Um reconhecimento: um pequeno texto de Elena Kuschnerova sobre Martha Argerich

Elena Kuschnerova não é uma pianista qualquer. Ela é uma concertista internacional de alto nível, espécie de campeã em Scriabin. Vários compositores escreveram músicas dedicadas a ela, que mora entre Baden-Baden e Nova York. É contratada da Steinway. É também amiga da minha Elena e as duas costumam trocar figurinhas no Facebook. Um dos últimos concertos de Kuschnerova está no folheto abaixo. O Piano Salon Christofori é em Berlim e naquela cidade não é proibido fazer crítica musical. Nos dias seguintes, ela foi elogiadíssima nos jornais e sites que fazem cultura. Vejam só que programa!

E, hoje, a amiga de minha Elena foi ver Martha Argerich… Os russos sabem escrever, parece que todos sabem.

pianista elena

Tradução de Elena Romanov

Hoje eu percebi, ou melhor, eu lembrei porque as pessoas vão a concertos. Para aderir à Arte e presenciar o nascimento de um milagre.

Martha Argerich — quanto eu já ouvi sobre ela! Quantas gravações impressionantes e nem tão impressionantes… Mas nunca antes a tinha visto num palco.

Obrigada, Gidon Kremer, que em sua turnê de aniversário trouxe Martha (quem mais?). E desde sua primeira aparição no palco, eu entendi tudo. Ela entrou lentamente. Não, não com vaidade, mas como uma mulher já de idade. No entanto, era surpreendentemente bela. E ela começou a tocar com Gidon a Sonata em lá menor para Violino e Piano de Schumann. Quantas vezes eu já toquei esta sonata! Com muitos violinistas, muitas vezes, eu conheço cada nota. Mas Martha deu à luz a um verdadeiro milagre! Este é exatamente o tipo de interpretação que não pode ser descrita por palavras. A música fluiu e respirou, e apareceram lágrimas em meus olhos… E nem preciso dizer que, comparado com ela, Gidon não passava de um fundo que se esforçava ao máximo para corresponder. Que rubato! Que som! Que poesia! Era como se o próprio Schumann pairasse no salão…

Eu posso dizer com certeza que Martha é o melhor que eu já ouvi em uma sala de concerto. Talvez só se compare à Gilels.

Inesquecível!

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Ali Hassan Ayache reclama da presença estrangeira no Brasil

“Existe no Brasil uma dezena de excelentes profissionais capacitados para o cargo e a direção escolhe uma italiana”.
Ali Hassan Ayache

O potencial cômico desta matéria (e do titulo acima) pode ser resumido na seguinte frase: “Em um texto cheio de xenofobia, mas travestido de austero, Ali Hassan Ayache reclama da saída de Naomi Munakata da regência titular do Coro da OSESP para dar lugar a Valentina Peleggi”. A frase é autoexplicativa porque todos os envolvidos têm nomes não brasileiros, mostrando o óbvio: somos um país de imigrantes. Então, um Ayache faz beicinho para Munakata e Peleggi. O texto foi-me apresentado por Augusto Maurer.

Valentina Peleggi: ninguém discute sua qualidade, já a etnia...

Valentina Peleggi: ninguém discute sua qualidade, já a etnia…

Eu sou neto de portugueses, Ali Hassan veio do Líbano, Naomi é japonesa, Valentina é italiana, Augusto tem ascendência alemã. Sim, sabem que o perfil do Facebook de Ayache indica que ele nasceu em Beirute? Ora, Ali, nós matamos nossos índios, aqui quase todo mundo tem um pé fora do Brasil. Seja na África, seja na Europa, seja em lugares mais distantes. E todos, mas todos nós, saímos da África.

A matéria também reclama da presença de Marin Alsop por apenas dez semanas / ano na Osesp. Tão simples de explicar: a estadunidense Alsop é uma estrela mundial. Assisti a uma masterclass e uma entrevista dela no Southbank Center (Londres). Afirmo que aquele grau de conhecimento você não vai encontrar facilmente em nenhum lugar do mundo. Ela vale muito. Os ingleses — que não são fáceis de convencer — amam a norte-americana Alsop.

Mas o Brasil é assim. Gente de família que recém chegou acha que deve evitar os estrangeiros. Quando conheci Lisboa, vi o quanto de português havia em mim. No primeiro dia, eu já estava adaptado. Portugal já estava em mim sem eu saber. E entendi o que meus avós deviam ter sofrido no Brasil com seus sotaques, com o recomeço de meu avô como estivador no cais do porto, com as piadas de português, etc.

O texto de Ayache revela um preconceito muito comum em nosso país. Somos formados pela imigração, mas não queremos mais imigrantes por aqui, mesmo que eles venham fazer bons trabalhos ou nos ensinar. Enquanto isso, um grande homem como Jordi Savall faz isso. É que Savall conhece história. Em suas pesquisas, já encontrou a presença espanhola em todo o mundo e sabe como as trocas culturais funcionam. Te digo que certamente temos coisas a aprender com os senegaleses e haitianos que recém chegaram aqui, nem que seja sobre elegância.

Ademais, a Osesp só é a Osesp em razão dos estrangeiros. Aqueles violinos… Onde havia algo semelhante na América do Sul à época em que foram trazidos?

Tenho exemplos de xenofobia bem aqui a meu lado. Dentro de casa inclusive. Afinal, minha querida Elena é uma bielorrussa naturalizada brasileira e tem histórias muito interessantes e comprovadas para contar e mostrar. Se ela sofre de xenofobia? Nossa, e como! Não nos provoquem… Sou ótimo contando histórias.

E, falemos sério, Peleggi é uma deusa regendo. É muito competente e deveria ser um orgulho — jamais um problema! — para São Paulo recebê-la. Se não quiserem, mandem para Porto Alegre. Não temos ninguém como ela aqui na cidade. NEM DE LONGE!

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Bom dia, Zago (com os melhores lances do Gre-Nal de 2 x 2 de ontem)

O Grêmio dava uma saranda no Inter no primeiro tempo. Bolaños e Luan navegavam tranquilamente em campo. O Inter marcava de longe e eles podiam pensar no que fazer antes de receber a marcação. Já o Grêmio marcava em cima e obtinha enorme vantagem. Eles tem mais time, ainda. Mas Renatinho Portaluppi, velho amigo do Inter desde que era aprendiz de padeiro em Bento Gonçalves, resolveu mudar e recuar o tricolor no início do segundo tempo — esta afirmativa não é minha, é do próprio Renato, na coletiva após o jogo. Resultado: o Inter virou o jogo antes dos 15 min do segundo tempo. O empate do Grêmio veio num chute da entrada da área, com a bola passando entre três jogadores do Inter, o que provocou a falha de Danilo Fernandes. Lastimável.

