Disparate acadêmico

Ele era um sujeito correto. Nos jantares com amigos, em hipótese alguma pegava o dinheiro dos outros, pagando toda a conta com seu cartão de crédito em data mais vantajosa. Uma vez, para agilizar o pagamento num restaurante lotado, ele pegou um cheque de Bruno e fez o pagamento com cartão, porém, ao ser questionado dias depois sobre o motivo de não ter feito o depósito, respondeu:

— Só vou depositar teu cheque no data de vencimento do meu cartão, claro.

Quando o jantar era em sua casa e algum convidado trazia-lhe uma garrafa de vinho, ele ou a abria logo ou esperava pela próxima oportunidade em que o comensal voltasse. Fazia questão de dividir a garrafa com quem havia lhe dado. Enfim, um gentleman.

Era médico, clínico geral, casado com uma médica da mesma inespecialidade. Trabalhavam muito. Bruno conhecia-os através de sua mulher, também médica, só que urologista. O detalhe é que esta detestava trabalhar. Plantões e chamadas noturnas não eram fatos aceitáveis em sua vida. Então, procurou a tranqüila vida acadêmica desde o início da carreira. Aos pacientes, preferia alunos e pesquisa. Mais fácil.

Então houve um concurso para a Universidade. Bruno, leigo naqueles assuntos, ficou de fora enquanto os três estudavam e se divertiam. As tardes de estudo acabavam em mais jantares, pois a mulher do médico era uma espécie de Babette e, como sói acontecer, as Babettes são generosas. Bruno costumava chegar neste momento e, quando voltava para casa com sua mulher, ela elogiava fartamente o conhecimento, a capacidade e a experiência do casal. Estava aprendendo muito com eles.

Fizeram o concurso e, por uma anedota do destino, os três classificaram-se em posições intermediárias e consecutivas: primeiro a mulher do médico e depois a mulher de Bruno, seguida do médico. Talvez não fossem chamados. O concurso tinha validade de dois anos e eles dependiam de demasiados óbitos e aposentadorias.

Os dois anos estavam passando, alguns médicos-acadêmicos foram publicados no necrológio e outros penduraram os jalecos, mas a fila andava muito lentamente para as necessidades do trio. A angústia era grande, principalmente para a mulher de Bruno, que considerava o concurso fundamental para sua carreira. No final do prazo, houve uma súbita aceleração e a mulher do médico foi chamada perto do prazo fatal. Ela comemorou moderadamente ou, para ser mais exato, privadamente. Enquanto isso, a mulher de Bruno via com desespero os dias esvairem-se sem nada acontecer, ao menos sob sua perspectiva. Mais dez dias e o concurso se tornaria inválido. Ela começou a suplicar para todos os outros professores. Era uma injustiça, logo ela, tinha que entrar, o momento era aquele, queria dedicar-se inteiramente à vida acadêmica. Tinha que.

Convenceu o chefe do departamento que seria importante obter mais um professor para a urologia e ele foi ao Ministério de Educação em Brasília reivindicar a vaga. Contou tal fato para o amigo médico, que lhe pediu uma “força”, uma ajuda. Ela ponderou e decidiu que não era adequado pôr em risco uma vaga que ainda nem existia.

A vaga foi obtida no último dia. E ela telefonou para a mulher do médico:

— O Afonso conseguiu a vaga para mim!
— É mesmo?
— Sim, legal né? Meu Deus, que alívio!
— E o Carlos?
— Olha, eu pedi muito mas não deu.

E seguiram explicações mais circunstanciadas até que a mulher de Bruno comentou — sabe-se lá de onde tirou aquela idéia — isto:

— Sabe que Richard Strauss, o compositor, afirmava que conhecia muito mais teoria, orquestração e prática musical do que Sibelius, mas tinha consciência de que Sibelius era um compositor muito superior? Considerava que era uma questão de talento.

Aquele comentário gratuito fez a mulher do médico silenciar e a conversa morreu estranha.

No dia seguinte, a mulher de Bruno cruzou com o amigo no corredor do hospital. Ele não esperou nenhum cumprimento.

— Aproveitadora! Te ensinei tudo o que sabia sem restrições, passei anos trabalhando para que depois tu aceitasse tua vaga com a maior naturalidade, sem impor condições. Isso foi uma traição para quem te ajudou! Não tentaste fazer nada por mim, sua parasita repugnante arrivista!

A mulher de Bruno chorou dias e dias. Bruno a consolava e refletia sobre o comentário infeliz da mulher e sobre o auxílio solicitado. Ela lhe garantiu: fizera o pedido.

— Tu acredita em mim, né?

Poupou-a de sua opinião. Com o tempo, ela passou a dizer que o ex-amigo era um grosseiro mal-educado e desenvolveu a convicção interna de ter sido injustiçada por ele. Mas cruzava bastante com a mulher do médico no hospital. Fazia teorias. Dizia que eles tinham vergonha dela. Evitavam-na por conta da injúria cometida contra ela. Sentia-se coberta de razão.

Obviamente, os casais nunca superaram o episódio.

Disparate na antesala

Marcos a viu e disse:

– Meu Deus, que horror. Tua ex-mulher está vivendo uma nova juventude tribufu.
– É, não sei o que houve – respondeu Quim.
– Será que ela passou o fim de semana enfaixada?
– Sei lá, acho que ela grudou esparadrapos nas sobrancelhas e arrancou. Mas o que me impressiona…
– O que é?
– Aquela franja mais clara, que deixa o cabelo degradê.
– Horrível.
– Parece um bibelô esquecido numa penteadeira de bruxa.
– Hahahaha… Não, acho que é Koleston em excesso.

Quim observou o amigo com falsa admiração.

