Em Berlim (XIII)

Então, finalizando o dia 12 de janeiro, fomos assistir a Orquestra Filarmônica de Berlim interpretando o Réquiem de Verdi. Uma semana antes do concerto fora anunciada a substituição do regente Riccardo Chailly por Marek Janowski, em razão de doença do italiano. O Réquiem de Verdi é uma peça única na história da música. A intenção de Verdi não era transmitir a transcendência da morte, mas sim tristeza e emoção, como em suas grandes obras para o teatro. Janowski não conduzia a Berliner Philharmoniker há mais de vinte anos e sua volta, bem, na nossa opinião, foi sensacional.

Talvez não seja surpreendente para um compositor de óperas como Verdi que o Dies irae seja a peça principal central em seu Réquiem: nada é mais lembrado quando falamos da obra. É uma visão apocalíptica, cujo cenário adquire traços expressionistas — o tremor da Terra, o tremor de todos os mortais, o julgamento final.

Mas isso são considerações musicais, vamos às pessoais ou turísticas. Compramos os ingressos na Internet. Eles nos mandaram pelo Correio, mas não chegaram a tempo. Então, fomos com o e-mail da confirmação de pagamento até a bilheteria para retirar uma segunda via dos ingressos. Tudo muito rápido e alemão.

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A sala principal da Filarmônica é impressionante. Ela nega o pouco que sei sobre boa acústica — não tem o formato clássico de caixa de sapato — , mas o fato é que a coisa é miraculosa. Ouve-se tudo. Como curiosidade, nota-se mil fios que atravessam o teto. Por ali circulam as câmeras e microfones que registram e transmitem ao vivo os concertos. (Conhecem o Digital Hall do site da Filarmônica de Berlim? Pois é).

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Era nosso último dia na cidade e a despedida foi, por assim dizer, monumental.

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Vejam como a sala é inteiramente assimétrica, bonita, estranha. O projeto é lá do início dos anos 60, quando Karajan reinava.

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Chegamos cedo para observar tudo com o olhar curioso dos turistas.

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Na foto acima, tentei pegar detalhes dos fios.

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Tudo preparado para a entrada da orquestra.

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Quando começou o Réquiem, o que ouvíamos era tão, mas tão musical que a Elena deixou algumas lágrimas na famosa sala. Do jeito dela, sem que ninguém percebesse. Não era para menos. Foi algo inesquecível ouvir orquestra e coro tão perfeitos, tão musicais e com tanto tesão.

A Elena me fez tirar a foto abaixo porque esse rapaz loiro de óculos era muito parecido — ao menos de longe — com seu filho Nikolay.

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Abaixo, o maestro Janowski em ação.

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No dia seguinte, fomos para Praga de trem. Desde então, não vi mais uma das pessoas que mais amo no mundo.

Bernardo em Berlim

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Em Berlim (XII)

Na manhã do dia 12 de janeiro, fomos ao Museu Pergamon (Pergamonmuseum), bem no centro da Ilha dos Museus. A Elena estava meio mal em razão do vinho do dia anterior, mas a visita ao Pergamon foi excelente. Este museu teve sua construção realizada entre 1910 e o final em 1930. Ele é organizado em 3 partes:

— a coleção de arte da antiguidade clássica, onde se destacam o enorme Altar de Pérgamo e as Portas do Mercado de Mileto, bem como belíssimos exemplares de escultura grega e romana;
— o Museu do Antigo Oriente Próximo, que, para além da grandiosa Porta de Ishtar, contém uma grande coleção de arte islâmica, com objetos provenientes da Antiga Babilônia e da Suméria;
— o museu de Arte Islâmica, com destaque para a Fachada de Mshatta, um palácio do século VIII descoberto (e roubado, claro) na atual Jordânia, bem como excelentes exemplares de artes decorativas islâmicas.

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Por ano, o museu recebe aproximadamente 850 mil pessoas.

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São bons esses assírios, né? Na falta do Porque hoje é sábado resolviam a coisa a sua maneira.

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Gente, o que é isso?

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O Facebook jamais aceitaria a arte assíria!

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Abaixo, nossa heroína.

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Mas

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nada

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disso

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interessa.

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Pois era o dia

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de se despedir do Bernardo.

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E almoçamos um belo almoço e caminhamos pela cidade.

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Foi um daqueles momentos de saudade prévia em que a gente pode chorar a qualquer momento.

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E que dá vontade de ficar abraçado para jamais esquecer do filho querido.

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E há como?

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Em Berlim (XI)

Ainda no dia 11 de janeiro, voltamos ao Piano Salon Christophori para a maior decepção musical da viagem. O repertório era fantástico: uma série de peças curtas para duos de violino, viola e violoncelo, cada um acompanhado por piano, finalizados com uma reunião geral no Quarteto para Piano Op. 25, de Brahms.

O problema não era o repertório, mas os executantes. A pianista era razoável. As cordas eram formadas por um violinista sem noção de estilo e algo lenhador, um violoncelista ainda pior, porém mais delicado, e uma boa violista, que faria furor em Porto Alegre tanto por sua competência como pela beleza. Deu quase tudo errado. A coisa foi fraquíssima. OK, são jovens, mas poderiam ser melhores.

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Não consegui encontrar o nome dos caras ou do grupo. Sorte deles, porque vocês sabem como é o Google.

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Bem, já contei como funciona o Piano Salon Christophori. Falei das peculiaridades do local e disse que a copa é livre para a plateia pegar cerveja, vinho ou água. Então, por pior que seja o recital, a gente sai de lá feliz, ainda mais quando encontra um cara como o Guilherme Conte, que estava no Christophori e que depois saiu para jantar conosco. Eu apenas o conhecia do Facebook.

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O Bernardo, que já o conhecia, tinha-me dito que o Guilherme era o cara de voz mais bonita que ele conhecia. Olha, não me impressionou muito, gostei foi da companhia e da conversa do tranquilo palmeirense que estuda História em Berlim e cuja mulher é violista na Orquestra do Gewandhaus de Leipzig.

A Elena trouxera um vinho que conseguimos abrir após longa negociação com os donos do restaurante. Mentimos que era aniversário do Bernardo e que precisávamos comemorar com um vinho de sua escolha. Houve resistência, mas os caras acabaram trazendo abridor e copos. Jantamos muito bem.

