Pequena correção à verborragia do prefeito Marchezan Jr.

Num de seus arroubos verborrágicos no Facebook, o prefeito Marchezan Jr., o Juninho do MBL, disse que o Sul21 seria um veículo da “esquerda radical” e que seu “dono teria trocado o PT pelo PSOL”. Tal afirmativa me causa frouxos de riso e certa perplexidade. Sempre sublinhando minha qualidade de reles funcionário, gostaria de dizer humildemente que sou o único filiado ao PSOL que trabalha no jornal. Completo dizendo que não sou nada militante.

Talvez esteja sendo imodesto ao me inserir no caso, mas creio que algum assessor tenha feito confusão. Sou o veterano de nossa pequena aldeia gaulesa, mas meu cabelo e barba grisalhas, já quase brancas, não me fazem “dono do Sul21“. Na verdade, meu cargo está mais para o de Chatotorix do que para o do grande chefe Abracurcix, aquele que tinha medo que céu caísse sobre sua cabeça.

O bardo Chatotorix

O cotidiano do bardo Chatotorix

Interesso-me muito por redes sociais e a página Nelson Marchezan Júnior, do Facebook, muito me diverte por seu papel de meio de promoção pessoal e ataque a partidos de oposição, sindicatos, servidores e adversários políticos. Mas evitarei dar minha opinião a respeito. Acho que é fácil deduzir.

Completo dizendo que o Sul21 não tem apenas um dono.

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A nova programação da FM Cultura é…

Vejam a reação do público à estreia de Renato Martins na FM Cultura antes que deletem. Um sucesso. A FM Cultura era uma das coisas boas deste estado.

Vamos tentar dar amplificação a quatro manifestações sobre a nova FM sem Cultura e outra de antes da “modernização”.

1. José Fernando Cardoso, funcionário da rádio.

Gente amiga (2), um último esclarecimento sobre as mudanças na Programação da FM CULTURA, pra que não haja alguma dúvida – e parece que tá ocorrendo um certo ruído, especialmente em relação a uma frase do presidente da FUNDAÇÃO PIRATINI, Orestes de Andrade Júnior, postada aqui no Facebook, de que “ouvimos e construímos uma nova grade junto com os servidores”. Sim, de fato Orestes e alguns membros de sua diretoria nos ouviram: nós, servidores da FUNDAÇÃO lotados na RÁDIO, fizemos três reuniões com eles na semana retrasada – e depois houve mais duas, com o novo diretor, Paulo Inchauspe, e os três programadores musicais, eu, Martinha e Clarisse. Nas reuniões com o Orestes, nos foi apresentada, num primeiro momento, uma nova grade, fechada, que acabaria por sofrer (mínimas) alterações depois de críticas e sugestões nossas. Pra se ter uma ideia, no primeiro modelo de grade não constava o ‘Conversa de Botequim’, simplesmente o programa mais conhecido e reconhecido – pelos ouvintes, músicos, colegas, apoiadores, jornalistas, divulgadores etc. – de toda a história de 28 anos da FM CULTURA. Insistimos que o ‘Conversa’ e o ‘Estação Cultura’ não poderiam cair: conseguimos manter o primeiro – e sugerimos o Demétrio Xavier pra apresentá-lo, já que a direção insistiu que o Luiz Henrique não mais poderia exercer a função -, mas infelizmente perdemos a batalha pelo segundo. Então, dizer que a grade foi construída conosco não é exatamente o que aconteceu – nossa compreensão sobre a discussão é bem diversa. Não concordamos com quase nada do que foi proposto pelos gestores: nem a troca dos apresentadores da Casa por terceirizados, nem a supressão de programas, nem o ‘Clássicos’ sendo jogado lá pra madrugada – é daí que surgiu a frase do “tu e mais 6”, quando uma colega nossa disse que era ouvinte assídua -, nem a inclusão de música estrangeira – que já é contemplada nos programas jornalísticos ‘Café Cultura’, ‘Cultura Na Mesa’, ‘Estação Cultura’ e segmentados –, o que fatalmente vai ocasionar perda de espaço para músicos locais e nacionais -, nem o esvaziamento do ‘Café Cultura’, que terá outro formato, muito mais superficial – risco que corre também o ‘Cultura Na Mesa’. Portanto, concluindo: a grade já estava modificada, 95% do que muda já estava decidido, nos opusemos de maneira muito clara, questionamos se essas medidas não deveriam passar pelo Conselho Deliberativo – eu, o colega Walmor Sperinde e o próprio Orestes, que ocupava uma das cadeiras do colegiado como representante da SECOM, sabemos disso de cor, até porque a FUNDAÇÃO ainda não foi extinta, então seu Estatuto e Diretrizes ainda tão valendo -, mas o atual presidente disse que entende que isso não é necessário. Então o que foi feito é que, a partir de nossa discordância, demonstrada já de cara e de forma veemente, deixou-se uma margem – pequena, minúscula, eu diria – para que sugestões nossas fossem levadas em conta. O que é bem diferente de uma construção conjunta, entre servidores e direção, da nova grade de Programação. O que aconteceu foi isso, perguntem aos demais colegas que lá estavam. Abraço a todos. E a luta continua.

2. Francisco Marshall, historiador.

DE ONDAS E DETRITOS

Se você fosse o dono ou gestor de uma empresa, trocaria uma funcionária culta, bem preparada tecnicamente, dedicada, reconhecida e aclamada por seu público, prestando um serviço relevante para a comunidade, pessoa certa no lugar certo, por seu oposto?

E trocaria um produto sofisticado, relevante, correto, bonito, singular, bem acolhido por seu público, por uma babaquice vulgar estilo camelódromo?

Resposta hoje vigente: “sim, afinal a empresa não é minha, o risco de solapá-la não atinge meu patrimônio, e o acionista maior (meu chefe) gosta mesmo de uma boa babaquice vulgar e aduladora. Ademais, se eu quebrar esta empresa, haverá quem aplauda, como há quem goste de me ver agredindo seus técnicos e seus clientes.”

3. Marcos Abreu, engenheiro de som.

FM Cultura

4. Renato Martins, apresentador do Café Cultura, comprovando o “mais do mesmo” em emissora pública.

Renato Martins comprovando o mais do mesmo

5. E vejam este post, por favor.

Aqui, o link, vale a pena clicar.. Hoje recebi uma visita pra lá de especial. A professora Isabel Velásquez é mexicana. Vive nos EUA. Leciona linguística na University of Nebraska. Lá ela ouve, diariamente, a FM Cultura! Fã de MPB, não perde um Conversa de Botequim. Apoiado por esta livreira. Participando de um seminário na PUC, as professoras que a acompanharam disseram que há três dias ela quer vir conhecer a livraria que apoia uma rádio cultural. E veio. Disse que a Bamboletras faz parte de seu imaginário cotidiano. Ao ouvir a rádio pensava: como será essa livraria? Agora conhece. Coisa de gente que ama os livros. Foi um lindo encontro!

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14 de junho de 2017: A Noite da Maldade em Estado Puro

O RS é um estado triste administrado por um merda. Porto Alegre — local onde nasci e onde vivo — é uma cidade truculenta, capaz de desalojar crianças numa noite como a de ontem. Somos um estado hipócrita e sujo, que tem Campanha do Agasalho para que a primeira dama apareça e que depois, em noite gelada, pede para a Brigada tirar o teto de 200 pessoas que não têm para onde ir. Foi uma noite horrorosa, de guerra contra desarmados e desamados, patrocinada por Sartori, pelo PMDB gaúcho e seus aliados. Espero que ninguém esqueça da noite desumana de 14 de junho de 2017 na hora de votar em outubro de 2018. Noite gelada, famílias postas no olho da rua, silêncio de parte da imprensa e prisão de deputado — fato apenas importante em relação às famílias por não ter ocorrido desde a ditadura. Meu pequeno consolo é não ter votado em nenhum deles. Nem de perto. Isso não me dá nenhum mérito. Gauchada burra, vá tomar no cu!

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Foto de Guilherme Santos / Sul21

Aline S. G. (não pretendo sujar meu blog com seu nome completo, nem receber eventuais visitas deste tipo de gente) é o nome da juíza que autorizou a reintegração de posse de um prédio que ficou mais de dez anos abandonado e que nos últimos dois anos abrigava 70 famílias (homens, mulheres, crianças, idosos, etc.). Preocupada com o trânsito de veículos na região, determinou que a desocupação ocorresse à noite, autorizando o uso de força contra crianças, idosos, mulheres e homens. Esta senhora recebe um salário de milhares de reais. Além de outros tantos benefícios, percebe também R$ 4.300,00 de auxílio moradia, pagos com dinheiro público.

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Neste momento, o bairro Anchieta está mais tranquilo do que água de poço

Confiram abaixo, nas fotos do meu amigo Fernando Guimarães, a tranquilidade do bairro neste momento, 24h após o término de chuvas que, ao menos no Bomfim, não causou falta de luz. Uma raridade. Fernando tirou a foto desde sua janela, de onde pode ver a placidez da paisagem.