– Não esquece que já namorei uma cabelereira – defendeu-se Marcos.
– Tu entende dessa porra?
– Minha mãe dizia que Koleston dava ferida no couro cabeludo.
– Hahahaha…, parece que foi o caso.
– Já pensou a meladeira que ela fez na toalha e no pescoço?
– Não, ela vai no institute.
– Aquilo é Koleston mechas… Hahahaha… O cabelo dela está cor de manga.
– Não diga. É mesmo! Não quero olhar muito. Acho que ela usou Koleston manchas.
– E ela lutou com aquela sobrancelha. Está uma mais grossa do que a que não existe. Por isso, ela jogou aquela franja em cima, mas como a pele dela é oleosa, cheia de furinhos e brilha, não adianta porra nenhuma.
– Hahahaha… É a superfície lunar encerada.
– A sobrancelha que falta deve ter aqueles toquinhos que vão nascendo. Isso por baixo do lápis que passou desesperadamente.
– Hahahaha… Como é que tu conhece tudo isso?
– Ela parece um pica-pau.
– Pica e pau são sinônimos.
– E tu comeste aquilo.
– E tu uma cabelereira.
– Tri-gostosa.
– É, tu ganha. Nem posso invocar a inteligência de minha ex. E a advogada dela? A altona.
– É uma fera. Quando se separou, fez dividirem até os copos e os faqueiros. Olha o jeito que ela olha para o barbudo!
– Saudades da vida sexual?
– Sim, de uma vida sexual que nunca teve. Nada meiga, a coitada.
– Quando fala, parece a Mônica Leal.
– E a tua, chovia granizo quando nasceu.
– Hahahaha… Que duplinha dureza.
– Tenho certeza que tua mulher usa cremes manipulados fora do prazo de validade.
– Para combinar com o Koleston manchas? Hahahaha… Fale-me da roupa dela… da roupa.
– Ela não sabe a idade que tem, pensa ter vinte anos. Mas há um detalhe… Ela tem dois joelhos em cada perna.
– Como?
– Perna magra, joelhão, perna magra, panturrilha de fisioculturista, totalmente anormal mas que ela deve amar…
– E gosta mesmo!
– Viste? Meias pretas, saia curta demais. Mostra as pernas demais… Que são finas.
– E daí?
– Olhe o diâmetro da barriga pouco mais acima.
– Parece Mr. Pickwick de saias. Quatro joelhos.
– Olha, estão te chamando.

Fantasma sai de cena, de Philip Roth

fantasma_sai_de_cena_200_repAos 71 anos, Nathan Zuckerman pode estar impotente, pode estar usando fraldas para conter a incontinência urinária — resultante de uma operação para a retirada de um câncer de próstata –, sua memória pode estar falhando, porém os livros do dono do alter ego permanecem esplêndidos, mesmo que não chegue ao nível dos anteriores. Em Fantasma sai de cena, novo livro de Roth, parece haver como nunca uma separação entre Roth e Zuckerman. Enquanto este vê sua memória falhar e sua obra decair, aquele nos chega com uma prosa exata e fluente, colocando-nos situações cheias de significados. Têm razão aqueles que apontam certa despretensão neste livro, mas a qualidade de Roth para discutir sem o menor receio fatos temidos pela maioria dos autores basta para distingui-lo da enorme massa de vulgaridade da literatura atual.

E quais seriam estes fatos? Ora, a “rebelião fisiológica” da velhice, a inveja da juventude, o desinteresse pelo mundo.

Após longo período de retiro voluntário, Zuckerman volta à Nova Iorque a fim de tratar sua incontinência. Negocia com um jovem casal uma troca temporária de residência. Ele ficaria em Nova Iorque e eles passariam um ano no exílio de Nathan. Porém, paradoxalmente a sua situação urológica, ele apaixona-se como um menino pela inatingível mulher do casal, Jamie. Ela é linda, tem 32 anos e é uma aspirante — ainda sem obras — a escritora. Nathan, apesar de abordá-la de forma um tanto patética, refugia-se na fantasia para dar alguma forma àquela relação impossível. O contraponto à Jamie é dado por Amy, ex-mulher de seu tutor literário Lonoff, a qual procura recuperar-se de um câncer no cérebro. Amy, septuagenária e com enormes lapsos de memória, também foi uma paixão de Nathan quando jovem… OK, quem me lê já deve ter notado que é um livro sobre a mortalidade. Para piorar, há um jovem bonito e cheio de energia que deseja escrever a biografia de Lonoff, relatando fatos constrangedores da vida pessoal do autor. Nathan e Amy não suportam a idéia de tal exumação.

Como atração especial, há a descrição de como o casal recebe a reeleição de Bush em 2004. Zuckerman observa impassível o mundo deles acabar para sempre…

Não é o melhor Roth, mas o panorama literário é tão pobre que sinto enorme vontade de dizer: leiam, haverá pouca coisa atual e melhor, não percam, não deixem de ler…

Em tempo: excelente tradução de Paulo Henriques Britto.

O Prêmio Anti-Nobel de 2008

Não, não é brincadeira. Ou melhor, talvez seja, porém o Prêmio Anti-Nobel (também conhecido por Ig Nobel) é dado por instituições sérias, tais como a Universidade de Harvard e outras. A lista completa está aqui, mas traduzo a meu modo e destaco a seguir algumas premiações fundamentais.

Medicina:

O médico norte-americano Dan Ariely publicou um alentado estudo no Journal of American Medical Association provando que a “medicina falsa e cara” funciona melhor que a “medicina falsa e barata”. Prêmio Ig Nobel para ele!

Biologia:

Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc, da Facultade de Veterinaria de Toulouse, demonstraram, em artígo publicado na Veterinary Parasitology, que as pulgas saltam mais sobre os cães do que sobre os gatos.

Química (prêmio compartilhado):

Os químicos norte-americanos Sheree Umpierre, Joseph Hill e Deborah Anderson, descobriram que a Coca-Cola é um espermicida efetivo. Publicaram sua pesquisa no New England Journal of Medicine.

Enquanto isso, em Taiwan, C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu y B.N. Chiang descobriram justamente o contrário em estudo estampado na revista Human Toxicology.

Prêmios Ig Nóbeis para todos.

Ingmar Bergman, J. S. Bach e minha separação

Sempre tive desmedida admiração por J. S. Bach e Ingmar Bergman. O que não sabia, até uns anos atrás, era da admiração que Bergman nutria pelo alemão. Nos livros do diretor sueco há muitas referências a Bach e não são observações triviais ou superficialmente admirativas, são observações de conhecedor, de alguém que conhece inclusive o simbolismo que perpassa algumas obras.

Ele diz ter utilizado a música de Bach nas cenas mais importantes de seus filmes ou, pelo menos, naquelas em que achava que a atenção do espectador podia ser dividida com a música. A escolha era quase sempre entre Bach ou o silêncio. No livro “Lanterna Mágica”, ele transcreve uma longa conversa que teve com o ator Erland Josephson. Nela, revela que, nos momentos de maior desespero, costumava contar para si mesmo uma história vivida por Bach.

Johann Sebastian havia feito uma longa viagem de trabalho e ficara dois meses fora. Ao retornar, soube que sua mulher Maria Barbara e dois de seus filhos haviam falecido. Dias depois, profundamente triste, Bach limitou-se a escrever no alto de uma partitura a frase que servia para consolar Bergman: Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim.

Bergman escreve em A Lanterna Mágica:

Eu também tenho vivido toda a minha vida com isto a que Bach chama “a sua alegria”. Ela tem-me ajudado em muitas crises e depressões, tem-me sido tão fiel quanto meu coração. Às vezes é até excessiva, difícil de dominar, mas nunca se mostrou inimiga ou foi destrutiva. Bach chamou de alegria ao seu estado de alma, uma alegria-dádiva de Deus. Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim, repito no meu íntimo.

Eu, o limitado Milton Ribeiro, um dos tantos admiradores de Bergman e de Bach, também fiquei repetindo esta frase por muito tempo. Era um mantra que me emocionava, me acalmava e me fazia pensar que a minha alegria ainda estava ali comigo, tinha de estar. É um grito infantil que reconheço e que não me abandonou.

