Internacional, Campeão do Mundo 2006

Publicado em 17 de dezembro de 2006

Quero agradecer a todas as manifestações dos amigos sobre a conquista de hoje. Destaco especialmente – e quem mora no sul sabe o quanto isto é raro em nosso futebol – a elegância e a grandeza dos amigos gremistas Afonso XX o Chato, Ery Roberto e de minha mulher, assim como o e-mail emocionado do colorado Marcelo Backes, que hoje mora no Rio de Janeiro.

Fiquei até tarde na festa da Av. Goethe e tenho algumas fotos que estão na máquina fotográfica do meu filho. Meu sobrinho Filipe bateu todos os recordes e deu uma volta na quadra em que mora, correndo e berrando, com uma bandeira do Inter na mão. Detalhe: ele trajava apenas cuecas. Infelizmente, não conseguimos ainda a liberação das fotos.

Ceará e Wellington Monteiro conseguiram o que só Parreira fizera antes: impedir Ronaldinho de jogar. Fabiano Eller, Edinho, Vargas e Iarley (o melhor em campo) cumpriram atuações perfeitas e Adriano Gabiru – o jogador mais odiado pela torcida colorada – fez-nos engolir o melhor sapo de todos os tempos. Agora, cada vez que nos lembrarmos do título de hoje, vamos lembrar dele. Um sapo nietzschiano, portanto, retornando eternamente.

E não adianta: em decisões, quase sempre ganha quem se defende melhor. Aí está o principal mérito de Abel Braga e do comando seguro de Fabiano Eller lá atrás. Se a defesa de um dos times mostra-se firme, o adversário se descontrola e acaba tomando um golzinho… Para finalizar o post: quem fez aquela cobrança de falta do Ronaldinho ir para fora fomos eu, a Helen, o Saad, o Vítor, a Bárbara e o Bernardo. Nós desviamos aquela bola para fora com nossos olhos. Tenho certeza.

Um problemão para Ratzinger

O médico italiano Severino Antinori, aquele mesmo que costuma deixar grávidas mulheres de sessenta anos, anunciou hoje que, no último mês de setembro, realizou uma operação que está destinada a abalar a humanidade. A equipe do irrequieto Antinori teve acesso ao Santo Sudário e, após meses de tentativas, capturou o DNA de Jesus Cristo. O pano que, segundo o dogma, envolveu o Salvador no período entre sua retirada da cruz até a ressurreição, guardava grande quantidade do sangue coagulado de Jesus Cristo, o que permitiu a obtenção de seu DNA. A notícia de hoje, veiculada pelo L`Osservatorio Bugiardo e que está nos principais sites de notícia do mundo, dá conta de que, numa ação de incrível ousadia, Antinori está gerando um clone de Jesus Cristo em uma jovem romana. Em seu comunicado à imprensa, Antinori disse que o Filho de Deus tem DNA normal.

Porta-vozes do Vaticano deram claros sinais de que Ratzinger, o Papa Bento XVI, está indignado com o que considera um desafio a toda a cristandade e exigiu que a mulher que carrega o clone de Cristo em seu ventre seja imediatamente identificada e trazida a sua presença. Há também a possibilidade de que Ratzinger convoque o médico italiano para uma entrevista semelhante àquelas que foram realizadas no passado com Giordano Bruno, Galileu Galilei e, mais recentemente, com Leonardo Boff. O guardião da doutrina voltou a falar na lenta consumação da dignidade humana e deu sinais claros de que estaria disposto a avalizar um aborto deste feto gerado em condições que demonstrariam “um completo desrespeito a todos os católicos do mundo”.

Antinori garantiu total sigilo quanto a identidade da nova Maria, nem que para tanto seja necessária a convocação de novos templários. Ainda declarou que ela — uma mulher ainda virgem, com a finalidade de reproduzir as condições adequadas — e a criança deverão ter uma existência normal. Tablóides ingleses tiveram edições especiais falando sobre a revelação da verdadeira face de Cristo e a oposição do Vaticano. Católicos do mundo inteiro esperam por milagres nas próximas horas. O Opus Dei negou-se a dar declarações porém diz-se que intervirá no caso.

O mico que veio do espaço

Não sou jornalista nem publicitário, mas penso que meus 51 anos me deram um pingo de sabedoria para poder refletir sobre meus erros e os de outrem. Quando a agência W3Haus (aqui e aqui, posts alusivos no blog da agência) intermediou a compra do nome de uma estrela por parte do Grêmio, deveria ter pensado em todas as piadas e no simbolismo que envolveria um negócio estranho como este. Por exemplo, uma coisa que a agência deveria ter considerado é que nossos clubes costumam pôr estrelas em suas camisetas. É como se desejassem imprimir suas maiores realizações no firmamento. Até aí tudo bem, o ser humano é ridículo mesmo. Só que tais estrelas são conquistadas, nunca compradas. Será que não pensaram que estariam dando de graça uma piada aos colorados e expondo seu cliente ao ridículo ao adquirir uma estrela num ano sem títulos?

Para uma pessoa da minha geração, o fato também lembra aquele dilacerante e várias vezes repetido especial da Rede Globo sobre Elis Regina, produzido em 1983, um ano após sua morte. Chamava-se Agora sou uma estrela. O especial utilizava escritos que a própria Elis deixara em diários e que eram, no programa, interpretados por Irene Ravache. A frase agora sou uma estrela, repetida à exaustão nas propagandas e no especial, tinha claro significado: morri, agora estou no céu, agora sou uma estrela. Aquilo ficou na cabeça de minha geração, mas acredito que a relação não exista apenas para nós, pois se consultarmos os livros de História e relacionarmos todos os povos que pensavam em seus mortos ao olhar para o céu — ou nas religiões que os enviavam e enviam para o mesmo local após a morte –, concluiremos que é coisa atávica.

Há mais: falei que o torcedor gosta de estrelas na camiseta, mas gosta ainda mais de estrelas em campo. Uma equipe cheia delas é “galáctica” como o Real Madrid. Eu compreenderia que uma instituição riquíssima comprasse uma estrela no céu para demonstrar aos outros que já tem tudo o que deseja na Terra, eu entenderia também que um time recém campeão do mundo adquirisse uma estrela para significar que aguarda, quem sabe, agremiações marcianas capazes de vencê-la. Mas não entendo que qualquer endividado clube brasileiro — ainda mais um abstinente de títulos — faça uma compra tão estapafúrdia.

Mas há muito mais: se os compradores de nomes de estrelas tivessem alguma habilidade com a Internet, poderiam descobrir facilmente o mico total, integral, definitivo:

The International Star Registry is not in the business of officially assigning star names; it is in the business of finding people willing to part with their money for a piece of paper that in a scientific sense means precisely nothing.

“We produce a good product, a fun product. We may have planted a seed with people, educated them even slightly about astronomy, about the stars,” said Rocky Mosele, vice president of marketing and advertising for ISR. “For people to say, ‘Well, it’s not official’ — I think people are OK that it’s not official. I’m sure of it. I know because customers call again and again and again.”

Ou seja, o vice-presidente de marketing da ISR, sigla que lembra outra a qualquer gremista desta galáxia, admite que a compra de estrelas é um fun product, uma brincadeira ou talvez um presente de cunho romântico, como fez Nicole Kidman ao presentear Tom Cruise com a estrela “Forever Tom” ou Winona Ryder com Johnny Depp. A compra de nomes de estrelas não é oficial, nem reconhecida pelos astrônomos. A IAU (International Astronomical Union), fundada em 1919, com 8300 membros individuais e 66 países membros, é a única instituição autorizada a nomear corpos celestes. E o Grêmio comprou o seu da ISR.

Basta comparar os linques acima. Com toda a razão, a IAU declara que a ISR é um deplorável truque comercial. Fundada em 1979, a ISR já comercializou 1 milhão de estrelas por US$ 50 cada. Todos os donos receberam belos certificados. Como há mais de 400 bilhões de estrelas disponíveis apenas em nossa galáxia, é um baita negócio.

Porém, mesmo que a culpada seja a agência de propaganda que o induziu a um mico, acreditamos que o Grêmio tenha acesso à rede mundial para descobrir a fama da ISR e seja PLENAMENTE MERECEDOR de todas as piadas (eu descobri a farsa em 5 minutos). Afinal, na noite de 11 de dezembro de 2008, na Sociedade Libanesa, em Porto Alegre, a diretoria do Grêmio anunciou séria, feliz e em grande estilo a adoção de uma certa Estrela Grêmio, localizada na Constelação de Órion, a mais brilhante. Se isso em nenhum momento lhes soou como uma compra de indulgências – cujas vendas fez Martinho Lutero escrever 95 teses em 1517 –, CÉUS, afirmaria que são um bando de tolos. Ou siderados.

Quando os gremistas pensavam estar extinta a voz de Flávio Obino cantando as maravilhas do Trovão Azul e do site, quando silenciaram os comentários sobre a alegre poltrona 36, chega-lhes um curioso problema de outro mundo: a fama de comprador de uma grande e distante estrela paraguaia.

E dizem que nem pode ser vista a olho nu.

Ao acordar, uma descoberta revolucionária…

Bah, fim de semana altamente alcoólico. Sábado à noite, uma festa na casa do Dario, aniversário de sua Cláudia. Foram consumidas duas caixas completas de espumante Freixenet Cordon Negro Brut por não sei quantas pessoas. Poucas, acho. Excelente festa, como sempre acontece por lá.

Domingo pela manhã, a Bárbara acordou às 8 horas para que eu a levasse na equitação. Não dormi até o almoço, que era uma festa da comunidade italiana lá no restaurante da PUC. Comida de primeira, claro. E comida de primeira, sabem como é, exige vinho. Voltei para casa às 15h30. Dormi como um justo. Às 18h, comecei a acordar. Devia estar sonhando com matemática, pois fiz uma descoberta que certamente não é brilhante nem uma novidade, mas, enfim, foi no que pensei.

A diferença da seqüência de números naturais elevados ao quadrado forma uma Progressão Aritmética.

Vejamos:

1 x 1 = 1
2 x 2 = 4
3 x 3 = 9
4 x 4 = 16

A diferença entre 1 e 4 é 3; entre 4 e 9 é 5; entre 9 e 16 é 7. A coisa se preserva com números maiores? Sim. Observem:

20 x 20 = 400
21 x 21 = 441
22 x 22 = 484
23 x 23 = 529
24 x 24 = 576
25 x 25 = 625

Então, 441 – 400 = 41, 484 – 441= 43, 529 – 484 = 45, 576 – 529 = 47, 625 – 576 = 49.

Até aqui eu consegui fazer sem sair da cama.

E segue:

100 x 100 = 10000
101 x 101 = 10201
102 x 102 = 10404

É óbvio? Para mim não era. Consultei aqui em casa e nunca ninguém tinha se dado conta disso. O álcool nos faz pensar bobagens inúteis… Mas o espumante de ontem era muito esperto, Dario!