O pessoal do Grêmio aprendeu muito ontem | Foto: Ricardo Duarte

O pessoal do Grêmio aprendeu muito ontem | Foto: Ricardo Duarte

Mais um empate. O empate dispara na ex-rivalidade Gre-Nal. Agora são 129. É o clássico Gre-Pate ou InPate. O Inter venceu 154 Gre-Nais, o Grêmio, 127, e temos 129 empates. Dá-lhe empate! Até os empates estão à frente do imortal…

Foi um bom resultado para nós, time merecidamente na segunda divisão. Apesar de não marcarmos nada bem, de os jogadores do Grêmio receberem sempre livres a bola, algo verdadeiramente apavorante, temos evoluído, Zago, e isso é o mais importante. Tu pegaste um grupo limitado, abalado psicologicamente e há 18 meses sem treinador. Ah, por falar em abalado psicologicamente… Charles e Léo Ortiz estavam nervosíssimos. William ligado em 220 V, o que é inútil. E Carlos… Olha, sei que Nico se machuca demais, mas é muito superior a este Carlos. Tem que jogar sempre. Nosso ataque tem que ser Nico e Brenner. E é melhor esquecer de Anselmo.

Nossa comemoração foi compreensível e justa. D`Alessandro, que não é nada burro, sabe que empatar com o Grêmio fazendo dois gols era impossível três meses atrás. Melhores em campo? Do nosso lado, D`Alessandro, Nico, Dourado e Brenner, que tem se mostrado um centroavante consistente.

Se seguirmos nesse ritmo, teremos um bom time para voltar para a Série A, em 2018. É sempre perigoso elogiar no inicio de março, mas acho que a diretoria tem trabalhado bem na dispensa de jogadores e nas contratações. E já damos trabalho a times do baixo clero da Libertadores.

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Porque hoje é sábado, Marilyn Lange

Creio que em 1975, durante inocente pesquisa bibliográfica nas revistas de meu pai,

descobri que ele tinha uma Playboy (EUA) de 1974, dedicada a Marilyn Lange.

Logo peguei a revista a fim de mostrá-la a meus colegas do

Colégio Estadual Júlio de Castilhos, que me consideraram a mais feliz das criaturas

naqueles tempos onde o acesso à pornografia era limitado.

Com efeito, Marilyn Lange tinha grandes qualidades naturais

que podiam ser identificadas ao primeiro olhar.

Eram outros tempos. Havia muitos Fuscas e Corcéis nas ruas.

Os mais ricos andavam de Maverick ou Opala, os ricaços de Landau.

Estávamos no último ano do segundo grau, eu não tinha carro e

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Carta pública de Mempo Giardinelli a Mario Vargas Llosa

Admirado Mestre, onde quer que esteja:

Eu não tive a sorte de ser seu amigo, mas, como você sabe, considero-me seu devoto discípulo. Ambas as vezes em que nos encontramos, uma em Buenos Aires, outra em Lima, cumprimentamo-nos calorosamente, e outras vezes o Sr. me enviou saudações, das quais me orgulho, por outros meios. Mas o que é mais importante para mim é o fato de ter lido quase toda a sua obra com prazer e paixão. Mais: como professor de graduação e pós-graduação, eu sempre dou aulas sobre seus romances, ao menos uma por ano — em 2016 eu abordei Os Filhotes — e sempre retorno a suas palestras sobre Flaubert e Arguedas.

Desde logo vou dizendo que não concordo com nenhuma de suas idéias políticas, mas até agora optei por não contradizê-lo, apenas lamentando silenciosamente várias de suas declarações. Toda vez que eu lhe vi na TV, mudei imediatamente de canal em tributo à qualidade de sua prosa, de sua poética e de seus personagens. Mesmo quando se armou um protesto em 2012, aqui em Buenos Aires, porque o Sr. iria inaugurar a Feira do Livro, escrevi neste jornal que seu Prêmio Nobel foi “irrepreensível por premiar uma estética literária moderna, inovadora, original e escrita à margem da civilização imperial”. E eu também escrevi que “para além do grande narrador, é também um cruzado neoliberal, destes que se espantam com qualquer gesto equivocado kirchnerista, mas que tolera ver Menem rifar o país, o petróleo, as ferrovias, os portos marítimos, etc.”. E chegamos a 2015, quando você fez campanha eleitoral dizendo que, “se fosse argentino, votaria em Macri”. Neste caso, também mantive silêncio, apesar de que me doía vê-lo manifestar-se.

Mas, embora eu jamais tenha retrucado as suas opiniões nem muito menos contra-atacado — e não farei isto agora –, quero lhe dizer que fiquei estupefato com o diálogo que você manteve em Madrid, nesta semana, com o presidente de meu país. Ao ver você aceitar e celebrar tanta mentira não literária, concluí que meu silêncio já era demasiado.

Vargas Llosa também têm feito aparições em peças teatrais de sua autoria. Os críticos têm sido irônicos sobre o Nobel-ator.

Vargas Llosa também têm feito aparições em peças teatrais de sua autoria. Os críticos têm sido irônicos sobre o Nobel-ator.

O governo liderado pelo Sr. Macri é um governo de bandidos, em primeiro lugar, porque chegaram ao poder prometendo o que o povo argentino queria e precisava ouvir, mas determinados — desde o primeiro momento — a trair cada uma dessas promessas.

Em segundo lugar, é um governo de facínoras insensíveis, de canalhas que, ao longo de quatro décadas, e em todos os seus governos, depositaram aproximadamente 350 bilhões de dólares em paraísos fiscais. Por isso, o primeiro ato do Sr. Macri foi o de legalizar essas fortunas, que supostamente retornariam ao país.

O Sr. Macri é hoje considerado — não no mundo da América Espanhola, é claro — um dos cinco governos mais corruptos do planeta. E o repertório de escândalos que os grandes jornais e o sistema de televisão argentino omite é chocante. Sabe-se que existem mais de 40 empresas ligadas ao Grupo Socma, de propriedade da “Famiglia” Macri. E são públicos os repetidos “perdões de dívidas” e favorecimentos, como nos casos de Correo Argentino (de seu pai) e Ferrocarril Sarmiento (de seu cunhado).

