O ápice da produção artística

Vocês já repararam que prosadores tendem a melhorar até certa idade e depois estagnar ou piorar lentamente por algum tipo de acomodação (ou outros compromissos)? Que pintores tendem a ter a uma curva ainda mais lenta de degradação? Já com os poetas, a coisa é radical. Harold Bloom sempre diz que os poetas em geral produzem bem por não mais que 10 anos. Já os compositores de música erudita parecem ser o único caso de uma melhoria contínua… As últimas obras têm uma tendência geral de ser as melhores, e de como que prometer um futuro além do próprio sujeito.

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (V – apêndice)

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 301 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a peça pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (IV)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (IV)

O herói, o Mestre, aparece aparece em apenas 5 capítulos. Surge no 13 (apenas na página 138), volta no 24 e nos três últimos capítulos do livro. Ao todo, temos 32 capítulos e um epílogo.

A estrutura do romance é construída sobre o princípio da existência de três mundos: o terrestre, o bíblico e o eterno. Este último é o elo entre os dois primeiros. E há uma coincidência de datas: a reunião na Lagoa do Patriarca e o interrogatório de Jesus ocorrem no mesmo dia do ano civil, próximo da Páscoa.

Há também uma conexão de composição entre os mundos, no romance eles estão entrelaçados. Os capítulos “antigos” são introduzidos de diferentes maneiras: um deles nos chega como uma história contada por Woland, outro como um sonho de Bezdômny e outro um trecho do romance do Mestre. Esses capítulos também são muito diferentes estilisticamente: é um estilo clássico, contido, as falas são mais formais, a sensação da realidade muda.

Há situações no romance que se repetem nos três mundos. Desse modo, Bulgákov procurou tornar óbvia a conexão dos tempos. Coincidências facilmente rastreadas como a descrição do clima — a tempestade que cai sobre Yershalaim e Moscou, por exemplo. “As trevas cobriam a cidade odiada pelo procurador. Pontes suspensas desapareceram; o abismo desceu do céu”. É assim que ele descreve o clima em Yershalaim: “A cidade desapareceu – uma grande cidade, como se não existisse no mundo. ” Esta é a paisagem do começo do capítulo 25. E o final do capítulo 29: “… Essa escuridão, que veio do oeste, cobriu uma cidade enorme. Pontes e palácios desapareceram. Tudo se foi, como se nunca tivesse existido no mundo”. Moscou.

Não é de admirar que o romance seja chamado de fantástico, satírico, filosófico e de amor. Todos estes temas são desenvolvidos na novela, enquadrando e sublinhando a ideia principal – a luta entre o bem e o mal.

O tema satírico está no show de Woland. Enlouquecidos pela riqueza material, o público, representantes da elite sedentos de dinheiro, os truques de Koroviev e Behemoth, descrevem de maneira clara e a sociedade moscovita.

O tema do amor está incorporado no mestre e em Margarida e dá ao romance ternura, suavizando muitos momentos agudos. Importante notar que Bukgákov queimou a primeira versão do romance, onde Margarida e o mestre ainda não estavam.

O tema da empatia percorre todo o romance e mostra várias opções para empatia ela. Pilatos simpatiza com o filósofo errante Yeshua, mas, envolvido em seus deveres, “lava as mãos”. Margarida tem uma simpatia diferente — ela simpatiza com todo o coração, tanto pelo mestre quanto por Frida no baile. Mas sua simpatia não é apenas um sentimento, ela a leva a certas ações, ela não cruza as mãos e luta pela salvação daqueles por quem está preocupada.

Os tópicos filosóficos sobre o significado e o propósito da vida, sobre o bem e o mal, sobre os motivos bíblicos por muitos anos têm sido objeto de debate e estudo de escritores. Isso ocorre porque O Mestre e Margarida, a cada leitura, abre diante do leitor mais e mais novas perguntas e pensamentos.

A ideia inicial do romance é a luta entre o bem e o mal. E não apenas no contexto da luta, mas também na busca de definição. O que é realmente o mal? O leitor está acostumado ao fato de que o diabo é puro mal, e ficará sinceramente surpreso com a imagem de Woland. Ele não pratica apenas o mal, ele pune aqueles que traem e escondem. Sua turnê em Moscou confirma essa ideia. Ele parece parte do bem. Ele mostra as doenças morais da sociedade, mas nem as condena, só suspira tristemente: “As pessoas são como pessoas… são as mesmas de antes”. O homem é fraco em seu poder de resistir e de combater suas fraquezas.

O tema do bem e do mal é ambiguamente mostrado na imagem de Pôncio Pilatos. Ele se opõe à execução de Yeshua, mas não tem coragem de ir contra a multidão.

A análise “O Mestre e Margarita” implica imersão nos mundos recriados pelo escritor. Aqui você pode ver os motivos bíblicos e os paralelos com o imortal Fausto de Goethe. Os temas da novela são desenvolvidos separadamente e coexistindo, criando juntos uma rede de eventos e perguntas. São vários mundos, cada um encontrando seu próprio lugar no romance. Não é de todo surpreendente uma viagem da moderna Moscou à antiga Yershalaim, as conversas sábias de Woland, uma gata falante e o voo de Margarida.

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (III)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (III)

III — O livro

Sabem aqueles livros que valem por cada frase? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida pelo reflexo da obra não somente na cultura russa, mas na mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita por Mick Jagger durante a leitura do livro,

assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou.

Mas nem só a literatura e o rock homenageiam Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

A recente e excelente edição da 34.

O romance começou a ser escrito em 1928. Em 1930 ou 31, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra obra sua. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova edição — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor.

Uma amiga russa me escreve por e-mail: “Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Era a mesma edição em samizdat que eu tinha lido. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Sempre. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland, Manuscritos não ardem, é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é Ánnuchka já derramou o óleo, para dizer que o cenário de uma tragédia está montado”. Outras? Eu estou só consertando o fogareiro, nada disso, está é destruindo tudo, mas se fazendo de salame. Não existe filé semi-fresco, que é autoexplicativa, creio.

As cenas de Pôncio Pilatos, a do teatro, a do belíssimo voo de Margarida e a do baile são citadas aqui e ali com enorme admiração. A fama é justa.

A ação do romance ocorre em duas frentes, alternadamente: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia espetacularmente. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista.

Arte: Elena Martynyuk

Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam… Por apartamentos, férias e jantares melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que aqui formam uma atordoante série de cenas hilariantes.

Naquela Moscou o diabo está em casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram notável criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde sempre à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas a base de criação de Bulgákov é outro cômico ucraniano: Gógol. Aliás, ele considerava que Gógol era melhor do que Dostoiévski e Tolstói.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira à Rússia soviética ou como crítica à superficialidade das pessoas. Há mais pontos bem característicos: Bulgákov jamais demonstra nostalgia da Rússia czarista — apenas da religião — e Woland não está em oposição direta a Deus. Ele é como um ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas. E as punições de Woland são criativas, desconcertantes.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista. Será que leram o livro?

Mikhail e sua Margarida

Nas imagens finais de O Mestre, Mikhail Bulgákov dá uma dura avaliação do mundo que encontrou. Ele seria infernal e sem esperança. Era óbvio que as tentativas de se tornar parte do mundo soviético falharam.

