A vulgaridade dos fascistas

A vulgaridade dos fascistas

No Fronteiras do Pensamento 2019, o psicanalista italiano Contardo Calligaris contou que seu pai protegeu vítimas do fascismo italiano e combateu na luta armada, correndo risco de vida e fazendo o mesmo com sua família. Também escondeu pessoas em sua casa e auxiliou um monte de gente, na maioria comunistas.

Quando o adolescente Contardo, orgulhoso de seu pai, perguntou-lhe porque ele fizera isso, esperava uma resposta altamente politizada. Mas ficou decepcionado (e irritado) com a resposta:

— Sabe, é porque os fascistas são muito vulgares.

Um juízo estético?

Acho que, hoje, no Brasil, muita, mas muita gente concorda com o Sr. Calligaris pai.

Continuando, Calligaris filho mostrou, então, duas imagens que, para ele, representam a vulgaridade fascista. Numa delas, crianças com arminhas, admiradoraszinhos de Mussolini, num protótipo perfeito da vulgaridade.

E, na outra, um grupo de fascistas queimando livros. No meio do grupo, um deles ri diretamente para a câmera. “Este cara com um chapéu e que está rindo. Eu acho que está rindo porque acha isso engraçado. Não só o que tem de profundamente vulgar é que ele está achando engraçado o que acontece, mas ele está supondo que nós olhando para este quadro estejamos achando isso engraçado também. Ele está imaginando que a gente vai rir com ele. Eu acho muito interessante isso. Eu gostaria de salientar que os fascismos teriam menos chances de existir – fascismo ou totalitarismos que sejam – se nós todos tomássemos uma atitude rigorosa de não rir das piadas idiotas. Nunca. Não tem nada que atrapalhe tanto um cretino quanto o fato de que, quando ele diz uma piada, ninguém acha engraçado.”

A Facada no Mito — Documentário questiona facada em Bolsonaro

A Facada no Mito — Documentário questiona facada em Bolsonaro

O documentário A Facada no Mito, postado pelo canal True Or Not, do YouTube, está se espalhando por meio das redes sociais. O trabalho, que não identifica seus autores, praticamente não traz imagens inéditas do episódio que vem sendo tratado como “atentado” contra o então candidato Jair Bolsonaro, em 6 de setembro. Mas traz apontamentos minuciosamente elaborados em torno das cenas que antecederam à facada desferida por Adélio Bispo de Oliveira.

Mostra o comportamento da equipe de segurança, levanta questões relacionadas à “logística” em torno do autor, relembra dúvidas em torno do atendimento e contradições em torno das reações de pessoas próximas a Bolsonaro. Adélio agiu sozinho mesmo para organizar e executar o atentado? Por que tinha tantos celulares e laptop se usava lan house? São coincidências as mortes de pessoas ligadas a sua hospedagem? E o fato de o escritório de advocacia que o defende atender também envolvidos em confronto entre policiais de Minas e de São Paulo? São listadas, enfim, muitas perguntas sem respostas, como qual teria sido o desempenho de Bolsonaro se não tivesse ocorrido o crime.

Os responsáveis observam que até o momento a Polícia Federal apresentou uma conclusão que “deixa de fora muitas questões”. “Questões que queremos dividir com o público para que possamos exigir as devidas respostas.”

População de rua cresce e cresce

Sexta-feira, a Folha publicou uma matéria que diz que a população de rua cresceu 60% em quatro anos.

Mas não é só isso. Minha observação diz que aumentaram:

— os ambulantes,
— os pedintes,
— os trabalhadores informais,
— as lojas vazias,
— os imóveis para alugar,
— os imóveis para vender.

Mas quando a gente liga a TV parece que está tudo bem.

(Ah, dia desses passeando no início da noite pelo Bom Fim, disse para a Elena que ia contar o número de pessoas dormindo ou deitadas na rua. A gente desviou de várias)

Num fim de semana, programadores tchecos criaram um site de graça pelo qual ministro planejava gastar 16 milhões de euros

Num fim de semana, programadores tchecos criaram um site de graça pelo qual ministro planejava gastar 16 milhões de euros

Do tjournal russo
Notícia encontrada por Elena Romanov
Tradução (bem) livre de Milton Ribeiro com ajuda do Google Tradutor

Voluntários consideraram o sistema caro demais e simplesmente realizaram o serviço para o governo, apontando-o como despesa injustificada.

Tomas Vondrachek | tjournal.ru

Um grupo de programadores tchecos fez e entregou ao governo um sistema de informática de graça, que tinha sido encomendado a outra empresa. Os desenvolvedores fizeram isso em protesto contra o “desperdício” do Ministério dos Transportes. Na opinião deles, as autoridades firmaram um contrato excessivamente alto. A história chegou ao primeiro-ministro tcheco e ele demitiu o ministro dos Transportes.

Tudo começou com uma compra sem licitação para a criação de um serviço para a venda de autorizações eletrônicas de viagem para rodovias com pedágio. O pedido de 400 milhões de coroas tchecas (quase 16 milhões de euros) incluía o desenvolvimento de uma loja online e dois aplicativos para iOS e Android. O contrato de quatro anos para o desenvolvimento e suporte do site foi assinado com a Asseco Central Europe — sem edital público, repetimos.

O negócio provocou indignação na comunidade de TI tcheca devido ao “desperdício óbvio” por parte do governo. O proprietário da Actum Digital, Tomas Vondracek, chamou a proposta de “absurda” e acrescentou que o trabalho poderia ser feito “em alguns dias”.

Vondrachek convidou programadores locais a se unirem a fim de criarem um sistema análogo. Eles planejaram fazer tudo durante um fim de semana no escritório da Actum Digital em Praga e simplesmente transferir o código para o governo tcheco como presente e um exemplo de como os impostos dos cidadãos são gastos.

“Fomos motivados pelo desejo de resistir ao sistema de superestimar contratos estatais, onde há repetidos abusos. Neste caso, nosso dinheiro simplesmente entrava pelo cano”, disse.

Mais de 300 programadores da República Tcheca responderam às chamadas nas redes sociais. Na sexta-feira, 24 de janeiro, 60 técnicos se reuniram no escritório de Vondrachek para começar a trabalhar. No domingo (26) à noite, eles criaram a plataforma fairznamka.cz, que atendia aos requisitos do serviço de 16 milhões de euros.