Uma semana, um texto: O entardecer de um fauno, de Rafael Galvão

Quando inventei essa coisa de, a cada domingo, republicar em meu blog o melhor post ou texto lido na Internet durante os últimos sete dias, sabia que Rafael Galvão não tardaria. Após uma disputa interna com Marcelo Coelho, escolhi o Rafa com um texto a respeito das novas, porém inexoráveis, limitações experimentadas por um amigo comum: o Hermenauta. Na forma de uma compreensiva missiva enviada a um amigo em dificuldades irremediáveis, Rafael expõe toda sua cultura e tristeza em contido tom elegíaco.

Com vocês, O Entardecer de um Fauno, elegante título certamente baseado em Claude Debussy, autor de Prélude à l’après-midi d’un Faune (Prelúdio à Tarde de um Fauno). Preparem os lenços. É dilacerante.

O entardecer de um fauno

Confesso que ando muito preocupado com o Hermenauta. Um post deu o sinal de que algo está muito errado com o meu amigo:

My own private Cicero

“Velhice” é quando aquelas limitações que você imagina provisórias se revelam mais permanentes do que você gostaria.

É de uma tristeza pungente esse pequeno post do Hermenauta. Ali está, em tons contidos e quase cartesianos, como convém a um engenheiro, toda a dor da velhice. No começo dava para agüentar. Uma falha aqui, outra ali, isso poderia acontecer de vez em quando. Sim, ele diria “Isso nunca me aconteceu antes, querida”, e ela fingiria que acreditaria; mas quando tal limitação se revela permanente não há mais espaço para desculpas; apenas um olhar triste e desconsolado, nada mais que isso, e então palavras são desnecessárias. A tristeza absoluta dispensa explicações.

Em outros tempos, voando para Paris, o Hermenauta procuraria os banheiros do avião para seguir o exemplo de Emanuelle. (Se você não sabe quem foi Emanuelle, não se preocupe. É do tempo do Hermenauta.). Hoje ele apenas se contenta em observar o vaivém de passageiros dispostos a alguma diversão em uma longa e tediosa viagem transatlântica, e a consciência de que o seu tempo não é mais aquele o faz filosofar e lembrar de Cícero.

Velhice é uma coisa medonha, porque embora nunca venha de repente, ninguém está preparado para ela. Ninguém sabe, de verdade, o que são as dores crônicas, a sucessão de problemas, as impossibilidades tantas antes de vivê-las. Velhice é pior que a morte, porque depois da morte você não fica mais pensando no que deixou de fazer, ou no que não pode mais fazer. Na velhice, não. Na velhice o sujeito se alimenta de suas próprias memórias. O Hermenauta, por exemplo, fica relembrando os bons tempos no Posto 9.

Pior do que as falhas, pior do que nervos e vasos cavernosos que se recusam a obedecer as ordens do cérebro e seguir os conselhos das mãos, é citar Cícero. Só os antigos citam Cícero. O velho professor de latim: “Os romanos, senhor! Os romanos eram batutas!” Mas Cícero não era tudo isso que dizem dele. É só lembrar que Nero teve mais trabalho para matar sua mãe Agripina do que para dar cabo do velhote. Quando alguém em meio à tristeza da impossibilidade lembra de Cïcero, é porque não há mais jeito. Está velho, irremediavelmente velho, e tudo o que seu corpo cansado e dolorido pede é uma cadeira de balanço, onde possa acalentar lembranças gloriosas de um passado cada dia mais distante.

Ao mesmo tempo, velhice por si só não é o grande problema. Todos nós, se tivermos sorte, ficaremos velhos. O problema é quando o coração continua jovem, e sente desejos com os quais seu corpo não é mais compatível. Nesses casos a gente cita Cícero. E às vezes, como no caso do Hermenauta, uma certa angústia se manifesta. “Por quê?”, ele se pergunta, “Por que o Grande Designer me deu a experiência necessária somente agora, quando este velho corpo já não responde aos meus desejos?

Resta afirmar então que o círculo da vida (imagine agora a trilha de “O Rei Leão” enquanto lê isso) é sábio. Adolescentes correm atrás de mulheres mais velhas porque elas são mais experientes e normalmente financeiramente independentes, o que torna tudo mais fácil; velhos babam por ninfetas como Scarlett Johansson, peitos enormes que sublimam de maneira profana todo e qualquer complexo de Édipo porque a experiência lhes ensinou que a juventude e a firmeza de carnes são um valor tão desejável quanto efêmero. Mas se é sábia, a natureza não é justa; e por isso o Hermenauta hoje lamenta a sua sina.

Sabe, há histórias que a gente pode contar sempre para dourar essa pílula indigesta. Eu sempre lembro de Rossano Brazzi em “A Condessa Descalça”, vítima de um tenebroso acidente de guerra (e obviamente corno, que capado nenhum casa impunemente com a Ava Gardner). Há uma certa dignidade senil nesses casos — era Aristóteles quem dizia dar graças pelo arrefecimento de seus desejos? Por isso, da próxima vez em que o Hermenauta se vir compelido a inventar uma justificativa, ao invés de desfiar a velha ladainha do “isso nunca me aconteceu antes”, bem poderia colocar a culpa no Bush. “Foi em Mosul. Uma patrulha nos escoltava até o lugar onde iríamos construir uma torre de celular quando…” Irromperia então em lágrimas, soluçaria, mas cuidando em manter a dignidade masculina. Ele vai dar, assim, uma história de que a moça se lembrará pelo resto da vida — e que se tenha a certeza de que ela vai contar essa história ao seu novo namorado, suada e arfante, daqui a alguns dias. Por isso, recomendo ao Hermenauta apenas pegar moças burrinhas — porque uma mulher inteligente vai entender tudo, e a história que ela contará ao namorado será diferente: “Mô, peguei um velho broxa uma vez, tu não imagina o caô que ele tentou jogar em cima de mim”.

Uma vez, ouvi um velhinho no ônibus falar ao cobrador: “Meu filho, no dia que o pau cair, os dedos entrevarem e a língua enrolar, eu dou a bunda, mas da sacanagem eu não saio.” E já que a velhice despertou no Hermenauta todo o seu latinório, não custa lembrá-lo de que outro grande romano, um romano maior que Cícero, o Adriano original, arranjou para si um Antínoo. É nisso que dá andar com esses romanos.

O Monólogo Amoroso (IX)

Ela acorda muito mal. O longo tempo deitada faz suas costas doerem tanto quanto aquilo que lhe rói. Mesmo assim, ela volta a pressionar a tecle REC e grava para a filha.

Nunca dei muita importância a datas como o Natal. Gosto das celebrações de aniversários; afinal, às vezes só conseguimos ver nossos amigos anualmente nessas festas. As datas restantes são apenas feriados para mim. Mas tu estavas tão excitada com o Papai Noel que entrei junto na onda natalina daquele ano. Com antecedência, montamos a árvore, comprei presentes e organizei as pessoas para que dessem aquilo que tu querias ganhar. Meus pais diziam que tu tinhas mudado totalmente minha postura, o que era óbvio; eles viam tudo pelo benigno. Só que em minha atitude colaborativa havia a intenção de sumir algumas horas naquelas semanas de Natal, Ano Novo e de resoluções a não serem cumpridas. Era o nosso Natal. Meu e teu. Mas não imaginava quando nem como encontraria Ricardo, e nem se aconteceria mesmo. Não combináramos nada de concreto, apesar de minha imaginação criar as mais altas expectativas.

Nina pára, olha para o gravador e pensa que ele está desligado. Pressiona novamente o botão REC e recomeça.

Aquele era o nosso Natal. Meu e teu. Tu estavas excitadíssima com o que te traria o Papai Noel e eu também… Nunca dei importância a datas e comemorações, gosto apenas de aniversários, só que naquele ano eu fantasiava muito criando expectativas para ti e para mim. Acho que te deixei louca imaginando as surpresas que o Natal podia trazer. Arrumamos árvore, enfeitei tudo para o velhinho comparecer, organizei quem daria o que para ti, pensei nas comidas; fiz tudo com a antecipação necessária para ficar livre alguns turnos durante as semanas fatídicas em que Ricardo estaria na cidade. Mas não sabia se realmente o encontraria e já ia compensando a possível decepção com uma atividade febril. Quando passava por algum espelho, parava cinco minutos, me olhava bem, fazia testes com o cabelo, pensava na roupa e nos três quilos a mais pós-gravidez. E voltava à atividade. Precisava me atualizar. Tinha temor de uma conversa muito intelectual e fazia uma toalete literária, cinematográfica e musical como preparo para o encontro. Mas era só um amigo, mentia para mim. E ia para o cinema, informava-me o quanto podia lendo o Caderno B (ou seu similar) do Jornal do Brasil de cabo a rabo, dava especial atenção às críticas e tinha absoluta certeza de que aquilo era necessário e que serviria para criar uma atmosfera… Sei lá que atmosfera!

Não conseguia ler em casa. Dispersava-me imediatamente. Naquele verão, chegaram aos cinemas dois filmes: Blow-up de Antonioni (Depois daquele Beijo, no Brasil) e Persona de Bergman (Quando duas mulheres pecam, outra invenção nacional). Por que logo esses dois filmes? Blow-up, talvez o tenhas visto, é um filme filosófico disfarçado de suspense. É a história de um fotógrafo profissional de moda que vai a um parque ou campo. Um casal apaixonado atrai sua atenção e ele, ao ampliar as fotos, percebe, ao fundo, quem cometera o crime contra o homem apaixonado. Havia um homem armado, escondido na densa vegetação. É um filme de suspense e não é, porque Antonioni vai tão fundo que o filme torna-se um estudo sobre real versus imaginário. Como cenário, uma Londres (uma Europa, uma Veneza) colorida e cheia de maravilhosas mulheres disponíveis. Não era bem o que precisava ver, mas tudo sempre pode piorar.

Em Persona, uma atriz nega-se a falar. É internada e depois vai para um exílio acompanhada por uma enfermeira. Ficam isoladas. Numa praia, se não me engano. Sim, numa praia. Conversam, ficam íntimas. As duas mulheres tinham problemas relacionados à maternidade: enquanto Elizabeth simplesmente renegava o filho, Alma não aceitava o aborto ao qual fora obrigada.

Nenhuma tinha minha história, mas existiam interseções com ambas. Parecia ser a antítese de Alma: se eu desejara o aborto e não o obtivera, ela não o desejara e o obtivera. Porém sua frustração era semelhante à minha — a dissolução brusca de um sonho, de um projeto — e eu pensava compreender inteiramente Alma. (Minha filha, não estou aqui gravando estas coisas para parecer melhor do que fui. Estou falando a verdade. Além disto, o silêncio em que envolvia cada vez mais teu pai era em tudo semelhante ao mutismo de Elisabeth.) A repetida troca de identidades entre as mulheres perturbou-me muito e a surpreendente fusão de seus rostos – fato de que apenas me dei conta lendo uma crítica e que só pude constatar revendo o filme, pois na primeira só pensei em como Liv Ullmann ficara subitamente feia — foi especialmente aterrorizante.