Insistem em aumentar meu pênis / A bunda feminina

Recebo dezenas de e-mails me oferecendo aumento de pênis. Prometem um incremento de 2,5 a 3 cm. Não entendo porque me mandam estas mensagens. Aposto que vocês estão pensando que minha próxima frase será a habitual confissão masculina: “Sou um cara extremamente bem dotado, dispenso mais 3 cm, coisa para pigmeus ou japoneses”, etc. Não, isto seria propaganda enganosa e não sou adepto das típicas bravatas masculinas, aquelas que garantem, normalmente em ambientes livres de quem já viu, dimensões e freqüências extraordinárias. Acho que sou um ser normal, médio. Minhas proporções nunca receberam aplausos entusiasmados, tampouco vaias ou — pior, muito pior — risadas.

Conversei com um amigo (notem a exatidão das informações aqui veiculadas) que me disse que o tal upgrade é o seguinte: cortam um tendão do homem de forma que, quando presa de ereção, nosso pênis possa sair mais um pouquinho para ver o mundo lá fora. Mas nem tudo são centímetros… Há um porém (ahhh, porém). Em seus momentos, digamos, mais intensos, ele no máximo ficará em posição horizontal. Então, em vez de apontar para os céus em busca de Deus e Redenção, nosso dito cujo apontaria realista e ameaçadoramente para o porvir. Não seria uma elevação, mas sim uma espécie de alongamento horizontal. Talvez só o dono do pênis venha a pensar que houve incremento. Não há vantagem pois, a não ser que o usuário realmente deteste aquelas convulsivas cabeçadas que às vezes levamos na barriga em momentos de maior bulício.

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Preciso voltar a correr. Estou pesado. Lembro que, ano passado, num domingo, acordei às 6h da madrugada a fim de participar da Rústica associada à Maratona de Porto Alegre. Quando cheguei ao local do evento às 6h45, era noite fechada. Pensei que haveria poucos loucos disponíveis para fazer o mesmo. Engano! Havia 2500 malucos por lá.

Correr é perseguir bundas. Imaginem que maravilhoso campo de observação é uma corrida dessas! Há de todos os tamanhos e gêneros, porém as que me interessam são as de um grupo de mais ou menos 33% dos corredores: as mulheres. Algumas são pequenas, bonitas e velozes, somem na paisagem; há as lentas, que são de todos os tamanhos e se aproximam e desaparecem rapidamente do campo de visão; há as estáveis, que ficam algum tempo por perto, oferecendo-se à observação. Outra coisa interessante é que se nota não apenas o formato, mas sua consistência. Não, não dá para tocar, mas com o movimento, podemos facilmente imaginar como o traseiro analisado saberia às nossas mãos.

A que conclusão chego? Primeiramente, uma obviedade: as bundas das corredoras têm bom formato e há para todos os gostos. Porém (ahhh, porém), o mais importante é baixar um pouco os olhos e asseverar o seguinte a todas as minhas amigas: não importa o grau de malhação, a celulite ataca as coxas das corredoras na mesma proporção que ataca as sedentárias. Claro que, nas últimas, a quantidade é maior, mas não pensem que correr torna a mulher livre disso. Melhor relaxar.

Dando por encerrado este Momento Ana Maria Braga, despeço-me.

Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, ou Como tornar Saramago cinema?

Uma das coisas que mais me irrita é este lugar comum de dizer que “o livro é sempre melhor que o filme”. Dã. É uma burrice completa. Se quem diz isso ao menos soubesse que quase todos os Hitchcocks vieram de romances de segunda linha…

Há histórias filmáveis e outras não. Há livros que são quase roteiros, outros não. Apesar da vasta intersecção, há cordas que podem apenas ser tocadas pelo cinema e outras apenas pelos livros. Há especificidades.

Vou começar pelo livro. Saramago escreve, em média, um bom livro a cada década. Hoje, principalmente no Brasil, estabeleceu-se a regra de falar mal dos livros do único Prêmio Nobel de língua portuguesa. Trata-se do conhecido Complexo de Vira-Latas que acomete Brasil e Portugal — desde sempre para o primeiro e desde que o segundo deixou de ser um grande império colonial… Ganha-se algum destaque e este é sempre falso. Preconceito puro. Saramago não mudou. Segue publicando bastante — não o critico por este motivo — e acerta uma vez a cada dez anos. Sem problemas. É uma média altíssima. Nos últimos dezoito anos, melhorou sua média ao produzir três grandes livros: O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995) e As intermitências da morte (2005). O resto que fez neste período parecem ensaios para os acertos. Nada de anormal nisso.

Surpreendentemente, pego-me pensando em outro fato: a separação dos Beatles. Este foi um acontecimento mundial. Em 1970, estavam juntos e eram brilhantes. Em 1971, eram todos famosíssimos e médios… Rafael Galvão, num post antológico que não consegui localizar (upgrade: que o Rafael acaba de me passar), comprovou que nada mudara. Em todo disco do grupo havia 5 boas canções de McCartney, 5 de Lennon e 2 de Harrison. Com esta informação, o Rafa montou o disco de 1971, o de 72, 73, etc., com músicas pinçadas no trabalho individual de cada um. O resultado foram trabalhos portentosos… Mas algumas amam a decadência de tal forma que procuram-na em todo lugar.

Ensaio sobre a cegueira é um livro de alta intensidade e criatividade. Sua leitura não é nada enfadonha e a força da parábola de Saramago atinge-nos em cheio. Esta é reforçada pelo fato de que os personagens não possuem nome: são “a mulher do médico”, “o médico”, “a rapariga de óculos escuros”, etc. No filme, tal impessoalidade se perde. Vemos, é claro, os rostos de Julianne Moore, de Mark Ruffalo, de Alice Braga e de Danny Glover, isto já basta para individualizar personagens que funcionavam como símbolos ou funções no original. OK, Literatura 1 x 0 Cinema. Neste 1 x 0, quem danou-se foi a profunda e geral desesperança de Saramago. Porém, “a responsabilidade de ter olhos quando todos os outros os perderam”, frase repetida à exaustão no livro de Saramago, está preservada no filme. Julianne Moore faz uma atuação maravilhosa e demonstra claramente que, apesar de sua vontade — de indiscutível feminilidade — de tudo resolver pelo melhor, a tarefa é inviável.

Um ponto fraco do filme é que a chegada dos doentes ao hospital-manicômio não nos dá a mesma idéia do livro: a de que aquilo está em todos os lugares. O ponto forte são as imagens do caos absoluto no momento que “a mulher do médico” leva-os para a rua. Talvez Meirelles tenha procurado justamente explorar o contraste entre uma situação que parecia inicialmente pontual e que se torna paulatinamente geral para o espectador. Mas não sei, algo não deu certo nesta transferência do particular para o geral. Outro ponto forte foi a fotografia esbranquiçada — a cegueira branca — e a música: no ponto certo de irritar, mas não demais.