Obs.: A tradução de Zoia Prestes, para a Alfaguara, é bastante superior à antiga, lançada lá por volta de 1993 pela Ars Poetica. Mas a mais recente, de Irineu Franco Perpétuo, para a Editora 34, é ainda melhor.

Agora vamos olhar a narrativa mais de perto. Mas antes mais um belo filminho.

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (II)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (II)

II — As circunstâncias em que foi escrito O Mestre e Margarida

Bulgákov escreveu O Mestre e Margarida sem a menor perspectiva de publicação. Escreveu para a gaveta. Os motivos eram óbvios — o romance era uma sátira à União Soviética produzido durante a época stalinista –, mas os detalhes são surpreendentes.

Imaginem: o escritor era cristão ortodoxo. Isto numa época em que  a religião era proibida. A URSS era um estado ateu. A perseguição aos religiosos começou em 1917 e a eliminação em massa começou em 18. O ápice foi entre 1937 e 38, enquanto Bulgákov escrevia o romance. Em 37, foram presos 136.900 padres e funcionários de igrejas. Destes, 85.300 foram simplesmente executados. Em 38, foram presos 28.300 e executados 21.500. Espero que estes números deixem claro quão impossível era falar do assunto Religião naquela época.

Stálin tinha real interesse por arte, costumando ir regularmente a concertos, óperas e peças de teatro. Ele pessoalmente assistiu, reprovou e fez proibir uma ópera de Shostakovich, por exemplo. Nos anos 20, ele assistiu quinze vezes — não é exagero — à peça Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov. Simplesmente adorou e ia aos camarins cumprimentar os atores a cada sessão que ia. Esteve presente também na estreia, quando a cortina foi erguida nove vezes a fim de que os atores fossem aplaudidos. Stálin também costumava telefonar de madrugada para assessores e outras pessoas quaisquer com quem tivesse assuntos a tratar. Sofria de insônia e, com sua fama, é claro que assustava quem recebia as ligações. Telefonou uma vez para Bulgákov após este lhe enviar quase uma centena de cartas pedindo permissão para emigrar. Bulgákov reclamava que era um dramaturgo conhecido no exterior, mas que na URSS estava fadado à miséria, à rua e à ruína. A lenda diz que foram várias ligações de Stálin, mas uma aconteceu com certeza.

O conteúdo geral desta ligação é bem conhecido. Bulgákov ficou com medo e teve receio de insistir quando Stálin disse que preferia que ele permanecesse na URSS. O líder prometeu-lhe um emprego em um teatro, o que acabou acontecendo. Assim, ele encontrou trabalho no Teatro da Juventude do Trabalho de Moscou (TRAM), e depois no Teatro de Arte de Moscou. Sim, trabalhou com Stanislavski. Neste século, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma peça que começa com o famoso telefonema de Stálin para Bulgákov, chamada Cartas de Amor para Stálin.

Anos depois da conhecida ligação, Bulgákov tentou se tornar um escritor “soviético”, dentro dos padrões do realismo socialista. Em 1939, ele começou a trabalhar em uma peça laudatória ao líder. Mas Stálin, ao ler os esboços, parece não ter ficado satisfeito e, sem falar com o autor, indiretamente proibiu Bulgákov de terminá-la, não permitindo o acesso do escritor e de sua esposa aos arquivos em Batumi, cidade georgeana onde Stálin iniciou sua vida política. A peça era cheia de clichês socialistas, nada era vivo. E o Secretário-Geral sabia como Bulgákov podia escrever.

Bulgákov morreu em 1940 e sua maior obra, O Mestre e Margarida, veio a público somente em 1966-67. Ou seja, ela permaneceu desconhecida de seus contemporâneos. Mas ele já tinha publicado peças de teatro e outras obras em prosa, como as extraordinárias novelas Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro. Sua arte é de absoluto virtuosismo. Se o campo onde se sente melhor é o da sátira corrosiva, ele também sabia descrever classicamente cenários bíblicos, como fez em partes de O Mestre.

Mikhail Bulgákov (1891-1940) nasceu em Kiev, na Ucrânia, que era então parte do Império Russo. Ele foi o primeiro filho de Afanasiy Bulgákov, professor da Academia Teológica de Kiev. Seus avôs eram clérigos da Igreja Ortodoxa Russa. Em 1916, aos 25 anos, formou-se médico na Universidade de Kiev e depois, junto com seus irmãos, alistou-se no Exército Branco. No início da Primeira Guerra Mundial, como médico voluntário da Cruz Vermelha, foi imediatamente enviado para o front, onde foi gravemente ferido em duas ocasiões.

Após a Guerra Civil, com a derrota dos brancos e a ascensão do poder dos soviéticos, sua família emigrou para o exílio em Paris. Apesar de sua situação relativamente privilegiada durante os primeiros anos da Revolução, Bulgákov viu-se impedido de emigrar da Rússia devido a um insistente tifo. Nunca mais viu sua família.

As lesões da guerra tiveram graves efeitos sobre sua saúde. Para aliviar sua dor crônica, especialmente no abdômen, foi-lhe administrada morfina. Ficou viciado, e parou de injetá-la em 1918, aos 27 anos. O livro Morfina, publicado em 1926, atesta a situação do escritor durante esses anos. Em 1919, aos 28, ele decidiu trocar a medicina pela literatura.

Elena Shílovskaya

Em 1932, aos 41 anos, Bulgákov casou-se pela terceira vez com Elena Shílovskaya, que seria a inspiração do personagem Margarida de sua novela mais famosa. Durante a última década de sua vida, Bulgákov trabalhou em O Mestre e Margarida, além de escrever peças, fazer revisões, traduções e dramatizações de romances. Alguns foram para o palco, outros não foram publicados e ainda outros foram destruídos. Bulgákov trabalhou no romance de 1928 a 1940, ano de sua morte.

Em 1931, irritado com a censura a uma de suas peças, queimou o manuscrito do romance, mas voltou a ele dias depois.

Para quem hoje lê Bulgákov, talvez o fato do escritor não apoiar o regime comunista seja apenas uma informação complementar. O que interessa é que ele foi o mais brilhante dos gozadores, dos zombeteiros. O autor ria da burocracia e dos governantes. E todos nós temos governantes, feliz ou infelizmente. Não obstante o amor do chefe Stálin, o escritor suportou grande assédio da NKVD, que chegou a procurá-lo em casa e prendeu-o em mais de uma ocasião. Em 1926, levaram todos os manuscritos encontrados em sua casa, esboços e diários. Devolveram 3 anos depois. Só sete décadas e 50 anos após a morte do escritor, quando da abertura dos arquivos da KGB, os documentos foram conhecidos. Não continham nada comprometedor.

Muitas evidências sobreviveram sobre a atitude do escritor em relação ao poder soviético na década de 1920. Entre eles há artigos na imprensa branca e materiais de interrogatórios. Porém, há um fato que comprova certa independência do escritor: os brancos o criticavam por ser pró-revolução e os revolucionários pelo motivo contrário. Para os comunistas, sua arte era um “brancovanguardismo” e ele seria um “reacionário social”; para os brancos, ele seria mais um vendido. É curiosa a posição onde Stálin colocou seu potencial inimigo Bulgákov, muitos dos escritores que não apoiaram a revolução foram presos, muitos foram mortos. Bulgákov não.