Sempre procuro me identificar com algum personagem, em Persona esta segurança cresceu muito para esvair-se lentamente. As duas mulheres misturam-se em monólogos e há a terrível leitura da carta, principalmente daquela parte sobre a orgia com os meninos na praia, cuja conseqüência viria a ser o aborto indesejado. Sabia que meu rosto também poderia misturar-se aos de ambas na montagem de Bergman. Passei horas e horas pensando no filme ou, melhor dizendo, em mim. Voltei à época da gravidez.

A semana do Natal chegou e nada de notícias de Ricardo. Estava irritada, não podia conceber aquilo. Então, chegou mais uma carta, na verdade um envelope cheio de cola que ele pusera na caixa do correio. Reconheci a letra. Fui para meu quarto, pus uma música e fiquei olhando para o envelope sobre a mesa. Resolvi antes tomar banho. Fiz tudo lentamente. Pensei que a carta lida por Alma estava aberta, sem aquela absurda quantidade de cola. Durante o banho, planejei todas as combinações de roupas para o encontro. Sabia o que fazer se fosse um encontro matinal, vespertino ou noturno; se chovesse, se estivesse frio, quente ou se nevasse… E desconfiava que mudaria tudo na última hora. Deitei-me na cama.

“Nina.

Podemos nos encontrar dia 23, no Alaska, na esquina da Osvaldo Aranha com a Sarmento Leite, às 18h?

Saudades. Ricardo.”

No Alaska? Um bar de estudantes universitários recém inaugurado e vazio por causa das férias? E com um garçom conhecido, de nome Isake, e que diria para mim “Oi, Nina, tudo bem?”. OK. Um pouco decepcionada, mas decidida a não pensar muito a respeito, fui pessoalmente ao conhecido endereço indicado em “Remetente”, e depositei minha resposta na caixa do correio dentro de um envelope no mesmo estilo, só que com menos cola e conteúdo ainda mais sucinto:

“Ricardo.

Combinado! Estarei lá.

Nina.”

Parecia coisa de agente secreto. Todo o complexo planejamento de roupas foi alterado. Ao Alaska só se adequariam jeans e camiseta. Tudo bonitinho, novinho, apertadinho, é claro, mas nada além de jeans e camiseta. Investiria tudo no cabelo e no perfume.

Com dificuldade, ela vira-se para o lado da parede, desliga o gravador e sorri.

11 de dezembro de 2008

Hoje, o compositor americano Elliott Carter completa 100 anos de vida. Escrevo este texto às 21h30 da noite de 10 de dezembro de 2008. Há 15 anos, mais ou menos neste horário, encontrei meu pai no Supermercado Zaffari da Av. Ipiranga, em Porto Alegre. Fiz o que sempre fazia com ele e ele comigo: dei-lhe um encontrão por trás e…

— Desculpe, senhor… Nossa! Pai! Tu aqui?

Conversamos sobre os CDs que ele comprara e que ouviríamos — um minuto por faixa, a toda velocidade — no dia seguinte, durante o almoço. Sempre almoçava lá aos sábados.

Às seis da madrugada daquele sábado, minha mãe ligou. Não gritava, apenas falava rápido parecendo que queria me acalmar. Disse que encontrara meu pai deitado no banheiro; não disse caído, disse deitado porque ele estava reto de costas, com a mão no peito, como se tivesse lentamente sentado no chão e depois deitado, esperando que a dor do enfarto passasse.

Quando cheguei em casa a equipe da Unimed, minha mãe e irmã cercavam o corpo. Ou não, acho que minha irmã chegou depois. O cara da Unimed me fez um sinal com o polegar para baixo. A mãe dizia que não o tinha visto sair da cama e que fizera tudo o que sabia: respiração boca a boca, pressão no peito, etc. Tratei de consolá-la. Fim.

Tive receio que Carter não chegasse ao fatídico 11 de dezembro, mas chegou. 100 anos! É incrível que esteja produzindo. Estreou 10 novas obras entre 2006 a 2008, dos 98 aos 100… Fantástico. No dia 8 de agosto passado, terminou uma peça para grande orquestra chamada Wind Rose. Suas obras são dificílimas, quase inviáveis. P.Q.P. Bach publicou seu Concerto para Piano e o Concerto para Orquestra. Talvez haja alguma homenagem hoje. Não consigo imaginar música mais complicada.

Espero um 11 de dezembro tranqüilo. Haverá concertos em Nova Iorque (onde Carter reside), Washington, Montreal, Amsterdam, Berlim, Helsinki, Viena, etc. e gostaria de saber se alguma publicação brasileira fará referência ao aniversário de Carter. Duvido muito. A conferir.

A propósito do post abaixo, minha irmã pergunta ao Ministério Público:

— E o caminhão do Brasinha, onde se enquadra? Passa diariamente em frente ao hospital onde atendo meus pacientes, tocando a todo volume o hino do Grêmio, certamente superando o nível permitido de decibéis. Interrompo o trabalho por causa do barulho. Ele circula pela cidade à revelia da lei e o dono ainda é vereador pelo PTB…

(Eu não disse para vocês que ela era adorável?)

Dêem mais ocupações a estes homens, por favor

Eles ganham bem, fazem um trabalho muito útil contra a violência nos estádios, mas desejam também a fama. São como blogueiros, querem se expressar, certo? Só que em vez de aguardar os visitantes, eles atacam.

Ontem, os juízes Marcelo Mairon Rodrigues e Felipe Keunecke de Oliveira, do Juizado Especial Criminal que funciona nos estádios em dias de jogos, requisitaram à Polícia Civil investigações sobre a origem do avião que passou sobre o Estádio Olímpico portando uma faixa com os dizeres “Inter, o único campeão de tudo”. Fato gravíssimo…

Segundo eles, o Artigo 39, parágrafo 1, do Estatuto do Torcedor reza que “o torcedor que promover tumulto, praticar ou incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores ficará impedido de comparecer às proximidades, bem como a qualquer local em que se realize evento esportivo, pelo prazo de três meses a um ano, de acordo com a gravidade da conduta, sem prejuízo das demais sanções cabíveis”.

O avião seria “incitação à violência”… O fato ocorreu aos 40 minutos do segundo tempo do jogo Grêmio 2 x 0 Atlético-MG.

Ora, isso já aconteceu tantas vezes em Porto Alegre… Já foram tantos os aviões gremistas e colorados… Já tivemos tantos episódios que o tal avião faz parte da história da cidade. Todo mundo ri dele, é tradicional. Quem sabe os doutores querem também proibir quaisquer brincadeiras, as buzinas, os cantos das torcidas — muitos deles agressivos –, as piadas que nos chegam pela Internet, etc. A partir de agora, a partir da importância que as sumidades deram ao tradicional aviãozinho portoalegrense é que podemos ter violência nas próximas aparições. Sugiro aos juízes proibirem o uso das camisetas dos clubes na ruas, pois é claro que a aparição de um gremista pode transtornar um colorado ou vice-versa.

Acho muito mais convidativa à violência a faixa da torcida do Grêmio “Jamais nos matarão”. Isso é uma clara convocação ao confronto e à luta. Mas não dá mídia atacar uma e apenas uma faixa da Geral…

O futebol é algo tão hipertrofiado em nossa sociedade que ele mesmo regula suas manifestações públicas mais tresloucadas. Por exemplo, o folclórico ex-presidente Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, espécie de Eurico Miranda dos pampas, declarou num conhecido programa de rádio de Porto Alegre que milhares de torcedores do Inter fugiram de meia dúzia de gremistas durante o último Grenal… No dia seguinte, os protestos foram tantos que o irresponsável ex-dirigente foi obrigado a pedir desculpas.

O mesmo ocorreu quando desta faixa racista colocada há muitos anos…

… e retirada rapidamente pelos tricolores.

Não quero dizer que não haja violência entre torcedores e nem que a lei não esteja melhorando a situação. Por exemplo, sou favorável à Lei Seca nos estádios, implantada há poucos meses. Depois dela, vi menos brigas e ninguém mais dependurou-se na minha camiseta do Figueroa berrando com aquele hálito maravilhoso bem em frente a meu nariz que eu era possuidor da coisa mais preciosa do mundo. Poderiam também proibir os cigarros. Já o fizeram no Uruguai. Não incitam nada, só são muito chatos.

Mas o nosso aviãozinho de cada conquista… Que bobagem.

P.S.- Meus exemplos foram inteiramente colorados. Sei, porém, que as torcidas são formadas por pessoas da mesma sociedade e agem igual. Há violência de ambos os lados. Apenas, por preferência clubística, lembro mais as do Grêmio…

Acordo ortográfico: melhor aprender logo

É ruim saber que o blog ficará com cara de livro velho, mas acho que a reforma ortográfica veio para ficar. Há alterações necessárias, como a expansão do alfabeto de 23 para 26 letras, mas não me convenço de outras, como a extinção do acento diferencial. São poucas mudanças e acho que a mais complicada de lembrar é a do acento agudo. Deixo este post em categoria separada, porque sei que vou ter consultá-lo algumas vezes ainda…

Trata-se, pois, de uma anotação pessoal. Porém, para quem quer saber sobre os prazos de implantação os vestibulares e concursos poderão aceitar as duas grafias como corretas até 31 de dezembro de 2011. Quanto aos livros didáticos, haverá um escalonamento. A partir de 2010 os alunos do 1º a 5º ano do Ensino Fundamental receberão os livros dentro da nova norma – o que deve ocorrer com as turmas do 6º a 8º ano e de Ensino Médio, respectivamente, em 2011 e 2012.

Abaixo, as novas regras. Copiei daqui, a fonte de texto mais claro que encontrei.

TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. “pára” (flexão do verbo parar) de “para” (preposição)
2. “péla” (flexão do verbo pelar) de “pela” (combinação da preposição com o artigo)
3. “pólo” (substantivo) de “polo” (combinação antiga e popular de “por” e “lo”)
4. “pélo” (flexão do verbo pelar), “pêlo” (substantivo) e “pelo” (combinação da preposição com o artigo)
5. “pêra” (substantivo – fruta), “péra” (substantivo arcaico – pedra) e “pera” (preposição arcaica)

ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras “k”, “w” e “y”.

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e seus derivados. A grafia correta será “creem”, “deem”, “leem” e “veem”;
2. em palavras terminados em hiato “oo”, como “enjôo” ou “vôo” -que se tornam “enjoo” e “voo”.

ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como “assembléia”, “idéia”, “heróica” e “jibóia”;
2. nas palavras paroxítonas, com “i” e “u” tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: “feiúra” e “baiúca” passam a ser grafadas “feiura” e “baiuca”;
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com “u” tônico precedido de “g” ou “q” e seguido de “e” ou “i”. Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.

HÍFEN
Não será usado quando a segunda palavra começar com S ou R (as consoantes deverão ser duplicadas, como anti-social/ antissocial) e quando o prefixo terminar em vogal diferente daquela que inicia a segunda palavra (auto-elogio/autoelogio).

GRAFIA
No português lusitano:
1. desaparecerão o “c” e o “p” de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como “acção”, “acto”, “adopção”, “óptimo” -que se tornam “ação”, “ato”, “adoção” e “ótimo”
2. será eliminado o “h” de palavras como “herva” e “húmido”, que serão grafadas como no Brasil -“erva” e “úmido”.

Frases brilhantes e curiosidades de todo tipo que coleciono há anos num arquivo (I)

Gosto de carros, de todos os esportes e de muitas outras coisas que nada têm a ver com prática literária. O prazer não me dá remorso. Onde não há prazer não há proveito, escreveu Shakespeare. Não sou como esses escritores que só sabem falar de literatura e cujas obras nunca se equivalem ao que sabem ou pensam saber. Falo de qualquer coisa, estou atento ao acontece ao meu redor. Não vivo num buraco, alimentando-me de sopa de letrinhas.

Sergio Faraco em entrevista para a Revista Aplauso, Nro. 44.

The cinema is not a craft. It is an art. It does not mean team-work. One is always alone; on the set as before the blank page. And for Bergman, to be alone means to ask questions. And to make films means to answer them. Nothing could be more classically romantic.

Jean-Luc Godard em “Bergmanorama”, Cahiers du cinéma (Julho de 1958)

A tranquilidade de espírito, a ausência de ansiedade, a ausência de medo: são estes os ingredientes da felicidade.

Iris Murdoch em Um Homem Acidental.

Agora, uma pequena amostra de trechos de e-mails. Meus amigos – dentre eles alguns blogueiros – não se mostraram maravilhosos, angustiados, adultos, felizes, tolos, bons, saudosos, inteligentes, bem comportados, engraçados, irritados, tolerantes, simpáticos, sentimentais, insuportáveis, provocadores…? Deixo quase todos anônimos, alguns por motivos óbvios, penso.

Algum tempo atrás, a BBC perguntou às crianças britânicas se preferiam a televisão ou o rádio. Quase todas escolheram a televisão, o que foi algo assim como constatar que os gatos miam e os mortos não respiram. Mas entre as poucas crianças que escolheram o rádio, houve uma que explicou:

— Gosto mais do rádio, porque pelo rádio vejo paisagens mais bonitas…

Quer saber? Adoro crianças. E, sem pretender nem de longe igualar-me a uma, a verdade é que gosto mais de livros do que de filmes porque naqueles vejo paisagens mais bonitas…. Com toda a franqueza, vou te dizer uma coisa que sei que pode soar como fazer gênero ou até hipócrita. Um dos termômetros que considero infalíveis para medir o caráter de uma pessoa é ver como ela se relaciona com crianças. Não precisa nem ser com os filhos: se alguém despreza crianças ou as machuca ou magoa de qualquer maneira, não interessa quantas qualidades possa ter: para mim é um mau caráter.

Naila Freitas

 

Milton, alguns elementos de RUSSO, assim de supetão.

Em russo, vermelho é “krassnii”. E a origem de “krassni” é a mesma do substantivo “beleza”; ainda hoje, pode-se usar “krassni” para classificar uma coisa de bela, numa linguagem assaz erudita – e um tanto antiquada. E “prekrassnii” – “krassnii” com um prefixo trivial – significa “maravilhoso”, na linguagem usual dos russos. Por acaso não torcemos INCLUSIVE para o time certo? Queres mais? Azul é “galuboy”… Eu, desde o inicio, achava que a palavra soava muito, mas muito estranha. Evitava pronunciá-la até. Pois sabe o que eu fiquei sabendo? O outro significado de “galuboy” é viado, puto, bicha… De novo, nós não torcemos INCLUSIVE para o time certo? A fonética é maravilhosa!

Por outro lado… Sabias que “vodka” é uma palavra que, originalmente, é uma derivacao carinhosa da palavra “vadah”, que significa água? E que o verbo beber é “pivv”, em russo, e que “piva”, o verbo substantivado, significa cerveja? Não é debalde que quando a gente enxergava o Ieltsin ele estava cambaleando…

Marcelo Backes, em momento politicamente incorreto.

 

Meus poucos prazeres andam se resumindo a emitir tais resmungos — que o X. ainda publica — na “elegante melancolia do crepúsculo”, como diria Chaplin (em Limelight).

Faltam as pequenas, acolhedoras livrarias – e faltam as moças de óculos, muito bonitas sem as lentes, de vista e pernas cansadas, após as passeatas de estudantes. Faz cem anos; liam Sartre (e, mais ainda, Simone); os filmes de Bergman enchiam de sombra cinemas de namorados e éramos jovens de um modo imortal, que não existe mais.

Saudade.

oi meu irmão

amo também Tarkovski, meu cineasta predileto.

sei cenas de cor. a impregnação poética, o silêncio palpitante como um animal ferido, a beleza melancólica, o outro lado úmido do espelho, o bafo dos animais, a extensão de campo do homem: “para um filme viver no tempo é preciso que o tempo esteja vivo dentro do filme”.

o único filme que eu ainda não assisti dele é Andrei Rublev. nem quero ainda. é como guardar uma esperança.

obrigado pelas tuas dicas.

abraços

Sei lá se tô metendo as fuças onde não sou chamada. Mas é que me dói ver pessoas que quero bem, tristes. E esta é uma constante, atualmente, à minha volta. Ela está triste. Muito triste. Havia anos que não a via assim.

É mais difícil esquecer os ódios do que os amores, de outro modo, é mais difícil (não) detestar de imediato o que me lembra o que mais odeio, do que amar mais do que aquilo que amo. Isto é, é mais difícil não detestar o Inter, por ligações diretas, no meu cérebro, ao Benfica, do que juntar ao clube que amo outros clubes para amar. Não sei se fui claro.

Por lealdade aos outros, e por acabar com o tempo concordando com o julgamento dessa colega (sobre como ser pragmática e focada num cesto de ofídios), é que coloquei-a em algum outro mundo. No início foi muito difícil, apagar simplesmente alguém que sabia de mim coisas tão doídas e profundas, e com quem eu me abria, por esse maldito jeito transparente demais, sempre sem filtro, sem qualquer maquete prévia. Acho que enxergar alguém com um pré-projeto definido foi o mais doído.

Recordo-me de meu pai me contar que a minha tia X. foi a tribunal por uma questão qualquer mesquinha. Então, o juiz, depois de minha tia prestar declarações disse – A senhora mente com todos os dentes que tem. Então, a minha tia voltou-se para o Juiz e disse – Meritíssimo tem toda a razão! Não estou a mentir. Abriu a boca e disse – Como V. Exa. pode verificar que nem um só dente tenho.

O lado afetivo é o mais importante na idade dela… Eu, pessoalmente, não pensava no ambiente (materialmente falando) e sim nas pessoas e no carinho que eu recebia, à essa época da vida…. Me lembre, dez anos tem ela, não?

Esse convívio numa atmosfera de carinho e de proximidade vale mais que vida em palácio, estou certo disso, por tudo que vivi …

Espero que todos estejam bem! Há meses que tenho estado ensimesmado com a empobrecedora dualidade “casa-trabalho”. Se o desencanto já era evidente em relação ao governo, com as últimas notícias ele se ampliou como nunca. Sobre isso, gostaria muito de conversar pessoalmente. Por enquanto, prefiro aguardar o desenrolar dos acontecimentos. No entanto, as notícias pinçadas em diferentes fontes não são alentadoras…

A novidade é que serei pai novamente! O rebento se chamará X. e já tem cinco meses.

Uma conhecida diz que ela não está gorda, o problema é a altura que não está de acordo, é muito baixa. Hauehauehauehauehauehuaeua…

 

Tentei ler As Ondas, da Virginia Woolf, em espanhol, mas achei complicado… Não seria melhor ler Borges em inglês? risos

 

Me separei com 36 anos. Imagine o bando de peruas maquiadas e vestidas para matar que eu encontrava nos bares em happy hours, dispostas a qualquer coisa. Mas também encontrei mulheres que estavam na delas, tranquilas, divertidas e dispostas a paqueras mais leves e lentas. Com algumas destas fiz amizade.

 

Quanto aos homens que encontrei pela frente durante este período, mais de 50% era casado, com filhos pequenos e querendo a eterna emoção da conquista. Nos noutros 45% estavam os doidos, os infantis, os separados querendo me botar na sua ” lista” de prováveis candidatas segunda relação. Encontrei bem poucos que queriam um amor e que estavam dispostos a investir tempo, cuidado e sensibilidade em sua construção. Apenas dois.

 

Perdi a conta dos casados que me cantavam na porta da geladeira de suas cozinhas, com a esposa na sala servido canapés a seus amigos, ela linda e jovem, inteligente e muitíssimo desejável. Acho que cantavam por… por costume… por exercício de machismo… por babaquice… por idiotia. Por acharem que, se eu não tinha um par, estava doida pra “dar” a qualquer um. Homens assim me tiraram a vontade de casar outra vez.

 

É verdade que seu estudo estatístico tem alguma substância. Entre as 64 advogadas e médicas (treinadas para atacar e defender, em teoria) há um grande número de desesperadas. Tenho algumas conhecidas assim. Uma delas até atacou um dos meus namorados na cozinha!

 

Pô, Milton, mas eu não sou um fauno, em absoluto. Sou um romântico…

 

Como imaginava, o almoço na casa de X. foi muitíssimo mais divertido do que o filme. Infelizmente, estou proibida pelo meu marido de contar tudo o que vi e de transcrever as conversas maravilhosas que tive e que ouvi. E que remédio tenho eu senão obedecer-lhe sem questionar. Mas não resisto a contar que as amigas da puta da ex-namorada do meu marido passavam pelo sitio onde eu estava, olhavam e iam-se embora. Iam àquele sítio da casa para me verem. Adoro a decadência.

 

Pois é. Ele escreve muito mal e esta é uma discussão muito presente no núcleo da revista. Pelo menos, conseguimos fazer com que ele não use mais parênteses dentro de parênteses…

 

Meu amigo querido,
as emoções começam a se aquietar em meu coração descompassado. Saiba que adoro Truffaut. Mesmo! E Jules et Jim é um dos filmes da minha vida! Aqui tb o frio resolveu aparecer para alegrar meus dias (sim, adoro o frio! Estamos com temperaturas mais baixas desde o fim de semana). E tb já percebi seu carinho para conosco, seus amigos. Essa intensidade é algo meio mágico, não é Milton? A virtualidade aproximando almas que se reconhecem, que se identificam. É assim que vejo e sinto. E isso, de alguma forma me salva.