Foto: Fernando Guimarães

Foto: Fernando Guimarães

Foto: Fernando Guimarães

Foto: Fernando Guimarães

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Ontem, um pequeno grupo pedia “Eleições Indiretas” no Parcão

Eu passei ontem por esses caras quando vinha a pé do Restaurante Baalbek para casa. Eles estavam em duas esquinas do Parcão. Uma era dos “Livres17” (foto) e outra esquina do “Novo”. (Aqui, uma foto clara).

Foto do perfil do Facebook de Fernanda Santos

Foto do perfil do Facebook de Fernanda Santos

O foco deles não era protestar contra a corrupção, mas pedir a renúncia de Temer e eleições… indiretas. Ou seja, têm medo de diretas. Assim, o novo governo ficaria com a mesma turma de hoje. Eram poucos e apoiados, dentre outros, por um grupo do Facebook chamado simplesmente ELEITORES DE BOLSONARO.

Então, para eles não importa o quão imoral seja o Congresso Nacional. O importante é evitar a participação popular e manter as Reformas propostas pelo atual governo e já sinalizadas como aprovadas por um Congresso mais do que espúrio, cuja boa parte — falam em 60% — responde a processos criminais por crimes que variam de evasão fiscal a tentativa de assassinato. O interesse coletivo que se dane, eles ficam com seus criminosos.

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Uma viagem de ônibus

Foto: Joana Berwanger / Sul21

Foto: Joana Berwanger / Sul21

Apesar do absurdo preço da passagem, eu tenho uma excelente relação com os ônibus. No passado, fazia diariamente um longo percurso e eles me davam a oportunidade de ler tranquilamente uma hora por dia. Gostava do transporte público, tinha a sorte de pegar o ônibus lá longe e sentado. Bem, pois hoje de manhã vinha sentado, lendo o monólogo altamente erótico de Molly Bloom. Ela estava naquela parte dos seios aparecendo na adolescência, das primeiras tentativas, tudo isso enquanto a camisola enrolava-se em suas pernas durante sua célebre insônia com o sono de Leopold a seu lado. Eu estava sentado ao lado de uma bela gremistinha toda orgulhosa com a camiseta, só que ela logo saiu do ônibus. Foi quando sentou-se o portento a meu lado.

Sim, sei, o politicamente correto, que saco. Pobres dos obesos, alguns são pessoas com problemas graves, mas guardo-lhes simpatia. Por alguma razão, a maioria deles é bem humorada. Evidentemente, o homem tinha o direito de estar ali. Afinal, se sem distúrbios eu tenho dificuldades para manter meu peso… Mas não posso deixar de me emputecer quando alguém me cola de encontro à parede do ônibus. Percorri vários quilômetros como uma lagartixa pressionada. Segui lendo meu Ulysses, com os braços grudadíssimos ao corpo e procurei me divertir com o efeito de minha respiração sobre ele. Quando enchia o pulmão, eu invadia o espaço territorial dele, fazendo com que suas carnes subissem (isso eu via pela visão periférica). Busquei encher os pulmões o mais que podia para ver a parte adiposa de seu braço e de parte de seu peito subirem no meu ritmo. Como meus amigos dizem, encontro aspectos lúdicos em quase tudo.

Talvez se dando conta de que minha respiração dominava o lado esquerdo de seu corpo, o gordo cruzou os braços. A situação piorou. Em resposta, dei um suspiro que não parecesse agressivo. Não adiantou nada. Quando cheguei ao Centro, fiz questão de guardar o livro na bolsa com o cara grudado em mim. Queria chacoalhar um pouco mais o sujeito. Mas não deu certo. Ele afastou educadamente o corpo e ainda disse bem simpático:

— Tá lendo a Bíblia, tchê?

Sorrindo, respondi que o que lia era muito mais divertido. Mostrei a capa do livro e enfiei:

— E tu? Gosta de ler a Bíblia?

— Ih, tá louco. Eu só leio policiais.

E abriu um sorriso.

— Agatha Christie? Simenon? Padura? Garcia-Roza? Ou os norte-americanos?

— Simenon e Padura.

Pronto, me conquistou. Saímos no fim da linha no maior papo sobre Maigret e Conde.

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Eu e uma crente em um ônibus em Porto Alegre

A mezzo-soprano sueca Anne Sofie von Otter

A mezzo-soprano sueca Anne Sofie von Otter

Na segunda à tarde, durante um intervalo, fui pegar algumas coisas na casa de um amigo. Entrei num ônibus, sentei e abri um Simenon enquanto Anne Sofie von Otter cantava Rheinlegendchen ou Wer hat dies Liedlein erdacht? de Gustav Mahler em meus fones. Logo passou um homem que nem vi o rosto e depositou um bilhete de tamanho mínimo na minha mão:

QUERIDOS IRMÃOS PRECISO DE VOCÊS PERDI MINHA MÃEZINHA SOFRO DO VÍRUS DO HIV ESTOU ME TRATANDO COM COQITEL E ESTOU DESEMPREGADO ESTA DIFÍCIL O EMPREGO TENHO UMA FILHA DE 2 ANOS QUE ESTA PASSANDO FOME PESSO SUA AJUDA OBRIGADO
MARCOS E VITÓRIA (nomes alterados)

Juntei uma nota de dinheiro ao bilhete e segui lendo o livro acompanhado de Anne. Quando senti que ele voltava, ergui a mão direita com a nota e o bilhete entre o indicador e o dedo médio um pouco acima de minha cabeça. Porém, o homem não me viu e saiu para tentar a sorte em outro ônibus.

Então, uma senhora falou em voz altíssima que era um absurdo dar R$ 10,00 a um vagabundo e que eu faria melhor doando meu dinheiro à igreja. Subitamente e ainda meio zonzo, caí de meu mundo e notei que aquilo era para mim. Fiquei surpreso. R$ 10,00? Nas vezes em que dou dinheiro para pedintes, meu máximo é R$ 2,00, o valor aproximado de um litro de leite — um critério absolutamente pessoal. Fora um engano. Sem tirar os olhos do livro, guardei a nota, o bilhete e levantei bem alto um solitário dedo médio para que a beata o visse claramente. Nem sempre sou um lord.

O ônibus achou graça e ela me chamou de mal-educado em pavoroso discurso de meio minuto, no mínimo. Lembrei do que um amigo um dia me disse:

É impressionante a quantidade de filhos-da-puta entre os crentes.

Desci na minha parada sem maiores incomodações. Mas como canta a Anne Sofie von Otter!

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Armas… pela vida! Homens de Bem e Bons de Mira, Uni-vos!

armas pela vida logo

No próximo domingo, 19 de março, no Parcão, haverá um ato em prol do direito de defesa em Porto Alegre. Ele se chama Armas pela Vida…

É claro que o movimento “Armas pela Vida” — em Porto Alegre capitaneado por um grupo luminar de vereadores — está cheio de razão. Como a sociedade gaúcha e porto-alegrense está tranquila, há pleno emprego, a temperatura está amena e a psicologia de todos está 100%, nada mais adequado do que armar todo mundo. Deste modo, os pequenos entraves da vida diária — brigas de trânsito, entre vizinhos e antipatias de um modo geral — poderão ser discutidas sem a presença do estado, esta coisa pesada e comedora de impostos. Pense, por exemplo, num casal em vias de separação e no profundo ódio que os une. A presença de armas em casa resolveria o problema imediatamente, evitando um enorme investimento de angústia e longos processos.

Os homens de bem receberiam uma carteirinha e treinariam tiro. Então, em vez de chamar uma polícia que quase não existe, a coisa poderia ser resolvida rápida e certeiramente com um disparo no coração do elemento, dado por um Homem de Bem e Bom de Mira (pode ser mulher, por que não?). Tais BO`s reduziriam o número de bandidos — os presídios se esvaziariam com a morte precoce das pessoas que cometem ilícitos — e o trabalho do Judiciário. Mais: se a população fosse bem treinada nas artes de tiro, não haveria a necessidade de tantos leitos hospitalares! O limpo e digno mercado funerário ficaria tão aquecido quanto nossos revólveres. Lembram de John Lennon cantando “Happiness is a warm gun”?

É óbvio que os roubos e assassinatos diminuiriam sobremaneira com uma população armada. Os bandidos se sentiriam intimidados com a possibilidade das vítimas tornarem-se seus algozes. Os estudantes iriam às aulas portando metralhadoras, impedindo o roubo de suas mochilas e tênis de marca. Eu iria adorar caminhar pela rua vendo os bolsos de todos cheios de armamento letal.

E não deixem que os idiotas digam que não se combate a barbárie com mais barbárie! Bala neles também! Afinal, uma rodinha de violão, um livro, um churrasco ou uma sala de concerto jamais resolveram o problema da segurança. O negócio é transformar Porto Alegre no Velho Oeste.

Chega de viver como gado e morrer como frangos!

Os vereadores Valter Nagelstein, Monica Leal, Comandante Nádia, Mendes Ribeiro, Wambert Di Lorenzo e Felipe Camozzato, junto com o representante do Armas Pela Vida Pedro Meneguzzi.

