Sobre a posse de Bolsonaro hoje

Sobre a posse de Bolsonaro hoje

Pieter Bruegel, o Velho (1526/1530–1569)– A Parábola dos Cegos Conduzidos por um Cego (1568).

O quadro está no Museu de Capodimonte, Nápoles, Itália.

A inspiração de Bruegel foi uma passagem bíblica que diz muito sobre o Brasil de hoje: “Deixai-os; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outros cegos, todos cairão na cova”. Mateus 15:14.

Esquerda direita esquerda direita

Esquerda direita esquerda direita

Esquerda direita esquerda direita (Links rechts links rechts):

Se alguém de esquerda pensa
que alguém de esquerda,
só por ser de esquerda,
é melhor que alguém de direita –
ele é preconceituoso a ponto
de ser como alguém de direita
Se alguém de direita pensa
que alguém de direita
só por ser de direita
é melhor que alguém de esquerda
ele é preconceituoso a ponto
de ser radical de direita

Como me oponho
aos de direita
e aos radicais de direita,
também me oponho
aos de esquerda
que pensam
ser melhores
que os de direita
e por me opor a eles
às vezes penso
que tenho razões de pensar
que sou melhor do que eles

Erich Fried (1921-1988) – Tradução de Victor Gans

Eric Fried

E a resposta inteligente e zombeteira de Marcos Nunes nos comentários:

No Centro

Ele está parado ali
naquele lugar
que escolheu

Aqui, ele diz
é o centro do mundo
onde estou só

Outros passeiam
indo à esquerda
à direita

O centro, no entanto
é só dele, o centro
sou eu, ele diz

O mundo só gira
para se manter
no mesmo lugar

Parado no centro
estou em movimento
filosoficamente correto

Tudo que ele diz
diz para si mesmo
no centro ele é tudo

Outros, como ele
ficam parados
há centro em todo lugar

Não falam uns
com os outros
onde estão não é preciso

Somente os que andam
à esquerda ou à direita
se debatem sobre direções

Quem está no centro
passeia em si mesmo
ele diz, e quase sorri

Parado ali
naquele lugar
alguém o colheu

Um catadão do que pensa um sujeito da esquerda independente

Um catadão do que pensa um sujeito da esquerda independente
Antes do discurso, uma rezadinha básica | Foto: Reprodução YouTube

Quando o governo Dilma caiu do modo como caiu, pensei e disse que demoraríamos de 15 a 20 anos para formar uma nova esquerda forte. DETESTAREI ter razão.

Será um longo reaprendizado. Nós, da esquerda, precisaremos reaprender a dialogar com a população. Há anos, o PT é um arrogante dono da razão, sabe tudo de tudo e não escuta ninguém, fato que pode ser comprovado a cada intervenção da presidente do partido, Gleisi Hoffmann. Tudo o que não precisamos é de fanáticos seguindo um líder messiânico, surdo ao que acontece no país. Para piorar, os caciques do partido não conseguem empolgar ninguém com suas falas antiquadas e os mais jovens ainda têm receio de discordar da turma autoritária.

Pelo visto, o partido tem uma estrutura viciada e espero pela formação de uma nova esquerda longe do PT. Por isso falo em décadas. Uma esquerda que fale outra linguagem, ouvindo críticas, admitindo os colossais erros cometidos e buscando meios de dar seu recado sem ofender. E que saiba fazer política e campanhas. Talvez seja necessária uma frente, mas não acredito muito nisso.

O abandono das bases, o caciquismo, a não formação de novas lideranças… O fenômeno Lula — uma realidade — sozinho não justifica essas múltiplas cagadas, como o anúncio tardio da candidatura Haddad.

Dentro da situação atual, o quadro mais importante para o futuro poderia ser Boulos, membro do PSOL infelizmente muito ligado a Lula.

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No RS, não temos mais esquerdas influentes. Tanto que nas últimas eleições para prefeito (Porto Alegre) e governador, a disputa ficou entre o PSDB e o MDB. Em ambas, fiquei sem opção.

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A vida do novo governo também não será fácil.

