Dois pesadelos

Sonho 1

Ela vai com sua mãe e o irmão para uma realidade paralela. À princípio, ficam deslumbrados com a perfeição e beleza daquele mundo; mas logo notam que tudo ali é falso. O leite é de tinta, as bolachas são de borracha, o telefone é de plástico. Logo ficam entediados e querem sair.

Só que é complicado. É necessário entrar por um buraco, dar uma cambalhota, entrar por um segundo buraco para afinal cair na cartola que os levará ao mundo real. Eles decidem ir e o irmão gentilmente dá-lhe a chance de ir na frente. Ela vai; porém, no segundo buraco, depois que a cabeça e o tronco já passaram, ela é presa pelas pernas. O buraco fecha mais e mais. Dói. Ela acorda.

Sonho 2

Ela está numa competição de hipismo e dirige-se a um obstáculo. O cavalo salta e, quando cai do outro lado, não há chão. Eles caem longamente e, não suportando mais a angústia, ela solta-se do animal. Imediatamente ela vê o chão aproximar-se e quebra o pescoço ao chocar-se contra ele. Acorda.

Dois Poemas para Shostakovich

O primeiro, de Anna Akhmátova:

Música

Para Dmitri Shostakovich

Algo de miraculoso arde nela,
e fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar,
depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.
Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

2. O segundo, de Fernando Monteiro:

O dia 24 era um domingo e no dia seguinte, 25 de setembro de 2006, minha filha completaria doze anos. No mesmo dia, o mundo musical comemorava os cem anos de nascimento de Dmitri Shostakovich. Lá pelas tantas, naquele tranqüilo domingo, resolvi olhar os e-mails e havia um do escritor Fernando Monteiro.

Era um poema, uma litania que Fernando escrevera e dedicara a mim – seu geograficamente longínquo amigo – e a Bárbara. Fiquei honradíssimo com a dedicatória, li o poema para minha companheira de filha e aquela Litania nos cem anos de Shostakovich acabou publicada em alguns jornais. Lembro que planejei fazer referências a estas publicações, mas nunca as fiz.

Hoje, ao procurar uns papéis, encontrei a Litania grampeada a outros dois papéis: um da imagem de uma página de 23 de fevereiro de 2007 do caderno “Anexo – Idéias” do jornal A Notícia de Joinville, onde a Litania tinha sido publicada, e outro, um e-mail de Fernando, explicando-me que as alusões “venezianas” do poema – detritos, crianças, gradis, febre, scirocco -, eram uma homenagem a Mahler que, para ele, é o que Shostakovich é para mim.

Fernando, digo-te que meu coração musicalmente promíscuo coloca Mahler ao lado de meu amado Shostakovich…

Antes de escrever este post, examinei demorada e amorosamente a primeira folha, a da litania sozinha, onde há a linda e enorme letra infantil de minha filha. Bem sobre o B.R., ela escreveu Bárbara Ribeiro.

Litania nos cem anos de Shostakovich

Para M.R. e B.R.

O torso de beleza afastando-se
Como se afasta um afogado
Das margens da praia
Também recuada para trás
De onde o Mediterrâneo
Vinha beijar os pés das sílfides,
Debaixo do sol silencioso.

Abandonados pelas crianças,
Os brinquedos da marina
Zunem de calor no metal
Aquecido como as águas.

O planeta está mais quente
E mais enlouquecido
Entre os pios nublados
Do pássaro escondido
Em árvores molhadas
Da chuva ácida que se filtra
De um céu de tempestade.

Aviões caíram nesta manhã,
Levando passageiros
Para o fundo de uma laguna
E o nenhum lugar da selva
Remota que irá retomar
Seu espaço sobre azulejos
Encardidos e embalagens
Não-degradáveis
Num mundo que prefere o desastre.

Tudo o prenuncia, de certa forma,
E nada está perdoado
Nem foi esquecido
Com todas as coisas que já foram
E com aquelas que ainda serão
Ou que apenas dormem na tarde
À espera dos anos sem emoção.

Os humanos repousam
No sono da sombra de toldos
Estalando na Veneza insalubre
Deste lado do Atlântico
De exímios nadadores
que não viram as crianças
Se afogando.

Sim, eu prefiro estar
Por apanhar um resfriado
Antes da peste
No limite da cerca-viva
De mato e detritos do lixo
Avançando até o antigo gradil
De gladíolos brancos.

É minha a opção de não manter
A saúde, fumar e perder esperança
Na vigilância sem objeto,
Exposto ao vento da tarde,
Ao siroco da mente
Igualmente desistindo
Das perguntas a ninguém
Muito depois de Pã
Anunciado como morto
Antes da morte dos mares.

Então, não importa molhar
Os sapatos da espuma de solfejos
Rumorejando as queixas do Adriático
Como outrora o mar dos gregos
Deixava leve gosto de salgado
Entre os artelhos limpos
De náiades banhando-se
Nos oceanos mitológicos
Que hoje são de plástico
Cor de chumbo.

