Impossível ficar indiferente à capa do último CD de Cecilia Bartoli

Impossível ficar indiferente à capa do último CD de Cecilia Bartoli

Cecilia Bartoli acaba de anunciar seu novo álbum, Farinelli, com um programa de árias inspirado na figura do famoso castrato, provavelmente um dos melhores cantores da história. O álbum (no qual a cantora tem a colaboração do notável Giardino Armonico de Giovanni Antonini) estará à venda no dia 8 de novembro. Mas o que certamente não deixará ninguém indiferente é a imagem da capa, onde Bartoli aparece com barba. Piscadela aos transexuais? Auto-ironia? Marketing astuto? Uma mistura das três coisas?

A verdade é que Bartoli tem uma longa história de capas excêntricas, e não é a primeira vez que os castrati despertam sua imaginação. Alguns se lembrarão, há dez anos, de seu álbum Sacrificium, onde seu corpo havia passado por um processo de “marmorização” que a transformou em uma estátua.

Pollini nos dá uma aula de música

Pollini nos dá uma aula de música

Aqui, o maior dos pianistas dá uma bela entrevista. Pollini parece pensar cada nota. Depois de ouvi-lo, a gente tem dificuldades com outros. Ele é convincente ao mais alto grau. A noite em que o ouvi em Londres foi uma das melhores de minha vida. Foi um recital muito longo dedicado a Abbado. Tinha umas 2000 mil pessoas no Southbank Center, todas em suspenso, absolutamente sozinhas com o gênio. Sensível e de enorme refinamento intelectual, ouvir Pollini (1942) — tocando ou apenas discorrendo — é um bálsamo em nossos dias bolsonarianos. Vale a pena.

Plácido Domingo: concertos cancelados nos EUA e ovação na Europa

Plácido Domingo: concertos cancelados nos EUA e ovação na Europa

O universo erudito norte-americano respondeu às acusações de assédio sexual que teriam sido cometidos pelo tenor e maestro Plácido Domingo. Quatro instituições foram radicais. A Orquestra da Filadélfia cancelou um concerto que teria participação dele. A Orquestra divulgou uma nota para justificar sua decisão. “Nosso comprometimento é o de manter um ambiente seguro, respeitável e apropriado”. A Ópera de São Francisco “desconvidou” o tenor espanhol de um concerto que seria realizado em outubro. Imaginem: o evento seria realizado para comemorar os 50 anos da estreia do cantor junto à instituição. Por meio de sua assessoria, os responsáveis pela Ópera alegaram que, embora nenhuma acusação contra Domingo tenha sido provada, ela tem o compromisso de repudiar qualquer situação de assédio.

As acusações dão conta de que Domingo causava prejuízos a artistas que não cediam a seus desejos.

A Ópera de Los Angeles e a Ópera Nacional, de Washington, foram mais reservadas. Los Angeles, onde ele atua como diretor artístico, informou que os casos de assédio serão investigados, ainda que reconheça que o maestro seja “uma força criativa” dentro da instituição por mais de três décadas. A Ópera de Washington, que teve Domingo sob contrato por 15 anos, afirmou por meio de seus representantes que não dispõe de políticas definidas para qualquer tipo de assédio e abuso. Os diretores da casa não quiseram dar mais detalhes se irão investigar o comportamento de Domingo — que teria assediado mulheres enquanto foi diretor artístico do local.

Enquanto isso, em Salzburgo, os bravos e os aplausos começaram quando Plácido Domingo foi visto caminhando rapidamente no palco antes de uma apresentação no Festival de Música na cidade. Foi uma ovação de pé que durou bem mais de um minuto. Aquela seria a primeira apresentação de Domingo desde que surgiram acusações de assédio sexual contra ele. A plateia aplaudiu todos os grandes momentos da ópera. Ele teve que pedir para parar a ovação de pé na última parte para que outros artistas também fossem homenageados.

O imponente Grosses Festspielhaus, a Grande Sala de Concertos do Festival, estava lotado naquela arde de trovoada. Havia gente junto às portas com placas pedindo para comprar ingressos para a apresentação esgotada. Era uma das óperas menos conhecidas de Verdi, Luisa Miller, que seria regida por Domingo. No saguão, havia o que parecia ser um pequeno santuário para Domingo — uma banca de venda de CDs e vídeos, junto com fotos de imprensa e de produções recentes. Em outros lugares do balcão, havia todos os Esa-Pekka Salonens ou Anna Netrebkos que você poderia desejar, mas todos pareciam querer Domingo.

Ao final de Luisa Miller, a ovação durou 15 minutos!!! Quaisquer que sejam os resultados da investigações em Los Angeles, Domingo poderá seguir cantando e regendo na Europa. E… Cada vez mais os europeus acham que os norte-americanos são um bando de idiotas, isso estava claro na atitude e na indignação das pessoas.

Esta foi a primeira aparição pública de Domingo desde que a AP informou que oito cantores e um dançarino acusaram Domingo de avanços sexuais indesejados. As acusações foram todas anônimas e ainda não comprovadas. A Ópera de Los Angeles, onde Domingo é diretor geral, iniciou uma investigação.

Isso ainda vai longe.

Com o Los Angeles Times, Norman Lebrecht e outros.