Foram produzidas muitas expectativas na população. A política de segurança será resolvida armando as pessoas? Ora, isto apenas aumentará o número de mortes e a violência. E a economia? Como reagirá a população quando ver seus direitos minguando? Como reagirá aos afagos que serão feitos a empresários e agronegócio? E quais receberão afagos? Certamente os mais atrasados, como as Havans da vida com suas Estátuas da Liberdade.

O apoio ao Salvador da Pátria Jair Bolsonaro foi muito parecido com o que receberam Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello. O milico não precisa repeti-los, mas sabemos como acabaram Collor e Jânio ao não serem capazes de produzir respostas satisfatórias em prazo curto.

Bolsonaro evitou os debates com quem foge do diabo. Sim, ele está longe de ser pessoalmente brilhante, não sabe enfrentar o contraditório, prefere agredir e bravatear sozinho. É uma pessoa muito simples. Na presidência, ele se manterá falando sozinho?

E como faria isso se não tem maioria absoluta no Congresso para realizar mudanças constitucionais profundas? Ele diz que não fará toma lá dá cá, mas é claro que fará, que terá de voltar à política tradicional. A reforma da previdência, por exemplo, é profundamente impopular e os parlamentares vão cobrar caro. Como será isso? Temer dá uma ajudinha no final de seu mandato?

A imagem internacional de Bolsonaro é uma piada. Aparentemente, a diversão deles está garantida, o nosso sofrimento também.

Estou desanimado, mas tentando ficar ligado aos sinais. Haverá brechas, denúncias e todo o gênero de discussões aos estilo dos anos 70, que vivi intensamente. Hoje acordei com uma triste sensação de déjà vu. Um governo militar ainda mais tosco do que o de Figueiredo e todo eivado de religiosidade. Para mim, um ateu, parece o apocalipse.

Pessoalmente, minha estratégia será a de procurar e reforçar as amizades. Minha mulher já disse que devemos mergulhar em arte e literatura. É uma boa. De resto, é ficar atento aos sinais e ter bons amigos aqui, no Uruguai e em Portugal.

Neste domingo não há neutralidade

Neste domingo não há neutralidade

O grande maestro Tobias Volkmann escreve melhor do que eu poderia fazê-lo. E é claríssimo:

NESTE DOMINGO NÃO HÁ NEUTRALIDADE

Ela nos será cobrada, e a conta será alta demais para brasileiro de qualquer classe, origem, cor, religião e orientação sexual possa pagar.

O Brasil se vê frente a um momento histórico sem precedentes, no qual nossa jovem democracia estará posta à prova. Talvez seja a última oportunidade de escolhermos livremente nossos rumos políticos através do voto antes que entremos (novamente) em um período de negação às liberdades individuais de quem pensa diferente, parece diferente, ora ou reza diferente, fala diferente, ama diferente.

Opiniões contrárias e diferenças não serão toleradas – já está avisado.

Os paralelos entre a ascensão do nazi-fascismo em 1933 e nosso momento atual são inúmeros e óbvios. Só não vê quem não (o) quer (admitir). Minha origem familiar germânica, a constante memória da culpa e da vergonha refrescada em casa, na escola em Bremen, nos museus, nos livros, nas ruas, na imprensa e nas artes foram suficientes para me vacinar. Só não esperava passar por isto em meu país – onde nasci, cresci e para o qual voltei mais de uma vez por desejar ser um artista brasileiro.

Neste domingo não há mais discussões ideológico partidárias em jogo. A opção é simples: votamos pela manutenção da democracia e sequência de um processo civilizatório em uma base de convivência, ou votamos pela implantação de um estado policial, totalitário, violento e muito mais excludente do que o vivido hoje. A segunda opção não admitirá reclamações posteriores. E lamento informar: não terá sido estelionato eleitoral.

Eu opto pela democracia, onde poderemos ainda exigir de um presidente professor que invista de fato na educação e na cultura, as únicas formas de proteger um povo da barbárie.

Neste domingo não há neutralidade.

É Haddad 13.

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E um detalhe do que Bolsonaro disse domingo.

