“Nunca na história da República o Congresso Nacional votou uma lei tão contrária aos interesses da maioria do povo brasileiro de forma tão sorrateira”

Três excelentes e esclarecedores textos de três pessoas de minha timeline do Facebook. Um bem diferente do outro, mas todos deixando claro os efeitos do PL aprovado pelo Congresso na última quarta-feira.

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Vladimir Safatle, na FSP.

O fim do emprego

Nunca na história da República o Congresso Nacional votou uma lei tão contrária aos interesses da maioria do povo brasileiro de forma tão sorrateira. A terceirização irrestrita aprovada nesta semana cria uma situação geral de achatamento dos salários e intensificação dos regimes de trabalho, isto em um horizonte no qual, apenas neste ano, 3,6 milhões de pessoas voltarão à pobreza.

Estudos sobre o mercado de trabalho demonstram como trabalhadores terceirizados ganham, em média, 24% menos do que trabalhadores formais, mesmo trabalhando, em média, três horas a mais do que os últimos. Este é o mundo que os políticos brasileiros desejam a seus eleitores.

Nenhum deputado, ao fazer campanha pela sua própria eleição em 2014, defendeu reforma parecida. Ninguém prometeu a seus eleitores que os levariam ao paraíso da flexibilização absoluta, onde as empresas poderão usar trabalhadores de forma sazonal, sem nenhuma obrigatoriedade de contratação por até 180 dias. Ou seja, esta lei é um puro e simples estelionato eleitoral feito só em condições de sociedade autoritária como a brasileira atual.

Da lei aprovada nesta semana desaparece até mesmo a obrigação da empresa contratante de trabalho terceirizado fiscalizar se a contratada está cumprindo obrigações trabalhistas e previdenciárias. Em um país no qual explodem casos de trabalho escravo, este é um convite aberto à intensificação da espoliação e à insegurança econômica.

Ao menos, ninguém pode dizer que não entendeu a lógica da ação. Em uma situação na qual a economia brasileira está em queda livre, retirar direitos trabalhistas e diminuir os salários é usar a crise como chantagem para fortalecer o patronato e seu processo de acumulação. Isto não tem nada a ver com ações que visem o crescimento da economia.

Como é possível uma economia crescer se a população está a empobrecer e a limitar seu consumo?

Na verdade, a função desta lei é acabar com a sociedade do emprego. Um fim do emprego feito não por meio do fortalecimento de laços associativos de trabalhadores detentores de sua própria produção, objetivo maior dos que procuram uma sociedade emancipada. Um fim do emprego por meio da precarização absoluta dos trabalhos em um ambiente no qual não há mais garantias estatais de defesa mínima das condições de vida. O Brasil será um país no qual ninguém conseguirá se aposentar integralmente, ninguém será contratado, ninguém irá tirar férias. O engraçado é lembrar que a isto alguns chamam “modernização”.

De fato, há sempre aqueles dispostos à velha identificação com o agressor. Sempre há uma claque a aplaudir as decisões mais absurdas, ainda mais quando falamos de uma parcela da classe média que agora flerta abertamente com o fascismo. Eles dirão que a flexibilização irrestrita aumentará a competitividade, que as pessoas precisarão ser realmente boas no que fazem, que os inovadores e competentes terão seu lugar ao sol. Em suma, que tudo ficará lindo se deixarmos livre a divina mão invisível do mercado.

O detalhe é que, no mundo dessas sumidades, não existe monopólio, não existe cartel, não existem empresas que constroem monopólios para depois te fazer consumir carne adulterada e cerveja de milho, não existe concentração de renda, rentismo, pessoas que nunca precisarão de fato trabalhar por saberem que receberão herança e patrimônio, aumento da desigualdade. Ou seja, o mundo destas pessoas é uma peça de ficção sem nenhuma relação com a realidade.

Mas nada seria possível se setores da imprensa não tivesse, de vez, abandonado toda ideia elementar de jornalismo.

Por exemplo, na semana passada o Brasil foi sacudido por enormes manifestações contra a reforma da previdência. Em qualquer país do mundo, não haveria veículo de mídia, por mais conservador que fosse, a não dar destaque a centenas de milhares de pessoas nas ruas contra o governo. A não ser no Brasil, onde não foram poucos os jornais e televisões que simplesmente agiram como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. No que eles repetem uma prática de que se serviram nos idos de 1984, quando escondiam as mobilizações populares por Diretas Já!. O que é uma forma muito clara de demonstrar claramente de que lado sempre estiveram. Certamente, não estão do lado do jornalismo.”

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Márcio Augusto D. Paixão:

Há uma coleção de mentiras, equívocos e devaneios que circula por aí, a respeito da liberação da terceirização trabalhista. Em minha opinião, a mais absurda delas é a de que a “regulação” da terceirização traria “segurança jurídica”. Ora, o tema atualmente está regulado com enorme clareza e segurança: o empregador pode terceirizar sua atividade-meio, mas não pode terceirizar sua atividade-fim. É uma regra extremamente clara e de conhecimento da ampla maioria do empresariado – que sabe que, se tem um restaurante, pode terceirizar a limpeza, mas não os cozinheiros e os garçons.

Parece-me que a liberação para que as empresas contratem terceirizados para exercerem sua atividade-fim, realizada mediante a edição de uma lei ordinária (sem alteração da Constituição), é o que vem a trazer grande insegurança jurídica, pois esse novo sistema é de tão duvidosa constitucionalidade que, aposto, a maioria das empresas bem assessoradas juridicamente não vai se aventurar terceirizando sua atividade-fim — não até que o STF confirme a constitucionalidade dessa lei.

O que mais me espanta na liberação irrestrita na terceirização é que ela consiste, sobretudo, em um convite à fraude nas relações trabalhistas. Utilizando novamente o exemplo do restaurante: qual a vantagem, para o empregador, em terceirizar serviços de cozinha? A terceirização rompe com a pessoalidade, isto é, o serviço pode ser realizado por qualquer pessoa (ao contrário do empregado direto, que deve ele próprio, pessoalmente, realizar as tarefas laborais). Em um restaurante, basta ao prestador de serviços terceirizado enviar ao local qualquer cozinheiro para preparação da comida (e não o sujeito x ou y, que já tem a confiança do dono do restaurante), para que o contrato de terceirização seja plenamente cumprido.

Do mesmo modo, em uma escola, cujos professores são terceirizados: a prestadora de serviço pode enviar qualquer professor de matemática, um professor diferente por semana (algo que evidentemente prejudica escola e aluno). Esse tipo de sistema é tão ruim, mas tão ruim para os sujeitos envolvidos, que não se imagina nenhum interesse real em estabelecê-lo. Resta, então, como razão prática dessa lei, a possibilidade de se contratar, de modo terceirizado, o mesmo professor que já dá as aulas, ou aquele mesmo cozinheiro que já prepara a comida, mediante a criação de uma pessoa jurídica interposta. Ou seja: essa lei nada mais é do que uma gravíssima permissão legislativa para a execução de fraudes, artifícios, embustes.

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Cláudia Beylouni Santos:

Este tema me assombra há muito tempo e só piora.

O instituto da terceirização é uma das maquiagens mais grotescas que já vi à prática de injustiça real. É a interposição de uma pessoa entre quem presta trabalho e quem recebe trabalho, fazendo com que quem receba o pagamento pelo trabalho que prestou receba menos valor do que aquilo que é pago pelo trabalho por quem paga, a empresa atravessadora precisa, além de gerir custos, ter lucro que justifique seu funcionamento. A prática tem demonstrado que esta matemática opera em desfavor do trabalhador e também do contratante, que fica responsável por pagar ao empregado quando este não receber da terceirizadora da qual é empregado formal, quando não se conseguir cobrar da terceirizadora, mesmo que o contratante tomador do serviço já tenha pago a esta empresa atravessadora.

Testemunho no cotidiano danos corriqueiros efetivos tanto a quem contrata empresas prestadoras, quanto a quem trabalha nelas.

No campo teórico, é uma ficção jurídica que contraria os mais essenciais princípios que fundamentam a identificação de uma relação de trabalho.

Na realidade concreta, só a terceirização que já existe implementada na lei vigente já se mostra uma prática que deixa muitos empregados e muitos contratantes desguarnecidos de segurança real. É imenso o número de terceirizadoras quebradas insolventes ou desaparecidas.

Fora outras distorções, frequentemente empregados não conseguem receber pelo trabalho já prestado e, muitas vezes, o contratante que já pagou pela prestação à terceirizadora tem que pagar de novo, então diretamente ao trabalhador.

