Madame Satã e Geraldo Pereira

Dia desses, talvez tivesse sido ontem, estava lendo sobre a famosa Madame Satã (1900-1976), uma drag queen e capoeirista brasileira retratada brilhantemente no cinema e personagem emblemática da vida noturna carioca na primeira metade do século XX. Com golpes de capoeira, Madame costumava enfrentar policiais, tendo inclusive matado um. Pois hoje resolvi pesquisar sobre Geraldo Pereira (1918-1955), compositor de “Sem Compromisso”, samba imortalizado por Chico Buarque, e, para meu absoluto espanto, soube que este tinha sido morto por aquela em circunstâncias mal explicadas. Sobre quem devo pesquisar amanhã?

Madama Satã

Madame Satã

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Elis 36 / 36

36 anos sem Elis, morta aos 36 anos. Na época de Elis, devia ser mais fácil de compor. O cara pegava o violão, imaginava a voz de Elis e a canção já saía muito melhor, tenho certeza.

a-vida-de-elis-regina-16105372

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um grande momento em Porto Alegre: o show de Guinga e Dudu Sperb

Foto de Norberto Flach em seu perfil do Facebook. A legenda era mais do que justa: "Esperando o mestre.".

Foto de Norberto Flach em seu perfil do Facebook. A legenda era justa: “Esperando o mestre.”.

Ontem, fomos assistir ao show, violão e voz, de Guinga e Dudu Sperb no StudioClio. É uma parceria que está iniciando e que pode render muito. Guinga é um tremendo compositor e instrumentista e Dudu é um afinadíssimo cantor de bela voz, que cabe bem no espírito da música de Guinga. O que se pode fazer é o elogio máximo. Houve muito de musicalidade, delicadeza e acordes pouco ouvidos nestas plagas. Segundo o que pude entender, a dupla tinha ensaiado no próprio dia de ontem e mesmo assim o entendimento foi excelente. Assim, fica possível sobreviver ao calor de Porto Alegre. A gente quase morre durante o dia e à noite consegue lembrar dos motivos para tanto esforço.

Houve momentos de grande eletricidade no ar. Quando Dudu cantou Você Você (Canção Edipiana), parceria de Guinga e Chico Buarque, a plateia foi muito cuidadosa antes de aplaudir, porque estaria desmanchando um momento autenticamente mágico. Outros momentos desses foi Nonsense e a aula particular de Tom Jobim que Guinga nos deu ao mostrar a falsa simplicidade de Água de Beber.

Como disse meu amigo Marcelo Barbanti, a música brasileira precisa ser mais valorizada. Salve Chico Buarque de Holanda, salve Guinga (…) salve Antonio Carlos Jobim e tantos outros geniais compositores brasileiros. Pobre do país que vira as costas para as suas mais belas canções e coloca porcarias em pedestais.

Espero que a nova parceria frutifique.

Foto: Norberto Flach

Foto: Norberto Flach

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Após 10 anos, única maestrina do Irã foi finalmente autorizada a reger

Nozhat Amiri

O 33º Festival Fayr de Música Internacional do Irã está em andamento na capital do país, Teerã. Enquanto a cidade hospeda mais de 30 orquestras de todo o mundo, a primeira e única regente mulher do Irã subiu ao palco deixando o público atônito.

Nozhat Amiri tornou-se a primeira mulher a liderar a Orquestra Nacional do Irã, executando peças compostas por importantes músicos do país, como Hossein Dehlavi, Homayun Khorram e Morteza Hannaneh.

Nozhat Amiri diz que deve tudo ao apoio que recebeu do marido e aos amigos que acreditavam na sua capacidade. Amiri é mestre em música e regência pela Universidade de Teerã e aguardou 10 anos por este momento. É a única iraniana com tal formação.

Veja um trecho abaixo:

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A Maldição da Nona (não confundir com avó em italiano, que é nonna)

Cena do filme 'O Sétimo Selo': será que Bergman contou seis também?

Cena do filme ‘O Sétimo Selo’: será que Bergman contou seis também?

Mozart escreveu 40 sinfonias (a 37 não existe); Haydn, 104; Brahms escreveu apenas 4 e Shostakovitch pretendia produzir 24, mas ficou em 15. Porém, seis dos maiores sinfonistas de toda a história da música compuseram 9 e logo morreram, forjando o mito de que a nona, ou a décima, é fatal. Vejam a lista abaixo e surpreendam-se com o tamanho da coisa… É como se a morte sempre entrasse em campo quando o imortal pretendesse chegar ao número dez. Aviso: não sou numerologista e não dou a menor importância a este tipo de — creio! — crendices.

Beethoven-Musica-classica.jpgLudwig van Beethoven (1770-1827) está em qualquer seleção de maiores sinfonistas. Se alguém o deixar de fora, merecerá internação. Beethoven fez da 9ª Sinfonia seu testamento musical. Com problemas de saúde cada vez mais notórios, o compositor teve tempo de preparar sua despedida com a maior de suas sinfonias. Ele inaugura nosso sortilégio e, se o leitor não tiver muita intimidade com o mestre, dê preferência à audição das sinfonias Nº 3, 5, 7, 8 e 9. Claro que ele não caiu morto fulminado por um raio logo após fechar o manuscrito da Nona, depois dela ele ainda escreveu algumas de suas maiores obras, os últimos Quartetos de Cordas. Mas a décima ficou em menos do que um rascunho.

franz-schubertFranz Schubert (1797-1828) morreu um ano depois, logo após escrever a sua nona. A curiosidade é que sua oitava sinfonia é conhecida como a Inacabada. E estamos certos em chamá-la assim, pois Schubert abandonou-a ao compor os temas que utilizaria na última. A Sinfonia Nº 9 também é conhecida, com total merecimento, por “A Grande”. Também vale a pena ouvir, além das citadas Nº 8 e 9, a 4 e a 5. Todos pensam que Schubert morreu de sífilis. Nada disso. Morreu de tifo, após ingerir um vulgar peixe contaminado. Ou seja, uma droga de um peixe podre ceifou Schubert durante seus anos mais produtivos. Espero que, se o inferno existir, este peixe esteja lá queimando. Até agora.

brucknerAnton Bruckner (1824-1896) é outro dos grandes sinfonistas indiscutíveis. Ele praticamente só se dedicou a este gênero. Além delas, compôs apenas 3 Missas, 1 Te Deum e pouquíssimas obras de câmara. Seus contemporâneos o consideravam quase como uma criança idiota e a opinião a este respeito é tão unânime que deve ser verdade. Porém, se você continuar a chamá-lo de burro após ouvi-lo, ficarei desconfiado. Sim, de você. Deve tratar-se do idiota mais profundo que se tem notícia, o que prova que a inteligência musical sobrevive mesmo em um cérebro limitado. Há duas curiosidades a seu respeito. A primeira é que Bruckner, já agonizando, quis que seu Te Deum fosse acrescentado como último movimento de sua 9ª. Não foi atendido; era um evidente absurdo. A segunda é que ele possui uma sinfonia Nº 0 e outra 00. É que após a publicação das primeiras sinfonias, apareceram aquelas que o compositor escrevera antes, mas que tinha escondido por vergonha. São excelentes e para não demonstrar uma possível involução em seu estilo, denominou-as Zero e Zero-Zero. Mas, apesar de todos esses zeros, não sobreviveu à décima. Indico fortemente as sinfonias Nº 4 (Romântica), 5 (que possui um adágio estarrecedor de tão belo), 7 e 9 (ambas espantosas).

mahlerGustav Mahler (1860-1911) é o caso mais explícito de medo à 9ª. Contrariamente a Bruckner, era um intelectual e regente respeitadíssimo na Viena da virada do século. Mahler tinha grande temor de escrever sua nona sinfonia e dizia isto a todos. Sabia que a décima o mataria… Quando compôs a oitava (Sinfonia dos Mil), resolveu fazer uma pausa e atacou “A Canção da Terra” (Das Lied von der Erde), que talvez seja sua maior obra, mas que, cá para nós, é uma sinfonia camuflada de ciclo de canções. Com isto, pensou ter enganado o capeta. Só então escreveu sua nona e, por uma distração do diabo, conseguiu até escrever o primeiro movimento da décima, só que… Morreu sem compor os outros movimentos. Outros caras a completaram. Estes sim deviam morrer. Suas melhores sinfonias são todas.

DvorakMenor que os citados, há Antonín Dvorak (1841-1904). Foi um compositor mediano que escreveu lindos quartetos de cordas e que deve ser muito elogiado na presença de checos. Eles se ofendem facilmente. E as sinfonias? Ele compôs nove sinfonias muito parecidas. Todas com quatro movimentos: o primeiro movimento possui 3 temas; o segundo movimento geralmente é um adagio; o terceiro movimento é uma dança ou fuga que copia Beethoven; o quarto movimento é livre, mas melhor seria se não existisse. Deveria ter morrido antes, mas ficou por aí até terminar a nona. Deixou um número surpreendente de obras inacabadas. Sorte nossa. E dele, pois morreu rico e famoso. Sentiram que eu não gosto muito do moço, né? Mas OK, admito que a  8ª e a 9ª são bem legais.

spohrLouis (ou Ludwig) Spohr (1784-1859) escreveu nove sinfonias e deixou a décima pela metade. Achava mais seguro escrever concertos para violino, tanto que escreveu dezesseis. Há um — o oitavo — que é bastante revolucionário, escrito em apenas um movimento, para gáudio de Jasha Heifetz. Sua nona sinfonia é programática e tem um nome incrivelmente original: As Estações. Enquanto vocês decidem se ele plagiou Vivaldi ou Haydn, vou dizendo que Spohr foi um bom compositor, apesar de minhas ironias.