Tentando conversar com eleitores de Bolsonaro

Tentando conversar com eleitores de Bolsonaro

Experiência própria. Não grite nem ofenda. Pergunte se conhece o plano de governo. Fale no aprofundamento das reformas do governo atual. Repita o que ele falou sobre perdas de direitos. Fale sobre a política de meio ambiente. Fale sobre o que ele disse sobre negros. Se for o caso, pergunte se a mulher trabalha — provavelmente sim — e responda com lógica. Pergunte se a pessoa acredita mesmo que o outro promovia um kit gay. E que finalidade teria? Valeria a pena falar sobre condecorar policiais por matarem in loco? Considere. Não elogie o PT, mas pode dizer com seriedade que o outro foi um bom ministro da Educação. Não cite os títulos acadêmicos do outro. Não interessarão, garanto. Não fale sobre segurança, mas cite a fracassada presença do Exército no Rio. Falar em fascismo? Esqueça. Mas pergunte se ele vai MESMO acabar com a corrupção. Cite exemplos de corrupção durante o regime militar brasileiro. Dica: o caso Panair. Não adianta falar em ditadura. Só não ofenda. Às vezes dá certo. Experiência própria.

Ah, o campo de batalha normalmente é o cara a cara ou o Whatsapp.

Vera Rodrigues desenha pra nós:

Vera Rodrigues desenha pra nós:

Onze partidos declararam “neutralidade” no segundo turno. Preciso dessa lista para nunca mais votar em nenhum deles. Não existe neutralidade em política. Não dá pra aceitar “neutralidade”, quando um lado da disputa faz apologia à tortura, tem como referência teórica um dos maiores torturadores do regime, afirma que o erro da ditadura foi ter torturado e não matado, pretende condecorar a PM e o Exército pelo extermínio de parte da população. Não dá. Paradoxalmente, para fazer oposição ao PT, será preciso votar nele, buscando garantir a permanência da democracia que, mesmo fragilizada, é melhor do que um regime totalitário. Nem se trata do PT, mas da sobrevivência do país. Essa não é uma eleição Aécio x Dilma.

Fotos Públicas

Bolsonaro lidera as pesquisas enquanto Bolsominions assassinam e agridem

Bolsonaro lidera as pesquisas enquanto Bolsominions assassinam e agridem

Texto e pesquisa de Raphael Tsavkko Garcia

Bolsonaro ainda não foi eleito (e oxalá não será), mas apenas neste mês (ou dez dias) seus bolsominions já se assanharam com a possibilidade de sua vitória promovendo agressões e assassinatos.

Vocês tem ideia do que será um governo com esse fascista no poder? O sentimento de poder que dará aos seus seguidores violentos, a grupos como Carecas, neonazis e afins?

Enquanto isso, Bolsonaro, o homem que diz que vai ter pulso firme contra a bandidagem, afirma que não tem como controlar seus eleitores criminosos.

Alguns episódios:

— Mestre de capoeira é morto com 12 facadas após dizer que votou no PT, em Salvador (https://is.gd/9exhZK)

— Médica do RN rasga receita após paciente idoso dizer que votou em Haddad para presidente (https://is.gd/g2moGL)

— Ex-Furacão 2000, mulher trans é atacada com barra de ferro por apoiadores de Bolsonaro (https://is.gd/CynY4x)

— Jornalista é agredida e ameaçada de estupro ao sair de zona eleitoral (https://is.gd/3LgjDX)

— Menina de 19 anos é agredida e teve marcada à faca sua barriga com uma suástica por usar camiseta com a expressão #EleNão (https://is.gd/hivG9t)

— Estudante da UFPR acaba de ser brutalmente violentado em frente à Universidade por membros de uma torcida organizada aos gritos de “Aqui é Bolsonaro!”. (https://is.gd/HUIdkz)

— Um gay morto no armário por um assassino obcecado por Bolsonaro (https://is.gd/AUnAnt)

O MBL declarou apoio ao Bolsonaro, e seus métodos de intimidação não envergonham o mestre:

–Aluno da UFBA é levado por PMs após convidar pessoas para discussão sobre as eleições (https://is.gd/xOMFqI)

Isso sem falar na intimidação contra a irmã de Marielle Franco (https://is.gd/jnaTEb);

— o assédio virtual contra a Miriam Leitão (https://is.gd/gFbY2q);

— a ameaça nada velada do deputado eleito Rodrigo Amorim ao destruir placa com nome de Marielle ao lado do candidato ao governo do Rio, Witzel (https://is.gd/KupKKC)…

Bolsonaro é um perigo para o país. É um fascista que precisa ser parado antes que seus seguidores cometam mais crimes. Em apenas duas semanas bolsominions assassinaram pelo menos 2 pessoas e agrediram ou ameaçaram outras tantas, imaginem apenas o que acontecerá se ele for eleito.