Os vereadores Valter Nagelstein, Monica Leal, Comandante Nádia, Mendes Ribeiro, Wambert Di Lorenzo e Felipe Camozzato, junto com o representante do Armas Pela Vida Pedro Meneguzzi | Foto da página do Facebook do movimento

Bem...

Bem…

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Museu Iberê Camargo: mais um absurdo da provinciana e atrasada Porto Alegre

Quando certa manhã Álvaro Siza acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se pensando que aquilo que lhe passara pela cabeça seria uma maravilhosa realidade: um gigante pilotando uma enorme pá, enterrando fundo seu instrumento de trabalho na beira do Guaíba, para depois erguer do chão o Museu Iberê Camargo e perguntar para onde deveria levá-lo. A resposta seria óbvia: para uma cidade que desse um mínimo de atenção para a cultura.

Foto: Elvira Tomazoni Fortuna

Foto: Elvira Tomazoni Fortuna

Não sei como Álvaro Siza Vieira foi construir uma de suas mais belas obras em Porto Alegre, o que sei é que a cidade não a merece. Trata-se de um museu de arte, um lindo prédio branco e iluminado na mais bela região da cidade com estacionamento no subsolo… Mas vejam só — funciona apenas dois dias por semana, sexta e sábado. Talvez os ônibus nem parem mais na frente do Iberê. Não sei de vocês, mas eu sofro com isso. Como minha cidade pode descuidar tanto de seu patrimônio cultural?

A obra é um achado. Espaçoso, privilegia a entrada de luz e a visão das águas do Guaíba. Deveria estar sempre lotado, com escolas durante o dia, mais visitantes e turistas. Em quase todos os lugares do mundo, os museus abrem todos os dias, exceto às segundas-feiras. São importantes não apenas para arte e sua memória, mas para o turismo. Só que aqui, no provinciano e cada vez mais cu do mundo chamado Porto Alegre, não há empresas, mecenas ou governo que possam assumir o local.

Só o prédio de Siza já seria uma atração para o turismo cultural. Foi vencedor de vários prêmios internacionais. Aliás, Siza é o mais premiado dentre os arquitetos vivos. Mas, daqui alguns anos, sua obra porto-alegrense deverá ser uma ruína cheia de vazamentos e pintura gasta. Já estou até me imaginando, velhinho, olhando o pôr do sol sentado na frente do bar — talvez igualmente fechado –, contando como aquilo foi maravilhoso durante uns poucos anos.

Não gosto nem de passar na frente. Para piorar, tem um pardal que faz com que todos os carros reduzam a velocidade quando passam por ele, o que faz com a gente observe bem a obra. E não entre.

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Hoje, passando pelo Arroio Dilúvio na Av. Ipiranga, em Porto Alegre…

… tirei esta foto das pessoas se refrescando e passeando. Ah, não é o Dilúvio? Todo mundo tem medo de sair na rua em Porto Alegre e o Dilúvio permanece poluído? Extremamente poluído? A foto é de Seul, capital da Coreia do Sul, e o Dilúvio de lá chama-se Cheonggyecheon? Ah, tá. Peço desculpas pelo sonho.

Arroio Diluvio

via Arroio Dilúvio

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Uma aventura no ‘Tudo Fácil’ de Sartori

Ontem fui ao Tudo Fácil, onde fui fazer uma nova Carteira de Trabalho porque a minha está lotada de anotações. Já tinha revisado os documentos necessários e estava com tudo em dia e novinho. O atendente elogiou o estado de minha Carteira atual. “O Sr. é uma pessoa caprichosa”, disse. Então, o burocrata acordou nele e se pronunciou do modo que segue: “Mas antes o Sr. terá que fazer uma nova Carteira de Identidade porque essa foi feita sobre a sua Certidão de Nascimento e o Sr. é oficialmente divorciado”. Então, fiquei sabendo que um casamento é como nascer de novo, apesar de eu ter quase morrido no meu, aquela infelicidade toda. Depois de casar, a Certidão de Nascimento não vale mais porra nenhuma.

Já bastante puto, fui para a fila da Identidade. Mostrei todos os meus documentos e tudo ia bem até que a mocinha burocrata chamou uma colega que chamou mais uma que, por sua vez, chamou o chefe. Acontece que o sistema diagnosticava “Sorriso Detectado”, rejeitando minha foto. Sem exagero, tiraram 20 fotos minhas. “Ergue o queixo, não, não, abaixa um pouquinho”, essas coisas. Em todas eu estava sério, cada vez mais sério, mas a merda dizia que eu sorria. Olhavam para mim e diziam um pro outro, “deve ser a barba”. Já tinha umas 10 (dez) pessoas me atendendo. Então, eu falei que ia fazer cara de morto. Caprichei para imitar o olhar daqueles peixes da Semana Santa no Mercado. Deu certo. Obtive a foto mais horrorosa de todos os tempos. Parecia a Anna Kariênina depois do trem. Porém, finalmente o sistema deu OK. Agora são 15 dias para a nova Identidade e mais 15 para a Carteira de Trabalho. Entro em férias bem no meio deste período. Tudo fácil.

P.S.– Ah, e ainda tenho que pagar por estes documentos.

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A Biblioteca Pública volta ao lar: “Vamos resgatar o público que perdemos e muito mais”, diz diretora

Publicado em 20 de dezembro de 2015 no Sul21

Na tarde da última segunda-feira (14), a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul foi devolvida à população. Antes, pela manhã, conversamos longamente com sua diretora Morganah Marcon. O clima era de entusiasmo. Afinal, os funcionários e os livros estavam finalmente voltando para a bela casa cuja construção começou em 1912 e aberta ao público no formato atual em 1922. Há 93 anos, portanto. Ela ainda não está 100% pronta, mas já é perfeitamente habitável para eles e mais 250 mil volumes.

É um dos prédios mais bonitos do RS. Há mármores, parquês e mobiliário requintado, além de pinturas e esculturas. O revestimento das paredes internas tem pinturas decorativas. Quando foi inaugurada em 1922, a imprensa da época saudou o prédio como “do mais alto gabarito e elegância”. Quem entrar hoje na renovada Biblioteca não terá dúvidas disso.

A Biblioteca nunca deixou de funcionar, mas o prédio principal, na esquina da Riachuelo com a Ladeira, estava fechado ao público desde 2008.

Morganah Marcon falou-nos sobre a história, as várias funções e os problemas da instituição que começou sua vida em 1871, através da Lei Provincial nº 724, que autorizou o gasto de até oito contos de réis para aquisição de livros, ao mesmo tempo que criou um cargo de bibliotecário e outro de contínuo.

A querida Biblioteca já teve 40 funcionários, hoje conta com apenas 18.  Mas não pensem que eles não têm grandes planos. “Somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido”. 

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Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Tu és diretora da Biblioteca Pública desde 2003. Quando entraste, trabalhavas neste prédio. Quais eram as condições?

Morganah – Sim, eu assumi por convite de Roque Jacoby, Secretário de Cultura na época. O prédio tinha as aberturas, os pisos e os entrepisos bastante comprometidos. Havia também muitos vidros quebrados, outros estavam fora do padrão, enfim, tinha coisas inaceitáveis em um prédio histórico. Também os ornamentos da fachada corriam o risco de cair na calçada. Era um prédio de 1912 que exigia uma grande reforma, um restauro e os recursos disponíveis eram muito pequenos, em torno de R$ 465 mil reais, viabilizado pelo Projeto Monumenta. Não dava para fazer grande coisa, só o mais urgente. Isso foi entre 2006 e 2007, até nem houve a necessidade de sairmos do prédio. Porém, nesse meio tempo, nós montamos um projeto da Lei Rouanet, um projeto na época orçado em R$ 14 milhões e que incluía tudo, inclusive o restauro das pinturas murais. Deste projeto, nós conseguimos captar, em 2008, com o BNDES, R$2 milhões e 556 mil. E fizemos algo fundamental, que era a substituição dos entrepisos de madeira. Sob o piso de parquê tinham tábuas e estas estavam comprometidas. Elas pesavam como papel, cheia de cupins. O entrepiso foi substituído por um painel wall, que é um material que não pega cupim e que deve durar o resto da vida. Os parquês originais foram restaurados com um aproveitamento de 99%. Isso foi feito em todo o prédio, com exceção de duas salas.

Sul21 – Vocês ficaram quanto tempo fora daqui?

Morganah – Sete anos, desde 2008. No final de 2007, nós tivemos que sair, lá por outubro ou novembro, porque iam ter que mexer num dos pisos lá embaixo. Então nós saímos para a Casa de Cultura Mario Quintana.

Sul21 – E como é que sobrevive uma biblioteca fora da biblioteca?

Morganah – Foi difícil, foi muito difícil, porque tu perdes um pouco tua identidade, tu perdes a referência. É uma instituição dentro de outra instituição e esse monte de prédios públicos estaduais não tem condições de abrigar uma biblioteca. Ou requer um reforço estrutural muito grande, com investimento de vulto, ou é muito pequeno. Eu vasculhei todos os prédios do estado disponíveis. Todos os setores, mas não todo o acervo, foi para a CCMQ. Na época, ela tinha alguns espaços pouco utilizados. Ao longo desse tempo, nós fizemos outros projetos também, fizemos a higienização do acervo de obras raras, por exemplo. Enfim, a biblioteca sobrevive assim, porque entra governo e sai governo, as verbas para cultura sempre são escassas. Quando abre edital, a gente manda projeto.

Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Para muita gente, a Biblioteca Pública tinha fechado para sempre.

Morganah – Pois é, mas nós nunca estivemos fechados. Esses dias eu quase dei um beijo num rapaz ali na ferragem… É uma empresa familiar. Eu fui comprar umas lâmpadas e estavam presentes o pai, a mãe e o filho. Eu falei que era diretora da biblioteca, que a gente estava reabrindo e a mãe disse: ‘Ah, a biblioteca estava fechada’’, aí o filho disse ‘Não, a biblioteca nunca esteve fechada’. Aí eu pensei: meu Deus, é a primeira pessoa que eu falo e que tem essa interpretação, que é a correta. Nós nunca fechamos. Nós levamos os serviços todos, o setor de empréstimo de livros, toda a parte de pesquisa no acervo geral, no setor do Rio Grande do Sul, levamos o setor Braille, o acesso à internet gratuito, levamos tudo para a CCMQ.

Sul21 – Já disponibilizavam internet antes de sair?

Morganah – Sim, antes de sair. É algo bastante procurado. Temos Wi-Fi agora, que é uma novidade. Nós levamos todos os setores para a CCMQ. O que nós não levamos foi todo o acervo. Do acervo do RS levamos uma pequena parte, porque ele é muito grande, e deixamos o restante nas estantes aqui, organizados. Então, quando havia a necessidade de um livro que estava aqui, a gente vinha buscar para o pesquisador examinar na CCMQ. Por todo este período, nós nunca deixamos nossos leitores desatendidos. Mas a maioria ficou com essa impressão: a de que a biblioteca estava fechada esse tempo todo. Eu perdi a conta de quantas entrevistas eu dei para rádios, TVs e jornais avisando que nós estávamos na Casa de Cultura Mario Quintana. Eu chego à conclusão que as pessoas não leem, ou só leem o que querem, porque não houve falta de informação. Claro, a biblioteca perdeu visibilidade, é diferente de estar nesse prédio belíssimo, com menos lugares para pesquisar. O público com deficiência visual caiu bastante. Eles talvez não enxerguem a beleza do prédio, mas eles sabem, têm o tato e viviam perguntando: ‘Quando é que vai voltar a biblioteca pra lá?’. Para tu veres a sensação de pertencimento que as pessoas têm por este prédio, por este espaço. Hoje, está tudo aqui novamente.

Sul21 – Quais são os serviços da biblioteca?

Morganah – Além do empréstimo de livros para pesquisa no local, a gente tem também o acervo de pesquisa de documentação do Rio Grande do Sul. A Biblioteca Pública do estado tem a função de ser a guardiã, de preservar e disseminar a memória de tudo o que é produzido no estado do Rio Grande do Sul. A literatura gaúcha, a história, a geografia, tudo deve ficar aqui. Nós temos, por exemplo, documentos de governo, temos a função de preservar e muitos pesquisadores, historiadores e escritores utilizam nossa documentação pra compor suas teses e seus romances históricos. É um acervo de grande porte e com bastante valor sobre o estado do Rio Grande do Sul.

Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – A produção literária atual vem para cá de alguma forma?

Morganah – Nem tudo. Nós temos a Lei Estadual do Livro, que foi regulamentada em 2003, que obriga as editoras gaúchas a mandarem pelo menos um exemplar do que é publicado, mas quem cumpre realmente são as editoras universitárias e as pequenas editoras. Nós temos também um serviço que a gente oferece e que é cobrado via associação de amigos: a elaboração da ficha catalográfica dos livros. Para algumas editoras, a gente faz de graça e em troca ela nos dá os livros, dois exemplares. Nós também assessoramos a questão do direito autoral, pois não temos escritório de direitos autorais aqui no RS, mas damos toda a orientação sobre como registrar o direito autoral de uma obra. A equipe é pequena, mas a gente se vira.

Sul21 – E as doações?

Morganah – Sim, a gente recebe muitas doações. Claro, no meio dessas doações vem aquilo que não serve… Alguns acham que qualquer coisa dá pra mandar para a Biblioteca. Às vezes é uma Enciclopédia Barsa que o pai tinha na década de 80. Bem, sinto muito, mas o material está desatualizado, então a gente agradece… Mas nas doações vêm muito material precioso, raro. Só com doações, já conseguimos triplicar o número de obras raras. Visitamos as bibliotecas particulares que as pessoas desejam doar e avaliamos. A gente conseguiu muita coisa boa para o setor de obras raras, principalmente de autores gaúchos, primeiras edições fantásticas.

Sul21 – Qual é o tamanho do acervo aqui na Biblioteca?

Morganah – Juntando todas as obras, temos 250 mil livros. De obras raras temos 1.100 títulos já catalogados, mas já vai virar 3.000, contando com o que está sendo catalogado. As obras raras não saem daqui, as pesquisas são locais e usa-se luvas. A parte do Rio Grande do Sul também não sai, porque pode se perder algo. Agora, o público e os pesquisadores poderão entrar e usar o acervo geral para pesquisar com orientação de um funcionário. Antes, quando a gente saiu, o acervo ficava no segundo andar, então o usuário pedia o livro lá embaixo, o funcionário encontrava no catálogo, manualmente, e o livro descia pelo elevador. Ou seja, o usuário não circulava nas estantes e isso é ruim, porque tem muito livro que nunca foi aberto por ninguém. Caminhando pelas estantes, tu podes ver outros títulos que te interessam. No meu entendimento, a biblioteca não serve se não chegar ao seu leitor, então a ideia é abrir o acervo, ao mesmo tempo que o preservamos.

Sul21 – Um acervo que é sempre crescente.

Morganah – O acervo cresceu muito. São muitas doações. A gente tem um público com grande carinho pela biblioteca. Há um pessoal fantástico que compra os livros, lê e traz pra biblioteca, então nós temos obras recentíssimas, que o estado não compra. A última vez que compramos foi em 2006 e dentro daquele limite que não exige licitação. Na época, o estado não pagava os fornecedores em dia e chegamos a fazer um pregão, só que ninguém se apresentou… Aí eu fui me queixar com o presidente da Câmara Rio-grandense do Livro e com o clube dos editores. Eles me disseram que o problema era o estado estava demorando mais de um ano para pagar e ninguém queria esperar todo esse tempo. Eu já passei por vários governos e nunca a cultura foi prioridade. Então sobrevivemos de doações particulares. A Associação de Amigos também compra alguma coisa, principalmente os livros de leitura obrigatória para o Vestibular.

Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Algum autor vem aqui entregar?

Morganah – Sim, alguns sim, mas normalmente é a gente que tem de correr atrás. Muitos querem só vender, mas outros têm reconhecimento pela biblioteca e trazem suas obras.

Sul21 – O ex-secretário Assis Brasil me deu a informação de que a biblioteca teria sido o último prédio público construído para cultura no estado, mas acho que foi o Araújo Vianna em 1964. De qualquer maneira, se 1912 ou 1964, é muito tempo.

Morganah – É triste ver isso. Eu sou funcionária estadual há 23 anos, vou fazer 13 aqui na biblioteca, então já passei vários governos.

Sul21 – Como entraste no Estado?

Morganah – Como concursada. Fiz o concurso ainda sem me formar, porque não era exigida formação em Biblioteconomia, mas até que fui bem classificada. Então fui para uma biblioteca de bairro. Fiquei lá até 95, quando fui para a Biblioteca Pública.

Sul21 – Qual é o tamanho da equipe da BP?

Morganah – Hoje eu tenho umas 18 pessoas. Quando assumi a direção em 2003, éramos 40. As pessoas vão se aposentando e não são repostas. Tem gente que quer vir trabalhar de bibliotecário, mas só viriam se tivessem função gratificada e a secretaria não tem como disponibilizar.

Sul21 – Quais são as funções do pessoal que trabalha aqui?

Morganah – São cinco setores que atendem o público, dez horas por dia, das 9 às 19h, de segunda à sexta e no sábado das 14 às 18h. Então eu preciso de pelo menos duas pessoas por setor, todos os dias. Esses setores são o multimeios, o braille, a referência, que é a pesquisa no local, o setor do RS e o de empréstimo de livros. Esses atendem o público 10h por dia. Como o funcionário não tem carga de 10h por dia, eu tenho que revezar. Dividimos os horários. Alguns entram cedo e saem às 15h, outros entram às 12h e ficam até as 19h. O horário de 12h é complicado, porque há o almoço. É pouquíssima gente mesmo e bibliotecários então nem se fala: nós somos três. Eu na administração e cuidando de tudo, sistema e biblioteca, duas catalogando e uma voluntária, uma eterna voluntária bibliotecária que eu tenho, graças a Deus, e que é aposentada da UFRGS. Ela nos ajuda muito. Mas é uma equipe reduzida. O acervo cresceu muito, nós fomos para lá com 40 mil livros e voltamos com 60 mil. Conclusão: tenho um acervo de quase 20 mil livros encaixotados que estamos lutando para catalogar. Porque catalogar não é só botar o título, tem que analisar a obra, determinar o assunto. É um trabalho moroso, que tem que ser feito por técnicos e nós não temos técnicos em número suficiente. Eu tenho dois historiadores no setor do RS e duas estagiárias de história. Estagiários nós temos quatro: dois de história e dois de biblioteconomia. São poucos também.