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O tal vinho era uma compra da Elena, que já o conhecia de outra viagem. Porém, como ela estava sem beber há meses, ele se instalou nela na forma de uma bela dor de cabeça. Não ocorreu nada de mais grave com o trio restante, nós apenas ficamos ainda mais felizes. Eu estava discretamente constrangido em razão dos bonitos e úteis presentes que ganhamos do Guilherme — legítimos grosseirões que somos, não trouxéramos nada para ele –, mas nada que empanasse o belo final de dia. O Facebook permite que conheçamos pessoas, mas não há nada como o prazer da presença.

Grande Guilherme!

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Em Berlim (X)

Então, naquele 11 de janeiro de 2017, nós saímos do Berggruen Museum na maior correria porque a Elena tinha marcado um encontro com sua amiga Nune Bars — ou, mais exatamente, Nune Barseghyan –, uma psicóloga e escritora de origem armênia que mora em Berlim. Nune (diz-se Nuné) trabalha com pacientes desenganados. Não deve ser das coisas mais estimulante, mas ela é uma pessoa alegre que anda de bicicleta por todos os cantos de Berlim. Calculamos mal o tempo e nos atrasamos espetacularmente. Quando chegamos ao bar combinado, Nune já tinha ido embora. Era compreensível. Telefonamos e ela gentilmente voltou para conhecer a amiga de internet. O tempo lá fora estava assim.

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Pois é, não era muito convidativo.

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Ainda mais para ver uma amiga que tinha se atrasado.

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Mas no fim deu tudo certo.

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Nune e Elena conversaram em russo, enquanto eu ficava engordando, tomando café e olhando as guloseimas expostas.

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A coisa é boa demais, garanto.

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Enquanto isso, uma verdadeira tempestade de neve seguia tomando conta da rua.

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Sem ter o que fazer, eu fotografava um cara que fazia selfies na neve.

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Mais uma para sair bonitinho. Ficou bom? Sim. Então vou postar (abaixo).

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Então, Bernardo chegou e nós saímos para a rua a fim de dar uma caminhada. Não diria que Elena estava em seu habitat, mas não pensem que estava surpresa. Na verdade, quem estava meio desadaptado era eu, que a fotografava.

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E a fotografava. O estado do casaco que ela pegara emprestado de mim era realmente esplêndido.

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E saímos pela rua em direção ao local por onde antes passava o Muro de Berlim.

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No meio do caminho, Nune nos abandonou porque tinha um compromisso profissional.

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E chegamos ao local que estávamos procurando, na Bernauer Strasse. Ali fica o Memorial do Muro de Berlim.

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O clima entre nós — eu, Elena e Bernardo — era tão bom, riamos tanto que eles começaram a dançar sem música e a fazer poses para as fotos. Vá entender essa gente.

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Bernardo está virado num alemão. Entra nos bares, compra uma cerveja e sai bebendo pela rua.

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Em Berlim (IX)

Naquele grande e longo dia 11 de janeiro, nós nem pretendíamos ir ao Berggruen Museum, mas o Marcos Abreu disse que era imperdível e a experiência me mandava obedecê-lo. Explico: recentemente, compramos as melhores caixas acústicas, fizemos a melhor e mais barata viagem de férias de julho e compramos o melhor microfone do mundo, sempre seguindo as sugestões do Abreu. A experiência mandava dar-lhe uma nova chance. E foi ótimo!

O Museu Berggruen tem em seu acervo cerca de 20 Matisses, 60 Klees e três andares repletos de Picasso. Eu disse três andares! Está localizado em frente ao Palácio de Charlottenburg e ao lado de outros dois museus, Bröhan-Museum e Sammlung Scharf-Gerstenberg, mas só entramos no Berggruen.

A coleção de obras desses três artistas é impressionante, há trabalhos de quase todas as fases dos mesmos. Não é um museu imenso, dá para ver tudo em duas horas, o problema é que você vai querer voltar ou talvez morar lá.

Eu tirei muitas fotos dos quadros e, se você quiser ir, daremos uma voltinha sem compromisso por lá a partir de agora.

Paul Klee: A Senhora do Selo

Paul Klee: “A Senhora do Selo”

Paul Klee: não lembro o título...

Paul Klee: não lembro o título…

Matisse: No Atelier em Nice

Matisse: “No Atelier em Nice”

Jardim externo do Berggruen

Jardim externo do Berggruen

Mais de perto

Sim, estava frio.

Picasso: O Suéter Amarelo

Picasso: “O Suéter Amarelo”

Picasso: Nu sentado, secando os pés

Picasso: “Nu sentado, secando os pés”

É um Picasso, mas esqueci do título

É um Picasso, claro, mas esqueci o título

Picasso: No Café

Picasso: “No Café”

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Em Berlim (VIII)

Como tirei poucas fotos naquele dia 10 de janeiro de 2017, só sei que ele começou com uma ida ao Foyer da Filarmônica para assistir a um recital gratuito e esqueci do resto. Sim, para quem está em Berlim com pouca grana ou muito tesão de ouvir música, é bom conferir no site porque, semanalmente, há excelentes recitais gratuitos no local. E, como mostram as fotos abaixo, é adequado chegar cedo. Nós tivemos que sentar no chão porque entramos dez minutos antes do início da função. Vejam só, tem gente em cadeiras, pelas escadas, nas galerias de cima, pelo chão, etc. Não há espetáculo vazio em Berlim.

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Nosso amigo Guilherme Conte explica que “tem uma coisa bem simpática sobre essas cadeiras nos concertos gratuitos: elas são para a terceira idade, independente da ordem de chegada. Pode notar, na foto, a imensa maioria é de cabeças branquinhas, só tem um ou outro gaiato no meio. Senta ali quem precisa, e não quem chega antes. Bem alemão.”

A foto acima e a de baixo são de antes do concerto…

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que teria as seguintes peças (clique na imagem para ler melhor):

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Bem, era um recital com a Sonata para Violino e Piano de Franck (transcrita para violoncelo) e a Sonata Nº 3 para Violino e Piano de Brahms.

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Como disse, era um programa gratuito das 13h com as cadeiras todas ocupadas, escadas e chão lotados de gente acomodada sobre seus casacos ou encostadas nas colunas. Pela primeira vez em mais de três anos, eu e Elena discordamos.

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Ela gostou do Franck e detestou a interpretação do violinista em Brahms, eu detestei o Franck e curti Brahms. Muitas caras concentradas nas fotos.

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A Elena ora encostava-se numa coluna,

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ora encostava-se numa coluna.