Claro que fico pasmo por vê-lo celebrar Macri, ignorando tudo isso. O gabinete argentino se assemelha ao do Dr. Caligari, com mais de 50 membros processados (incluindo o presidente e seu vice) e com vínculos perversos com a empresa brasileira Odebrecht, cuja diretoria é grande parceira do presidente.

Você deve saber, com certeza, que a atuação do Supremo Tribunal Federal foi alterada através de decreto e que agora o país é governado por “decretaços” como fizeram há décadas os militares aqui e os ditadores no  Peru. E com certeza está ciente dos favores obscenos a latifundiários e a alvoroçados empresários, que puseram milhões de trabalhadores na rua, destruindo não somente empregos, mas educação, famílias e sonhos. Em pouco mais de um ano, foram fechadas 7000 fábricas e empresas produtivas, o ensino público está em estado terminal e, nestes 14 meses, nossa dívida externa aumentou ad infinitum, para algo que nunca vamos pagar.

Custa-me crer que você, meu Mestre, com a sua acuidade proverbial, preste-se a esta farsa. Pergunto, então: são tão grandes os negócios que nos preparam na Espanha que justifique uma recolonização? São tão grandes esses interesses a ponto de você descartar uma grande carreira literária e favorecer um arruaceiro que se assemelha tanto a seu compatriota Fujimori?

Minha lealdade de discípulo e a consciência de minha pequenez literária não me impedem de ver, com dor, o triste papel encarnado por você na televisão ao discursar platitudes com a finalidade de criticar o presidente venezuelano. Dói-me ouvir suas falas cheias de conotações racistas e classistas.

Me deu muita pena do Sr., Don Mario, ao vê-lo tão generoso e dócil na frente do lamentável governante desta terra que lê e gosta de seus livros. Eu senti dor e um certo embaraço por ser seu admirador.

Sim, sem dúvida, vou continuar admirando sua obra literária, mas que enorme vergonha senti de vê-lo agora, em idade avançada, desempenhando um papel como Zavalita perguntando: “Em que momento se fudeu a Argentina?”.

Seguirei devoto de sua grandeza literária. Mas apenas dela.

Péssima tradução de Milton Ribeiro.

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Serena, de Ian McEwan

Serena McEwanResenha sem spoilers, tá? Serena conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres e Brighton, misturando amor, literatura, costumes e política (Guerra Fria). Serena Frome é uma jovem que vai trabalhar no MI5 (Military Intelligence, Section 5), serviço de inteligência do governo inglês. Ela estudou matemática em Cambridge, mas gosta mesmo é de literatura ligeira. No início do livro, diz preferir Jacqueline Susann a Jane Austen… e, sim, ela se torna mais razoável depois. Em razão de seu amor pela literatura e por ser de direita (além de linda), ela é convidada a participar de um projeto bem comum na época: com a finalidade de combater as ideias comunistas, o MI5 passa a financiar autores talentosos que escrevam a favor do capitalismo. Normal. Até Orwell participou de um programa desses. Após alguns casos amorosos, inclusive com o homem que de certa forma a colocou no MI5, Serena envolve-se com um escritor que recrutou, um certo Tom Haley. A partir deste ponto, paro de contar a trama.

Dito assim rapidamente, parece ridículo. Não é. McEwan é um baita escritor, realiza sempre minuciosas pesquisas e consegue manter esta trama vintage — meio espionagem, meio farsa, meio romanção — bem escondida sob uma prosa sempre interessante. Só que o livro não chega a ser bom. O final que o leitor elabora em sua cabeça, imaginando as cenas que virão antes do desenlace sugerido, é menos elegante do que aquilo que é descrito por McEwan. E a gente fica pensando que ele não explicita a história porque ela não é tão boa. Fica uma sensação estranha e insatisfatória.

McEwan nasceu em 1948, eu em 57. Muitas das referências feitas por ele àquele período de minha juventude foram-me absolutamente deliciosas. Talvez eu e ele tenhamos sucumbido nostálgica e apaixonadamente à música popular e aos problemas em voga na época. As descrições detalhadas de como Serena se veste ou pensa são ótimas e a certa ingenuidade sempre presente dão um perfume especial à esta narrativa longa (382 páginas).

Mas, vocês sabem, um mau McEwan é superior do que o melhor livro de muito autor consagrado e Serena é exatamente isso, um equívoco de um excelente autor. Afinal, sempre se espera deste cara que diz vencer seu bloqueio criativo lavando louça.

Ian-McEwan-escritor

Livro comprado na Bamboletras

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Iniciamos o dia dando gargalhadas com Tulio Milman

Bom dia para você que tem grande reconhecimento pelo trabalho de Cezar Schirmer!

Tulio Milman

(Na ZH de hoje).

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Site norueguês obriga leitores a mostrar que leram os artigos antes de os deixar comentar

Do Publico.pt

O NRKbeta quer manter na sua caixa de comentários discussões produtivas e construtivas. Para isso, quem quiser comentar (alguns) artigos tem de responder a três perguntas antes de entrar no debate.

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O site tecnológico da empresa pública de rádio e televisão da Noruega, a NRK, pôs em prática, no último mês, uma nova forma de controlo da utilização feita das suas caixas de comentários. E os efeitos já se começam a sentir.

Há duas semanas, o NRKbeta publicou uma peça explicativa sobre a proposta de lei que visa a vigilância digital na Noruega. Apesar de o tema ser controverso e capaz de iniciar discussões inflamadas, os comentários ao texto mantiveram-se cordiais e construtivos, com vários links de pesquisas ou livros a serem sugeridos, relata o NiemanLab. Ora, o NRKbeta diz que a qualidade do debate se deve ao novo mecanismo aplicado a quem pretende escrever um comentário no seu site.

Em alguns artigos, os leitores que quiserem comentar terão de responder a três questões básicas de escolha múltipla sobre o próprio texto. O objectivo é confirmar que os leitores tenham realmente lido a história antes de os deixar intervir.

“Nós pensamos que deveríamos fazer a nossa parte e tentar garantir que as pessoas estão em sintonia antes de comentarem. Se toda a gente concorda que é isto que o artigo diz, então têm uma base muito melhor para o comentar”, afirmou ao NiemanLab, Stale Grut, jornalista do NRKbeta.