É uma ficção ilusória, que se presta a muitas irregularidades, absurdamente já chancelada inclusive pela adoção nas administrações dos tribunais. E há, ainda, uma diferença relevante para a condição do trabalhador empregado. No Brasil , a categorização sindical do trabalhador é dada pela natureza econômica do empregador. Por exemplo, quem trabalha para banco é bancário. Um(a) faxineiro(a) contratado(a) pelo banco, tem sua relação de trabalho regida pelo dissídio negociado pelo sindicato dos bancários, com todos os direitos respectivos. Um(a) faxineiro(a) contratada por uma terceirizada que preste serviço de limpeza ao banco não se rege pelo dissídio, não é defendida pelo sindicato dos bancários. Se a terceirização das atividades meio já era uma anomalia, a das atividades fim serão ainda maiores. Poderemos ter um caixa que é bancário, e outro que não é, com direitos diferentes. Isto sem falar na perda de poder de negociação, no enfraquecimento da categoria. Também é uma porta aberta ao nepotismo, o parente poderá ser contratado por meio da terceirizada.

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Uma reflexão simples sobre a terceirização aprovada ontem e o futuro do trabalhador

Com nossa Câmara Federal formada basicamente por representantes de empresas e religiosos, não chega a ser surpreendente a aprovação do PL 4302/98, que cria a figura da “empresa de trabalho temporário”. Decorrente da medida, creio que o aperto econômico sobre a classe trabalhadora poderá acabar em qualquer coisa, inclusive em Bolsonaro como presidente para “limpar tudo isso aí”. Afinal, nossos eleitores não são os mais informados, como demonstra nosso Congresso. Isso não quer dizer que eu seja contra eleições, apenas que sou a favor de educação e boa informação.

A nova vida do trabalhador: segurança total

A nova vida do trabalhador: segurança total

Com este PL, torna-se possível que empresas de mão de obra forneçam trabalhadores até para as atividades-fim das empresas. Tais empresas podem fornecer trabalhadores por um período de 6 meses, prorrogáveis por mais 3. Total de 9 meses, portanto.

Deste modo, um hotel na praia ou uma escola não precisará contratar mais ninguém diretamente. Explico: se um hotel trabalha apenas nos meses quentes, entre novembro e abril, por exemplo, contrata a empresa de trabalho temporário para buscar funcionários e, passado o período, os põe no olho da rua. Também uma escola — que antes poderia contratar só serviços terceirizados de limpeza, alimentação e contabilidade — agora poderá também contratar professores terceirizados. Eles ficam para o período letivo e depois, rua. A lei diz que esse fornecimento só pode se dar em razão de circunstâncias “excepcionais”. Mas isso é uma bobagem, qualquer necessidade pode receber o título de “excepcional”, até uma nova turma de aula.

O projeto também regulamenta aspectos do trabalho temporário, aumentando de três para seis meses o tempo máximo de sua duração, com possibilidade de extensão por mais 90 dias. Os temporários terão o mesmo serviço de saúde e auxílio alimentação dos funcionários regulares, além da mesma jornada e salário.

Obviamente, a nova legislação incentivará as empresas a demitirem trabalhadores que estão sob o regime CLT para contratar terceirizados, com remuneração menor. Um levantamento realizado pelo Dieese, em 2015, mostrou que os terceirizados recebiam em média 30% a menos que os contratados diretos.

Há uma enorme sacanagem no projeto — mais uma. Foi aprovada a chamada responsabilidade subsidiária. Se a empresa que terceiriza mão de obra não paga seus funcionários ou não cumpre obrigações trabalhistas ou previdenciárias, o empregado primeiro tem de buscar reparo na Justiça acionando o seu empregador direto, a fornecedora de mão de obra. Só depois, se não tiver sucesso, pode acionar judicialmente a empresa que contratou a firma que terceiriza mão de obra. Ou seja, não há responsabilidade solidária.

As centrais sindicais parecem não ter grande comunicação, força de mobilização e, pior, representação no Congresso. Lamentável.

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Em Berlim (VI)

A Elena escreveu no dia 8 de janeiro em seu perfil do Facebook. “Prometi que vou dizer e vou dizer: Milton Ribeiro é o cara!”.

É um grande exagero. Ela estava apenas agradecida. Acontece que este foi um dia muito diferente em Berlim. Uma amiga bielorrussa da Elena — também violinista — veio do interior da Alemanha para reencontrá-la após anos e trouxe seu marido alemão, um ser altamente político e que eu deveria divertir enquanto as duas conversavam. Claro, as duas conversavam em russo, eu e Renê em inglês. E nós dois realmente as liberamos para conversar. Elena ficou feliz por eu ter feito minha parte para a liberdade das amigas.

Renê é um alemão de Lübeck. Logo vi que tratava-se de um desses consumidores de notícias geopolíticas e que eu teria que falar sobre isso se não quisesse ficar num silêncio que seria constrangedor, pois por algum motivo é horrível ficar em silêncio ao lado de desconhecidos.

Primeiramente, ele quis falar sobre os refugiados e foi maravilhoso saber que ele apoiava todo o gênero de auxílio para que estas pessoas se integrassem à vida alemã.

Depois fomos, é claro, para o Brasil. E acho que assustei a curiosidade do gajo. Ele quis saber de uma usina chamada de Belo-Alguma-Coisa e da retirada dos índios… Fui obrigado a entregar Dilma Rousseff para ser comida viva pelo alemão, falei do financiamento das campanhas políticas no Brasil e dos grandes partidos sem os quais talvez seja impossível governar. Falei sobre o quase inevitável PMDB e de como sua presença em todos os lugares era perniciosa. Minha narrativa sobra a corrupção endêmica dos partidos políticos, dos empresários sonegadores e do povo o deixou perplexo. Ele também questionou sobre a ligação dos políticos e empresários. Menino esperto, não?

E contei sobre a estratégia zumbi criada pelo Moysés Pinto Neto para explicar certa parte da atuação do PT-PMDB. Tal estratégia consistia no governo do PT (de esquerda) e de seus pequenos blogs (blogs?, ele repetiu) atacarem incessantemente o adversário pela esquerda no discurso, enquanto que o governo adotava práticas da direita, produzindo aliados à direita que nunca estão satisfeitos com as concessões e uma base de esquerda disposta a justificar qualquer coisa para defender o governo que elegeram. Desta forma, Dilma diz que Temer implementa um “programa derrotado nas urnas”, mas ela, com certo pudor verbal, já fazia isso. Porém, no governo dela, programas sociais eram mantidos e a concentração de renda até diminuía discretamente. É claro que Temer é muito pior, pois adota um programa de ultra-direita sem pudor algum. Ele tenta cortar todo programa social mantido pelo governo anterior. Afirmei que a concentração de renda já se acentuou em seus primeiros meses de governo. E tentei explicar que a dupla atuação de Dilma era quase inevitável, já que o PMDB existe e que o PT jamais tentou controlar a opinião pública alimentada pela voraz grande imprensa de direita. Muito pelo contrário, o partido adubava tal voracidade, pagando-a. Renê arregalava os olhos.

Então decidi que ele ia pirar de vez. Expliquei sobre como são incultas e atrasadas nossas elites. São assim de uma forma tão completa que qualquer argumento que considerem — mesmo intuitivamente — como mais seguro é comprado por eles. Quem vende? Ora, a imprensa. E cheguei a meu tema mais caro: a educação. Expliquei sobre duas reformas educacionais — a militar e a próxima que Temer pretende implantar. Ele ficou apavorado com a primeira… Mas com a segunda foi pior. Acabou dizendo que isso levaria o país ao caos. Imagina deixar História como matéria opcional? Bem, ele é alemão.

E discorri sobre nossos alunos. Falei sobre meu trabalho voluntário na periferia de Porto Alegre e de como alunos de 14 e 15 anos da escola pública não sabem fazer contas de multiplicação e divisão. Sim, sei disso muito bem e provo.

Mas eu o deixaria ainda mais espantado ao dizer que a cidade dele, Lübeck, de 200 mil habitantes, tinha 3 Prêmios Nobel — Thomas Mann, Gunter Grass and Willy Brandt — e o Brasil inteiro nenhum. Sim, temos 1000 vezes mais gente, somos 200 milhões. Ele ficou feliz por eu saber tanto de Lübeck. E garanti que nosso Nobel não viria tão cedo, a não ser que fosse um Nobel da Paz ou para algum gênio isolado. Só que nós somos a prova de que gênios isolados não surgem facilmente como o Guga surgiu no tênis. Há que ter um ambiente cultural mínimo, algo que nossas elites detestam, desejando que permaneçamos um país vendedor de matéria-prima.

Ainda insatisfeito com minha severidade, mandei tudo às favas contando como uma pessoa com formação musical como a Elena era tratada no país. Falei de como a encalacraram numa posição subalterna, abaixo de pessoas que deveriam, na verdade, aprender com ela e de como isso era desmotivador.

Como viver no Brasil? Protegendo-se em ilhas de bons amigos.

E completei: pouca coisa de bom surgirá de nós. Levaremos 50 anos ou mais para melhorar, e desde que comecemos a mudar agora, pois nossa marcha ré ainda está engatada a toda velocidade, pilotada por bispos neopentecostais e políticos corruptos. Paralelamente, fiz questão de informar que um juiz de direito brasileiro podia receber uns 40 salários mínimos, mais benefícios — informação que chutei, mas que não deve se afastar muito da verdade.