Foto: Reprodução Facebook

Quando Alexandre Frota intervém

Quando Alexandre Frota intervém

Estava eu no Fronteiras do Pensamento — palestra de Ai Weiwei — ao lado de uma finíssima senhora, quando recebo um Whats da Elena. Tudo bem, as mensagens dela são sempre tranquilas, poderia estar me pedindo para dar uma passadinha no super, por exemplo. Só que aquela era muito diferente, trazia uma foto de Alexandre Frota nu com uma espiga de milho na mão, acompanhado da legenda ELEITO. Me senti como o menininho que é descoberto olhando nudes na Internet. Virei o telefone para o outro lado, onde vi uma outra pessoa chegando. Uma amiga, baita leitora, cliente da Bamboletras… Pô, Elena.

Sobre o dia 7

Sobre o dia 7

Trabalhar com livros já é um ato político nesse país, seja você autor, editor, tradutor, revisor, da equipe da editora, livreiro. Seja você leitor. Como tal, a Livraria Bamboletras não poderia deixar de pedir para votarmos domingo pensando em diálogo e liberdade, jamais em censura e cerceamento.

Afinal, somos a livraria de todos os gêneros. E esta é uma frase de sério duplo sentido.

Reflexão simples sobre uma frase de Siddhartha Mukherjee: Preencher a vida

Reflexão simples sobre uma frase de Siddhartha Mukherjee: Preencher a vida

Na bela palestra de Siddhartha Mukherjee houve uma frase em que ele disse que, mesmo consciente da doença, a pessoa deve seguir preenchendo sua vida com coisas interessantes. Aliás, isso seria viver. E mudou de assunto. Concordo. E mais: digo que efetivamente não confio em pessoas que não leem, não se informam, não pesquisam, não ouvem música inteligente, não têm atividades culturais ou científicas. Viver é sobreviver e pré-viver, expressão que ele também usou, mas também é tentar o impossível de preencher o tempo de uma forma bonita. Essa é a razão pela qual valorizei tanto o post que compartilhei abaixo — do Gustavo Melo Czekster. Dos candidatos, a única que sei que lê é Fernanda Melchionna. Do resto, nada sei, pois eles não divulgam, sinal claro de seus vazios, de sua falta de preenchimento. É gente desinteressante, DESGRAÇADAMENTE ATIVA, que representa apenas o próprio desejo de participar ou empresas. Antes de votar, considerem isto.

(*) Música de qualidade seria aquela que nasce não de um produtor ou da modinha, mas de um autor que promova quaisquer diálogos ou confrontos com a cultura.

Siddhartha Mukherjee

 

Negligência de governos destrói o Museu Nacional: acompanhe a sequência do corte de verbas

Negligência de governos destrói o Museu Nacional: acompanhe a sequência do corte de verbas

Um incêndio consumiu quase todo o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Há apenas dois meses, a instituição tinha comemorado os 200 anos de sua criação.

O Museu foi fundado por Dom João VI em 1818 e possuía o quinto maior acervo do mundo, com mais de 20 milhões de peças, e era referência para pesquisadores de várias áreas. Suas obras contavam uma parte importante da história antropológica e científica da humanidade.

Lá estava o fóssil — com mais de 11 mil anos — de Luzia, a mulher mais antiga das Américas, cuja descoberta nos anos 1970 alterou todas as pesquisas sobre a ocupação da região.

Também havia a reconstrução do esqueleto do Angaturama Limai, o maior dinossauro carnívoro brasileiro, com quase todas as peças originais, algumas com 110 milhões de anos.

Foi queimado igualmente o sarcófago da sacerdotisa Sha-amun-em-su, mumificada há 2.700 anos e presenteada a Dom Pedro 2º em 1876, e que nunca tinha sido aberto. A coleção de múmias egípcias e a de vasos gregos e etruscos evidenciam o perfil mundial do acervo, que também abrigava o maior conjunto de meteoritos da América Latina.

Porém Bendegó, o maior meteorito já encontrado no país com mais de 5 toneladas, sobreviveu intacto.