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – E há os eventos.

Morganah – Eventos e também parcerias. Eu trouxe para cá o Clube de Leitura, que é quinzenal, e os recitais da Escola da Ospa. O Clube de Leitura são encontros quinzenais onde se discute literatura. Por exemplo, a cada segundo semestre nós damos prioridade para as obras do vestibular, vem muito estudante que precisa saber delas. Há os saraus do braille, etc. Há também apresentações musicais e as palestras no Salão Mourisco. Tudo isso é serviço, ma nada disso traz dinheiro. O que traz um dinheirinho é uma locação através da Associação de Amigos para alguma filmagem, algum comercial. Até a reforma dos banheiros e o Wi-Fi quem pagou foi a Associação de Amigos, com recursos que conseguimos através da gravação de um comercial e de parte de um filme. Claro, sempre um ou dois funcionários acompanham, não se pode arrastar nada, não pode encostar nada na parede, não pode pendurar nada, não pode beber, não pode fazer refeição. Nós estamos num prédio que deve ser preservado.

Sul21 – A Associação de Amigos, como é que funciona?

Morganah – Ela não é tão forte como a do Theatro São Pedro ou a do Margs. O associado paga uma anuidade de R$ 60. Agora poderemos dar um retorno melhor para os associados, inclusive no uso do Salão Mourisco, que pode ser utilizado mediante agendamento. Nós temos uns 60 pagantes, menos até. No ano passado fizemos uma campanha, mas ainda são poucos, bem poucos. A gente fatura alguma coisa através das fichas catalográficas, pelas quais cobramos R$ 30, bem abaixo do preço de mercado. Temos também a taxa de empréstimo anual de R$ 5 de cada sócio, para retirar livros. No multimeios, se o usuário quiser imprimir alguma coisa, cobramos centavos pela impressão, não pelo uso. O uso é gratuito. São vários produtos que geram alguma entrada de dinheiro para a Associação e que reverte para a biblioteca. E as locações que eventualmente acontecem. Nós recebemos recentemente uma escola de música. Locamos o espaço por R$ 200, o que também não é uma fortuna.

Sul21 – O que não está pronto ainda?

Morganah – O restauro da pintura mural é um projeto à parte, é um projeto caro e demorado. Orçaremos com especialistas. Isso é um projeto à parte, é uma coisa que eu acredito que vá demorar uns quinze anos e que será feito com a Biblioteca em funcionamento. Isola uma parede, trabalha ali, depois vai para outra e assim por diante. Além disso, o que falta fazer ainda: o restauro da fachada interna, que não foi feito, e a climatização. As esperas estão prontas, mas temos que adquirir os equipamentos e esse prédio precisa ser climatizado, porque tem muita poeira, muita poluição dos veículos que trafegam ao redor, o que prejudica o acervo. E está pendente a acessibilidade. Nós temos um elevador que dá acesso às pessoas de idade, mas onde não cabe uma cadeira de rodas. Então precisamos de um elevador para cadeirantes. Tudo vai bater lá pelos 8 milhões, que é o que nos falta. Precisamos também de segurança para o acervo, do restauro dos ornamentos, das escadarias, das colunas de mármore e do mobiliário. Há partes do mobiliário que foram comprometidas pelos cupins. O mobiliário precisa ser restaurado. Mas os ornamentos das cadeiras estão todos recuperados, são detalhes caros. E a infraestrutura está toda OK, não há problema de umidade nem de infiltração, o cabeamento idem. A sustentação dos tetos também. Havia problemas graves neste aspecto, como disse antes.

Sul21 – Eu dei uma olhada no site de vocês e ele fala em anexo.

Morganah – Não, o anexo era uma proposta do governo anterior, que era esse prédio da Andrade Neves, onde os Lanceiros Negros estão. Eu tinha conseguido o prédio com recursos do governo federal, mais R$2 milhões e 600 mil de contrapartida do estado. Assim, criaríamos esse anexo. Era o nosso sonho, só que essas coisas de governo…

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Qual é a importância da Biblioteca Pública para o estado?

Morganah – Bom, em primeiro lugar não existe prédio mais belo aqui na cidade, com detalhamento de pinturas, de murais, de mobiliário. É também é um dos templos positivistas de Porto Alegre. Além disto, somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido no estado. Mas eu acho que o mais importante é que as pessoas têm enorme carinho por esse prédio. Todo mundo diz ‘’Ah, que bom que a biblioteca voltou’’. Os funcionários estão radiantes. A gente carregava caixas pesadas neste calor de verão, suava e não se importava. Eu ouço o pessoal daqui dizer “Ah, eu não me importo, eu tô voltando pra casa’’. Aqui é um prédio que, além da história do RS, oferece o acesso à informação, o acesso ao livro gratuitamente. É a maior do estado, a mais representativa, então tínhamos que estar de volta para o nosso público. E eu tenho certeza que, agora, com o retorno, nós vamos resgatar todo aquele público que perdemos com nossa saída e muito mais. A gente espera que as pessoas se apropriem desse espaço, para que ele se torne pequeno. Quando este lindo edifício foi construído, no início do século XX, a população era outra e o acervo era de 8 mil livros. Nós precisamos de uma biblioteca moderna para que aqui fique só a parte histórica, mas isso eu me aposento e não vejo. Espero que a situação do estado melhore.

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Veja fotos internas e externas do prédio restaurado:

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

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Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

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11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Foto: Guilherme Santos/Sul21

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OK, vou de Uber, mas só vou se for escutando a FM Cultura

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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória (por Rodrigo Balbueno)

Dia desses, recebi o e-mail abaixo. Impossível desconsiderá-lo. O texto que o segue é muito bonito e, se o autor escreveu que “adoraria publicá-lo no teu blog”, só me resta abrir o espaço.

Caro Milton,

É sempre curioso o esforço de dirigir-se a quem não se conhece pessoalmente mas com quem se priva de certa intimidade, como leitor habitual de teu espaço no Sul21. De certa forma é como dirigir-se a um velho amigo desconhecido, se é que isso é realmente possível.

Por isso hesitei muito em escrever-te, até que ao ler teu post de hoje me dei conta de algo mais em comum e que no máximo vou te incomodar por alguns minutos.

Além de uma convergência no trato da memória, ainda incluiria a relação com a OSPA, a quem acompanho desde o tempo do Eleazar de Carvalho, de quem fui vizinho no Bom Fim.

Há quase dez anos fora de Porto Alegre, tento programar minhas idas à cidade ajustadas à programação da orquestra querida. E sem querer ser muito enxerido, tendo acompanhado a saga dos músicos estrangeiros, como a Elena, que trouxeram à orquestra uma qualidade que a engrandece e os faz ainda mais admiráveis, sempre me pareceu extraordinária a coragem dessas pessoas que deixaram um mundo que se desfazia e vieram construir uma vida nova nestes trópicos e subtrópicos. O fato de minha mãe ter sido colega de hidroginástica da Elena na Hebraica é só um detalhe a mais nessa teia, assim como os queridos amigos Cátia e Norberto que de vez em quando aparecem em tuas fotos.

Enfim, é bem possível que mais cedo ou mais tarde nos venhamos a conhecer pessoalmente.

Lhe escrevo porque estive obcecado com uma série de coincidências que originaram o texto que vai em anexo. Como é um tanto personalista e tem um tamanho que é meio nada, muito grande pra imprensa, pequeno mesmo pra um livreto, pensei que talvez devesse dar-lhe um pouco mais de substância, e então lembrei de tua entrevista com o Airton Ortiz quando ele foi patrono da feira do livro e a quem gostaria de ouvir para enriquecê-lo um pouco e quem sabe me podes passar seu contato.

Te peço desde já desculpas pelo “aluguel” e lhe desincumbo de qualquer responsabilidade de responder a este.

Grande abraço,
Rodrigo Balbueno

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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória

Por Rodrigo Agra Balbueno
Agosto, 2016

Inicio pelo meu próprio começo, pelo tornar-se gente, que tem no nascimento seu ponto de partida, mas que demora uns bons anos pra engrenar. E, depois que começa, se tudo der certo nunca mais termina.

O tempo zero, neste caso, não é o começo absoluto. Falo de algo que se deu por volta dos vinte anos, lá por 1986 ou 1987, época em que um grupo de amigos, ainda estudantes ou recém egressos da universidade e portanto com uma vida econômica das mais restritivas, passaram a cultivar o hábito de reunir-se com alguma frequência no restaurante Copacabana, nas noites de domingo, sempre que a dureza permitia.

O Copacabana é um dos restaurantes mais antigos de Porto Alegre ainda em atividade, tendo sido fundado em 1939. O endereço diz Praça Garibaldi nº 2, mas olhando pra ele se vê que está na esquina das Avenidas Venâncio Aires e Aureliano de Figueiredo Pinto. A praça mesmo está do outro lado da rua.