Bulgákov foi morrer de um problema renal em 1940, aos 48 anos.

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Korovin com seu monóculo quebrado

Em vida, Bulgákov ficou conhecido principalmente pelas obras com as quais contribuiu para o Teatro de Arte de Moscou de Konstantín Stanislavski. Foram muitas comédias e adaptações de romances para o teatro, casos, por exemplo, de Dom Quixote e Almas Mortas. Bulgákov também escreveu uma comédia grotesca fazendo com que Ivan, o Terrível, aparecesse em Moscou na década de trinta. Um sucesso.

Em meados de 1920, Bulgákov conheceu os livros de Wells e, profundamente influenciado, escreveu várias histórias com elementos de ficção científica. Um exemplo é a extraordinária novela Um Coração de Cachorro, onde Bulgákov critica abertamente — e com impressionante cinismo e ironia — a primeira década do poder soviético. Outro é a hilariante Os Ovos Fatais.

Morfina merece menção especial. Trata-se do diário de um companheiro do protagonista, o médico Poliakov. É uma crônica da autodestruição. Ele escreve no início do livro: “Eu não posso louvar quem primeiro extraiu a morfina das cabeças das papoulas”. No mais, é uma história clínica escrita por um mestre. “Como viciado, eu declararia que o ser humano só pode funcionar normalmente após uma injeção de morfina, mas eu era médico”.

A novela satírica O Mestre e Margarida, sem chances ou tentativas de publicação durante sua vida e que foi publicada por sua esposa vinte e seis anos após a morte do escritor, certamente lhe garante a imortalidade literária. Por muitos anos, o livro só pôde ser obtido na União Soviética como samizdat, antes de sua aparição por capítulos na revista Moskva. É o grande romance do período soviético e contribuiu para criar várias expressões do dia a dia russo.

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgakov, com sua esposa Elena Shilovskaya

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Vou dividir este texto em vários capítulos, aproveitando coisas que já escrevi e escrevendo e pesquisando e copiando de outros, ladrão que sou. Apesar dos vários capítulos, este texto estará dividido em três grandes partes:

I — O Diabo de Bulgákov (capítulo curto, que pretendo terminar neste post);
II — As circunstâncias em que foi escrito O Mestre e Margarida;
III — O livro.

O Mestre e Margarida apresenta sua própria epígrafe — retirada do Fausto de Goethe — e ela trata do diabo, mas acho que preciso de outra, que pesquei do próprio livro de Bulgákov:

O que seria do bem se o mal não existisse, e como veríamos a Terra se as sombras desaparecessem? Afinal, as sombras resultam dos objetos e das pessoas.

Mikhail Bulgákov — O Mestre e Margarida

Então tratemos do demônio, do diabo, de Satã.

I — O Diabo de Bulgákov

A figura do demônio ganhou força na Idade Média. As mais variadas religiões jamais tiveram pudor de invocá-lo. Até hoje, nossos bispos evangélicos gritam que algumas saias e posturas são coisas de Satanás. E faz tempo que é assim.

Em parte de A Divina Comédia (1321), Dante Alighieri descreve os horrores que aguardam os pecadores no inferno. O foco do poema é a busca de Dante por sua amada Beatriz, que começa justamente no inferno, em cuja entrada há a famosa advertência: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Lá dentro há nove círculos, onde são julgados os vários tipo de delitos. Há vários demônios, mas no nono círculo está o maior deles, Lúcifer, o que julga os traidores. Ali não é quente, é frio e Lúcifer está lá, aprisionado da cintura para baixo, com suas grandiosas asas.

Lucífer no Nono Círculo do Inferno – Gustave Doré

Em Paraíso Perdido (1667), John Milton narra a expulsão de Lúcifer do Paraíso. Na obra, um despeitado Lúcifer diz que é “melhor ser rei no Inferno do que servir no Céu”.

A Queda de Lúcifer, ilustração de Gustave Doré para ‘O Paraíso Perdido’

Em O Diabo Enamorado (1772), Jacques Cazotte faz com que o Demônio se apaixone por um jovem que o invocou, assumindo a figura de uma bela mulher. Aqui, o demônio já adquire a característica da sedução, mas ele mesmo não tem uma imagem humana. Vejam abaixo a mulher sedutora e como ele é de verdade na imaginação dos ilustradores…

Ilustração para o livro de Cazotte

A lenda alemã de Fausto inspirou o clássico de Goethe (1808 e 1832), que inova ao dar aparência humana ao demônio. Mefistófeles aparece cheio de seduções, enganando, mentindo e propondo negócios.

Imagem de August von Kreling para o Fausto de Goethe (1874)

E há uma ópera de Gounod, de 1859, baseada no Fausto de Goethe. Faço questão de citá-la aqui pelo fato de Bulgákov tê-la assistido 41 vezes! Sabe-se disso porque ele guardava todos os ingressos de peças e concertos que assistia.

Cartaz original da ópera de Gounod.

E notem como o Mefistófeles de Gounod foi retratado no Municipal do Rio há poucos anos:

Foto: Ana Clara Miranda

Por que coloco todas essas imagens? Ora, para mostrar que a representação artística do Diabo mudou paulatinamente. Ele não somente passou a ter forma humana como adquiriu primeiro a sedução e depois o ar zombeteiro.

E como é o Woland de Bulgákov? Bem, vejamos o caso russo.

Nos contos populares russos, as esferas Deus/Diabo — o Bem e o Mal — são interligadas, unidas. Assim, Baba-Iagá, a bruxa das florestas, a fiel ajudante do Diabo, ora faz maldades — rouba crianças, mata, envenena heróis –, ora se transforma numa criatura bondosa — ajuda o herói, fornecendo-lhe a comida, o cavalo, a poção mágica, etc. Baba-Iagá não encarna o mal.

O séquito dos vários diabos tem diferentes membros: a coruja, o gato, os defuntos, os vampiros, etc. E também os lobos, os corvos, as cobras. Entretanto, todos eles, em algumas ocasiões, podem muito bem ajudar ao herói. Como em Bulgákov.

E há mais seres que carregam o diabólico, o demoníaco: os poetas, os músicos e outras “almas perdidas e pecadoras” como os orgulhosos, os solitários, os rebeldes, os ateus, os ladrões, os bandidos, os bêbados, os jogadores, os vagabundos, os ciganos, os amantes… Isso explicaria a simpatia que o diabo de Bulgákov tem pelo Mestre — que é um bom escritor e que, além disso, escreveu um romance não só sobre os sofrimentos e a sabedoria de Jesus, como também sobre a fraqueza e o padecimento moral de Pôncio Pilatos. E isso explicaria também a simpatia que Woland tem por Margarida — uma adúltera, amante do Mestre.