Bem, após todo este DESTAMPATÓRIO, estava tão irritado que não tirei fotos de ninguém. E, depois do primeiro grande silêncio, ele começou a falar sobre os erros políticos de Willy Brandt.

Conversamos por mais de seis horas, bem entendido. Isto foi apenas um resumo do papo.

Fim.

Lübeck, 200 mil habitantes e 3 Prêmios Nobel

Lübeck, 200 mil habitantes e 3 Prêmios Nobel

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Carta pública de Mempo Giardinelli a Mario Vargas Llosa

Admirado Mestre, onde quer que esteja:

Eu não tive a sorte de ser seu amigo, mas, como você sabe, considero-me seu devoto discípulo. Ambas as vezes em que nos encontramos, uma em Buenos Aires, outra em Lima, cumprimentamo-nos calorosamente, e outras vezes o Sr. me enviou saudações, das quais me orgulho, por outros meios. Mas o que é mais importante para mim é o fato de ter lido quase toda a sua obra com prazer e paixão. Mais: como professor de graduação e pós-graduação, eu sempre dou aulas sobre seus romances, ao menos uma por ano — em 2016 eu abordei Os Filhotes — e sempre retorno a suas palestras sobre Flaubert e Arguedas.

Desde logo vou dizendo que não concordo com nenhuma de suas idéias políticas, mas até agora optei por não contradizê-lo, apenas lamentando silenciosamente várias de suas declarações. Toda vez que eu lhe vi na TV, mudei imediatamente de canal em tributo à qualidade de sua prosa, de sua poética e de seus personagens. Mesmo quando se armou um protesto em 2012, aqui em Buenos Aires, porque o Sr. iria inaugurar a Feira do Livro, escrevi neste jornal que seu Prêmio Nobel foi “irrepreensível por premiar uma estética literária moderna, inovadora, original e escrita à margem da civilização imperial”. E eu também escrevi que “para além do grande narrador, é também um cruzado neoliberal, destes que se espantam com qualquer gesto equivocado kirchnerista, mas que tolera ver Menem rifar o país, o petróleo, as ferrovias, os portos marítimos, etc.”. E chegamos a 2015, quando você fez campanha eleitoral dizendo que, “se fosse argentino, votaria em Macri”. Neste caso, também mantive silêncio, apesar de que me doía vê-lo manifestar-se.

Mas, embora eu jamais tenha retrucado as suas opiniões nem muito menos contra-atacado — e não farei isto agora –, quero lhe dizer que fiquei estupefato com o diálogo que você manteve em Madrid, nesta semana, com o presidente de meu país. Ao ver você aceitar e celebrar tanta mentira não literária, concluí que meu silêncio já era demasiado.

Vargas Llosa também têm feito aparições em peças teatrais de sua autoria. Os críticos têm sido irônicos sobre o Nobel-ator.

Vargas Llosa também têm feito aparições em peças teatrais de sua autoria. Os críticos têm sido irônicos sobre o Nobel-ator.

O governo liderado pelo Sr. Macri é um governo de bandidos, em primeiro lugar, porque chegaram ao poder prometendo o que o povo argentino queria e precisava ouvir, mas determinados — desde o primeiro momento — a trair cada uma dessas promessas.

Em segundo lugar, é um governo de facínoras insensíveis, de canalhas que, ao longo de quatro décadas, e em todos os seus governos, depositaram aproximadamente 350 bilhões de dólares em paraísos fiscais. Por isso, o primeiro ato do Sr. Macri foi o de legalizar essas fortunas, que supostamente retornariam ao país.

O Sr. Macri é hoje considerado — não no mundo da América Espanhola, é claro — um dos cinco governos mais corruptos do planeta. E o repertório de escândalos que os grandes jornais e o sistema de televisão argentino omite é chocante. Sabe-se que existem mais de 40 empresas ligadas ao Grupo Socma, de propriedade da “Famiglia” Macri. E são públicos os repetidos “perdões de dívidas” e favorecimentos, como nos casos de Correo Argentino (de seu pai) e Ferrocarril Sarmiento (de seu cunhado).

Claro que fico pasmo por vê-lo celebrar Macri, ignorando tudo isso. O gabinete argentino se assemelha ao do Dr. Caligari, com mais de 50 membros processados (incluindo o presidente e seu vice) e com vínculos perversos com a empresa brasileira Odebrecht, cuja diretoria é grande parceira do presidente.

Você deve saber, com certeza, que a atuação do Supremo Tribunal Federal foi alterada através de decreto e que agora o país é governado por “decretaços” como fizeram há décadas os militares aqui e os ditadores no  Peru. E com certeza está ciente dos favores obscenos a latifundiários e a alvoroçados empresários, que puseram milhões de trabalhadores na rua, destruindo não somente empregos, mas educação, famílias e sonhos. Em pouco mais de um ano, foram fechadas 7000 fábricas e empresas produtivas, o ensino público está em estado terminal e, nestes 14 meses, nossa dívida externa aumentou ad infinitum, para algo que nunca vamos pagar.

Custa-me crer que você, meu Mestre, com a sua acuidade proverbial, preste-se a esta farsa. Pergunto, então: são tão grandes os negócios que nos preparam na Espanha que justifique uma recolonização? São tão grandes esses interesses a ponto de você descartar uma grande carreira literária e favorecer um arruaceiro que se assemelha tanto a seu compatriota Fujimori?

Minha lealdade de discípulo e a consciência de minha pequenez literária não me impedem de ver, com dor, o triste papel encarnado por você na televisão ao discursar platitudes com a finalidade de criticar o presidente venezuelano. Dói-me ouvir suas falas cheias de conotações racistas e classistas.

Me deu muita pena do Sr., Don Mario, ao vê-lo tão generoso e dócil na frente do lamentável governante desta terra que lê e gosta de seus livros. Eu senti dor e um certo embaraço por ser seu admirador.

Sim, sem dúvida, vou continuar admirando sua obra literária, mas que enorme vergonha senti de vê-lo agora, em idade avançada, desempenhando um papel como Zavalita perguntando: “Em que momento se fudeu a Argentina?”.

Seguirei devoto de sua grandeza literária. Mas apenas dela.

Péssima tradução de Milton Ribeiro.

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Por que Stálin transformou Púchkin em um deus

Em 1937, o ano do Grande Terror, Stálin decidiu celebrar Púchkin como um deus socialista para conquistar apoio popular. O poeta, reverenciado como um gênio literário antes da Revolução Russa, viu sua reputação ir aos céus entre os soviéticos.

Da Gazeta Russa

Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto: Arquivo

Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto: Arquivo

Este ano marca não apenas o 100º aniversário da Revolução de 1917, mas também o 80º aniversário do Grande Terror, em 1937. Naquele ano, a Rússia soviética também celebrou, em uma escala sem precedentes, o 100º aniversário da morte de Aleksandr Púchkin. O grande poeta tinha permanecido até então nas sombras, mas, em 1937, tornou-se protagonista do panteão cultural soviético.

Stálin decidiu apresentar ao mundo um império quase clássico, centrado na cultura, que tinha como figura central Púchkin.

Púchkin nas alturas

A decisão de celebrar Púchkin como um deus socialista pertenceu a Stálin. Para entender a estranheza de sua iniciativa, vale a pena lembrar que no século 19 Púchkin era um poeta conhecido apenas pela elite intelectual. A lista de leitura para a intelligentsia revolucionária não incluía Púchkin porque ele era considerado muito distante e indiferente às necessidades imperativas do povo.

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Stálin, no entanto, era bem versado em literatura russa clássica e gostava não só do revolucionário Tchernichevski, mas também de Dostoiévski e Púchkin.

A ideia de exaltar o poeta foi fortemente influenciada pela diáspora russa no exterior, que, a partir de meados da década de 1920, desenvolveu um forte interesse por suas obras. O regime acompanhava de perto as evoluções da diáspora, e Stálin acompanhava todas as principais publicações dos círculos de emigrantes russos.

Em 1937, a comunidade de russos no exterior planejava realizar seus próprios eventos em celebração a Púchkin, o que significava que o legado do poeta poderia se tornar uma arma política perigosa em suas mãos – portanto, era necessária fazer uma manobra oficial. Embora alguns historiadores aleguem ter sido esta a lógica de Stálin, não há consenso nem comprovações sobre tal tese.

Culto a personalidade

A partir de 1922, começaram a ser realizadas cerimônias oficiais anualmente para o aniversário da morte de Púchkin; nelas, o poeta era descrito como “primavera russa, manhã russa, Adão russo” e também comparado a Dante, Shakespeare, e Goethe.

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Algumas ponderações sobre a pesquisa que coloca Lula como favorito à presidência em 2018

Por Luís Eduardo Gomes

lula bolsonaro

1) Se o Lula concorrer, vai para o segundo turno. EU, friso bem, EU, ACHO que ele não ganha, porque o anti-lulismo é muito forte e as forças contrárias vão se unir com QUALQUER candidato, da Marina a Bolsonaro, em 2018. Esse clima de “já ganhou” que eu andei vendo hoje é a mesma loucura de quem achava que ia ser Pont e Luciana no segundo turno.