O jornalista e o director do site, Marius Arnesen, explicam que o NRKbeta é uma das poucas secções da NRK que oferece uma caixa de comentários aos leitores, criando uma comunidade fiel que normalmente têm conversas positivas. No entanto, algumas histórias atraem leitores que não são assíduos e as discussões resvalam.

Começando a pensar numa estratégia para tentar controlar o tipo de conversas que possam surgir, a redacção planeou esta espécie de quiz porque, assim, pelo menos garantia-se que os leitores tinham realmente lido o texto, possuindo assim a mesma base para a discussão. “Estamos a tentar estabelecer uma base comum para o debate”, diz Arnesen ao NiemanLab. “Se vais debater alguma coisa, é importante saber o que está no artigo e o que não está no artigo”.

Por agora, apenas alguns artigos trazem consigo as questões para os leitores, até que se comprove que realmente resulta. Se se provar a utilidade deste sistema, o quiz, que é criado pelo autor do texto, pode ser estendido a todas as histórias.

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Museu Iberê Camargo: mais um absurdo da provinciana e atrasada Porto Alegre

Quando certa manhã Álvaro Siza acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se pensando que aquilo que lhe passara pela cabeça seria uma maravilhosa realidade: um gigante pilotando uma enorme pá, enterrando fundo seu instrumento de trabalho na beira do Guaíba, para depois erguer do chão o Museu Iberê Camargo e perguntar para onde deveria levá-lo. A resposta seria óbvia: para uma cidade que desse um mínimo de atenção para a cultura.

Foto: Elvira Tomazoni Fortuna

Foto: Elvira Tomazoni Fortuna

Não sei como Álvaro Siza Vieira foi construir uma de suas mais belas obras em Porto Alegre, o que sei é que a cidade não a merece. Trata-se de um museu de arte, um lindo prédio branco e iluminado na mais bela região da cidade com estacionamento no subsolo… Mas vejam só — funciona apenas dois dias por semana, sexta e sábado. Talvez os ônibus nem parem mais na frente do Iberê. Não sei de vocês, mas eu sofro com isso. Como minha cidade pode descuidar tanto de seu patrimônio cultural?

A obra é um achado. Espaçoso, privilegia a entrada de luz e a visão das águas do Guaíba. Deveria estar sempre lotado, com escolas durante o dia, mais visitantes e turistas. Em quase todos os lugares do mundo, os museus abrem todos os dias, exceto às segundas-feiras. São importantes não apenas para arte e sua memória, mas para o turismo. Só que aqui, no provinciano e cada vez mais cu do mundo chamado Porto Alegre, não há empresas, mecenas ou governo que possam assumir o local.

Só o prédio de Siza já seria uma atração para o turismo cultural. Foi vencedor de vários prêmios internacionais. Aliás, Siza é o mais premiado dentre os arquitetos vivos. Mas, daqui alguns anos, sua obra porto-alegrense deverá ser uma ruína cheia de vazamentos e pintura gasta. Já estou até me imaginando, velhinho, olhando o pôr do sol sentado na frente do bar — talvez igualmente fechado –, contando como aquilo foi maravilhoso durante uns poucos anos.

Não gosto nem de passar na frente. Para piorar, tem um pardal que faz com que todos os carros reduzam a velocidade quando passam por ele, o que faz com a gente observe bem a obra. E não entre.

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Marchas carnavalescas politicamente incorretas e faniquitos autoritários

Por Hélio Schwartsman (retirado do blog Náufrago da Utopia)

Se parássemos de tocar canções com alusões racistas, sexistas etc., estaríamos sinalizando que a moral é absoluta e estática, isto é, que sempre foi errado escravizar pessoas, discriminar minorias, impor castigos físicos a crianças e outras mazelas que eram regra no passado.

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Além de historicamente insustentável, essa interpretação, bem ao gosto das religiões fundamentalistas, praticamente fecha as portas para a possibilidade da ampliação do círculo de solidariedade moral da humanidade, fenômeno que, na visão de alguns autores, estamos experimentando ao longo do último par de séculos.

Com efeito, antigamente, o homem ligava só para si e, por imperativos biológicos, para seus filhos. Com o decorrer do tempo e a melhora das condições materiais de vida, passou a preocupar-se (talvez mais em teoria que na prática) também com vizinhos, compatriotas, correligionários e, por fim, com todo o gênero humano e até com alguns animais.

Trocando em miúdos, militar para banir marchinhas ou impor outras formas de sanitização politicamente correta é, numa analogia pintada com tintas fortes, o equivalente intelectual de depredar museus ou queimar livros para apagar registros da história.

Ouso até dizer que seria mais proveitoso para os militantes usar músicas e referências literárias para mostrar com clareza quão disseminado e naturalizado era o preconceito e quanto conseguimos melhorar nos últimos tempos, já que hoje a ideia de que todos devem ter os mesmos direitos independentemente de raça, cor, gênero, orientação sexual etc. está plenamente incorporada à visão de mundo ocidental.

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‘Olha a cabeleira do Zezé’ e outras marchinhas que DEVEM SER PROIBIDAS no tempo do politicamente correto

Nossos tempos são de rigorosa correção política, nós temos razão em tudo. Claro, somos os melhores de toda a timeline da história, então é natural que nós, do presente, ataquemos o restante do tempo. Representamos a evolução. Desta forma, coloco aqui minha contribuição para que o mundo melhore ainda mais, proibindo terminantemente estas marchinhas de Carnaval.

Como disse minha irmã, vai chegar o dia em que ficaremos em silêncio, sorrindo como idiotas.

Folião

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“Me dá um dinheiro aí ” – ASSALTO, VIOLÊNCIA URBANA

“Nega do cabelo duro” — ERA SÓ O QUE FALTAVA

“O teu cabelo não nega” – RACISMO

“Cabeleira do Zezé, será que ele é” – HOMOFOBIA

“Você pensa que Cachaça é Água ” – O QUE OS AA DIRIAM?

“Bandeira Branca amor” – TRÁFICO

“Máscara Negra” – BLACK BLOCKS

“Vou beijar-te agora” – ASSÉDIO

“A Turma só me chama de palhaço” – BULLYING

“Você tem que me dar seu coração” – CRIME PASSIONAL, TRÁFICO DE ORGÃOS

“Segura meu bem, a chupeta” – PEDOFILIA

“Maria Sapatão” – APOLOGIA GAY

“Índio quer apito, se não der, pau vai comer ” – EXTORSÃO

“Cidade maravilhosa” – CALÚNIA, PRECONCEITO ÀS OUTRAS CIDADES, TAMBÉM LINDAS

“A pipa do vovô não sobe mais” – BULLYING COM OS IDOSOS

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Com a colaboração de Fernando Guimarães.