.oOo.

Por isto, aconselhamos a todos os candidatos a compositores eruditos que se depararem com este texto: evitem o gênero ou utilizem-o com parcimônia. Está provado: a décima pode matar.

setimo selo bergman

Mas confiram o comentário de Filipe Salles:

Caro Milton, devo objetar de sua conclusão, se me permitir, pelos seguintes argumentos: Destes compositores que vc mencionou, apenas Beethoven e Spohr realmente escreveram 9 sinfonias completas (e talvez Mahler, dependendo da interpretação). Schubert deixou sua 7a. sinfonia apenas em esboço melódico, tendo orquestrado uma parte muito pequena dela. Ele próprio se esqueceu desta obra e muitos musicólogos não a consideram no rol da numeração canônica. Há uns 15 anos atrás a Sony lançou uma série com ninguém menos que Giulini regendo, tendo a capa a indicação “Schubert: Symphony no.7 (8)” e também “Symphony no.8 (9)”, apenas para saberem que se tratava apenas de uma questão numérica. No caso de Bruckner, como você mesmo diz, ele escreveu 11 sinfonias, sendo as 2 primeiras rejeitadas por serem obras de juventude. Uma sinfonia em Fá maior não tem numeração e a famosa Número Zero é a “die Nullte”, a nula, que na verdade foi escrita entre a Primeira e a Segunda. Bruckner não aguentou as críticas feitas à ela e riscou na partitura autógrafa a numeração “2”, substituindo pelo 0, acrescentando que ela “não contava”. Mas ambas estão completas e foram editadas, de forma que também é só uma questão de posição dos números. O caso de Dvórak é mais esquisito: apenas suas 5 últimas sinfonias foram publicadas em vida, e as demais só vieram à tona a partir de 1917, quando o musicólogo Otakar Sourek reestabeleceu a ordem por data de composição. A sua Primeira Sinfonia, antes tida como a que hoje é a Sexta, foi recusada num concurso e Dvórak, irritado, disse que a tinha destruído (assim como sua segunda), e só foi executada em 1936, depois de encontrarem os manuscritos originais. Lembro-me até hoje de um disco LP, ainda na era monaural, em que Furtwängler executava a Sinfonia no.5, “Do Novo Mundo”. Ou seja, não poderia haver uma maldição da Nona se ele na época tinha certeza que sua série ia só até a 5a.

No caso de Mahler, depende de considerar ou não o Das Lied von der Erde uma sinfonia, e com certeza na época em que ele estava escrevendo sua Nona, só sabia dos casos de Beethoven e Bruckner, pois a 7a.Sinfonia de Schubert não havia sido completada e as de Dvórak se encerravam na 5a.

No caso de Spohr… Bem, outro dia ouvi suas sinfonias nos. 4 e 5 e achei-as extremamente tediosas, de maneira que não me interessei mais pelas coisas dele.

Um abraço!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O recital de Homero Velho e Liliana Michelsen no StudioClio

Foto: Chico Marshall

Foto: Chico Marshall

Sexta-feira (12) à noite, eu e Elena fomos assistir ao recital do barítono Homero Velho e da pianista Liliana Michelsen no StudioClio. O repertório foi o belíssimo ciclo de canções Dichterliebe (amor de poeta), de Robert Schumann, sobre poemas de Heinrich Heine, e o nem tanto La bonne chanson, de Gabriel Fauré, sobre poemas de Paul Verlaine.

Conforme sublinhou o próprio Homero, o recital deixou clara a diferença jamais negada de estilos entre música francesa e alemã. Bem, meu gosto é totalmente tedesco, ainda mais quando a comparação é com a música francesa.

Gostos à parte, o recital mostrou dois músicos entrosados — e eu creio que eles fizeram poucos ensaios prévios, pois Homero chegara a Porto Alegre no dia anterior –, de grande capacidade expressiva e belos fraseados. Eu já conhecia o timbre da voz de Homero do Don Giovanni que ele fez com a Ospa no inverno do ano passado, mas ouvi-lo numa sala pequena e com a qualidade acústica que temos no Clio foi um renovado e ampliado prazer. A voz do cara é mesmo um espanto. Tanto que quase gostei do Fauré. Quase.

Liliana acompanhou o altíssimo nível de Homero e Chico Marshall destacou-se como o bardo leitor dos poemas em português.

Vocês, meus sete leitores, conhecem Schumann, mas talvez não conheçam a poesia de Heine. Heine foi um satírico e dramaturgo genial. Até foi alvo de uns dois ou três textos elogiosos neste blog. Sua poesia romântica deve ser linda em alemão, porém em português certamente perde muito. Chico sofreu… Robert Frost escreveu que “a poesia é o que se perde na tradução”, corolário repetido recentemente no Paterson de Jim Jarmusch: “Ler um poema traduzido é como tomar banho de capa de chuva”. A poesia romântica de Heine é descabelada, ainda mais que o coitado do poeta não tem resposta da amada que casa com outro e deixa o moço sozinho com suas dores. Ou seja, a poesia é de matar, mas, com sua música, Schumann garantiu sua chegada a nossos dias. Só não precisavam traduzir, pelamor.

Le bonne chanson é um ciclo de nove canções. A desgraça de Fauré foi semelhante a do poeta criado por Heine. Olha só: boa parte do ciclo foi composta nos verões de 1892 e 1893 enquanto Fauré permanecia em Bougival como hóspede do banqueiro Sigismond Bardac e de sua esposa, a soprano Emma Bardac. Claro que Fauré estava apaixonado por ela, que acabou casando com Debussy… Fauré escrevia todos os dias e Bardac experimentava cantar, talvez pensando em Debussy. Acabou que Le bonne chanson foi dedicado a Emma e que Fauré acabou a obra aparentemente sem comer ninguém.

Saint-Saëns ouviu o ciclo e declarou que Fauré tinha ficado louco. Não é para tanto, mas entendo Camile. Por outro lado, Proust assistiu a estreia privada e adorou. Isso que ele nem ouviu Homero Velho e Liliana Michelsen. Duvido que tenha sido melhor.

Foto: Chico Marshall

Foto: Chico Marshall

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Algumas observações sobre The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years, de Ron Howard

Eu e Elena vimos o excelente documentário The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years. É tudo bom demais, mas estranhei 4 coisas:

(1) não foi citado o fato do baterista daquelas maratonas de Hamburgo ter sido Pete Best. Ringo Starr apenas entrou no grupo quando da primeira gravação, por exigência de George Martin;

(2) a morte de Brian Epstein poderia também ter sido referida no final dos Touring Years;

(3) a entronização de Sgt. Pepper’s como o maior dos discos quando há tantos outros do mesmo nível para a gente discutir pelo resto da vida e

(4) a ausência da cena abaixo no longo capítulo dos “escândalos gerados por Lennon”.

Beatles The Touring Years

Explico:

Lá em 1963, os Beatles se apresentaram para a família real britânica num show chamado Royal Variety Performance. Era um evento beneficente que ocorria todo ano. Havia 19 atrações. Entre elas, Marlene Dietrich e Maurice Chevalier. Os Beatles fizeram o sétimo espetáculo, o mais aguardado. A noitada aconteceu no Prince of Wales Theatre. Num camarote, a rainha mãe, a princesa Margaret e mais alguns aristocratas.

Livres da gritaria das fãs, eles tocaram três canções. Antes da última, John Lennon se chegou ao microfone, deu boa noite e falou: “Para nosso último número, eu queria pedir a ajuda de vocês. As pessoas nos assentos baratos podem bater palmas. O resto de vocês pode apenas sacudir as joias (just rattle your jewelry)”.

E emendou um sorriso matreiro até entrar na contagem de Twist and Shout. No dia seguinte, não se falava em outra coisa que não nos novos heróis da classe trabalhadora.