2) É muito apavorante esse crescimento do Bolsonaro, mas é esperado. Cada vez mais eu acho que ele vai ganhar, ainda mais porque não se leva a sério essa possibilidade, especialmente A DIREITA não leva a sério, o que me leva ao item 3…

3) Aécio vai entrar para a história como o MAIOR OTÁRIO que o Brasil já viu. Se ele tivesse ficado quieto, sem querer lá atrás contestar o resultado das urnas, era o franco favorito em 2018. Foi o pai da crise política, deu o poder pro Temer, hoje nem a direita o respeita mais e ele pode ter criado o cenário pra vitória do Bolsonaro ou para a volta do Lula (Duvido que o PT faria um quinto mandato consecutivo se a Dilma não tivesse sido derrubada).

4) Eu não sei se a nossa mídia nacional se faz de louca, se é manipulação, se é iludida ou se é burra mesmo, mas essas notícias que sempre circulam sobre expectativa do Temer se candidatar, do Henrique Meirelles ou coisa do tipo, são totalmente descabidas nesse momento. A menos que haja um crescimento muito acima da expectativa em 2017 e no início de 2018, eles não têm nenhuma chance.

5) Ainda acho que há um cenário para uma disputa entre Marina (ou Ciro) e Alckmin, mas isso passaria por uma diminuição do extremismo, o que não estamos vendo hoje, e o Lula não disputar.

6) Para fechar, é preciso levar muito a sério o Bolsonaro e não tirar ele para louco. Tem muita gente que QUER MUITO votar nele e serem ridicularizados como boçais só aumentará a vontade dessas pessoas de abraçar o ex-militar. É preciso trazer essas pessoas para o nível da argumentação, para o debate, especialmente com quem é de direita e defende outras posições.

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Para jamais esquecer: fotos e nomes dos deputados inimigos da cultura e da ciência no RS

Aqui estão os responsáveis pelo desmonte. Jamais vote novamente neles!

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A estupidez triunfante: o ódio de Sartori e de certa direita à cultura e à ciência

O Tribunal de Justiça Militar permanece. Só Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo têm tais maravilhas de notável utilidade. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já sinalizou que poderiam ser extintos para dar lugar à criação de câmaras especializadas nos Tribunais de Justiça dos estados para julgamento de processos de competência militar. O órgão gasta R$ 36 milhões ao ano, 26% de tudo o que o governo da anta Sartori pensa economizar com a extinção de fundações estaduais. Mas são milicos, não fazem pesquisa nem divulgam cultura. São gente boa.

Já a Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), a Fundação Piratini (TVE e FM Cultura), a Fundação de Economia e Estatística (FEE), Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), a Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps), a Fundação de Zoobotânica (FZB) e a Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (Corag) têm grande ligação com a produção científica e cultural do estado. Então devem ser extintas.

A burrice do governo olha apenas a despesa, sem buscar novas receitas. Não creio que nosso modelo federativo livre-se das isenções fiscais que somam R$ 9 bilhões por ano — pura e puta renúncia fiscal. Mas o governo recusa-se a ir atrás dos R$ 7 bilhões por ano de sonegação realizada basicamente por empresários. E quando vemos que a economia prevista com a extinção das empresas constantes no pacote de Sartori é de 137 milhões anuais — eu escrevi milhões, não bilhões –, só posso concluir que há um enorme ressentimento e ódio à ciência, à cultura e ao conhecimento.

Por outro lado, não temos uma imprensa plural. Os governos petistas nem tentaram alterar tal situação. Não houve a tão propalada democratização dos meios de comunicação, só o pagamento de alguns blogs. O monopólio da informação permanece e atrapalha qualquer reflexão crítica. A RBS, por exemplo, faz a assessoria de comunicação de todos os governos alinhados com o mercado, com a direita e com o senso comum evangélico. Servidor é vagabundo? Sim, é. Então vamos acabar com esses caras que só mamam na teta do estado.

Se as extinções ocorrerem como parece que vão, certamente haverá uma corrida de CCs vindos dos partidos aliados. Afinal, como ficar sem a FEE, por exemplo? Em substituição, vão contratar consultorias dos amigos, claro.

Eu não votei em Sartori, é claro. Não tenho grande visão política, mas o mundo me ensinou a avaliar pessoas e jamais votaria num cara flagrantemente mais ignorante, inepto e palerma do que eu. Ele está no posto para fazer um trabalho em benefício de grandes empresários. E só.

Fico deprimido de pensar que o local onde hoje está a TVE / FM Cultura talvez vire outra coisa. Fico fulo ao ver empresários e empresas sonegadoras protegidos. Fico desapontado com quem votou neste asno. Paralelamente, sorrio ironicamente com o ridículo discurso de fachada de que tais atos tirarão nosso Estado da situação de calamidade.

Sartori apontando sua falha.

Sartori apontando sua falha.

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OK, vou de Uber, mas só vou se for escutando a FM Cultura

Compartilhem a ideia.

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O brilhantismo da Odebrecht na escolha dos codinomes para seus pagamentos de propina

15350719_937496386381287_2811336134892356734_nNasci dotado de uma característica muito maldosa e infeliz que hoje reprimo minuciosamente. Desde criança eu invento apelidos. Inventei alguns tão bons em meus tempos de colégio que teve gente que não queria mais ir às aulas só para não ouvir. Era a eficiente defesa de uma criança que só apanhava dos colegas. Eu era um palito, só pele e osso. Só os invento para aquelas pessoas que eu detesto. Eles já me criaram tantos problemas que aprendi a me conter. A criação de bons apelidos não é das artes mais apreciadas. O pessoal da Odebrecht também é excelente nisso. Eu me congratulo com os caras e estou aguardando que a internet crie logo um gerador automático de codinomes da Odebrecht.

Quando criança, meu apelido era Qüem. Sim, o som do pato. Tinha os pés desproporcionalmente grandes em relação ao corpo. Me divertia com aquilo. Minha turma de futebol me chamava de Raquítico.

Mas vejam só a arte dos caras. Vejam quanta maldade havia naquelas alegres trocas de dinheiro. De acordo com o ex-vice-presidente de relações institucionais da empresa, Cláudio Melo Filho, os seguintes codinomes eram usados para receber propinas da empresa:

Caju é Romero Jucá (PMDB-RR).

Justiça é Renan Calheiros (PMDB-AL). Não é genial?

Coisas do Brasil: a ministra Carnem Lúcia reza com a Justiça à esquerda.

Coisas do Brasil: a ministra Carnem Lúcia reza com a Justiça à esquerda.

Índio é Eunício Oliveira (PMDB-CE).

Babel é Geddel Viera Lima (PMDB-BA). Ele não caiu por uma torre?

Bitelo é Lúcio Viera Lima (PMDB-BA).

Primo é Eliseu Padilha (PMDB-RS).

Angorá é Moreira Franco (PMDB-RJ).

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Caranguejo é Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Olha, bem que tem a ver, sim.

Olha bem que tem a ver, sim.

Polo é Jacques Wagner (PT-BA).

Ferrari é Delcídio do Amaral (ex-PT-MS).

Botafogo é Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Las Vegas é Anderson Dornelles, ex-assessor de Dilma.

Campari é Gim Argello (PTB-SP).

Cerrado, Pequi e Helicóptero é Ciro Nogueira (PP-PI).

Pino ou Gripado é José Agripino Maia (DEM-RN).

Todo Feio é Inaldo Leitão (PL-PB).

Já postamos homens mais bonitos em nosso blog.

Já postamos homens mais bonitos em nosso blog.

Corredor é Duarte Nogueira (PSDB-SP).

Gremista é Marco Maia (PT-RS).

Misericórdia é Antonio Brito (PSD-BA).

Decrépito é Paes Landim (PTB-PI).

Boca Mole é Heráclito Fortes (PSB-PI).

Nem notei.

Nem notei.

Kimono é Arthur Virgílio (PSDB-AM).

Missa é José Carlos Aleluia (DEM-BA).

Feia é Lídice da Mata (PSB-BA).

Velhinho é Francisco Dornelles (PP-RJ).

Santo é Geraldo Alckmin (PSDB-SP).

Santo e fófis.

O Santo e fófis.