No folclore russo, o Diabo tem algumas características bem determinadas e estas mesmas características marcam o Diabo e seu séquito no romance de Bulgákov:

— os olhos verdes, ou, então, um olho diferente do outro em cor: “ele aparentava ter bem uns quarenta anos. Boca ligeiramente torcida. Bem escanhoado. Trigueiro. O olho direito negro, o esquerdo — não se sabe por quê — verde”;

Woland: ilustração de uma edição de O Mestre e Margarida
Woland num filme

— a força poderosa, orgulhosa de um “super-homem” ou então uma força brincalhona, mas briguenta (o gato Behemoth e Korôviev — os membros do séquito diabólico no romance de Bulgákov — são possuidores desta força brincalhona). Sim, em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Korôviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno e forte Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. O povo russo relaciona também a ventania, a nevasca, o incêndio — lembremos que foi justamente o incêndio que acabou com a casa de escritores e com o misterioso apartamento n.° 50 — com o Diabo;

—  a cor preta ou vermelha. O vermelho é a cor da paixão, do sangue e do fogo. Outra cor diabólica é o preto. Os personagens diabólicos costumam ter os cabelos pretos — ou o pelo preto, como o Gato, que era “negro como corvo, ou como fuligem” — ou, então, o cabelo vermelho, como Korôviev, que tinha “cabelos ruivos brilhantes”;

— a marginalidade caracteriza os “filhos queridos” do Diabo. Este “marginal” pode ser uma espécie de um gênio, um poeta, um músico, mas pode também ser uma variante baixa: um ladrão, um bandido. Com a marginalidade vem a solidão e a ausência de filhos. Margarida, há vários anos casada, não tem filhos, é uma pessoa solitária, que sente-se abandonada pelo marido. Tudo isso a colocaria naturalmente ao lado do Diabo. O Mestre também não tem familia;

— o Diabo é o proibido e a rebeldia. Tudo o que não poderia haver na União Soviética. O Diabo (Deus) está com Margarida, está com o Mestre, está com Ivan Bezdômny, no final do romance, quando este se recusa a escrever poesia encomendada;

— o Diabo é um mestre do jogo, da sedução, da representação teatral e da arte em geral. A própria palavra ‘arte’ — em russo ‘iskusstvo’ — vem do verbo ‘iskusit’, “seduzir”, “representar”, “ser falso”. Na Rússia, o Diabo troca as máscaras e os papéis, e no romance de Bulgákov, ele também é um ator por excelência.

Eco do Fausto de Goethe, pelas reflexões filosóficas, o romance começa com esta epígrafe:

— Pois bem, quem és então?

— Sou uma parte desta força que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.

Goethe, Fausto.

O Diabo aparece já nas primeiras páginas do romance e passa a desempenhar o papel substancial no texto. Mas, conhecendo o contexto histórico da União Soviética da época — é nosso próximo assunto –, quando o romance foi escrito, o leitor atento logo deixa de encarar o livro como “fantástico”, começa a sentir que “tem mais”. O objetivo do livro é fazer com que o leitor hesite em escolher entre a explicação natural e a sobrenatural dos acontecimentos. O efeito produzido pelas situações grotescas é desorientador. O mundo de O Mestre e Margarida é cheio de milagres, um mundo teatral.

Só que não é uma fantasia livre. Tudo aquilo que de sobrenatural acontece tem o outro pé na realidade. Por exemplo, quando, no epílogo, Bulgákov conta a perseguição aos gatos pretos, pois a polícia está atrás do gato Behemoth:

Cerca de uns cem desses animais pacíficos, dedicados e úteis ao homem tinham sido fuzilados ou exterminados por outros meios em diversos pontos do país. (…) Gatos, de aspecto às vezes bastante estropiado, foram entregues a destacamentos policiais de diversas cidades. Por exemplo, em Armavir, um desses bichos, sem culpa alguma, foi levado à polícia com as patas dianteiras amarradas por um cidadão. (Pág. 384, edição da 34)

Mas não se enganem, a maior parte do livro é pura sátira. Ele tem cenas belas, a maioria delas hilariantes e, se você pensar que Bulgákov viu a URSS dos anos 30 como Doutor Jivago estará navegando num mar de enganos.

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Texto parcialmente adaptado e copiado do trabalho Quem é o Diabo?” de Elena Godoy. 

2020: o ano Beethoven, uma introdução

2020: o ano Beethoven, uma introdução

2020 é o ano Beethoven (1770-1827). Ele foi batizado em 17 de dezembro de 1770. O ano de nascimento é indiscutível, mas ele deve ter nascido uns dias antes do dia 17.

Depois de uma curta estada em Viena em 1786-1787, o compositor fixou-se na capital austríaca em 1792, onde veio a falecer em 1827, com 56 anos. A música de Mozart (1756-1791) influenciou muito a de Beethoven, mas em Viena, ele foi aluno de outro compositor, Haydn (1732-1809), alguns anos mais velho que Mozart. As aulas foram interrompidas por uma crítica do professor, porém ambos sempre se respeitaram. Aliás, o trio Haydn-Mozart-Beethoven são as três joias vienenses e, de diferentes formas, todos se influenciaram mutuamente do ponto de vista musical.

Não é acaso que Viena tenha sido o local onde tantos compositores surgiram para o mundo. Lá, sempre houve um mecenato atuante e organizado. Viena era pura música no final do século XVIII e início do XIX. Foi a cidade que comandou a transição do Classicismo — que interrompe o Barroco —  e o Romantismo musical. Então, se Haydn tem raízes no Barroco, Beethoven já entra pelo Romantismo. Aliás, também em Viena, ainda havia o genial Schubert (1797-1828) já com os dois pés no romantismo.

É complicado e, para nossa sorte, ocioso, definir onde Beethoven foi maior. Nas sinfonias, nos quartetos, nos concertos, nas sonatas para as mais diversas formações? Pode escolher, meu amigo. A recente edição da Deutsche Grammophon de suas obras completas traz 118 CDs, 2 DVDs e 3 BDs, com mais de 175 horas de música. Parece muito, mas fica aquém de Bach (153 CDs), Haydn (160 CD) e de Mozart (200 CD). Se Beethoven compôs nove sinfonias (deixou apontamentos de uma décima), Haydn compôs 104 e Mozart 40 (sim, não há uma Sinfonia Nº 37). OK, as sinfonias de Beethoven eram muito mais complexas e às vezes incluíam programas, mas mesmo assim a diferença numérica espanta.

Beethoven foi imenso. No final de sua vida, afirmava escrever para o futuro. Tinha razão. Seus últimos quartetos e sonatas são um aceno e uma direção para o que viria um século depois. É um compositor incontornável, tem de ser estudado e ouvido por quem se dedica à música ou não. Foi um homem atarracado e, dizem, muito feio. Claro que os gravuristas lhe deram uma mãozinha, principalmente na cabeleira rebelde. Mas não se enganem, ele tem o tamanho de um Shakespeare ou de um Homero.

Aproveitemos esses últimos anos de nosso planeta com ele. Não há muita coisa melhor para fazer.