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Como todo mundo, estava concentrada.

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Assim como a senhora acima.

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E a menina que só queria saber de ler seu livro com trilha sonora.

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E, bem, esta é uma das esquinas da quadra da Filarmônica.

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Em Berlim (VII)

Não lembro bem — ou nós estávamos fazendo compras ou ficamos no quarto por algum motivo. O fato é que o 9 de janeiro só tem uma foto do amanhecer e algumas bem noturnas e divertidas. Da janela de nosso quarto, no bom Hotel Prens, era esta a vista na manhã de 9 de janeiro. A temperatura média durante nossa estada ficou entre os 4 graus negativos e positivos, e a neve iria apertar nos dias subsequentes. O estranho é que, em Berlim, tais valores não sobem muito durante o dia e nem descem durante a noite. São estáveis e não é anormal a noite ser mais quente do que o dia.

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Foi nosso primeiro e único dia de jazz em Berlim, mas como valeu a pena! A vantagem de ter um filho morando na cidade é que ele conhece muitos lugares aos quais o turismo convencional não chega. Então, naquela segunda-feira à noite, eu, Elena, Bernardo e o amigo Lucas Birmann fomos ao um lugar que, creio, chama-se Every Monday —  bem, se não é este o nome, ao menos é o nome do evento, conforme foi carimbado em nossos pulsos. É um local ao qual jamais saberia voltar, tantas voltas demos até chegar.

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A gente entra e se impressiona com o aspecto da coisa. Há um palco onde uma big band de 15 pessoas se apertam. Na frente, a plateia fica sentada ou deitada em muitos sofás velhos, provavelmente refugos. Alguns ficavam em pé ou no bar. Importante saber é que, nos bares alemães, você paga a primeira cerveja com o preço da garrafa incluído. Quando vai comprar a segunda, devolve a primeira garrafa, pagando apenas o preço do líquido. Quando você devolve a última garrafa vazia, então recebe de volta o valor da garrafa.

Bem, a banda era excepcional. A Omniversal Earkestra era algo anormalmente bom. Afinadíssimos, bons improvisadores, excelente humor e muito prazer para fazer grande música há mais de sete anos todas as segundas, sem interrupções há mais de 300 segundas-feiras, OK? Se compararmos aquele tesão com o de algumas orquestras que conhecemos… Bem, não vamos comparar. Ellington, Mingus e Sun Ra foram os destaques no repertório. Conversamos sobre microfones com a violinista do grupo — sim, o grupo tinha uma. Ela achou que a Elena fosse irmã do Bernardo!

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Em Berlim (VI)

A Elena escreveu no dia 8 de janeiro em seu perfil do Facebook. “Prometi que vou dizer e vou dizer: Milton Ribeiro é o cara!”.

É um grande exagero. Ela estava apenas agradecida. Acontece que este foi um dia muito diferente em Berlim. Uma amiga bielorrussa da Elena — também violinista — veio do interior da Alemanha para reencontrá-la após anos e trouxe seu marido alemão, um ser altamente político e que eu deveria divertir enquanto as duas conversavam. Claro, as duas conversavam em russo, eu e Renê em inglês. E nós dois realmente as liberamos para conversar. Elena ficou feliz por eu ter feito minha parte para a liberdade das amigas.

Renê é um alemão de Lübeck. Logo vi que tratava-se de um desses consumidores de notícias geopolíticas e que eu teria que falar sobre isso se não quisesse ficar num silêncio que seria constrangedor, pois por algum motivo é horrível ficar em silêncio ao lado de desconhecidos.

Primeiramente, ele quis falar sobre os refugiados e foi maravilhoso saber que ele apoiava todo o gênero de auxílio para que estas pessoas se integrassem à vida alemã.

Depois fomos, é claro, para o Brasil. E acho que assustei a curiosidade do gajo. Ele quis saber de uma usina chamada de Belo-Alguma-Coisa e da retirada dos índios… Fui obrigado a entregar Dilma Rousseff para ser comida viva pelo alemão, falei do financiamento das campanhas políticas no Brasil e dos grandes partidos sem os quais talvez seja impossível governar. Falei sobre o quase inevitável PMDB e de como sua presença em todos os lugares era perniciosa. Minha narrativa sobra a corrupção endêmica dos partidos políticos, dos empresários sonegadores e do povo o deixou perplexo. Ele também questionou sobre a ligação dos políticos e empresários. Menino esperto, não?

E contei sobre a estratégia zumbi criada pelo Moysés Pinto Neto para explicar certa parte da atuação do PT-PMDB. Tal estratégia consistia no governo do PT (de esquerda) e de seus pequenos blogs (blogs?, ele repetiu) atacarem incessantemente o adversário pela esquerda no discurso, enquanto que o governo adotava práticas da direita, produzindo aliados à direita que nunca estão satisfeitos com as concessões e uma base de esquerda disposta a justificar qualquer coisa para defender o governo que elegeram. Desta forma, Dilma diz que Temer implementa um “programa derrotado nas urnas”, mas ela, com certo pudor verbal, já fazia isso. Porém, no governo dela, programas sociais eram mantidos e a concentração de renda até diminuía discretamente. É claro que Temer é muito pior, pois adota um programa de ultra-direita sem pudor algum. Ele tenta cortar todo programa social mantido pelo governo anterior. Afirmei que a concentração de renda já se acentuou em seus primeiros meses de governo. E tentei explicar que a dupla atuação de Dilma era quase inevitável, já que o PMDB existe e que o PT jamais tentou controlar a opinião pública alimentada pela voraz grande imprensa de direita. Muito pelo contrário, o partido adubava tal voracidade, pagando-a. Renê arregalava os olhos.

Então decidi que ele ia pirar de vez. Expliquei sobre como são incultas e atrasadas nossas elites. São assim de uma forma tão completa que qualquer argumento que considerem — mesmo intuitivamente — como mais seguro é comprado por eles. Quem vende? Ora, a imprensa. E cheguei a meu tema mais caro: a educação. Expliquei sobre duas reformas educacionais — a militar e a próxima que Temer pretende implantar. Ele ficou apavorado com a primeira… Mas com a segunda foi pior. Acabou dizendo que isso levaria o país ao caos. Imagina deixar História como matéria opcional? Bem, ele é alemão.

E discorri sobre nossos alunos. Falei sobre meu trabalho voluntário na periferia de Porto Alegre e de como alunos de 14 e 15 anos da escola pública não sabem fazer contas de multiplicação e divisão. Sim, sei disso muito bem e provo.