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Os discursos de Fidel Castro e Thomas Bernhard

Castro

Em certa época da ditadura militar brasileira, eu era da Engenharia da Ufrgs, mas frequentava mais o pessoal, as festas e as reuniões das humanas. Zanzava pelos Diretórios Acadêmicos onde volta e meia era marcada uma sessão de cinema em que era apresentado um discurso de Fidel Castro. Quase sempre acabava assistindo. Gostava deles. Era coisa para ser apresentada no início de uma noite ou num fim de semana, pois via de regra duravam mais de quatro horas. A data e a hora das apresentações dos filmes eram secretas, mas todo mundo sabia. Assisti a vários deles, alguns divididos em dois turnos. Lembro de pouca coisa e não sei se ainda concordaria com eles, o que sei é que ele era um extraordinário orador. Era complicado até de ir ao banheiro. Tudo parecia muito importante. Um dia comecei a pensar na estrutura daqueles textos falados. A primeira conclusão a que cheguei foi a de que eles eram indissociáveis do ator. Castro era notavelmente carismático e sabia como seduzir com pausas e alterações de tom e dinâmica. E havia seu rosto, muitas vezes com expressões irônicas. Tudo o que ele dizia adquiria caráter mítico. Quando conheci Thomas Bernhard, fiquei surpreso não somente com seu discurso de ódio contra a sociedade, mas com a estrutura encadeada de sua prosa, algo parecida com a de Fidel, mas funcionando esplendidamente por escrito. Não dá para falar de avanço em espiral porque ambos voltam a pontos anteriores do discurso e uma espiral sempre avança tontamente por lugares onde não passou. Era mais uma sequência minimalista de variações que avançam de tal forma que muitas vezes a frase atual era uma variação da anterior, mas se ouvíssemos a décima oração anterior, ela já seria totalmente diferente da atual. Ou não era assim. Eram como as de um professor que avança duas casas no jogo de seu discurso e volta uma para depois avançar mais duas novamente. Não sei porque lembrei disto agora. Talvez seja saudades da juventude; de ler, estudar, estagiar e ainda ganhar uns trocos dando aula; de, apesar desta super atividade, ter a eterna impressão de não estar fazendo nada. Ou saudades daqueles ambientes esfumaçados, ultra hiper ripongas, e daquelas meninas que iam lá assistir e que ficavam mudando de posição até encostar em nós. O que eu sabia é que estávamos fazendo tudo para atrapalhar a ditadura civil-militar e que eles tinham observadores — ratos — infiltrados entre nós. Tinham receio de nós e dos discursos de Fidel, que talvez os entediassem. O que Fidel falava era liso, sem fendas. Como o texto de Bernhard, suas falas tinham caráter repetitivo e exagerado, o que lhes garantia grande impacto (e eficiência nas queixas). Bernhard desconsidera a estrutura de parágrafos e creio que alguém que transcrevesse os discursos de Fidel não deveria repetir tal estratégia, pois ele fazia longas pausas. Em ambos os casos, há um desesperado adiamento do ponto final, pois o que vale é o encadeamento de orações subordinadas, como se o narrador tivesse a necessidade compulsiva de jamais abrir mão da palavra. Com Fidel, a bunda ficava quadrada, mas eu não me incomodava com o tamanho dos discursos nem lembro de gente dormindo. Sim, nem os ratos dormiam, então acho que não se entediavam. A fala de um e a escrita do outro eram impecáveis. Perdiam-se por ladeiras e ruelas mal frequentadas que só eram compreendidas quando apareciam lá na frente na avenida. Ou talvez não seja nada disso e o que tinham em comum fosse a tentativa de aniquilação de adversários ou de si mesmo — caso de Bernhard — através de palavras. Ah, e a soberba de ambos, arma que parecia mortal na mão destes dois Quixotes em ambientes hostis. E o fato de frases ditas aqui serem complementadas apenas bem adiante. Sei lá, só sei que toda vez que lia Bernhard lembrava de Fidel e que hoje, ao rever no YouTube um discurso de Fidel, ele não me fez lembrar em nada Bernhard. Nada, nem um pouco.

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Realmente devia ser um inferno viver em Cuba sob Fidel

Imagens de ontem em Cuba. Como disse um comentarista abaixo, “Cuba é uma ilhota se comparada com seu todo poderoso vizinho. Mesmo assim possui índices melhores na saúde e na educação. Então, se quiserem criticar Cuba e Fidel, primeiro façam melhor”.

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Brasília

Desenho à mão original de Nelson Moraes. Alguém usou ferramentes digitais a fim de mostrar a todos nós uma versão mais realista de Brasília. Podem roubar e distribuir à vontade. Falo da imagem.

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Ontem foi o pior dos dias: nunca fomos tão rapidamente do luto à baixeza

Ontem foi o pior dos dias. Primeiro, houve a tragédia com o time da Chapecoense, vitimando jogadores, comissão técnica, dirigentes e jornalistas do excelente, simpático e organizado clube catarinense. Só se falava nisso, a comoção foi mundial. Pois enquanto todos os olhos estavam voltados para a Colômbia, enquanto a Rede Globo botava o país para chorar com edições de alta temperatura emocional, ratos de todas as espécies — deputados gaúchos, deputados federais e senadores, todos juntos, ao mesmo tempo — aproveitaram-se para deitar e rolar.

Foda-se o povo | Foto: Gisele Arthur

A brilhante foto-resumo: foda-se o povo | Foto: Gisele Arthur

Na verdade, a maioria dos políticos brasileiros está como na foto acima: lixando-se para as consequências sociais de seus atos. Eles trabalham apenas para seus patrões financiadores de campanhas e para suas igrejas. Porém, infelizmente, são os legítimos representantes do povo brasileiro, um povo sem o menor grau de informação, idiotizado pela propaganda e bovinizado pelos meios de comunicação dominantes.

A desonra do que fizeram ontem a Assembleia Legislativa do RS, o Congresso Nacional e o Senado, dificilmente será superada. Mesmo assim, a imensa maioria do povo brasileiro ainda não entendeu que os atuais donos do poder são meros estafetas de grandes empresários que ganham muito, mas muito com eles.

Tais testas-de-ferro querem reduzir um estado que não dá o mínimo de saúde, educação e segurança. A intenção é de privatizar o que der, sempre em causa própria e na de seus patrões. O que pensar do Ministro da Saúde Ricardo Barros, um engenheiro civil que teve sua campanha financiada por um dos principais operadores de planos de saúde do país? O que ele tentará fazer? Você já sabe, vai reduzir os gastos e o atendimento do SUS. Quem se rala? Os mais pobres, a maioria, justo aqueles que votaram nos deputados de propagandas mais ostensivas e nos evangélicos do Congresso.

Não tenho mais dúvidas sobre a necessidade das ruas. E elas se tornarão mais e mais violentas. Lamento, mas creio ser necessário. Temos em Brasília uma quadrilha governando para si e procurando anistiar-se de seus próprios crimes. Imaginem que a Câmara dos Deputados, também ontem, rejeitou a criação do crime de enriquecimento ilícito de servidores públicos. A noite de 29 para 30 de novembro de 2016 jamais será esquecida pelos servidores que recebem propina. Foi uma noite de liberação!

Mas ainda maior repercussão terá a PEC 55, aprovada ontem em primeiro turno no Senado e que corta investimentos sociais por 20 anos, jogando muita gente na absoluta falta de saúde e educação. Tal PEC é uma encomenda de certos empresários financiadores de campanhas. Estes são os piores inimigos do povo brasileiro. E devem ser tratados como tais.

Curiosamente, as manifestações de 2013 começaram pedindo mais investimentos em serviços públicos e no combate à corrupção. Ontem, o Congresso respondeu impondo severos limites a ambos.

Como escrevi, acho que temos que ir mais e mais para as ruas. Meus parabéns aos estudantes que ontem foram a Brasília. Estamos nas mãos de ministros corruptos, senadores corruptos, deputados corruptos, juristas corruptos. E as grandes emissoras de TV e rádio, comprometidas com o lamaçal, ainda vêm dizer que se trata de vândalos, que democracia não é baderna. Que a baderna aumente! Infelizmente, é o momento da Grande Baderna.

P.S. — Peço desculpas pelo texto (muito) irritado, inteiramente fora da linha habitual do blog.

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No dia da morte de Fidel, lembro de minha longa conversa com Padura

Foto de Alberto Korda. Clique para ampliar.

Foto de Alberto Korda. Clique para ampliar.

Quando conversei com Leonardo Padura, ele foi muito franco sobre seu país. Pediu que ficassem off-the-record apenas algumas de suas impressões sobre o Brasil. Falou que há uma esquerda romântica que vê Cuba como paraíso socialista e há uma direita muito agressiva, que a vê como um inferno comunista. E Cuba não é uma coisa nem outra. Segundo ele, o país parece mais com o purgatório. Porém… “Como leste em meus livros, sabes o quanto sou crítico de muitas coisas que ocorrem em Cuba, mas posso te dizer com toda certeza que, por sorte, lá nunca houve os excessos que ocorreram na União Soviética, na Alemanha e nos países do oeste. É uma sociedade que teve e tem, sobretudo, grandes problemas econômicos. A economia não funciona bem e a política está presente na vida das pessoas, mas nunca tivemos grande repressão. Há controle, é uma sociedade muito controlada, de um partido único, em que o estado e o governo são os mesmos. Há controle, repito, mas sem excessos. Lezama Lima, por exemplo, jamais teria sido publicado na URSS ou na Europa Oriental comunista. Até hoje teria problemas na Rússia. Em Cuba, foi. E isso aconteceu nos anos 60”.