Futebol e Ópera: drops de segunda

Futebol e Ópera: drops de segunda

Realmente muito bonita a versão da Ospa para Orfeu e Eurídice, de Gluck, sob a regência de Evandro Matté. Destaque também para a bela direção cênica e cenografia de William Pereira. O que víamos refletia a música. Eu fiquei encantado com que vi e ouvi. O trio de cantoras arrasou. Denise de Freitas, Carla Cottini e Raquel Helen Fortes deram um banho. O coral também foi demais, né, Loren Hofsetz? Todo mundo saiu feliz do TSP. Mas quem foi brilhante mesmo foi a minha Elena Romanov, invisível lá no fosso! Bem, muita gente está a merecer parabéns hoje. Foi um trabalhão que deu certo, apesar do prazo exíguo e dos apertos de sempre. Parabéns, tudo está bem quando acaba bem, já dizia o velho Shake!

Loren Hofsetz completa, em comentário feito no meu perfil do Facebook: Foi muito bom vivenciar tudo isso. Temos muita sorte de ter o maestro Manfredo Schmiedt que esteve com a gente em todos os momentos para estarmos à altura do que a obra pedia. Foi incansável. Em todos os intervalos esteve conosco. Devemos muito a ele. A Elisa Machado que nos preparou vocalmente, a todos os envolvidos na produção que desde as amadas maquiadoras, o pessoal do cabelo, do figurino e, sobretudo à orquestra, em especial Elena Romanov que foi uma das que demonstrou apoio e torcida para que tudo desse certo. Trabalhamos juntos. Bravo também ao Evandro Matté! Obrigada pela tua presença, é um privilégio ter alguém como tu nos apoiando e que, por ser tão apaixonado por música, só agrega e eleva o nível quando se trata de falar sobre ela. Muito obrigada!

(Pena que a Dança das Fúrias tenha sido cortada).

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Os camarotes laterais do Theatro São Pedro são o próprio inferno. Na segunda fila, não via o palco. Deveriam doar estes ingressos. Sempre. Fui salvo por amigos.

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Pelo visto, Odair vai escalar Sóbis contra o Flamengo, deixando de fora Nico López e Wellington Silva. Não desejo isto, mas será uma eliminação bem ridícula, com substituições pré-definidas, pois Sóbis não tem velocidade nenhuma nesta época da vida e só pode jogar de centro-avante. Espero estar errado. Vai sair aos 5 do segundo tempo, quando estivermos desesperados.

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Perdemos para o Goiás. Nico López não poderia fazer isso, mas fez. Não está se esforçando nada no time alternativo após perder a posição para Sóbis. Aliás, esta foi a atuação mais podre do time de Odair em 20 meses. Algo jamais visto. Jogando com um a mais desde o início do jogo e ganhando de 1 x 0 acabaram perdendo por 2 x 1.

Até o diretor de futebol Roberto Melo reconheceu o ridículo da atuação.

E Parede também…

Paralelepípedo Cultural I

Paralelepípedo Cultural I

Boa tarde, amigos da Rádio Web e/ou — a primeira rádia web do Brasil.

Este é o Paralelepípedo Cultural, programa apresentado por este que vos fala, Milton Ribeiro, num oferecimento da Livraria  Bamboletras — livraria de todos os gêneros — localizada no Shopping Nova Olaria, 776, loja 3.

Hoje, vamos mostrar alguma coisa da produção musical erudita da Europa da segunda metade do século XX.

Arvo Pärt

Sabemos que o elitismo fazia parte da ideologia da Segunda Escola de Viena.

A Segunda Escola de Viena foi um grupo de compositores modernos de Viena, formada por Arnold Schoenberg e seus discípulos Alban Berg e Anton Webern.

Sua música é caracterizada pela atonalidade, pelo dodecafonismo e por, simplesmente, virar as costas ao público.

Se a música dava para assobiar, não era música.

Esse elitismo na linguagem da música europeia que Schönberg radicalizava teve muitos discípulos e a música erudita foi se tornando cada vez mais complicada e impenetrável.

É claro que se tornou também irrelevante.

Em resposta, ocorreu uma onda trazida pelos negros das Américas, que trouxe de volta o elemento dionisíaco da música, de que a Europa havia aberto mão.

Achamos mesmo que a maior parte da música relevante do século XX tem uma dívida para com a corrente negra.

Mas houve uma pequena e resistente aldeia gaulesa que salvou a segunda metade do século europeu.

Ela estava nos países do Báltico.

A Rússia, a Finlândia, a Lituânia, a Estônia, a Polônia, etc. permaneceram fazendo música compreensível.

Hoje, vamos apresentar 4 obras de compositores da região.

Comecemos pelo russo Shostakovich com seu Trio para Piano N° 1, composto quando o compositor tinha apenas 16 anos.

O trio foi escrito em apenas um movimento e foi…

Bem, foi apenas um trabalho de aula de Shostakovich.

Este foi o Trio Nº 1 de Shostakovich com o DSCH-Shostakovich Ensemble.

(Acima, outra gravação. Na gravação que será apresentada o Trio #1 tem 10min41 de duração).

Agora vamos partir para o divertido Tango Polifônico, do russo Alfred Schnittke.

Parece que um dos objetivos principais de Schnittke na sua carreira foi o de conseguir a unificação da música clássica com a ligeira, como faz nesta obra de 1979. Sua técnica era chamada de poliestilística, o que consiste no uso de múltiplos estilos e/ou técnicas de composição musical, e é visto como uma característica pós-moderna.

Este foi o Tango Polifônico de Alfred Schnittke, com a Orquestra Sinfônica da Rádio do Norte da Alemanha, sob a direção de Eiji Oue.

Finalizando, vamos a duas peças do estoniano Arvo Pärt.

Pärt nasceu em 1935 e é o compositor erudito vivo que é mais tocado no mundo. A musica de Pärt é muito inspirada pelo Canto Gregoriano.