Vejam a partir dos 53 segundos.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Alguma coisa sobre Mozart

wolfgang-amadeus-mozartWolfgang Amadeus Mozart nasceu em 27 de janeiro de 1756 em Salzburgo que, na época, tinha por volta de 10.000 habitantes. Salzburgo localiza-se numa das rotas em que se entrecruzavam os trajetos germânicos e italianos. Por isso, recebia influências dos dois lados e isto significa muito em termos de Mozart, um compositor que se estabeleceu e uniu as duas maiores tradições musicais europeias. O menino Wolfgang nasceu em uma família unida e amorosa. Seu pai, Leopold, era compositor. Tratava-se de uma criança emotiva e terna; queria aprender tudo, mostrando predileção pela matemática e pela música. Seu maior passatempo era o de inventar e contar histórias para si mesmo. Ao seis anos, ao começar sua educação musical em família, logo demonstrou que podia executar e compor pequenas peças ao cravo da mesma forma com que inventava histórias. O mundo perdeu um contador de histórias e ganhou um músico imenso a também nos contar histórias. A família não deu muita atenção ao compositor, mas resolveu que o pequeno virtuose poderia gerar dinheiro, tornando-se uma glória tanto familiar quanto para a corte do príncipe-arcebispo de Salzburgo. Sempre vigiado pelo pai e tendo um porto seguro em sua cidade natal, o menino-prodígio viajará loucamente (ver as viagens que fez aos 10 anos, em 1766, por exemplo) dando concertos por toda a Europa.

Para que os menos musicais pudessem reconhecer o virtuosismo do garoto, faziam-no realizar bobagens de cão amestrado, tal como tocar por cima de um pano que cobria o teclado ou com os olhos vendados. Era afagado, bem pago e sentava-se no colo de príncipes e arquiduquesas. Porém, isto foi antes dos dois grandes encontros. O primeiro encontro que mudaria Mozart foi com Johann Christian Bach, filho de Johann Sebastian e criador do estilo que foi inteiramente adotado e hiperdesenvolvido por Mozart. Mozart ouviu-o tocar em Londres e a impressão ficou-lhe para sempre. Mesmo. Se algum desavisado ouve casualmente alguma obra de Johann Christian, diz na hora: “É Mozart”. Ouvindo com mais atenção, sentirá tratar-se de um Mozart fraquinho, sem aquela imaginação pululante. Como Johann Christian fora o “Bach de Milão” antes de ser “o de Londres”, trouxe modelos italianos ao compositor. A face germânica de Mozart parace ter vindo de seu amado Haydn, a quem dedicou vários quartetos de cordas e a quem admirava desmedidamente. Tal admiração era recíproca e tão famosa e bem humorada que há bom anedotário a respeito.

O que as pessoas normalmente não sabem é que Mozart não foi um compositor tão precoce. Foi um virtuose precoce, mas perderia, em termos de precocidade para, por exemplo, Mendelssohn. Não há, na obra de Mozart pré-1781, algo como o bom Concerto para Violino em ré menor de Mendelssohn, composto aos 14 anos de idade. Poucas obras-primas mozartianas foram compostas antes disso. Suas primeiras obras de mestre foram o Divertimento K. 287, o Concerto para Flauta e Harpa K. 299, a Sinfonia Concertante para Violino e Viola K. 364, a Gran Partita, para conjunto de sopros K. 361, a Missa da Coroação K. 317 e a estranhíssima e espetacular Posthorn-Serenade, K. 320; e estas foram todas compostas todas depois de Mozart completar 20 anos. Vejam como a precocidade tem pouco a ver com as alturas que podem ser alcançadas na maturidade: afinal, poucos ousariam ir além nesta comparação entre as obras completas do genial Mozart e do muito competente Mendelssohn…

Em 1781, aos 25 anos, Mozart explodiu. Nestes 10 anos e meio – Wolfgang morreu aos 35 anos – escreveu quase tudo o que ouvimos hoje e, puxa vida, não é pouca coisa. São dezenas de óperas, concertos, sinfonias e música de câmara de melhor qualidade. É algo inacreditável e é realmente complicado apontar uma ou outra deixando tantas obras de lado.

Há um fato que me deixa contrariado na abordagem que as pessoas fazem a ele: muitos falam de Mozart como de um compositor sempre gentil e delicado, representando-o como um lago tranquilo e eternamente ensolarado onde os patinhos nadam alegres, sem sequer desejar bicar e comer os peixes que passam despreocupados por baixo de suas barrigas sempre cheias e felizes. Também estes peixes não desejam nada, apenas aspiram a uma vida feliz entre seus amigos patinhos e os peixes menores, tão lindinhos, que estão ali para o deleite de todos e assim por diante… O mesmo valeria para sua carreira, onde ele seria uma eterna criança, sempre ingênua e injustiçada, sofrendo nas mãos de poderosos e de colegas invejosos. Não é nada disso. Talvez seja necessária alguma vivência para identificar, mas há em Mozart todo um mundo de expressões sem as quais seria impossível a sua música adequar-se tão bem aos sentimentos pungentes exigidos por um Don Giovanni ou por La Clemenza di Tito e à comicidade das óperas bufas O Rapto do Serralho, As Bodas de Fígaro, A Flauta Mágica e Così fan tutte. E há toda uma música de concerto e obras de câmara autenticamente agressivas e desesperadas. É ocioso pensar que quem alcança expressar todos os matizes dos sentimentos humanos seja um palhaço bobinho e talentoso. Mozart tinha experiência de tudo o que produzia. Não era infantil, não era uma porcelana ou um santo intocável, era alguém deste mundo.

cool-mozart

Mas por que Mozart morreu na miséria? Ora, porque tornou-se um artista absolutamente fiel a si mesmo, dando as costas ao gosto vigente na Viena de seu tempo. A partir de 1784, vieram uma sucessão de obras-primas que fez o conservador público vienense torcer seus nobres narizes. Os Concertos para piano em fá, em ré menor K. 466 e em dó maior K. 467, o em mi bemol K. 482, em lá maior K. 488, e em dó menor K. 491, o em dó maior K. 503, a Sinfonia Praga K. 543, os dois Quartetos com piano K. 478 e 493, os dois Quintetos para Cordas K. 515 e 516, o trio Kegelstatt K. 498 e a Missa em dó menor K. 427, assinalaram em dois anos a plena maturidade do Mozart-compositor que teve como resposta a hostilidade de seu público. José II, por ocasião da representação de O Rapto do Serralho (Die Entführung aus dem Serail) observou: “Notas demais, meu caro Mozart”; e obteve a resposta que nunca sairia da boca de um cortesão, mas sim de um artista absolutamente seguro de sua obra: “Nenhuma só a mais, Majestade”.

O público passou a ignorá-lo e apenas retornou ao final de 1791, dois meses antes de sua morte, quando da estréia do espetacular sucesso de A Fláuta Mágica (Die Zauberflöte). Notem que esta ópera estreou em um pequeno teatro de bairro popular em Viena com o nome de Mozart bem pequeno, para não chamar a atenção – aquele mesmo Mozart que já fora o homem mais famoso de Viena teve seu nome mostrado em letras pequenas, sob o nome garrafal do libretista Schikaneder. O sucesso foi avassalador, mas tardio. Restou-lhe tempo apenas para terminar o belíssimo Concerto para Clarinete, K. 622 e de, ironicamente, tentar terminar um Réquiem K. 626, que não escrevia para si mesmo — conforme as lendas românticas gostam de mentir –, mas por encomenda um certo Conde Franz von Walsegg, cujo contrato nada tem de misterioso e que pode ser examinado em Salzburgo. Porém, sabemos que o destino infeliz deste gênio é um convite aos que gostam de romancear tudo. Eu também gosto, mas só quando o assunto é ficção…

Espero com este post ter feito uma pequena incursão amorosa e boêmia na vida e obra de Mozart. Além da memória, utilizei-me de alguns livros e CDs, principalmente da fenomenal História da Música Ocidental de Jean & Brigitte Massin.

Observação final: Este modesto post é dedicado ao maior mozartiano que conheci. É dedicado a meu pai, morto em 1993. Ele fez com que a trilha sonora de minha infância fossem os concertos para piano de Mozart, suas serenatas para sopros e a Posthorn. Conheço tudinho, nota por nota. Ele nunca parava de falar em Mozart, Beethoven e Chopin — Mozart em primeiríssimo lugar, sempre –, assim como hoje posso passar horas falando Bach, Bartók, Beethoven e Brahms. (Não me provoquem!).

(Quando mostraram o Quarteto das Dissonâncias para Haydn, ele disse que era um equívoco, que aquilo não podia ser. Então, lhe disseram: “Mas é de Mozart”. E o velho respondeu: “Bem, neste caso, trata-se de um flagrante erro de minha parte. Eu é que não entendi.”.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Sete coisas surpreendentes sobre Beethoven que talvez você não saiba

Fazer o quê? Deixei passar o aniversário de Beethoven neste fim de semana. Então, deixo tardiamente aqui uma lista de curiosidades. Aqui tem informação mais, digamos, sistematizada.

1. Nós não sabemos exatamente o dia em que ele nasceu

Não existe um registro confiável da data de nascimento de Beethoven. Seu aniversário geralmente é celebrado em 17 de dezembro, data do seu batismo católico (que sobrevive nos registros paroquiais). A maioria dos estudiosos acredita que o compositor nasceu ou 15 de dezembro ou, mais provavelmente, em 16 de dezembro de 1770. Porém, sabemos que para a História vale o que está escrito, ou seja, 17 de dezembro.