O primeiro-ministro tcheco Andrei Babish veio ver o trabalho dos programadores. “Estou chocado com o que está acontecendo”, disse ele a repórteres. Os voluntários desenvolveram o serviço em 22 horas de trabalho.

Já na segunda-feira, 27 de janeiro, o site ganhou um módulo público de teste. O aplicativo ainda não está conectado ao sistema estatal, mas cumpre todas as funções necessárias. Durante o primeiro dia, o serviço foi visitado por mais de 175 mil pessoas que experimentaram a carga no site e fizeram as primeiras compras. Os pagamento pelo acesso à rodovia foram feitos simbolicamente. Mas quem quisesse, poderia pagar de verdade, o dinheiro arrecadado iria para organizações de sem-teto do país.

O governo tcheco inicialmente se ofereceu para pagar pelo sistema, mas depois aceitou o site fairznamka.cz de presente, como o pretendido pelos programadores. Babish enfatizou que o Ministério dos Transportes realizará uma licitação pública para encontrar uma empresa que implante o sistema ainda este ano. Espera-se que o valor do contrato seja muitas vezes menor que o original. Vondraček estimou que a licitação terá um valor de 25% do valor inicial e sublinhou que sua empresa não participará do novo edital.

O ministro dos Transportes tcheco, Vladimir Kremlik, foi demitido. Representantes da empreiteira Asseco Central Europe disseram que estavam prontos para rescindir o contrato sem reivindicar compensação. Após a renúncia, Kremlik observou que respeita a decisão do primeiro-ministro, mas acrescentou que suas prioridades eram criar um sistema “sem demora”…

Segundo Vondrachek, o desenvolvimento voluntário é um importante precedente, após o qual a República Tcheca, refletirá sobre o valor de cada serviço. “Acho que as licitações de TI excessivamente altas acabaram”, acrescentou.

O alegre grupo de programadores | tjournal.ru

3 horas com Fernanda Melchionna

3 horas com Fernanda Melchionna

Hoje aconteceu o que foi para mim uma reunião surpreendente. Fernanda Melchionna marcou comigo na Livraria Bamboletras para falar sobre política e, sei lá, sobre a vida. Ela é uma cliente nossa.

Fomos no bar em frente e conversamos por quase três horas sobre muitas coisas objetivas da política nacional e da cidade. As eleições municipais estiveram no nosso foco, óbvio. É claro que é impossível não se decepcionar com a ausência de prévias e a consequente impossibilidade de se montar uma frente de esquerda, daquelas com real mobilização. Pelo visto, vamos nos dispersar novamente.

Coloquei minhas opiniões, chutes de quem acompanha as coisas de longe, mas que acha que tem a noção clara da repetida burrice que está sendo cometida. Falamos também da loucura que acomete (permanentemente) elementos do Congresso.

A Fernanda é uma pessoa muito agradável, que fala e ouve. Sim, ouve. Mas eu sou daqueles que às vezes dá até mais importância ao discurso não falado. Sou o chato que nota as posturas e as mudanças no tom das vozes e desconfia, mesmo sem poder acusar, perguntando-se o motivo do súbito falsete… Então, o que quero comentar são coisas captadas por alguém que há 62 anos, sem querer, por defeito de fabricação, observa detalhes.

Ora, Fernanda é uma pessoa muito inteira. Para mim, “pessoa inteira” significa alguém centrado, mas não auto-centrado ou em faixa própria. Alguém que possui um conceito, uma essência que a apoia e que não se altera. Poderia seguir explicando, mas vou simplificar, o “inteiro” é o mesmo em qualquer circunstância, não diz uma coisa e faz outra. Eu vejo isso nela.

Mais? Ora, eu gosto de quem gosta de literatura. Ela é formada em biblioteconomia e lê muito. Mas não é a política que diz que lê apenas para agradar a um desimportante livreiro. Ela comenta o que anda lendo e até comprou 5 exemplares de um livro que gostara para dar a seus amigos. Conheço outra pessoa que também faz isso, compra de balde para dar de presente os livros que achou bons. Boa pessoa.

Por que escrevo isso? Um pouco por vaidade, para que vocês saibam que passei quase 3 horas com uma pessoa que é admirada por muita gente, um pouco pela mania de ficar anotando a vida e outro pouco para dizer que vou seguir votando na Fernanda, que não precisaria gastar 3 horas para que eu seguisse fazendo isso…

Obs.: É claro que eu deveria ter tirado uma foto, mas nunca lembro dessas modernagens. Então vão três fotos que encontrei no perfil do Face da Fernanda.

Isabel do vôlei critica desmonte da cultura

Isabel do vôlei critica desmonte da cultura

Uma das mais importantes jogadoras de vôlei do Brasil, Maria Isabel Barroso Salgado, a Isabel, publicou uma carta pública em protesto contra o desmonte na cultura sob o governo de Jair Bolsonaro. Ela lembrou como a cultura influenciou sua formação e o fato de ter se tornado atleta. Leia a seguir a íntegra:

Meu nome é Isabel, joguei vôlei na seleção brasileira, representei o Brasil por muitos anos. Resolvi escrever essa carta aberta, não para falar de esporte, mas para falar da cultura, porque acredito que só pude ser a jogadora que fui e a pessoa que sou graças aos filmes que vi, aos livros que li, às músicas que ouvi, às histórias que minha avó me contava. Minha mãe era professora e escritora, amava os livros, adorava música, e foi ela quem me apresentou a Chico Buarque, Caetano, Cartola, Luiz Melodia, entre tantos grandes compositores brasileiros. Lembro, quando chegava do treino muito cansada, que me deitava no sofá e ela me falava dos poetas que amava: Bandeira, João Cabral, Cecília Meirelles, Drummond…. Hoje tenho certeza que aquela atmosfera foi muito importante na minha formação.

Quantas vezes, ouvindo e dançando as músicas de Gilberto Gil com Jacqueline , a grande campeã Olímpica, comemoramos vitórias e tentamos esquecer a dor de algumas derrotas. Lembro também do impacto que senti, aos 18 anos, quando assisti ao filme “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor, com a incrível Fernanda Montenegro e um elenco de craques. Aos 17, assisti “Trate-me Leão”, peça que inspirou toda uma geração. Quantas vezes, os livros me transportaram para outros universos e me permitiram aliviar as tensões das quadras.