Suas obras geralmente têm um ritmo lento e meditativo.

A abordagem composicional de Pärt expandiu-se com o tempo, mas o efeito geral permanece basicamente o mesmo.

“Spiegel im Spiegel” ou “Espelho no Espelho” é uma famosa peça de Arvo Pärt escrita em 1978. A peça tem uma voz melódica, a do violino, acompanhada pelo piano.

Esta peça é popularíssima, tendo sido utilizada em 26 filmes de diretores como Godard, Sorrentino, Guy Ritchie e François Ozon, dentre outros.

Este foi Spiegel im Spiegel, com a violinista Lisa Batiashvili e a pianista Hélène Grimaud.

Então, para terminar de vez, vamos a mais uma célebre peça de Pärt, Fratres. Fratres significa Irmãos. Imaginem que esta obra, composta em 1977, foi trilha sonora de 13 filmes.

Então, vamos ouvir Fratres com Viktoria Mullova, violino, e a Orquestra Nacional da Estônia, sob a  direção de Paavo Jarvi.

Os compositores

Bach é Bach
Handel, um Bach mais religioso
Mozart, um Handel mais jovem e bonito
Beethoven, um Mozart angustiado
Chopin, um Beethoven sem angústia
Tchaikovsky, Chopin mais orquestra
Debussy, um Tchaikovsky descontraído
Ravel, Debussy mais jazz
Gershwin, Ravel e ainda mais jazz
Joplin, Gershwin mas mais jazz
Stravinsky, Joplin atonal
Ives, Stravinsky e mais bagunça
Cage, Ives menos a música

(claro que foi feito por norte-americanos)

Um pouco sobre a Missa Glagolítica, de Leoš Janáček

Um pouco sobre a Missa Glagolítica, de Leoš Janáček

Uma obra religiosa escrita por um ateu, uma obra inspirada pelo amor não consumado a uma mulher casada e uma obra para homenagear a cultura eslava. Este é o resumo do que é a extraordinária Missa Glagolítica do tcheco Leoš Janáček. Mas não vamos ficar apenas no resumo. Vamos adiante.

Alexandre Pushkin foi o escritor que, para além de seus grandes méritos literários, recebeu o crédito de ter ampliado significativamente o vocabulário do idioma, normatizando várias expressões populares e codificando o russo literário. Sabemos da importância que o idioma tem para a identidade e cultura de um povo, da parte fundamental que ele ocupa em sua autoafirmação e independência.

A Morávia do compositor Leoš Janáček foi, por quase toda sua vida, dominada por estrangeiros. Até a Primeira Guerra Mundial, em 1918, por exemplo, existia o Império Austro-Húngaro, que ia do centro da Europa até a fronteira com a Ucrânia. Então, finalmente, o povo tcheco pôde celebrar sua independência… Mas esta valeu apenas até 1938, quando os nazistas resolveram anexar o país. Depois veio a URSS.

Ou seja, a região da República Tcheca foi, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, uma região constantemente esmagada pelas potências ocidentais de um lado e pela Rússia de outro.

Em 1926, Janáček, resolveu comemorar a efêmera independência de seu país escrevendo uma Missa. Mas não com uma Missa comum: optou, como ato de afirmação étnica, por uma missa cantada na antiga língua litúrgica eslava, o eslavônico. Por isso o nome da obra – “Missa Glagolítica”, ou seja, missa numa língua escrita no alfabeto glagolítico, antecessor do cirílico.

A Missa Glagolítica (Mša glagolskaja) foi apresentada pela primeira vez em 26 de junho de 1926 em Praga.

A opção do ateu Janáček por escrever uma missa de tintas étnicas é muito simbólica. Janáček apoiava o pan-eslavismo e a obra era um modo de celebrar a identidade e a cultura eslava. Não é uma mera Missa nacionalista tcheca, ela celebra todo o patrimônio pan-eslavo, usando a língua litúrgica que foi utilizada em diversos países eslavos.

Esta gravação deverá aparecer no PQP Bach nos próximos dias.

Fora as cinco seções tradicionais da missa -– aqui com títulos em eslavônico: o “Credo” virou “Veruju”, o “Gloria” virou “Slava” e assim por diante — Janáček adicionou uma introdução orquestral e, perto do final, um sensacional solo de órgão seguido de um poslúdio sinfônico curiosamente chamado de “Intrada”, sei lá para onde, mas dá para imaginar.

A linguagem musical de Janáček não costuma ser delicada, mas é de originalidade, beleza e modernidade impressionantes. Os ritmos da Glagolítica refletem tanto a aspereza da língua antiga quanto a bagagem folclórica. A orquestração e o uso da voz humana são absolutamente pessoais e convincentes. E o drama da expressão – como na passagem da crucificação de Cristo, na qual o órgão assume papel fundamental – demonstra a vocação de Janáček para o teatro.

A música começa e termina com fanfarras. Há ainda muitos trechos de grande originalidade rítmica — principalmente para ouvidos treinados para formas diferentes –, além de memoráveis passagens para solistas e coro, e o famoso solo de órgão do qual falaremos mais a seguir.

Milan Kundera escreveu: “A Missa Glagolítica é uma orgia, não uma missa”. Vamos a mais um pouco de história: o pai de Kundera — um pianista e musicólogo que faleceu em 1971 — trabalhou com Janáček e ajudou o compositor nos ensaios para a estreia. Ela é uma das várias obras, justamente as melhores de Janáček, que é marcada por dois fatos que o motivaram muito no final da vida: a independência de seu país obtida em 1918 e, bem, seu enorme amor por Kamila Stösslová, uma mulher casada e 40 mais jovem que jamais compartilhou deste sentimento amoroso, mas que jamais afastou-se dele. Sim, os dois mantiveram por anos uma profunda amizade. Janáček parecia não se incomodar muito e mantinha suas juras de amor mesmo sem a contrapartida física.