2. Seu primeiro Concerto para Piano não foi o primeiro

Embora tenha sido o primeiro Concerto que publicou, o Concerto para Piano Nº 1 de Beethoven foi, de fato, o 3º. Seu 2º fora escrito uma década antes, entre 1787 e 1789. O compositor rejeitou a peça. Ele também completou um concerto de piano, o 1º., em 1784, aos 14 anos, mas apenas parte do manuscrito para esta peça sobrevive.

3. Ele era um horror em matemática

Apesar da complexidade matemática de suas composições, Beethoven sempre lutou com os números. Ele deixou a escola aos 11 anos, depois de aprender soma e subtração, mas antes de aprender a multiplicar e dividir. Como resultado, ele tinha dificuldade de acompanhar as próprias finanças. Em uma carta de 1801, ele se descreveu como “um homem de negócios incompetente, que não sabe fazer contas”.

Beethoven dando um rolê surdo pelos arredores de Viena

Beethoven dando um rolê surdo pelos arredores de Viena

4. As pessoas odiaram os maravilhosos Últimos Quartetos

As obras-primas experimentais tardias de Beethoven chocaram e confundiram seus contemporâneos. O compositor Louis Spohr descreveu os quartetos de cordas como “horrores indecifráveis e não corrigidos”. No entanto, para Beethoven, foram tentativas de se conectar com o divino. No topo do manuscrito para o Op.132, ele descreveu a peça como uma “Sagrada canção de ação de graças de um convalescente para a divindade”.

5. Ele pode ter tocado uma vez para Mozart

Em 1787, Beethoven fez sua primeira visita a Viena, onde Mozart estava morando. De acordo com o biógrafo do século XIX, Otto Jahn, o nervoso jovem de 17 anos foi apresentado a Mozart e tocou para ele a seu pedido. Mozart tinha 21 anos e já era muito famoso. “Mozart, considerando a peça que ele interpretou uma obra de exibição estudada, foi frio em suas expressões de admiração”, escreve Jahn. “Beethoven, notando isso, implorou um tema para improvisação e, inspirado pela presença do mestre que ele tanto reverenciava, tocou para desta vez chamar a atenção de Mozart, que disse: “Anotem o nome dele”.

6. A surdez não foi o pior dos seus problemas

Ao longo de sua vida, Beethoven teve hepatite, icterícia, colite, várias doenças de pele, febre reumática e cirrose. Antes de morrer, em 1827, aos 56 anos, 25 quilos de água foram retirados de seu abdômen. Apesar da dor da operação sem anestesia, Beethoven manteve o senso de humor, dizem.

7. Suas últimas palavras provavelmente não foram as que a lenda conta

Muitas pessoas acreditam que as últimas palavras de Beethoven foram “Vou ouvir música no céu”, mas há poucas evidências históricas disso. Pouco depois de sua morte, a crença popular dizia que suas últimas palavras tinham sido plaudite, amici, commedia finita est (“Aplaudam, meus amigos, a comédia acabou”), frase tradicional final da commedia dell arte italiana. Mas seu amigo íntimo, Anselm Hüttenbrenner, que esteve presente na sua morte, refutou o boato. Mas o relato mais confiável diz algo também extraordinário. Ao saber que seu editor lhe enviara uma caixa de vinho tinto, ele teria dito: “Uma pena, uma pena mesmo, muito tarde”.

Roubado, de forma muito alterada, do Telegraph

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

De Tarquinio Merula, Ciaccona, com Il Giardino Armonico

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Another Day, de Paul McCartney

Vou salvar aqui algumas postagens que fiz no Facebook e que lá se perdem. Não pelo brilhantismo de minha abordagem, mas pelo comentários dos amigos. Vou começar por esta. Eu escrevi:

Elena indignada porque Paul McCartney repete 17 vezes a mesma nota no início de Another Day e a canção… É irresistível.

paul_mccartney-another_day_s_4

Paulo Moreira Não explicaste pra ela que a música pop do ocidente é assim?? E que fomos criados ouvindo estas canções horríveis, limitadas e irresistivelmente grudantes? E que por isso é música pop?

Zeca Azevedo Música popular é assim mesmo.

Marko A Costa Caboclo Miles Davis manda relembrar q menos é mais.

Caetano W. Galindo Pera lá…. Neguinho tá vendo “simplicidade” nisso? Bom, primeiro que essa moda de repetir uma nota só na melodia de uma canção quem começou foi dom Beethoven… Segundo que, olha a letra: a repetição vem bem na parte que fala de MONOTONIA! O cabra sabe o que tá fazendo… É que nem “My Love”, que começa com “AND when I go away”…. no meio de uma frase, e faz a harmonia começar toda no meio do caminho, num Bb que “resolve” num Am, mas que no fundo só vai fechar em F lá no refrão…. O cara sabe MUITO.

Milton Ribeiro Elena completa: “Nada simples. São 17 notas iguais dentro de algumas harmonias diferentes, alta competência”. Eu, Milton, tb acho. Se fosse simples, eu inventaria canções facilmente.

Marko A Costa E não confundam simples com fácil ou mesmo com simplório. Pra se atingir o simples, não raro é necessário, experiência à parte, um trabalho do cão, qdo se consegue…

Caetano W. Galindo Milton Ribeiro e, só de bônus (hoje fui reouvir a música no passeio do cachorro) e no fim, quando a coisa da rotina está superada pelo desenvolvimento todo, ele harmoniza o vocal com outra linha melódica em cima das notas repetidas… enfim… pérolas.

Caetano W. Galindo E, bem claro, não imaginei que a própria Elena estivesse vendo simplicidade, ok? É que vi uns comentários meio estranhos no post. A primeira-dama é profissional! e não há como se enganar num caso desses!

Marko A Costa Não é o caso da Elena, evidentemente que além de tudo (e bota Tudo nisso 💜), tem bom humor; mas Galindo, sem nem entrar em discussão artística, o que tem de profissional no meio musical que ouve mas não escuta, é de pasmar 😱

Caetano W. Galindo Touché. bem verdade…

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um Grito… Durante O Pássaro de Fogo, de Stravinsky

Ela gritou no meio do Pássaro de Fogo de Stravinsky… Certo que estava dormindo e tomou um susto com o “ataque” da orquestra.

Stephanie Evans disse que não estava dormindo no concerto, apenas fechando os olhos para se concentrar. “Eu estava sentada, sentindo uma sensação de paz e bem-aventurança naquele lugar pacífico quando a orquestra me assustou”, afirmou ela.

A reação dos músicos também é muito engraçada.

Detalhe de 'O Grito' de Edvard Munch

Detalhe de ‘O Grito’ de Edvard Munch

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A Rádio da Universidade faz 60 anos amanhã

Amanhã, a Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul completa 60 anos. Foi a primeira rádio universitária e pública do país. Comecei a ouvi-la diariamente desde os 15 anos e não imaginava que ela tivesse nascido no mesmo ano que eu. Antes desta idade, meu pai já nos fazia ouvi-la no carro e em casa. Naquela época, suas transmissões começavam às 8h e iam até a meia-noite. Tudo terminava num estranho “Boletim Astrônomico”. Assim que meu pai notou em mim alguma tendência para apaixonar-me pela música erudita, iniciou um jogo que durou até sua morte em 1993. Toda vez que ligava o rádio, nós tínhamos que adivinhar que obra estava sendo executada. O jogo era levado tão a sério que, logo após o final de cada música e do locutor anunciar o nome do compositor e título da obra – tínhamos que ouvir atentamente, porque era nossa conferência para saber quem tinha acertado — , o rádio era desligado a fim de que não ouvíssemos o nome da próxima. Deixávamos passar alguns minutos para só então religarmos o rádio e as tentativas de adivinhação.

Rádio da Ufrgs 60 anos

Isso me deu um treinamento incrível para reconhecer estilos e obras. Mas o que interessa hoje é que há mais de 45 anos ouço a rádio, a minha rádio que tantos problemas apresentava nos primeiros anos: sinal fraco, interrupções das transmissões, vinis com problemas (alguns arranhados, outros em tal estado que não deixavam a agulha avançar…), etc. Hoje, o maior problema é o fato de ela ser uma emissora AM. Melhor ouvi-la sempre na Internet. Quando virá o FM? Outro problema é que, antigamente, a escolha do repertório tinha mais lógica.

Os méritos da rádio ultrapassam em muito os seus problemas e foi ali, com o grande compositor e ex-diretor da emissora Flavio Oliveira e com Rubem Prates, que aprendi que uma programação não era mero sorteio ou livre-associação. É notável como eles conseguiam ligar inteligentemente cada música à próxima, fosse por seu tema, por sua evolução na história da música ou pela pura sensibilidade desses dois conhecedores, que viam parentescos em coisas aparentemente díspares. Com eles, aprendi que havia várias formas de se avançar na grande árvore da história de música. Por exemplo, pela manhã, a rádio iniciava por um compositor de música antiga ou barroco, depois ia para um clássico, daí para um romântico, e assim por diante, nos mostrando sempre os caminhos e os diálogos que um compositor travava com seu antecessor. Foi a maior das escolas. Com a Rádio da Ufrgs conheci o que cada compositor passou a seus sucessores e aquilo, após milhares (mesmo!) de dias como ouvinte, tornou natural a leitura das histórias da música que fiz depois. De forma misteriosa, estranha e certamente gloriosa, aqueles dois homens silenciosos já tinham me ensinado tudo, colocando as coisas na ordem certa para que meu ouvido entendesse. Hoje, a coisa está mais bagunçada, às vezes temos que reformatar o ouvido de uma obra para outra.