Sobre a relação dos escritores cubanos com o mercado, foi ainda mais tranquilo: “Até 1990, 91, cada vez que um escritor cubano publicava um livro fora do país, tinha que fazê-lo através de uma agência literária do Ministério da Cultura. Ela cobrava os direitos e dava a parte do escritor. Já a partir dos anos 90, foi possível a livre contratação. Eu, no ano de 1995, comecei a publicar através de uma editora espanhola. E, desde então, minha relação econômica com o governo cubano é a de um escritor que recebe direitos e que paga impostos, como qualquer trabalhador independente. Pago pontual e religiosamente meus impostos, mas os direitos são meus e de uma agência da Espanha”.

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Conversamos muito sobre Cuba. Sobre a dificuldade de alguém realizar-se no país — parecia que falávamos de toda a América Latina –, sobre a casa onde mora, que é a mesma em que nasceu. Aliás, seu pai e seus avós também viveram no mesmo local. Riu quando, ironicamente, perguntei se a revolução não quisera levá-la. Também sobre a sensação de pertencimento de todo povo cubano. Sobre a pobreza e as fugas. Sobre o excelente sistema de saúde, uma das obsessões de Fidel. E ele contou a piada que já conhecia: “Acaba o comunismo e o pai diz para o filho em Cuba: meu filho, tudo o que te disseram sobre as maravilhas do comunismo eram mentiras, mas tudo o que te disseram sobre o capitalismo era verdade”.

A ingenuidade de tanta gente que vê um país latino tão semelhante ao Brasil como se fosse outra dimensão…

Hoje, dia da morte de Fidel Castro, não é dia de entrar no Facebook. Li cada coisa sobre Cuba… Uns falando no tal paraíso, outros falando em pobreza e que Fidel não deveria ter nascido… Olho para lá, para cá, e concluo que essa gente certamente não mora no Brasil.

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Sartori, em vez de extinguir Fundações, que tal ir atrás dos sonegadores ?

Foto: Guilherme Santos / Sul21

Foto: Guilherme Santos / Sul21

Anos atrás, eu prestava consultoria ao setor de TI da FEE. Gostava do ambiente e da criteriosa seriedade das pessoas de lá. Além disso, a utilidade e a qualidade do trabalho realizado também era clara. Era uma série de atividades voltadas para a geração de indicadores, tabulações, perfis econômicos, publicações, trabalhos acadêmicos, etc. Ficava tão feliz, a sensação de ser útil era tão grande que sempre ultrapassava o número de horas contratadas. A Fundação é de 1973. Tem, portanto, 43 anos de serviços prestados.

Como ouvinte, sou fã absoluto da FM Cultura 107.7, da Fundação Piratini. É a melhor rádio do dial do FM. O que dizer das horas e da cultura que ganhei no Sessão Jazz do Paulo Moreira, no Conversa de Botequim, na Manhã Popular Brasileira, no Contracultura, no Estação Cultura, no Cultura na Mesa e no pré-antigo As Músicas que Fizeram sua Cabeça?

Agora, Sartori pretende acabar com as duas Fundações e mais sete que conheço muito menos, quase nada. É o que diz a tabela que anexo abaixo, publicada hoje em ZH.

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Sem medo de errar, sei que a FEE será substituída por mil consultorias contratadas. E vocês sabem como são estas contratações. Eu sei. Lá por 2008, perdi uma empresa por me negar a pagar propina a um gestor federal. Ele ficou indignado pelo fato de eu ter escolhido ser correto. Procurando vingança, até nos processou por “maus serviços”. (Vejam só, a FEE nos contratara sem esquema no passado. Já esta outra…)

Seria irresponsável acusar alguém ou o governo de querer fazer o mesmo. Mas acho absurdo este descarte de importantes empresas. Ouço e leio o choro do governo do RS: “não temos dinheiro”, “são empresas desnecessárias”. Porém, curiosamente, o governo gasta milhões em propaganda para dizer que economiza muito. OK, na opinião deles há que chegar ao estado mínimo, só que não temos o mínimo de saúde e educação. E, quando fala em déficit, o governo olha principalmente as despesas, cuidando muito menos das receitas.

O que o Pezão Feltes, nosso Secretário Estadual da Fazenda faz contra a sonegação? Olha, não ouço falar nisso. É só mimimi sobre despesas com funcionalismo — que nem pode sonegar — e extinções.

Acho que lucro é igual a receita menos despesa. Então, tão importante quanto cortar despesas é aumentar a receita.

E Feltes, o Sindicato dos Técnicos Tributários da Receita Estadual do RS (Afocefe) e do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda (Sinprofaz) afirmou em 18 de agosto que a sonegação de ICMS no RS chegara a R$ 4,5 bilhões até aquela altura, considerando apenas o ano da graça de 2016.

Isso é dinheiro grosso, não? A FEE, por exemplo, gasta R$ 22 milhões com celetistas em um ano, ou seja, 204 vezes menos.

Por que não ir atrás? Por que é antipático? Por que incomoda os amigos que financiaram as campanhas? Que tal tentar resolver a coisa pelo outro lado? É mais gostoso chorar e assim justificar a inação?

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No Dia Nacional de Greve, uma salada destinada aos desligados

Na vinda para o trabalho, me senti até seguro com tanta polícia na rua. Como escreveu no facebook minha amiga Mariana Xerxenesky, torço que um dia os bandidos sejam tratados como os estudantes e os funcionários públicos do Brasil. Aliás, poderiam até tratar melhor os bandidos. Eles não merecem bombas. Afinal, são produtos mais da desigualdade e da falta de educação e horizontes do que de sua má índole.

Ontem à noite, saí para dar uma passadinha no supermercado. Uma vizinha estava saindo sorridente de seu apartamento, carregando malas. Na rua, outros estavam colocando coisas em seus carros para aproveitar o prologado feriadão. De sexta à terça são 5 dias. Foi quando me dei conta do quanto poderia ser maior o Dia Nacional de Greve se marcado para um dia em meio de semana. Nas grandes cidades há muita gente do interior  — principalmente estudantes — e não os condeno por fugirem de Porto Alegre à menor oportunidade.

Mas, por exemplo, meu enteado permanece na Ocupação, a PEC 55 (antiga 241) segue ameaçando todo o investimento em educação e saúde e, ao que parece, as manifestações são grandes. Mas não poderiam ser ainda maiores?

Bombas no estudantes da Ufrgs. Eles têm razão em cantar: "“Que vergonha, que vergonha deve ser, espancar trabalhador para ter o que comer”

Bombas no estudantes da Ufrgs. Eles têm razão em cantar: ““Que vergonha, que vergonha deve ser, espancar trabalhador para ter o que comer” | Foto: Maia Rubim

É sempre bom lembrar que a mobilização de hoje é um ato nacional contra a montanha de absurdos que está sendo proposta pelo governo Temer: terceirizações no setor público, o projeto “Escola Sem Partido” — também chamado de Lei da Mordaça, destinado a professores —  a terrível PEC 55 (241) — uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que trata do teto dos gastos públicos e que congelará os gastos e investimentos com saúde e educação por 20 anos!!! –, o projeto de lei número 4567 — que altera regras para a exploração de petróleo e gás natural do pré-sal, acabando com o conceito de Petrobras –, as reformas da Previdência e do Ensino Médio, a flexibilização do contrato de trabalho, a defesa da lei do piso. etc.

Não são coisas secundárias e a sociedade deve ser alertada para o que Temer e seu Congresso estão preparando. Está acima de partidos. Esqueça a briga de coxinhas x petralhas, eu também não aguento mais. Digo isso desta forma porque há muita gente que se enojou e se desligou da política nos últimos tempos.

Também é bom se ligar no cheque abaixo. Os caras se sentiam tão seguros que a Andrade Gutierrez repassava propina sem o menor cuidado, via cheque nominal. É muita transparência né? Você sabia que o nome completo de nosso atual presidente é Michel Miguel Elias Temer Lulia? Que ironia este Lulia, né? Mas preste bem atenção no valor.

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Carlos Magalhães escreveu:

— Senhor Andrade Gutierrez, poderia me passar uma módica propina de 1 milhão de dólares?
— Claro! Vocês fazem muito por nós. Aguarde enquanto o meu funcionário vai ao cofre retirar o montante e colocar em uma mala.
— Não, não. Preciso de um cheque.
— Mas cheque é um perigo, vai ser rastreado. Não recomendo.
— Insisto. Preciso do cheque.
— Discordo veementemente, mas aqui está seu cheque.
— Obrigado, mas não é isso. O cheque tem que ser nominal.
— NOMINAL!!!!!!????? Pago propinas há décadas e nunca vi alguém pedir propina via cheque nominal!!!!!
— É porque o senhor não conhece o novo governo. Somos honestos. Gostamos de tudo às claras e prezamos a accountability acima de tudo. Até mais ver.
— Até mais ver. Agora sim esse país está entrando nos eixos…

.oOo.

Então, pessoas, informem-se porque o dia não acabou e haverá muito mais. Em todo o país.

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Michel Moore em 27 de julho: 5 motivos pelos quais Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos

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Amigo:

Sinto muito por ser o portador de más notícias, mas fui direto com vocês no ano passado quando disse que Donald Trump seria o candidato republicano à Presidência. E agora trago notícias ainda mais terríveis e deprimentes: Donald J. Trump vai ganhar a eleição de novembro.