Pois é, depois de um ano de governo Bolsonaro, preciso expressar meu horror com o que tem acontecido com a cultura. É muito duro ouvir os insultos que foram proferidos contra Fernanda Montenegro; ver Chico Buarque ganhar o prêmio Camões, maior prêmio da língua portuguesa, sem que o presidente cumprimente ou comemore o feito; testemunhar a morte de João Gilberto, um dos maiores compositores brasileiros sem que nenhuma homenagem tenha sido feita pelo governo. É estarrecedor saber que nosso cinema é premiado lá fora e atacado aqui dentro; ver o ataque brutal à casa de Rui Barbosa, com as exonerações dos pesquisadores que eram a alma e o coração daquela instituição. E como se não bastassem esses exemplos de barbaridade, assistimos ainda o constante flerte do governo com a censura.

Essa carta é só pra dizer que eu me sinto muito ofendida, senhor Bolsonaro. Não sou uma intelectual, sou uma cidadã brasileira que acredita que a cultura é essencial para qualquer pessoa. Ela só existe ser for plural, em todas as formas de expressão. Por meio dela, formamos a nossa identidade. Se esse governo não gosta do nosso cinema, da nossa música, dos nossos escritores, eu quero dizer que eu e uma enorme parte dos brasileiros gostamos. Não aguento mais assistir a tantos absurdos calada. Vocês estão ofendendo uma grande parcela do povo brasileiro.

Aprendi no esporte que é fundamental respeitar as diferenças e saber que elas são enriquecedoras em todos os aspectos. Aprendi que é fundamental respeitar os adversários , e não tratá-los como inimigos.

Compreendi, vivendo no esporte, o quanto é importante ser democrático. Inspire-se no esporte, senhor presidente! O senhor foi eleito democraticamente. Governe democraticamente, e não apenas para quem pensa como o senhor. Hoje eu pensei muito nos rumos da cultura, porque lembrei da minha querida avó, que me levava, quando menina, para passear nos jardins da casa de Rui Barbosa…

Na Austrália, nosso futuro

Na Austrália, nosso futuro

Os incêndios na Austrália atingiram um ponto de não retorno. Até ao momento são dezessete mortos confirmados, dezenas de milhares de pessoas encurraladas nos Estados de Nova Gales do Sul e de Victoria (a maioria sem água e comida), vinte cidades cercadas pelas chamas, milhares de casas reduzidas a cinzas, centenas de animais queimados, etc. A cidade de Bargo, a sudoeste de Sydney, praticamente desapareceu do mapa. Ao menos três milhões de hectares foram devastados em todo o país durante os últimos meses de incêndios, que destruíram mais de 800 casas.

A intensa onda de calor — semelhante a que tivemos na semana passada em Porto Alegre — favorece a propagação dos incêndios que afetam a Austrália e os focos fora de controle nas proximidades de Sydney foram agravados por estas condições “catastróficas”, afirmaram as autoridades. Hoje, Sidney está coberta pela fumaça dos incêndios.

Aquele “ney” apagado pelos avisos no mapa é Sydney (5 milhões de habitantes)

As evacuações em massa, muitas delas por mar, não devem evitar o número de vítimas mortais, pois o navio de desembarque militar HMAS Choules transporta apenas oitocentas pessoas de cada vez e os aviões não chegam aos pontos críticos.

Isto me leva a pensar sobre o futuro que nos espera. Estamos na mesma latitude da Austrália. Quando a tragédia for global, os governos democráticos serão substituídos por ficções Philip K. Dick ou Margaret Atwood e outros. O futuro será do fogo.

Uruguai no século XXI: Nada nos é estranho

Uruguai no século XXI: Nada nos é estranho

O sociólogo uruguaio Julio Calzada descreve neste artigo para o esquerda.net a ascensão e queda do ciclo político progressista no seu país. E tira algumas lições da derrota do candidato da esquerda nas eleições do mês passado.

Do esquerda.net

A frase de Públio Terêncio Afro, “nada do que é humano me é estranho” que percorre vários séculos da história do ocidente, faz-nos refletir sobre o Uruguai de hoje, em que sentimos que “já nada do que acontece na região e no mundo nos é estranho”.

Quem somos

O Uruguai é um país pequeno de 3.3 milhões de habitantes, dos quais 2.7 milhões estão recenseados para votar e votaram 2.43 milhões. O voto no Uruguai é obrigatório para todos os recenseados e não está disponível o voto para os residentes além-fronteiras. Isso explica em parte a diferença entre os recenseados e os que foram efetivamente às urnas.

Até há poucos anos havia uma narrativa nacional que circulava nos meios académicos e de esquerda, segundo a qual as coisas no Uruguai aconteciam 30 anos depois de acontecerem no resto do mundo. Isso resultou num ditado que dizia que a vantagem de viver neste país, aqui no sul do mundo, é que quando o mundo acabar o Uruguai vai existir mais 30 anos.

Isto já não é assim há mais de uma década. O Uruguai foi um ator destacado da “DÉCADA PROGRESSISTA” que viveu a “AMÉRICA LATINA” no início do século e pelo menos até 2015.

Saído da crise econômica e social mais profunda da sua história no ano 2002, com o colapso do sistema financeiro, produziram-se no País a partir de 2005 um conjunto de transformações sociais, culturais, políticas e econômicas importantes que levaram a esquerda a ganhar o governo por três vezes consecutivas: 2005, 2010 e 2015.

Neste período foi reduzida a pobreza de 36% para 8%, a indigência de 3% a 0.5%, o salário aumentou 65% em termos reais e o índice de Gini melhorou substancialmente, tornando o Uruguai na economia mais equitativa na América Latina, o continente mais desigual do mundo.

A estes dados há que acrescentar uma transformação profunda da Matriz Energética que levou o Uruguai a cobrir mais de 50% do seu consumo de energia através de fontes renováveis e até, em certas alturas, que todo o consumo diário venha dessas fontes.

Concomitantemente às melhorias econômicas e sociais, ao desenvolvimento, foi promovido um conjunto de políticas que colocaram o Uruguai na ribalta das sociedades com melhores níveis de desenvolvimento humano da região.

A lei das 8 horas para os trabalhadores rurais — uma lei que tinha já 100 anos de atraso —, a regularização, regulação e sindicalização do trabalho doméstico, a lei da Interrupção Voluntária da Gravidez, o Casamento Igualitário, a Regulação da Canábis, ou a Lei da responsabilidade penal empresarial para a prevenção dos acidentes no trabalho, a par de  outras iniciativas, marcaram esta posição única do Uruguai na região.

