno, seguida do médico. Talvez não fossem chamados. O concurso tinha validade de dois anos e eles dependiam de demasiados óbitos e aposentadorias.

Os dois anos estavam passando, alguns médicos-acadêmicos foram publicados no necrológio e outros penduraram os jalecos, mas a fila andava muito lentamente para as necessidades do trio. A angústia era grande, principalmente para a mulher de Bruno, que considerava o concurso fundamental para sua carreira. No final do prazo, houve uma súbita aceleração e a mulher do médico foi chamada perto do prazo fatal. Ela comemorou moderadamente ou, para ser mais exato, privadamente. Enquanto isso, a mulher de Bruno via com desespero os dias esvairem-se sem nada acontecer, ao menos sob sua perspectiva. Mais dez dias e o concurso se tornaria inválido. Ela começou a suplicar para todos os outros professores. Era uma injustiça, logo ela, tinha que entrar, o momento era aquele, queria dedicar-se inteiramente à vida acadêmica. Tinha que.

Convenceu o chefe do departamento que seria importante obter mais um professor para a urologia e ele foi ao Ministério de Educação em Brasília reivindicar a vaga. Contou tal fato para o amigo médico, que lhe pediu uma “força”, uma ajuda. Ela ponderou e decidiu que não era adequado pôr em risco uma vaga que ainda nem existia.

A vaga foi obtida no último dia. E ela telefonou para a mulher do médico:

— O Afonso conseguiu a vaga para mim!
— É mesmo?
— Sim, legal né? Meu Deus, que alívio!
— E o Carlos?
— Olha, eu pedi muito mas não deu.

E seguiram explicações mais circunstanciadas até que a mulher de Bruno comentou — sabe-se lá de onde tirou aquela idéia — isto:

— Sabe que Richard Strauss, o compositor, afirmava que conhecia muito mais teoria, orquestração e prática musical do que Sibelius, mas tinha consciência de que Sibelius era um compositor muito superior? Considerava que era uma questão de talento.

Aquele comentário gratuito fez a mulher do médico silenciar e a conversa morreu estranha.

No dia seguinte, a mulher de Bruno cruzou com o amigo no corredor do hospital. Ele não esperou nenhum cumprimento.

— Aproveitadora! Te ensinei tudo o que sabia sem restrições, passei anos trabalhando para que depois tu aceitasse tua vaga com a maior naturalidade, sem impor condições. Isso foi uma traição para quem te ajudou! Não tentaste fazer nada por mim, sua parasita repugnante arrivista!

A mulher de Bruno chorou dias e dias. Bruno a consolava e refletia sobre o comentário infeliz da mulher e sobre o auxílio solicitado. Ela lhe garantiu: fizera o pedido.

— Tu acredita em mim, né?

Poupou-a de sua opinião. Com o tempo, ela passou a dizer que o ex-amigo era um grosseiro mal-educado e desenvolveu a convicção interna de ter sido injustiçada por ele. Mas cruzava bastante com a mulher do médico no hospital. Fazia teorias. Dizia que eles tinham vergonha dela. Evitavam-na por conta da injúria cometida contra ela. Sentia-se coberta de razão.

Obviamente, os casais nunca superaram o episódio.

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Disparate na antesala

Marcos a viu e disse:

– Meu Deus, que horror. Tua ex-mulher está vivendo uma nova juventude tribufu.
– É, não sei o que houve – respondeu Quim.
– Será que ela passou o fim de semana enfaixada?
– Sei lá, acho que ela grudou esparadrapos nas sobrancelhas e arrancou. Mas o que me impressiona…
– O que é?
– Aquela franja mais clara, que deixa o cabelo degradê.
– Horrível.
– Parece um bibelô esquecido numa penteadeira de bruxa.
– Hahahaha… Não, acho que é Koleston em excesso.

Quim observou o amigo com falsa admiração.

– Não esquece que já namorei uma cabelereira – defendeu-se Marcos.
– Tu entende dessa porra?
– Minha mãe dizia que Koleston dava ferida no couro cabeludo.
– Hahahaha…, parece que foi o caso.
– Já pensou a meladeira que ela fez na toalha e no pescoço?
– Não, ela vai no institute.
– Aquilo é Koleston mechas… Hahahaha… O cabelo dela está cor de manga.
– Não diga. É mesmo! Não quero olhar muito. Acho que ela usou Koleston manchas.
– E ela lutou com aquela sobrancelha. Está uma mais grossa do que a que não existe. Por isso, ela jogou aquela franja em cima, mas como a pele dela é oleosa, cheia de furinhos e brilha, não adianta porra nenhuma.
– Hahahaha… É a superfície lunar encerada.
– A sobrancelha que falta deve ter aqueles toquinhos que vão nascendo. Isso por baixo do lápis que passou desesperadamente.
– Hahahaha… Como é que tu conhece tudo isso?
– Ela parece um pica-pau.
– Pica e pau são sinônimos.
– E tu comeste aquilo.
– E tu uma cabelereira.
– Tri-gostosa.
– É, tu ganha. Nem posso invocar a inteligência de minha ex. E a advogada dela? A altona.
– É uma fera. Quando se separou, fez dividirem até os copos e os faqueiros. Olha o jeito que ela olha para o barbudo!
– Saudades da vida sexual?
– Sim, de uma vida sexual que nunca teve. Nada meiga, a coitada.
– Quando fala, parece a Mônica Leal.
– E a tua, chovia granizo quando nasceu.
– Hahahaha… Que duplinha dureza.
– Tenho certeza que tua mulher usa cremes manipulados fora do prazo de validade.
– Para combinar com o Koleston manchas? Hahahaha… Fale-me da roupa dela… da roupa.
– Ela não sabe a idade que tem, pensa ter vinte anos. Mas há um detalhe… Ela tem dois joelhos em cada perna.
– Como?
– Perna magra, joelhão, perna magra, panturrilha de fisioculturista, totalmente anormal mas que ela deve amar…
– E gosta mesmo!
– Viste? Meias pretas, saia curta demais. Mostra as pernas demais… Que são finas.
– E daí?
– Olhe o diâmetro da barriga pouco mais acima.
– Parece Mr. Pickwick de saias. Quatro joelhos.
– Olha, estão te chamando.

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