Então, a musa Kamila Stösslová ocupa um lugar incomum na história da música. Leoš Janáček, ao conhecê-la em 1917 na Morávia, apaixonou-se profundamente, apesar de ambos serem casados ​​e do fato de que ele sera quase quarenta anos mais velho. Ela influenciou profundamente o compositor em sua última década de vida. Kamila estava morando em Luhačovice (Morávia) com seu marido, David Stössel, e seus dois filhos, Rudolf e Otto. David estava no exército e até ajudou Janáček na obtenção de alimentos no tempo de guerra. Provavelmente o serviço militar de Stössel só deixava que ele passasse poucos dias em Luhačovice, dando a Janácek a chance de caminhar e conversar com Kamila durante o resto do tempo. Ele a conheceu em 3 de julho de 1917. Cinco dias depois, já escrevia apaixonadamente sobre ela em seu diário. Uma correspondência cerrada entre a dupla começou em 24 de julho.

Kamila devia ser muito inspiradora, apesar de impedir que o sexo se concretizasse. Foi para ela que Janáček criou várias mulheres de suas óperas, a Katya de Katya Kabanová, a raposa de A Pequena Raposa Astuta e Emilia Marty de O Caso Makropulos. Outros trabalhos que foram inspirados por sua paixão foram O Diário de Um Desaparecido, a Missa Glagolítica, a Sinfonietta e o Quarteto de Cordas No. 2 (Cartas Íntimas), ou seja, suas obras mais importantes. Na dedicatória das Cartas Íntimas, Janáček escreveu: “A música descreverá o medo que sinto de você”.

Como já disse, o ateu Janáček era um entusiasta do “pan-eslavismo”, movimento que valorizava mais as línguas eslavas do que o latim e as germânicas. Kundera tem razão em chamar a Glagolítica de orgia, pois há tanta música feliz, dançante e efusiva, que nem parece que estamos celebrando uma Missa, não obstante a participação do órgão. Ah, o ateísmo é libertador! Tudo na Glagolítica é moderno e original. O soprano solista parece uma guerreira, o baixo parece ter saído direto de um culto da Igreja Ortodoxa. Talvez seja a mais bela Missa do século XX, talvez melhor que a de Bernstein, que também é um espanto.

Voltando ao pai de Kundera, Ludvík: ele escreveu, numa crônica de 1927, que a Glagolítica fora “escrita por um velho homem religioso”. Janáček não parece ter gostado muito: “Não sou nem velho nem religioso”. Toma, Ludovico!

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O alfabeto glagolítico (glagólitsa nas línguas eslavas) é o mais antigo dos alfabetos eslavos que se conhece. Foi criado por São Cirilo e São Metódio por volta de 862-863 para traduzir a Bíblia e outros textos para as línguas eslavas. O nome vem da palavra glagola, que em búlgaro antigo significa palavra. Já glagolati significa falar e pode-se dizer, um tanto poeticamente, que glagolítico são “símbolos que falam”.

O alfabeto glagolítico original constava de 41 letras, embora a quantidade tenha variado levemente com os séculos. Das 41 letras glagolíticas originais, 24 são derivadas, provavelmente, de grafemas do grego medieval, os quais receberam um desenho mais ornamental.

Os caracteres restantes são de origem desconhecida. Acredita-se que alguns podem ter vindo de caracteres hebraicos e samaritanos, que Cirilo teria aprendido em suas viagens.

O nome “Glagolítico” é em checo hlaholice, em eslovaco hlaholika, em polaco głagolica, em russo, macedónio e búlgaro глаго́лица (transliterado glagólitsa), em croata glagoljica, em ucraniano глаголиця (transliterado hlaholytsia), em bielorrusso глаголіца (transliterado hlaholitsa), em esloveno glagolica, etc.

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Agora, um caso com o órgão presente nesta Missa. Ao folhear o livro Tudo tem a ver, de Arthur Nestrovski, dei de cara com um artigo que descreve o pânico de um organista que fugiu por medo de tocar o famoso movimento solo da Glagolítica. Isso dois ou três dias antes do concerto da Osesp. Nestrovski narra seu desespero e a brilhante solução, obtida quase que por sorte. Ah, querem spoilers? Nada disso, comprem o livro — que é bom demais, com ensaios sobre literatura, música popular e erudita.

Compositores sendo pais

Compositores sendo pais

Shostakovich sendo pai.

Bartók sendo pai.

Bernstein sendo pai e avô.

Mahler sendo pai.

Prokofiev sendo pai.

Messiaen sendo pai.

Stravinsky sendo pai.

Sibelius sendo pai.

Stockhausen sendo pai e recordista.

Schoenberg sendo pai.

Dvořák sendo pai.

Debussy sendo pai.

Rachmaninov sendo pai.

Penderecki sendo pai.

Ontem, O Empresário, de Mozart

Ontem, O Empresário, de Mozart

Ontem à noite, assistimos a uma pocket ópera que talvez tenha sido o mais estimulante, bonito, eufônico e engraçado espetáculo que vimos em 2019 em Porto Alegre. Com quatro das melhores vozes da cidade — por ordem alfabética, Daniel GermanoElisa LopesFranciscco Amaral e Raquel Helen Fortes, com o pianista Daniel Benitz, todo mundo sob a direção de Flávio Leite –, vimos ‘O Empresário’, de Mozart. A opereta foi escrita para participar de uma competição musical, em 1786, no Palácio de Schönbrunn, em Viena. O tema era o mundo dos cantores líricos.