Milhares de pessoas passaram da economia da subsistência a ser parte da sociedade de consumo.

A década progressista não só não nos foi estranha, como até tivemos nela um importante protagonismo e destaque.

A insegurança, um fantasma percorre a América Latina

A partir do ano 2008, algumas formas de criminalidade começam a mudar e outras, nunca antes vistas, chegam de forma relevante, como o sicariato, uma prática criminosa praticamente desconhecida no País.

O tráfico de drogas, que já era uma realidade com décadas no País e na região, muda de forma significativa e passa a ser uma organização empresarial, não necessariamente cartelizada mas empresarial que se integra nas “cadeias de valor” do mercado internacional.

Alguns fenômenos geopolíticos, em especial  o Plano Colômbia, levaram, a partir dos primeiros anos deste século, a que certas ligações da cadeia mundial de produção, tráfico e consumo de drogas, em particular da cocaína, se transferissem do norte para o sul do continente.

As cocaínas fumáveis na forma de CrackPaco ou Pasta Base entraram no dia-a-dia das cidades e vilas do sul do continente. São os desperdícios do processo de produção da cocaína destinada aos grandes consumidores mundiais dessa droga — os Estados Unidos, os Países Europeus e os países ricos em geral — que “se valorizam” ao monetizarem-se no consumo dos setores mais vulneráveis das nossas sociedades.

Este fenômeno provocou profundas transformações econômicas, sociais e culturais nas nossas sociedades. Apareceram as ollas, as mulas, os centros de recolha e distribuição, as bocas.[1]

O surgimento desta nova realidade provocou inicialmente, no âmbito da grande crise económica dos anos 1999, 2000, 2001 e 2002, mudanças profundas nas dimensões sociais, sanitárias e culturais em toda a região, em particular no Sul do continente. Nos anos posteriores, este impacto incluirá a quebra das estruturas econômicas clássicas da vida quotidiana de sobrevivência dos setores mais vulnerabilizados da sociedade, e à boleia do microtráfico viriam a surgir novas formas de emprego e de relacionamento social. Nada nos é estranho.

Estas novas configurações sociais, econômicas e culturais chegaram repletas de novas formas de violência simbólica e fática.

Por um lado, ajustes de contas, assassinatos, extorsões, controlo dos territórios por famílias que impõem regras do jogo violentas para entrar, sair ou andar em zonas de onde o estado se retira progressivamente.

Por outro lado emergem as políticas de mão pesada, o populismo punitivo, das quais não ficaram isentos amplos setores da esquerda, que levaram as prisões a situações extremas e o Uruguai a ter hoje uma das maiores taxas de encarceramento da região, com 12 mil presos para uma população de 3.3 milhões de habitantes.

Mas a direita é insaciável em matéria de coerção estatal e punição, sempre quis mais e conseguiu instalar ao longo dos anos a ideia de que o País vivia numa situação extrema de emergência em matéria de segurança.

Desde a chegada do presidente Mujica ao governo em março de 2010, a investida em matéria de segurança chegou ao ponto de se falar em mexicanização da sociedade uruguaia.

Em junho de 2012, Mujica responde com a Estratégia pela Vida e a Convivência e com 15 medidas políticas para reverter a situação, houve a tentativa de mudar o eixo político da segurança para a convivência, das drogas ao relacionamento e aos projetos de vida das pessoas numa sociedade aberta, plural e em transformação permanente pelo impacto das mudanças tecnológicas e de novas formas de vida. Uma destas 15 medidas será a Regulação do Mercado da Canábis.

A direita não parou, chamou cortina de fumo às medidas e os seus setores mais recalcitrantes, ligados política, cultural e mesmo familiarmente à ditadura que ocupou militarmente o País entre 1973 e 1985, iniciou uma campanha pela reforma constitucional para baixar a imputabilidade penal para os 14 anos, colocando como o centro do problema as drogas e a inimputabilidade penal das crianças e adolescentes. Nesses anos, os e as adolescentes com problemas com a lei e privados de liberdade ascendiam a 600 em todo o país.

Os Jovens, imersos num amplo movimento social, cultural e político que tinha promovido o que apelidou de agenda de direitos, que incluiu o casamento igualitário, a Lei de segurança sexual e reprodutiva que legalizou o aborto, a regulação da canábis entre outras leis de claro recorte progressista como as que referi, responderam à direita e ao populismo penal com uma enorme campanha de recusa à descida da imputabilidade penal, que tomou o nome NO A LA BAJA e fez dele o seu slogan identitário, ao ponto de hoje se falar na geração NO A LA BAJA.

A descida da idade de imputabilidade penal foi a referendo e não foi aprovada. Nessa eleição, toda a campanha do NO A LA BAJA trouxe, mesmo sem o propor especificamente, água ao moinho da esquerda, que na segunda volta venceu com grande avanço.

Não obstante o resultado do referendo, positivo para o arco progressista, e da própria eleição, também favorável ao progressismo, a questão da insegurança continuava latente.

Embora a questão da insegurança não nos fosse alheia, e embora o populismo penal avançasse passo a passo no pensar e no sentir da sociedade, ainda se mantinha alheia ao recrudescimento das penas, a guerra às drogas e ao gatilho fácil.

2015-2019: Implosão da POLÍTICA na esquerda

Após cinco anos de uma forma frenética de fazer política a nível local e mundial por parte do presidente Mujica, o ano de 2015 traz uma aterragem abrupta do clima político, o novo presidente da República pela segunda vez, Tabaré Vázquez, desaparece do debate público e a esquerda política e parlamentar retrai-se para a custódia do governo e perde iniciativa, inovação e capacidade de proposta política.

A Frente Ampla, partido/movimento/coligação de governo, apresenta-se como ator de terceira categoria no palco social e político do país, limitando-se a dar o seu aval e apoio a toda a política avançada pelo Poder Executivo.

O grupo parlamentar da Frente Ampla, tanto em deputados como no Senado, fecha-se no acompanhamento do governo, perde iniciativa política e carece de uma agenda de novas iniciativas que aprofundem as mudanças e as conquistas do primeiro governo de Vásquez e do governo de Mujica. A narrativa da esquerda e a sua capacidade de sedução desvanecem-se até quase desaparecer, absorvida pela gestão, o bom governo e a correção política.