Mas eu o deixaria ainda mais espantado ao dizer que a cidade dele, Lübeck, de 200 mil habitantes, tinha 3 Prêmios Nobel — Thomas Mann, Gunter Grass and Willy Brandt — e o Brasil inteiro nenhum. Sim, temos 1000 vezes mais gente, somos 200 milhões. Ele ficou feliz por eu saber tanto de Lübeck. E garanti que nosso Nobel não viria tão cedo, a não ser que fosse um Nobel da Paz ou para algum gênio isolado. Só que nós somos a prova de que gênios isolados não surgem facilmente como o Guga surgiu no tênis. Há que ter um ambiente cultural mínimo, algo que nossas elites detestam, desejando que permaneçamos um país vendedor de matéria-prima.

Ainda insatisfeito com minha severidade, mandei tudo às favas contando como uma pessoa com formação musical como a Elena era tratada no país. Falei de como a encalacraram numa posição subalterna, abaixo de pessoas que deveriam, na verdade, aprender com ela e de como isso era desmotivador.

Como viver no Brasil? Protegendo-se em ilhas de bons amigos.

E completei: pouca coisa de bom surgirá de nós. Levaremos 50 anos ou mais para melhorar, e desde que comecemos a mudar agora, pois nossa marcha ré ainda está engatada a toda velocidade, pilotada por bispos neopentecostais e políticos corruptos. Paralelamente, fiz questão de informar que um juiz de direito brasileiro podia receber uns 40 salários mínimos, mais benefícios — informação que chutei, mas que não deve se afastar muito da verdade.

Bem, após todo este DESTAMPATÓRIO, estava tão irritado que não tirei fotos de ninguém. E, depois do primeiro grande silêncio, ele começou a falar sobre os erros políticos de Willy Brandt.

Conversamos por mais de seis horas, bem entendido. Isto foi apenas um resumo do papo.

Fim.

Lübeck, 200 mil habitantes e 3 Prêmios Nobel

Lübeck, 200 mil habitantes e 3 Prêmios Nobel

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Em Berlim (V)

O Bernardo sugeriu e a gente obedeceu: fomos conhecer a Gemäldegalerie. Não é um museu daqueles cansativos, é viável de ser conhecido em uma tarde sem maiores desejos de suicídio. Este museu de arte está localizado no flamante Kulturforum Potsdamer Platz, sendo um dos mais importantes do mundo por sua excelente coleção de arte europeia dos séculos XIII ao XVIII. Fica ao lado da sede da Orquestra Filarmônica de Berlim.

Como quase tudo em Berlim, é um prédio novo. Sua história é mais ou menos assim: com a reunificação da cidade em 1992, iniciou-se um debate sobre o destino de coleções de arte dispersas em locais diferentes e ainda em boa parte oculta há anos em depósitos, sem poder ser vista pelo público. Por suas dimensões, a coleção não poderia ser levada integralmente para o Museu Bode, na Ilha dos Museus, e organizou-se a elaboração de um projeto para uma nova sede.

Em 1995, foi feito um levantamento das perdas sofridas pelo acervo de arte em Berlim nas últimas décadas. Foram identificadas obras perdidas em incêndios ou em containers durante a Guerra, obras levadas para a União Soviética e nunca devolvidas, perdas avulsas anteriores a 1945 e peças simplesmente roubadas e com destino ignorado. Em 1998, mais de 3.600 obras dispersas voltaram a ser reunidas na Gemäldegalerie, prédio com cerca de 7 mil m² de área expositiva em uma seqüência de 18 salas e 41 gabinetes que perfazem uma extensão de quase 2 quilômetros. A coleção do museu original (de 1830) acabou aumentada em muito, incluindo obras de Bosch, Van Eyck, Brueghel, Dürer, Rafael, Ticiano, Caravaggio, Rubens, Vermeer e Rembrandt, além de muitos outros mestres.

Encantado com a qualidade do acervo, fui tirando fotos. Algumas delas estão abaixo.

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe dos 'Provérbios Holandeses' de Pieter Brueghel, o Velho

Detalhe dos ‘Provérbios Holandeses’ de Pieter Brueghel, o Velho

Detalhe dos 'Provérbios Holandeses' de Pieter Brueghel, o Velho

Detalhe dos ‘Provérbios Holandeses’ de Pieter Brueghel, o Velho

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Em Berlim (IV)

Ao longo de nossa viagem, procuramos manter contatos interessantes em Berlim. Em nosso quarto dia na cidade, tentamos falar com Marx e Heg… Engels. Além de Lênin, claro. Eles estão na entrada da Ilha dos Museus para quem vem do lado da Alexanderplatz. Marx negou-me o cumprimento — aliás, sequer ergueu-se quando de minha chegada, enquanto Engels até levantou de sua cadeira. Lênin, porém, veio sorridente em nossa direção me imitando, isto é, caminhando com a mão direita no bolso, como quase sempre faço. Grande camarada! Lênin está na frente do guichê de informações da Ilha dos Museus. A seguir, fotos desta primeira parte e, depois, do restante do dia.

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Em nossa primeira ida à Ilha dos Museus, escolhemos a ótima Alte Nationalgalerie. A Ilha dos Museus é um complexo de 5 Museus temáticos, um melhor do que o outro.

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Em Berlim (III)

Nosso terceiro dia em Berlim teve o grande auxílio do Bernardo como guia. Meu filho, que mora há um ano e meio na cidade, está mais do que ambientado na capital alemã. Foi um dia de voltas e mais voltas na neve. Ainda com algum sol, fomos até a Potsdammer Platz, importante bairro e interseção de tráfego no centro de Berlim. Fica a um quilômetro do Portão de Brandenburgo e do Reichtag, ao lado do Tiergarten. Para o lado do Tiergarten, temos os prédios da Filarmônica de Berlim.

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A sala à esquerda é a chamada Kammermusiksaal, onde se apresentam os conjuntos menores de Música de Câmara. A da direita é Großer Saal, onde normalmente se apresenta a Filarmônica de Berlim. Nos dias seguintes, assistiremos concertos em ambas as salas. Tirei fotos do interior. Achei o prédio bem feio por fora, mas lindo por dentro. É um ousado e polêmico projeto de Hans Scharoun que já está na história da arquitetura moderna. O exterior lhe valeu apelidos como “Circo Karajan”, mas sua acústica e ambiente interno o tornam disputado por artistas e fãs da música. Sua construção foi finalizada em 1963, auge do igualmente polêmico titular da orquestra.