Em algumas noites éramos dois ou três, noutras seis ou oito. Preferencialmente no salão principal, eventualmente no salão da direita, que anos depois virou o salão de não fumantes, antes do banimento completo do fumo de lugares fechados.

Em muitas dessas noites de domingo no Copa, tínhamos como vizinho de mesa um tipo meio sisudo, mais velho do que nós, de feições muito gaúchas, cabelos longos e cavanhaque, que às vezes jantava sozinho, às vezes com um ou dois amigos.

Alguém do nosso grupo já o conhecia e em algum momento comentou: esse é o Jacaré, ele é jornalista e compositor do Tambo do Bando. Já era um tempo em que a música regional começava a separar-se em duas vertentes diametralmente opostas, uma presa ao passado e manietada por um esdrúxulo conjunto de regras gerados por uma entidade ainda mais esdrúxula, e outra aberta à música urbana, mas sem tirar o olho da vastidão do Pampa que esperava ali do outro lado do lago. O Tambo do Bando foi uma das melhores respostas a essa tensão.

A convivência dominical trouxe certa proximidade, com cumprimentos gentis e uma eventual conversa. Não éramos exatamente amigos, mas sempre que nos encontrávamos fora do Copa trocávamos aquela saudação típica de pessoas que se conhecem de outros cenários.

Só fui saber seu nome quando morreu, ainda muito jovem, em 1996. Luiz Sérgio Metz. Sérgio Jacaré. Pra nós só Jacaré até aquele junho gelado.

metz-1Logo depois disso, a teia das relações me uniu a um grupo de estudantes de letras, ainda antes do ano 2000, e muito depois disso minha amiga Júlia, hoje doutoranda em letras, um dia me disse, eu já vivendo em Brasília, “tu precisas ler ‘O primeiro e o segundo homem’ do Luiz Sérgio Metz”. O primeiro livro do Jacaré, lançado em 1981, ainda antes de nossa vizinhança de mesa no Copacabana.

Em seguida comprei o livro, uma edição da “Artes e Ofícios” de 2001, que celebrava os 20 anos de seu lançamento. Li, adorei e fiquei lamentando não ter tido maior proximidade com aquela figura que tantas vezes esteve ali tão perto, quase dividindo uma mesa em noites de domingo.

Indo rumo a um tempo ainda mais remoto, final dos anos 70, começo dos 80, no ensino médio, em Taquari, quando inventava um mundo pra chamar de meu, fazendo algumas escolhas que mais tarde desembocaram naquela mesa do Copa e em tudo que dali adveio.

Era o tempo das descobertas, mas o que interessa agora é a música. Em uma casa onde se ouvia basicamente MPB, o auge do movimento nativista me pegou em um momento em que a figura do gaúcho era parte integrante da paisagem humana que via cotidianamente. Muitas pessoas da minha idade tinham um cavalo antes de ter uma moto.

Isso foi um pouco antes de deixar a vida no interior, literal e metaforicamente, e de descobrir a música urbana gaúcha, que experimentava um florescimento exatamente nessa época. Acho que meu marco particular é “Pra viajar no cosmos não precisa gasolina” do Nei Lisboa, seguido de perto pelo Musical Saracura.

noel-1Mas até então ouvia muito os LPs da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, especialmente os da nona (1979) e da décima (1980), Pedro Ortaça e principalmente Noel Guarany. O gaúcho da Bossoroca me tocava especialmente e o disco “Noel Guarany canta Aureliano de Figueiredo Pinto” figuraria ainda hoje entre os dez que levaria para uma ilha deserta.

Anos depois, esse disco ainda me traria uma alegria em extinção, que é aquela que sente quem encontra em CD um LP há muito perdido e que muito prazer lhe proporcionou. Hoje ouço no Ipod sempre que me vienen del sur los recuerdos (gracias, Borges).

Noel Borges do Canto Fabrício da Silva, guarani no sangue e pela arte, decidiu deixar de lado o sobrenome que remete à definição dos limites do Rio Grande do Sul como ele é hoje, pra ser Guarany somente, em tudo o que isso significa para este pedaço da América Latina que foi indígena, espanhola e portuguesa, mas para quem as fronteiras nada significam, na busca pela terra sem males.

Noel Guarany talvez seja o máximo expoente da música missioneira, se não é seu próprio inventor, nos termos em que hoje se conhece. No Estado onde tudo é Gre-Nal, pode-se perceber uma clara oposição entre a música missioneira e a música da fronteira sudoeste.

Grosso modo, enquanto a música da Campanha olha para a vida no latifúndio e vê no castelhano o inimigo, a missioneira tem um viés muito mais campesino e pan-gauchesco, empregando expressões em espanhol de forma natural, para quem a fronteira é o grande rio Uruguai, em cuja outra margem vive um outro que nos é igual.

aur-1Não é à toa que muitas vezes Noel canta “a Pampa” no feminino, como os castelhanos e, no extremo, a “Pachamama” quíchua. A terra como fêmea, mãe e companheira.

Saltamos mais uns anos, dez ou vinte, talvez, e encontro, em alguma livraria da Riachuelo, o livro “Romance de estância e querência – marcas do tempo”, único livro lançado em vida por Aureliano de Figueiredo Pinto, que entre outros tantos versos, traz aqueles musicados por Noel Guarany no LP de 1978. Muito gaúcho, muito lindo, muito lírico, descrevendo entre os anos 30 e 50 um mundo que já então deixava de existir.

Em uma hipotética genealogia da cultura riograndense se a Noel pode ser atribuída a paternidade da música missioneira, Aureliano seria responsável, uma geração acima, pela poesia regional gauchesca, numa obra que inicia em momento anterior à criação da figura do gaúcho de CTG, cópia carnavalesca de um tipo humano que a rigor nunca existiu da forma como foi cristalizada no imaginário popular.

A produção literária e musical do Jacaré também pode ser incluída nesse “tronco” da cultura gaúcha que abriga Aureliano e Noel. As obras desses três artistas, ligadas de uma forma ou de outra ao espaço físico missioneiro, são eivadas de um lirismo meio amargo, com um olhar para os que tudo perderam, sejam os guaranis e sua vida quase republicana quando da invenção do Rio Grande, sejam os gaúchos a pé perdendo seu lugar no mundo, para Aureliano pelo esvaziamento de uma forma de vida rural calcada na pecuária herdada dos jesuítas, para Noel e Jacaré já sob o domínio da soja no latifúndio mecanizado.

Se olharmos o mapa do estado, há um triângulo retângulo cujos vértices são as cidades onde nasceram esses três gaúchos. Aureliano de Santiago, Noel de São Luiz Gonzaga e Jacaré de Santo Ângelo. A hipotenusa ligando Santiago do Boqueirão, no extremo sul, a Santo Ângelo.

São três mil quilômetros quadrados ou 1% do Rio Grande, em cujos limites está contida a catedral de pedra de São Miguel das Missões, expressão máxima do passado colonial, de um tempo anterior à nossa brasilidade e à própria ideia de gaúcho.

Entre 1952, ano do nascimento do Jacaré e 1959, ano da morte de Aureliano os três dividiram os ares desse triângulo mágico missioneiro, embora seja virtualmente impossível que hajam se encontrado em algum momento. O Dr. Aureliano clinicando em Santiago, Noel alistando-se no 3º Regimento de Cavalaria de São Luiz Gonzaga, para logo desertar e “se bandear pro outro lado” e tornar-se Guarany de fato. E Jacaré, piá, aprendendo as primeiras letras.

Jacaré e Noel, no entanto, apostaria que se conheceram. Uma atuação política convergente deve tê-los unido durante a ditadura. Noel fez um célebre show na greve dos bancários de 1979, onde além do Jacaré seguramente também estaria seu conterrâneo da Bossoroca e futuro governador Olívio Dutra.

No conto “a noite da boiguaçu”, d’o primeiro e o segundo homem, o personagem Tatuim, descrito como “um bugre guarani que envelheceu por São Miguel” canta versos da canção “potro sem dono”, de Paulo Portela Nunes, gravada por Noel no LP “… sem fronteira” de 1975. E em 1980 Noel fez um célebre show no Teatro Glória de Santa Maria, em que desanca a repressão, ainda em plena ditadura. Esse show foi postumamente lançado no disco “Destino Missioneiro”, único registro ao vivo da obra de Noel. Santa Maria onde estudaram Aureliano e Jacaré e onde morreu Noel.

Damos mais um salto que nos traz para a segunda metade da segunda década do século XXI, com a internet já completamente integrada à vida de todos, e com ela o hábito de passar de um assunto a outro, quando uma curiosidade inicial conduz a descobertas insuspeitadas e nos permite vislumbrar mundos desconhecidos sem sair da frente de uma tela.

aur-metzNum desses passeios em que uma página leva a outra que leva a mais outra, numa sucessão que nem a imaginação mais desenfreada é capaz de conceber, em alguma dessas conexões vejo que há uma biografia do Aureliano de Figueiredo Pinto escrita… por Luiz Sérgio Metz.