Manual da Faxineira, de Lucia Berlin

Manual da Faxineira, de Lucia Berlin

Um livro extraordinário. Manual da Faxineira (Cia. das Letras, 532 páginas) compila os melhores trabalhos da contista Lucia Berlin. São 43 contos com um humor que guarda certo parentesco com o de Raymond Carver, mas com melancolia e realismo próprios. Berlin faz milagres com o cotidiano, descobrindo momentos sublimes em lavanderias, em casas do meio oeste estadunidense ou da classe alta da Bay Area de San Francisco, em emergências hospitalares, entre operadoras de telefonia e mães em dificuldades, caroneiros, drogados e alcoolistas. Mas como esta brilhante escritora foi a princípio ignorada? Como puderam?

Lucia Berlin (1936-2004) trabalhou de maneira brilhante, mas esporádica, durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. Suas histórias são inspiradas por uma infância em várias cidades da Califórnia, Novo México e Texas. Teve também uma glamourosa adolescência em Santiago do Chile, três casamentos, um problema grave com alcoolismo e quatro filhos. Para piorar, Lucia era uma moça alta que sofria de escoliose e usou um colete ortopédico de aço durante seus anos jovens. Depois, sóbria e escrevendo de forma constante na década de 1990, ela assumiu o cargo de escritora visitante na Universidade do Colorado (Boulder) em 1994 e logo foi promovida a professora associada. Em 2001, com problemas de saúde, ela se mudou para o sul da Califórnia para ficar perto de seus filhos. Morreu em 2004, em Marina del Rey. Tudo isso é muito importante porque, em suas histórias, há muito de sua biografia.

Como disse, os contos de Lucia Berlin não foram muito divulgados durante sua vida. Algumas coleções publicadas por pequenas editoras entre os anos 70 e 90 ganharam um pequeno e dedicado grupo de admiradores, como Saul Bellow. As 43 histórias reunidas em Manual da Faxineira são uma poderosa reivindicação por reconhecimento.

Realmente, Berlin pareceu ter o condão de encaixar muitas vidas em seus 68 anos. Criada nos remotos campos de mineração do Alasca e do centro-oeste, ela foi uma criança solitária e abusada no Texas dos tempos da 2ª Guerra; depois uma jovem rica e privilegiada em Santiago; uma boêmia que vivia em lofts nos anos 50, em Nova York; uma recepcionista em um pronto-socorro de emergências no centro de Oakland, nos anos 70. Quando tinha 32 anos, já se casara três vezes, tinha quatro filhos e lutava, ou não, contra o alcoolismo.

Sua vida agitada fornece assunto para suas histórias. Sua alegria também. Há sempre um fundo de bom humor em seus textos. Ela é dura e papo reto, mas a brutalidade é compensada pela compaixão à fragilidade humana e pela inteligência da narrativa. E o prazer de ler acaba sendo maior que a dor. Em Até mais, o casamento com um viciado em heroína é descrito como “tempos de intensa felicidade tecnicolor e tempos sórdidos e assustadores”. A solidão está presente em histórias ambientadas em hospitais, clínicas de desintoxicação, lares e prisões, porém, apesar do território frequentemente sombrio, a escrita de Berlin é caracterizada por um enorme apetite pela vida e de amor. Em Mordidas de tigre, uma história que detalha os horrores de uma clínica de aborto no México, é o calor e a diversão perversa do relacionamento entre a narradora e sua prima glamourosa que permanece em primeiro plano.

Como teve muitos empregos, Berlin é uma cronista aguda de instituições e do mundo do trabalho muitas vezes esquecido — em particular o trabalho de baixo prestígio e baixa remuneração de enfermarias, faxineiras e auxiliares. Em Quero ver você sorrindo, um personagem é descrito como possuindo uma curiosidade compassiva por todos, e o mesmo se aplicava claramente à autora. Algumas das histórias, como Caderno de notas do setor de emergência, 1977, têm abordagem jornalística, mas há sempre um olho no poético:

Se suas bolsas já não foram furtadas, as velhinhas parecem carregar nada a não ser a dentadura de baixo, um folheto com o horário do ônibus 51 uma caderneta de endereços e telefones em que não se acha um único sobrenome.

Berlin credita sua mãe por seus poderes de observação, escrevendo em Mamãe sobre como lembrava de suas piadas e de sua maneira de olhar, nunca perdendo nada.

Lembramos de suas piadas e do seu jeito de olhar, aquele olhar que nunca deixava escapar nada. Você nos deu isso. Essa capacidade de olhar.

Não a de ouvir, porém. Você nos dava talvez uns cinco minutos para te contar alguma coisa e depois dizia “Chega”.

São histórias que capturam o mundo quase invisível ao nosso redor, revelando o banal e o pungente. Em Mijito, uma enfermeira fala sobre as crianças doentes sob seus cuidados. A maioria das crianças não pode chorar. Há apenas lágrimas rolando e este horrível rangido do mundo, como um portão enferrujado, ao fundo.

O estilo de Berlin é direto. Mijito é de verossimilhança quase insuportável. Você pode ser enganado ao pensar que está lendo cartas de uma amiga quando ela fala em frases como “Eu sei, romantizo tudo”. Mas esse estilo coloquial é traído por brutais falas e mudanças súbitas que deixam claro que essas são histórias minuciosamente elaboradas. O narrador de Mamãe passa o tempo todo conversando, finalmente convencendo sua irmã moribunda de que a mãe insensível e bêbada merecia alguma compaixão, antes de revelar na última linha: Eu… eu não tenho compaixão.

A mesma mãe e irmã (Sally) aparecem em muitas histórias, e a natureza parcialmente autobiográfica da coleção faz desta uma experiência de leitura em densas camadas. Personagens e cenários se repetem, e certos períodos são vistos através de filtros diferentes, com o elenco principal e seus relacionamentos entrando e saindo de foco.

Em Voltando para casa, a história final, Berlin observa os hábitos dos corvos de sua varanda:

…mas o que me incomoda é que eu só reparei neles por acidente. O que mais será que deixei passar? Quantas vezes na minha vida eu estive, por assim dizer, na varanda dos fundos, e não na varanda da frente? O que será que me disseram que eu não ouvi? Que amor poderia ter existido que eu não senti?

Ponto de Vista, Mijito e Incontrolável são contos inesquecíveis. Dos melhores que li até hoje. Berlin sofreu muito, mas seu poder de observação e arrebatador virtuosismo literário farão dela um clássico, se o mundo não acabar nos próximos anos.

Com informações do The Guardian.


Daqueles que não se denuncia (um bolsoconto)

Daqueles que não se denuncia (um bolsoconto)

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…

Mario Quintana – Cocktail Party

Será que eu vou ser obrigado a contar tudo isso pra alguém? Se for, talvez seja melhor organizar meus pensamentos. É uma história vergonhosa, dessas que quem conta não se orgulha. Como começar? Ora, certamente por Marina.