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Bloody Daughter, o documentário da filha de Martha Argerich sobre a mãe

Todinho aqui, sob o patrocínio de Henrique Bente, que achou pra nós tudo vê.

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Bom dia, Zago (com os melhores lances de Inter 4 x 1 Oeste)

Ah, como fizeram falta esses pênaltis bem batidos em 2016, Brenner!

Ah, como fizeram falta esses pênaltis bem batidos em 2016, Brenner!

E finalmente o Inter acabou mostrando alguma coisa parecida com futebol, Zago. Os 4 x 1 sobre o Oeste foram justos. O time paulista é péssimo, mas lembro que nos atrapalhamos contra o Princesa do Solimões, que é pior. Ernando foi retirado para a entrada de Leo Ortiz — a cara do pai dele, com um futebol igualmente de primeira linha, bom com a bola no pé e no desarme. (Aliás, acertou o lançamento que Paulão tenta erradamente em todos os jogos). Brenner foi fixado como titular. Foi frio e competente para marcar dois gols. Carlos fez boa partida. Apesar de os erros de passe e o posicionamento meio ingênuo seguirem, o time esteve mais organizado. O gol do Oeste foi culpa de Paulão, o que não chega a ser exatamente uma novidade. O zagueiro Cuesta foi contratado e espero que os buestas Ernando e Paulão sejam afastados para que joguem o recém chegado argentino, mais Leo Ortiz, Eduardo e outros como Neris, que nem estreou.

Uma pena que Brenner tenha sido expulso contra o Passo Fundo. Não jogará o importante jogo — importante para o Picanhão 2017, bem entendido — contra o Brasil-Pel. A presença de um competente homem de conclusão é condição fundamental para qualquer time digno deste nome. Brenner está sendo a grande e boa surpresa deste ano. Nasceu em março de 1994 e é raro que um jogador vindo do interior do estado demonstre tanta personalidade e até certa arrogância. Ainda mais tendo 22 para 23 anos. Se ele estivesse em campo no time de Argel-Celso Roth (peço perdão por citar tais nomes, Zago) a fim de bater os pênaltis contra Chepecoense e São Paulo não estaríamos na segunda divisão. Verdade, é só fazer o cálculo.

Não chego a estar animado, mas gostei da evolução demonstrada ontem. Os volantes Dourado e Charles ainda estão (muito) fora do lugar, mas o lateral esquerdo Ueldel é eficiente. Junio e Alemão são interrogações, assim como a alternância entre Carlinhos e Uendel na lateral e meio-de-campo. Gostei do fato de Carlinhos ter ficado indignado com o tabefe que Dourado tomou. Paulão riu, Carlinhos quis briga. Chega de posturas risonhas e passivas, né? Risada é só para depois de gol nosso ou escárnio de adversários. Vaza, Paulão.

(Ontem foi um dia especialmente feliz. Anderson saiu, Cuesta foi anunciado).

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Em Berlim (V)

O Bernardo sugeriu e a gente obedeceu: fomos conhecer a Gemäldegalerie. Não é um museu daqueles cansativos, é viável de ser conhecido em uma tarde sem maiores desejos de suicídio. Este museu de arte está localizado no flamante Kulturforum Potsdamer Platz, sendo um dos mais importantes do mundo por sua excelente coleção de arte europeia dos séculos XIII ao XVIII. Fica ao lado da sede da Orquestra Filarmônica de Berlim.

Como quase tudo em Berlim, é um prédio novo. Sua história é mais ou menos assim: com a reunificação da cidade em 1992, iniciou-se um debate sobre o destino de coleções de arte dispersas em locais diferentes e ainda em boa parte oculta há anos em depósitos, sem poder ser vista pelo público. Por suas dimensões, a coleção não poderia ser levada integralmente para o Museu Bode, na Ilha dos Museus, e organizou-se a elaboração de um projeto para uma nova sede.

Em 1995, foi feito um levantamento das perdas sofridas pelo acervo de arte em Berlim nas últimas décadas. Foram identificadas obras perdidas em incêndios ou em containers durante a Guerra, obras levadas para a União Soviética e nunca devolvidas, perdas avulsas anteriores a 1945 e peças simplesmente roubadas e com destino ignorado. Em 1998, mais de 3.600 obras dispersas voltaram a ser reunidas na Gemäldegalerie, prédio com cerca de 7 mil m² de área expositiva em uma seqüência de 18 salas e 41 gabinetes que perfazem uma extensão de quase 2 quilômetros. A coleção do museu original (de 1830) acabou aumentada em muito, incluindo obras de Bosch, Van Eyck, Brueghel, Dürer, Rafael, Ticiano, Caravaggio, Rubens, Vermeer e Rembrandt, além de muitos outros mestres.

Encantado com a qualidade do acervo, fui tirando fotos. Algumas delas estão abaixo.

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe de 'O Juízo Final', de Hieronymus Bosch

Detalhe de ‘O Juízo Final’, de Hieronymus Bosch

Detalhe dos 'Provérbios Holandeses' de Pieter Brueghel, o Velho

Detalhe dos ‘Provérbios Holandeses’ de Pieter Brueghel, o Velho

Detalhe dos 'Provérbios Holandeses' de Pieter Brueghel, o Velho

Detalhe dos ‘Provérbios Holandeses’ de Pieter Brueghel, o Velho

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A internet comemora hoje os 21 anos do maior momento da televisão do RS: o choque de Lasier Martins

choque lasierUm grito duplo, lancinante e altamente cômico, algo que o Monty Python não faria melhor.

— Ajuda aqui! — diz alguém na cena.

De volta ao estúdio, Cristina Ranzolin diz constrangida):

— Voltamos em seguida com o esporte e o comentário de Paulo Roberto Falcão.

A cena é de um dos virais mais clássicos do Brasil e, se não foi o maior momento da TV no sul do país, ao menos foi o mais eletrizante. Quem não deu gargalhadas com o choque de Lasier Martins na Festa da Uva de 1996? Pois o 21 de fevereiro é a Data Máxima da televisão e da RBS no estado. Quem não chora de rir ao ouvir Cristina Ranzolin dizendo, perturbada, “Voltamos em seguida com esportes”? Quem não conhece a expressão “Aqui do lado, Pederneiras”, ou “Essas, mais de mesa”?