Deste modo, mini-ópera trata das confusões de um empresário às voltas com duas primadonas vaidosas, estressadas e enlouquecidas para obter papéis de destaque em uma produção musical. Ninguém mais apropriado do que Mozart para fazer um retrato fiel e pertinente do meio operístico. A ação, em sua parte falada, foi trazida para os dias de hoje em concepção do Flávio Leite. A música é de altíssima qualidade com árias muito difíceis que foram levadas com arrebatador virtuosismo por parte dos cantores. Uma delícia ver estes grandes cantores exercitarem um insuspeitado — e imenso — talento cômico. Divertimo-nos um monte!

Estive lá graças à Elena, que viu o anúncio e sentenciou: nisso aqui a gente tem que ir! Guardei lugar pra ela, que teve que sair correndo de uma aula que estava ministrando para chegar à tempo.

Rimos muito e estamos cantarolando as árias até agora.

Direto de Pink Floyd para Bach

Direto de Pink Floyd para Bach

Fui um adolescente tarado por música. Aliás, até hoje sou assim. É claro que ouvia muito Milton, Chico, Caetano, Edu Lobo e outros, mas minha preferência era pelo rock inglês. Grosso modo, meu mundo artístico girava em torno de Beatles, Led Zeppelin, Stones, The Who, Pink Floyd e Deep Purple.

Mas, entre 1973 e 74, entre os 16 e 17 anos, deixei rapidamente o rock de lado e me apaixonei pelos meninos J. S. Bach, Beethoven e Bartók. Eles pareciam ser fontes inesgotáveis, com os quais poderia viver minha vida até o final. Apesar de ouvir — sem exagero — mais uns 400 compositores eruditos, mantenho aquela impressão até hoje. Poderia ficar só com aquele trio. Afinal, há algo melhor do que Bach ou do que os últimos Quartetos de Beethoven e os 6 de Bartók? Não, não há.

Mas derivo. O que desejava dizer é que conheço e sei tudo de rock até 1973. Tenho os vinis da época em bom estado e a Elena, por exemplo, gosta muito de ver rodar meus discos dos Beatles no toca-discos que ainda mantenho. Mas não sei de mais nada do que aconteceu depois de 1974.

Então, neste domingo, a Ospa vai fazer um de seus concertos populares tocando Pink Floyd. Olhei a relação das canções e nada, não conheço porra nenhuma. Só o medley de The Dark Side of the Moon, claro, disco que conheço de verso e reverso. Do resto, nada.

Este foi um corte muito estranho. Após comprar o álbum duplo dos Concertos de Brandenburgo com o Collegium Aureum, tudo mudou e, olha, só segui comprando os discos do Chico (todos), da Mônica Salmaso (todos) um do Queen, um do Prince e outro do Beck.

E sei lá porque estou contando isso procês. Ah, por causa da Ospa.

Tchau.

Uma pequena obra-prima: A Bailarina do Barco

Uma pequena obra-prima: A Bailarina do Barco

Dentre os passageiros do cruzeiro, há uma bailarina. Durante a viagem, ela pratica sua arte no convés. Inspirado por ela, membros da tripulação tentam imitá-la… E o resto você vê.

Uma obra-prima que me foi repassada pela Elena Romanov e que dedico pessoalmente à Caminhante. A música é de um dos compositores que mais amo, Alfred Schnittke.

“A Bailarina do Barco” Direção: Lev Atamanov. 1969.

Da Paixão segundo São João, de Bach: Es ist vollbracht, ária para contralto

Da Paixão segundo São João, de Bach: Es ist vollbracht, ária para contralto

Es ist vollbracht significa Está consumado. Bach compôs duas Paixões que poderíamos considerar como óperas da Paixão de Cristo. Quando é Bach, a gente é obrigado a respeitar. Foi o maior dos artistas.

O pessoal que toca abaixo é de primeiríssima linha, todos. A regência é de Nikolaus Harnoncourt, a orquestra é o Concentus Musicus Wien, o solista de gamba é Christophe Coin, o coro — que se ergue mais não canta… — é o Tölzer Knabenchor e o menino é o desconhecido, genial e efêmero (refiro-me à voz, claro) Panito Iconomou. Ah, e quem me apresentou a gravação foi o Gilberto Agostinho. Tudo de primeira linha, repito. Não deixem de ver, é inacreditável.

Dia desses, disse aqui que uma das coisas que mais amava na São João é seu coro inicial, que começaria como um súbito mergulho. E não é?

Hilary Hahn: por que eu preciso de dois Vuillaumes

Hilary Hahn: por que eu preciso de dois Vuillaumes

É difícil compará-los. Eu tive experiências muito diferentes com cada um deles em diferentes momentos da minha vida. O de 1864 não parece mais tão natural para tocar. Algo mudou ao longo dos anos e eu não mudei na mesma direção. O instrumento foi numa direção e eu noutra. É um violino poderoso, mas… O de 1865 é melhor para mim nos dias de hoje. É ágil e forte, responde às nuances mais sutis, move-se comigo. É como uma extensão de mim mesma. Essa diferença pode ser psicológica; acho até que é mesmo psicológica. Nossa relação com o instrumento é tão complexa quanto uma relação interpessoal.