Se não possui a grandiosidade do livro, é um bom filme; se não incomoda como o livro, atrapalha o suficiente; se parte da parábola perdeu-se, Meirelles não a deturpou — o que seria pecado mortal. Escapou de Meirelles o profundo e justificado pessimismo de Saramago. Seu filme não possui este tom e, com isso, perde impacto, ganhando certa gratuidade para os espectadores mais superficiais. Mas é um bom filme, sem dúvida.

Fico feliz que Ensaio sobre a cegueira (“Blindness”) tenha levado 118.145 espectadores aos cinemas em apenas três dias. Fui um deles, pois vi o filme logo no primeiro dia. Tal fato o torna a segunda melhor bilheteria nacional de estréia de 2008. Um fenômeno. Fico feliz com isso, repito; afinal, Meirelles merece mais filmes.

Machado de Assis

Hoje, faz cem anos que Machado de Assis morreu em sua casa, no bairro de Cosme Velho, Rio de Janeiro.

Aos que lerem os artigos dos cadernos de cultura, reforço o alerta antecipado por Sérgio Rodrigues neste post: o risco de enfado é grande.

Aproveite a noite para (re)começar um de seus cinco últimos romances ou para a leitura de um conto. Creio que Machado não ficaria incomodado se a leitura fosse acompanhada de um espumante.

A curta primavera da tartaruga

Na semana passada, circulou em Porto Alegre uma engraçada metáfora. Talvez ela tenha surgido em hostes coloradas, mas contou com o apoio gremista. Dizia-se que o Grêmio era uma tartaruga em cima de um poste: ninguém sabia como tinha subido até lá, mas sabia-se que cairia… Ouvi a piada ser contada por muita gente, colorados e gremistas. Parecia haver um consenso sobre a queda da tartaruga. E ontem ela caiu feio.

Foi 4 x 1 ao natural, com direito a gol antes dos cinco minutos de jogo e placar construído no primeiro tempo. Tite entrou em campo com aquela escalação cautelosa de três volantes. Estranhamente, este tipo de escalação parece favorecer a liberdade dos meias de ligação adversários. Vejam o golaço de Tcheco! Ele atravessou o campo, fazendo o mais belo gol do jogo, tendo enfrentado em sua arrancada apenas um jogador: Guiñazu. Aliás, Tcheco parecia ser o único com algum élan e categoria no time do Olímpico. O resto era um amontoado de equívocos: Pereira e Perea entraram em campo lesionados, o primeiro foi substituído a dez minutos e o outro no intervalo; Marcel e Perea formavam um ataque de asma; a saída de bola pelo lado direito com os péssimos Paulo Sérgio e Léo não funcionou, claro; e Celso Roth, após a expulsão de Tcheco e perdendo o jogo de 4 x 1, optou por preservar seu emprego abdicando de atacar. Uma tragédia. Uma tragédia maravilhosa para nós.

Enquanto isso, víamos D`Alessandro, Guiñazu e Alex triturarem o meio de campo defensivo do Grêmio. Foram inúmeras as oportunidades em que esses três e mais Nilmar chegaram tabelando aos três zagueiros de Roth. A atuação de D`Alessandro foi tudo e mais do que desejaríamos. Seu chute no primeiro gol foi espetacular e… Bem, foi um chocolate lindo de se ver.

Com efeito, a tartaruga caiu e o vento que a empurrou nem precisou ser muito forte.

Há oito rodadas, estávamos 18 pontos atrás do Grêmio; hoje, a diferença é de oito. OK, o Grêmio encarou a realidade, mas é indiscutível que estamos jogando mais.

Manhã Patrocinada

O despertador de meu celular Nokia me acorda. Levanto a cabeça para conferir a hora no rádio-relógio General Electric sobre o criado-mudo SRD. Levanto-me lentamente pensando se tiro meu pijama Benet ou se vou ao banheiro ainda vestido. Está frio e resolvo mantê-lo. Faço xixi na privada Ideal Standard e vou para cozinha, onde abro o freezer-geladeira da Eletrolux e pego um croissant congelado da Casa do Croissant e uma caixa de leite da Elegê. O croissant é imediatamente redirecionado para o forno de microondas Panasonic e o leite, acompanhado de Zero Cal, vai para um copo SRD. Ainda dormindo, com o piloto automático me levando, pego meu lanchinho e vou à sala onde ligo o amplificador Gradiente, o DVD da Philips para ouvir um CD da EMI Classics com música de Hindemith. Na caixa de correspondência Cristal Acrimet, pego o jornal de literatura Rascunho. Levanto a cabeça e vejo a minha mulher aproximar-se com um roupão da Teka e um iogurte Activia, da Danone, na mão esquerda. Serve-se dele numa colher Pinti. Diz que estamos sem papel (Chamex) para a impressora Epson de nosso computador Dell. Não dou muita importância. Vejo meu saldo no Santander pois tenho que fazer um depósito para a Flávia em sua conta da Caixa Econômica Federal. Faço-o. Volto ao banheiro e escovo os dentes com Oral-B e pasta Close-up. Sento-me na Ideal Standard e livro-me dos vestígios com Neve. Tiro o mau cheiro com Gleid. Uso o sabonete Original para lavar as mãos e o rosto e vou me vestir. Vagarosamente, vou pondo uma cueca da Preston Field, calças da Happy Man, camisa da Riccardi, meias da Lupo e sapatos da Gallarate. Depois, reviso o que tenho que levar para o trabalho. Pego então a calculadora HP e um livro da Companhia das Letras, assim como uma agenda da Globo. Jogo-os na pasta cuja marca procurei procurei procurei e não encontrei. Dou um beijo na minha esposa e desço as escadas pensando em como ela beija bem até encontrar meu carro Ford. Coloco-o para funcionar e reviso se ele tem em seu tanque gasolina Ipiranga. Aliviado, faço os pneus Good-year me levarem ao trabalho. Durante o caminho confiro em meu relógio Technos se não estou atrasado. Chego ao escritório e, enquanto ligo meu computador Dell, vejo se o chá Leão já está na garrafa térmica da Termolar. Como estava, pego um copo plástico da Zanatta e tento me lembrar se pus no porta-malas do carro Ford o tênis Nike, o calção Wilson e a camiseta da Sul Malhas, pois posso precisar disto se sobrar um tempinho para ir à academia do Grêmio Náutico União. Volto para a mesa e começo a telefonar num Siemens para o cliente Trensurb. Enquanto isto, abro a gaveta da mesa Orlandi e pego as contas para pagar. Há uma do Colégio Leonardo da Vinci e uma do Banco Itaú. Com uma caneta Cross assino cheques do Santander e vejo que acabaram os clips da ACC. A ligação é desligada. Volto-me para o monitor da Dell de meu computador e ele mostra meu blog, da WordPress, onde leio esta bobagem comendo um chocolate Alpino da Nestlé, desejando imensamente um café da Segafredo que há no posto AM-PM da Ipiranga aqui ao lado.