É claro que me emociono ao falar da Rádio da UFRGS, não há como ser diferente. Voltando a sua história, depois seu horário foi ampliado e já faz décadas que transmite 24 horas por dia como qualquer outra emissora. Conheci na rádio quase tudo o que ainda ouço hoje ou posto no PQP Bach. Lembro do dia em que ouvi a Oferenda Musical de Bach numa manhã intacta e perdida, no quarto já então pleno de futura saudade. Era uma gravação de Hermann Scherchen e, naquele momento, eu tive a certeza de que não existia nada que pudesse deixar aquele momento mais perfeito e importante, tal o modo como a música caiu sobre mim. Lembro do dia em que mandei uma carta — sim, pelo correio — para o programa de sábado à noite Atendendo o Ouvinte. Pedi a Sinfonia Nº 10 de Shostakovich. Fui atendido. Eu e uma namorada — eu devia ter entre 18 e 20 anos — deixamos de sair para ficar ouvindo aquela maravilha. Fora da música, talvez apenas os filhos, os momentos de amor ou a futura leitura do Fausto de Mann, de Tolstói, Dostoiévski, Bulgákov ou de Machado, além do enlouquecido Guimarães Rosa do Grande Sertão, me proporcionaram momentos em que novamente pareci ter saído de minha pequena natureza.

E, no grande último momento, dias atrás, ao ligar a rádio, dei de cara com a esquecida Sinfonia Turangalîla de Messiaen e permaneci – por sorte estava em minha cama, antes de dormir — por mais de uma hora, de olhos arregalados, cada vez mais acordado e eufórico. Ou ainda, anos atrás, quando atrasei-me para um encontro porque TINHA que saber qual era aquela música incrível que, afinal, era desconhecidíssima para mim na época: a Sinfonia Singular de Berwald.

É por viver com ela há mais de 45 anos, é por saber que só em Montevidéu, em Oslo e em Amsterdã (ouço pela internet) há emissoras de mesma categoria, é por ter receio de que a programação da rádio caia na vala comum — como tantos já desejaram –, que saúdo e fico feliz com os 60 anos, meus e de “minha rádio”.

Parabéns e longa vida!

.oOo.

P.S. 1 — Tenho no computador de casa um excelente programa Música em Pessoa cuja entrevistada é minha Elena Romanov, que é violinista da Ospa. Ela foi entrevistada pela Ana Laura Freitas e é um baita programa.

P.S. 2 — Pedro Palaoro, funcionário da Rádio de Ufrgs, me informa: “O FM aparentemente virá em 2018. A banda será liberada no final de janeiro, quando caírem as TVs analógicas. Tem o tempo de aquisição de equipamento e tal, mas o planejamento é que isso ocorra logo”.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O Constanze Quartet trouxe Mozart e Draeseke para invadir o quartel do StudioClio

O Constanze em Ouro Preto, dias antes de chegar a Porto Alegre | Foto: perfil do Facebook do grupo

O Constanze em Ouro Preto, dias antes de chegar a Porto Alegre | Foto: perfil do Facebook do grupo

Domingo passado (12) fazia um dia lindo. A temperatura também era agradável. Ao final da tarde, às 19h, para coroar o dia e o belo fim de semana cheio de encontros com gente legal, eu e Elena fomos ao StudioClio para ouvir o Constanze Quartet. O Constanze é formado por quatro mulheres da Salzburg Chamber Soloists. Elas tocaram na quarta-feira anterior com a orquestra no Theatro São Pedro e aproveitaram a estadia na cidade — a orquestra também tocou em Pelotas — para um recital do quarteto. E o dia continuou lindo.

Sem nunca tê-las ouvido, eu tinha sido consultado sobre onde poderiam tocar. Indiquei o StudioClio, lugar perfeito para Música de Câmara e, logo na entrada, vi a primeira violinista Emeline Pierre, que me agradeceu a sugestão após elogiar o local e sua acústica. Claro que fiquei feliz e fui sorridente receber nossos ingressos, quando dei uma gaitada.

Quartel e "sexta-feira"...

Quartel e “sexta-feira”…

Ficamos pensando no “Quartel”. Ora, o L fica bem longe do T no teclado. No que estaria pensando o autor nos ingressos no momento de emiti-los? Ou teria sido obra do maldito corretor ortográfico? Eu acho que o nome “Constanze” é uma homenagem a Maria Constanze Cäcilia Josepha Johanna Aloysia Mozart (née Weber), esposa de Mozart. Achei curioso dar o nome de uma mulher a um quartel, ainda mais sendo a de Mozart e não a mãe de um milico.

Surpreendentemente, o Clio estava lotado, apesar de que há gente que diz que neste horário só vão dez pessoas. OK.

Elas iniciaram pelo Quarteto K. 465, “Dissonâncias”, de Mozart. É uma obra-prima e as meninas eram mesmo tudo aquilo que prometiam.

Constanze Quartet (1)

O Quarteto Constanze é um grupo de transpira cultura musical, é bem trabalhado e tem uma sonoridade distinta, dessas que fazem a gente buscar outra posição na cadeira, uma que combine com o que se ouve. A coisa é muito refinada. Cada nota emitida por Pierre e pela violoncelista Platero parecem trazer séculos de conhecimento de estilo, mas o mais importante é que elas são um conjunto perfeitamente integrado, onde o virtuosismo de cada uma não atrapalha o todo. O Quarteto de Cordas é uma forma de arte bastante complexa, o campo preferido pelos compositores para suas experimentações. Mas é uma forma que não grita, estando mais conectada aos conhecedores da arte musical do que ao grande público, sendo uma espécie de símbolo de “bom gosto”. Com esta opinião, tento dizer que sempre tenho alta expectativa sobre os quartetos que ouço e o Constanze cumpriu todos os quesitos de alta qualidade.

Vocês sabem que eu escrevo meus absurdos de minha cabeça, mas sou um aluno da Elena. Ou seja, ela não somente me dá presentes musicais, como me ensina várias coisas da vida e da música. Uma das coisas que estou quase aprendendo é o sotaque dos músicos. Russos tocam como russos e, às vezes, tocam como russos não somente música russa. Cada etnia tem seu sotaque também na música. Assistimos em Londres, por exemplo, uma respeitada pianista russa interpretando Sonatas de um compositor que poderíamos chamar de Betovenov, pois Beethoven não era.)

Digo tudo isso para afirmar que o que as moças tocavam era puro Mozart. Todo o fraseado, a elegância, as sutilezas e a respiração de Wolfgang estavam presentes. Foi um momento muito especial. Eu e Elena nos olhamos e… puxa! A obra é chamada de Dissonâncias em razão da lenta introdução. Acho que vocês já adivinharam o que tem lá. Quando mostraram o Quarteto das Dissonâncias para Haydn, ele disse que era um equívoco, que aquilo não podia ser. Então, lhe disseram: “Mas é de Mozart”. E o velho respondeu: “Bem, neste caso, trata-se de um flagrante erro de minha parte. Eu é que não entendi.” Detalhe: o Quarteto, que é o melhor que Mozart escreveu, faz parte de um grupo todo dedicado a Haydn.

Constanze Quartet (x)

Depois foi a vez do Quarteto Nº 2, Op. 35, de Félix Draeseke (1835-1913), compositor romântico que compunha e combatia na trincheira de Brahms — se não me engano, ele depois se bandeou para a trincheira de Wagner, mas ele não engana ninguém: sua música é ultra Brahms-like, só que ainda mais densa e intrincada. E informamos a vocês que o Constanze Quartet vai gravar a integral dos Quartetos de Draeseke e que eu gostaria de ouvir, porque realmente gostei do cara. Seu quarteto Nº 2 é denso e belo como Brahms, longo e difícil como Bruckner. Ou seja, fica entre dois compositores que amo.

Constanze Quartet (2)

Foi uma noite realmente significativa o porto-alegrense amante da música. Você não foi? Lamento. E, das três fotos abaixo, a última me faz rir.

Constanze Quartet (3)

O Quarteto Constanze é formado por Emeline Pierre (violino), Esther Gutiérrez (violino), Sandra García (viola) e Marion Platero (violoncelo).

Constanze Quartet (4)

Constanze Quartet (5)

Fotos do iPhone de Elena Romanov.

.oOo.