Pela internet achei o livro num sebo aqui de Brasília mesmo e em poucos dias o recebi pelo correio. Ao abrir o pacote, foi como um reencontro com um velho conhecido. O livro é o volume 33 da “Coleção Esses Gaúchos”, lançada há trinta anos para celebrar o sesquicentenário da revolução farroupilha.

Uma ótima ideia, de fazer um retrato do Estado a partir do perfil de 40 gaúchos, de Gilda Marinho a Getúlio Vargas, do Barão de Itararé a Jacobina Maurer. No inventário das bibliotecas perdidas tive um punhado deles, alguns comprados no supermercado, outros na própria livraria tchê!, ali na Salgado Filho, quase embaixo do viaduto Loureiro da Silva.

São livros pequenos, embora não exatamente de bolso, em edições simples, mas ilustradas e com fotos, e com uma liberdade editorial que surpreende e intriga nesta era de padronização e uniformidade. A edição é da tchê! e da RBS, com patrocínio do “banco Europeu para a América Latina”, cuja existência me era desconhecida até este momento. Parece que ainda existe.

A biografia do Aureliano pelo Jacaré tem 82 páginas, na capa uma caricatura desenhada pelo Juska, fotos do arquivo da família e ilustrações do Pedro Alice, amigo querido, que muitas vezes dividia conosco a mesa do Copacabana nos domingos. É bem possível que tenha sido ele, lá no sexto parágrafo, quem tenha apresentado o Jacaré aos demais, pois agora vejo que andávamos por lá na época da gestação do livro. O exemplar que tenho nas mãos diz “impresso em junho de 1986” logo abaixo do copyright. Dez anos antes da morte do Jacaré, trinta anos antes deste inverno de 2016.

O exemplar traz na folha de rosto, escrito a caneta “Brasília jun 89” e uma assinatura ininteligível.

exemplar

Deduzo que o livro haja sido comprado por aqui mesmo, por algum gaúcho expatriado, três anos após o lançamento.

A letra manuscrita aparece novamente nas páginas do capítulo intitulado “Identificação e Roteiro”, que faz as vezes de nota biográfica. Na entrada relativa ao ano de 1926, são listados alguns nomes de companheiros de tertúlias de Aureliano quando morava na “rua da Olaria”, atual Lima e Silva, na Cidade Baixa, não muito longe do Copacabana. Depois de um “e tantos outros”, a mesma letra da folha de rosto registra um “entre os quais meu pai”.

A entrada relativa a 1938 trata do casamento de Aureliano com Zilah Lopes e lista seus três filhos: José Antônio, Laura Maria e Nuno Renan. O nome de Laura Maria está sublinhado em tinta laranja e se vê uma pequena estrela, quase um asterisco, que remete a uma nota ao pé da página, que se estende pela margem e diz: “fui seu par, no baile de debutantes, em 53 (!) De ‘recuerdo’ ganhei cuia/bomba de prata.”

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O antigo dono do livro foi par da filha de Aureliano em seu baile de debutantes, em 1953. Deveria ser um rapaz de 18 ou 20 anos, nascido no começo dos anos 30, quando Aureliano já estava de volta a Santiago e iniciava sua vida como médico. Já cinquentão, comprou a biografia do pai de seu par, muito longe de Santiago, na capital da república.

Há outros trechos destacados com a caneta laranja, até a página 20, onde o Jacaré destaca a relação de Aureliano com Getúlio Vargas, a quem nunca perdoou por haver traído os ideais daqueles que estiveram na linha de frente da Revolução de 30. Seria antigetulista, como Aureliano, o antigo dono do livro?

Depois disso quase não há mais textos destacados, apenas alguns versos mais ou menos no meio do volume, até que na página 56, na abertura do quinto capítulo do livro, está uma foto tomada no chalé da Praça XX, em que dois senhores estão diante de dois copos de chopp preto, olhando para o fotógrafo. E reaparece a caneta azul sob a foto, identificando os dois senhores: “Marçal de AB., meu pai. Aureliano”.

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A foto não tem data, mas as roupas de Marçal e Aureliano remetem a uma elegância dos anos quarenta; talvez seja do curto período que Aureliano passou em Porto Alegre em 1941, como sub-chefe da Casa Civil do interventor Cordeiro de Farias. Marçal veste um traje claro, com uma gravata borboleta, enquanto Aureliano leva um conjunto escuro, camisa branca, gravata de nó pequeno e lenço no bolso do paletó. Ambos de chapéu, os dois Fedora de aba reta, o de Aureliano de copa mais alta.

Não há dúvida de que o expatriado santiaguense que me legou a biografia de Aureliano era de uma família muito próxima dos Figueiredo Pinto. Não só foi par no baile de Laura Maria em seu baile de debutante, como seu pai Marçal participava das tertúlias na rua da Olaria e privava da intimidade de um chopp no chalé da Praça XV.

É possível que o filho do Marçal já não esteja mais entre nós e que seus herdeiros hajam passado sua biblioteca para o sebo que me vendeu o singelo livrinho com a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto escrita por Luiz Sérgio Metz. Talvez a família não tenha mais nenhum vínculo com Santiago ou com os Figueiredo Pinto.

Por mais curioso que tudo isso me haja deixado, neste momento não disponho de tempo nem de meios para tentar deixar as coisas mais claras. Gostaria de perguntar ao Airton Ortiz detalhes da criação da coleção “esses gaúchos”, de como se escolheu o Jacaré para escrever sobre o Aureliano, de como os editores viram a forma que ele escolheu para o texto, com dois capítulos dedicados a uma entrevista imaginária que pareceu não interessar muito ao filho de Marçal AB, pois neles não há sequer um pedaço de texto destacado.

Seus netos devem morar aqui em Brasília e talvez tenham algo a contar sobre a relação do avô e do pai com os Figueiredo Pinto. Se fosse até Santiago talvez descobrisse que foi o par de Laura Maria no baile de debutantes de 1953 cuja biografia de Aureliano percorreu esse longo caminho até chegar a mim.

Sei que essas coincidências não querem dizer nada. Essa busca por um sentido em todas as coisas é um dos traços que nos fazem mais humanos, mas são somente mistificações que nascem do espanto que nos causa a complexidade do mundo, apreendida pela máquina de pensar do nosso cérebro. Mas mesmo com sua extraordinária capacidade, há sempre algo que se nos escapa. E daí o espanto, e as religiões e a filosofia e a poesia.

E dele decorre a necessidade de querer explicar, de buscar alguma coisa oculta, de interpretar sinais onde nada há além do caos, de arranjos probabilísticos aleatórios que nada significam. Mas não cansamos de tentar ligar os pontos, de unir alguns fios soltos que pendem da colcha que nossa história tece, alheia às nossas agruras e preocupações.

Devolvo os livros à estante e configuro o ipod para o modo aleatório. Sempre que o misterioso algoritmo que o governa trouxer de volta Noel e Aureliano aos meus olvidos vou lembrar de tudo isso outra vez. E quando sentar no salão principal do Copa vou brindar à memória de Luiz Sérgio Jacaré Metz, que há vinte anos deixou aquelas mesas pra nunca mais voltar.

Luiz Sérgio Jacaré Metz

Luiz Sérgio Jacaré Metz

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O imposto sotaque estrangeiro

KGB-secretsNo Brasil — ou ao menos em Porto Alegre — existe o Imposto Sotaque Estrangeiro. A Elena fala um português perfeito, está no Brasil há 18 anos, mas guarda o sotaque de quem tem o russo como língua-mãe. Dia desses, pedi um serviço, ele custou mais ou menos R$ 30 por hora. Só que no dia anterior, a Elena tinha telefonado e a coisa custava R$ 300. Não estou brincando. Falamos com a mesma pessoa em dias consecutivos. Também se a Elena, que é bielorrussa, usa um táxi, tem que explicar direitinho o itinerário, mostrando que conhece a cidade. Se não faz isso, o cara vai de um bairro a outro da cidade pelo Canal do Panamá.

Aqui, quem tem sotaque tem de ser explorado, pois certamente é rico.

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Todos os dias na Biblioteca Pública

Mesmo que o porto-alegrense não seja educado, mesmo que alguns fiquem conversando continuamente em voz baixa, ir ao meio-dia até a Sala de Leitura na Biblioteca Pública da Rua Riachuelo é como se eu tivesse recebido férias de 30 minutos. Alivia. Tenho uma hora de almoço, me alimento rapidamente e subo a Ladeira para chegar até o velho prédio. Aviso o gentil senhor que cuida da sala que entrei com um livro, anoto seu nome e autor e descanso um pouco das más e péssimas notícias de todos os dias.

Hoje eu saí mais tarde e fiquei apenas 15 minutos. Deu para ler apenas dez páginas, mas é uma alegria poder descer a rua com a cabeça em outro contexto. É um conforto moral, um consolo, desafoga.