Os movimentos sociais, em particular o Feminismo e em alguma medida o Movimento Sindical são os que mantêm uma ação política permanente e sistemática de reivindicação e aprofundamento dos direitos adquiridos, da inclusão de novas perspetivas inclusivas em assuntos ambientais, de género, das deficiências, dos afrodescendentes e os migrantes, com especial ênfase naquilo que tenha a ver com violência de gênero.

A direita mobiliza toda a sua artilharia ideológica, política e mediática, questionando o que chama de “ideologia de gênero” e fazendo finca-pé nos problemas de segurança pública, promovendo denúncias de corrupção e judicializando as responsabilidades políticas e de gestão dos membros do governo de Mujica e do primeiro governo de Vázquez.

Há um episódio muito doloroso na gestão da empresa pública petroquímica que apresentou em 2015 um importante défice na gestão financeira, o que levará em 2017 o vice-presidente da República Raúl Sendic [2], que no período 2009-2015 tinha sido por duas vezes presidente da dita empresa, a renunciar ao cargo.

Alguns traços relevantes da segunda presidência de Tabaré Vázquez

O segundo governo de Tabaré Vázquez teve logo a partir do dia seguinte à eleição um viés conservador, até mesmo com nuances autoritárias em certas áreas.

Vázquez anunciou o seu elenco governativo imediatamente a seguir à eleição sem ter em conta a realidade eleitoral nem as sensibilidades da sociedade nesse momento, nem a do partido que o levou ao governo. O seu executivo foi formado com os incondicionais da sua velha guarda, aquelas pessoas que o acompanharam e com quem tinha governado Montevideo de 1990 a 1995 e que tinha sido a sua equipa de confiança no primeiro governo nacional entre 2005 e 2010.

O mandato teve início com a descontinuação de uma série de iniciativas que tinham avançado durante o governo de Mujica, algumas delas saídas da Estratégia pela Vida e a Convivência promovidas em 2012, que tentavam enfrentar o problema da insegurança de forma integral, com intervenções urbanas de envergadura para recuperar territórios pauperizados.

Os temas da Insegurança e das Políticas Sociais “ficam presos”, respetivamente, nos ministérios do Interior e do Desenvolvimento Social, que não dialogam entre si nem com o resto dos organismos do estado que têm intervenção na matéria, como os da Habitação, Trabalho e Segurança Social, Saúde, e o segundo e terceiro nível de governo, Departamentos e Municípios.

Apenas em 2018 foi ensaiado um plano para retomar formas de dar uma resposta integral em alguns territórios críticos de Montevideo e noutros departamentos do País, com a participação de diversos organismos do estado central, os Departamentos e os Municípios e o envolvimento dos moradores na construção de uma sociedade mais segura.

Aos olhos da direita dura foi uma resposta tardia e tímida e aos olhos de amplos setores de esquerda foi também uma resposta tardia e focada nos aspetos repressivos, sem sublinhar o facto de que se tratava de territórios abandonados pelo Estado, aos seus diversos níveis, desde há décadas.

Tudo parece indicar que já era tarde e insuficiente.

A bandeira emblemática da esquerda na sua chegada ao governo em 2015 eram as políticas sociais, a redução da pobreza, a quase eliminação da indigência. Foram implementados planos de transferências de rendimento, programas de proteção no emprego, uma bateria de ferramentas para corrigir as desigualdades de um sistema que as cria de forma sistemática.

Para além das inevitáveis falhas na implementação dos diversos programas de apoio aos setores mais vulneráveis da sociedade, eles contribuíram de forma significativa para a melhoria da qualidade de vida e a dignidade das pessoas.

A direita fustigou sistematicamente estas políticas, acusando-as de serem clientelares e de contribuírem para que as pessoas que recebiam as ajudas deixassem de procurar trabalho, de cuidarem de si próprios e de se superarem como seres humanos. Instalou a aporofobia[3].

As pessoas são pobres porque não se esforçam, porque são preguiçosas, porque gostam de viver às custas do estado. Uma narrativa cruel e impiedosa, que nega as histórias de vida de amplos setores sociais historicamente submergidos e postos de lado ao longo de gerações, à qual foram aderindo as classes médias, depois médias baixas e finalmente até as próprias classes baixas da sociedade.

15 anos após o nascimento do Programa de Atenção Nacional à Emergência Social — PANES, bandeira da esquerda que ganhou o goberno com 51% dos votos à primeira volta em 2005, sem alterações significativas nos elencos que implementaram essas políticas nem na reformulação das mesmas por parte da esquerda, a direita impôs a sua narrativa aporofóbica.

No que diz respeito às relações no seio do campo popular, em setembro de 2015 aconteceu algo que iria marcar não apenas toda a gestão da segunda presidência Vázquez, mas também o estilhaçar da sensibilidade, do pensar, da razão de ser da esquerda. No meio de um profundo enfrentamento com os sindicatos docentes e os estudantes, Vázquez decreta a requisição civil na educação. Uma medida impopular, que juntou milhares de pessoas nas ruas e que nem se podia aplicar por ser inconstitucional. Vázquez partiu a loiça sem ganhar nada com isso.

Por outro lado, no marco de uma estratégia com várias tenazes com que tentavam isolar a esquerda da sociedade, cujos eixos são A INSEGURANÇA, a ineficiência das POLÍTICAS SOCIAIS, MÁ GESTÃO e as acusações de CORRUPÇÃO, é a direita que marca a agenda de praticamente todo o período do mandato do governo.

Ao longo de dez anos e independentemente de não existirem indicadores no País que confirmassem a gravidade das suas afirmações, a direita convenceu a sociedade que o País estava perante uma crise generalizada de valores, de insegurança, de corrupção e que a mudança de caras na condução do país era imprescindível para que o Uruguai não se Venezuelizasse. O País ouviu e convenceu-se disso.

Duas eleições e muitas lições

Outubro

A 27 de outubro de 2019 a Frente Ampla foi o partido mais votado pelos cidadãos. Os 39.02% deram à Frente Ampla a possibilidade de ser a maior minoria, o partido político mais importante do país. O resto dos partidos de tom liberal ou ambientalistas e da direita conservadora, junto com outros pequenos grupos que não alcançaram representação parlamentar, somam 56.64% dos votos. O resto foi completado pelos  votos brancos e nulos.