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Depois, caminhando ao lado do Tiergarten, no maior frio, saímos em direção ao Memorial do Holocausto e do Portão de Brandenburgo.

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No caminho, o nome de uma ídola nossa.

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O Memorial do Holocausto (Holocaust-Mahnmal) é um memorial em Berlim dedicado às vítimas Holocausto, projetado por Peter Eisenman. Consiste numa enorme área coberta por 2.711 blocos de concreto. De fora, vê-se um campo ondulado de pedras retangulares com nada escrito. Os blocos são de 2,38 m por 0,95 m — parecendo caixões — e a altura varia desde 20 cm até 4,8 m.

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De acordo com o texto do projeto de Eisenman, os blocos são desenhados com a finalidade de produzir intranquilidade, confusão e para que as pessoas se percam entre os blocos. É comum você ouvir uma pessoa chamando outra de seu grupo. Se você for com o filho pequeno pegue sua mão. Ele vai querer correr e… A escultura toda representa um sistema supostamente ordenado que perdeu o contato com a razão humana. O notável é que Eisenman não usou nenhum simbolismo explícito sobre o Holocausto.

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Em Berlim (II)

Acordamos com problemas no dia 4 de janeiro, dia do aniversário do Bernardo. Uma baita dor de cabeça resolveu incomodar a Elena após a viagem e ela pensou que a recuperação seria mais rápida se ficasse no quarto descansando. Inclusive comeria ali. Foi uma boa decisão, porque ela já ficou bem para a festa da noite. Então saí para a rua atrás de comida. O bom e barato Hotel Prens fica nas imediações da estação de Schönleinstraße, na Kottbusser Damm (avenida). Meu filho mora perto a três quadras, na Bürknerstraße. É uma região de imigração turca onde tudo o que não há é culinária alemã. Só que os restaurantes e bares turcos vendem uma comida de primeiríssima linha e muito barata. Fiquei encantado com os mercados turcos da região. Em um deles, que ostentava um nome mais ou menos sincero — Best of the Rest — fiz algumas compras.

Aqui, a primeira parte:
Berlim (I)

Depois de resolvida a questão alimentar, dei várias voltas a pé pela região, com a finalidade de me perder na cidade desconhecida. O invólucro de segurança e respeito que recebemos na Europa que conheço é algo muito tranquilizador. Logo que chegamos, vemo-nos envolvidos por ele e relaxamos. Dá para ir a qualquer canto sem problemas e fico surpreso com minha súbita desatenção, totalmente diversa do que faço no Brasil, onde estou sempre preparado evitar ou aceitar um roubo.

E dei voltas cada vez mais longínquas de nosso hotel.

À noite, fomos na festa de aniversário do Bernardo. Fiquei agradavelmente surpreso com seus amigos. Um bando de gente de alto nível proporcionou boas conversas e, sempre que eu pensava que ficaríamos sozinhos por sermos os “velhos da festa”, vinha alguém conversar. Tudo extremamente educado. Disse para um certo Filipe — alemão filho de portugueses — que chegara a Berlim no dia anterior e que ainda não conhecera nada. Recebi uma resposta surpreendente:

— Não, estar aqui neste bar enfumaçado é conhecer Berlim. Não é uma cidade bonita, não é Paris, Londres ou Praga, é uma cidade onde as pessoas se reúnem para festas e coisas culturais ou não. Tu estás conhecendo Berlim aqui no Mamma. Isto é que é Berlim”.

— Então o turista que só circula não conhece a cidade?

— Não conhece.

Entendi.

Voltamos para casa tranquilamente, a pé, de madrugada.

Um arroio a 100 m do hotel.

Um arroio a 100 m do hotel.

Os arquitetos alemães não podem cer um ângulo agudo que já fazem um edifício. têm desses por todo lado.

Os arquitetos alemães não podem ver um ângulo agudo que já fazem um edifício. Têm desses por todo lado.

Como suportar isso, Bolsonaro?

Como suportar isso, Bolsonaro?

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O chinês que enfiou o dedo num van Dyck na National Gallery

Ontem pela manhã, eu estava sozinho na National Gallery. Era uma visita lenta e anotada para quando a Elena se liberasse a fim de realizar o mesmo périplo. Sentei para descansar numa das confortáveis poltronas lá disponíveis — esses museus enormes cansam meus delicados pés — e vi uma cena incrível. O pai de uma família chinesa estava encostando o dedo numa pintura de van Dyck, Caridade (Charity), para mostrar um detalhe do quadro.

Foto: Milton Ribeiro

Foto: Milton Ribeiro

Eu vi o fato e um dos guardas também. Ele correu aos gritos de “Você não pode fazer isso!”. Mais dois guardas correram para auxiliar o primeiro e eu só assistindo a coisa, disposto a também ir lá dar uns cascudos no nobre cidadão da República Popular da China. (Que Deus, Nosso Senhor, o respeite, ame, e esconda sua estupidez).

Foi quando o primeiro guarda reiniciou seu discurso. Ele disse:

— Este quadro está aqui para o senhor, para seus filhos, seus amigos, para o mundo inteiro e para as gerações futuras. O senhor simplesmente não pode repetir sua atitude aqui e nem em nenhum outro museu que o senhor visitar em sua vida. Jamais faça isso novamente, por favor.

Todo mundo logo ficou calmo e sério. E a visita seguiu normalmente. Só o cidadão tinha um sorriso amarelo, enquanto levava uma mijada da mulher em chinês.

Ele estava tocando bem aqui, ó:

Foto: Milton Ribeiro

Foto: Milton Ribeiro

 Naquela parte escura do tecido, ao lado da mão.

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Talvez tenha sido o melhor concerto que assisti em minha vida

Poderia começar contando como Yuri Temirkanov parou quando estava entrando no palco com Martha Argerich. A argentina foi sozinha receber o aplauso do público antes de iniciar o 3º Concerto de Prokofiev. Fingiu irritação com a homenagem e chamou o lendário maestro com caretas e gestos peremptórios. Mas Temirkanov tem razão, é o concerto DELA. Ou poderia começar contando que a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo colocou no programa a 5ª Sinfonia de Shostakovich por esta estar completando 80 anos e ter sido estreada por ela mesma em seus tempos de Orquestra de Leningrado sob a direção de Mravinsky. Ou poderia logo dizer que foi um dos melhores concertos que assisti na vida, que tive de segurar as lágrimas quando Martha atacou Prokofiev. Ou poderia começar falando que compramos ingressos para um local onde as pessoas ficam em pé porque a Elena tinha clareza de sua “imperdibilidade” e não tinha outros disponíveis.