Observação final: SRD é uma expressão do jargão veterinário e significa “Sem Raça Definida”.

Cinema: Resposta ao Theo e Últimos Filmes Vistos

Publicado em 11 de agosto de 2005

Respondo à corrente que me foi enviada pelo Theo Alves, ex-Centenário — um dos melhores blogs que já houve na Internet brasileira e que tornou-se, parcialmente, um livro –, atualmente no Museu de Tudo.

1. Qual o seu filme favorito?

Credo! Posso citar uns quinze? Ou vinte? Ou mais? Que tal de A a Z? Lá vão eles:

a. A Doce Vida (Federico Fellini)
b. A Marca da Maldade (Orson Welles)
c. A Regra do Jogo (Jean Renoir)
d. Acossado (Jean-Luc Godard)
e. Afogando em Números (Peter Greenaway)
f. Andrei Rublev (Andrei Tarkóvski)
g. Annie Hall (Woody Allen)
h. Blow-up (Michelangelo Antonioni)
i. Cidadão Kane (Orson Welles)
j. Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi)
k. Desencanto (David Lean)
l. Em Busca do Ouro (Charles Chaplin)
m. Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman)
n. Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais)
o. Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock)
p. Jules et Jim (François Truffaut)
q. Laranja Mecânica (Stanley Kubrick)
r. Morangos Silvestres (Ingmar Bergman)
s. Morte em Veneza (Luchino Visconti)
t. O Criado (Joseph Losey)
u. O Sétimo Selo (Ingmar Bergman)
v. O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci)
w. Peça Inacabada para Piano Mecânico (Nikita Mikhalkov)
x. Short Cuts (Robert Altman)
y. Terra em Transe (Glauber Rocha)
z. Vá e Veja (Elem Klímov).

2. Qual o último DVD que você comprou?

Ganhei “O Beijo Amargo” (The Naked Kiss) de Samuel Fuller. Creio que o último que comprei foi “Fanny e Alexander”, de Ingmar Bergman.

3. Quais os 5 últimos filmes que você viu?

Veja abaixo.

4. Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?

Não conheço o cinema brasileiro pré-1970 e vi só vi Terra em Transe no cinema há pouco tempo. Com completa insegurança e boa noção de minha ignorância, lá vão os meus:

a. Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho)
b. Festa (Ugo Giorgetti)
c. O Príncipe (Ugo Giorgetti)
d. São Bernardo (Leon Hirzsman)
e. Terra em Transe (Glauber Rocha)

5. Qual o seu diretor/ator (qualquer um dos dois) e o seu gênero favoritos?

Meu diretor favorito é Ingmar Bergman, sem dúvida. Dentre os ativos, corro para ver os filmes de Pedro Almodóvar, Woody Allen, Robert Altman (ativo?), Ugo Giorgetti e Carlão Reichenbach.

Os atores são muitos: Marlon Brando (o campeão, que só está aqui porque o “Ao Mirante” lembrou dele nos comentários! Como fui esquecer?), Erland Josephson, Liv Ullman, Dirk Bogarde, Juliette Binoche, Julie Christie, Bruno Ganz, Marcello Mastroiani, Ingrid Bergman, Humphrey Bogart, James Stewart, etc., etc. etc.

Não escolho filmes por gênero. Escolho por diretor, sinopse, procedência, intuição… Ou por ter lido ou ouvido falar a respeito.

6. Escolha 5 pessoas para passar a corrente:

Se estas pessoas tiverem disposição e tempo, adoraria ler as respostas delas. Tenho autêntica curiosidade.

Guiu Lamenha, do Perto do Coração Selvagem;
Meg, do Sub Rosa;
Nelson Moraes, do Ao Mirante, Nélson;
Rafael Reinehr, do Armazém de Idéias Ideais e
Roberto Maxwell, do Fragmentos de Películas não Filmadas .

Ficaria muito feliz se outros também quisessem responder. Não faça cerimônia, basta apropriar-se das perguntas!

O precursor foi o vinte (e cinco) de setembro (*)

O dia 25 de setembro tem alguma relevância, sabem? Foi num 25 de setembro de 1513 que o explorador espanhol Vasco de Balboa descobriu o Oceano Pacífico. Grande coisa! Como se ele não estivesse lá há milhões de anos e não fosse do conhecimento, por exemplo, dos chineses. Mais de quatro séculos depois, mais exatamente em 1897, a mãe de William Faulkner escolheu um outro desses 25 de setembros para apresentar os primeiros eflúvios de álcool ao filho. Nove anos depois, nascia no mesmo dia Dmitri Shostakovich, dando enorme peso à data. A coisa quase degringola em 1944, quando o velho Kirk e sua mulher puseram no mundo seu filho tarado Michael Douglas em 25 de setembro. Oito anos depois, veio à luz Christopher Reeve, ator norte-americano que fez Super-homem. Já em 1964, os moçambicanos escolheram o dia para iniciar sua luta pela independência. Após exatos 4 anos, nascia Will Smith e, 365 dias depois, nascia a mulher daquele Michael Douglas nascido 24 anos antes. Sim, hoje também é o aniversário de Catherine Zeta-Jones. O casal faz aniversário no mesmo dia, que meigo! Porém, há as mortes. O baterista do Led Zeppelin, John Bonham, escolheu inadvertidamente, ou não, um 25 de setembro, o de 1980, para morrer aos 32 anos. E… bem, Klaus Barbie fez o mesmo em 1991. Viveu demais. Em 1993, Portugal lançou no mesmo dia seu primeiro satélite, o Posat I, cuja inteligência deve ser toda artificial, e, em 2005, faleceu o imortal, ao menos para minha geração, Don Adams, o Agente 86 original, aos 82 anos.

Mas nada disso interessa muito, pois meu grande 25 de setembro foi o de 1994. Era um domingo bastante quente no qual passeamos num parque durante a manhã. Os suecos e Bergman dizem que as crianças de domingo são as mais felizes e especiais e ela chegou às 19h40. Chegou transtornada a este mundo, berrava demais e naquele dia não demonstrou nenhuma doçura, só se aquietando quando emborcou um seio, provocando breve grito na mãe, tal era a decisão. Decisão semelhante a fez escolher todas as fotos deste post e as do próximo Porque Hoje é Sábado, mas essa é outra história. Outra decisão a faz dizer que será Veterinária desde que soube o que era isso, o que me impedirá de repetir esta cena, acontecida na casa de Paulinho da Viola:

Tinha eu catorze anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou-me se eu queria
Estudar Filosofia
Medicina ou Engenharia
Tinha eu que ser doutor

Bárbara, 14 anos! Nada tenho de melhor a fazer do que transcrever o final deste post de Branco Leone, pois meu amor por ela teve o mesmo efeito:

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Sinto em mim o que escreve o Branco: cada vez mais dona de si e do mundo, torna menores todo o entorno e o inexorável e distante. Ou não.