A maioria da sociedade votou contra a esquerda e os três principais partidos da direita tiveram no seu conjunto 52% do eleitorado, dos quais 28.02% para o partido nacional, representante histórico do conservadorismo em matéria de direitos e liberdades e neoliberal nas suas conceções económicas; 12.34% dos cidadãos optaram pelo partido colorado, um partido liberal em matéria de direitos e liberdades; e depois a extrema-direita, com um partido liderado por um ex-chefe do exército que em oito meses alcançou 11.04% do eleitorado e que hoje é a chave do futuro governo.

Novembro

O Uruguai tem um regime eleitoral a duas voltas, o que implica que para um partido ganhar a eleição à primeira volta tenha de superar 50% do eleitorado mais 1 voto. Por isso, apesar de a esquerda no seu conjunto ter obtido 39.02% dos votos válidos e o segundo partido ter ficado a 11 pontos de diferença com 28.02%, a lei eleitoral estabelece a necessidade de uma segunda volta.

Logo a seguir à eleição de outubro, os três principais partidos da direita, incluindo a extrema-direita, coligaram-se numa aliança a que se juntaram os pequenos partidos. Tudo somado, esta coligação tinha juntado 54.05% da vontade cidadã.

A esquerda cometeu inúmeros erros ao longo da campanha de outubro e também na campanha da segunda volta em novembro. Tudo fazia crer que esta eleição seria um passeio sem sobressaltos para a direita.

Ao longo de todo o mês, as sondagens davam a coligação de direita vencedora da contenda com 8 a 9 pontos percentuais de avanço. A direita não conseguia captar todo o eleitorado que nela tinha votado em outubro, mas mantinha larga vantagem sobre a esquerda.

Mas às 20h30, ao fecharem as urnas, o País parou ao ver que a diferença entre ambos os candidatos era tal que as principais empresas de sondagens davam “empate técnico” e não apontavam um vencedor. Três horas mais tarde, às 23h30, o candidato da esquerda Daniel Martínez saúda a sua militância e diz que a eleição ainda não está definida e será necessário aguardar pela contagem dos votos observados [4], dada a diferença tão pequena. Por isso haverá que esperar várias horas, ou mesmo vários dias para saber quem será o próximo Presidente da República.

Na quinta-feira, 28 de novembro ao meio dia, a recontagem dos votos confirmou o triunfo da coligação de direita com 48.8% do eleitorado contra 47.3% da esquerda, uma curta margem de 27.042 votos separou a esquerda do que teria sido o seu quarto mandato consecutivo no governo.

Lições aprendidas

A primeira reflexão importante a destacar é que no Uruguai uma eleição não se ganha nem se perde numa campanha.

A segunda é que os candidatos são importantes, mas não são necessariamente determinantes.

A terceira é que a ação política do governo, da força política e dos deputados, bem como dos movimentos sociais e do conjunto da sociedade civil, ao longo de todo o período do ciclo progressista e em particular do período 2015-2019, assumem um papel central na construção da narrativa histórica que dá sentido ao voto no dia da eleição.

A quarta é a constatação de que havia 47.3% do eleitorado disposto a votar Martínez e que em outubro não votou nele. O voto fragmentado em vários partidos de direita não lhe teria dado a maioria parlamentar, mas sim à esquerda e assim pelo menos 8 deputados e 3 senadores agora nas bancadas da direita teriam ficado nas bancadas da esquerda.

A quinta e muito importante é que conservadores e liberais não duvidaram por um instante em abraçar a extrema-direita com o objetivo de tirar o progressismo do governo.

A eleição de outubro foi para a esquerda um triunfo com sabor a derrota, foi o partido mais votado mas perdeu 3 senadores e 8 deputados e a maioria parlamentar passou para as mãos da direita.

A eleição de novembro foi para a esquerda uma derrota com sabor a triunfo, com a direita a ir governar o país sem ter superado a fasquia dos 50% do eleitorado. Desde a reforma eleitoral de 1996, nenhum presidente foi eleito à segunda volta com menos de 50% dos votos. Ainda por cima, mais de 5% do eleitorado que votou na direita em outubro não votou em novembro no candidato único das direitas e escolheu antes apoiar o candidato do progressismo.

Se o resultado de novembro não evitará que a direita promova um programa de conteúdo fortemente neoliberal, como sugere a formação do executivo que está em marcha e as medidas que está a anunciar, pode contribuir para que não o faça de forma selvagem como acontece no Brasil de Bolsonaro e aconteceu na Argentina de Macri.

Terminado o processo eleitoral, é necessário constatar que a esquerda não soube interpretar o incómodo, o descontentamento, a vontade de mudança na sociedade e sofreu um revés histórico.

Finalmente, uma reflexão muito importante para o futuro da esquerda: as políticas dos 15 anos de progressismo que conseguiram retirar da pobreza mais de 25% da população não conseguiram uma mudança cultural por entre esta população e o conjunto da sociedade que tornasse estes cidadãos ativos, críticos e não meros consumidores de um mercado que antes lhes fugia.

Nada nos é estranho.


Julio Calzada é sociólogo, ex-Secretário Geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai e atual Diretor da Divisão de Políticas Sociais da Intendência de Montevideo.

Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

Notas:

[1] Olla, lugar onde os “cozinheiros” cozem a pasta de cocaína e extraem o cloridrato que em seguida pode ser consumido na forma de cocaína snifada ou injetada.

Boca, lugar de abastecimento de drogas e no caso das cocaínas fumáveis, “lugar de abastecimento e consumo de pasta base”.

[2] Filho de Raúl “Bebe” Sendic, líder histórico do movimento de trabalhadores rurais de Artigas UTAA e fundador com o presidente Mujica do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros no início dos anos 1960, responsável pela guerrilha urbana mais mediática das décadas de 60 e 70 do século XX.

[3] Aporofobia: rejeição, hostilidade e aversão às pessoas pobres.

[4] “Votos observados” são votos registados separadamente nas mesas eleitorais, em casos de eleitores que votam numa zona eleitoral diferente do recenseamento ou cujo nome não é encontrado na lista eleitoral. Os dados desses eleitores são analisados posteriormente à eleição para confirmação de identidade e só após essa confirmação são validados.

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

Uma das maiores tragédias da minha vida é já ter lido os Pickwick Papers — não posso voltar atrás e ler pela primeira vez.

Fernando Pessoa

Dickens é uma das felicidades da vida, uma das razões para se ter medo da morte.