Poderia terminar contando que saí atarantado do concerto, tanto que fiquei esperando a Elena na porta do toalete feminino e deixei-a sair sem a ver. Ou que compositores russos interpretados por russos é texto puro, sem Google Tradutor — expressão da Elena. Ou devo tentar descrever a incrível sonoridade e unidade da orquestra? (Sem esquecer os magníficos solistas de sopros). Ou talvez o fato dos londrinos urrarem cada vez que Martha voltava ao palco?.Ou devo apenas terminar opinando que marcar um concerto desses para às 15h de domingo comprova que londrino não faz churrasco?

(Em tempo: Temirkanov rege sem batuta, com discretos movimentos horizontais e verticais. Jamais faz um gesto brusco nas notas longas. Parece que está cuidadosamente carregando a música. O que mais se movem são seus dedos e mãos, que devem passar significados que só os músicos entendem. Impossível fazer aquilo com uma batuta. Sua clareza nas entradas torna impossível alguém não entrar quando deve. Um sábio.)

.oOo.

A que me refiro?
Ao concerto de hoje à tarde no Royal Festival Hall do Southbank Center em Londres.

Programa:
Aram Khachaturian: Adagio of Spartacus and Phrygia from Spartacus, Suite No.2
Aram Khachaturian: Dance of the Gaditanian Maidens and Victory of Spartacus from Spartacus, Suite No.1
Sergei Prokofiev: Piano Concerto No.3
Dmitri Shostakovich: Symphony No.5 in D minor

St Petersburg Philharmonic Orchestra
Yuri Temirkanov, conductor
Martha Argerich, piano

Martita recebendo os aplausos pós-Prokofiev

Martita recebendo os aplausos pós-Prokofiev

Temirkanov fazendo o mesmo pós-Shosta

Temirkanov fazendo o mesmo pós-Shosta

E minha musa antes do concerto

E minha musa antes do concerto

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Em Berlim (I)

A Latam fez tudo para atrapalhar, mas no final tudo deu certo. Um atraso de 1h10 na saída de São Paulo quase impediu que pegássemos a conexão para Berlim. Chegamos a Frankfurt 40 minutos após o previsto e fizemos a maior correria num dos maiores aeroportos do mundo antes de vermos a bendita fila de embarque para Berlim. Apreciamos algumas cenas de desespero protagonizadas por norte-americanos que vieram no mesmo voo conosco. “Fuck this airport”, diziam em voz alta dois rapazes de ar nova-iorquino que perderam sua conexão por uma razão muito simples: os alemães não os deixaram passar na frente da fila de imigração. Para os alemães fila é fila e se eles chegaram atrasados, paciência. Aqui ninguém passa na frente. Tá bom. Entendi.

A viagem foi difícil. Eu estava sentado na janela, Elena no meio e um enorme alemão mal-humorado no corredor. O homem grunhia quando queríamos ir ao banheiro. A coisa era ainda mais tensa porque li em sua tela que ele ouvia a integral das sinfonias de Dvořák sem parar. Foram mais de quatro horas. Ele não podia ser boa pessoa. Passada a tensão, a Elena até sentiu-se mal no dia seguinte.

Em Berlim, no aeroporto de Tegel, Bernardo nos esperava. Se não fosse ele, gastaríamos horrores na locomoção até o centro. Como ele, gastamos 4,50 euros. Chegamos rapidamente ao Hotel Prens Berlin — simples e ótimo — e jantamos maravilhosamente em sua companhia ao custo de 25 euros. Preço para os três.

No voo da Lufthansa entre Frankfurt e Berlim, fui ao banheiro — já tinha outras vezes é claro, mas esta ida foi especial. A porta sinalizava o recinto como livre. Abri a porta com a maior sem-cerimônia quando vi que, dentro, estava uma aeromoça de olhando-se no espelho. Detalhe: ela retocava a maquiagem ou ajeitava o cabelo com as saias no chão, só de calcinhas e o resto da roupa. Pode ser que aqui ninguém passe na frente da fila, mas as moças entram em banheiro público sem maiores cuidados. Fechei imediatamente a porta. A moça nem me olhava depois.

Pela janela do avião, fiquei impressionado com os número de captadores de energia solar e os cataventos de energia eólica. Eles estão por todo lado.

A conversa com o Bernardo foi calma e amorosa, apesar de nosso imenso cansaço. Amanhã é o aniversário de meu filho.

Elena e Bernardo conversando sobre a poética dos livros de fotografias.

Elena e Bernardo conversando sobre a poética dos livros de fotografias.

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Férias

Não creio que, nestes meus quase 60 anos, tenha algum dia tirado 30 dias consecutivos de férias. Desta vez ficarei um mês fora. Então, se por um lado perco meus dez dias de folga em julho, por outro faço melhor uso de uma passagem absurdamente cara. Vou visitar meu filho em Berlim e dar as voltas que a grana permitir. Será ótimo ver a Ilha dos Museus, o Portão de Brandemburgo, o Memorial do Holocausto, a Alexanderplatz, o Muro, o Reichstag, etc. Temos também programada uma extraordinária lista de concertos. Mas creio que a atração principal da cidade será mesmo o Bernardo. É engraçado, quanto mais a hora da viagem se aproxima, mais sinto falta de vê-lo e abraçá-lo. É também praticamente certo que vou conhecer minha sogra em Praga. Ela só fala russo e certamente ficará decepcionada com o cara feio que sua linda filha foi arranjar. Pelo Skype, ela achou que eu fosse judeu. O que sei eu do que aconteceu com meus antepassados ibéricos? Quase nada e é possível que a Klara tenha até acertado. Então vou diminuir minha presença na rede para ver o que há por aí.

O castelo de Praga em fevereiro de 2013 | Foto: Milton Ribeiro

O Castelo de Praga em fevereiro de 2013 | Foto: Milton Ribeiro

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O Peido

Conheci Tchékhov na coletânea de contos O Beijo, em gloriosa tradução de Boris Schnaiderman. Apenas duas consoantes diferenciam o título desta ocorrência real do conto do russo, mas vocês verão como uma pequena alteração pode ser dramática. Minha história não aspira ser doce ou amorosa. O que posso dizer em meu favor? Nada. Fatos são fatos e não podemos discutir com eles.