Alguns pitacos sobre o Prêmio Camões concedido a Chico Buarque

Alguns pitacos sobre o Prêmio Camões concedido a Chico Buarque

1. Acho difícil comparar a situação atual com aquela do Nobel dado a Bob Dylan. O Nobel não ficou maior entregando seu prêmio de Literatura para Dylan, diria até que ficou menor. Já o Camões — que muitos desconheciam — ficou maior ao chamar Chico Buarque.

2. Sabemos que este prêmios muitas vezes são geopolíticos. Vários Nobéis foram dados a escritores menores porque estes faziam oposição a governos absurdos. Assim, a distinção para Chico Buarque chega para chamar a atenção das pessoas para o país, além de incomodar os fascistas ou ignorantes que elegeram um iletrado que, logo após a chegada ao poder, extinguiu o Ministério da Cultura como se fosse um penduricalho inútil.

3. Caberia também acrescentar que Chico sempre teve posições políticas claras, nada lisas ou duvidosas.

4. Chico é um representante importante da cultura nacional que está sendo atacada. Passou a vida entre Drummond, Bandeira, Vinícius, João Cabral, Tom Jobim e um monte de gente que o influenciou. Parece que João Cabral recebeu o Camões, mas mesmo assim vale a observação. Temos alguém mais importante?

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

5. Li quase todos os livros de Chico. ‘Budapeste’ é excelente e ‘Leite Derramado’ é muito bom. E ele não faz o óbvio. Seus livros não são “para vender” por carregarem um autor conhecido. São originais e são literatura.

6. Como este governo precisa ver seus inimigos no chão, a ridícula ministra Damares, ao exibir para deputados, em tom crítico, num telão, algumas imagens de Lula, Marighella, etc., mostrou uma foto de Chico e disse, quando apareceu uma foto de Chico: “Eu acho que esse é um cantor, né?”. Ou seja, até a débil sentiu o golpe.

7. Interessa mesmo saber se o prêmio foi para o músico, para o autor ou para a figura pública? Talvez seja para o homem que transita como poucos entre o erudito e o popular, não?

8. Para finalizar, voltando a Dylan e às provocações: “E quem há de negar que Chico lhe é superior?”.

Este retrato seria de Johann Sebastian Bach jovem

Este retrato seria de Johann Sebastian Bach jovem

É este o jovem Johann Sebastian Bach? Pesquisadores de Leipzig suspeitam que sim — mas querem submeter o retrato a mais investigações.

Do Bild

Foto: Silvio Buerger

Até agora só o conhecemos com queixo duplo e peruca. Isso pode mudar: o Arquivo Bach examina um retrato até então desconhecido. Os especialistas suspeitam fortemente que ele mostra o jovem Johann Sebastian Bach (1685-1750).

“Dois anos atrás, um comerciante de Saarland nos ofereceu uma imagem de propriedade privada”, explica o diretor Peter Wollny. Desde então a barganha é examinada.

Prof. Dr. Peter Wollny (sentado) e dr. Manuel Bärwald em frente à pintura | Foto: Silvio Buerger

Se é real, seria uma sensação: até agora, temos que nos contentar com o retrato de Elias Gottlob Haußmann (1695-1774), que mostra Bach em uma posição muito rígida dois anos antes de sua morte. “Aquilo não combina com ele, Bach era mais animado”, diz o diretor de Bachfest, Michael Maul.

A pintura de aproximadamente 80 x 70 cm de largura surgiu indiscutivelmente no período após 1700, quando o Bach era jovem: “Ele tem um rolo de música na mão, ao fundo há um órgão”, diz Wollny. A trilha leva a Weimar, onde ele foi, de 1708 a 1718, como organista da corte. Wollny: “Não é improvável que ele fosse o modelo do pintor.”

O trabalho não está assinado, mas é pós-datado. Por volta do ano de 1800, alguém notou no verso: “O famoso organista e construtor de órgãos Bach morreu em 28 de julho de 1750.”

A inscrição na parte de trás do quadro | Foto: Silvio Buerger

Isso deixa os cientistas Maul e seu colega Dr. Manuel Bärwald suspeitem que a imagem esteva em um arquivo ou biblioteca por um longo tempo antes de ser propriedade privada. Que isso poderia ser uma falsificação por razões financeiras, é improvável, já que Bach foi esquecido por volta de 1800.

O Arquivo Bach agora quer arrecadar dinheiro para continuar as investigações. “Além disso, a imagem deve ser restaurada”, diz o professor Wollny.

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Eu, Milton Ribeiro, achei-o muito parecido com Gérard Depardieu jovem.

Navegante, com Dudu Sperb e Guinga

Navegante, com Dudu Sperb e Guinga
Capa do CD Navegante | Foto Claudio Etges

No início de 2018, assisti a um show meio improvisado de Guinga e Dudu Sperb no StudioClio. Guinga tinha chegado à Porto Alegre naquela mesma tarde e eles tinham ensaiado apenas uma vez. A dupla se observava bem para entrar junto, mas não ocorreram problemas. Era clara a afinidade, a apresentação mais parecia um reencontro. Foi realmente um arraso.

Depois, eles repetiram a dose em mais três espetáculos. Foram espetáculos mesmo, com a voz de Dudu cantando as melodias do tremendo compositor e violonista que é Guinga.

Agora, a Bamboletras recebeu o CD Navegante — Dudu Sperb recebe Guinga. Acabo de ouvi-lo. Ele traz as belas interpretações de Dudu com as harmonias de Guinga ao violão. Trata-se de uma verdadeira joia. No disco, estão algumas das melhores canções do compositor carioca como Bolero de Satã (imortalizada por Elis), Você, Você (de Guinga e Chico Buarque, que apareceu no disco As Cidades, do último), Catavento e Girassol (cantada originalmente por Leila Pinheiro, creio), Silêncio de Iara, Senhorinha e o fado clássico, adoradíssimo na minha casa, Navegante. Como se não bastasse, ainda há uma homenagem à Marielle Franco: Nobreza da Maré.