Charlles Campos

Dias atrás, após mais uma leitura de notícias absurdas de Brasília, com participação especial atuação de ministros como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, presidente e filhos, etc., lembrei de um livro cômico muito fora de moda que li na juventude, As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens (1812-1870).

The Posthumous Papers of the Pickwick Club (mais conhecido em países de língua inglesa como The Pickwick Papers) foi escrito por Dickens entre 1836 e 1837. Na verdade, foi publicado em 20 partes mensais entre abril de 1836 a novembro de 1837, sob o pseudônimo de Boz. Ele apresenta nomes diversos tanto no Brasil quanto em Portugal, com variações como As Aventuras do Sr. Pickwick, Os Cadernos de Pickwick, Documentos de Pickwick, Os Papéis de Pickwick e Documentos do Clube Pickwick.

O romance narra as aventuras de um grupo de estudos científicos, o Clube Pickwick, composto pelo líder Mr. Pickwick (uma espécie de Quixote) e seus três pupilos: Mr. Tupman (o celibatário sempre apaixonado), Mr. Snodgrass (o poeta) e Mr. Winkle (o esportista). Financiados pelo clube, eles viajam pela Inglaterra — com particular ênfase no interior do país — fazendo descobertas e observando o desenvolvimento da ciência, assim como analisam as diversas variações no comportamento humano.

Mas todos são muito burros e suas conclusões são inacreditavelmente cômicas. Eu morria de rir lendo o livro. Não posso dizer que faça o mesmo lendo o que dizem Ernesto Araújo e Weintraub, mas a idiotia está tão presente que, se morasse longe do Brasil, riria deles.

O livro foi fundamental na carreira de Dickens. Ele obteve enorme êxito literário e reconhecimento popular durante a publicação do livro. Há um personagem sensacional, o criado do Sr. Pickwick, Samuel Weller. Sua entrada no romance teve efeito devastador, foi um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa fez com que as vendas mensais explodissem. Imaginem que foram vendidos 400 do número 4 e, após o surgimento de Weller, as vendas cresceram de tal modo que chegaram a ser impressos 400.000 exemplares dos últimos números.

Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, suspirou: “Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Pickwick Papers, graças a Deus.”

Outro dos personagens do livro, o gordo Joe, foi utilizado posteriormente para caracterizar uma patologia alcunhada como síndrome de Pickwick (ou A Síndrome da Hipoventilação Alveolar da Obesidade), posto que Joe descreve fielmente um quadro da doença: obesidade e sonolência excessiva, acompanhadas de demais sintomas.

O livro tem muita crítica social. Quem está lá? Notem o que há em comum com o Brasil de hoje:

— A religião e os falsos pregadores, ou pregadores corrompidos.

— Os advogados e o atravancamento na execução da justiça, a distorção de leis e possíveis processos de corrupção.

— A magistratura corrente à época, que concede poder a cidadãos apenas voltados aos próprios interesses da classe.

— Os políticos e sua conduta desonesta, bem como o eleitorado irresponsável.

— O jornalismo sem compromisso com a verdade, o respeito e a imparcialidade.

— A sociedade burguesa, com sua hipocrisia e conduta interesseira.

— A corrupção do sistema carcerário de devedores e a falta de assistência ao cidadão mantido em regime fechado (muitos presos pobres morriam de fome e frio nas prisões, enquanto sistema jurídico permitia brechas que auxiliavam apenas os devedores ricos).

— O sistema de justiça, que desfavorecia o devedor trabalhador.

— O novo estado das relações entre patrão x empregado, motivado pelo advento da burguesia e da revolução industrial.

A tudo isso junta-se um turbilhão de boas piadas, ridicularizando a sociedade e entendendo como “naturais” as diferenças sociais. Weller (ou Veller) é inteligentíssimo — tem soluções fáceis para quase tudo — e portanto sabe da burrice do Clube Pickwick, mas como é o criado… Além disso, há uma pesada crítica ao espírito cientificista da época. Os personagens principais, embora abertos aos procedimentos racionais da ciência, demonstravam grande inabilidade para situações que exigiam praticidade e que protagonizam a maior parte dos episódios cômicos do livro.

Ainda me lembro da surpresa de que Dickens poderia me fazer rir alto, e foi isso que me fez amá-lo.

Pickwick é desigual e heterogêneo, mas genial. Como diz Chesterton, “Em Pickwick, Dickens não escreveu exatamente literatura, escreveu mitologia”.

Texto parcialmente copiado (adaptado) de fontes diversas.

Bolsonaro apresenta seu novo partido explicitamente fascista

Bolsonaro apresenta seu novo partido explicitamente fascista

A apresentação da logomarca do partido completamente feita de balas, veio algumas horas após o anúncio de que o número com o qual será apresentado nas pesquisas é 38, conforme o calibre da famosa pistola (“fácil de lembrar”).

Do Il Manifesto
Tradução do blogueiro

Impossível esquecer o lançamento do novo partido de Bolsonaro, Aliança pelo Brasil, nascido da costela (ainda) mais fascista do Partido Social Liberal (Psl), a força política com a qual ele chegou à presidência do Brasil e de onde saiu por discordâncias cada vez mais graves com o presidente Luciano Bivar. Esta é a décima troca de partido de Bolsonazi, como seus muitos o chamam.

Bolsonazi presidirá o partido e o primeiro vice-presidente será o primogênito Flávio, o 01, super enrolado na justiça. Na primeira convenção nacional da Aliança pelo Brasil, que aconteceu na quinta-feira em um hotel da capital, nenhum dos ingredientes estava faltando: insultos a jornalistas por militantes com camisetas elogiando o torturador da ditadura de Brilhante Ustra, referências a Deus e religião, piadas sexuais e slogans anticomunistas (“Nossa bandeira nunca será vermelha”). E, acima de tudo, a apresentação de uma foto com o nome do partido totalmente feito de balas, seguiu dali algumas horas após o anúncio de que o número com o qual será apresentado nas urnas é 38, como o calibre da famosa pistola (“fácil de lembrar”).

Uma escolha na linha da missão de “lutar incansavelmente para garantir a todos os brasileiros o direito inalienável de portar uma arma”. Missão que acompanhará a luta para restaurar a Deus seu lugar “na vida, na história e na alma dos brasileiros”, banir qualquer traço de comunismo e “globalismo” e curar “o flagelo ideológico” da “ideologia de gênero”. Para a estreia real do partido, talvez seja necessário esperar um pouco mais, pois é necessário coletar 500 mil assinaturas em pelo menos nove estados da federação e aguardar o aval do tribunal eleitoral. Uma empresa que dificilmente pode ser realizada a tempo de participar das eleições municipais de 2020.