Esse palhaço desprezível, ignorante e perigoso, esse sociopata será o próximo presidente dos Estados Unidos. Presidente Trump. Pode começar a treinar, porque você vai dizer essas palavras pelos próximos quatro anos: “Presidente Trump”. Nunca na minha vida quis estar tão errado como agora.

Vejo o que você está fazendo agora. Está sacudindo a cabeça loucamente – “Não, Mike, isso não vai acontecer!”. Infelizmente, você está vivendo numa bolha anexa a uma câmara de eco, onde você e seus amigos vivem convencidos de que o povo americano não vai eleger um idiota como presidente.

Você alterna entre o choque e a risada por causa dos últimos comentários malucos que ele fez, ou então por causa do narcisismo vergonhoso de Trump em relação a tudo, afinal de contas tudo tem a ver com ele. E aí você ouve Hillary e enxerga a primeira mulher presidente, respeitada pelo mundo, inteligente, preocupada com as crianças, alguém que vai continuar o legado de Obama porque isso é obviamente o que o povo americano quer! Sim! Outros quatro anos disso!

Você tem de sair dessa bolha imediatamente. Precisa parar de viver em negação e encarar a verdade que sabe que é muito, muito real. Tentar se acalmar com fatos – “77% do eleitorado é composto por mulheres, negros, jovens adultos de menos de 35 anos; Trump não tem como ganhar a maioria dos votos de nenhum desses grupos!” – ou com a lógica – “as pessoas não vão votar num bufão, ou contra seus próprios interesses!” – é a maneira que seu cérebro encontra para te proteger do trauma. Como quando você ouve um estampido na rua e pensa “foi um pneu que estourou” ou “quem está soltando fogos?”, porque não quer pensar que acabou de ouvir alguém sendo baleado. É a mesma razão pela qual todas as primeiras notícias e relatos de testemunhas sobre o 11 de setembro diziam que “um avião pequeno se chocou acidentalmente contra o World Trade Center”.

Queremos – precisamos – esperar pelo melhor porque, honestamente, a vida já é uma merda, e é difícil sobreviver mês a mês. Não temos como aguentar mais notícias ruins. Então nosso estado mental entra no automático quando alguma coisa assustadora está realmente acontecendo. As primeiras pessoas atingidas pelo caminhão em Nice passaram seus últimos momentos na Terra acenando para o motorista; elas acreditavam que ele tinha simplesmente perdido o controle e subido na calçada. “Cuidado!”, elas gritaram. “Tem gente na calçada!”

Bem, pessoal, não se trata de um acidente. Está acontecendo. E, se você acredita que Hillary Clinton vai derrotar Trump com fatos e inteligência e lógica, obviamente passou batido pelo último ano e pelas primárias, em que 16 candidatos republicanos tentaram de tudo, mas nada foi capaz de parar essa força irresistível. Hoje, do jeito que as coisas estão, acho que vai acontecer – e, para lidar com isso, primeiro preciso que você aceite a realidade e depois talvez, só talvez, a gente encontre uma saída para essa encrenca.

Não me entenda mal. Tenho grandes esperanças em relação ao meu país. As coisas estão melhores. A esquerda ganhou a guerra cultural. Gays e lésbicas podem se casar. A maioria dos americanos têm uma posição liberal em relação a quase todas as questões: salários iguais para as mulheres; aborto legalizado; leis mais duras em defesa do meio ambiente; mais controle de armas; legalização da maconha. Uma enorme mudança aconteceu – basta perguntar ao socialista que ganhou as primárias em 22 Estados. E não tenho dúvidas de que, se as pessoas pudessem votar do sofá de casa pelo Xbox ou Playstation, Hillary ganharia de lavada.

Mas as coisas não funcionam assim nos Estados Unidos. As pessoas têm de sair de casa e pegar fila para votar. E, se moram em bairros pobres, negros ou hispânicos, não só enfrentam filas maiores como têm de superar todo tipo de obstáculo para votar. Então, na maioria das eleições é difícil conseguir que pelo menos metade dos eleitores compareça às urnas.

E aí está o problema de novembro — quem vai ter os eleitores mais motivados e mais inspirados? Você sabe a resposta. Quem é o candidato com os apoiadores mais ferozes? Cujos fãs vão estar na rua das 5h até a hora do fechamento da última urna, garantindo que todo Tom, Dick e Harry (e Bob e Joe e Billy Joe e Billy Bob Joe) tenham votado? Isso mesmo. Este é o perigo que estamos correndo. E não se iluda. Não importa quantos anúncios de TV Hillary fizer, quão melhor ela se portar nos debates, quantos votos os libertários roubarem de Trump — nada disso vai ser capaz de detê-lo.

Você precisa parar de viver em negação e encarar a verdade que sabe que é muito, muito real. Eis as 5 razões pelas quais Trump vai ganhar:

1. A matemática do Meio-Oeste, ou bem-vindo ao Brexit do Cinturão Industrial. Acredito que Trump vá concentrar muito da sua atenção em quatro Estados tradicionalmente democratas do cinturão industrial dos Grandes Lagos — Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. Estes quatro Estados elegeram governadores republicano desde 2010 (só a Pensilvânia finalmente elegeu um democrata). Nas primárias de Michigan, em março, mais eleitores votaram nos republicanos (1,32 milhão) que nos democratas (1,19 milhão). Trump está na frente de Hillary nas últimas pesquisas na Pensilvânia e empatado com ela em Ohio. Empatado? Como a disputa pode estar tão apertada depois de tudo o que Trump tem dito? Bem, talvez porque ele tenha dito (corretamente) que o apoio de Clinton ao Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte) ajudou a destruir os Estados industriais do Meio-Oeste.

Trump vai bater em Clinton neste tema, e também no tema da Parceria Trans-Pacífica (TPP) e outras políticas comerciais que ferraram as populações desses quatro Estados. Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan. Quando ele ameaçou a Apple da mesma maneira, dizendo que vai forçar a empresa a parar de produzir seus iPhones na China e trazer as fábricas para solo americano, os corações se derreteram, e Trump saiu de cena com uma vitória que deveria ser de John Kasich, governador do vizinho Estado de Ohio.

De Green Bay a Pittsburgh, isso, meus amigos, é o meio da Inglaterra: quebrado, deprimido, lutando. As chaminés são a carcaça do que costumávamos chamar de classe média. Trabalhadores nervosos e amargurados, que ouviram mentiras de Ronald Reagan e foram abandonados pelos democratas. Estes últimos ainda tentam falar as coisas certas, mas na verdade estão mais interessados em ouvir os lobistas do Goldman Sachs, que na saída vão deixar um cheque de gordas contribuições.

O que aconteceu no Reino Unido com a Brexit vai acontecer aqui. Elmer Gantry é o nosso Boris Johnson e diz a merda que for necessária para convencer a massa de que essa é a sua chance! Vamos mostrar para TODOS eles, todos os que destruíram o Sonho Americano! E agora o Forasteiro, Donald Trump, chegou para dar um jeito em tudo! Você não precisa concordar com ele! Você nem precisa gostar dele! Ele é seu coquetel molotov pessoal para ser arremessado na cara dos filhos da mãe que fizeram isso com você! DÊ O RECADO! TRUMP É SEU MENSAGEIRO!

E aqui entra a matemática. Em 2012, Mitt Romney perdeu por 64 votos no colégio eleitoral. Some os votos de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. A conta dá 64. Tudo o que Trump precisa para vencer é levar os Estados tradicionalmente republicanos de Idaho à Geórgia (Estados que jamais votarão em Hillary Clinton) e esses quatro do cinturão industrial. Ele não precisa do Colorado ou da Virgínia. Só de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. E isso será suficiente. É isso o que vai acontecer em novembro.

2. O último bastião do homem branco e nervoso. Nosso domínio masculino de 240 anos sobre os Estados Unidos está chegando ao fim. Uma mulher está prestes a assumir o poder! Como isso aconteceu?! Diante da nosso nariz! Havia sinais, mas os ignoramos. Nixon, o traidor do gênero, nos impôs a regra que disse que as meninas da escola têm de ter chances igual de jogar esportes. Depois deixaram que elas pilotassem aviões de carreira. Quando mal percebemos, Beyoncé invadiu o campo no Super Bowl deste ano (nosso jogo!) com um exército de Mulheres Negras, punhos erguidos, declarando que nossa dominação estava terminada. Meu Deus!

Este é apenas um olhar de relance no que se passa na cabeça do Homem Branco Ameaçado. A sensação é que o poder se lhes escapou por entre as mãos, que sua maneira de fazer as coisas ficou antiquada. Esse monstro, a “feminazi”, que, como diz Trump, “sangra pelos olhos ou por onde quer que sangre”, nos conquistou — e agora, depois de aturar oito anos de um negro nos dizendo o que fazer, temos de ficar quietos e aguentar oito anos ouvindo ordens de uma mulher? Depois disso serão oito anos dos gays na Casa Branca! E aí os transgêneros! Você já entendeu onde isso vai parar. Os animais vão ter direitos humanos e uma porra de um hamster vai governar o país. Isso tem de acabar!