 

Claro que Drummond entendia muito pouco de mulher, Milton. Frente a Vinícius, não entendia nada, com aquela cara de farmacêutico, arrependido de ter deixado Minas para colaborar com Gustavo Capanema, em pleno Estado Novo.

 

Lá na praia, Milton, você leva o CD… Nós ouviremos juntos na reunião de pauta tomando aquele tinto, lembra? Será impossível não dançarmos…

Uma semana, um texto: O relato e a realidade, de Diego Viana

O melhor post que li esta semana foi publicado em 26/11 e é culpa minha tê-lo conhecido apenas na última terça-feira. É de Diego Viana, meu colega de OPS, que escreve o notável Para ler sem olhar. Não é de seus melhores textos, poderia até criticá-lo por excessivamente pessoal e incompleto, mas — sei bem por quê — preparo este post no sábado às 17h30 e só consigo lembrar dele, pois várias vezes estive discutindo mentalmente com Diego desde terça. Há abordagens que são catalisadoras mesmo. Mas Diego não sabe disso. Nem imagina por quantas vicinais andei a partir de suas impressões sobre o livro de Remarque.

Para ler sem olhar é um blog de textos longos, daqueles que dizem ser inadequados à Internet; é extremamente bem escrito, daqueles raros na Internet; e às vezes é povoado de grandes e belas imagens, daquelas que também dizem ser inadequadas por consumirem banda. Mas Diego não sabe disso. Ainda bem.

Não vou copiar um post do OPS em meu blog. Para lê-lo, basta clicar sobre O relato e a realidade.

O Monólogo Amoroso (VIII)

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.

VIRGINIA WOOLF

Ricardo abre seu caderno e escreve.

Falo (ou escrevo) sério. Não esperava que Nina se mantivesse fiel a alguém que, com o tempo e a distância, se tornaria uma lembrança; não esperava que ela, como uma mocinha vitoriana, ficasse apaixonadamente aguardando enquanto seu amado não voltasse da guerra ou, no meu caso, me qualificasse e me divertisse na Itália. Também não acreditava que eu viesse a fazer muitos esforços para evitar quaisquer tentações italianas. Só que há esperas e esperas, promessas e promessas, compromissos e compromissos. Na minha visão, nesses casos há um acordo tácito mínimo de, digamos, confidencialidade e relativa sinceridade. Ou eu não deveria ficar sabendo de nada ou saberia através dela. O fato de ter sabido através de um amigo que “minha namorada” estava casada e com filho é uma quebra grave daquele acordo, não? Fiquei mais indignado do que pasmo; ou talvez fosse mais fácil ficar indignado do que fantasiar sobre a biografia de Nina após minha viagem. Trato de fingir para mim mesmo que sou indiferente, mas fui muito feliz com ela nos últimos dias de Porto Alegre. Mesmo sem planejar nada, contava com ela, queria voltar àquela intimidade. Tinha certeza de que aconteceria. E agora esta merda.

Antes de conhecê-la, observava Nina na rua, conversando nas escadas da frente de meu edifício, indo e vindo. Sua beleza doía como a de qualquer mulher que não podemos tocar. Quando a conheci, ela acabou despertando em mim não apenas aquilo que os meninos sentem mas o instinto pedagógico que sempre soube ter. Queria mostra-lhe e ensinar-lhe tudo o que conhecia e sabia, colhendo sua admiração. Seus primeiros dias em minha casa foram algo que nunca esquecerei: ela ficava por lá, toda feliz, comendo as porcarias que eu fazia e ouvindo tudo o que lhe dizia. Tinha (ou tem) um respeito que beira a devoção pela cultura. Acha que encontrará um livro, uma música ou um filme que mudará sua vida. E o procura. Era (ou é) muito inexperiente e tenho certeza de que proporcionei-lhe muitas primeiras vezes – a primeira cerveja, o primeiro vinho, o primeiro porre, o primeiro jantar a dois, o primeiro Bach, o primeiro Thomas Mann -, todas escondidas sob o guarda-chuva da primeira relação sexual. Aqueles dias não foram nada sofridos, nós naturalmente criamos uma terceira intimidade a dois. Então como não sentir-se afetado pelas notícias? É inevitável.

Mesmo incomodado, escrevia-lhe. Meu tom era o do amigo longínquo. Não sabia se deveria seguir escrevendo, mas outra coisa era inevitável. Internamente, eu seguia dialogando com Nina, narrava-lhe os acontecimentos, planejava como iria contar isso e aquilo, então de vez em quando escapava uma carta para ela. O tom era de amizade. Eliminei qualquer referências às saudades e era frio. Ela está longe de ser burra e estaria certa se interpretasse minhas novidades como um convite que pedisse: conte-me, esclareça com tuas próprias palavras o que já sei. Mas ela seguia mentindo. Perguntei a meu amigo se ele tinha certeza absoluta, se não estava enganado. Até que toquei no assunto com ela. Recebi uma resposta longuíssima e pouco convincente. O marido – um menino como ela – não interessava, era um ser remoto pelo qual não tinha nenhum apego, para não dizer amor… Como acreditar que o pai de sua filha não importava?

Então, agora, cometi o maior dos erros ao comentar com Fiorella sobre a namorada que deixara do Brasil. Ela me perguntou com a maior simplicidade como fora nosso rompimento. Eu fiquei sem história para contar. Confusamente desejei fazer um agrado à Fiorella dizendo-lhe que escrevera para o Brasil contando sobre nós, causando uma grande desilusão. Por que inventei aquilo? As datas não fechavam direito, pois não havia tempo para colocar a gravidez e o nascimento entre o dia em que a conhecera e hoje; então me atrapalhei ainda mais ao afirmando que a criança recém nascera, mas isso não fechava com o que dissera o amigo. Ela me fez um bombardeio de perguntas cujas respostas eram tão insatisfatórias que acabamos nos despedindo bruscamente. Fiz tudo errado. Por que entrei nesse assunto? Por que comecei minha tentativa de agrado pela descrição de uma triste despedida de dois apaixonados no Hemisfério Sul…? Para que ela me valorizasse, certamente. Um horror.

Perdemos algo, eu e Fiorella, aquela noite. Ainda mais que ela citou o fato de eu não ter ido ao Brasil em meus períodos de férias anteriores e que desta vez queria ir. Como é ela? Uma mulher como outras. Tens fotos dela contigo? Como responderia que não? Me mostra. Para quê? Quero conhecer, ora. Te mostro depois.

Não mostrei ainda, nem ela pediu novamente. Algumas pessoas gostam de se comparar, de sofrer com o desconhecido. Fiz tudo para melhorar o clima, tratava-a com atenção. Nada resolvia, nem suportar por horas uma ópera de Puccini no La Fenice. Hoje, Fiorella voltou ao assunto: disse que não tinha ciúmes e sabia que eu, quando retornasse em definitivo, retornaria sem ela (até porque ela não iria), mas fez questão de deixar claro que não merecia ouvir mentiras de mim.

Ele fecha o caderno.

Campeões de Tudo

Eu estou no andar de cima, depois da placa do Jornal do Comércio. Cheguei em casa às 2h45.

Em 27 meses, ganhamos todos os títulos internacionais possíveis: Libertadores, Mundial, Recopa e Sul-Americana. Temos todos os campeonatos do calendário atual brasileiro e do continente: Estadual, Copa do Brasil, Brasileiro e os já citados. Nas últimas 12 decisões, vencemos 11.

E ontem, pressentindo Nilmar, publiquei este texto no Impedimento:

Ah, antes porém, publico cópia do e-mail de Luis Felipe dos Santos, colaborador do Impedimento:

Caro Joseph Blatter,

Solicitamos por meio deste autorização para disputar outros torneios continentais, na Europa, América do Norte, África e Ásia. Como nos consagramos campeões de tudo que existe, ficou muito complicado estabelecer prioridades de agora em diante. Estamos em busca de novos horizontes, portanto, achamos que você poderia nos fazer essa cortesia.

Com carinho,
S.C.I

P.S.: não temos planos de ganhar a segunda divisão, favor não insistir.

Colorados em chamas…

Horror a intermediários

No dia 7 de novembro de 2001, saí da Feira do Livro e fui direto para o Beira-Rio. Jogavam Inter x São Paulo. Pelo Inter, entravam em campo João Gabriel; Barão, Gilmar Lima, Fábio Luciano e Wederson; Leandro Guerreiro, Carlinhos, Silvinho e Jackson; Daniel Carvalho e Luís Cláudio. Pelo São Paulo vinham Rogério Ceni; Reginaldo Araújo, Émerson, Júlio Santos e Gustavo Nery; Maldonado, Fábio Simplício, Kaká e Júlio Baptista; Luís Fabiano e França. E eu estava confiante.

Começa o jogo e o Inter, cheio de entusiasmo, parte para cima do São Paulo. Dava pena de ver. Era um banho de bola. Aí Kaká puxou um contra-ataque e cruzou para França fazer 1 x 0. Um detalhe, claro, ainda mais que no minuto seguinte Silvinho empatava o jogo e nós, os trouxas que assistíamos a partida, nos preparávamos para ver a virada. Empilhávamos chances de gol, nossos gols estavam maduros, podres até, vários deles. O primeiro tempo terminou empatado. 1 x 1.

Começou o segundo tempo e Luís Fabiano cruzou para França desempatar. Uma sacanagem, jogávamos muito melhor. Continuamos perdendo gols quando Gustavo Nery cruzou para Luís Fabiano fazer o terceiro. Mas reagimos e parecia que parte da injustiça seria sanada porque nossa pressão era irresistível. Sim, chegaríamos ao empate. Só que Gustavo Nery mandou uma bomba de longe e ficou 4 x 1. Meu deus, que bosta, que injustiça.

No dia 30 de junho de 2002, entravam em campo Brasil e Alemanha. O Brasil trazia Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos; Rivaldo e Ronaldo. A Alemanha vinha com Kahn, Linke, Ramelow, Metzelder e Frings; Hamann, Jeremies, Schneider e Bode; Neuville e Klose. Eu estava em Bento Gonçalves, curiosamente com um grupo de alemães. O jogo foi igual: o que a gente fazia aqui, eles faziam lá. Era uma partida perigosíssima, mas vocês lembram muito bem como terminou. Rivaldo, Ronaldo e Kahn fizeram a toda a diferença e os alemães discutiam entre si, dizendo que seu time igual ao nosso, só que…

É por isso que gosto dos jogadores decisivos. Você pode empilhar dez Luís Cláudios no seu time que eles não farão um Luís Fabiano. Pior, o São Paulo poderia enfiar 18 Maldonados em seu meio campo que eles não chegariam à eficiência de um França. Exagero? Claro que sim, os gregos criaram a figura da hipérbole para intensificar um fato até o inconcebível e os lógicos adoram hipérboles. Por isso, digo que 23 Rivarolas não fazem um Jardel, 34 Ramelows não criam fenômeno nenhum, 52 Edmílsons não superam um Rivaldo e 61 Baideks não fariam o que um Renato fez em Tóquio.