Entretanto, já está sendo debatida a “orientação explicitamente fascista” da nova força política, sobre a qual enfatiza, por exemplo, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta, que não hesita em descrevê-lo como o “partido da milícia”, em referência aos laços claros do clã Bolsonaro com as milícias paramilitares do Rio de Janeiro envolvidas no assassinato de Marielle Franco, pela qual o filho Carlos está sob investigação, o 02.

E, em matéria de fascismo, houve também o anúncio de um ato solene em homenagem a Pinochet pela Assembleia Legislativa do estado de São Paulo, encomendado por Frederico d’Avila, deputado estadual do PSL próximo a Aliança pelo Brasil, e marcado para 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, essa coisa inútil. É difícil, no entanto, que o evento ocorra: o presidente da Alesp, Cauê Macris, já declarou que vai impedi-lo.

Lula vai percorrer o Brasil

Lula vai percorrer o Brasil. Vai falar com líderes internacionais. Vai às praias sujas de petróleo do nordeste (um absurdo que Boçalnato nem foi olhar!). Vai falar sobre o desmonte do estado patrocinado por Paulo Guedes. Vai mostrar o plano de Guedes para nos tornar uma colônia dos EUA — o cara é um singelo baba-ovo anos 70. Vai falar da estagnação econômica. Vai comparar. Vai mostrar, com sua oratória brilhante — e não sou lulista –, que Boçal é burro demais. Vai ver Macron e dar beijos em Cristina e Alberto Fernandez. Se a Frente Ampla ganhar no Uruguai, ele vai visitar.

E nós vamos nos foder com este Congresso de baixo nível que os boçalnaristas colocaram lá. (Religião e direita é o mesmo que intolerância e autoritarismo). E a tendência é uma grande explosão. Mas eu vou parar de me preocupar e amar a bomba, porque os estúpidos eleitores de Boçalnato merecem isso mesmo.

E eu vou dizer que prefiro o 6 x 5 ao 7 x 1 deles, bando de trouxas amantes de milicianos. E meu sonho de Pollyanna é que seja instalada inteligência artificial nos eleitores do Bozo. E que, enquanto eles não receberem esse acréscimo, que fiquem quietos, dormindo, sonhando com o AI-5. E fim.

P.S. — E os boçalnaristas nem poderão reclamar muito do STF, pois este colegiado é que está garantindo a não prisão dos filhos de Bolso — que são os verdadeiros Irmãos Petralha. Quem leu Tio Patinhas na infância sabe disso.

P. P. S. — E quem mandou matar Marielle?

A parte hipócrita da imprensa gaúcha

A combativa imprensa gaúcha diz que o Estado está falido, que é necessário um pouco de sacrifício e aguentar o parcelamento de salários há anos sem reajuste…

Então, para ter uma graninha a mais, o Leitinho cobra o IPVA em janeiro sem parcelamento e a mesma imprensa diz que é um absurdo, que não pode ficar assim!

E o governador — do alto de suas inabaláveis convicções — recua…

O resultado da mobilização da esquerda na eleição dos Conselhos Tutelares

O resultado da mobilização da esquerda na eleição dos Conselhos Tutelares

O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam.
ARNOLD TOYNBEE

A famosa frase de Toynbee não vale para o Brasil. Há 40 anos que digo: aqui, quem não se interessa por política manda no país. Por quê? Porque temos esta excrescência chamada ‘voto obrigatório’, que traz para as eleições gente que passa 4 anos babando. E eles elegem seus representantes…

Sem obrigatoriedade, os grupos de esquerda se mobilizaram em Porto Alegre e levaram a metade dos conselheiros tutelares. Toma! Em São Paulo foi a mesma coisa.

Seguindo a lista que compartilhamos:
MICRORREGIÃO 1- eleitos 5 dos indicados;
MICRORREGIÃO 2- eleitos 5 dos indicados;
MICRORREGIÃO 3- eleitos 3 dos indicados;
MICRORREGIÃO 4 – 2 na suplência;
MICRORREGIÃO 5 – 2 na suplência;
MICRORREGIÃO 6 – 1 na suplência;
MICRORREGIÃO 7 – 1 eleito;
MICRORREGIÃO 8 – 5 eleitos;
MICRORREGIÃO 9 – 1 eleito e 1 na suplência;
MICRORREGIÃO 1O – 2 eleitos e 2 suplentes.

O Triste Fim de Jair Messias Bolsonaro, por José Eduardo Agualusa

O Triste Fim de Jair Messias Bolsonaro, por José Eduardo Agualusa

Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos. Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: “Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero.”

Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada. Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: “Alvorada é coisa de comunista!” — Esbravejara: “Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.”

O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.

Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.

— Largue a pistola, não vale a pena!

A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:

— Quem está aí?

Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos. Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:

— Porra! Quem é você?

— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.

— Você não é real!

— Não?

— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!

O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:

— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.

— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.

— Vou levar você para a floresta.

— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reacção alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro…

O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:

— Acabou!

Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:

— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!

— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.

Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. “Cheira a onça”, assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério. Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio. Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio. Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio. Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio. As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio. As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio. O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.

* Publicado originalmente na revista “Visão” de Portugal.

Salvador Allende, 11 de setembro de 1973

Salvador Allende, 11 de setembro de 1973

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineiros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

Salvador Allende, 11 de setembro de 1973.

Os jornais pré-programados

Os jornais pré-programados

Me incomodam os jornais, sites, colunistas e comentaristas das redes que desejam agradar seus leitores com opiniões previsíveis e consensuais. Ah, a sede de aplausos… Ah, vou falar bonito pra minha bolha… Significa que a opinião emitida tem em vista um objetivo que se esgota na vaidade e na fragilidade de quem a divulga. Se tivesse um jornal, escolheria os meus colunistas por um critério. Trataria de descobrir o tamanho da vaidade, se a pessoa precisa muito ser amada. Se sim, adeus. Se não, fique por aqui fugindo dia a dia do que esperam de ti.

Um saco

Posso dizer que posso adivinhar as manchetes de cada site a respeito de determinado assunto. É sempre a mesma pasmaceira previsível. É como diz Chico Buarque em “A História de Lily Braun”:

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz