Talvez tenha sido o melhor concerto que assisti em minha vida

Poderia começar contando como Yuri Temirkanov parou quando estava entrando no palco com Martha Argerich. A argentina foi sozinha receber o aplauso do público antes de iniciar o 3º Concerto de Prokofiev. Fingiu irritação com a homenagem e chamou o lendário maestro com caretas e gestos peremptórios. Mas Temirkanov tem razão, é o concerto DELA. Ou poderia começar contando que a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo colocou no programa a 5ª Sinfonia de Shostakovich por esta estar completando 80 anos e ter sido estreada por ela mesma em seus tempos de Orquestra de Leningrado sob a direção de Mravinsky. Ou poderia logo dizer que foi um dos melhores concertos que assisti na vida, que tive de segurar as lágrimas quando Martha atacou Prokofiev. Ou poderia começar falando que compramos ingressos para um local onde as pessoas ficam em pé porque a Elena tinha clareza de sua “imperdibilidade” e não tinha outros disponíveis.

Poderia terminar contando que saí atarantado do concerto, tanto que fiquei esperando a Elena na porta do toalete feminino e deixei-a sair sem a ver. Ou que compositores russos interpretados por russos é texto puro, sem Google Tradutor — expressão da Elena. Ou devo tentar descrever a incrível sonoridade e unidade da orquestra? (Sem esquecer os magníficos solistas de sopros). Ou talvez o fato dos londrinos urrarem cada vez que Martha voltava ao palco?.Ou devo apenas terminar opinando que marcar um concerto desses para às 15h de domingo comprova que londrino não faz churrasco?

(Em tempo: Temirkanov rege sem batuta, com discretos movimentos horizontais e verticais. Jamais faz um gesto brusco nas notas longas. Parece que está cuidadosamente carregando a música. O que mais se movem são seus dedos e mãos, que devem passar significados que só os músicos entendem. Impossível fazer aquilo com uma batuta. Sua clareza nas entradas torna impossível alguém não entrar quando deve. Um sábio.)

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A que me refiro?
Ao concerto de hoje à tarde no Royal Festival Hall do Southbank Center em Londres.

Programa:
Aram Khachaturian: Adagio of Spartacus and Phrygia from Spartacus, Suite No.2
Aram Khachaturian: Dance of the Gaditanian Maidens and Victory of Spartacus from Spartacus, Suite No.1
Sergei Prokofiev: Piano Concerto No.3
Dmitri Shostakovich: Symphony No.5 in D minor

St Petersburg Philharmonic Orchestra
Yuri Temirkanov, conductor
Martha Argerich, piano

Martita recebendo os aplausos pós-Prokofiev

Martita recebendo os aplausos pós-Prokofiev

Temirkanov fazendo o mesmo pós-Shosta

Temirkanov fazendo o mesmo pós-Shosta

E minha musa antes do concerto

E minha musa antes do concerto

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Três tópicos antes do Natal

Durante os aplausos, uma senhora tirava fotos de Daniel Barenboim usando o flash. Ele interrompeu a plateia e disse: “Não use o flash, senhora. Por três razões: primeiro, porque é proibido; segundo, porque me incomoda; terceiro e mais importante, porque, enquanto faz a foto, não pode me aplaudir”.

Uma coisa que sempre quis ter e não tenho é classe.

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Alex Castro tem razão: “Se você declara publicamente seu ódio a alguém, está declarando que aquela pessoa tem poder sobre você”. Faz três anos que tenho me mantido fiel à Lei de Steinbeck, que diz mais ou menos assim: “Vou me vingar de ti da forma mais cruel, vou deixar pra lá”. O Chico Marshall completa dizendo que “Aristóteles (De Anima) afirma que “nada produz maior cólera do que a expectativa de honra frustrada. Desdém, a mais letal das armas”.

Não é o Alex, nem o Steinbeck, é Aristóteles

Não é o Alex, nem o Steinbeck, é Aristóteles

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Conforme nós prevíamos, a coisa ia ficar séria. Ficou. O Vitória e a CBF fizeram sacanagem sim. Agora só falta dizerem que o Inter forjou o documento do Monterrey… Não creio que o Inter mereça ser resgatado do rebaixamento — afinal, quem perde duas vezes para o Vitória e e obtém um ponto do Santa Cruz tem que morrer mesmo — mas acho que o Vitória deveria ser o quinto rebaixado. Acho que os advogados do clube não devem se entregar. O Vitória fez algo duplamente proibido: contratou sem fazer o atleta voltar ao clube de origem e fora da janela. Curioso é o silêncio da Federação Gaúcha.

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OK, vou de Uber, mas só vou se for escutando a FM Cultura

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Ouvindo a Missa em Si Menor de J. S. Bach

bach-caricatura11Mesmo com o início do verão e do expressivo aumento do suor diário, é prazerosa a caminhada matinal de 20 minutos para o trabalho. Fundamental é ter um bom fone de ouvidos, o que desafia toda prevenção de segurança em nossa tranquila cidade que possui a cesta básica mais alta do país e nenhum brigadiano para nos desejar bom dia pelo caminho. Bem, a programação musical de hoje era, indiscutivelmente, a melhor possível.

Aos que não têm vivência com a música, aconselho consultar qualquer enciclopédia, ler qualquer musicólogo, acessar o Google, etc. a fim de ler o que está lá descrito sobre a Missa em Si Menor BWV 232. Boa parte dos comentaristas que têm o viciante hábito de criar listas e classificações de maiores e melhores, costumam colocar a Missa como a maior obra musical de todos os tempos. Boa parte. Tenho treinado para não sair impondo às pessoas prólogos inúteis do tipo “é o melhor filme”, “é o maior dos livros”, e coisas do gênero. No mínimo, é melhor antecedê-las de um “em minha opinião” ou “penso que”.

Tenho ouvido a Missa em Si Menor desde minha adolescência e parece-me que sempre descubro nela um detalhe a mais, um novo encanto. Hoje pela manhã, coloquei nos fones o CD duplo da gravação de Philippe Herreweghe e, por quase duas horas, acreditei num outro mundo. A noção de divindade sempre evitou este cético, mas, como afirmou o também descrente Ingmar Bergman, é impossível ignorar que Bach (1685-1750) nos convence do contrário através de sua arte perfeita. Um dos poucos indultos que concedo ao cristianismo é o de ter sido uma das musas de Bach, embora nas muitas vezes em que o compositor fugiu do sacro, tenha atingido uma qualidade igualmente insuperável.

A grandeza da Missa não é casual. Bach escreveu-a em 1733 (revisou-a em 1749) com a intenção de que ela fosse uma obra ecumênica. Seria a coroação de sua carreira de compositor sacro. Quando a Bach, roubou de si mesmo ou fez retornar alguns de seus melhores trabalhos de sua longa obra. Imaginem que ele trouxe para a Missa uma ária que compusera em 1714! Naquele momento ele fazia uma revisão de si mesmo e, por isso, a Missa também é um compêndio de Bach. Para completar, o trechos compostos especialmente foram criados por um compositor no auge de sua capacidade. A Missa é cantada em latim. Suas outras obras sacras (Missas, Oratórios, Paixões, Cantatas, etc.) sempre utilizaram o alemão e foram apresentadas em igrejas luteranas, porém, na Missa, Bach usa o latim que, em sua opinião, seria mais cosmopolita e poderia trafegar em outras religiões, principalmente a católica. O texto utilizado não foi o das missas de sua época. Era mais antigo e inclui versos retirados após a Reforma, como o significativo Unam sanctam Catholicam et apostolicam Ecclesiam, que é cantado no Credo. É como se Bach pretendesse demonstrar a possibilidade de entendimento entre católicos e protestantes.

Curiosamente, esta obra tão profundamente erudita e religiosa, é hoje mais apresentada em salas de concertos do que em igrejas, pois suas necessidades de tempo (105 a 120 minutos) e de número de executantes são maiores do que as igrejas normalmente dispõem. Não obstante o problema, Bach consegue transformar tanto as salas de concerto quanto nossas casas — assim como nossos ouvidos durante uma caminhada na chuva — em locais de devoção, musical ou religiosa.

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Desde os anos 70, compro gravações da Missa. Comecei por uma que não recomendo, a de Karl Richter (3 LPs ou 2 CDs) com a Orquestra e Coro Bach de Munique. Sem dúvida é o registro mais obeso que possuo da Missa e também o mais remendado, uma mistura barrocorromântica das mais estranhas, não obstante o excepcional time de músicos e cantores. A orquestra utilizada por Richter é maior que a dos padrões barrocos e, para fazer frente a isto, o coral teve de ser multiplicado. Há enorme intensidade dramática nos tutti, porém, os trechos camarísticos só valem pelos cantores. É uma gravação sem muito senso de estilo, maníaco-depressiva, capaz de passar da mais louca alegria à expressão mais triste e íntima em segundos. Não gosto.

Minha segunda experiência foi com Andrew Parrott (Solisten des Tölzer Knabenchors e Taverner Consort & Players). Depois da multidão, fui para uma gravação que envolve um contingente mínimo de cantores e instrumentistas. Parrott é um dos precursores da execução de músicas com instrumentos originais. Em minha opinião, a tese é correta. Apesar de achar que cada época possa dar uma interpretação e expressão, busco ouvir preferencialmente o que o compositor ouvia. Porém, como muitos revolucionários, talvez Parrott exagere. Bach dava liberdade a que se executassem suas músicas com grupos maiores ou menores, então Parrott não o contraria, mas torna seu registro indigente. Fiquei sonhando com um meio termo entre Richter e Parrott, entre o faraônico e o indigente.

Então conheci uma gravação mais antiga e muito melhor que a de Parrott. Sim, a solução veio dos Países Baixos. Primeiro com Gustav Leonhardt. Quando a ouvi, pensei: aí está, para mim, esta é a melhor de todas as gravações da Missa. Fui ler as principais publicações e minha impressão foi avalizada. Leonhardt, que foi holandês, convidou outros da orquestra de câmara La Petite Bande e do Collegium Musicum e conseguiu nos enviar sem escalas ao coração de Bach. Porém… Em 1998, veio um registro a cargo do belga Philippe Herreweghe. Claro, deve ser mais fácil fazer uma gravação melhor depois de ouvir seus antecessores; diria até que há ecos do melhor de Richter, Leonhardt, Parrott e Harnoncourt em seu registro, mas há muito de mérito próprio. Herreweghe é difícil de superar.

Hoje, acho ainda que Philippe Herreweghe e seu bom coro, instrumentistas e solistas superam qualquer outra gravação da Missa. E que maneira encontrou Herreweghe e o Collegium Vocale para fazê-la! Ele nunca usa mais de 5 cantores por parte, então o coro é uniforme, de grande sonoridade e dicção clara. Cada linha e voz pode ser ouvida e compreendida distintamente. Os sopranos e contraltos não são feitos por meninos, como nas gravações de Harnoncourt. Com alta maturidade na expressão do barroco, seus poucos vibratos não pesam — são suaves e parecem vir diretamente do século XVIII. Meus ouvidos e mente de velho ouvinte de Bach dizem que Herreweghe faz o que Bach desejava para o seu próprio coro na Igreja de São Thomas em Leipzig.

Li em algum lugar que Herreweghe é agnóstico. Belo ponto pra nós. Será que isso teve alguma influência? Nos primeiros compassos do Kyrie, onde a tradição manda começar por um poderoso grito de agonia por misericórdia, ele nos oferece um apelo perplexo e suave, quase cansado. Movimentos extrovertidos como o Gloria, Et resurrexit e o Sanctus são cheios de emoção. O Qui tollis e o Dona nobis pacem chegam como fervorosas orações. Gostaria de dizer que o Collegium Vocale de Herreweghe tem uma “sonoridade luminosa” e que os instrumentistas estão corretos a cada gesto. Os solistas alcançaram um notável equilíbrio com os instrumentos de época. O tenor Christoph Prégardien e contratenor Andreas Scholl estão magníficos. Subjacente ao profundo sentimento religioso que a obra exala, o ateu pode desmilinguir-se de admiração.

Aqui, você tem a gravação da Missa em Si Menor por Philippe Herreweghe.

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Um amigo português, anos atrás, mandou-me um e-mail assim:

Milton. Tens razão (ou quase) do que dizes sobre a Missa do Deus Homem ou do Homem Deus. Ai, Bach, Bach, nestes dias conturbados que passo tenho-te a ti. Olho para o quadro dele que tenho na minha sala de estar e respiro melhor. És o apogeu da Humanidade agora e sempre, hoje e daqui a bilhões de anos se este planeta existir. Jamais haverá outro. Dois Bachs são demais para o Mundo, para a decadente raça humana. Eu tenho pena de morrer (lembra-te do tema) e não poder ouvir a tua musica. Se eu pudesse me levantar da campa de dez em dez anos por duas horas e meia (o tempo da Paixão de S.Mateus) não me importava de morrer já. E já que falo na Paixão de S. Mateus, a do Leonhardt (o pai dos outros todos) é a melhor, ou a de que eu gosto mais. Voltando à Missa… A do Leonhardt, como a ti, também é um disco que me tem acompanhado ao longo da minha vida, também era um dos discos que levava para a ilha deserta. A do Gardiner não, dispenso (É aqui que está o quase). Grande interpretação e uma das referências, sem duvida, a de Phillippe Herreweghe (e uma qualidade de som soberba). A de Masaaki Suzuki da Bis é outra a ouvir e a comprar. Com coro de crianças aconselho também uma boa interpretação de Robert King com a Tolzer Knabenchor da Hyperion.

E é melhor parar por aqui que se eu começo a escrever sobre Ele nunca mais paro. Prefiro ouvi-lo, o que faço religiosamente todos as semanas. TODAS AS SEMANAS. No bom sentido ela é viciante, inebriante, comovente e arrasadora. Ao ouvir as suas grandes obras, deitado de olhos fechados, tenho a sensação que pela primeira vez e única alguém atingiu a perfeição. A sua obra desfaz-me em pedaços, arrasa-me, emagreço, tira-me a dor de dentes e da alma. Sinto-me um anão e ao mesmo tempo um gigante (por o ouvir).

Ai, Bach, Bach… E eu vou morrer um dia!
Cumprimentos

O compositor Gilberto Agostinho acaba de fazer um belo e enriquecedor comentário a este post. Faço questão de publicá-lo como parte do mesmo.

Sempre que possível eu gosto de ouvir música com a partitura na mão. Hábito de músico, além de ser um ótimo jeito de aprender coisas e estudar. Mas existem algumas partituras que assustam a gente, pela clareza e simplicidade na escrita e pelo resultado fenomenal. Bach e Brahms tem disso. Eu fico horas analisando uma passagem simples, a duas vozes, e procurando entender o porque daquela sonoridade fantástica, mas muitas vezes não chego a conclusão nenhuma. Simplesmente não entendo. Parecem notas normais, que qualquer um poderia ter escrito, mas elas não soam assim! Com Mahler, você sabe que aquilo vai soar grande, você enxerga tudo, mesmo na passagem mais complexa. Não é o momento que vale, mas sim a construção. Você tem que caminhar junto com ele. Já Bach… O primeiro compasso (o primeiro compasso!) da Paixão Segundo São Mateus é capaz de me arrebatar, e ali já se encontra toda a profundidade que esta obra vai carregar durante duas horas. Em um compasso! E os recitativos, acordes simples e uma melodia, nada mais. Tudo mais!, na verdade, e eu nunca ouvi recitativos tão profundos como em Bach. As vezes eu me sinto um relojoeiro inexperiente, que tenta abrir os relógios mas não consegue entender nada, muito menos montá-los de volta. A diferença é que a música não é simplesmente uma pequena máquina, e não existem manuais. É uma das coisas que eu lamento ao ouvir Bach, imaginar que eu nunca vou conseguir uma profundidade como aquela nas minhas composições.

E ainda voltou para completar:

Obrigado por colocar meu comentário no corpo do post. Eu não sei se consigo explicar um pouco melhor o que penso, mas vale a tentativa. Já relembro, antes de receber uma chuva de xingamentos, que tudo aqui se trata da minha humilde opinião. Enfim, uma das formas mais simples de se fazer música, na opinião deste declarado contrapontista, é a melodia acompanhada. Mozart e Schubert foram os maiores mestres nesta arte. A coisa é simples: existe um tema, normalmente fácil de ser reconhecido tanto auditivamente quanto pelo olhar (a figuração das notas muitas vezes nos chamam atenção para melodias escondidas, ou para vozes de menor importância, mas que carregam informações do tema). Acontece que em Brahms, por exemplo, muitas vezes nós não enxergamos o tema. Ele simplesmente não está lá! Você ouve a música, você até consegue cantarolar algo incerto mas não enxerga. As notas são muito simples, os ritmos todos simples também. Tudo aquilo podem ser fragmentos de informação. E são. Você tenta analisar harmonicamente, e é tudo fácil. Contrapontisticamente, sem segredos. O ritmo, simples. E então? Por que raios aquilo soa denso, e não só soa, mas é denso? Como carregar estas simples notas com toda esta conotação? Em Bach a ideia de tema e desenvolvimento, como nós conhecemos hoje, nem existia. Mas está lá, a obra é permeada destes fragmentos de informação. Você ouve o baixo, e pronto, lá está uma inversão da melodia principal. Você ouve a linha da soprano, ela também é uma consequência desta. Toda a obra é erguida sobre pilares limpos, claros, simples. E, no entanto, ninguém conseguiu chegar próximo deste domínio artístico. Sibelius é simples também, assusta no começo, mas logo que se ouve o susto passa. A música dele as vezes é rarefeita em informações, e condiz com a partitura. Agora eu ainda não entendo Bach. Parece mecânica quântica, ou uma piada divina. “Se queres olhar fundo, então olhes. Mas não entenderás nadica de nada.”

Francis Marshall mete sua qualificada colher para discordar de alguns pontos do texto:

Leute, mesmo endossando as loas e teses acima, acrescento:
1. Duvido que Bach tenha pensado em solução ecumênica ao compor a Missa em si menor. Na verdade, ele a finalizou, quase toda, e apresentou em partes (com manuscritos, como de costume, copiados na corrida por toda a tropa Bach, inclusive Anna Magdalena, que tinha uma ótima caligrafia) para pleitear um emprego junto ao Rei “católico” em Dresden, Augusto II (Augustus der Stark, ou Augusto, o forte), no final de julho de 1733. Isso explica a linguagem católica meio desajeitada, com arremedos de sua verdadeira e irrevogável fé, luterana. Bach certamente não possuía tempo, biblioteca e motivação para elaborações teológicas maiores. O luteranismo, para ele, era suficientemente universal.
2. Ele cobiçava um cargo em Dresden, doidamente. Era a melhor corte musical da Europa, repleta de Vivaldi, dinheiro, bons amigos… Bach correu a vida toda atrás de melhores postos, e ficou sempre, infelizmente, aquém. Assim, na apresentação da Missa em Dresden,fez uma aposta alta e reuniu seus melhores materiais, reciclando muito de seus arquivos, o que sempre fez com perícia e tino estratégico.
3. Destaque para o Crucifixus, música de uma gravidade patética imensa, pungente. Provém, todavia, de uma cantata amorosa de Vivaldi (RV675), adaptada em seus tempos de Weimar, primeriamente na cantata BWV12 (Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen = chorar, lamentar, lastimar, temer), apresentada a 22/04/1714. Este coro reaparece no grande coral inicial da cantata BWV78 (de Leipzig); seu belo baixo cromático tem precedente não só em Vivaldi, mas também na ária do baixo da cantata BWV4 (de Arnstadt, 1707, reapresentada em Leipzig em 1724 e 1725). Eu não consigo passar muitos dias sem ouvir essa música, é algo que muda a cor da paisagem e do tempo vivido. A versão com nossa deusa Emma Kirkby é de se ouvir entra as nuvens e Jupiter.
4. Apesar de tudo, Bach, uma vez mais, saiu de Dresden cheio de honras e nenhum florim a mais no bolso. Recentemente, ofereci-lhe emprego bom, compondo a trilha deste filmeco: http://moviolafm.blogspot.com/2008/10/dresden-glria-morte-e-ressurreio.html
5. Eu sou ateu, agnóstico e pagão estético, mas a espiritualidade musical de Bach é mesmo irresistível, sublime.

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As Variações Goldberg, a música para dormir de Johann Sebastian Bach

Só para irritar o Conde Keyserling: Charles Auguste Emile Carolus-Duran “Sleeping Man” (1861)

Só para irritar o Conde Keyserling: Charles Auguste Emile Carolus-Duran “Sleeping Man” (1861)

Eu nunca tive insônia. Talvez, em razão de alguma dor ou febre, não tenha dormido repousadamente apenas uns dez dias em minha vida. Não é exagero. Quando me deprimo, durmo mais ainda e acordar é ruim, péssimo. O sono é meu refúgio natural. Mas há pessoas que reclamam (muito) da insônia. Saul Bellow escreveu que ela o teria deixado culto, mas que preferiria ser inculto e ter dormido todas as noites — discordo do grande Bellow, acho que ele deveria ter ficado sempre acordado, escrevendo, vivendo e escrevendo para nós. Também poucos viram Marlene Dietrich na posição horizontal, adormecida. Kafka era outro, qualquer barulho impedia seu descanso, devia pensar no pai e passava suas noites acordado, amanhecendo daquele jeito após soheos agitados… Groucho Marx, imaginem, era insone, assim como Alexandre Dumas e Mark Twain. Marilyn Monroe sofria muito e Van Gogh acabou daquele jeito não por ser daltônico, característica que apenas gera inteligência e genitália avantajadas.

O Conde Keyserling sofria de insônia e desejava tornar suas noites mais agradáveis. Ele encomendou a Bach, Johann Sebastian Bach, algumas peças que o divertissem durante a noite. Como sempre, Bach fez seu melhor. Pensando que o Conde se apaziguaria com uma obra tranquila e de base harmônica invariável, escreveu uma longa peça formada de uma ária inicial, seguida de trinta variações e finalizada pela repetição da ária. Quod erat demonstrandum. A recuperação do Conde foi espantosa, tanto que ele chamava a obra de “minhas variações” e, depois de pagar o combinado a Bach, deu-lhe um presente adicional: um cálice de ouro contendo mais cem luíses, também de ouro. Era algo que só receberia um príncipe candidato à mão de uma filha encalhada.

A história da criação das variações foi tirada da biografia de Bach escrita por Johann Nikolaus Forkel:

(Quanto a essas variações), devemos agradecer ao pedido do ex-embaixador russo na corte eleitoral da Saxônia, o conde Hermann Karl von Keyserling, que frequentemente passava por Leipzig e que trouxe consigo o cravista Goldberg para receber orientações musicais de Bach. O conde tinha frequentes acometimentos de doenças e ficava noites sem dormir. Em tais ocasiões, Goldberg, que vivia em sua casa, tinha que passar a noite na antecâmara para tocar para ele durante sua insônia. … Certa vez, o conde mencionou, na presença de Bach, que ele gostaria de ter algumas obras para teclado para Goldberg executar, que deveriam ser de caráter suave e algo vigoroso de modo que ele pudesse ser um pouco consolado por elas em suas noites sem dormir. Bach imaginou que a melhor maneira de atender a esse desejo seria por meio de variações, cuja escrita ele considerava, até àquela data, uma tarefa ingrata devido ao fundamento harmônico repetidamente semelhante. Mas, uma vez que a essa época todos os seus trabalhos já eram padrões de arte, tais se tornaram, em suas mãos, estas variações. Mesmo assim, ele produziu um único trabalho desta espécie. Daí em diante, o conde sempre as chamava de “as suas” variações. Ele nunca se cansou delas e, por um longo período, noites sem dormir significavam: ‘Caro Goldberg toque minhas variações para mim’. Provavelmente Bach nunca foi tão bem recompensado por um trabalho quanto foi neste. O conde o presenteou com um cálice de ouro com 100 luíses de ouro. Não obstante, mesmo que o presente tivesse sido mil vezes maior, seu valor artístico nunca teria sido pago.

O Conde tinha a seu serviço um menino de quinze anos chamado Johann Gottlieb Goldberg. Goldberg era o melhor aluno de Bach. Foi descrito como “um rapaz esquisito, melancólico e obstinado” que, ao tocar, “escolhia de propósito as peças mais difíceis”. Perfeito! Goldberg era enorme e suas mãos tinham grande abertura. O menino era uma lenda como intérprete e o esperto Conde logo o contratou para acompanhá-lo não somente em sua residência em Dresden como em suas viagens a São Petersburgo, Varsóvia e Postdam. (Esqueci de dizer que o Conde Keyserling era diplomata). Bach, sabendo o intérprete que teria, não facilitou em nada. As Variações Goldberg, apesar de nada agitadas, são, para gáudio do homenageado, dificílimas. Nelas, as dificuldades técnicas e a erudição estão curiosamente associadas ao lúdico, mas podemos inverter de várias formas a frase. Dará no mesmo.

O nome da obra — Variações Goldberg, BWV 988 — é estranho, pois pela primeira vez o homenageado não é quem encomendou a obra, mas seu primeiro intérprete.

O princípio de quase toda obra de variações consiste em apresentar um tema e variá-lo. (Lembram que Elgar fez uma obra de variações sem apresentar o tema, chamando-a de Variações Enigma?). Assim, o ouvinte tem a impressão de estar ouvindo sempre algo que lhe é familiar e, ao mesmo tempo, novo. A escolha de Bach por esta forma mostrou-se adequada às pretensões do Conde. E a realização não poderia ser melhor, é uma das maiores obras disponibilizadas pela e para a humanidade pelo mais equipado dos seres humanos que habitou este planeta, J. S. Bach. O jogo criado pelo compositor irradia livre imaginação e enorme tranquilidade. A Teoria Geral das Belas-Artes, espécie de Bíblia artística goethiana de 1794, diz o seguinte sobre as Goldberg: “em cada variação, o elemento conhecido está associado, quase sem exceção, a um canto belo e fluido”. E está correto. Só esqueceu de dizer que tudo isso tinha propósito terapêutico.

As Variações Goldberg eram tidas no passado como um exercício técnico árido e aborrecido. Mas já faz quase um século que o conteúdo e a abrangência emocional da obra foi reconhecido e se tornou a peça favorita de muitos ouvintes de música erudita. As Variações são largamente executadas e gravadas.

É muito provável que o enfermo Conde concordasse com a Theorie para descrever seu prazer de ouvir aquela música, mas diria mais. Seus efeitos fizeram que Goldberg a tocasse centenas de vezes para ele. O cálice repleto de ouro significava gratidão pela diversão emocional e intelectual. Dormimos por estarmos calmos e felizes, talvez.

Não posso distribuir cálices de ouro por aí, mas talvez devesse dar alguma coisa a Pierre Hantaï, o maior intérprete da obra. (Por favor, neste momento não me venham com Gould; afinal, o som do cravo é fundamental e só aceito fazer a final contra o grande Gustav Leonhardt. Gould ficou lá pelas quartas-de-final).

Então, para os insones ou não, aqui estão as Variações Goldberg com Pierre Hantaï.

Figura su fondo celeste - Felice Casorati

Figura su fondo celeste – Felice Casorati

Obs.: Este post foi escrito meio de memória, mas também consultando o livro “48 variações sobre Bach” de Franz Rueb, Companhia das Letras, 2002.

Abaixo, Hantaï mandando bala nas Goldberg:

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O Messias, de Handel

O Messias é o oratório mais popular de Handel. É grande número dos corais que atacam, confiantes e sorridentes, o coral Hallelujah. Eles estão certos, não serei eu que irei criticá-los. Só que esta peça está longe de figurar entre o que há de melhor neste oratório cheio de lirismo e de um melodismo raro, riquíssimo. É difícil de se encontrar árias mais inspiradas do que He shall feed His flock, Ev`ry valley shall be exalted, Why do the nations?, corais como For unto us a child is born, And the glory of the Lord, And He shall purify, além da ária-coral O thou thet tellest good tidings to Zion. Handel era genial e aqui tem seu ponto mais alto. A popularidade de O Messias é merecida.

O Messias normalmente ouvido por nós, principalmente no célebre Hallelujah, está bem longe daquilo que foi planejado originalmente por Handel. Pode parecer surpreendente a muitos o fato de que Handel, enquanto compunha o Oratório, lutava contra problemas administrativos que o levaram a utilizar um grupo pequeno de músicos, pela simples razão de que não os havia na Dublin de 1742 e de que era oneroso buscá-los em outras cidades. Handel dispunha apenas de 16 cantores-solistas e uma orquestra mínima. A estréia foi assim mesmo. No curso destes mais de 260 anos, o popular Messias foi executado de todas as formas imagináveis. Nas antigas gravações da obra e até hoje, são ouvidos enormes corais, oboés dobrando as vozes — não há oboés na versão original –, fagotes no baixo contínuo — fagotes, que fagotes? — etc.

Nos anos 70, quando ouvi esta obra prima pela primeira vez, foi na mastodôntica versão de Karl Richter. Achei uma maravilha o que hoje acho estranho. Richter usou enorme coral e um potente conjunto instrumental, tudo muito pouco barroco. Só que a gravação era linda, avassaladora. Ouvia-se ali o precursor do Beethoven da 9ª Sinfonia. Os anos seguintes nos trouxeram as gravações em instrumentos originais, com as obras sendo executadas dentro da exata formação prescrita pelo compositor e com os instrumentos originais, as tais execuções historicamente informadas. Muitas coisas que conhecíamos foram definhando em potência sonora para ganhar outros coloridos. A partir da década de 80, fomos nos acostumando a deixar o volume sonoro para compositores mais modernos e a fruir a delicadeza barroca. Não, não é proibido ouvir as velhas gravações que utilizam exércitos fortemente armados na interpretação deste oratório — e nem as novas que ainda fazem o mesmo! –, mas alguém com tendência purista, como eu, teve de acostumar-se ao uso de forças menores na interpretação do powerful Messiah. Hoje, parece a mim uma desonestidade ouvir uma obra interpretada dentro de uma concepção tão longínqua das intenções do compositor, ou seja, tão longe daquilo que Handel ouvia. Sei que estou em terreno perigoso e que há fóruns que estão discutindo isto há anos. Tudo começa com alguém perguntando “Mas, e se Handel dispusesse de um coral de 96 elementos e pudesse quadruplicar a orquestra, a música seria diferente?”. Tenho posições nestas questões, porém aqui a intenção é a de modestamente descrever e louvar um pouco de O Messias, esta delicada e poderosa obra de câmara…

É lendária velocidade com que Handel escrevia suas obras. Imaginem que os mais de 140 minutos deste oratório foram escritos em apenas 21 dias. Por exemplo, seus doze concerti grossi, opus 6, foram escritos em 24 dias, quando há pessoas que não conseguiriam sequer copiá-los neste período! Quando inspirado, o homem era rápido mesmo.

Mais curiosidades? Quando houve a elogiada e aplaudidíssima estréia em Dublin (em 13 de abril de 1742), Londres recebeu a obra com calculado distanciamento pela simples razão de que os londrinos não podiam ouvi-la. Ocorria que era proibido falar de coisas sagradas nos teatros e não se podia trazer profissionais dos teatros para cantarem numa igreja. Então o oratório, tal qual uma alma penada, caiu numa espécie de limbo espírita. Só com alguns de atraso e bem velho, Handel pode ver seu oratório triunfar na capital.

Em 1741, Händel recebeu um convite do Lord Lieutenant da Irlanda para ajudar a angariar dinheiro para três instituições de caridade de Dublin através de apresentações musicais. Embora doente, Händel estava determinado a compor um novo oratório sacro para a ocasião, pedindo a Charles Jennens (libretista de Saul e Israel in Egypt) um tema apropriado. Jennens respondeu com uma criteriosa recolha de versículos e escrituras do Velho e Novo Testamentos arranjados num “argumento” em três partes (como ele o descreveu). Como dissemos acima, a obra estreou-se em Dublin, no período da Páscoa de 1742.

O nome “Oratório” é algo que fica entre a música sacra e a secular. Trata-se de um gênero de composição musical cantado e de conteúdo narrativo. Semelhante à ópera quanto à estrutura (árias, coros, recitativos, etc.), difere desta por não ser destinado à encenação. Em geral, os oratórios têm temática religiosa, embora existam alguns de temática profana. Handel era um cristão devoto e a obra é uma apresentação da vida de Jesus e de seu significado de acordo com o cristianismo. Claro que provocou acusações de blasfêmia por não ser exatamente sacra.

Sim, o Messias é uma obra religiosa mas não é sacra, isto é, trata de temas religiosos mas não é um música para ser tocada em contexto litúrgico. A Igreja, enquanto instituição, sempre foi conservadora no que respeita à liturgia, e esta não era concebida como um espetáculo. Daí a diferenciação que fazemos entre a “ópera”, o oratório e a músi20ca sacra. Por outro lado, as tradições musicais do sul da Europa (católico) e o norte (protestante) eram bastante diferentes. No sul, o barroco mostrava-se mais “espetacular” e “operático”, enquanto que no norte, particularmente na Inglaterra, a simplicidade e depuração estilística consistiam a regra em termos litúrgicos.

Mesmo que não houvesse lugar à encenação, a Igreja mais conservadora repudiava a prática da oratório, porque, afinal de contas, eram utilizadas as escrituras sagradas para efeitos cênicos e espetáculo público. Foi em torno destas questões que alguns jornais ingleses mais conservadores consideraram a obra como uma blasfêmia.

À parte disto, o Messias é uma obra imersa em espiritualidade. Para os crentes e fiéis é uma prova da mais fervorosa devoção. Para os não-crentes, para além do desafio intelectual, o Messias condensa emoções mais da esfera humana do que da divindade. Porém, uns e outros reconhecem o enorme prazer estético de ouvir a composição.

As melhores gravações que conheço:

— A do Dunedin Consort e Dunedin Players, sob a regência de John Butt. É a melhor.

— A de Trevor Pinnock (Archiv). É a segunda opção.

– Para quem tem limitações financeiras (como eu), há o sensacional registro feito pela Naxos nos CDs duplos 8.550667-668, com o The Scholars Baroque Ensemble.

Tendo uma destas três em casa, você tem O Messias. A gravação da Naxos e a de Butt obedecem a rarefeita formação dublinense da estreia; já Pinnock aparece com alguns reforços no coral, o que vamos perdoar desta vez. Para quem não está nem aí para estas filigranas, indico também a clássica gravação de Karl Richter com a Orquestra Filarmônica de Londres e o coro John Alldis. Sim, é bonita, mas talvez não seja mais Handel, sei lá.

O nome de Handel também aparece como Händel ou Haendel. Este alemão que produziu parte de sua obra na Inglaterra teve seu nome grafado nas três formas citadas. Seu nome original é Georg Friedrich Händel, mas ele tornou-se George e Handel na Inglaterra. Costumo utilizar a forma inglesa, mais fácil.

handel

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Os Concertos de Brandenburgo, de Johann Sebastian Bach

Poucas obras musicais são tão amadas e interpretadas como os seis Concertos de Brandenburgo de Johann Sebastian Bach. Tais concertos exibem uma face mais leve do gênio de Bach e, na verdade, fizeram parte de um pedido de emprego. Em 1720, aos 35 anos, Bach parecia feliz em Cöthen. Seu patrono não só amava a música como era um músico competente. Além disso, gastava boa parte de sua renda para manter uma orquestra privada de 18 membros e convidava artistas viajantes para tocar com eles. Como calvinista, o Príncipe Leopoldo utilizava pouca música religiosa, liberando Bach para compor e ensaiar música instrumental secular. No entanto, o relacionamento pode ter azedado quando Bach solicitou a compra de um órgão no final de 1720. O pedido foi rejeitado e Bach era meio brigão.

Então, em 1721. Bach apresentou-se ao Margrave de Brandenburgo com um manuscrito encadernado contendo seis concertos para orquestra de câmara com base nos Concerti Grossi italiano. Não há registro de que o Marqrave tenha sequer agradecido a Bach pelo trabalho — e muito menos pago por ele. O Margrave jamais imaginaria que aquele caderno — mais tarde chamado de Concertos de Brandenburgo — se tornaria uma referência da música barroca e ainda teria o poder de mover as pessoas quase três séculos mais tarde.

Manuscrito do terceiro Concerto de Brandeburgo de Bach

Manuscrito do terceiro Concerto de Brandeburgo de Bach

Em outras palavras, Bach escreveu os Brandenburgo como uma espécie de demonstração de suas qualidades, um currículo para um novo emprego. A tentativa deu errado. O Margrave de Brandenburgo nunca respondeu ao compositor e as peças foram abandonadas, sendo vendidas por uma ninharia após sua morte. Mesmo rejeitados, os Concertos de Brandenburgo sobreviveram em seus manuscritos originais, aqueles que tinham sido enviados para o Margrave de Brandenburgo no final de março de 1721. O título que Bach lhes dera: “Six Concerts avec plusieurs instruments” ( “Seis Concertos com diversos instrumentos”).

Os Brandenburgo foram encontrados no inventário do Margrave em um lote maior de 177 concertos, entre “obras mais importantes” de Valentini, Venturini e Brescianello. O fato é que, apesar da aclamação posterior, durante a sua existência Bach foi avaliado muito mais como intérprete do que como compositor. Logo após sua morte, a música instrumental que produzira foi esquecida. Só sua música religiosa permaneceu, ainda assim pouco tocada.

Os Concertos de Brandenburgo são um dos destaques de um dos períodos mais felizes e mais produtivos da vida de Bach. É provável que o próprio Bach tenha dirigido as primeiras apresentações em Coethen. O nome pelo qual a obra é hoje conhecida só apareceu 150 anos mais tarde, quando um biógrafo de Bach, Philipp Spitta, chamou-os assim pela primeira vez. O nome pegou.

Antes mesmo de receber tal título, Bach pensava neles como um conjunto de peças. Cada um dos seis concertos requer uma combinação diferente de instrumentos, assim como solistas altamente qualificados. O Margrave tinha sua própria orquestra em Berlim, mas era um grupo de executantes em sua maioria medíocre. Todas as evidências sugerem que estes concertos adequavam-se mais aos talentos dos músicos de Coethen.

Ora, como é que uma cidade provinciana tinha tão excelentes músicos? Pouco antes de Johann Sebastian ter chegado à cidade, um novo rei tinha assumido o trono da Prússia. Frederico Guilherme I tornou-se conhecido como o “Soldado Rei”, porque estava interessado na força militar do seu reino, não em atividades artísticas refinadas. Um dos primeiros atos reais foi dissolver a prestigiada orquestra da corte de Berlim. Sete destes músicos foram trabalhar em Coethen para o Príncipe Leopold.

É por isso que Bach encontrou uma rica cena musical quando lá começou a trabalhar em 1717. Acostumou-se ao luxo de escrever para virtuosos, como o caso do trompete do Concerto Nº 2 e do violino do Nº 4.

Joshua Rifkin oferece uma explicação para que os Brandenburgo fosse ignorados por quem os recebera: “Como iria acontecer tantas vezes em sua vida, o gênio de Bach criava obras acima das capacidades dos músicos comuns e por isso eram esquecidas. Só mesmo em Coethen poderiam ser interpretadas!”. Com efeito, os Concertos permaneceram desconhecidos por meia dúzia de gerações, até que foram finalmente publicados em 1850, em comemoração ao centenário da morte de Bach. Mesmo assim, sua popularidade teria de esperar pelos toca-discos.

Os Concertos de Brandenburgo talvez sejam um dos maiores exemplos do pensamento criativo de Bach, pois compreende estilo contrapontístico, variedade de instrumentação, complexa estrutura interna e enorme profundidade. Albert Schweitzer via os Brandenburgo em termos metafísicos e talvez exagerasse ao dizer que eles apresentavam o mistério fundamental de todas as coisas. Apesar da profundidade filosófica de alguns estudos que dissecam as partituras, nunca devemos esquecer que os Brandenburgo não se destinavam a deslumbrar teóricos ou desafiar intelectuais, mas sim causar puro prazer a músicos e ouvintes.

O concerto era a forma mais popular de música instrumental durante o barroco tardio, o principal veículo de expressão para os sentimentos, papel mais tarde assumido pela sinfonia. Cada Brandenburgo segue a convenção do concerto grosso, em que dois ou mais instrumentos solo são destacados de um conjunto orquestral. Os concertos também observam a convenção de três movimentos, rápido-lento-rápido.

O único Concerto em quatro movimentos é o primeiro, ao qual foi adicionado uma dança final. Sua orquestração é incomum, podendo ser chamado de “concerto sinfonia.” Talvez Bach quisesse dar um começo forte e rústico, destinado a alguém preguiçoso que fosse julgar o conjunto apenas por sua abertura. No entanto, apesar de seu apelo imediato para os ouvidos conservadores, cada movimento tem a marca de Bach.

Os outros concertos estão mais próximos do modelo de concerto grosso padrão. Para o gosto deste que vos escreve, apesar de suas qualidades, o pesado Concerto Nº 1 é o patinho feio da coleção. É a partir do Concerto Nº 2 que a leveza, a ousadia e a invenção tomam conta do conjunto, indo até o final. Na minha opinião, os concertos de Nº 3, 4 e 5 são insuperáveis.

A enorme inventividade de Bach também reside nas curiosas combinações instrumentais: no quarto, por exemplo, o grupo habitual de cordas e contínuo acompanham o violino solo e duas flautas em um discurso musical brilhante. No quinto, Bach faz uso de uma flauta transversal, de violino e do cravo, mas o que resulta parece ser um antecessor dos grandes concertos para teclado. Ouçam, para exemplo, sua elaboradíssima cadenza do primeiro movimento.

Sem prejuízo dos outros concertos do ciclo, faço uma menção àquele que me trouxe para “dentro” da música erudita: o terceiro, que foi projetado para três grupos instrumentais que consistem em três violinos, três violas e três violoncelos, mais baixo contínuo. Escrito em três movimentos, com o segundo sendo um passeio no campo da improvisação, tem no primeiro e terceiro movimentos fascinantes e alegres temas e contrapontos, verdadeira exposição do virtuosismo de Bach como compositor. Para mim, ele é “o concerto barroco por excelência”.

(Sim, eu estava no banheiro quando meu pai colocou a agulha do toca-discos no começo do Concerto Nº 3. Saí de lá aos gritos, perguntando o que era aquilo. Nunca me recuperei).

Em minha cabeça, esses concertos são das peças mais tocadas. Muitas vezes caminho pelas ruas assobiando-as. E tenho a melhor das convivências com elas).

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O 3º Concerto para Piano e Orquestra de Béla Bartók e a historinha da Carol

Este é um Concerto que desmente a fama de fria que a música moderna carrega. Composta quando Bartók já estava condenado pela leucemia, a obra deveria servir de presente de aniversário, além de aumentar o repertório e os ganhos de sua mulher, a pianista Ditta Pásztory. Na época, em 1945, nos EUA, ambos eram pobres exilados. Mais simples que o Primeiro e Segundo Concertos, o Terceiro compensa pela altíssima temperatura emocional e por mostrar que o húngaro e socialista Bartók ainda carregava em si alguma alegria e esperança no mundo. Esta é uma das obras que mais amo e um dos motivos pelo qual sempre brinco que meus três compositores preferidos têm seus nomes começando pela letra “B”. São eles Bach, Beethoven, Brahms e Bartók.

Deixo aqui para vocês o Concerto inteiro, nos movimentos Allegretto, Adagio religioso e Allegro Vivace.

Martha Argerich, piano
BBC Symphony Orchestra
John Adams

.oOo.

Vou contar uma historinha para vocês. Aconteceu na Padaria Pasquali, no bairro Cavalhada, em Porto Alegre.

Eu entrei na fila e comecei a fazer uma coisa que sempre faço quando não há músicos por perto — comecei a cantar: “Daram, daram, dararam, da-ra-ra-ram”.

Claro que vocês, pessoas inteligentes, já sabem o que eu estava cantando. Bem, foi quando uma menina que estava na minha frente, virou-se para mim e disse:

— O começo do terceiro concerto de Bartók…

E ficou totalmente vermelha, envergonhadíssima. Me apresentei, conversamos uns cinco minutos e ela perguntou se eu sabia o motivo pelo qual Bartók, um ateu e socialista, chamara de Adagio Religioso o segundo movimento. Não soube responder.

Trata-se de uma aluna de piano de 16 anos que, depois de perder a vergonha, resumiu brilhantemente o concerto:

— Tio, esta música é tudo!

E ela tem toda a razão. É tudo mesmo.

Um beijo do tio, Carol.

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Uma boa Ospa numa das últimas noites frias de 2016

Tão boa a noite de ontem. Aproveitamos bem uma das últimas noites frias de 2016. Lá vem o longo período de canícula. Fomos ao concerto da Ospa com Beatriz Gossweiler, ex-clarinetista da orquestra, hoje aposentada. Tiramos a moça de casa para que ela revisse seus colegas tocarem. O programa era o Concierto Levantino de Manuel Palau e o Concerto para Orquestra de Béla Bártok, obra que ela adora.

Sobre o concerto para violão de Palau. O Salão de Atos da Ufrgs não tem boa acústica e, no caso de concertos para instrumentos menos potentes, a coisa ainda piora. Se o violão de Fabio Zanon era audível, também estava claro que perdíamos muita coisa. Quando a orquestra entrava junto, era complicado de ouvir. E a peça era daquelas que só interessam aos violonistas. Durante a música, sentado na nossa tradicional fila P, olhei para o lado esquerdo, duas pessoas dormiam; olhei para o direito, uma. Muito melhor foi o bis, quando Zanon tocou a Dança Espanhola nº 5 – “Andaluza”, de Granados. Aí sim, em versão solo, apareceu o grande e sofisticado solista que já conhecia. Quem não sabe que precisamos de uma Sala Sinfônica em nossa cidade? Aliás, no jantar após o concerto, lembramos daquelas pessoas que rejeitaram o atual Shopping Total como local para a Ospa. Lembramos que o democratismo de resultados nulos do então prefeito José Fogaça deu enorme espaço àqueles imbecis dos “Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho” que gritavam que “resistir é preciso”. Resistir à Cultura é preciso.

Abaixo, coloco para vocês o que ouvimos no bis. Vale muito a pena clicar.

O Concerto para Orquestra foi composto num período difícil da vida de Bartók. Ele estava desde 1940 exilado nos EUA, após assumir corajosamente posições públicas de condenação à políticas nazistas. O húngaro experimentava sérias dificuldades econômicas, de adaptação e também de saúde — sofria com a leucemia que o levaria à morte em 1945. Doente e muito pobre, sobrevivia graças à ajuda de amigos, que lhe faziam encomendas. E ele só respondia com obras-primas. Uma destas encomendas foi do regente russo Serge Koussevitzky, que dirigiu a Sinfônica de Boston por 25 anos. Este encomendou uma obra para orquestra, “do jeito que você quiser”.

Bartók compôs a peça em um curto período de trabalho intensivo, de agosto a outubro de 1943. Fazia dois anos que não escrevia nada. Estreada no ano seguinte – em 1º de Dezembro de 1944, no Carnegie Hall de Nova Iorque, com Serge Koussevitzki regendo a Orquestra Sinfônica de Boston –, a obra foi um enorme sucesso de público. Calculando bem para evitar um confronto com Mahler e com a Sagração, Koussevitzki descreveu o Concerto para Orquestra como a melhor obra orquestral dos últimos 30 anos.

“O surpreendente título deste trabalho — Concerto para Orquestra — indica a intenção de tratar os instrumentos individualmente ou em grupos de forma concertante ou solista. O tratamento “virtuose” aparece em vários momentos”, escreveu Bartók, que esteve presente à estreia. Bartók utilizava a proporção áurea em suas composições, na forma da Sequência de Fibonacci. Como leigo, não sei localizá-la, mas é fato que ouço em suas obras extrema lógica e proporção. A estrutura do Concerto para orquestra é semelhante à da 7ª Sinfonia de Mahler. Ambas têm cinco movimentos simétricos. Em Bartók, o movimento central é lento (Elegia), em Mahler é um scherzo. Em Bartók, o segundo e o quarto movimentos são scherzi, em Mahler são “músicas da noite”. E ambos iniciam suas obras com movimentos lentos e as finalizam na maior festa.

Os dois scherzi de Bartók são dignos do nome. São brincadeiras de verdade. No primeiro, Giuoco delle coppie (Jogo das Duplas), os instrumentos entram em duplas, claro. Se ouvir é ótimo, ver ao vivo é muito melhor. A música passa de uma dupla à outra de modo muito cênico. E como estiveram bem a dupla de oboístas — Javier Balbinder e Rômulo Chimeli — e de flautistas — Artur Elias Carneiro e Ana Carolina Bueno!  No outro scherzo, há uma curiosidade. Bartók tinha ouvido a 7ª Sinfonia, “Leningrado”, de Shostakovich no rádio, quando estava no hospital. Esta é uma sinfonia sobre a guerra que tanto estava fazendo sofrer Bartók. Pois sabem que ele roubou o tema da Marcha de Shosta, transformando-o em algo quase irreconhecível é cômico? Pois é.

Animado com o resultado de seu Concerto, Bartók reviveu, voltando a compor. Apressou-se para completar sua Sonata para Violino Solo — outra obra-prima — encomendada por Yehudi Menuhin e o último dos seus notáveis três Concertos para Piano, além de aceitar uma nova encomenda para escrever um Concerto para Viola para William Primrose, o qual ficou incompleto em poucos compassos. A leucemia venceu-o em 1945.

A imensa repercussão do Concerto para Orquestra levou o público a ser menos, digamos, hostil para com os trabalhos anteriores de Bartók. E eles passaram a integrar o repertório das salas de concerto. Lembro que quando li Solo de Clarineta — revejo de memória a fonte do livro e penso que talvez tivesse sido em O Senhor Embaixador — , de Erico Verissimo, ele citava os Quartetos de Bartók como as maiores obras musicais do século XX. Não sei, mas podem ser sim.

Falarei pouco sobre a execução de ontem. O resultado seria melhor se o excelente maestro Nicolas Rauss tivesse recebido mais tempo para trabalhar. É impossível preparar de quinta para terça uma peça difícil como o Concerto. Só que Rauss obteve um resultado excepcional, juntamente com a Ospa. Ainda que um pouco estropiada, a música e o espírito de Bartók estavam lá. Rauss é um mestre. Putz, deve ter se esforçado muito,

Depois do concerto, rimos muito durante o jantar — não, não rimos do concerto –, mas esta é outra história.

Bartók: grande música e uma saudação para Shostakovich

Bartók: grande música e um alô para Shostakovich

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Schnittke: Concerto Grosso Nº 1 (1977), V. Rondo: Agitato e Postludio (y otras cositas)

alfred-schnittke-4Penso que, dentre os compositores mortos recentemente e os que já têm carreira bem divulgada, Alfred Schnittke (1934-1998) seja o melhor deles. Eclético e provocador, fazia tanto música moderna como buscava referências no passado, além de usar e abusar como poucos da paródia e do humor. O assustador Rondó final de seu Concerto Grosso Nº 1 traz a uma instrumentação barroca uma música que… Bem, aos 2min41 começa um tango! A Far Cry, grupo que interpreta o movimento, é um interessante conjunto de cordas de Boston que atua sem regente.

O vídeo acima me foi apresentado pelo Gilberto Agostinho.

Abaixo, outro exemplo da qualidade de sua música: o sétimo movimento da Cantata Fausto, Es geschah.

E ainda este divertimento “in Old Style”:

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Ontem, uma grande noite da Ospa no Salão de Atos da Ufrgs

Eu antecipara no Facebook que o Concerto da Ospa de ontem à noite tinha tudo para ser o melhor de 2016. E foi. Repertório bom (e difícil), solista espetacular, maestrina de alta musicalidade e comando, e uma orquestra tocando bem acima de sua própria média garantiram uma bela função no Salão de Atos da Ufrgs.

O repertório era formado por apenas duas peças: o Concerto para Viola de Béla Bártók e a Sinfonia Nº 2 de Camargo Guarnieri.

O Concerto para Viola de Bartók tem uma história triste e bonita. Em 1945, o compositor húngaro — um ateu socialista que anos antes declarara, em seu país natal, que gostaria de converter-se ao judaísmo para ser também perseguido pelos nazistas — estava morrendo de leucemia no exílio norte-americano. Sem dinheiro, passava dificuldades e aceitava trabalhos de composição para viver e deixar algo para sua esposa.

E as encomendas pingavam, poucas e importantes. Algumas das maiores figuras da música dos EUA fizeram-lhe encomendas: Benny Goodman, Yehudi Menuhin — que recebeu uma Sonata que é uma obra-prima — e William Primrose, violista, que pediu um concerto.

A violista russa Anna Serova | Foto: Ugo Zamborlini

A violista russa Anna Serova | Foto: Ugo Zamborlini

É notável como o Concerto para Viola tem a cara de Primrose. É a música mais norte-americana de Bartók, mas recebeu igualmente toques escoceses em razão das origens familiares do violista. O primeiro movimento, Allegro non troppo, é tomado por solos de viola, um mais belo que o outro. Antes de morrer, Bartók sofrera uma transformação. Amenizou um pouco seu estilo e aparou algumas arestas, enquanto a doença o vencia. O movimento lento, Adagio religioso, é uma emocionada despedida da vida. A compreensão da solista Anna Serova e da maestrina Valentina Peleggi a respeito daquilo que transmitiam era completa. Foi uma interpretação rarefeita, a música levitava linda, verdadeiramente expressando o desejo de que houvesse um outro plano ou continuidade, algo em que Bartók não acreditava. (O ateu Bartók tem também um Andante religioso no Concerto Nº 3 para Piano e Orquestra, composto quase na mesma época a fim de ser deixado para sua esposa atuar como solista e ganhar sua vida).

O último movimento é agitado e feliz, e a passagem do Adagio para ele foi especialmente trabalhada por Peleggi no ensaio de segunda-feira, assistido por mim. É aqui que aparece o tema escocês com que Bartók homenageia Primrose. Olha, é difícil caracterizar o nível de alta cultura musical envolvida no trabalho da russa Serova sob a direção de Peleggi. O resultado foi esplêndido. Aquilo que se interpretou ontem foi efetivamente o Bartók maduro de seus poucos anos nos EUA, não foi outra coisa.

A Sinfonia de Camargo Guarnieri também veio com uma demonstração de sensibilidade da maestrina. Desrespeitando o “protocolo”, ela pegou o microfone e explicou o que seria tocado através de exemplos retirados da Sinfonia e tocados pela orquestra. Foi oportuno e adequado. A italiana Peleggi trabalha na Osesp como assistente de maestro e sabe que os brasileiros conhecem pouco seus compositores. Então, tratou de contextualizar a música de Guarnieri. Na saída do concerto, a plateia elogiava a atitude de Peleggi ao falar sobre o objeto de seu trabalho.

A maestrina Valentina Peleggi | Foto: Augusto Maurer

A maestrina Valentina Peleggi durante um ensaio em 2015 | Foto: Augusto Maurer

Vamos a mais alguns detalhes: Guarnieri escreveu a Sinfonia Nº 2 em 1945. Em 1947, enviou-a para um Concurso Internacional realizado em Detroit, destinado a escolher uma “Sinfonia das Américas”. Tirou o segundo lugar entre as oitocentas obras inscritas. Villa-Lobos e Oscar Lorenzo Fernandes também enviaram trabalhos. Com 5.000 dólares a mais no bolso e crescente reconhecimento internacional, Guarnieri regeu a estreia da obra em 1950, em São Paulo, com a Orquestra Sinfônica Municipal.

Sofisticada e aparentemente mais difícil do que o Concerto de Bartók, a Sinfonia Nº 2 tem um primeiro movimento na forma de sonata, o segundo é contemplativo e praticamente monotemático e o terceiro é uma espécie de dança que é “uma loucura”, como disse simpaticamente Peleggi. Destaque para o trabalho da orquestra e para os belos solos de Paulo Calloni (corne-inglês), Flávio Moraes (fagote) e Wenceslau Moreyra, o Celau (violoncelo).

Foi uma grande noite, merecedora de um jantar com muita alegria e risadas. Uma observação final: nos últimos anos, a Ospa foi regida três vezes por mulheres. Em pouco tempo, tenho certeza que será absolutamente indiferente se o comando for masculino ou feminino. O que será importante será a concepção e o gesto. Da primeira vez, ouviram-se piadas machistas e o concerto não foi muito bom; da segunda, houve menos, o resultado de palco foi excelente; ontem, a aceitação era quase geral, com os narizes torcidos definitivamente vergados pela competência. Gente, esqueçam o patriarcado. Logo logo, ele estará enterrado e será muito brega e antinatural.

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Penetras na Sala São Paulo

Os penetras Mateus Rosada, Milton Ribeiro e Elena Romanov | Foto: Mateus Rosada

Os penetras Mateus Rosada, Milton Ribeiro e Elena Romanov | Foto: Mateus Rosada

Ontem, ao dar de cara com mais uma segunda-feira, parecia que voltava de férias. Mas não, tinha saído do trabalho na sexta-feira anterior, no horário de sempre. É que o fim de semana tinha sido tão cheio e aventuresco que parecia terem se passado mais de dois dias. Eu e Elena fomos a São Paulo. Ela para rever amigos seus que hoje tocam na Filarmônica de Israel, eu para me reunir com o pessoal do PQP Bach.

A primeira missão era complexa. Não tínhamos adquirido ingressos para a Sala São Paulo, pois o concerto estava esgotado há muitas semanas. Então, fizemos todo um plano com membros da orquestra para entrar junto com eles na Sala, mais de duas horas antes do concerto. Fomos cheirados, examinados e nosso potencial explosivo foi avaliado. O sotaque da Elena funcionou positivamente. Mas sempre vinha alguém perguntar quem éramos. Os amigos da orquestra trataram de nos defender, dizendo que Elena era uma amiga de infância. Não mentiam.

(Depois, queriam saber onde se servia caipirinha em São Paulo. Lembrem que a cachaça já é vendida no mundo inteiro, mas que o açúcar é de beterraba e o limão é outro em Israel).

Resolvido o problema, vimos o indiano Zubin Mehta entrar no palco para um último e curto ensaio. Ele mais falou do que ensaiou. Mas quando os primeiros acordes do Hino Nacional Brasileiro foram tocados, justificou-se todo o nosso esforço. Estávamos realmente frente a uma orquestra extraordinária. As cordas tocavam como se fossem uma só pessoa, os sopros eram claros, tudo era audível e bonito desde nossa posição privilegiada na Sala São Paulo. Depois, Mehta pediu para repassarem partes escolhidas de Daphnis e Chloe e Vida de Herói.

Suas instruções cuidavam apenas da beleza do som, nada quanto aos andamentos. A delicadeza não vinha do “vamos tocar mais baixo”, mas dos timbres. Ouvíamos seus gritos de “Beautiful sound, beautiful sound”… No meio de uma parte especialmente complexa do Ravel, com um fantástico solo de flauta, Mehta, de 80 anos, parou tudo para perguntar. “Ei, vocês sabem que este será o último concerto de nosso colega contrabaixista X? Ele está se aposentando!”. Todos aplaudiram e cumprimentaram um senhor sorridente e surpreso.

Dentre os trompetistas da orquestra, estava Elieser Ribeiro, primeiro trompete da Ospa. Ele foi membro da Filarmônica de Israel há alguns anos, mas voltou para o Brasil por razões familiares. Normalmente, quando a orquestra viaja para a América do Sul, Elieser é convidado por Mehta.

Foto: Mateus Rosada

Zubin Mehta: mais papo do que ensaio | Foto: Mateus Rosada

Aliás, a atmosfera era realmente divertida. Quase todas as observações do maestro eram recebidas com risadas. Ele também deu todos os avisos sobre o final da excursão, sobre o bis e as próximas viagens. Chamou minha atenção que Mehta disse que orquestra priorizaria turnês pela Europa e América Latina, sendo aplaudido pelos músicos. Nos intervalos, solicitava trechos escolhidos das obras que seriam tocadas no concerto.

Eu e Elena sempre brincamos que nossas viagens são de turismo sinfônico. A do último fim de semana foi rápida. Ficamos na casa de nosso querido amigo Mateus Rosada que estava conosco na Sala São Paulo. Acho que essas viagens funcionam como a leitura de um bom livro, daqueles que limpam nossa cabeça, mostrando que o mundo é não feito só de senadores como Ana Amélia e Lasier Martins, que pode ser mais inteligente, lógico, generoso, afinado e bonito. É renovador ver algo como vimos. E as horas do fim de semana pareceram esticar-se, demonstrando que fazer coisas desinteressantes é apenas jogar fora nossa curta vida.

Eu, Elena e o violinista bielorusso Vitaly Remeniuk | Foto: Mateus Rosada

Eu, Elena e o violinista bielorusso Vitaly Remeniuk | Foto: Mateus Rosada

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J. S. Bach (1685-1750): "Erbarme Dich", ária da Paixão Segundo São Mateus

Eu acho que o contralto é Catherine Denley, mas não estou muito a fim de pesquisar… Ah, a Paixão segue após a Erbarme dich com um coral e dois recitativos, se não me engano. Mas o bom é a ária, que é belíssima. O regente é Ton Koopman e a orquestra, a Amsterdam Baroque Soloists.

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Parte de um depoimento de Tom Jobim sobre Villa-Lobos

Villa-Lobos

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Uma foto, a foto

Não sei o que mais dizer sobre a foto abaixo além de que são três grandíssimos artistas que amo muito. Maurizio Pollini (74), Martha Argerich (75) e Daniel Barenboim (73) estiveram juntos ontem num camarim, em Lucerna. Como escreveu Norman Lebrecht, são “seis mãos de ouro” que ouvi muito e das quais espero ouvir ainda muito mais.

Maurizio Pollini, Martha Argerich e Daniel Barenboim

Maurizio Pollini, Martha Argerich e Daniel Barenboim

via Guilherme Conte

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“Ignoro tudo o que venha daquele canalha”, escreveu Tchaikovsky sobre Brahms

“Ignoro tudo o que venha daquele canalha”, escreveu Tchaikovsky em seu diário em 1886. “É um idiota sem talento!”.

Mas não era verdade, Tchaikovsky não ignorava nada que viesse de Brahms. Conhecia muito bem a obra daquele que considerava seu oponente e parecia ter muito a dizer sobre ele.

Johannes Brahms, mesmo sem ser tão direto quanto o russo, também não parecia gostar muito da música de Tchaikovsky. Ele assistiu um ensaio da Quinta Sinfonia de Tchai e adormeceu.

Embora compartilhassem a data de aniversário — 7 de maio, sendo Brahms, nascido em 1833, sete anos mais velho — eles ilustram pólos opostos do espectro de composição. Brahms foi o grande classicista, o construtor de uma densa e particular música de câmara e sinfônica, ao lado de quem Tchaikovsky parecia um emotivo.

Tchai e Brahms: uma relação peculiar

Tchai e Brahms: uma relação peculiar

“Irrita-me que esta mediocridade vaidosa seja considerada genial”, segue Tchaikovsky em seu diário.

As citações poderiam encher um livro. Por vezes, a aversão parece ser inveja. Também as coincidências no lançamento de concertos e sinfonias — lançadas quase sempre na mesma época e na mesma tonalidade — irritava a ambos os compositores.

“Brahms é uma celebridade; eu sou um ninguém. E, no entanto, sem falsa modéstia, eu lhe digo que me considero superior a Brahms. Eu, que honesto e verdadeiro, diria a ele: “Herr Brahms! Eu considero você seja uma pessoa muito sem talento, cheia de pretensões, totalmente desprovida de inspiração criativa. Para ver sua música eu simplesmente tenho que olhar para baixo”.

Talvez Tchai apenas detestasse a música germânica. Sobre Wagner, escreveu: “Após as últimas notas de Gotterdammerung, eu senti como se tivesse sido libertado da prisão.”

A ideia que Tchaikovsky tinha da música era simplesmente diferente: ele criava coloridas melodias, cheias de graça. Era leve e direto, enquanto Brahms estava interessado na arquitetura, em olhar a parte de trás da tapeçaria.

“Brahms, como personalidade musical, é simplesmente antipático para mim. Eu não posso suportá-lo. Não importa o quanto ele tente, eu sempre permaneço frio e hostil. É uma reação instintiva”, escreveu Tchaikovsky em outra carta. Ele não encontrou muitas companhias para dividir suas opiniões, talvez apenas Benjamin Britten tenha vindo em seu auxílio, décadas depois: “Não me refiro ao mau Brahms, é o bom Brahms que eu não suporto.”

Pois hoje, tais opiniões então longe de ser maioria. Brahms e sua música são quase universalmente amados por aqueles que ouvem música erudita.

Um crítico a época contra-alfinetou: “A música de Tchaikovsky soa melhor do que é; a música de Brahms é melhor do que parece”.

O Concerto para Violino de Brahms era um alvo particular de Tchaikovsky, talvez porque o seu fora escrito na mesma época e mal recebido, ao contrário do de Brahms. (Hoje, o de Tchai é também aceito como uma obra-prima). “O Concerto para Violino de Brahms me atraiu tão pouco como tudo o mais que ele compôs”, escreveu Tchaikovsky em 1880 para seu patrono, Nadezhda von Meck. “É muita preparação para alguma coisa, muitas pistas de que algo vai aparecer em breve para nos encantar, mas nada acontece, só o tédio”.

Mais tarde, na mesma carta, vem a mais famosa citação sobre Brahms.

“É como um pedestal esplêndido para uma coluna, mas a coluna está faltando. Em vez disso, o que vem é simplesmente um novo pedestal.”

O surpreendente é que, quando os dois compositores se conheceram, gostaram um do outro.

Eles se encontraram no dia de Ano Novo de 1888, quando o violinista Adolph Brodsky estava ensaiando um trio de Brahms. Brodsky tinha recém estreado o Concerto para Violino de Tchaikovsky e ambos foram convidados para jantar após o ensaio.

Tchaikovsky entrou na sala enquanto a música ainda estava tocando, e depois do jantar, eles beberam juntos.

Tchai logo viu que Brahms estava fazendo o seu melhor para ser amigável e gostou disso. Eram muito diferentes, Tchaikovsky era elegante e fumava cigarros finos; Brahms vestia-se mal, tinha cheiro de charuto e restos de cinza na barba. Conversaram animadamente.

Brahms era conhecido por sua língua afiada. Uma vez, quando participou de um ensaio de um dos seus quartetos de cordas, disse ao violista, “Eu gostei dos tempos, especialmente do seu.”

Mas Brahms estava apaziguado naquela noite na casa de Brodsky, e eles beberam muito. Encontraram-se mais uma vez e beberam novamente.

“Brahms é uma pessoa excelente, educado e inteligente”, escreveu Tchaikovsky de volta à Rússia. No entanto, o fato nunca alterou sua opinião sobre a música de Brahms.

Na saída, após o jantar com os Brodskys, Anna Brodsky perguntou se ele gostara do que tinha ouvido durante o ensaio. “Não fique zangado comigo, meu querido amigo”, ele respondeu, “mas eu não gostei nem um pouco daquilo”.

(via, com muitas alterações)

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Tchaikovsky teria cometido suicídio a pedido do czar em razão de um ‘desonroso’ caso homossexual

O filho do embaixador ficou tão perturbado e emocionalmente abalado pela experiência que seu pai não teve outra escolha senão expressar sua indignação moral no mais forte dos termos…

Do Russia Insider

Tchaikovsky

Existem inúmeras teorias relacionadas com a causa da morte do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Talvez o melhor texto sobre este assunto tenha sido produzido para a BBC pela Dra. Marina Frolova-Walker. A autora é uma musicóloga, historiadora da música russa e professora da Universidade de Cambridge. Lógica e direta, ela tenta uma análise através de uma névoa confusa de conjeturas, rumores e alegações. Após ter examinado todas as teorias, a Dra. Frolova-Walker nos apresenta quatro cenários ou versões possíveis e, em seguida, aborda a plausibilidade de cada uma.

A Versão #1 é a clássica. O compositor morreu de morte natural, como resultado de uma infecção de cólera. Houvera um surto da doença na época da morte de Tchaikovsky e de alguma forma ele se infectou, morrendo de insuficiência renal. Isto teria ocorrido após um jantar com amigos em um restaurante. Nenhum outro do grupo contraiu a doença.

A Versão #2 é que o compositor cometeu suicídio bebendo conscientemente água não fervida, o que levou à morte por infecção de cólera. Seu irmão Modest insistiu em dizer que Pyotr bebeu água contaminada em casa, também de uma torneira. A autora considera que ambas as alegações são altamente improváveis porque Tchaikovsky e seus empregados sempre foram meticulosos sobre toda a água de casa. O fato da mãe do compositor ter morrido de cólera só acentuou sua extrema vigilância sobre o assunto.

A Versão #3 tem a ver com um caso amoroso que Tchaikovsky teve com um membro da Corte Imperial. Tendo recebido uma carta de protesto de um tio indignado, o czar dera-lhe um ultimato: ou enfrentava um julgamento público humilhante ou cometia suicídio. Tchaikovsky teria escolhido o último e, com a ajuda de seu médico, teria se envenenado, provavelmente com arsênico.

A Versão #3a vem da musicóloga russa Alexandra Orlova. Ela sustenta que a morte do compositor foi o resultado de um veredicto de uma corte secreta de Honra. Um certo Nikolai Jacobi supostamente tinha em sua posse uma carta de um conde cujo sobrinho tinha sido seduzido por Tchaikovsky. A carta era para ser entregue ao czar, mas não foi. Este Tribunal de Honra consistia de antigos colegas da Faculdade de Direito e, depois de cinco horas de deliberação, “sugeriram-lhe que cometesse suicídio para evitar a desonra da escola”.