3. O problema Hillary. Podemos falar sinceramente, só entre nós? E, antes disso, permita-me dizer que gosto de Hillary — muito — e acho que ela tem uma reputação que não merece. Mas ela apoiou a guerra no Iraque, e depois disso prometi que jamais votaria nela de novo. Mantive essa promessa até hoje. Para evitar que um protofascista se torne nosso comandante-chefe, vou quebrar essa promessa. Infelizmente acredito que Hillary vá dar um jeito de nos enfiar em algum tipo de ação militar. Ela está à direita de Obama. Mas o dedo do psicopata Trump vai estar No Botão, e isso é o suficiente. Voto em Hillary.

Vamos admitir: nosso maior problema aqui não é Trump — é Hillary. Ela é extremamente impopular — quase 70% dos eleitores a consideram pouco confiável e desonesta. Ela representa a política de antigamente: faz de tudo para ser eleita. É por isso que ela é contra o casamento gay num momento e no outro está celebrando o matrimônio de dois homens. As mulheres jovens são suas maiores detratoras, o que deve magoar, considerando os sacrifícios e batalhas que Hillary e outras mulheres da sua geração tiveram de enfrentar para que a geração atual não tivesse de ouvir as Barbara Bushes do mundo dizendo que elas têm de ficar quietas e bater um bolo.

Mas a garotada também não gosta dela, e não passa um dia sem que um millennial me diga que não vai votar em Hillary. Nenhum democrata, e seguramente nenhum independente, vai acordar em 8 de novembro para votar em Hillary com a mesma empolgação que votou em Obama ou em Bernie Sanders. Não vejo o mesmo entusiasmo. Como essa eleição vai ser decidida por um único fator — quem vai conseguir arrastar mais gente pra fora de casa e para as seções eleitorais –, Trump é o favorito.

4. O eleitor deprimido de Sanders. Pare de reclamar que os apoiadores de Bernie não vão votar em Clinton — eles vão votar! As pesquisas já mostram que um número maior de eleitores de Sanders vai votar em Hillary este ano do que o de eleitores de Hillary que votaram em Obama em 2008. Não é esse o problema. O alarme de incêndio que deveria estar soando é que, embora o apoiador médio de Sanders vá se arrastar até as urnas para votar em Hillary, ele vai ser o chamado “eleitor deprimido” — ou seja, não vai trazer consigo outras cinco pessoas. Ele não vai trabalhar dez horas como voluntário no último mês da campanha.

Ele nunca vai se empolgar falando de Hillary. O eleitor deprimido. Porque, quando você é jovem, não tem tolerância nenhuma para enganadores ou embusteiros. Voltar à era Clinton/Bush para eles é como ter de pagar para ouvir música ou usar o MySpace ou andar por aí com um celular gigante. Eles não vão votar em Trump; alguns vão votar em candidatos independentes, mas muitos vão ficar em casa. Hillary Clinton vai ter de fazer alguma coisa para que eles tenham uma razão para apoiá-la — e escolher um velho branco sem sal como vice não é o tipo de decisão arriscada que diz para os millennials que seu voto é importante. Duas mulheres na chapa — isso era uma ideia boa. Mas aí Hillary ficou com medo e decidiu optar pelo caminho mais seguro. É só mais um exemplo de como ela está matando o voto jovem.

5. O efeito Jesse Ventura. Finalmente, não desconte a capacidade do eleitorado de ser brincalhão nem subestime quantos milhões de pessoas se consideram anarquistas enrustidos. A cabine de votação é um dos últimos lugares remanescentes em que não há câmeras de segurança, escutas, mulheres, maridos, crianças, chefes, polícia. Não tem nem sequer limite de tempo. Você pode demorar o tempo que for para votar, e ninguém pode fazer nada. Você pode votar no partido, ou pode escrever Mickey Mouse e Pato Donald. Não há regras, E, por isso, a raiva que muitos sentem pelo sistema político falido vai se traduzir em votos em Trump. Não porque as pessoas concordem necessariamente com ele, não porque gostem de sua intolerância ou de seu ego, mas só porque podem.

Só porque um voto em Trump significa chutar o pau da barraca. Assim como você se pergunta por um instante como seria se jogar das cataratas do Niágara, muita gente vai gostar de estar no papel de titereiro, votando em Trump só para ver o que acontece. Lembra nos anos 1990, quando a população de Minnesota elegeu um lutador de luta livre para governador? Elas não o fizeram porque são burras ou porque Jesse Ventura é um estadista ou intelectual político. Elas o fizeram porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente com um senso de humor distorcido — e votar em Ventura foi sua versão de uma pegadinha no sistema político. Vai acontecer o mesmo com Trump.

Voltando para o hotel depois de participar de um programa da HBO sobre a convenção republicana, um homem me parou. “Mike”, ele disse, “temos de votar em Trump. TEMOS que dar uma chacoalhada as coisas”. Foi isso. Era o suficiente para ele. “Dar uma chacoalhada nas coisas”. O presidente Trump certamente faria isso, e uma boa parcela do eleitorado gostaria de sentar na plateia e assistir o show.

Fonte: BrasilPost

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Porto Alegre, beira do Guaíba, hoje

O novo prefeito saúda seus eleitores.

morte

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Acho que chegou a hora de parar com o #ForaTemer para dar atenção à gravidade da PEC 241, por exemplo

Ontem à noite, enquanto você finalizava seu fim de semana, ocorria, em Brasília, um banquete oferecido por Michel Temer para seus aliados. Estavam lá cerca de 200 deputados com suas companheiras. Espumantes foram servidos em taças de cristal e o prato principal foi a PEC 241, cujo objetivo é o de limitar por 20 anos os investimentos em diversas áreas como saúde, educação e agricultura familiar. Vejamos o que mudaria.

banquete-temer-pec-241

Enviada em junho pela equipe de Michel Temer à Câmara dos Deputados, a proposta prevê que tais gastos não poderão crescer acima da inflação acumulada no ano anterior. Atualmente, os gastos com saúde e educação são vinculados à evolução da arrecadação federal. Algo bem razoável, porque a melhoria da educação e da saúde é elemento básico do desenvolvimento e hoje a situação é crítica nestas áreas. O governo determina, deste modo, que a coisa não vai melhorar. Por 20 anos. A 241 simplesmente ignora uma eventual recuperação da situação econômica do País.

A vinculação à arrecadação — que está na Constituição de 1988 — expressa conquistas sociais obtidas em décadas de lutas e que nossa elite quer pulverizar de uma só vez. A ideia expressa na Constituição tem o objetivo de fazer com que as áreas de educação e saúde — áreas fundamentais, não? — cresçam juntamente com o país, independentemente do governo que esteja no poder.

Dessa forma, o Novo Regime Fiscal proposto pelo governo Temer retira da sociedade e do Parlamento a prerrogativa de determinar anualmente o orçamento destinado a essas áreas, que só poderá crescer conforme a variação da inflação, não conforme a arrecadação. Talvez assim sobre mais dinheiro para investimentos, dizem eles, talvez referindo-se à corrupção.

A 241 é tida como uma das principais razões da aliança entre PMDB e PSDB. A proposta está afinada com a política de austeridade defendida pelos tucanos. E seria interessante para eles, que almejam o Planalto em 2018, vê-la aprovada sem ter o impopular ônus de serem os responsáveis por ela.

Autor da medida, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, classificou a PEC 241 de “dura” e fim.

O tema é urgente para o governo. Afinal, as próximas eleições são só daqui dois anos. É o momento para aprovar tudo o que for impopular. Aliado do governo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), marcou para hoje (10/10) a primeira votação da PEC 241 no plenário da Câmara.

Temer e Maia no festim de ontem à noite.

Temer e Maia no festim de ontem à noite.

Para ser aprovada, a PEC precisa passar por duas votações na Câmara e também no Senado. A intenção do governo é liquidar as quatro votações ainda este ano. Como se trata de alteração constitucional, a aprovação depende do apoio de três quintos dos votos na Câmara e no Senado, ou seja, 308 deputados e 49 senadores.

Nos bastidores, a PEC 241 é tratada como uma espécie de teste. Se o governo não for capaz de aprová-la, também não conseguirá aprovar a reforma da Previdência, tampouco mudanças na legislação trabalhista.

E o pessoal tem falado pouco nisso. Chegou a hora de parar com a bobagem do Fora Temer — ele não vai cair mesmo — e dar atenção à realidade.

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O deputado Elvino Bohn Gass fez um vídeo bem claro explicando o que teria acontecido se a PEC 241 já existisse. Concordo com tudo o que ele diz, excetuando-se a utilização do termo “maldade”. Não é maldade, é apenas a visão de nossas elites.

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E o imposto sobre grandes fortunas… Nada, né?

pec-241

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Este é mais um recado de nosso partido, o PUM.

PUM - Partido Utopico Moderado

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