É por isso que gosto dos jogadores decisivos. Hoje à noite, podem estar em campo 43 Edinhos, mas os importantes serão Alex, Nilmar e Lauro, nossos caras terminais. Os goleadores, com frieza de toureiro e sangue frio de assassino esquizofrênico, são sempre os mais valiosos jogadores em campo. É por saber o momento do tiro ou por aproveitarem a passagem burra do touro descontrolado a sua frente, que vimos Romário jogar e fazer gols até os 67 anos, que vemos Túlio goleador aos 84 anos e é por isso que são tolos aqueles que criticam Alex quando ele trota em campo. Alex não jogou nada na Bombonera? Ora, não me façam rir. Na hora do cruzamento de D`Alessandro, ele estava lá fazendo o que poucos sabem fazer.

E é por isso que gosto também de grandes goleiros. O cara que fica ali não pode falhar, ainda mais num jogo decisivo. O mundo não lembrará de Kahn pelos 112 campeonatos alemães que levantou, mas nunca esquecerá que, quando Rivaldo chutou aquela bola, ele a soltou e ficou nadando no ar enquanto o matador Ronaldo Fenômeno chutava a bola para as redes com a certeza do toureiro matador que sabe que ou é o touro ou é ele mesmo (então, que seja ele!). O são-paulino mais fanático sempre lembrará de Ceni no Japão, mas nunca esquecerá que ele facilitou as coisas para Fabiano Eller naquele segundo de auto-suficiência. O colorado mais fanático sabe de seus títulos, porém sempre lembrará de Clemer como um goleiro nervoso e hesitante, sabendo que só um doido varrido esquizo alucinado e viciado terá a coragem e calma de pegar um escanteio batido por Nelinho com uma mão só, pois a outra tinha, naquele dia, escondidos sob a luva, seus dedos retorcidos novamente quebrados.

Num time campeão, até o roupeiro vence, mas só alguns são decisivos. Decisiva para a vida da batata é a mão que a planta e os dentes de quem a come. O resto são contingências. Decisivo na vida da galinha é quem a choca e minha avó que, caminhando e sem deixar de conversar comigo, pegava o bicho e, para meu horror, torcia docemente o pescoço de nosso almoço. O resto é milho, cacarejos e carregadores de pianos.

Por Milton Ribeiro.

O Dogma 95 morreu?

O movimento Dogma 95, criado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg, produziu alguns dos melhores filmes dos últimos anos. Mas a produção de von Trier não se encaixa nos rígidos conceitos do Dogma. Dançando no Escuro, por exemplo, está totalmente fora das regras, assim como Dogville e Ondas do Destino. Ele fez apenas um filme sob o Dogma: Os Idiotas. Além deste, o Dogma 95 produziu extraordinários filmes como Mifune, Festa de Família (de Vinterberg) e Italiano para Principiantes.

Eu pensei que o movimento estivesse enterradíssimo e fui fazer uma consulta. Tomei um susto ao me deparar com uma lista de 77 filmes! Isso mesmo, 77, muitos deles recentes. Esses aqui. Onde estão??? Por que não aparecem? Estariam estigmatizados pelas distribuidoras? Ou são irremediavelmente ruins?

O movimento foi fundado em 1995 em Copenhagen e via o cinema como arte coletiva. Qualquer um poderia fazer um filme, pois o Dogma visava varrer de seus produtos toda “tempestade tecnológica”, representada por efeitos especiais, trilha sonora, iluminação, etc. Considerava que o cinema tornara-se algo artificial e apresentava um ESTATUTO OBRIGATÓRIO chamado “Voto de Castidade”. E, em seu manifesto, perguntava: é disto que nos orgulhamos? É a este resultado que nos conduziram cem anos de cinema? Das ilusões para comunicar as emoções? Uma série de enganos escolhidos por cada cineasta individualmente? Para o Dogma 95, o filme não é ilusão!

Como sempre há controvérsias acerca de quais seriam os cânones do Dogma e porque sinto saudades dos estranhos filmes produzidos sob o Dogma, transcrevo abaixo o surpreendente “Voto”.

Voto de Castidade

1. As filmagens devem ser feitas em locais externos. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá, portanto, ser utilizada, a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há luz demais, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).

5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Em nenhum caso homicídios, uso de armas ou outros).

7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (Isto significa que o filme se desenvolve em tempo real).

8. São inaceitáveis os filmes de gênero.

9. O filme deve ser em 35 mm, standard.

10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Copenhagen, 13 de março de 1995
Em nome do Dogma 95,
Lars von Trier

Sim, era uma maluquice. Mas os primeiros produtos do Dogma eram tão bons, realistas e contavam com tão boas histórias que fico curioso a respeito dos outros filmes. Na época, lembro ter pensado que talvez o “Voto” fosse uma saída para cineastas de países pobres como o Brasil, mas não aconteceu nada. Nosso cinema sem roteiristas sonha com o Oscar, antes mesmo de ter conquistado o público brasileiro… Mas isso já é outra história.

Atualização das 8h59 (comentário de Claudia Antonini):

Milton Luiz, my dear.

Já são 338 filmes segundo o site oficial do Dogma, não 77. Fui ver se havia alguma forma de distribuição e me deparei com este número surpreendente. Porque não chega nada??? Sei lá, uma pena mesmo. Ameeeeei “Italiano para Principiantes”.

Fui, é claro, ler e vi que tem inúmeros representantes italianos (eu sei que o filme acima nada tem a que ver com isso, que é dinamarquês), cinco argentinos e até um – único e solitário – representante brasileiro:

Dogme #209: Manter Vigilante (Brazil)
Directed and produced by J. Gabriel
Rua Santa Sofia 221/102 – RJ/RJ 20540-090 – Brazil
Phone: (21)2567-2438 – Mail: jgm.pontes@ig.com.br

Agora vou tentar descobrir como ter acesso.

Beijos.

O Animal Agonizante, de Philip Roth x Fatal, de Isabel Coixet

Foi uma curiosa experiência ter visto primeiro o filme Fatal (Elegy) para na semana seguinte ler o livro no qual se baseia, O Animal Agonizante (The Dying Animal). Como seria de se esperar, eles contam a mesma história, mas colocam seus focos narrativos em pontos diferentes.

A situação é simples: o professor aposentado David Kepesh, de 62 anos, vive sozinho colecionando casos amorosos. Dentre eles, há um gênero de encontro que se repete. Ele sempre escolhe uma de suas alunas num curso quinzenal que ministra anualmente. Tais casos sempre começam na festa que oferece em sua casa no último dia de aula. Num desses cursos, ele encontra a belíssima Consuela Castillo, de 24 anos, que se transformará numa obsessão para o velho professor.

No livro, Roth preocupa-se principalmente com a sexualidade dos personagens. O velho fauno Kepesh fica absolutamente transtornado pela beleza e juventude da moça e Roth analisa de sua forma habitual — direta e visceral — não apenas sua sexualidade como a de seu país. Há um interessante paralelo entre o medo fóbico de separação de que sofre seu filho contra a noção de separação como libertação, defendida algo cinicamente por Kepesh. A virada final do livro dá-se quando, anos após a separação involuntária porém previsível — e que causa inédito e ENORME sofrimento ao professor –, Consuelo reaparece doente.

Trechos:

A vida de casal e a vida em família ressaltam o lado infantil de todas as pessoas envolvidas. Por que é que eles têm de dormir noite após noite na mesma cama. Por que é que precisam telefonar um para o outro cinco vezes ao dia? Por que é que tem de estar sempre um com o outro?

(…)

Sexo não é só atrito e diversão superficial. É também a maneira como nos vingamos da morte. Não se esqueça da morte. Não se esqueça da morte jamais.

(…)

… (na cidade) onde entrei na adolescência nos anos 40, só se podia ter uma relação sexual consensual com uma prostituta ou então com a garota que se namorava desde menino e que todos imaginavam que fosse acabar se casando com você.

(…)

— Por que não é legal com eles? — Eles só sabem se masturbar em cima do meu corpo. — Isso é lamentável. É uma burrice. É uma loucura.

(…)

As primeiras vezes em que me chupou, Consuela sacudia a cabeça com uma rapidez implacável, tá-tá-tá — era impossível não gozar muito antes do que eu pretendia, mas então, no momento em que eu começava a ejacular, ela parava de repente e recebia o jato como se fosse um ralo aberto. Era como gozar dentro de uma cesta de papéis. Ninguém jamais havia dito a ela para não parar naquela hora. Nenhum dos cinco namorados anteriores tinha ousado lhe dizer isto. Eram jovens demais. Eram da idade dela. Já estavam mais do que satisfeitos de estar conseguindo aquilo.

Obviamente, o segundo tema do livro é a velhice, o profundo ciúme e as fantasias causadas pelo mundo desconhecido, jovem e inatingível de Consuela em Kepesh.

E é isto que Isabel Coixet desloca para o cerne de seu filme. Não que ela tenha admitido um relato mais superficial, ela apenas o trouxe para o cinema: saíram as longas digressões sobre sexo e entrou o embate entre maturidade e juventude. Num filme que conta com atuações esplêndidas de Ben Kingsley e Penélope Cruz, Coixet realiza um grande filme acerca da finitude do ser humano. Kingsley, em atuação não menos que genial, é extremamente sedutor, mas quando conhece Consuela, sua idade e a idéia de seu fim próximo cai-lhe sobre a cabeça como uma injustiça. No filme, o sofrimento do professor Kepesh torna-o humano e o retorno de Consuela tem o efeito de torná-lo solidário. Não, não pense que o filme é moralizante, longe disso, é um filme tristíssimo sobre a degradação do corpo e de como o cérebro segue impondo suas demandas por vida e amor, ignorando a passagem do tempo.

Acho que a espanhola Coixet — grande diretora para a qual já babei em A Vida Secreta das Palavras –, deveria ter repetido o livro na cena do chapéu de Consuela, mas ela ou seus produtores não quiseram chocar um público tão delicado quanto o americano. Penso que seria uma cena absolutamente desconcertante e necessária ao relato, mas sabem como é, poderia diminuir a bilheteria…

Uma semana, um texto: Os ateus se fazem fortes, de Abel Grau

Os não crentes se organizam para frear a beligerância das religiões e seu poder sobre o Estado – suas campanhas publicitárias recebem generosas doações e aumentam os pedidos pela apostasia.

O melhor texto que li esta semana saiu no El Pais de segunda-feira e me foi enviado pela amiga Helen Osório.