Ah, as fotos!


Foto do último sábado, após vencer uma competição de hipismo. O do meio é o tratador do cavalo. É, segundo ela, um cara muito filosófico.


Pensativa, deve estar refletindo sobre que porcaria vai comer agora.


Cara de louca assassina Nº 43. Eu e ela fazemos competições de caretas, mas sou muito melhor.


Observando a movimentação da vizinhança.


Na cama com Olga.


Esta foto é meu wallpaper. Foi ela quem colocou, claro. O legal da foto é que ela já olha para o próximo obstáculo, o que é impossível ver nesta versão reduzida.


As meninas da geração de minha filha não apenas vão juntas ao banheiro como botam a máquina na janela e tiram fotos automáticas. Deve ser muuuuuito legal…


Ou é porque lá fora aparecem uns chatos para encher o saco?

(*) Só os gaúchos entenderão o título…

Fogo Morto, de José Lins do Rego

Atualmente, Fogo Morto deve ser um fenômeno de vendas no Rio Grande do Sul. O romance foi indicado como leitura obrigatória para os alunos que prestarão exame vestibular na Universidade Federal em janeiro de 2009. Ignoro o número de estudantes que se preparam decentemente para o concurso, mas quem o fizer, passará por Zé Lins. Não tinha lido o romance e meu filho, que fará o vestibular, leu e gostou, convencendo-me a retormar o romance regionalista da década de 30, movimento ao qual Fogo Morto está relacionado, mesmo que tenha sido escrito em 1943.

A linguagem é simples, a história é boa e José Lins do Rego é um tremendo narrador. Ou seja, o livro gruda. É dividido em três grandes partes, cada uma dedicada a um personagem da trama: a primeira ao seleiro Mestre José Amaro, a segunda ao Coronel Lula de Holanda, proprietário do Engenho Santa Fé e a terceira ao Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, uma espécie de quixote que, sem ofício definido, é candidato na próxima eleição.

Os três personagens possuem em comum um acentuadíssimo orgulho de si — tão patológico que me fez lembrar Pâmela (ou Suélen, nunca lembro seu nome) — e o fato de escravizarem as mulheres em torno. Mestre Amaro é fechado e ranzinza, permanece solitário em seu mundo e não ouve ninguém, nem sua mulher e muito menos a filha, a qual tortura com suas críticas e que acaba louca. Arrepende-se tardiamente. O Coronel Lula tem orgulho de uma grandeza que apenas ele vê em si. Pouco a pouco leva o Engenho Santa Fé, que herda do sogro, à falência, ao mesmo tempo que pousa de grande e impede a filha de casar, por não encontrar nas redondezas homem digno de sua perfeição. A esposa, uma empregada de luxo, chama-se Amélia (atenção: o samba de Mário Lago e Ataulfo Alves é de 1941). Já o Capitão Vitorino guarda muitos pontos de contato com Dom Quixote e Sancho Pança, a começar pela coragem sem limites e pelo cavalo logo mudado para mula. Anda de um lado para outro fazendo campanha política, orgulhoso de não levar desaforo para casa e desafia todos com suas idéias, desde representantes do governo até cangaceiros. Também tem sua Amélia, digo Adriana, que ameaça uma revolta mas não cumpre.

As protagonistas reais da tragédia são a moral torta e a decadência dos senhores de engenho, além da confusa situação política dos primeiros anos da república num período pré-eleitoral. Apesar da simpatia de José Lins pelos cangaceiros, ele os faz muito parecidos com os representantes do governo e não é por acaso que o quixotesco Vitorino apanha de ambos. Na parte final, um tenente do governo passa a desobedecer o Judiciário e a levar sua atuação para o caso puramente pessoal… É o Brasil-sil-sil velho de guerra!

A UFRGS tem razão em destacá-lo em seu vestibular, pois o livro é excelente e apenas cai na segunda metade da segunda parte, quando já sabemos que o Coronel Lula é um perfeito imbecil e Zé Lins estende-se em sua descrição além do necessário. Nada grave. Logo depois, na terceira parte, o romance retorna com a força anterior.

O mundo mudou: em minha época de estudante, Erico Verissimo era considerado tão importante que os professores não davam muita bola para José Lins do Rego. Era Jorge Amado e olhe lá! Hoje, não há Ericos na lista, que é bastante esquisita, incluindo livros e contos maravilhosos como Antes do Baile Verde, O Primo Basílio, Pai contra Mãe, e Estrela da Vida Inteira, mas também um medonho Assis Brasil — a propósito, meio livro de Erico ou algumas linhas de um conto de Sérgio Faraco são maiores do que toda a obra de Assis Brasil –, um desnecessário Cyro Martins (por que dar a alunos recém saídos do segundo grau uma visão tão pobre da literatura gaúcha?) e Iracema (ai, que saco!)… A seguir, a lista:

Luís de Camões – Os Lusíadas – Cantos I ao V
Castro Alves – Espumas Flutuantes
José de Alencar – Iracema
Machado de Assis – Quincas Borba
José Lins do Rego – Fogo Morto
Lygia Fagundes Telles – Antes do Baile Verde
Milton Hatoum – Dois Irmãos
Luiz Antônio de Assis Brasil – Concerto Campestre
Machado de Assis – O Caso da Vara, Pai contra Mãe e Capítulo dos Chapéus
Cyro Martins – Porteira Fechada
Eça de Queirós – O Primo Basílio
Manuel Bandeira – Estrela da Vida Inteira

Mônica Leal, a amiga de Yeda Crusius

Mônica Leal foi colocada como Secretária de Cultura do Rio Grande do Sul por ser amiga de Yeda Crusius. Yeda afirmou que Mônica era alguém de sua confiança, uma amiga com quem tomava chá e chimarrão, enquanto Mônica replicava que estava encantada com o convite, apesar de não saber nada sobre política cultural, cultura, artistas, leis de incentivo, etc., mas que aprenderia, pois tinha boa vontade. Antes deste convite, Mônica Leal dizia “carregar a bandeira da Segurança Pública e a herança política de seu pai”. Nada mais próximo à cultura.

Em suas primeiras entrevistas, notei que Mônica tinha problemas maiores. Como dizê-los? Bem, parecia que a luz da inteligência não havia brilhado muito para ela, seus discursos eram vazios e, pior, sem o palavreado político habitual; ou seja, eram tolos. Uma vez, na abertura de um concerto da OSPA, o maestro Isaac Karabtchevsky, vendo que ela se perdia de forma constrangedora na frente de uma platéia que começava a rir, saiu em sua ajuda, aplicando os termos corretos: concerto, solistas, maestro, sinfonia, etc. A boa vontade de aprender cultura da secretária não estava à altura daqueles termos.