Antes de ser expulso do PDT e de assinar coisas sem ler no Senado, Lasier tomou um choque de 220 volts, ficou desacordado por alguns segundos, quebrou uma costela, foi parar no hospital e, depois, para a mais completa glória, no YouTube.

O choque não o trouxe à realidade, mas foi o momento mais inteligente de Lasier frente às câmeras.

Reveja abaixo a cena completa que hoje chega à maioridade.

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Muitas maneiras de dizer Martha

Martha-Argerich2Por Juan Forn no Página 12 (traduzido mal e porcamente pelo autor do blog)

O Japão costuma idolatrar os virtuosos do piano, porém se um pianista ou músico cancela um concerto no último momento, as consequências são implacáveis. Certa vez, o famoso Arturo Benedetti Michelangeli recusou-se a tocar por algum motivo. Em resposta, confiscaram seu piano pessoal e o mundo musical nipônico declarou-o persona non grata pelo resto da vida. Martha Argerich, hoje com 75 anos, décadas atrás também suspendeu um concerto em Tóquio, o último de sua primeira turnê do Japão, que estava sendo apoteótica. O imperador estaria presente, mas Martha brigara com seu namorado da época, o regente Charles Dutoit, e pegou um avião para o Alaska sem avisar ninguém. Jamais seria perdoada, só que… No ano seguinte, voltou ao Japão pagando sua passagem e deu 14 concertos sem receber nada. O mesmo organizador que tinha sido lesado por ela recebeu a renda de todos os 14 concertos, só que… Ela fez com que um pianista angolano — um dos muitos jovens que Martha auxiliou — sentasse a seu lado para virar as páginas da partitura. O angolano usava uma túnica sem mangas e a exposição da pele masculina no Japão é considerada quase tão obscena como o cancelamento de um concerto, mas ninguém disse nada porque Martha Argerich é algo sobre-humano para os japoneses.

Martha Argerich já tocou com lombalgia, com infecção dentária, em cadeira de rodas, de minissaia (pois perderam sua mala no aeroporto), com grama no cabelo (fizeram-na tocar numa floresta), mas só os concertos que ela suspendeu ficaram famosos. Declara que o que a sufoca desde os oito anos de idade são algumas das características da vida no mundo da música clássica: “Eu não quero ser uma máquina de tocar piano. Vivo sozinha, toco sozinha, ensaio sozinha, como sozinha, durmo sozinha. É muito pouco para mim”. Daniel Barenboim, que a adora, disse: “Martha fez todo o possível para destruir sua carreira, mas não conseguiu”. O primeiro concerto foi cancelado aos dezessete anos, “só para saber como eu me sentiria.” Aos vinte anos, com uma carreira brilhante pela frente, ela passou três anos sem se aproximar de um piano, assistindo TV em um pequeno apartamento em Nova York. Quando o dinheiro acabava, trabalhava como secretária. Afinal, para algo devia servir ter os dedos tão rápidos. A poucas quadras dali, vivia Vladimir Horowitz. Ela tinha a intenção de ir falar com ele para dizer: “Ajude-me a voltar a tocar piano”. Nunca se atreveu a uma visita. Melhor, pois Horowitz estava há dez anos sem tocar em público, submetia-se a sessões regulares de eletrochoque e só aceitava gravar discos em sua própria casa. Mas Argerich, como sabemos, voltou a tocar. Após sua consagração no Concurso Chopin em Varsóvia, em 1965, ela foi ao estúdio de Abbey Road gravar um álbum, porque todos os seus amigos estavam em Londres. Deixaram-na sozinha com um piano no estúdio. Ela pediu uma jarra de café, olhou hesitante para o teclado e executou três vezes o repertório que tinha escolhido. Abandonou a jarra de café vazia e nem ouviu o que tinha gravado. E passou a morar em uma espécie de pensão musical chamada Clube de Londres.

Quem morava lá? Barenboim, Jacqueline Du Pré, Nelson Freire, Fou-Tsong, Kovacevic, todos com apenas um único telefone na entrada do prédio cheio de vazamentos, pianos, sofás comidos pelas traças e cinzeiros. Todos em total liberdade e camaradagem. Havia gente que estava na casa para tocar algum instrumento e os que estavam lá para ouvir e conviver. Para quase todos, aquela comunidade era uma espécie de interlúdio feliz, mas ela entendeu que queria viver assim para sempre. Alugou um orfanato do século XIX, em Genebra — cuja porta não tem chave — povoou-a de pianos, gatos e sofás e recebeu todos os jovens pianistas em crise que a procuraram. Ela os adotava até a recuperação. O(a) adotado(a) tocava piano, participava de jogos de adivinhação, dançava e cozinhava para as filhas de Martha quando ela saía em turnê. Ela tem três filhas de três homens diferentes, apesar de a vida em comunidade lhe dar um ar respeitoso de mulher casada.

Argerich 1

Há um belo documentário filmado por sua filha mais nova. É a história íntima da mãe e das filhas. Em uma cena, todas estão sentadas na grama pintando as unhas dos pés. As filhas decidem pintar cada dedo da mãe de uma cor diferente. A agitada Annie, segunda filha (do citado Dutoit), diz que sua lembrança mais viva da infância é a de ficar deitada debaixo do piano, olhando os pés descalços de sua mãe até dormir. “Isto é minha mãe, mais do que seus cabelos, cigarros e gestos: onde já se viram pés tão grandes e tão femininos ao mesmo tempo?”. Stephanie, a mais jovem — diretora do documentário e filha do referido Stephen Bishop Kovacevich –, conta sobre a primeira vez que acompanhou sua mãe num concerto e sobre sua imensa provação: “Tudo era muito solene, muito dramático, eu não gostei, me senti estranha”. Ouviu todo o concerto angustiada nos bastidores até que sua mãe voltou: “Eu estava exausta e ela dez anos mais jovem.” Lyda, a mais velha e a única que já é mãe — é também violoncelista profissional –, fala de quando a mãe foi operada de um feio melanoma em 1999. Depois de três horas e meia na sala de cirurgia, ela estava feliz e radiante em contraste com o esgotamento dos cirurgiões. Eles se recusaram a fazer uma cirurgia convencional para abrir a caixa torácica de Martha, pois “uma pianista precisa de todos os músculos do seu corpo para tocar”.