Marina não tinha onde cair morta, mas só comprava roupas caras; andava contando o dinheiro, mas jamais comeria numa lancheria de chão sujo; pagava a academia provavelmente pedindo dinheiro para a mãe e ia, ao menos uma vez por mês, ao melhor dos cabeleireiros. Estava no último ano do segundo grau da mesma escola pública onde eu estudava, mas parecia uma universitária da PUC. Ela tinha intuição para o que era bom. Ela sabia, sempre sabia. Talvez sua roupa custasse o mesmo que a das outras meninas, mas ela sabia comprar e usar melhor, acho eu. O deus que não existe fez com que ela nascesse numa família de baixa classe média, mas ela era diferente de suas amigas. Tinha algo em si que exigia e obtinha respeito. Não precisava advertir os meninos abusados de que passar a mão na sua bunda era proibido. Eles sabiam disso. Não era arrogante ou antipática, era distante, misteriosa. Sob seus pés parecia haver um tapete que a elevava e deixava sua cabeça nas nuvens. Ela não andava com fones de ouvidos como nós, sua tatuagem não tinha esquisitices, era no braço, feita de flores traçadas em delicadas linhas pretas. Ela não participava das brincadeiras mais idiotas, apenas sorria delas. Era bonita, claro, tudo devia ser consequência de sua beleza. Só que ela carregava aquilo com enorme classe. Óbvio: era a musa inalcançável, tema de nove entre dez masturbações dos meninos como eu.

Eu tinha um pouco de medo dela. Todo mundo tinha. Era uma mulher entre nós. Um dia, vimos Marina chegar à escola num carro diferente. Era uma caminhonete enorme, novinha. Notei que uns colegas largavam uns uau e elogiavam a nave. Ninguém de nós tinha carro, ainda mais um daqueles. A rapidez com que o respeito por ela transformou-se em desprezo foi, quem sabe, digna da velocidade potencial do veículo. Uns disseram para os outros é uma puta mesmo. Mas não ousaram falar diretamente a ela.

Acho que ela logo entendeu o novo ambiente em que pisava, mas não fez nada para impedir o avanço da onda. Precisava? O motorista era um homem mais velho, o que nos deu a certeza de que ela estava recebendo algum em troca.

Mas Marina permaneceu a mesma e a onda virou uma marolinha.

Um dia, fui com meus pais a um desses lugares de comida sem gosto, vegana. Eles tinham essas manias, ficavam uma semana comendo folhas e realizando loucuras no liquidificador e subitamente voltavam a transformar nossa mesa num crematório a céu aberto com duplo entusiasmo. Ainda bem. Bem, eu dizia que lá estava eu escolhendo alguma coisa que se parecesse com carne quando vi Marina com o cara bem no meio do restaurante. O homem devia estar lá pelos 30 anos e não calava a boca. Falava alto e não foi muito difícil ignorar o blá-blá-blá familiar e prestar atenção na conversa dele.

Credo, ele falava como um idiota.

– Marina, olha só. Tu sabe como eram as TVs nos anos 60? As pessoas ligavam aquela porcaria e ela tinha que esquentar até ligar. Tu já viu um Fusca? Pois é, aquela coisa funcionava mal, estragava a toda hora. Era o que todo mundo tinha, meu pai tinha um. Tu acha que naquela época existia tecnologia pro homem ir à Lua? É óbvio que o homem não chegou nunca à Lua. Nunca. Pensa bem, o cara sai daqui impulsionado por um foguete, como é que vai voltar de lá, se lá não tem outro foguete para mandá-lo de volta, entende? É tudo mentira.

Marina olhava pra ele com um sorriso paralisado, devia estar odiando aquilo, ainda mais que ela tinha me visto e era uma menina esperta. Ela sabia que eu ia ficar ouvindo o cara pontificar, todo ouvidos, como minha mãe diz.

É claro que o discurso foi indo na direção de que a Terra era plana e de que aquecimento global era uma bobagem. Eu decorava tudo o que o cara dizia para contar no Colégio. O discurso dele sobre fatos científicos acabou com um

– Tu acredita naquilo que tu não vê?

Marina permanecia com as feições de quem estava injetada de litros de botox na cara. Ainda assim era bonita, a desgraçada.

No dia seguinte, na escola, vi Marina chegar cedo, sozinha. Ela me olhou de volta, agora muito séria e eu mudei de ideia. Achei melhor guardar o segredo do imbecil da caminhonete. As aulas iam se sucedendo e, toda vez que eu olhava para o lado onde ela estava, recebia um olhar frio, talvez triste. Caralho, ela realmente tinha o poder de mandar na gente. Minha fofoca arrasa-quarteirão foi perdendo a força. Ela me olhava, me olhava tanto que me preocupou se os outros não estavam notando.

Eu era – sou ainda – um nerd, desses que se apaixonam por uma coisa e vão atrás. Meu problema era com os livros de detetives. Lia tudo de Simenon, Rex Stout, Agatha, Rubem Fonseca, Padura, para citar os meus preferidos. Mas também os outros. Onde houvesse um crime e um detetive, lá estava eu. É claro eu era muito branco, magro e usava só camisetas pretas. Tinha o uniforme perfeito para não ser observado pela mulher-tesão do colégio. Então, quem me lê tem que saber que eu sabia que ela me olhava por outro motivo que não transar comigo, OK? Me olhava porque estava de olho em mim, nas minhas ações, só isso. Paralelamente, talvez seja importante dizer que eu estava cada vez mais feliz com a atenção dela e nos imaginava em todas as posições do Kama Sutra. Tanto que quase esqueci de Mario Conde.

Então, dias depois, eu fui à biblioteca para procurar mais livros de detetives. Havia uma boa fileira deles no colégio. Todos doados por um certo Milton Ribeiro que tinha o péssimo costume de escrever seu nome e sublinhar cada livro. Você que me lê deve saber que os autores desses livros costumam escrever uma montanha deles. E esse Milton devia ser mais um tipo que, como eu, gostava de literatura inconsequente e não tinha mais onde enfiá-los. E eu me agachei em busca do Maigret desconhecido quando vi Marina entrar no corredor onde eu estava. Ela parou do meu lado. Eu agachado como um sapo, ela em pé como a princesa. Ergui o olhar e ela disse uma coisa bem simples, só duas palavras:

– Me abraça?

E eu tive a certeza que ela queria apenas algum tipo de consolo, entendi perfeitamente o que ela queria. Pus meus braços ao redor dela e a apertei. É claro que tratei de aproximar o púbis, afinal, sabe-se lá. Mas ela se afastou um pouco, liberando apenas o abraço. Ficamos assim durante um longo e prazeroso minuto. Os seios dela contra o meu peito, apesar de o professor de biologia ter dito que o nome correto era mamas. Depois ela afrouxou os braços no meu pescoço, disse que estava mesmo precisando daquilo e foi embora.

Minutos depois, eu já duvidava se o abraço tinha realmente acontecido. Voltei para a sala de aula com as pernas um pouco bambas, muito feliz e confuso. Busquei o olhar de Marina, que desta vez veio mais doce. Quando cheguei em casa, bati todos os recordes masturbatórios.

Passaram-se dois dias sem maiores contatos. Por mim, estava tudo bem, tinha atingido meu ápice. Não desejava mais do que seguir adubando minha imaginação. Eu e Marina no chão da biblioteca, eu e Marina sobre as mesas silenciosas dos leitores, eu e Marina encontrando-nos à noite com as portas fechadas, eu e Marina sendo flagrados nos banheiros e depois indo para a diretoria, eu e Marina de mãos dadas pelos corredores, eu e Marina andando numa caminhonete…

Pois, dizia eu, passaram-se dois dias até que ela se sentou comigo na escadaria de entrada do colégio. Ela me disse que eu sabia de coisas que não eram para serem contadas por aí. Mas o que eu sabia dela?