Mônica Leal é filha de um dos políticos mais truculentos e involuntariamente cômicos de nosso estado. Seu pai, Pedro Américo Leal, foi certamente o coronel mais entusiasmado com a ditadura militar. Era ele quem costumava ir aos jornais e TVs para, sempre aos gritos, afirmar que não havia tortura, que a ditadura realizava milagres em todos os campos e conclamava os comunistas a saírem de sob seus colchões. Ouvi-o muitíssimas vezes. Ele não aceitava apartes, era uma patrola.

Com a finalidade de defender a memória de papai, Mônica Leal já tentou retirar do Memorial do Rio Grande do Sul o Acervo da Luta Contra a Ditadura, desmembrando-o entre outras instituições. Ora, esta documentação — que ao que eu saiba nem está catalogada –, deve conter o nome de Pedro Américo Leal por todo lado.

E agora, mesmo numa secretaria pobre, começam a aparecer denúncias contra Mônica Leal. Algumas liberações de verbas sem autorização do Conselho Estadual de Cultura foram respondidas pela filha de Pedro Américo Leal com denúncias à presidente do Conselho, Mariângela Grando, a qual promete reduzir Mônica a cinzas, mais ou menos como seu pai fazia ou desejava fazer com aqueles comunas — quase todos nós, que desaprovávamos a Ditadura e seus métodos. Enfim… Não… Há mais! Agora, Yeda e a amiga de mateado homologaram o cineasta (?) Henrique de Freitas Lima como jurado do concurso de curtas promovido pela secretaria. Este Henrique produziu 3 curtas de Mariângela Grando, mas hoje acusa a ex-parceira (que é, adivinhem, sua ex-esposa!) de ter colocado despesas pessoais — como multas de trânsito — na prestação de contas de seu filme: o rigorosamente péssimo “Concerto Campestre”… Etc. Acho que esse Henrique deveria ser preso pelo filme que fez, isso sim. Que coisinha ruim!

Bom, chega. Antes de voltar à programação normal do blog, quero dizer o seguinte: espero que toda essa lama não respingue na Feira do Livro que vai de 31 de outubro até 16 de novembro em Porto Alegre. E, tá, chega de baixaria.

Abaixo, a secretária da Cultura Mônica Leal em evento recente.

Aconteceu em Passo Fundo…

Depois do post anterior, eu até tentaria ser mais sério, só que uma notícia de hoje me deixou encantado. Um ladrão roubou um Monza em Passo Fundo. Quando viu, havia uma criança de 5 anos dormindo dentro do carro. O homem ficou louco de ódio contra os pais daquele menino que fora deixado fechado, no carro, à noite. E resolveu ligar para a polícia. A seguir, o diálogo travado entre o ladrão e o policial:

Brigada Militar – Brigada Militar, emergência.

Ladrão – Ô, boa noite, quem fala?

BM – Quem tá falando?

Ladrão – Oi, meu amigo, seguinte, ó. Esse bar aí do lado do Natus, sabe, o Natus na Avenida Brasil? Seguinte, eu vou ser bem sincero pra ti, tá? Eu roubei um carro ali, tá? Agora. E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara, e eu não vi, entendeu, não vi. Então o que que eu fiz, eu peguei o carro e botei o carro atrás do Fagundes (o Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis, próximo ao local onde o carro foi deixado), tá? Então tu manda uma viatura lá e manda o fodido do pai dele pegar ele e levar pra casa. Uma criança, um piázinho, tá?

BM – Tá ok.

Ladrão – Tá. Valeu.

BM – Onde que tá o carro?

Ladrão – Tá bem na esquina do Enav (a Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro, próximo ao local), ali do postinho. Do postinho do Fagundes, entre o Fagundes e o Enav, ali.

BM – Atrás do Fagundes? Tá ok. Que carro é?

Ladrão – É um Monza, tem um piázinho dormindo no banco de trás, tá? E diz pro fodido do pai dele: a próxima vez que eu pegar aquele auto e tiver o piá lá, eu vou matar ele.

BM – Tá ok.

Esse ladrão não é o máximo? Só faltou levar o pai ao Conselho Tutelar.

Enquanto isso, visitantes albaneses chegam a nosso estado…

Abaixo, flagrante de Manuela D`Ávila, a libélula vermelha, junto a Berfran Hoxha, consultor albanês para assuntos ideológicos, e Pável Odonov, consultor financeiro soviético e construtor de estádios de futebol. Como bons comunistas, eles observam deliciados a preparação das vitelas swiftianas que ser-lhe-iam oferecidas a seguir.

Antes, o filho de Enver Hoxha levou seu nariz para conhecer outros representantes da esquerda gaúcha e surpreendeu-se com o estado macilento e acabado de nossa Grande Líder e consultora imobiliária. (Atenção para o modelito maoísta florido).

Voltaremos com mais notícias a qualquer momento.

Feira do Livro de Porto Alegre: Charles Kiefer é o patrono

Sem dúvida, a melhor escolha. Os outros quatro da lista final eram Carlos Urbim, Jane Tutikian, José Clemente Pozenato e Juremir Machado da Silva. Num estado que se ufana de ter muitos autores, mesmo que a esmagadora maioria nunca devesse ter escrito uma linha e nem tenha a compreensão interna dos motivos que os levam a nos torturar com seus escritos, Kiefer é uma cara de trinta livros de vários gêneros, que escreve muito bem e que tem uma oficina de literatura onde se empenha-se e incentiva a formação de novos autores.

Enfim, voltamos a ter um escritor de ampla cultura como patrono. (Já tivemos outro assim? Não lembro, mas espero que sim!) Além de sua produção literária, Charles Kiefer é um sujeito que pode sair por aí falando sobre Shostakovich e Tchékhov, Raymond Carver e Guimarães Rosa, sempre com fluência, amor pelas coisas e vontade que as pessoas se juntem a ele. Uma pessoa rara e uma escolha mais ainda, pois ele — um cara de esquerda e dono de humor bastante ácido — não me parece ser dado à compra de simpatias representativas de canais competentes. Uma boa surpresa.

Confessando o preconceito (Tertulha Virtual – Tema: Solidariedade)

Este blog participa hoje pela segunda vez da Tertúlia Virtual de cada dia 15, criada pelo grande Eduardo Lunardelli do Varal de Idéias e que propõe este mês o tema Solidariedade.

Uma vez, o Mauro Castro, do Taxitramas, publicou uma crônica chamada Confessando o Preconceito em sua coluna no Diário Gaúcho. Como sempre, ela também foi publicada também em seu blog. Sua leitura fez com que um caso análogo, ocorrido comigo na pior das circunstâncias, me viesse à memória.