Los ateos se hacen fuertes

Reportagem de Abel Grau.

“Probablemente no hay dios, así que deja de preocuparte y disfruta de la vida”. Este eslogan lucirá en los autobuses de Londres a mediados de enero. Se trata de la primera campaña ateísta en Reino Unido financiada con donaciones de contribuyentes anónimos. Y ha sido un éxito. Preveían recaudar 5.500 libras (6.500 euros) y en tan sólo dos días reunieron 10 veces más. No es algo aislado. Esta semana se ha puesto en marcha una iniciativa similar en Washington. Los ensayos que arremeten contra la religión se convierten en superventas y, en España, aumentan las solicitudes de apostasía. Parece que la hora de los no creyentes ha llegado. ¿Está el ateísmo tomando una nueva conciencia más activa en la sociedad?

No es fácil confesar que uno es ateo, es decir, que niega la existencia de Dios, según señala el biólogo Richard Dawkins, conocido como el rottweiler de Darwin por su férrea defensa de la teoría evolucionista. “La situación de los ateos hoy en día en América es comparable a la de los homosexuales 50 años atrás”, escribe Dawkins en el ensayo El espejismo de Dios (Espasa Calpe), que ha vendido 1,5 millones de ejemplares. “Los ateos son mucho más numerosos, sobre todo entre la élite educada, de lo que muchos creen”, prosigue. El problema es que, a diferencia de otros grupos religiosos, no están organizados. “Un buen primer paso podría ser generar una masa crítica con aquellos que desean salir a la luz y así animar a otros a hacer lo mismo. Pueden hacer mucho ruido”.

Ruido considerable es el que ha conseguido la citada campaña del autobús ateísta británico. La gestiona la British Humanist Association -una organización que promueve acabar con la privilegiada posición de la religión en la ley, la educación y los medios de comunicación- a través de la web www.justgiving.com/atheistbus. Su patrocinador más ilustre es el propio Dawkins. Iniciada el 21 de octubre, se propuso recaudar 5.500 libras (6.500 euros, el coste de un mes de los anuncios en 30 autobuses) y sólo necesitó dos horas para conseguirlos. En dos días, ya tenían 58.900. La cuenta ya va por 143.200 euros.

“Los donantes sienten que no tienen voz, que el Gobierno y la sociedad presta demasiada atención a la religión y a sus líderes, mientras que a los que no son religiosos se les ignora”, señala desde la capital británica Hanne Stinson, directora de la British Humanist Association. Al otro lado del Atlántico, la American Humanist Association ya ha organizado una campaña similar para los autobuses de Washington con el lema ¿Por qué creer en un dios? Sé bueno por la propia bondad. Se puso en marcha la semana pasada con una previsión de 200 autobuses (www.whybelieveinagod.org). En España, la Unión de Ateos y Librepensadores estudia unirse a la campaña.”Aunque las condiciones en España no son las mismas que en el mundo anglosajón, donde las alternativas de ateos y agnósticos son mucho mas respetadas, y su prestigio social es consecuencia de su permanente presencia en el mundo de las ideas”, señala la asociación en su web, ateos.org.

Este nuevo ateísmo también ha irrumpido en las librerías. Una ilustre alineación de científicos e intelectuales ha emprendido la batalla dialéctica a gran escala contra la religión. Sus ensayos se han convertido en superventas. En El espejismo de Dios (10.000 ejemplares vendidos en España), Dawkins expone su hipótesis de que Dios no existe, sostiene que no necesitamos la religión para ser morales y que podemos explicar las raíces de la religión y la moralidad en términos no religiosos. El ensayista Christopher Hitchens argumenta en Dios no es bueno (Debate) que la religión da una explicación errónea del origen del ser humano y del cosmos, que causa una peligrosa represión sexual y que se basa en ilusiones. Ha vendido cerca de 150.000 ejemplares en Reino Unido y 12.000 en España. En EE UU, el filósofo Sam Harris, autor de The end of faith (W.W. Norton) pone de vuelta y media a las grandes confesiones: el judaísmo, el cristianismo y el islam. Las tacha de locuras socialmente aprobadas, cuyos credos son irracionales, arcaicos y mutuamente incompatibles (200.000 vendidos).

En Italia, el matemático Piergiorgio Odifreddi ha escrito ¿Por qué no podemos ser cristianos? (RBA), que ha colocado 200.000 ejemplares en su país. En Francia, Michael Onfray se situó en 2005 entre los más vendidos con Tratado de Ateología (Anagrama), un alegato a favor del pensamiento hedonista y contra la religión. Vendió 209.700 ejemplares. Las cifras parecen indicar que aumenta el interés por la crítica a las religiones. Odifreddi, aun así, es cauto: “Hay una buena parte de la población que valora la razón y la ciencia, pero es una minoría sin mucho acceso a los medios de comunicación”.

La razón de este nuevo movimiento está, irónicamente, en los propios fundamentalistas religiosos, según sostienen varios especialistas. “La beligerancia de las religiones lleva a la gente a tocar a rebato”, explica el teólogo de la Universidad Carlos III Juan José Tamayo. “Las religiones han despertado de un modo social y culturalmente agresivo, porque reclaman una presencia en el espacio público; quieren intervenir en la vida privada y tener un peso político. En definitiva, quieren que los Estados sean confesionales”. Una idea con la que coincide el filósofo Reyes Mate, profesor del Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC): “La crítica a la religión resurge cada vez que la religión se quiere convertir en principio moral de la democracia”.

Cuando se habla de integrismo se suele pensar en los países musulmanes, pero también se encuentra en el corazón de Occidente. “Pienso en Estados Unidos”, sigue el teólogo Tamayo. “En la campaña electoral de 2004, entre John Kerry y George W. Bush, la politización de la religión fue notable: los dos candidatos recordaban constantemente que creían en Dios”. Es el caso, por ejemplo, de las escuelas de algunas zonas de Estados Unidos que quieren introducir en las aulas la enseñanza del creacionismo y del diseño inteligente (que equivale a la interpretación literal de la Biblia). Los líderes religiosos occidentales, como el papa Benedicto XVI, o los grupos evangélicos en EE UU, pretenden influir en la política porque “consideran que necesita una legitimación religiosa”, señala Tamayo. Además exigen “que la ética se fundamente en un ser trascendente, ya que no reconocen a los políticos como guías morales”, e imponen que los textos sagrados, que son míticos y simbólicos, sean considerados como histórica y científicamente válidos.

Esa intervención de la religión en la vida privada es la que pidió el cardenal Antonio María Rouco Varela, presidente de la Conferencia Episcopal Española, en octubre en el sínodo de los obispos de Roma. Criticó el laicismo, es decir, que las personas, la sociedad y, sobre todo, el Estado, sean independientes de cualquier organización o confesión religiosa. Lo dejó claro: “El Estado moderno, en su versión laicista radical, desembocó en el siglo XX en las formas totalitarias del comunismo soviético y del nacional-socialismo”. Por eso llama a que la Iglesia participe en la vida privada e incluso en los debates legislativos.

Muchos ciudadanos en España han reaccionado. Las solicitudes de apostasía en los seis primeros meses de 2008 han sido 529, lo que supera a las de todo 2007 (287) y a las de 2006 (47), según la Agencia Española de Protección de Datos. El Ayuntamiento de Rivas, en Madrid, abrió en marzo una oficina para facilitar los trámites de apostasía. En menos de un mes recibió más de 1.100 consultas de toda España. Entre los principales motivos: la reelección de Rouco como presidente de la Conferencia Episcopal. Y no son sólo las apostasías. La práctica religiosa también desciende. Si en 1998 los españoles que se consideraban católicos eran el 83,5%, 10 años después son el 78%, según el barómetro de enero de 2008 del Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS).

Las cifras, sin embargo, podrían quedarse cortas. “Ese 78% que dice que es católico, lo es por el bautismo y otros símbolos introducidos en la infancia”, señala el teólogo Tamayo. “Esa educación puede que continúe o que se interrumpa y dé lugar a la apostasía o a la indiferencia, que es el fenómeno mayoritario”, añade. Los datos se elevan entre los jóvenes. El 46% de los chicos entre 15 y 24 años se consideran agnósticos, ateos o indiferentes, según un informe de la Fundación Santamaría de 2005 (en 1994, eran el 22%). El 39% se define como católico no practicante y tan sólo el 10%, como católico practicante. Las razones del descenso: la “impopular” postura de la Iglesia “en temas como la ley que regula el matrimonio homosexual, el aborto o la sexualidad”, según uno de los autores del informe, el sociólogo Juan González-Anleo.

Este nuevo ateísmo lucha contra la religión en la arena dialéctica. “Esa hostilidad que yo y otros ateos expresamos ocasionalmente contra la religión está limitada a las palabras. No voy a poner una bomba a nadie, ni a decapitarlo, ni a lapidarlo, ni a quemarlo en la hoguera ni a crucificarlo ni a estrellar aviones contra sus rascacielos”, escribe Dawkins. De hecho, el propio lema del bus ateísta británico se aleja del dogmatismo. El probablemente reconoce que igual que no hay pruebas de la existencia de Dios, tampoco las hay de lo contrario. “No es necesario mantener una relación hosca con la religión”, considera el filósofo Jesús Mosterín, miembro del CSIC. “Se puede conservar sin creérsela pero con curiosidad y simpatía, como una tradición folclórica más”. Eso sí, aunque dialéctica, es una batalla sin cuartel.

La crítica a la religión es antigua pero, sobre todo desde el siglo XIX, cuenta con una aliada crucial: la ciencia. Así lo ha expuesto el premio Nobel de física estadounidense Steven Weinberg en The New York Review of Books: “Creo que entre la ciencia y la religión existe, si no una incompatibilidad, por lo menos lo que la filósofa Susan Haack ha llamado una tensión, que gradualmente ha ido debilitando la creencia religiosa, especialmente en Occidente, donde la ciencia ha avanzado más”. La ciencia, enumera el Nobel, explica mejor el funcionamiento del mundo que la religión y refuta el papel del hombre como protagonista de la creación. Otro de los físicos más prestigiosos del mundo, Stephen Hawking, lo suscribe: Las leyes por las que se rige el universo “no dejan mucho espacio para milagros ni para Dios”.

Ciencia y religión no pueden convivir en paz, añade el matemático Odifreddi. “La ciencia acepta verdades basadas en confirmaciones empíricas y deducciones matemáticas y lógicas. La religión, al menos la católica, se refiere a un libro de hace 2.000 años y a pronunciamientos dogmáticos de concilios y del Papa. Es difícil imaginar métodos más opuestos”.