Era o mês de janeiro e eu e Elena estávamos na Pousada Oceânica, em Zimbros, no litoral catarinense. Nossa vida era aquela coisa de acordar, dar uma caminhada na praia, tomar café, ler um pouco, almoçar, ler ou dormir, mais um café, praia, banho e jantar. Muitas vezes não conseguíamos cumprir tão dura rotina e acabávamos por dormir e comer mais.

O local onde ficamos hospedados era um conjugado de quarto e banheiro bastante adequado, mas sem grande espaço para a privacidade individual. Tivemos vários vizinhos durante nossa temporada. No início, os da porta ao lado nos deixaram preocupados. Eram uns argentinos que bebiam e riam até tarde. Mas logo foram embora para serem substituídos por algo pior: paulistas. Eles trouxeram uma caixa de som que cuspia sertanejo universitário. Reclamamos para o dono da pousada e ele os calou. Passaram a nos olhar de longe, coisa que não nos preocupou. Queríamos apenas preservar nossas férias. Depois veio um casal com filhos já crescidos. Educadíssimos e quase silenciosos, às vezes faziam churrasco e nos ofereciam. Nós ficávamos loucos para aceitar, mas, a fim de manter nossa vida preservada, agradecíamos e declinávamos.

Um dia, eu estava lendo uma coletânea de contos de Luís Augusto Farinatti no chamado espaço gourmet. Ele tinha me mandado o material num arquivo word para que eu os avaliasse. Eu lia e pensava em como eram bons. Melhores ainda se comparados com algumas merdas que via publicadas e nas quais nem é bom falar. Foi quando meu vizinho se aproximou e se apresentou. Magro, em forma, com aproximadamente 50 anos, revelou que seu nome era Joaquim Pedro e que sabia que meu nome era Milton, pois era leitor deste blog. Ele também sabia de Elena. Disse que era um admirador meu. Conversamos o tempo exato. Um pouco sobre futebol, um pouquinho sobre o que eu publicava aqui, outro pouco sobre quem ele era, o que fazia e onde morava. Residia em Concórdia (SC). O homem era mesmo um gentleman e não queria incomodar nem ser incomodado. No final, disse que conhecera a pousada também por causa do blog. Eu tinha escrito algo aqui a respeito.

No dia seguinte, sua esposa me perguntou se Joaquim tinha falado comigo. Respondi que sim e ela me afirmou que ele estava na dúvida se deveria dizer que me lia há anos, etc. Tudo muito simpático. Eu estava envaidecido.

Pois pode não parecer, mas sou gentil. De manhã, por exemplo, quando estou num hotel, vou ao banheiro geral da pousada, deixando o do quarto para a Elena. Então, certo dia, saí cedo para meu passeio ao segundo banheiro. Mapeei bem a coisa. A Elena estava fechada no banheiro, a pousada com todos os hóspedes em seus quartos com os ares-condicionados a pleno vapor. Senti que estava em plena segurança acústica e resolvi que poderia expelir meus gases ali mesmo, sem ser notado, no varandão aberto em frente aos quartos. Sim, tinha profundos desejos de flatulência, aspirava por uma boa ventosidade, também conhecida por peido.

E comecei. Olha, foi longo e em quatro movimentos, como uma sinfonia de Haydn: Grave-Allegro, Adagio, Minueto e Presto-Finale. Um alívio. Um alívio e um show. Quando virei para o lado esquerdo, notei um movimento bem próximo de mim: sim, o educado, recatado e principalmente silencioso Sr. Joaquim Pedro estava de joelhos, passando parafina numa prancha de surf. Ele era tão discreto que estava de costas para mim, mas certamente ouvira tudo.

Eu estava exatamente ali, na frente daquela rede

Eu estava exatamente na frente daquela rede que mal se vê na esquina do térreo da pousada. O banheiro 2 é aqui à esquerda das bicicletas. Longe, né? | Foto: site da Pousada

Fiz a volta pelo outro lado para não ter contato visual com o vizinho e voltei para o quarto morto de vergonha. Mas minha tragédia não parou aí. Quando entrei no quarto, Elena me denunciou: “Pensa que eu não ouvi? Mas que coisa horrível!”. E caiu na risada.

Gente, às vezes é melhor não acordar. E saímos para nossa caminhada. Para minha sorte, não cruzei mais com o Sr. Joaquim Pedro, ao qual peço desculpas nove meses depois, nesta manhã chuvosa em Porto Alegre. Ele foi embora logo depois. Espero que ele não tenha se decepcionado muito comigo e que ainda leia este blog.

Vista da janela do Espaço Gourmet da Pousada Oceânica | Foto: Milton Ribeiro

Vista da janela do Espaço Gourmet da Pousada Oceânica | Foto: Milton Ribeiro

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Uma indiscrição do Milton. Mais uma

Hoje seria uma noite para eu e Elena sairmos, mas ela sofre de enxaqueca e este é um mal que ataca sem maior aviso. Vem e se instala, às vezes sem dar tempo de um Naramig(o). Quando está assim, ela vê filmes bobos ou dorme. Então, já que estou sem fazer grande coisa, entre lamentar o país, ir ao protesto, ler um livro ou ser indiscreto, escolhi a última opção. Aliás, a Elena sempre diz que eu só tenho um defeito, o de ser indiscreto. Tenho outros, mas não nego aquilo de que sou acusado.

Deveria escrever sobre a reunião do PQP Bach, mas esta deixarei para outro dia. Pois então… No dia 21 de janeiro deste ano fizemos uma cerimônia secreta. Estávamos na praia de Zimbros e o dia entardecia como mostra a foto abaixo.

Entardecer em Zimbros no dia 21 de janeiro de 2016

Entardecer em Zimbros no dia 21 de janeiro de 2016

Bonito, né? Estava perfeito. Nós tínhamos comprado juntos as alianças no mês de dezembro, mas só a usaríamos no dia certo. Quando ele chegasse, abriríamos a Veuve Clicquot que leváramos na mala — a clássica, laranja, caríssima, nosso único luxo –, buscaríamos uma comida bem boa no restaurante Berro d`Água e inventaríamos qualquer coisa.