– Que eu saio com aquele cara ridículo.

– Isso todo mundo sabe.

– Só que tu ouviu aquelas bobagens dele.

– Eu só ouvi um papo que a terra era plana. Só isso.

– Não… Ouviu mais.

Eu falava a verdade. Eu só tinha prestado atenção nas besteiras. Afinal, a humanidade leva séculos para descobrir que vive numa grande esfera e, do nada, o cara conclui que não.

– Ah, Marina, eu tava mais interessado na comida.

Ela riu e pude ver que ela era realmente alguém de outro mundo. Sua beleza chegava a doer em mim. Eu tentava decorar o formato de seus lábios e olhos, dos mamas sob a blusa, das pernas, tudo para que minhas sessões individuais fossem mais realistas. O que Marina falava era ao mesmo tempo interessante e muito besta.

– Aquele cara votou no Bolsonaro e não se arrepende. É um policial que acha que bandido bom é bandido morto, que quem fuma um de vez em quando é vagabundo. Mas ele me protegeu numa confusão em uma festa e eu sou uma burra. Acabamos ficando na noite da confusão e, bem, desculpe.

– Eu não tenho que desculpar nada, imagina. Tu sai ou fica com quem tu quiser. Mas por que tu fica com um escroto desses?

– Ah, é complicado. Ele é bonito, me trata bem, é gentil, me agrada, tem um grande grupo de amigos, todo mundo gosta dele, me leva a lugares onde eu não poderia normalmente ir. E não me incomoda quando eu dou meus rolês. Na verdade, eu não me preocupo com o que ele pensa, mas é claro que ele me envergonha quando é radical.

– Radical?

Eu achei ridículo o que ela disse e propus que fôssemos para a praça em frente fumar um baseado. Foi bom. Ela era tranquila e irônica. Também era curiosa. Me perguntou que livros eram aqueles que eu carregava sempre e eu desandei todo o meu conhecimento sobre o assunto. Quer dizer, não todo, mas bastante coisa.

Então começamos a fumar diariamente. Eu entendia que ela gostava da minha companhia e que namoraria um cara como eu – OK, um com mais aparência. Ah, se eu tivesse um carro… Entendi outras coisas também, entendi que o policial queria alguém que fosse grato a ele, que lhe devesse favores. Mas eu não tinha nada a ver com isso, era apenas um amigo dela.

Também caminhava com ela depois da aula. Ia até sua casa e muitas vezes ficávamos na porta de seu edifício, de papo. Sim, de minha parte era o clássico amor platônico, uma bosta. Eu tinha medo de, com um avanço, acabar com aquela amizade, tão boa e cheia de fantasias minhas. Eu sempre pensava que ela queria que eu a abraçasse e beijasse, mas ela me matava contando onde fora com o namorado, do motel que tinham conhecido e eu voltava correndo para a imaginação.

Eu criei uma imagem de Marina. A linda mulher legal que estava escravizada a um escroto por circunstâncias de pobreza. E eu não tinha nada a perdoar ou criticar. Ela caminhava comigo, sabia que eu estava apaixonado, mas não se incomodava. Nem eu.

Só que um dia estava indo pro colégio quando um cara me puxou pelo ombro e me encostou violentamente à parede de um prédio. Reconheci o policial. Logo vi que ia apanhar pra caralho. Ele me acertou um forte soco no estômago e falou bem perto de mim. Eu tentava me livrar de seu hálito de cerveja enquanto ouvia.

– Seu maconheiro de merda, se tu tocar na minha gata eu primeiro te encho de porrada e depois tu vira presunto. Que fique bem claro, seu idiota, eu posso tudo.

Depois, ele pegou o meu pescoço logo abaixo do queixo e apertou para eu quase sufocar ao mesmo tempo que girava minha cabeça de um lado para outro, como eu fizesse sinal que não.

– Agora eu podia quebrar esse teu pescocinho de galinha, o que tu acha?

– Não, não, por favor — disse sufocando. — Eu não fiz nada, eu trato ela com o maior respeito. Sou só amigo.

– Mas e aqueles cigarros que tu faz ela fumar?

– Eu vou parar com isso. Não sou viciado. Nem ela.

– Não fala dela, só de ti, porra, Dela eu trato, eu falo. E quem é que traz o baseado?

– Eu, é culpa minha.

– Tu sabe o que eu faço com maconheiro?

Então ele bateu a minha cabeça na parede e me largou.

– Vai pra aula, franguinho.

Ele não tinha batido muito forte porque não fiquei tonto, mas saiu sangue.

Assustado, não atinei de ir para o colégio. Aliás, nem devia porque o sangue já estava descendo pelas minhas costas e eu ia ter que arranjar uma explicação. Não era um absurdo, mas minha a camisa preta devia estar molhada de sangue.

Cheguei em casa e deitei de bruços no chão, tentando fazer o sangue parar. Eu tremia de medo, pensando no que tinha acontecido. Quando me acalmei um pouco, levantei para lavar minhas roupas e vi minha mãe entrando em casa na maior gritaria. Uma vizinha tinha avisado que um cara estava batendo em mim e ela vinha toda louca, histérica. Pegou minha camisa e, chorando, perguntou se eu estava bem. Examinou o corte na minha cabeça. Claro que doeu, mas ela não deu muita importância, disse que era um corte pequeno.

– Me diz o que tu fez pra apanhar desse jeito?

– Nada mãe, eu converso muito com uma colega e o namorado dela teve uma crise de ciúmes.

Ela me olhou bem séria, fazendo sinal negativo com a cabeça. Que merda, nem minha mãe acreditava que eu estivesse comendo alguém. E não estava mesmo.

– O que aconteceu de verdade?

– Exatamente o que eu te disse, porra!

– Nós temos que ir dar queixa, fazer um B.O. e foder com esse cara que agrediu.

Então, em vez de eu ficar deitado em casa tentando me acalmar tive que ensinar minha mãe de que a polícia não funciona pra nós e que a gente tem que se cuidar por si mesmo. Não ia dar pista da profissão do cara que tinha me pegado porque ela podia armar barraca com os vizinhos.

Minha cabeça doía, latejava enquanto eu tentava ser o mais veemente possível, mesmo falando em voz baixa. Nada de polícia, mãe, nada de B.O. Tá doida. Esse cara é violento, parece que é traficante, domina a área, é daqueles que não se denuncia para seguir vivendo.

Devo ter sido convincente porque deu certo.

Bolsonaro quer mudar livros didáticos: “têm muita coisa escrita, tem que suavizar”.

Atualizando a lista de dispensados pelo Inter… E quem fica?

Atualizando a lista de dispensados pelo Inter… E quem fica?