Até hoje Martha Argerich avisa seus companheiros de palco para não lhe beijarem a mão ou tocarem seu cabelo. Ela não gosta. Já não vive em Genebra, mas em Bruxelas, numa casa também está cheia de pessoas, gatos e pianos. Como Tchékhov, que construiu uma casa para sua família e amigos e um quarto afastado para escrever, ela tem um pequeno apartamento em Paris onde apenas cabem um piano, uma cama, uma televisão e uma imagem de Liszt presa com fita adesiva na parede. Seu próximo projeto é uma pensão para artistas aposentados, como a que fundou Verdi em Milão para cantores que ficaram sem voz. De todas as suas formidáveis frases — “Quando os pianos não me querem, não os toco de jeito nenhum”, “Eu acho que eu nunca me senti exatamente mulher, só consigo me ver como a menina de cinco anos e o menino de quatorze que me habitam”, “Chopin é ciumento, exclusivo, faz com que você toque mal qualquer outro compositor”, “Como me saí hoje? Como um cavalo selvagem ou como um carrossel de cavalinhos?” — a minha favorita é “Sou um pouco infantil. Se fosse inteiramente infantil não diria”.

Martha-Argerich

Milton Ribeiro escreve:

(1) Há uns dez anos, fui pedir um autógrafo a Martha Argerich após um concerto. Como já tenho certa experiência, não levei um CD, mas um disco de vinil para que a assinatura saísse maior. A foto da capa era bonita pacas. Ela pegou o disco com a mão direita e tapou a boca com a esquerda, fazendo cara de admiração. Olhou para mim e disse:

— Como eu era bonita! Agora sou tão feia, tão horrível, uma bruxa velha.

Comecei a responder que não era nada disso e ela fez um gesto mandando eu me calar:

— Não minta, por favor.

(2) Em janeiro deste ano, vi Martha Argerich tocar o Concerto Nº 3 de Prokofiev no Southbank Center, em Londres, com a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo sob a regência de seu velho amigo Yuri Temirkanov. Foi um arraso. Não é somente uma das músicas que mais amo como é uma espécie de “Concerto de Martha”. Ninguém toca aquilo como ela, com aquela miraculosa exatidão e sensibilidade. Após a introdução, quando ela começou a tocar… Olha, não lembro de outra oportunidade em que eu chorei num concerto. Não houve escândalo, ninguém viu, mas aconteceu.

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A Descoberta da Currywurst, de Uwe Timm

A descoberta da currywurstLi este livro durante uma longa viagem pela Europa. Queria algo leve e achei que o best seller A Descoberta da Currywurst combinaria bem a já gasta mas agradável fórmula de “gastronomia e história”. E, com efeito, apesar de quase tudo se passar logo após o final da Segunda Guerra Mundial, trata-se de um livro leve. Uwe Timm simula uma longa entrevista com Lena Brücker, a possível inventora da iguaria. Porém, antes de dizer qual é a origem da currywurst, Lena, enquanto tricota num asilo de velhos, faz questão de contar sua aventura de final de guerra. E o que ela conta por quase todo o livro é seu caso amoroso com o jovem soldado alemão Hermann Bremer. Ele fora designado para uma unidade de caça de blindados, mas, nos dias finais da guerra, Lena o convence a tornar-se um desertor, arrastando-o primeiro para um abrigo antiaéreo e depois para seu apartamento. Bremer fica escondido ali, tentando adequar-se a mil cuidados para não ser ouvido pelos moradores do prédio. Já Lena sai bastante de casa. Trabalha numa cantina e é lá que, não obstante a escassez, rouba alimentos para si mesma e Bremer. Também consegue enganar Bremer, dizendo que a guerra não acabou. Ela mente que não há jornais e confirma que a Alemanha juntou-se aos aliados para atacar a União Soviética. Ou seja, a guerra segue e ele ainda seria um desertor. É interessante a relação entre ambos. O fato é que ela o quer e ponto final. Transam todos os dias e vão engodando. Então, o livro cai em outro clichê, saindo de “história e gastronomia” para o “romance de cativeiro”. Só nas páginas finais sabemos da origem da currywurst. Até curti o livro, queria saber seu final, não obstante o amontoado de clichês. Timm escreve muito bem, a tradução é boa, só que a história é um amontoado de coisas há muito tempo vistas ou lidas.

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

Uwe Timm: desta vez passa, tá?

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Bom dia, Zago (com os melhores lances de Passo Fundo 2 x 2 Inter)

Com dois gols, Brenner confirma positivamente, já Valdívia...

Com dois gols, Brenner confirma positivamente, já Valdívia…

Ontem, assisti apenas os 15 minutos finais do jogo, Zago. Cheguei em casa e o Brenner estava sendo expulso junto com um jogador do Passo Fundo. Então, vi uma pequena parte de um jogo de 10 contra 10. Mas deu para observar algumas coisas.

Para meu horror, jogavam Paulão e Ernando na zaga. Ignoro como esta zaga conseguiu sobreviver ao rebaixamento. Só de ver os dois juntinhos em campo, qualquer colorado já murcha. Depois observei Seijas sofrer um pênalti claro, não marcado pelo apitador. Acontece. E… nos minutinhos finais, notei como o Inter se acadelou. E avisei minha mulher: vamos tomar um gol.

Tentando manter um resultado mínimo de 2 a 1, marcando o PF somente a partir de nossa intermediária e só fazendo isso, convidamos o PF para o nosso campo.

Ora, tal atitude anima qualquer adversário e sei — talvez tu também saibas, Zago — que nos últimos 12 meses perdemos dezenas de pontos nos minutos finais por ficar apenas se defendendo. Dezenas!

Reza a Lei de Bielsa:

O time que abdica de jogar com a bola, multiplica o número de oportunidades que o adversário terá.

E não é que o PF empatou mesmo o jogo? Como? Com uma bola alta sobre Paulão e Ernando. Depois, quando repetiram os gols do jogo, vi que o primeiro gol do Passo Fundo tinha sido marcado em outra bola alta no setor de Fraldão & Cagão, como diz o amigo Dario Bestetti.

É muito pouco amor ao cargo, Zago. São quatro jogos no Gaúcho, com três empates e uma derrota. Estamos em décimo, com a mesma pontuação do primeiro rebaixado, o 11º. Recebeste uma ruína de time, mas está hora de aparecer um novo trabalho. O teu. Podias começar trocando a zaga, Zago. Se continuares assim, já sabes o que vai te acontecer. Bom dia.