Literatura e Sensibilidade Feminina

Meu amigo S. era muito desejado pelas mulheres. Bonito e inteligente, falava com voz estereofônica e as moças do escritório – trabalhávamos numa grande multinacional – o seguiam com os olhos para cá e para lá. Nós, homens, reconhecíamos sua superioridade. Ele nascera em Antônio Prado, uma cidade histórica gaúcha. Certa vez, um jornal publicou uma reportagem sobre as velhas construções dos italianos da região. O título da matéria era “Toda a Graça de Antônio Prado”. Nossa secretária pôs a página no mural e completou com caneta vermelha: “Toda a Graça de Antônio Prado ESTÁ CONOSCO”.

Um dia, S. confidenciou-me algo espantoso:

– Milton, tenho inveja de ti -, pensei que vinha uma piada qualquer e esperei.

– As mulheres que saem contigo são intelectuais, inteligentes, de bom nível. Já meu séquito é formado por mulheres burras que se apaixonam pela minha cara.

Fiquei espantado. Seguimos conversando, mas o assunto não prosperou. Meses depois, S. sofreu um grave acidente. Dormira ao volante e fora de encontro à traseira de um caminhão parado. Estava a 80 quilômetros por hora. A comoção foi geral, era uma pessoa querida por todos. Após um mês no hospital, ele retornou com duas grandes cicatrizes no rosto. Falou-me de sua intenção de submeter-se a todas as cirurgias possíveis para recuperar o rosto de Adonis. Ao comentar com minha (então) mulher a respeito, ouvi uma opinião discordante.

– Milton, ele era perfeito demais. Agora ficou humano! Acuse-o de não entender nada de mulheres! É muito grave.

-=-=-=-=-=-=-

Passei grande parte das últimas três décadas procurando entender as mulheres. Evoluí muito. Hoje sei da atenção que elas demandam, das flores, dos pequenos agrados e mimos, da importância de ser bom ouvinte mesmo quando morrendo de sono, e de muitos outros detalhes que não penetram a alma feminina, mas que a fazem respirar melhor. As mulheres têm um gênero de sensibilidade diversa da nossa, queiramos ou não. Trabalham, adornam-se, falam, escrevem e criam obras literárias distintas. Têm expressão tão diversa da masculina quanto sopranos e contraltos diferem de tenores e baixos.

Os primeiros críticos ingleses que escreveram sobre Jane Austen (1775-1817) referiram-se a tea-table novels. É uma interpretação muito superficial. Austen – que escrevia seus romances em seu quarto, temendo que alguém entrasse e interviesse – põe lentamente em movimento grandes e complexos personagens. Esta escritora genial é absolutamente irônica e realista. Foi a primeira a retirar a nota trágica do romance sério. Criou personagens e diálogos inesquecíveis dentro das velhas histórias tradicionais de mocinhas que só pensam em noivar e casar. Quem leu “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice) nunca esquecerá Elisabeth Bishop e Fitzwilliam Darcy e alguns críticos consideram Emma Woodhouse, de “Emma”, a maior personagem da literatura inglesa. Não é pouca coisa. Sua voz em “Orgulho e Preconceito”: Mary não compreendia seus sinais. Uma tal oportunidade de exibir-se era-lhe deliciosa e ela começou a cantar. Os olhos de Elisabeth se fixaram nela com os mais dolorosos sentimentos. Ouviu as várias estrofes com uma impaciência muito mal contida, pois Mary, ao perceber entre os agradecimentos a sugestão de que ela pudesse ser instada a renovar o prazer que estava dando a seus ouvintes, recomeçou a cantar, depois de uma pausa de meio minuto.

A admiração atual por Virginia Woolf (1882-1941) é estrondosa e merecida. Foi romancista, contista, ensaísta e memorialista de primeira linha. Anos atrás, o Oscar de melhor filme foi dado à adaptação de um livro baseado na biografia de Woolf e em uma de suas obras, “Mrs. Dalloway”. “As Horas” (The Hours) era o título inicial de “Mrs. Dalloway”. Não pretendo resumir em poucas palavras uma escritora tão conhecida, ampla e de voz tão original, seria uma temeridade. É curioso saber que, nas margens de seus manuscritos havia observações como esta: Eu não consigo escrever & todos os diabos aparecem – pretos e peludos. Ter 29 anos e ser solteira – ser um fracasso – Sem filhos – também doida, e não escritora. E, ao lado, esta outra: Fico deitada & penso na minha adorada fera, que me torna mais feliz a cada dia & instante de minha vida do que jamais pensei ser possível. Não há dúvida de que estou terrivelmente apaixonada por você. Ponho-me a pensar no que estará fazendo, & tenho que parar porque começo a querer muito beijar você. Tais anotações, quais romances?