Ah, tempo! As fotos de Cláudia Beylouni Santos e/ou Norberto Flach:

23559918_1199136393521090_5328385292981428501_n

23559771_10210627737185394_7843358750724755470_n

23559707_10210627733545303_5923595805655056463_n

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O homem que desprezava o Bolero de Ravel

20150306-ravel

O compositor Maurice Ravel (1875-1937) foi um sujeito fino e bem-humorado. Depois da estreia de sua obra mais conhecida, o Bolero, uma pessoa da plateia afirmou que o compositor só poderia ser louco, ao que Ravel respondeu sorridente: “Ela compreendeu perfeitamente”. O compositor efetivamente desprezava sua peça mais famosa, achando-a trivial. Ele escreveu um texto nada entusiasmado para a estreia da obra:

É uma peça de 17 minutos que consiste de puro tecido orquestral sem música — um longo e muito gradual crescendo. Não existem contrastes, não existe nenhum desenvolvimento exceto no plano e na forma de execução. O tema é totalmente impessoal, pode-se tocá-lo com apenas um dedo no piano. Trata-se de temas populares hispano-árabes e, apesar do que possa ter sido dito em contrário, a escrita orquestral é simples e direta, sem qualquer tentativa de virtuosismo. Fiz exatamente o que queria e cabe aos ouvintes decidirem se devem amar ou odiar o Bolero.

O título inicial era Fandango. No entanto, este ritmo lhe pareceu uma dança demasiado rápida e o nome foi alterado para bolero, outra dança tradicional andaluz. A música foi composta por encomenda da bailarina russa Ida Rubinstein. Apesar de hoje fazer parte do repertório de concertos, na origem era um balé.

Abaixo, o Bolero com a Sinfônica de Londres, sob a direção de Valery Gergiev.

Joseph-Maurice Ravel nasceu na cidade de Ciboure, França, em 7 de março de 1875. Recebeu as primeiras aulas de piano aos sete anos, junto com o irmão Edouard, três anos mais novo. Seu enorme interesse pela música chamou a atenção dos pais que, em 1889, o matricularam no tradicional Conservatório de Paris.

Curiosamente, mesmo com os excelentes professores do Conservatório, ele nunca aceitou bem as aulas e, após algum tempo, largou o aprendizado formal para estudar composição sozinho. Durante anos tentou vencer o Grande Prêmio de Música de Roma, evento que consagrava novos talentos. Considerado um dos favoritos à conquista em 1905, sofreu nova derrota por ser muito revolucionário para o conservadorismo do juri. Por já ter certa celebridade devida à Sonata para Violino (1897) e à Sheherazade (1898), sua derrota provocou escândalo público e a mudança na direção do Conservatório.

O revés de Roma deixou Ravel ficou muito contrariado, talvez traumatizado, e desde então ele passou a ser cuidadoso nas ocasiões públicas fora de concertos, chegando a recusar distinções como a Legião de Honra, principal condecoração francesa. O compositor evitava frequentar os salões em pleno auge da belle époque europeia.

Sua primeira peça famosa foi a impressionista Pavane pour une infante defunte, composta em 1900, quando Ravel tinha vinte e cinco anos. Devido à origem basca, Ravel tinha uma predileção especial pela música espanhola. A pavana é uma tradicional e lenta dança espanhola, que gozou de popularidade entre os séculos XVI e XVII. A peça foi escrita em 1899 para piano, durante os estudos do compositor no Conservatório de Paris. Ele a orquestrou em 1910. Segundo ele, ela não evoca nenhum momento histórico, mas somente a dança de uma jovem princesa imaginária na corte espanhola. Também, segundo o compositor, a música não deve levar o ouvinte a pensamentos funéreos. Ravel afirmou que o motivo do título da peça era porque gostava do som da combinação das palavras “infante défunte”

Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, Ravel deixou de compor. Tentou alistar-se no exército francês, mas foi rejeitado por razões médicas, acabando como motorista militar. Após a guerra, concluiu o poema coreográfico Wien (Viena), que depois teve seu título alterado para La Valse. La Valse foi concebida como uma homenagem à valsa vienense. Ele queria ver La Valse como um grande balé e chegou a apresentá-la ao empresário Serguei Diaghilev em 1919, mas este a considerou inadequada. É uma de suas obras-primas.

A cigana Tzigane foi encomendada pela violinista húngara Jelly d’Arányi. A instrumentação original é para violino e piano. A composição tem um movimento com duração aproximada de dez minutos. Tzigane demonstra a capacidade do compositor de criar música para violinistas virtuoses ao estilo de Paganini e Sarasate. É a música ideal para o violinista apresentar sua habilidade e carisma no instrumento. Os temas utilizados não são tradicionais ciganos, todos são originais de Ravel.

Concerto para Piano em Sol maior e o Concerto para Piano para a Mão Esquerda vieram à luz nos anos de 1930 e 1931. O Concerto para mão Esquerda (1929–1930) foi dedicado ao pianista Paul Wittgenstein, irmão do filósofo Ludwig Wittgenstein, Paul foi um grande pianista que perdeu o braço direito durante a Primeira Guerra Mundial. Ele não se conformava com o fato e escreveu a vários compositores pedindo-lhes que escrevessem músicas que pudesse tocar. Ravel estava ocupado com a composição de um concerto para piano (o em Sol Maior, para duas mãos), mas interrompeu o trabalho para atender Wittgenstein.

O citado Concerto em Sol Maior foi composto entre 1929 e 1931. O concerto é fortemente influenciado pelo jazz e por Gershwin, que Ravel tinha conhecido em uma turnê pelos Estados Unidos realizada em 1928. O jazz era muito popular em Paris. Ravel observou que “A parte mais cativante de jazz é o seu ritmo rico e divertido. É uma inspiração para os compositores modernos e estou surpreso que tão poucos americanos sejam influenciados por ele”. Ravel desejava ser o solista na estreia da peça. No entanto, os problemas de saúde impediram que ele participasse da estreia.

Voltando no tempo, destacamos o esplêndido Quarteto de Cordas. Ravel estreou na música de câmara com este quarteto, escrito entre dezembro de 1902 e abril de 1903. A obra foi dedicada a “meu querido mestre” Gabriel Fauré… Mas a reação de Fauré foi de desaprovação. Por outro lado, Claude Debussy gostou muito do quarteto e ficou assustado com a possibilidade do jovem Ravel, então com 27 anos, revisar o quarteto a fim de agradar ao mestre e pediu: “Em nome dos deuses da música e no meu próprio, não mexa em nada do que você escreveu”. A estreia, em 1904, provocou opiniões controversas. Pierre Lalo, por exemplo, considerou-o “indecentemente próximo de Debussy do ponto de vista da harmonia, da sonoridade e da forma”, enquanto o crítico do jornal “Mercure de France” vaticinou: “É preciso fixar o nome de Maurice Ravel. Ele será um dos mestres de amanhã”.

Ma mère l’oye é Mamãe Gansa. A peça foi escrita originalmente para o piano como um presente a dois filhos de amigos do compositor e publicada em 1910 para ser tocada a quatro mãos. Foi inspirada nos contos de fada de Charles Perrault e da condessa d’Aulnoy. No mesmo ano, seu amigo Jacques Charlot a transcreveu para piano solo e, em 1911, a peça foi orquestrada pelo próprio Ravel que adicionou novas partes e a transformou num balé.

Quadros de uma Exposição não é uma obra de Ravel. Trata-se de uma Suíte para Piano escrita pelo russo Modest Mussorgsky em 1874. A orquestração que Ravel preparou para a peça é tão perfeita e valorizou da tal forma as nuances dos temas que se tornou impossível falar apenas na autoria da música quando se ouve a versão orquestral. Ao fazer o arranjo, Ravel prestou um grande serviço póstumo a Mussorgsky, tirando-o da obscuridade. Quadros de uma Exposiçãodescreve uma visita a uma exposição de quadros. Os temas isolados de cada quadro são unidos pelo mesmo tema de abertura, o passeio, interpretado com diferentes harmonias através da obra.

Os últimos anos de Ravel foram afetados pela Doença de Pick. É um mal neurodegenerativo incomum que afeta a capacidade de raciocínio, a linguagem e o auto-controle. É semelhante ao Mal de Alzheimer, mas na doença de Pick os sintomas comportamentais aparecem muito antes da perda de memória. Ele foi submetido a uma inútil cirurgia no cérebro em 1937, morrendo alguns meses depois.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Uma grande noite: o concerto da Salzburg Chamber Soloists no TSP

10685768_10152812945582398_2259737904797989998_nNesta quarta-feira (8), fomos assistir ao concerto da Salzburg Chamber Soloists no velho Theatro São Pedro. Conhecia o grupo apenas através de alguns excelentes CDs que possuo. Já seu fundador e diretor artístico, o violinista e regente Lavard Skou-Larsen, é meu conhecido de outros carnavais. Já vi Lavard regendo a Ospa — entrevistei-o na época — e tocando com grupos menores no próprio TSP. O programa era ótimo, bastante afastado daquele mais do mesmo habitual:

Ernest Chausson: Concerto para Violino, Piano e Cordas, Op. 21
Solo: Lavard Skou-Larsen – Violino
Phillippe Raskin – Piano

Wolfgang Amadeus Mozart: Divertimento em Ré Maior, KV 136

Maurice Ravel: Quarteto de cordas em fá maior
(arranjo para orquestra de cordas: Lavard Skou Larsen)

A orquestra é a coisa mais linda que eu já vi passar. Não por Lavard, mas pelos outros, ou outras, pessoas cheias de graça num doce balanço a caminho do mar. Como quase toda orquestra europeia, há uma maioria de mulheres. Elas são jovens, belas e, no conjunto de 16 membros, há 13 nacionalidades diferentes, vindas de 4 continentes. Há apenas um violinista com passaporte austríaco, só que ele nasceu na Colômbia. Suponho que tenha casado com uma nativa.