FAIXA A FAIXA POR DUDU SPERB

1 – Sete estrelas (Guinga/Aldir Blanc)

Ao ritmo de uma toada de Guinga, com essas palavras de Aldir Blanc, abrimos o CD: “Eu canto a música da gente quando nua e crua…”. Além de traduzirem um pouco o espírito de outras parcerias desses dois compositores, elas representam um perfeito preâmbulo para o que está por vir, para a audição do disco. Mais adiante, a letra diz: “toda mentira minha é verdadeira”. Se pensarmos que as palavras “nua” e “crua” podem ser associadas ao conceito de verdade, é igualmente possível se compreender que essa veracidade se dá, também, através da “mentira” da canção. Ou seja, a música (que não somos nós, especificamente, mas que é uma manifestação nossa) traz em si a possibilidade da gente “ser” e “existir” de diversas formas através da interpretação. Pra mim, isso é um pouco como se dizer: “essa é a nossa música e através dela e de sua fantasia nós nos desvelamos”. E tudo que as pessoas ouvirão nesse disco tem como fundamento essa premissa da arte de ser uma “mentira” portadora de uma “verdade”.

2 – Canção do Lobisomen (Guinga/Aldir Blanc)

Essa é uma canção que, em música e letra, me parece uma boa introdução ao universo de Guinga. Sombria e bela, alude à fera incorporada à nossa humanidade que nos faz, por vezes, destruir aquilo que mais queremos ou necessitamos, que carrega o veneno sem entender por que e sem saber como se desvencilhar, se curar disso. Uma obra perene, mas que, especialmente nesse momento, se apresenta ainda mais ampliada em seu sentido.

3 – Choro pro Zé (Guinga/Aldir Blanc)

Esse choro com ares de jazz foi feito em homenagem ao grande saxofonista Zé Nogueira, com uma letra que reflete sobre a simbiose da música com a vida e do músico com seu instrumento. Mesmo sutilmente, nessa faixa cantei buscando colocar na voz ainda mais a entoação de um instrumento de sopro, como um sax.

4 – Catavento e girassol (Guinga/Aldir Blanc)

Outro clássico, e uma das canções mais conhecidas e admiradas de Guinga, Catavento e girassol é um exemplo perfeito de excelência, de beleza e de sofisticação. A exemplo do Quereres de Caetano, esse choro-canção versa sobre os desencontros dos desejos, das condutas, do jeito de ser de duas pessoas. Aqui, entretanto, essas oposições se colocam talvez de forma um tanto mais ambígua por serem colocadas mais singularmente como complementares. Exatamente como o que ocorre num reflexo no espelho: a imagem refletida sendo, ao mesmo tempo, o oposto e o arremate. E sua melodia, que vai e volta, inquietante e dramática, é marcante e sublime. Para mim, que sou barítono, os tons de muitas obras de Guinga às vezes beiram os limites da voz. A exemplo de “Canção do Lobisomem” e “Neblina e flâmulas”, entre outras, essa foi uma das canções do CD em que foi necessário atingir regiões bastante graves, um desafio técnico que resultou num ganho interpretativo: fiquei contente com as zonas sombrias da voz que alcancei e pelo quanto pude me adequar a elas para trabalhar a emoção. Me parece que, dessa forma, essas composições ganharam outros contornos.

5 – O silêncio de Iara (Guinga/Luis Felipe Gama)

Desde que a ouvi, no disco Noturno Copacabana, me encantei com esse belíssimo e singular choro-canção que alude, de forma sutil, à mítica senhora das águas, a sereia do folclore brasileiroEla possui em sua melodia algo de soporífico, de vai e vem, ao que a letra se amolda de forma hábil e elegante.

6 – Bolero de Satã (Guinga/Paulo César Pinheiro)

Foi através de Bolero de Satã, interpretada por Elis Regina e Cauby Peixoto, em 1979, que tomei conhecimento de Guinga. Lembro do quanto fiquei impressionado e encantado ao ouvi-la. Por esse motivo, pelo que ela teve de primordial como introdução ao universo do compositor, essa era uma canção que não poderia faltar no CD: gravei-a porque adoro a canção, mas sobretudo como uma homenagem a Elis, a Cauby e ao próprio Guinga.

7 – Ilusão real (Guinga/Zé Miguel Wisnik)

Outro choro-canção, misterioso, que desafia o cantor com sua melodia complexa. A letra “em aberto”, de Wisnik, permite inúmeras percepções, interpretações. Estão aqui reunidos, numa canção, dois dos principais compositores da atualidade, que estão entre os meus preferidos, e em cujas obras eu me perco e me encontro.

8 – Nobreza da Maré (Guinga/Anna Paes/Simone Guimarães)

Única obra inédita do CD, Nobreza da Maré é uma rara parceria de Guinga com outras duas compositoras. Simone Guimarães já havia feito letras para algumas de suas melodias, mas creio ser essa a primeira vez que ele, além de dividir a autoria com duas mulheres, ainda compartilha a composição da música com uma delas, no caso, com Anna Paes. Isso é ainda mais interessante pelo fato da canção também prestar homenagem a uma mulher: a vereadora Marielle, assassinada há um ano no Rio de Janeiro. Um lindo e comovente choro que me foi apresentado pelo próprio Guinga, em 2018, quando chegamos a interpretá-la, meio de improviso, num show do StudioClio.