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Por que Stálin transformou Púchkin em um deus

Em 1937, o ano do Grande Terror, Stálin decidiu celebrar Púchkin como um deus socialista para conquistar apoio popular. O poeta, reverenciado como um gênio literário antes da Revolução Russa, viu sua reputação ir aos céus entre os soviéticos.

Da Gazeta Russa

Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto: Arquivo

Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto: Arquivo

Este ano marca não apenas o 100º aniversário da Revolução de 1917, mas também o 80º aniversário do Grande Terror, em 1937. Naquele ano, a Rússia soviética também celebrou, em uma escala sem precedentes, o 100º aniversário da morte de Aleksandr Púchkin. O grande poeta tinha permanecido até então nas sombras, mas, em 1937, tornou-se protagonista do panteão cultural soviético.

Stálin decidiu apresentar ao mundo um império quase clássico, centrado na cultura, que tinha como figura central Púchkin.

Púchkin nas alturas

A decisão de celebrar Púchkin como um deus socialista pertenceu a Stálin. Para entender a estranheza de sua iniciativa, vale a pena lembrar que no século 19 Púchkin era um poeta conhecido apenas pela elite intelectual. A lista de leitura para a intelligentsia revolucionária não incluía Púchkin porque ele era considerado muito distante e indiferente às necessidades imperativas do povo.

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Stálin, no entanto, era bem versado em literatura russa clássica e gostava não só do revolucionário Tchernichevski, mas também de Dostoiévski e Púchkin.

A ideia de exaltar o poeta foi fortemente influenciada pela diáspora russa no exterior, que, a partir de meados da década de 1920, desenvolveu um forte interesse por suas obras. O regime acompanhava de perto as evoluções da diáspora, e Stálin acompanhava todas as principais publicações dos círculos de emigrantes russos.

Em 1937, a comunidade de russos no exterior planejava realizar seus próprios eventos em celebração a Púchkin, o que significava que o legado do poeta poderia se tornar uma arma política perigosa em suas mãos – portanto, era necessária fazer uma manobra oficial. Embora alguns historiadores aleguem ter sido esta a lógica de Stálin, não há consenso nem comprovações sobre tal tese.

Culto a personalidade

A partir de 1922, começaram a ser realizadas cerimônias oficiais anualmente para o aniversário da morte de Púchkin; nelas, o poeta era descrito como “primavera russa, manhã russa, Adão russo” e também comparado a Dante, Shakespeare, e Goethe.

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Ao atacar o Governo, Nassar apenas honrou uma velha tradição da literatura

Freire diz suas bobagens ao lado de Nassar, que observa as duas páginas de seu bombástico discurso | Foto: Wanezza Soares / Carta Capital

Freire diz suas bobagens ao lado de Nassar, que observa as duas páginas de seu bombástico discurso | Foto: Wanezza Soares / Carta Capital

Eu e dois amigos bem conhecidos de todos, já totalmente bêbados, criamos o conceito da “bundamolização da literatura”. No passado, o escritor era ouvido, consultado e participava da vida política. Thomas Mann tinha programa de rádio onde falava contra o nazismo. Orwell criou seus últimos livros não apenas falando de política, mas patrocinado pelo serviço secreto inglês, altamente anti-soviético. Céline, Greene, Brecht, Borges, Cortázar — que escreveu um belo conto homenageando a Revolução Cubana, lembram? –, para não falar em Vargas Llosa e García Márquez, todos tiveram participação na vida política de seu tempo. Nem que fosse para chamar os outros de idiotas. Enfim, a coleção não tem fim. Mais: como escreveu Idelber Avelar, “o argumento da independência entre a qualidade da obra e a coerência ou a virtude da posição política do autor é universalmente aceito”. Eu acho que a literatura perdeu — E MUITO — ao se demitir da vida política secular. Hoje, todos têm medo de falar para não perder aquele convite — e a consequente graninha — para a feirinha ali da esquina e resultado está aí, com a literatura lá atrás, no último banheiro da casa.

Charlles Campos também foi oportuno ao escrever no Facebook que “Nassar, além de ser o maior escritor — de longe  — nacional, se comportou segundo uma tradição literária muito antiga”.

O que me surpreende não é terem dado o microfone para Raduan Nassar e ele ter dito o que disse. O que me surpreende é o ministro da Cultura, Roberto Freire — verdadeira antítese da cultura — ter sugerido que Nassar deveria recusar o Prêmio Camões, no valor 100 mil euros. Também chamou Raduan de adversário político, o que é verdadeiro e até ceitável, dependendo do tom da fala. Porém, o tom de Freire foi ríspido e o poeta Augusto Massi fez muito bem ao dizer que Freire “não estava à altura do evento”. Bem, na minha opinião, será complicado achar algo à altura de Freire e do PPS.

Outra pessoa respeito muito, a tradutora Denise Bottmann, veio com tudo: “Roberto Freire sempre foi uma das grandes vergonhas nacionais, desde antes dessa nossa era neoneanderthal. Agora estreia em alto estilo na vergonha lítero-internacional. Parabéns multiplicados ao Raduan, por levar mais esse prêmio, o discurso do bocó de platina. E vivas ao amiguinho Massi, que não deixou passar barato”.

A vergonha nacional fez-me rir ao declarar: “Esse histrionismo oposicionista está com seus dias contados”. Então tá, ele vai implantar a ditadura.

O Ministro também disse que Nassar estava “recebendo um prêmio do Governo que ele considera ilegítimo”. Não, em primeiro lugar, ele recebeu o prêmio de dois governos  — tanto que Nassar agradece a Portugal em seu discurso –; em segundo lugar, o anúncio do vencedor deu-se quando Dilma era presidente e, terceiro, o prêmio é literário. É pela obra.

A propósito, Raduan Nassar é autor de dois romances fundamentais da literatura brasileira, Lavoura Arcaica e Um copo de cólera. O Prêmio Camõesinstituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988, é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. O prêmio é sempre concedido pelo conjunto da obra.

Confira a íntegra do discurso de Raduan Nassar:

“Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandescente desde a Revolução dos Cravos ocorrido dois anos antes. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo atestando a virulência de sua fala. E é esta figura exótico a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Esses fatos configura por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado, por sinal, ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração de riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal. Tanto que o ministro Celso de Mello acolheu, há três dias, o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes em uma única delação, beneficiou-se do foro privilegiado, com julgamento a perder de vista e provável prescrição. Em sua decisão, o ministro acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas.

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado.

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