A seguir, conto o meu caso e, logo depois, copio a crônica original. O Mauro é meu amigo e uma pessoa conhecida e querida de Porto Alegre.

Confessando o preconceito II

Eu estava no velório de meu pai, em pleno 11 de dezembro de 1993, o dia mais triste que passei até hoje. Na noite do dia anterior, encontrara-me casualmente com meu pai no supermercado. Eu sempre fingia esbarrar nele ou ele em mim, pelas costas; era apenas um dos muitos rituais que mantínhamos. Depois do choque, ele riu e me mostrou um monte de CDs que tinha recém comprado. Estava alegre, bem.

Às 6h da manhã, o telefone toca. Minha mãe diz que ele está caído no banheiro, que era para eu vir correndo, que fizera respiração boca a boca e que a Unimed e minha irmã, que é médica, estavam chegando. Nada resolveu. Ele estava perfeitamente reto no chão, pois não na verdade não caíra, devia ter-se deitado esperando que a dor diminuísse. O primeiro e fulminante enfarto.

Durante o velório, pouco antes de ser levado no caixão, fui me despedir dele. Dei-lhe um beijo. Era um sábado quente, mas ele estava estranhamente frio; só naquele momento concluí que ele não lembrava mais de mim, que não tinha mais suas vivências de 66 anos e nem as de ninguém, que tudo tinha terminado para ele. Fui chorar junto à minha família quando ouvi um amigo dizer indignado, referindo-se a algo que acontecia atrás de mim:

– Mas o que é isso?

Virei-me e, entre lágrimas, vi um mendigo todo esfarrapado caminhando em direção a meu pai. Pensei “que merda, ainda isso agora!”.

Fui para junto do caixão pelo outro lado, encarando de forma hostil o homem sujo de uns 40 anos, calculo. Não disse nada, mas ouvi:

– Eu era amigo do doutor. Ele sempre brincava comigo e me dava alguma coisa na rua – disse ele, gentil e comovido, olhando-me nos olhos.

Não havia nada melhor a fazer do que articular algumas palavras agradáveis, convidando-o a ficar à vontade.

Confessando o preconceito, por Mauro Castro

Eu estava no ponto, com o banco do táxi reclinado, quando, entre um cochilo e outro, vi um mendigo vindo em minha direção. Ele vinha acompanhado de um cachorro, e trazia nos lábios aquele sorriso preparado que todo o pedinte usa ao fazer uma abordagem. Mais um que vai me pedir uma moeda para interar o dinheiro da cachaça – pensei.

Sentindo que seria achacado, ainda tentei fingir que estava dormindo, mas o mendigo, decidido, bateu no vidro do táxi, obrigando-me a abrir a janela.

Quando eu pensei em abrir a boca para dizer que não tinha nenhum trocado para dar, o homem falou:

– Acho que não sou o primeiro nem serei o último a lhe pedir isso…- e fez uma pausa, como quem procura na cabeça as palavras certas.

Eu ainda pensei em aproveitar aquela pequena pausa para poupar-lhe o discurso, mas quando comecei a balançar a cabeça negativamente ele continuou:

-…mas o senhor poderia me dar um autógrafo?

Barbaridade, por essa eu não esperava! De imediato improvisei um sorriso, na tentativa de disfarçar minha cara de abobado. Acho até que consegui. Bem feito pra mim, eu que sempre reclamo do preconceito que o taxista sofre, acabei tomando nos dedos.

No papo que se seguiu, descobri que meu insólito fã é leitor eventual do Diário Gaúcho, que ele cata no lixo reciclável. Disse que minha coluna é a sua preferida.

Para não ficar muito feio, dei-lhe um exemplar do meu livro, com uma caprichada dedicatória. E escrevi esta confissão, digo, crônica, que talvez ele leia no lixo da semana que vem.

Dia de trabalho insano

Há trabalho demais, muito mais do que sou capaz de produzir e olha que sou rápido. Muitos e-mails, troco uns quinze só com ele. Vai de Recife para Curitiba ler um enorme poema narrativo num evento da Rascunho. Penso no que seria “enorme” e na bosta da poesia atual, que não narra nada, se conforma com fotografias, impressões, estados d`alma, pobreza. Seu poema narra, que beleza, fico feliz. A leitura durará menos de 45 minutos. Peço para que ele me envie enquanto penso nos Árabes de uma amiga que adoro, a ela e a seus Árabes, que narravam. O e-mail chega. Começo a ler e fico vidrado… Ou melhor, fico vidrado a partir da página 4, a partir daqui:

Chorai pelos mundos
mudos e pelos separados
sepulcros hoje esquecidos
nos dias de finados
que, em verdade, lamentam
pelos vivos:
por nunca lhes ser possível
aperfeiçoar o passado
enquanto vivem o agora
como se o presente
fosse a realidade única.

Vi uma foto de Anna Akhmátova,
num livro de segunda mão
em oferta barata na livraria
de terceira fechando as portas
em liquidação de quarta despedida
dos leitores de páginas impressas
à tinta das antigas tipografias
condenadas aos museus,
setor dos tipos móveis de Gutemberg
que não mais importa.

Setembro se derramava lá fora,
estação de sol sobre a fonte
de águas espargidas em torno da lua
de Vênus nativa molhando a ponta
dos dedos dos pequenos pés de mármore.
Pensei naqueles de Clarice criança,
subindo e descendo escadas
da casa entre movelarias e sebos,
vinda da Ucrânia para o coração
deste bairro de esquecidos
livros em hebraico e iídiche.

Lindo. Lindo e triste. Leio mais sete páginas e olho os controles do Word. 54 páginas. Impossível ler agora. Ficamos de papo ping-pong no e-mail. Ligo o MSN a fim de procurar alguns colegas de trabalho. Encontro um outro. Digo-lhe que vá depor. Ele confirma, tranqüilo. Sabe de minha história; explicações para quê? No final do dia, o drama. Sim, no MSN. Ele é gaúcho, mas mora em São Paulo. É gremista dos mais xaropes, designer e publicitário. Duas filhas e mais ela. É ela quem me escreve no MSN, quer vir para o sul com ele e as meninas. É jornalista e produtora. Estão cheios de São Paulo. E eu de trabalho. Sugiro um caminho para vir para o sul, mas ela acha que o cara que pode auxiliar não gosta dela. Falo com um amigo deste, ele gosta sim, só conhece pouco. E o gremista? Ora, o amigo daquele que pode auxiliar pode auxiliá-lo, talvez. Vamos tentar fazer algumas pontes. São Paulo é o inferno? E aqui? Bom, ao menos é um manicômio menor, sem trânsito, sei lá.

23h35. Estou cansado. E tudo atrasado. Fiz muito, mas não o suficiente. Droga. Vou tomar banho para seguir amanhã. Lembro que esqueci de imprimir o poema que queria ler na cama. Merda de Milton burro, burro, burro.