Nós tínhamos uma mesa na varanda externa de nossa cabana que era um tronco de árvore cortado, não era nada simétrico, então o desafio era equilibrar pratos, copos, talheres e, principalmente, nossa valiosa bebida.

a-IMG_1168a-IMG_1169É claro que tratamos de fazer tudo tarde da noite para não sermos incomodados, mas os donos do hotel vieram ver o que estava acontecendo. Viram que eu estava arrumadinho — bermudas novas e camisa polo inteiramente fora do padrão mendigo que uso quase sempre — e que a Elena estava ainda mais bonita do que o de costume. Respondi que era uma data especial e eles sumiram tão subitamente quando chegaram. Gente inteligente.

Uma bebida dessas deixa a gente alegre e criativo. Então, depois de comer e beber, saímos pela praia com nossas flamantes alianças tirando fotos que, vejo hoje, apenas denunciam que a criatividade do álcool só se dá bem com William Faulkner e roqueiros. São fotos ruins de doer. Mas lembro que a gente riu muito com as selfies mais mal tiradas de 2016 até aquele momento. Tentávamos com a minha máquina, com o celular dela, queríamos mostrar as alianças e nossas caras e nada dava certo. Nas piores fotos, erguíamos os anulares mandando todos àquele lugar, uma maravilha.

DSC02991Mas há muitas outras. Umas melhores, outras de bêbado e aquelas bem ruins mesmo. Mostrarei com moderação. Comecemos por Pulp Fiction.

a-IMG_1182a-IMG_1183a-IMG_1191a-IMG_1201Caminhamos pela beira da praia, sentamos na areia com os mosquitos, nos molhamos e, na volta, em um momento de lucidez, experimentamos isto e funcionou.

a-IMG_1227Talvez a dor de cabeça da Elena piore quando ela acordar e ler este post. Nestes momentos, tenho que lembrá-la de que nem sou tão indiscreto assim. Afinal, poderia seguir contando a noite.

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Penetras na Sala São Paulo

Os penetras Mateus Rosada, Milton Ribeiro e Elena Romanov | Foto: Mateus Rosada

Os penetras Mateus Rosada, Milton Ribeiro e Elena Romanov | Foto: Mateus Rosada

Ontem, ao dar de cara com mais uma segunda-feira, parecia que voltava de férias. Mas não, tinha saído do trabalho na sexta-feira anterior, no horário de sempre. É que o fim de semana tinha sido tão cheio e aventuresco que parecia terem se passado mais de dois dias. Eu e Elena fomos a São Paulo. Ela para rever amigos seus que hoje tocam na Filarmônica de Israel, eu para me reunir com o pessoal do PQP Bach.

A primeira missão era complexa. Não tínhamos adquirido ingressos para a Sala São Paulo, pois o concerto estava esgotado há muitas semanas. Então, fizemos todo um plano com membros da orquestra para entrar junto com eles na Sala, mais de duas horas antes do concerto. Fomos cheirados, examinados e nosso potencial explosivo foi avaliado. O sotaque da Elena funcionou positivamente. Mas sempre vinha alguém perguntar quem éramos. Os amigos da orquestra trataram de nos defender, dizendo que Elena era uma amiga de infância. Não mentiam.

(Depois, queriam saber onde se servia caipirinha em São Paulo. Lembrem que a cachaça já é vendida no mundo inteiro, mas que o açúcar é de beterraba e o limão é outro em Israel).

Resolvido o problema, vimos o indiano Zubin Mehta entrar no palco para um último e curto ensaio. Ele mais falou do que ensaiou. Mas quando os primeiros acordes do Hino Nacional Brasileiro foram tocados, justificou-se todo o nosso esforço. Estávamos realmente frente a uma orquestra extraordinária. As cordas tocavam como se fossem uma só pessoa, os sopros eram claros, tudo era audível e bonito desde nossa posição privilegiada na Sala São Paulo. Depois, Mehta pediu para repassarem partes escolhidas de Daphnis e Chloe e Vida de Herói.

Suas instruções cuidavam apenas da beleza do som, nada quanto aos andamentos. A delicadeza não vinha do “vamos tocar mais baixo”, mas dos timbres. Ouvíamos seus gritos de “Beautiful sound, beautiful sound”… No meio de uma parte especialmente complexa do Ravel, com um fantástico solo de flauta, Mehta, de 80 anos, parou tudo para perguntar. “Ei, vocês sabem que este será o último concerto de nosso colega contrabaixista X? Ele está se aposentando!”. Todos aplaudiram e cumprimentaram um senhor sorridente e surpreso.

Dentre os trompetistas da orquestra, estava Elieser Ribeiro, primeiro trompete da Ospa. Ele foi membro da Filarmônica de Israel há alguns anos, mas voltou para o Brasil por razões familiares. Normalmente, quando a orquestra viaja para a América do Sul, Elieser é convidado por Mehta.

Foto: Mateus Rosada

Zubin Mehta: mais papo do que ensaio | Foto: Mateus Rosada

Aliás, a atmosfera era realmente divertida. Quase todas as observações do maestro eram recebidas com risadas. Ele também deu todos os avisos sobre o final da excursão, sobre o bis e as próximas viagens. Chamou minha atenção que Mehta disse que orquestra priorizaria turnês pela Europa e América Latina, sendo aplaudido pelos músicos. Nos intervalos, solicitava trechos escolhidos das obras que seriam tocadas no concerto.

Eu e Elena sempre brincamos que nossas viagens são de turismo sinfônico. A do último fim de semana foi rápida. Ficamos na casa de nosso querido amigo Mateus Rosada que estava conosco na Sala São Paulo. Acho que essas viagens funcionam como a leitura de um bom livro, daqueles que limpam nossa cabeça, mostrando que o mundo é não feito só de senadores como Ana Amélia e Lasier Martins, que pode ser mais inteligente, lógico, generoso, afinado e bonito. É renovador ver algo como vimos. E as horas do fim de semana pareceram esticar-se, demonstrando que fazer coisas desinteressantes é apenas jogar fora nossa curta vida.

Eu, Elena e o violinista bielorusso Vitaly Remeniuk | Foto: Mateus Rosada

Eu, Elena e o violinista bielorusso Vitaly Remeniuk | Foto: Mateus Rosada

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E um dos posts de férias saiu no jornal impresso

Saiu daqui e foi parar no jornal Qtal, de Salvador do Sul. Clique sobre a imagem para ampliar. As fotos são minhas, à exceção da aérea. Não sobrevoei o hotel nem brinco com drones.

alta8

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