OS DISPENSADOS:

Nico López
Emerson Santos
Tréllez
Rithely
Bruno Silva
Matheus Galdezani
Ramon
Carlos Miguel
Guilherme Parede
Bruno
Rafael Sóbis
Juan Alano
Charles
Valdívia
Dudu
Ferrareis
Neilton
Paulão (final do vínculo)
Andrigo (final do vínculo)
Klaus
Pedro Lucas
Zeca

QUEM FICOU ATÉ AGORA (lista de Alexandre Perin):

Goleiros (4): Danilo Fernandes, Marcelo Lomba, Keiler, Daniel
Laterais (5): Rodinei, Heitor, Moisés, Erik, Natanael, Uendel
Zagueiros (4): Victor Cuesta, Rodrigo Moledo, Roberto, Bruno Fuchs
Volantes (6): Rodrigo Dourado(*), Edenilson, Patrick, Rodrigo Lindoso, Nonato, Damián Musto
Meias (4): D’Alessandro, Sarrafiore, Johnny, José Aldo
Atacantes (5): William Pottker, Paolo Guerrero, Wellington Silva, Peglow, Netto
Total: 29 jogadores

Faltaria dar um destino para Zeca, Uendel e Natanael, na opinião de alguns…

Obs.: (*) lesão grave

QUEM FOI CONTRATADO:

Rodinei – lateral-direito – Flamengo
Damián Musto – volante – Recreativo Huesca-ESP

O técnico Eduardo Coudet terá muito trabalho pela frente | Foto: SC Internacional

Alejandra Pizarnik, propósito de ano novo

Alejandra Pizarnik, propósito de ano novo

“Que este ano me seja dado viver em mim e não fantasiar nem ser outras, que me seja dado me colocar boa e não procurar o impossível mas sim a magia e estranheza deste mundo que habito. Que me sejam dados os desejos de viver e conhecer o mundo. Que me seja dado o interesse por este mundo.”

Alejandra Pizarnik, propósito de ano novo (diários). Sexta-feira, 1º de Janeiro de 1960.

Na Austrália, nosso futuro

Na Austrália, nosso futuro

Os incêndios na Austrália atingiram um ponto de não retorno. Até ao momento são dezessete mortos confirmados, dezenas de milhares de pessoas encurraladas nos Estados de Nova Gales do Sul e de Victoria (a maioria sem água e comida), vinte cidades cercadas pelas chamas, milhares de casas reduzidas a cinzas, centenas de animais queimados, etc. A cidade de Bargo, a sudoeste de Sydney, praticamente desapareceu do mapa. Ao menos três milhões de hectares foram devastados em todo o país durante os últimos meses de incêndios, que destruíram mais de 800 casas.

A intensa onda de calor — semelhante a que tivemos na semana passada em Porto Alegre — favorece a propagação dos incêndios que afetam a Austrália e os focos fora de controle nas proximidades de Sydney foram agravados por estas condições “catastróficas”, afirmaram as autoridades. Hoje, Sidney está coberta pela fumaça dos incêndios.

Aquele “ney” apagado pelos avisos no mapa é Sydney (5 milhões de habitantes)

As evacuações em massa, muitas delas por mar, não devem evitar o número de vítimas mortais, pois o navio de desembarque militar HMAS Choules transporta apenas oitocentas pessoas de cada vez e os aviões não chegam aos pontos críticos.

Isto me leva a pensar sobre o futuro que nos espera. Estamos na mesma latitude da Austrália. Quando a tragédia for global, os governos democráticos serão substituídos por ficções Philip K. Dick ou Margaret Atwood e outros. O futuro será do fogo.

Pequim quer proibir a presença de strippers em funerais

Pequim quer proibir a presença de strippers em funerais

Do Hoje Macau

O Governo da China quer proibir a presença de strippers em funerais, uma tradição que existe em algumas províncias no interior do país e que é uma resolução de Pequim para o ano novo. Algumas comunidades no interior do país utilizam a presença de strippers para levar mais pessoas às cerimônias.

Segundo o jornal britânico The Daily Telegraph, os mandatários chineses querem acabar com essa tradição que ainda é muito respeitada em províncias do interior como Henan, Anhui, Jiangsu e Hebei.

Segundo o jornal, essa é a terceira vez desde 2006 que o Governo chinês tenta acabar com o costume. Entre as comunidades mencionadas acredita-se que um funeral cheio de gente traz fortuna e boa sorte para o espírito do morto.

O Governo chinês criou uma linha de telefone especial para a população denunciar shows eróticos nos funerais e a família do morto pode ser multada ou até mesmo presa. Além disso, o Governo está levando a cabo uma campanha nos órgãos de comunicação social para convencer a população que levar strippers para cerimônias fúnebres é uma manifestação de decadência moral e cultural resultante da influência do ocidente no país.

Costume: strippers animam funerais na China e em Taiwan

Dia 25

Estou indo dormir às 4h da madrugada, mas como valeu a pena ir no happy hour(s) da Cláudia Beylouni Santos!!! Comidas e amigos maravilhosos, ambiente perfeito, inteligente e alegre, casa linda e com o amigo Pedro Pereira, que é um violonista do cacete, puxando uma roda de samba que teve até a Elena cantando, tocando violão e piano — sim, minha mulher é violinista, genial e linda e eu sou um sortudo. E, bem, eu tentei cantar várias músicas, pois embestaram de dizer que bossa nova era comigo… Gente, que baita noite de 25! Talvez a melhor de todas.

Cláudia, muito obrigado.

Minelli, 91 anos

Minelli, 91 anos

Rubens Minelli foi, sem dúvida, o melhor técnico que vi comandando o Internacional. Era um cara nada teimoso, aparentemente sem manias por jogadores ruins (ou por jogadores amigos, ou por jogadores de empresários influentes) e que se apoiava naqueles que estavam jogando bem para dominar o vestiário. Foi um estrategista revolucionário em sua época. Seu Palmeiras de 1969 já era um time taticamente muito diferente do normal, mas nada como seu Inter de 74 a 76. Minelli trouxe o estilo do futebol da Holanda de 1974 para o Beira-Rio. Venceu todos os jogos do Gaúcho de 1974, disputado logo após aquela Copa do Mundo — foi campeão também em 75 e 76 — e foi bicampeão brasileiro 75-76. Treinava todo mundo, inclusive a imprensa. Semanalmente, pagava um almoço para os repórteres que faziam a cobertura do clube. Pedia que desligassem os gravadores, mas enchia-lhes de cerveja e das informações que podia dar.

Sempre fazia uma ou duas substituições por volta dos 10 min do segundo tempo. Sempre tentava pressionar os adversários de modo a abrir rapidamente 2 x 0 e baixar o ritmo. Tinha mil jogadas ensaiadas e estratégias para cobranças de faltas. Se Muricy disse que jamais viu alguém tão bom e convincente nos treinamentos, eu garanto pelos resultados.

Feliz aniversário, Minelli.

Atrás do balcão da Bamboletras (XIX)

Conheci a mãe de um cliente da Bamboletras. Ele está morando em Paris e ela regularmente lhe envia livros e outras coisas. Ela escolhia um verdadeiro farnel natalino e dizia:

— O Lauro diz pra eu comprar sempre aqui na Bamboletras. Me proibiu a Cultura e a Saraiva porque elas não pagam as editoras direito e a Amazon porque ela quer quebrar todo mundo, principalmente o comércio das pequenas livrarias com curadoria como a de vocês.

Ao ouvir essas palavras cheias de razão — palavras que salvam e libertam –, ergui minhas mãos ateias para os céus.

E completou dizendo que atravessa toda a cidade para vir aqui.