Pero ¿podemos vivir sin Dios? La respuesta de los científicos, filósofos y teólogos no es unánime. El Nobel Weinberg confiesa que no es fácil no creer, pero está convencido de que la creencia declina inevitablemente en Occidente. Y añade que aunque las prácticas religiosas se mantengan durante siglos, no está tan seguro de que la creencia perviva. “Hay que distinguir la religión, que es construcción social, de la experiencia religiosa, que es personal”, matiza Tamayo. “Las iglesias son instituciones, con un atractivo político y social, que incluso hoy pocas veces implican creencias profundas”, añade Odifreddi, “por lo que pueden sobrevivir aunque la fe languidezca”. “En el futuro seguiremos creyendo, porque lo llevamos de fábrica”, argumenta el físico Jorge Wagensberg. “La psicología del desarrollo, la antropología cognitiva y la neurociencia señalan que evolutivamente estamos programados para creer”.

Otros están convencidos de que la ciencia es la respuesta. “¡Todos creemos en algo!”, concede el matemático Odifreddi. “La cuestión es qué debemos creer; yo creo que la ciencia puede ofrecer incluso una concepción espiritual del mundo, al mostrar cómo tras el aparente caos del cosmos descansa un orden profundo”. Su conclusión es clara: “La ciencia es hoy la religión verdadera, mientras que la vieja religión es sólo superstición. Así que si alguien quiere creer en algo, puede creer en la ciencia y su manera de ver el mundo”.

O Monólogo Amoroso (VII)

Ela, bem humorada, liga o gravador e prossegue seu monólogo para a filha.

Obviamente minha resposta não fora planejada mas teve um inesperado efeito de cisão: meus pais me apoiaram. Aquilo comprovaria que, para eles, eu era imatura para ter uma vida em comum com meu marido? Que eles me queriam próxima por acharem que eu seria nova demais para um afastamento da família? Teus avós nos amariam a ponto de verem minha resistência como um argumento para seguirem vivendo com sua filha e neta? Ou será que suas exigências morais já tinham sido satisfeitas pela recusa ao aborto e posterior casamento e julgavam que unir um casal sem futuro seria uma demasia? Na época, eu não pensava nas motivações deles, estava encantada demais por finalmente ter obtido apoio. Minha mãe defendeu que eu iria morar com Raul quando e se desejasse e a sogra ficou de tal maneira atônita com a súbita deserção que começou a discursar que eu era pessoa difícil, suscetível a crises passageiras e com a qual havia que se ter paciência. Seria uma questão de tempo, ela tinha certeza de que eu acabaria me mudando contigo para o apartamento a ser alugado. Tudo bem.

Algo havia se movimentado em minha circunstância e eu não tinha notado. Era casada, mas estava mãe solteira com a concordância de meus pais. E os amigos? Alguns me olhavam ainda como se minha existência fosse moralmente reprovável; na faculdade, outros ficavam desconcertados quando eu dizia que era uma mulher casada com filhos… Preocupava-me neuroticamente em obter a aceitação do mundo e agora recebia de graça a aceitação em casa. Bom, devia ser assim mesmo. É claro que viver com Raul significava uma situação de casamento real e, teoricamente, a aceitação de todos ficaria mais simples, principalmente em relação a nós duas. Sim, do ponto de vista social, as coisas seriam mais fáceis se vivesse com Raul; só que viver com ele era tudo o que eu não desejava e meus pais deviam ter entendido aquilo. Talvez eu tivesse feito um acordo tácito com eles, sei lá. Deves estar te perguntando porque eu não rompia logo com ele. Não sei te responder, não sei o motivo de minha opção por aquela resistência silenciosa. Medo? Timidez? Vês?, não sabia nada. Teu pai, agora ofendido, dormia mais vezes na casa de sua mãe do que conosco e passara a me cobrar abertamente que eu decidisse logo residir com ele, num apartamento que seria alugado perto dali, que seu pai seria o fiador, etc. Eu lhe respondia que não queria, mas não dizia o motivo. A insistência foi tanta que um dia ele conseguiu que eu chegasse ao paroxismo de afirmar que o via como um amigo com o qual tivera, casualmente, uma filha. OK, não foi um grande paroxismo, mas foi o que consegui ter.

Sou lenta e difícil. Sabes o quanto demoro para escolher um sapato, imagine então para tomar decisões importantes que magoem pessoas. Ele perguntou se aquilo equivalia ao rompimento e eu respondi que não, claro que não, que ele devia deixar era a vida seguir. Convivia contigo, com minha mãe, com Márcia, e estudava. Foi neste período que notei o quanto podia ser atraente para determinado gênero de homens. Uma mãe “meio solteira” e jovem era alguém que tinha um bom potencial sexual. Houve um que, subitamente, na praça, com outras mães por perto e enquanto brincavas na caixa de areia, pegou minha mão perguntando se não me sentia solitária. Não era necessário muito respeito por mim. Às vezes, ao fazer compras no supermercado, era subitamente abordada. Do nada, perguntavam se eu já tinha utilizado tal produto ou se já comera tal guloseima; daí, elogiavam meus olhos ou falavam que não tinham notado antes que dirigiam a palavra a uma beldade. E iam adiante. O que me fazia rir lá fora era motivo para lágrimas em meu travesseiro.

Enquanto isso, estranhava o silêncio de Ricardo àquelas cartas em que despejava toda minha biografia recente. Escrevi-lhe novamente, agora sobre os últimos acontecimentos e um pouco sobre a faculdade. Tempos depois, recebi uma imensa carta que continha muitas histórias suas. Porém era uma carta impessoal, ignorando o que lhe havia contado; falava apenas e exclusivamente de si. Uma reportagem irritante. Li de novo. Não narrava apenas as histórias em que brilhava, contava também seus fracassos em Veneza. Dizia que, quando voltasse ao Brasil, tinha boas chances de obter colocação no naipe de violinos de alguma sinfônica, mas que seu nível era insuficiente para permanecer na Europa. Li de novo. Ficava desconcertada pelo fato de haver recebido folhas e folhas de informações sobre acontecimentos pessoais ou musicais e nenhuma linha acerca de “meus assuntos”. Porém, se ficava triste por isto, sabia que ele tinha sentado e trabalhado horas redigindo aquela longa carta só para mim e que isto tinha de ser considerado. Mais uma vez. Tantas folhas serviam para que ele sufocasse os acontecimentos que eu lhe contara e sentia-me deprimida; concluía que ele ficara com pena de mim e sentia-me mal novamente; ou imaginava seus cuidados para não mandar uma palavra de carinho a alguém que inevitavelmente ficaria apaixonada e planejava um suicídio; raras vezes, entretanto, achava que estava recebendo atenção. Atenção sem nenhuma qualidade, mas ainda assim atenção. Em quaisquer dos casos, o resultado eram mais lágrimas noturnas.

Escrevi-lhe de volta. Deu-me o maior trabalho. Se não superava a dele em tamanho, minha alentada réplica procurava intencionalmente misturar tudo. Sua música, minha falta de música; a vida em Veneza, minhas leituras; seu retorno, minha situação; suas piadas de músico, minhas mancadas de jovem mãe; seu doutorado, minha faculdade, etc. Talvez tenha sido o texto que mais me esforcei por escrever em toda minha vida: havia objetividade, brincadeiras, vida pessoal; mas principalmente minha aspiração de que ele percebesse o quanto tinha de saudade e um pedido de socorro. Acho que quem lesse aquela coisa intricada e bem-humorada, dificilmente concluiria que, ao fim e ao cabo, tratava-se simplesmente de uma tentativa de sedução.

Naquela época, as cartas do exterior levavam semanas para chegar e a resposta demorou mais de um mês. E chegou na forma de outro catatau. Desta vez, ele não recuava, acabando por considerar “meus assuntos”. Mas era muito superficial, bem como eu não desejava. Sua abordagem era de modo a não me ofender e seu evidente desconhecimento sobre a vida e os esforços despendidos por uma mãe mostravam quão longe de sua perspectiva estava a convivência com uma criança pequena. Aquilo deixou-me deprimida e meu travesseiro voltou a ficar úmido. Só que, inesperadamente, três dias depois, chegou outra. Esta dizia que, no período de Natal e ano novo, viria para Porto Alegre. Passaria um mês na cidade antes de voltar para seu último ano de curso em Veneza. Estávamos na primavera.

Para meus padrões habitualmente contidos, fiquei em estado de total alegria. Sorria eufórica para o mundo. Mas também pensava, tensa, em como seria nosso encontro.

Ruborizada, como se estivesse revivendo aqueles momentos, vira-se com dificuldade na cama e desliga o gravador.

A batalha de La Plata


Ah, que equipazo el inter!! por dios!! mejor que aquel campeón de America inclusive… imparables, e impasables.

O primeiro e-mail do Sr. 1:

Miltão,

estaremos, todo o STAFF colorado, assistindo a Inter e Estudiantes Boca no bar X. Trata-se de um bar sujo, fétido e mal-freqüentado, mas de muita personalidade. Fica na Rua Y, quase esquina com a Z (rua do lado da Igreja tal). Estaremos por lá a partir das 21h45.

A resposta do Sr. 2:

Creio que verei o jogo em casa. Ando precisando ECONOMIZAR um pouco.

O Sr. 1 retorna:

Eu acho temerário não ver o jogo na Estância de Dom A., sempre ganhamos lá, mas tudo bem. Aliás, 2, posso cobrir.

Eu escrevo para os dois:

Eu tb posso dar cobertura financeira… O 1 dá a outra.

O Sr. 2 torna-se épico:

2 a 1 para o Colorado. Será interrompida a seqüência de 43 jogos invictos do Estudiantes em seu estádio e mais um “copero” rastejará diante do gigante de armadura vermelha.

Cada vez mais percebo que me torno uma pessoa extremamente VOLÚVEL quando o assunto é convite para bares. Pois então vamo-nos embora pinchar aquelas ratazanas.

Já estou com uma sede enlouquecedora.

ahuahah

Abraços.

Fomos. Resultado: Estudiantes 0 x 1 Inter

Saio cedo, logo após a partida, à meia-noite. Acordo às 6h30.

Novo e-mail do do Sr. 2:

Eu tento, eu vou atrás dos times COPEROS, mas todos eles querem até a morte se abaixar pra chupar a GLANDE VERMELHA. Continuaremos, sempre e sempre, buscando uma CHINA mais difícil.

Gazela, cabrita, RATAZANA, é tudo a mesma merda.

E DÁ-LHE COLORADO!

Chamas profundas, trago infinito.

Se ganhar a Sul-Americana, o Inter terá conquistado, em 27 meses, todos os títulos internacionais da FIFA possíveis a um suda (*): Libertadores, Mundial, Recopa e Sul-Americana. Das 11 últimas finais que disputamos, vencemos 10. A única exceção foi o Campeonato Gaúcho de 2006, perdido para o Grêmio.

Não dava para escrever muito. Ainda bem que o Monólogo de toda sexta-feira já está escrito, formatado e agendado. Agora, ao trabalho!

(*) Suda: do espanhol “sudamericano”.