9 – Avenida Atlântica (Guinga/Thiago Amud)

Me encantei com esse samba-canção ao ouvi-lo numa gravação de Guinga com o clarinetista italiano Gabrielle Mirabassi. Na mesma hora perguntei a Guinga se tinha letra. Felizmente havia uma letra encantadora de Thiago Amud, outro parceiro constante do mestre carioca. Trata-se de uma canção suave e lírica como o vai e vem das ondas, e outra linda homenagem ao Rio de Janeiro.

10 – Nonsense (Guinga/Paulo César Pinheiro)

Essa composição é uma preciosidade das preciosidades. E pensar que Guinga e Paulo César Pinheiro a conceberam quando tinham por volta de 20 anos, apenas… Sua narrativa de um suicídio é feita em frases que, por serem articuladas de formas completamente inusuais, dão uma certa sensação de falta de sentido. Porém, os significados de fato estão sendo explicitados ali; basta ouvi-la uma segunda ou uma terceira vez, se debruçando mais sobre a letra. Depois de cantada uma vez inteira, a narração retorna, completa, com a mesma letra em português, mas com uma pronúncia forçadamente francesa, o que faz ampliar ainda mais essa sensação de nonsense, de não discernimento, de falta de lógica. As palavras em português “entoadas em francês”, promovem então uma desarticulação ainda maior, deslocando, misturando, escondendo ou revelando significados, aqui e ali. E a melodia dessa valsa que vai e volta, que avança e que novamente é retomada, se projeta de forma espiralada como num voo desnorteado, sugerindo ela também uma ação incompleta ou uma indecisão de chegar ao fim.

11 – Neblina e flâmulas (Guinga/Aldir Blanc)

Essa é uma canção que nos apresenta um Aldir Blanc mais lírico do que o usual. Me apaixonei por ela na primeira vez em que a ouvi, no CD que Leila Pinheiro gravou com as canções de Guinga. Sobretudo a melodia, sempre me deu vontade de chorar. Novamente os graves se impuseram, e eu imergi numa interpretação mais densa, fazendo sobressair um certo sentido de perdição que ela revela. Essa foi a única composição que, em nossos poucos encontros para definir o repertório do show, Guinga cogitou subir o tom. Mas eu me propus a cantá-la assim, no tom original como as demais canções, seguindo a navegar por suas profundezas. E adorei o resultado.

12 – Você, você (Guinga/Chico Buarque)

A única parceria desses dois mestres cariocas só poderia resultar nessa maravilha. Letra e música são tão misteriosas, tão perfeitas em si mesmas e em seu casamento, que foi um encantamento interpretá-la. E, para minha própria surpresa, essa foi uma das execuções que saíram mais de pronto. Foi só eu me deixar levar, seduzido por ela, por seu misto de devaneio e realidade, de vigilância e sono.

13 – Senhorinha (Guinga/Paulo César Pinheiro)

Creio que, junto com Bolero de Satã, essa é a canção mais conhecida de Guinga. E ela é também, possível e provavelmente, a mais amada pelo público, uma modinha que alia delicadeza e beleza em cada nota de sua primorosa melodia a uma letra plena do encanto e da sofisticação de uma história de contos de fadas. Há muitos anos, eu já havia registrado essa canção, apenas de modo demostrativo, para um outro projeto de disco que não chegou a acontecer. Agora, com sua bênção e tendo-o como guia, finalmente pude interpretá-la com Guinga.

14 – Navegante (Guinga/Paulo César Pinheiro)

Outra composição da juventude de Guinga e Paulo César Pinheiro, esse fado é uma beleza que, se não soubéssemos, julgaríamos ter sido feita por compositores mais maduros e experientes. Depois de todas as histórias narradas nas canções anteriores, essa me parecia a obra perfeita pra fechar o disco. Somos todos navegadores e seguimos rumos, queiramos ou não. Mas justamente aqui, imersos nesse universo de canções, o que fazemos, mais do que qualquer coisa, é ir em busca de emoção, soltos na imensidão. E o disco, que começou com uma espécie de testemunho sobre a música, termina ecoando a palavra coração.

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Quem conhece sabe que Guinga (Rio de Janeiro, 1950) é um dos maiores compositores brasileiros. Artista de longa e brilhante trajetória, excepcional violonista com vários discos gravados, tem obra reconhecida, tanto no Brasil como no exterior. Teve canções gravadas por cantoras como Elis Regina, Clara Nunes e Leila Pinheiro. Mais recentemente, vem atuando ao lado de Mônica Salmaso, Maria João, Esperanza Spalding, André Mehmari, Francis Hime, Gabriele Mirabassi e de grupos como o Quinteto Villa-Lobos, entre outros. Não, não é pouco. E, para completar, sobre suas melodias se debruçaram alguns dos maiores letristas brasileiros, como Chico Buarque, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, etc.

Desde 1988, Dudu Sperb (Porto Alegre, 1961) tem trabalhos como intérprete em projetos com músicos como Paulo Dorfman, Adão Pinheiro, Cau Karam, Toneco da Costa, Fernando do Ó, Giovani Berti, Maurício Marques, Arthur de Faria, Michel Dorfman, Vagner Cunha, Nico Bueno e Luiz Mauro Filho, entre outros. Atuou junto a artistas como Zé Miguel Wisnik, Ná Ozzetti e Milton Nascimento e apresentou-se em países como França, Holanda, Bélgica, Portugal e Uruguai. Possui quatro CDs gravados.