Ramiro Furquim / Sul21

Ramiro Furquim / Sul21

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Há grande concentração de Pokémons na Redenção…

Na última sexta-feira, eu e Elena estávamos atravessando a Redenção em direção ao Guion Cinemas quando vimos um enorme grupo parado no jardim japonês. Havia grande silêncio, o que fazia com que parecessem zumbis. Perguntei que faziam e me disseram que o motivo era que ali havia uma grande concentração de Pokémons. Todos estavam de cabeça baixa, observando seus celulares, caçando os pobres bichinhos. Jamais imaginei ver isso e tirei umas fotos bem ruinzinhas com meu celular. Um amigo disse: “Pelo menos não estão rezando”. Olha, sei lá se não estão. Outro conhecido me disse que o mesmo ocorre no Campus da UFRGS, no Vale.

Redenção caçando Pokemon 1

Redenção caçando Pokemon 2

Redenção caçando Pokemon 4

Redenção caçando Pokemon 3

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O Marabá está morto

Não há quase mais cinemas de rua em Porto Alegre. Todos os cinemas se internaram em shoppings ou em Centros “Culturais”. À noite, não se vê mais placas luminosas de letras quase sempre tortas ou faltantes anunciando filmes. Além, disto, os cinemas reduziram seu tamanho. Já faz tempo que desapareceram aquelas imensas salas em que funcionários com lanterninhas nos indicavam os lugares livres, pois lotavam… A televisão, o VHS, o DVD, o Now, o Netflix, aliados à falta de espaço, de tempo e charme transformaram nossas salas em coisas diminutas e bonitinhas, mas com pouco a mostrar na tela. Os filmes mudaram, tornaram-se infantis, acelerados, meio bestas. Suas fórmulas passaram a se repetir como os sapatos à venda nos shoppings e alguns são criados como em série, como Big Macs.

Mas a época do Marabá era diferente. O Marabá era um cinema que ficava em um bairro contíguo ao centro da cidade. Ou no bairro mais próximo a ele, se considerarmos que nosso centro é, na verdade, uma ponta enfiada no rio-lagoa-estuário Guaíba. O Marabá não tinha nenhum charme, não era frequentado por mulheres elegantes que deixavam rastros não de ódio, mas de perfume atrás de si. Essas iam a outros lugares. Nenhuma surpresa nisto, pois o Marabá, fora construído para passar reprises e porcarias. Os filmes mais artísticos que lá vi foram as obras-primas kitsch de Jack Arnold: O Monstro da Lagoa Negra, O incrível homem que encolheu e — como esquecer dos gritos da mocinha? — A Revanche do Monstro. O enorme cinema ficava na rua Cel. Genuíno, 210, próximo à Av. José do Patrocínio. Só que, um dia, cansado de tanto passar filmes ruins, alguém por lá enlouqueceu por lá e começou a passar somente grandes filmes em programas duplos. Eram apenas duas sessões — uma iniciava às 14h e outra às 20h — mas, meus amigos, que sessões! Um belo dia, estando eu na casa dos quinze anos, abri o jornal e li que o Marabá passava A Noite, de Antonioni, e Viridiana (*), de Buñuel, em seu programa duplo. Talvez a nova geração desconheça a expressão “programa duplo”. É o seguinte: semanalmente, eram apresentados dois filmes com um pequeno intervalo no meio para irmos ao banheiro e ao bar comprar balas, fumar, conversar, beber, namorar ou simplesmente esticar as pernas. Só que os programas duplos apresentavam normalmente filmes pornográficos ou de pancadaria. Nunca coisas daquele calibre.

Eu e um bando de loucos por cinema começamos a acorrer ao lúgubre Marabá. Aposentados e desocupados também pagavam o ingresso baratíssimo do cinema não muito limpo. Grupos de estudantes vinham ver e rever filmes enquanto matavam aulas. Minha sessão habitual era a das 14h; formávamos uma peculiar fauna de jovens secundaristas, universitários, velhos e desempregados. Lembro de ter saído muitas vezes rapidamente de casa, batido a porta, lembro de pegar e pagar o ônibus, de parar nas imediações do centro e de correr como Catherine, Jules e Jim (ou Lola, para os mais jovens) em direção ao cinema. Comigo, chegavam outros esbaforidos. Trocávamos um cumprimento rápido e entrávamos. Comigo, muitas vezes veio Maria Cristina, minha primeira namorada; quando víamos os filmes pela primeira vez, não protagonizávamos grandes cenas de amor nas poltronas desconfortáveis de encosto de madeira, deixávamos para fazer isto em frente a sua casa, na rua Santana. No máximo, trocávamos alguns beijos apaixonados no intervalo — afinal, estávamos ali pelo cinema. Porém, quando conseguíamos ir duas vezes na mesma semana, a segunda tarde era dedicada quase que inteiramente ao amor. Foi numa cadeira do Marabá — ou em duas, mais precisamente — que minhas mãos e boca tiveram seu primeiro contato com o seio feminino. Inesquecível. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que fiz pela primeira vez no Marabá, mas não exagerem na imaginação, pois nossa primeira relação sexual, a minha e a dela, ocorreu numa noite, atrás do sofá da sala de sua casa… Voltemos ao cinema.

Depois vieram outros programas duplos. Houve Gritos e Sussurros (Bergman) e Amarcord (Fellini), Jules e Jim (Truffaut) e Ascensor para o Cadafalso (Malle), O Mensageiro (Losey) e Petúlia, um Demônio de Mulher (Lester), Janela Indiscreta e Um corpo que cai (ambos de Hitchcock), Cidadão Kane e A Marca da Maldade (ambos de Welles), Paixões que alucinam (Fuller) e O Sétimo Selo (Bergman), O Magnífico (de Broca) e A Malvada (All About Eve, de Mankewicz), West Side Story (Wise-Robbins) e O Criado (Losey), e, comprovando que a loucura tomara conta do programador, houve Andrei Rublev (Tarkovski) e Acossado (Godard), evento que deixou nossas bundas quadradas por longo tempo. Em 1975, após um programa duplo que apresentava Contos da Lua Vaga (Mizoguchi) e Morangos Silvestres (Bergman), comecei a ter aulas à tarde e a estudar para o exame vestibular. Planejava voltar ao Marabá quando entrasse na universidade, em 1976. Só que, neste ínterim, o Marabá morreu para virar garagem. Sim, após Dillinger está morto (Ferreri) fazer dupla com Um Caso de Amor ou O Drama da Funcionária dos Correios (Makavejev) começou a demolição. Ou seja, a glória do Marabá, um cinema de 1800 lugares fundado em 1947, era sua agonia, a agonia de um querido dinossauro.

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre e também não há nenhuma cinemateca alucinada e radical como o Marabá. Quando as salas menores pareciam ter o poder de reabilitar para nós a gloriosa história do cinema, algo as trouxe para a isonômica mediocridade dos blockbusters. Resta-nos o egoísmo do DVD, resta-nos ver os filmes em nossa casa, às vezes na cama, podendo a sessão ser interrompida pelo telefone ou pela campainha da porta. Apesar das imagens perfeitas, não há o ritual de ir ao cinema, nem a sala escura onde somos ininterrompíveis, nem — perversão minha — o divino cheiro de mofo do Marabá, hoje substituído pela fuligem dos automóveis e pelos gritos dos manobristas.

(*) Aquele Viridiana tinha uma curiosidade que muito nos fez pensar. O filme começava com todos os atores falando espanhol, depois, subitamente, todos aderiam ao francês. Só as legendas permaneciam na língua de Camões. Alguns espectadores desejavam discutir esta característica do filme. Descobrimos depois, conversando no saguão do cinema, que houvera uma troca de rolos por parte da distribuidora e que naquele momento, em Recife, talvez Fernando Monteiro estivesse vendo o filme com sua primeira metade em francês e a segunda em espanhol.

A Cel. Genuíno hoje. Ela é a da direita.

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Nossa, como Porto Alegre embagulhou (*)

(*) Obrigado Felipe Prestes.

Fotos colorizadas de Porto Alegre nas décadas de 20 e 30 encontradas aqui.

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A mesa ao lado pergunta: por que os pais dos alunos não reformam os colégios públicos do RS?

Hoje, ao meio-dia, a mesa de direitistas do Tuim estava impossível. Primeiro. o quarteto afirmou que Temer estaria sendo boicotado pela mídia (?). Depois, decidiram que os pais dos alunos deveriam reformar as salas destroçadas dos colégios públicos gaúchos. Não chega a ser um absurdo, mas ninguém considerou que tais pais — da parcela mais pobre da população — têm enooooooorme tempo livre e, cada um deles, complicadas lutas de subsistência pela frente. Ah, ninguém explicou se o estado daria o material para as reformas… Possivelmente não, pois um deles, absolutamente encantado com a ideia, falou em colocar uma placa na entrada com o nome de todos os pais que reconstruíram o colégio. Também não falaram na segurança e na garantia de um serviço que não seria o mais profissional do planeta.

E depois querem que a gente volte do almoço tranquilo e bem humorado. Pergunto, pode-se dizer que isso seja um descanso? Melhor mergulhar numa leitura qualquer e esquecer do mundo ao redor. Ele pode ser horrível.

Abaixo, fotos de Carlos Latuff tiradas hoje pela manhã no Colégio Paula Soares, em pleno centro de Porto Alegre. Imagina como estão as da periferia.

Paula Soares 1

Paula Soares 2

Paula Soares 4

Paula Soares 3

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