Antes de tocar o Chausson que abria o programa, Lavard contou a história da morte do compositor. É uma tragédia cômica ocorrida quando o compositor tinha 44 anos de idade. A gente lamenta, mas ri. Certo dia, depois da chuva, ele vinha de bicicleta descendo por Montmartre, um dos bairros mais charmosos de Paris, quando se desequilibrou, bateu de cabeça num muro e perdeu a consciência. Só que, casualmente, caiu com o nariz numa poça d`água de uns 10 centímetros. A consequência é que morreu afogado no meio da rua, bem longe do Sena.

Sua música é muito boa, de uma gravidade e dramatismo muito particulares. Se Proust fosse compositor, talvez soasse como Chausson: lírico, apaixonado, mas sem grandes gestos. Chausson escreveu bem e pouco, pois, antes de bater a cabeça, passava a maior parte de seu tempo nos salões de Paris, com artistas célebres como Odilon Redon e Vincent d’Indy. Como os poetas que frequentava, parecia buscar a palavra perdida sob a onda invasora do cientificismo da virada do século. A Chausson só faltou tempo para que se tornasse um dos mais importantes autores de sua época. Este Concerto, originalmente para piano, violino e quarteto de cordas, é sua obra-prima. A peça é longa, de mais de 40 minutos, e foi levada com grande senso de estilo e competência pela orquestra. 

O Divertimento K. 136, de Mozart, tem três movimentos — rápido-lento-rápido, à maneira da sinfonia italiana. É o primeiro de um grupo de três divertimentos, também conhecidos como Sinfonias de Salzburgo. Essas obras se destacam das sinfonias restantes de Mozart na medida em que são escritas apenas para cordas. Um outro ponto que separa essas composições das outras Sinfonias de Mozart é que elas são compostas apenas em três, em vez dos quatro movimentos habituais. Aqui, não existe um minueto como terceiro movimento. E, finalmente, a forma compacta de três movimentos distingue ainda mais as Sinfonias de Salzburgo de outros Divertimentos e Serenatas de Mozart, que possuem mais movimentos ou formas mais livres. É Divertimento, é Mozart, então parece leve, mas é ousado e arrojado.

Lavard é um especialista em Mozart. A interpretação fluiu muito bem, com a orquestra animada, trocando sorrisos entre si, num clima de bom humor que parecia por si só empurrar a música.

Na área de quartetos de cordas, é fácil fazer a contabilidade de Ravel: tal qual Debussy, ele escreveu somente um, mas que quarteto! Ravel foi um daqueles raros grandes criadores que se revelam desde as primeiras obras: na Habanera dos Sites Auriculaires, por exemplo, escrita quando o compositor tinha apenas vinte anos de idade, a personalidade do autor já estava bem definida.

Ravel e sua geração contribuíram para que a música saísse do armário, de seu mundo isolado, para uma atmosfera mais ampla, onde pudesse se relacionar com outras artes. Ele foi um músico poeta, bastante incompreendido por seus contemporâneos. Já nossa época o colocou no merecido Olimpo. O maravilhoso e difícil Quarteto de Ravel é menos radical do que o de Debussy de dez anos antes. É puro Ravel, mas talvez ele não existisse a influência de “Debbie You See”. Aliás, mesmo caso do primeiro quarteto de Bartók. Mas o de Ravel é o meu preferido dos três, muito mais melodioso do que os outros. A transcrição de Lavard para orquestra é uma preciosidade.

Passando a régua, afirmo-lhes que a Salzburg Chamber Soloists fez um concerto de altíssimo nível. Os caras tocam com tesão, alegria, musicalidade e grande técnica. A sonoridade é muito bonita, os ataques são fulminantes e exatos. A cada obra foi dada sua personalidade. Chausson, Mozart e Ravel são muito diferentes entre si e foram tratados distintamente. Na orquestra, há músicos fantásticos como os violinistas Lavard Skou Larsen e Emeline Pierre, a violoncelista Marion Platero e outros que não saberia citar por desconhecimento. (O que foi aquilo que fez o Moisés Irajá dos Santos no bis de Piazzolla?). Foi inevitável sair feliz do TSP, quase comemorando o que raramente se ouve neste canto do mundo, tão esquecido da cultura.

21751564_1494837807272963_2100758481810649374_n

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Como salvar um breu quebrado

Elena me falou que este textinho poderia ser muito útil a todos os instrumentistas de cordas, profissionais ou estudantes, ainda mais em época de crise. Todos sabemos como é raro encontrar um breu de boa qualidade. E, quando menos esperamos, ele cai de nossa mão e quebra-se em mil pedaços, não sendo mais utilizável.

A Celina, mãe da aluna Helena, a qual já deixou escapar o breu várias vezes, ensina uma técnica fácil, prática e acessível para recuperá-lo.

Para isso, você vai precisar de uma panela para banho-maria e uma forminha de vela sem a vela dentro, é bóbvio.

image1

Depois do breu derreter, tira-se o mesmo do banho-maria e deixa esfriar. Então tira-se o cara da forma.

image2

Bons estudos com economia!

Fotos e técnica de Celina Barroso.

 

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O melhor concerto da Ospa em 2017? Provavelmente sim

Estava na cara que o concerto de ontem à noite na Ufrgs seria um dos melhores da Ospa este ano. Apenas uma obra seria tocada, a Sinfonia Nº 2, “Lobgesang”, de Mendessohn. Música de alto nível, com a presença do coral, costuma ser mortal (rimou). A interpretação da obra foi excelente com a presença luminosa de cantores solistas como a soprano Elisa Machado, que arrasou. Também elogiáveis o trabalho da orquestra, do coral e o senso de estilo do maestro Manfredo Schmiedt. Aquilo que ouvimos foi efetivamente um Mendelssohn. Ontem, antes do Concerto, publiquei no Guia21 um artigo a respeito da obra. Para efeito de registro, reproduzo-o aqui com umas poucas alterações sugeridas pelo Ricardo Branco.

Foto: Raquel Laks

Foto: Raquel Laks

.oOo.

Iniciemos por um depoimento pessoal. Em 2014, eu estava em Lisboa visitando a Fundação Calouste Gulbenkian quando soube que a excelente Orquestra Gulbenkian tocaria naquela noite a Sinfonia Nº 2, “Lobgesang” (Hino de Louvor), de Mendelssohn, sob a regência de Paul McCreesh. Não conhecia a obra, apenas a excelente fama da orquestra e a competência de McCreesh, comprovada em muitos CDs que ouvira.

A música me surpreendeu em vários aspectos:

(a) foram quase 70 minutos de uma sinfonia arrebatadora, de enorme qualidade;
(b) foi escrita em homenagem aos 400 anos da invenção da imprensa, que…
(c) teve enorme influência na Reforma Luterana com a edição da Bíblia de Gutenberg, pois até então a Bíblia era lida em latim e sua circulação não era a mesma que passaria a ter a partir da invenção da imprensa;
(d) utilizava textos da Bíblia Luterana e, finalmente,
(e) era uma Sinfonia Coral como a 9ª de Beethoven.

Porém…

Por algum motivo desconhecido, esta sinfonia é uma das menos conhecidas de Felix Mendelssohn (1809-1847). É, na definição do próprio compositor, uma “Sinfonia-Cantata, baseada em textos da Bíblia, para solistas, coro e Orquestra”. Foi composta por ocasião das comemorações dos 400 anos de aniversário da grande invenção de Gutenberg. Era uma obra inusual: três andamentos orquestrais seguidos de outros onze para coro, solistas e orquestra. O próprio compositor escolheu os textos bíblicos, procurando sublinhar o triunfo da luz sobre a escuridão. A obra enquadra-se na tradição do coral protestante aperfeiçoado por J. S. Bach, compositor que Mendelssohn admirou ao ponto de ter sido responsável pelo ressurgimento da sua música na primeira metade do séc. XIX.

Felix Mendelssohn

Estranhamente, Mendelssohn, desde a segunda metade do século XIX e ao longo de boa parte do século XX, tem sido classificado com um compositor judeu. É como se ocupasse uma faixa especial, paralela ao desenvolvimento musical europeu. Tal fato originou-se nos escritos discriminadores de Richard Wagner. De forma inacreditável, Wagner tentou inventar uma tradição sinfônica alemã cujo romantismo excluísse Mendelssohn, dando maior importância a Schumann, Liszt ou até mesmo a Weber. Curiosamente, nos anos 30 do século passado, por um pequeno período Hitler incentivou que os judeus tivessem casas de espetáculos onde fossem apresentadas exclusivamente peças e obras de judeus. Lembram das clássicas cenas de filmes onde os nazistas invadem teatros lotados de judeus, quebrando tudo? Pois é, naquelas casas, Mendelssohn era muito interpretado.