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O Museu Nacional encontrava-se sob a guarda da UFRJ, ou seja, sofrendo com os cortes da Educação, recebendo apenas R$ 13.000 de manutenção mensal para seus 20 milhões de itens de História e Arte brasileira. Não me digam que o incêndio de hoje não é resultado das políticas da quadrilha — com Supremo, com tudo — que atualmente ocupa o Planalto, que não é resultado do Centrão que está destruindo o país há bem mais de um governo. Claro, o governo anterior igualmente não tratou nada bem a cultura — imaginem que o Museu teve de fechar as portas, em 2015, por falta de verbas para o pagamento dos funcionários, em pleno governo Dilma. Mas é agora que se orquestra um grande ataque à cultura. Os governos estaduais e municipais começaram a combater o meio cultural do país que não os apoia. Sartori e Marchezan estão fazendo o seu tanto do RS e em Porto Alegre, assim como Pezão e Crivella no RJ.

Aliás, no mesmo sentido, Bolsonaro defende a extinção do Ministério da Cultura… Ele pensa que uma secretaria seria o suficiente para tratar do assunto.

Vejamos: em 2014, ano em que as atenções estavam voltadas para as arenas da Copa do Mundo, foram repassados apenas R$ 427 mil para o Museu. Em 2015 foi ainda pior: R$ 257 mil. Subiu um pouco em 2016, R$ 415 mil. No ano passado, foram 246 mil e agora, no ano do bicentenário, somente R$ 54 mil. A estrutura apresentava sinais visíveis de má conservação, como fios elétricos expostos e paredes desencascadas, rachaduras na estrutura, sem falar na falta de dispositivos anti-incêndio. A Petrobras, através da Lei Rouanet, ajudou a manter o museu até a Lava a Jato. Com a crise da empresa, cessou o patrocínio.

Bem, o dinheiro destinado para a manutenção do Museu Nacional era equivalente a 10 auxílios-moradia do Judiciário. Agora, nem precisam mais ter esse gasto. Me apavora o fato de que o Theatro Municipal, o MAM, o Jardim Botânico, o Real Gabinete Português, a Biblioteca Nacional, etc., — para não falar em instituições de outros estados –, estejam sob as mãos de governantes como os nossos. Já o STF e o Congresso Nacional devem estar limpíssimos e conservadíssimos, ao menos seus prédios.

Foto: Mídia Ninja

Lembram daquela exposição de mediocridade quando do impeachment de Dilma?

Lembram daquela exposição de mediocridade quando do impeachment de Dilma?

Gente, as eleições mais importantes são as para Deputado Federal e Senador. Nestes cargos é que fundamental influenciar, votando em quem não será depois Centrão. A palavra Centrão significa o grupo de deputados que apoia a quadrilha que ora ocupa o Planalto e que deverá estar com Alckmin e Ana Amélia.

Importante: o título deste post não defende Dilma, uma de nossas piores presidentes da história. Usei o episódio apenas como exemplo, pois foi ali que todos viram em quem votamos, quem é nosso Congresso. O que sei é que ignoramos o parlamento no período eleitoral e depois nos surpreendemos com sua ruindade, tolice e corrupção. Há que examinar o voto com lupa.

Foto: Portal da Câmara dos Deputados
Foto: Portal da Câmara dos Deputados

A cidade-mico de Porto Alegre abre edital para uma “ópera-rock” baseada na Revolução Farroupilha

A cidade-mico de Porto Alegre abre edital para uma “ópera-rock” baseada na Revolução Farroupilha

Com a concordância do prefeito (sim, aquele mesmo que diz não ter dinheiro para nada), a Câmara Municipal de Porto Alegre abriu um edital de R$ 350 mil para que seja composta uma ópera-rock baseada na Revolução Farroupilha. Bem, a época deste gênero musical já está mais do que finda, só podendo ser coisa de quem não acompanha nem de longe o movimento cultural, parecendo mais um projeto pessoal de um sem-noção.

Moda no final dos anos 60 e início dos 70, as óperas-rock foram puxadas pelo excelente The Who, cujo principal compositor, Pete Townshend, escreveu a pioneira Tommy — OK, a primeira foi A Quick One, também do The Who — e a melhor de todas, Quadrophenia. Depois o gênero diluiu-se e foi parar nos musicais, onde morreu há muitos anos. Uma ópera-rock era simplesmente uma série de canções interligadas que, reunidas, contavam uma história, sem chegar a ser um drama musical como os de Wagner.

Na época das óperas-rock, as pessoas se vestiam assim, meu caros edis.

The Who na época de Tommy.
The Who (Townshend, Daltrey, Entwhistle e Moon, da esquerda para a direita) na época das óperas-rock | Foto: https://www.thewho.com/ Divulgação.

Mais: além da Câmara propor uma composição de gênero anacrônico, a tal “Revolução Farroupilha” sempre esteve longe de ser uma unanimidade no estado, mesmo na época em que ocorreu. A própria cidade de Porto Alegre não a apoiou. Talvez fosse adequado a nossos vereadores darem uma olhadinha no brasão de armas da cidade. Lá está escrito o lema “Mui Leal e Valerosa”. Esta frase está ali por NÃO termos apoiado os Farrapos. Desculpem, a verdade é algo incontrolável mesmo.

Gente, a Revolução Farroupilha não foi a luta do povo rio-grandense contra o Brasil. Uma parte importante dos moradores da província lutou a favor do Império. Nem mesmo na região da Campanha, tida como base dos farroupilhas, havia unanimidade. Muitos dos líderes militares e grandes estancieiros, que ali viviam, eram legalistas.

E ainda mais: a Câmara de Vereadores financiando um tema que não diz respeito exclusivamente a Porto Alegre é, no mínimo, estranha.

Li em algum lugar que seria melhor montar uma ópera sobre o tema. Até concordo. Por que não? Afinal, elas ainda são compostas e são populares. É um gênero vivo em Porto Alegre, onde as montagens lotam teatros. Mas gostaria de sublinhar que já existe uma ópera chamada Farrapos, conforme lembra o tenor Antonio Telvio. Ela foi estreada em 1935 ou 36 no Theatro São Pedro e é de autoria de Roberto Eggers (1889-1984), que também compôs Missões. Eggers foi uma figura bem conhecida na cidade — dirigiu o Orfeão Riograndense e foi Diretor Musical das Rádios Gaúcha e Farroupilha.

Para terminar, por que não propuseram simplesmente um musical ou uma ópera gaudéria? Talvez uma ópera-funk? Ah, Pete Townshend, que estrago você fez na cabeça de nossos ignorantes edis!

The Who hoje: só Townshend e Daltrey. Moon e Entwhistle já faleceram.
The Who hoje: só Townshend e Daltrey. Moon e Entwhistle já faleceram | Foto: https://www.thewho.com/ Divulgação

A sociedade dos empregos de merda

A sociedade dos empregos de merda

POR DAVID GRAEBER
Do Outras Palavras
180608-Merda-1

Como o capitalismo contemporâneo cria sem cessar ocupações inúteis, enquanto remunera muito mal as mais necessárias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidadã Universal?

David Graeber, entrevistado por Eric Allen Been, na Vice| Tradução: Antonio Martins

Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, no final do século 20, países como os Estados Unidos teriam – ou deveriam ter – jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas mãos tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contrário, muitíssimas pessoas, em todo o mundo, estão submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupações.

Mas enquanto muitos de nós julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupações não fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, “Bullshit Jobs: A Theory” [“Trabalhos de Merda: Uma Teoria”], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas inúteis. Graeber, que nasceu nos EUA e que já havia escrito, entre outras obras, Dívida: Os Primeiros 5000 anos e The Utopia of Rules [ainda sem edição em português] é professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase “Somos os 99%”).

A “Vice” encontrou-se há pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como “emprego de merda”; por que os trabalhos socialmente úteis são tão mal pagos, e como uma renda básica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injustiça.

Em primeiro lugar, o que são empregos de merda e por que existem?

David Graeber: Basicamente, um emprego de merda é aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou é completamente sem sentido, ou não produz nada. E também considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador não pode admitir isso – daí o elemento de merda. Trata-se, portanto, em essência, de fingir que se está fazendo algo útil, só que não.