A Versão #4 diz respeito a um assassinato conspiratório em que Tchaikovsky é envenenado por seu próprio médico, Dr. Bertenson, por ordem do czar. O médico, em seguida, teria encoberto o crime.

A Dra. Frolova-Walker, rejeita as versões #2 e #4 como especulações baseadas em rumores. E duvida da #1.

Mas há um toque final para esta história de mistério …

Svetlana Gorbacheva — pianista clássica por formação — foi diretora do “Bolshoi Zal”, sala de concerto no Conservatório de Moscou. Durante sua gestão, Svetlana e sua equipe descobriram uma carta que tinha sido enviada para Tchaikovsky por ninguém menos que o próprio czar russo. Em linguagem inequívoca, o chefe de Estado russo advertia claramente Tchaikovsky por trazer vergonha ao país devido a um caso com o filho do embaixador espanhol em Moscou. O jovem ficou tão perturbado e emocionalmente abalado pela experiência que seu pai não teve outra escolha senão expressar sua indignação moral no mais forte dos termos.

Grave e solenemente, o czar declara que Tchaikovsky — como cavalheiro e aristocrata — saberia o que fazer.

E assim, ninguém sabe exatamente do que morreu Tchai. O que se sabe é que, hoje, poucos acreditam na versão oficial, a #1. Sobram as duas versões da terceira e o incentivo do bondoso czar.

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Hoje, uma importantíssima data na história recente da música: Revolver completa 50 anos

A capa de Revolver

A capa de Revolver

É uma escolha que pode variar. Meus discos preferidos dos Beatles são Rubber Soul, O Álbum Branco e Abbey Road, mas Revolver é, sem dúvida, o mais importante do ponto de vista da história do rock. Eu tinha 9 anos e lembro que minha irmã tinha comprado Rubber Soul e que pegara Revolver emprestado de uma amiga. Ambos eram objeto de culto absoluto em minha casa, na Av. João Pessoa, em Porto Alegre. Ignoro como não furaram, de tanto que ouvimos.

Revolver é um divisor de águas na história dos Beatles e do rock. A partir dele, o grupo deixou de se apresentar em público porque as canções não poderiam ser reproduzidas no palco, uma aparente necessidade da época. Era um álbum criado em um estúdio muito bem equipado, com recursos que poderiam ser buscados onde estivessem e o grupo — para nossa sorte — passou a ser escravo da casa de Abbey Road onde gravava, tanto que só fez mais uma apresentação pública até sua dissolução. As gravações envolveram fitas tocadas de trás para diante — como no solo de guitarra de Tomorrow never knows, arrancado de Taxman — orquestra, quarteto de cordas, o extraordinário trompista Alan Civil, etc. Para Revolver, os Beatles alteraram totalmente a forma de compor e George Martin foi atrás. Eu disse atrás, não na frente. Muito da inovação sonora e de estilo das músicas do álbum deve-se ao engenheiro de som Geoff Emerick. Foi dele a ideia de aproximar os microfones aos instrumentos e amplificadores, em especial, à bateria de Ringo, o que produziu um som mais pesado e impactante. A EMI detestou a novidade. A direção da gravadora se reuniu com os músicos, querendo vetar o novo estilo, mais agressivo, porém Paul, falando em nome do grupo, deu um ultimato aos executivos: “De agora em diante, esse é o nosso som. Ou será assim ou simplesmente não será”.

O ecletismo tornou-se uma marca do rock. Vejam o que foi feito depois de Revolver e o que tínhamos antes. O LP lançado na Inglaterra em 5 de agosto de 1966, abriu muitas portas. As letras abandonam o garoto-encontra-garota e falam de impostos, de vidas desperdiçadas, do vazio diário, do sono, da tristeza dos finais das relações e de um certo e altamente lisérgico submarino amarelo. Os arranjos ganharam inédita complexidade, mostrando quem era George Martin, um irreverente erudito.

Como se não bastasse, o álbum mostra a cara de cada um. George ganhou espaço. Colocou três composições suas das quatorze do disco. É sua a obra-prima chamada I want to tell you, canção sobre a frustração de querer dizer algo e não conseguir. Taxman é uma crítica aos impostos cobrados e Love you too traz pela primeira vez as cítaras para o rock. Ele estava cada vez mais envolvido com a cultura indiana e Ravi Shankar. E todos estavam mergulhados nas drogas.

Lennon torna-se o irônico que foi até a morte. Em Tomorrow never knows, exige que sua voz soe como a do dalai lama cantando na montanha, seja lá isso o que for. É uma viagem drogadíssima de três minutos. George Martin que se virasse. Em Tomorrow há as fitas tocadas de trás para diante, oboés dando risadas, uma bateria violentíssima — Ringo parecia alucinado — e uma letra sensacional. E o que dizer das deliciosas Dr. Robert e She said she said? A primeira era uma alusão ao fornecedor de drogas do grupo, ali chamado de doutor Robert. E diz:

Ring my friend, I said you call Doctor Robert
Day or night he’ll be there any time at all, Doctor Robert
Doctor Robert, you’re a new and better man
He helps you to understand
He does everything he can, Doctor Robert

(…)

Well, well, well, you’re feeling fine
Well, well, well, he’ll make you… Doctor Robert

Ainda de John, há I´m only sleeping, que fala sobre como John amava dormir e odiava ter seu sono interrompido. O arranjo é bastante onírico com a voz de John sendo sutilmente distorcida por um gravador em velocidade pouca coisa mais alta que a correta.

Mas as canções de Paul talvez sejam o ponto alto de Revolver. Eleanor Rigby é um clássico sobre a solidão. O arranjo para cordas de Martin é uma pérola irrepetível. “Onde estão os outros Beatles nesta música?”  — perguntava a criança que eu era na época. “Onde ficaram as guitarras de John e George?” For no one é, em minha opinião, uma das melhores canções já compostas. De repente, surge a trompa de Alan Civil para dar ornamento fundamental a uma melodia lindíssima. Há também a canção favorita de McCartney, Here there and everywhere, e a inacreditável soul music by Paul de Got to get you into my life que nos faz perguntar novamente onde diabo estão os Beatles, pois o acompanhamento é quase só de metais.

Yellow Submarine, escrita por Paul e cantada por Ringo, tem em sua letra um tema infantil que depois seria aproveitado para dar título a um desenho animado. Traz sons de bolhas, barulho de água e outros sons gravados em estúdio. A letra sugere mais drogas, não? “Vamos vivendo uma bela vida / Achamos para tudo uma saída / Céu azul, mar verde e belo / Em nosso submarino amarelo”.

Revolver foi uma viagem sem volta na estética do grupo. Ouçam outros discos de 66 e a maioria parecerá vir de um passado remoto se comparados com este LP.

Mas por que Revolver? As sugestões eram as seguintes: Many years from now, Magic circles, Beatles on safari, Four sides of the eternal triangle, Pendulum e After Geography, uma brincadeira de Ringo com Aftermath, álbum dos Rolling Stones. Mas Revolver venceu porque se referia tanto à arma quanto ao movimento de revolução de um disco de vinil no prato giratório de um toca-discos.

Se você nunca ouviu Revolver, sua vida não mudará em nada, mas ele foi uma pedra fundamental para o rock para chegar à época de ouro setentista. Sem este degrau, tudo seria menor.

Relação de canções de Revolver.

Taxman (Harrison) 2:39
Eleanor Rigby (McCartney) 2:07
I’m Only Sleeping (Lennon) 3:01
Love You To (Harrison) 3:01
Here, There and Everywhere (McCartney)2:25
Yellow Submarine (McCartney)2:40
She Said She Said (Lennon) 2:37
Good Day Sunshine (McCartney)2:09
And Your Bird Can Sing (Lennon) 2:01
For No One  (McCartney) 2:01
Doctor Robert (Lennon) 2:15
I Want to Tell You (Harrison) 2:29
Got to Get You into My Life (McCartney)2:30
Tomorrow Never Knows (Lennon) 2:57

A contracapa de Revolver, dos Beatles

A contracapa de Revolver, dos Beatles

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Mozart – Adágio da Serenata para 13 Instrumentos de Sopro, K. 361, "Gran Partita"

Esplendidamente interpretado por F. Murray Abraham — que ganhou o Oscar de Melhor Ator por este Amadeus (1984), de Milos Forman –, Salieri diz:

Na página não parecia… Nada! O princípio simples, quase cômico. Só uma pulsação. Trompas, fagotes… como uma sanfona enferrujada. E depois, subitamente… lá bem no alto… um oboé. Uma única nota, ali pendurada, decidida. Até que um clarinete a substitui, adoçando-a numa frase de tal voluptuosidade… Isto não era uma composição de um macaco amestrado. Era música como eu nunca tinha ouvido. Cheia de uma saudade, de uma saudade não realizada. Parecia-me que estava a ouvir a voz de Deus.

.oOo.

Música

(Para D.D.S.)

Algo de miraculoso arde nela
e fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar,
depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.

Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

(1958)

De Anna Akhmátova. Este poema foi dedicado a Dmitri Shostakovich e está gravado em seu túmulo. Foi uma exigência do compositor.

A tradução é de Lauro Machado Coelho, no excelente livro Shostakovich – Vida, Música, Tempo.

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Shostakovich tentou capturar o caos do futebol em uma peça para piano

DSCH assistindo seu querido Zenit jogar

DSCH assistindo seu querido Zenit jogar

Shostakovich amava o futebol e, quando podia, ia aos estádios para ver seu o Zenit, de São Petersburgo jogar. Na Suíte Russkaya reka (Rio Russo), Op. 66, há um movimento chamado Futebol, no qual ele tentou representar musicalmente nosso querido esporte bretão. O resultado é uma correria. Jamais deve ser esquecido que Shostakovich, quando jovem, no início do século passado, ganhava trocados atuando como pianista de cinema mudo.

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