No entanto, é extremamente complicado entender a música romântica alemã sem Mendelssohn, um compositor extraordinário e muito culto em todos os aspectos artísticos, humanísticos e socioeconômicos, bem como poliglota e cosmopolita. (Ele é hoje detestado por alguns grupos feministas por ter prejudicado a carreira de sua irmã Fanny como compositora, como se ele pudesse escapar de ter sido um homem de sua época). Um bom exemplo de sua cultura e sensibilidade é a bem sucedida colocação de Johann Sebastian Bach (1685-1750) como o ícone central da cultura musical alemã. Tal fato só foi possível de ser realizado a partir do próprio patrimônio da família Mendelssohn, que teve, entre seus empregados em Berlim e Postdam, Wilhelm Friedemann (1710-1784) e Carl Philip Emmanuel Bach (1714-1788). Quando da morte destes filhos de Bach, a rica família Mendelssohn comprou as coleções de partituras de ambos para suas bibliotecas.

Filho do banqueiro Abraham Mendelssohn e de Lea Salomon, neto do filósofo judaico-alemão Moses Mendelssohn, Felix foi membro de uma família judia notável, mais tarde convertida ao cristianismo. Começou a compor aos nove anos, tendo crescido num ambiente de efervescência intelectual. Dentre os frequentadores da cada dos Mendelssohn, estavam Goethe, Wilhelm von Humboldt e Alexander von Humboldt. Pressionado, Abraham renunciou à religião judaica. A Felix, a seu irmão Paul, e às suas irmãs Fanny e Rebeca, foi dada a melhor educação possível. Sua irmã Fanny Mendelssohn (mais tarde, Fanny Hensel), se tornou conhecida como pianista e compositora, apesar das dificuldades impostas pela oposição de Felix e da família. Afinal, compor não seria “coisa de mulher”.

Mendelssohn foi a maior das crianças prodígio. Enquanto criança e adolescente, nenhum outro compositor escreveu obras da mesma qualidadeu, nem Mozart. Ele começou a ter lições de piano com sua mãe aos seis anos. A partir de 1817, com 8 anos, estudou composição com Carl Friedrich Zelter em Berlim. E publicou o seu primeiro trabalho, um quarteto com piano, aos treze anos.

Felix & Fanny Mendelssohn

É uma injustiça histórica visitar Leipzig e descobrir que a casa-museu de Mendelssohn foi fundada há apenas 15 anos — assim como o monumento erguido em homenagem aos dois irmãos Mendelssohn, Fanny e Felix. Leipzig é claramente uma cidade bachiana também por influência de Mendelssohn.

Mesmo com a oposição de Wagner, sua música de câmara e peças para piano nunca deixaram de ser interpretadas, apenas as sinfonias e oratórios eram vistas com certo desprezo. Já a Inglaterra foi sempre fiel a Mendelssohn: a Inglaterra vitoriana o tinha como seu compositor favorito. A Segunda Sinfonia, “Lobgesang”, conhecida como Hino de Louvor foi uma obra que influenciou claramente a música coral sinfônica da Inglaterra antes da Primeira Guerra Mundial.

É redundante lembrar que Felix, filho de um importante banqueiro e membro de uma família de intelectuais e bibliófilos, soube combinar suas qualidades pessoais com todas as vantagens de uma educação refinada que os melhores professores lhe forneceram desde a infância. Em 1823, uma carta de seu professor Zelter para Goethe informava que “ele está melhorando em tudo, adquirindo mais força e poder. Imagine nossa felicidade, se sobrevivermos, para ver o jovem Felix viver a plenitude de tudo que sua infância prometeu”. No ano seguinte, 1824, tudo isso parecia estar ainda mais claro: aos 15 anos, em alguns meses, Felix Mendelssohn compôs sua 1ª Sinfonia, um Sexteto para piano e cordas, o Rondó Caprichoso para piano e vários trabalhos menores, além de estrear sua ópera Der Onkel aus Boston.

Johannes Gutenberg

Em honra a Gutenberg

A Sinfonia Nº 2, “Lobgesang”, foi composta ao longo de 1840, publicada em 1841 e estreada na Igreja de São Tomás, em Leipzig, em 1842, dentro de um festival em homenagem a Gutenberg. Quando Mendelssohn fez a revisão definitiva de seu trabalho em dezembro para a edição da partitura, a sinfonia já era um trabalho popular na Alemanha e na Inglaterra. Na verdade, “Lobgesang” ocupa o quarto lugar na ordem cronológica das sinfonias de Mendelssohn, embora tenha sido numerada como uma segunda sinfonia por seus editores, já que naquela época apenas a Sinfonia Nº 1, Op. 11 (1824) tinha sido publicada. Na verdade, a Sinfonia Nº 5, “A Reforma”, Op. 107 (1830) foi a segunda a ser escrita e a terceira foi a Sinfonia nº 4 “Italiana”, Op. 90 (1833). A última composta por Mendelssohn foi a Sinfonia Nº 3 “Escocesa”, op. 56 (1842).

Mendelssohn deu o subtítulo de “Sinfonia Cantata” para o Lobgesang. O plano formal de escrever três movimentos instrumentais e um quarto longo movimento coral nos obriga a pensar na sinfonia coral de Beethoven. De fato, no primeiro movimento, há uma homenagem óbvia a Beethoven: o uso de um tema da Sonata para piano, Op. 22 do mestre de Bonn. Mas há diferenças notáveis no estilo usado: a introdução do primeiro movimento responde é muito pomposa quando comparada com a suave melodia do Allegretto de Beethoven, que se destaca pela naturalidade ingênua.

O movimento coral é monumental, manifestamente neobachiano. É dividido em nove partes:

1) Introdução (sobre o tema do primeiro movimento e terceiro figuração) e primeiro coral “Louvai ao Senhor tudo o que respira seguido pela ária soprano” Alaba minha alma ao Senhor “em um acompanhamento inquieto que nos lembra o sonho de uma noite de verão.
2) recitativo e único tenor: “Fale-te que foi redimido pelo Senhor”;
3) refrão de resposta;
4) a dupla de sopranos “Eu deposito minha esperança no Senhor”, que tem grandes semelhanças com uma das Canções Sem Palavras do sétimo livro;
5) o tenor canta “As cadeias da morte nos cercam”, um dos melhores momentos da Sinfonia, que termina com o anúncio da soprano de “A noite acabou”;
6) o coro em uma fuga esplêndida;
7) coro religioso “Deixe todos darem graças ao Senhor”;
8) fueto de soprano e tenor «Por isso minha música vai celebrar a sua glória»;
9) coro final da cidade aclamada.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ajude o Renato. Não falta muito

Naquele fim de tarde terrível de tempestade no Jardim Botânico, quando o palco  onde a Ospa se apresentava foi destruído pelos ventos e pela chuva, conheci casualmente a mãe do jovem trompetista Renato Oliveira. Ele estava tocando com a orquestra e ela estava na porta do JB tomando o maior banho, esperando o filho ao mesmo tempo que estava sem poder sair, como todos nós. Conversamos e ela se identificou. Boa gente, orgulhosa do filho, mulher com jeito de quem leva uma vida dura e honesta.

Renato Oliveira (centro) | Foto: Maí Yandara

Renato Oliveira (centro) | Foto: Maí Yandara

Nós não sabíamos que, mais ou menos naquele momento, o Renato tinha salvado a tia do lanche da Ospa, a D. Lourdes, de um acidente maior. Ele simplesmente se atirara sobre a senhora de 70 anos para que a armação do camarim do evento não caísse sobre ela. Mas o Renato, além de solidário, é bom trompetista. E vejam o que está acontecendo agora com ele.

Renato Oliveira estuda na Escola de Música da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Neste ano, foi convidado para estudar trompete no conservatório de música International Brass Studio, na Bélgica. Quem fez o convite foi o próprio idealizador da academia, o trompetista belga Dominique Bodart, quando realizou masterclass aqui em Porto Alegre. Por seu talento, Renato chamou a atenção de Bodart. Então, em setembro, o Renato, de apenas 19 anos, lançou uma campanha de financiamento coletivo para estudar lá. O objetivo é arrecadar o valor de R$ 33,2 mil, para custear gastos como passagens aéreas, alojamentos e alimentação.

A campanha encerra na segunda-feira, dia 6 de novembro, e Renato está ainda no meio do caminho. O Renato é tímido e não vai se rasgar por aí pedindo ajuda. Mas merece.

Então, se você tiver uma graninha sobrando, ajude o Renato. Clique aqui e dê uma força ao guri que é bom instrumentista e boa pessoa.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um resumo dos últimos 400 anos da música erudita ocidental em 12 minutos

A cargo do sensacional The King’s Singers. O nome da obra é modestíssimo: Masterpiece. O autor é Paul Drayton. A peça é hilariante e linda.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!