Uma série de fatores contribuiu para criar esta situação estranha. Um deles é a filosofia geral de que o trabalho – não importa qual – é sempre bom. Se há algo em que a esquerda e a direita clássicas frequentemente estão de acordo é no fato de ambas concordarem que mais empregos são uma solução para qualquer problema. Não se fala em “bons” trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os “criadores de emprego”, não falará sobre que tipo de ocupações quer criar. Mas há também partidários da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupações para apoiar as famílias que trabalham duro. Mas e as famílias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiará?

Até mesmo os empregos de merda garantem a renda necessária para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso é ruim?

Mas a questão é: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo – o que é verdade – por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? Não faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.

Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos estão em situação miserável. Podem considerar: “estou ganhando algo por nada”. Bem, as pessoas que recebem salários bons, muitas vezes de nível executivo, certamente de classe média, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas não são.

As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que estão deprimidas. E se lamentarão, e praticarão bullying umas contra as outras, e se apavorarão com prazos finais porque são de fato muito raras. Porém, se pudessem buscar uma razão social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doenças psicossomáticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.

Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experiência de emprego, com o único objetivo de ensiná-los a fingir que trabalham.

É interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se você é estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se você é um estudante de Ciências, faz atividades de laboratório. Presta exames. É condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva possível para chegar a eles.

Porém, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam não fazer nada. Muitas vezes, são funções administrativas onde eles simplesmente rearranjam papéis o dia inteiro. Na verdade, estão sendo ensinados a não se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, não serão mais julgados pelos resultados – mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.

E os empregos tecnológicos ou na mídia. Seriam, também, de merda?

Certamente. Por meio do Twitter, pedi às pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava bâners publicitários para páginas web. Disse que havia dados demonstrando que ninguém nunca clica nestes anúncios. Mas era preciso manipular os dados para “demonstrar” aos clientes que havia visualizações – para que as pessoas julgassem o trabalho importante.

Na mídia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.

A automação é vista, muitas vezes, como algo negativo. Você discorda deste ponto de vista, não?

Certamente. Não o compreendo. Por que não deveríamos eliminar os trabalhos desagradáveis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: “As pessoas estarão trabalhando 15 horas por semana. É ótimo, porque os robôs farão o trabalho por nós”. Hoje, este futuro chegou e dizemos: ”Oh, não. Os robôs estão chegando para roubar nossos trabalhos”. Em parte, é porque não podemos mais imaginar o que faríamos conosco mesmo se tivéssemos um tempo razoável de lazer.

Como antropólogo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer não irá levar a maioria das pessoas à depressão. As pessoas encontram o que fazer. Apenas não sabemos que tipo de atividade seria, porque não temos tempo de lazer suficiente para imaginar.

Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecessário fosse um problema? Deveríamos pensar que um sistema eficiente é aquele em que se pode dizer: “Bem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necessário de maneira equitativa”. Por que isso é difícil? Se as pessoas simplesmente assumem que é algo completamente impossível, parece-me claro que não estamos em um sistema eficiente.

Um dos pontos mais interessantes do livro são suas observações sobre como os empregos socialmente valiosos são quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.

Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fenômeno e tentado explicá-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, não. Alguns eram totalmente mainstream.

Mas todos chegaram à mesma conclusão. Segundo eles, há uma tendência: quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios. É curioso. Há poucas exceções e não são tão excepcionais como se poderia pensar. Os médicos, é claro, são um caso notório: é evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais.

Porém, há um argumento recorrente: “Não seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crianças. Não se deve pagar demais aos professores. Se o fizéssemos, teríamos gente gananciosa na profissão, em vez de professores que se sacrificam”. Há também a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benefícios, isso pode ser o bastante. “Como, você quer dinheiro, além de tudo?” As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altruísta, sacrificante ou apenas útil.

Aparentemente, você é pouco favorável à ideia de garantia de trabalho, defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda à presidência dos EUA], por preferir a garantia de renda cidadã.

Sim. Sou alguém que não quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. Há um debate sobre garantia de trabalho – que Sanders, de fato, propõe, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por trás da renda universal da cidadania é outra: simplesmente assegurar às pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Além desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.

Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, é o que sempre acontece. E por que deveríamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por nós mesmos o que queremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tivéssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade não a desejamos. A renda básica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. Não seria ótimo dizer: “Você não tem mais que se preocupar com a sobrevivência. Vá e decida o que quer fazer consigo mesmo”?