Lembro-me de George Eliot, Sylvia Plath e Doris Lessing, porém concluo com Clarice Lispector (1925-1977). Para mim é difícil chamar Clarice de intimista; ela é mais do que isto, torna-se íntima de quem a lê. Ela me é ou ela torna-se eu, poderia ter escrito Clarice. Longe dos padrões estabelecidos, temos de abdicar da segurança das convenções da literatura tradicional para deixar que sua maravilhosa invenção nos leve. A palavra é protagonista tão importante em sua criação que temos a sensação de que vem antes do pensamento: Como poderei saber o que penso até que veja o que digo? (*) Sua arte é de tal forma envolvente, que quando relemos nossas anotações anos depois, não compreendemos mais do que se trata. É melhor recomeçar o livro, reentrar em seu espaço, é melhor ir direto a Clarice de, por exemplo, “Água Viva”: Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

-=-=-=-=-=-=-

Querem saber se S. fez as tais cirurgias? Não, não fez. Talvez a vaidade masculina seja tão boa ouvinte quanto a feminina…

(*) André Gide, em “Os Moedeiros Falsos”.

A Confissão de Sexy Hot

Digamos que o Grêmio superou em muito as expectativas coloradas. Acostumamo-nos a nos divertir com os desempenhos pungentes e dolorosos do tricolor, mas nunca, nem em nossos mais loucos desejos, aspiramos a que ele saísse de cena. E agora? Neste mundo politicamente correto, vamos zombar e nos distrair com quem nos próximos trinta dias?

Aproveito para lhes deixar aqui uma informação de cocheira, ou melhor, de academia. O treinador do Grêmio, Celso Roth – também conhecido como Sexy Hot em algumas rodas – é ou era meu colega na academia Sal da Terra, que ostenta sua bicho-grilice há vinte anos na Av. José de Alencar, em Porto Alegre. Digo “era” porque não o vi mais depois que assumiu o imortal fardo. Pois, pasmem vocês… Não deixem-me antes abrir novo parágrafo.

Pronto. Pois pasmem que Sexy Hot, três dias antes de ser entronizado como técnico da equipe banana, disse informalmente a mim entre um supino e uma flexão plantar:

– Ou o Grêmio contrata cinco bons jogadores ou não chega nem à final do campeonato gaúcho. Cinco, não menos.

Não contratou ninguém e, quando vi que não chegou nem às semifinais e que as oitavas-de-final da Copa do Brasil passaram igualmente ao largo do Estádio Olímpico (*), pensei:

– Puxa, então ele não se enganou com aqueles 19 jogos de invencibilidade. Esse conhece!

Desculpe, Hot. Nunca seja tão franco próximo a um blogueiro. Somos pouco confiáveis.

P.S.- A propósito, quando foram as Olimpíadas de Porto Alegre?

O Caso Sampallo – A Sentença

Conforme estava marcado, saiu dia 4 o resultado da Justiça argentina:

El tribunal condenó a Osvaldo Rivas a 8 años de prisión, a María Cristina Gómez a 7 años de prisión y al Ex militar José Berthier a 10 años de prisión. A los tres se los responsabiliza del ocultamiento y apropiación de María Eugenia Sampallo Barragán, pero a los dos últimos se los absolvió del cargo de falsificación de documento público; sólo Rivas quedó condenado por esos cargos.

El próximo viernes se leerán los fundamentos de la condena, donde podremos comprender la desición del tribunal que, condenó a 10 años al entregador, y dio a los apropiadores una pena menor que la que se conoció en el último juicio de estas características, donde los apropiadores de Claudia Victoria Poblete recibiron: uno 8 años, y otro casi 8 años de prisión.

(Retirado daqui, com correções)

María Eugenia soube, após exame de DNA realizado em 2001, quando foi localizada pelas Avós da Praça de Maio, que era filha de Mirta Barragán e Leonardo Sampallo, seqüestrados em dezembro de 1977 pela ditadura argentina. Mirta foi seqüestrada grávida e, no mês de fevereiro do ano seguinte, deu à luz na prisão. Em maio do mesmo ano, a menina foi entregue por Berthier ao casal que a criaria. Já os pais biológicos estão desaparecidos até hoje.

“Eles não são meus pais. São meus seqüestradores. Não tenho nenhum tipo de ligação emocional com eles”, disse Sampallo. “Estes são meus pais”, completou, emocionada, segurando uma foto dos desaparecidos.

Ela declarou-se satisfeita com a decisão, mas decepcionada com o tempo de detenção. Seu advogado pensa em recorrer, intenção não confirmada por María Eugenia Sampallo Barragán.

P.S.- Se você nem imagina a que fato refere-se este post, leia aqui.

A Derrota Mais Inacreditável

35553Vamos falar sério. Vi o final do primeiro tempo e todo o segundo. O Grêmio tinha tanta certeza da vitória que entrou negligente em campo. Era uma formalidade, apenas, e o tricolor só acordou quando já perdia por 3 x 0. Aliás, todos pensavam que era uma formalidade, principalmente nós, colorados. Eu nem ia ver o jogo, estava desinteressado e só passei a arrastar o olho para a TV quando vi que tinha potencial dramático.

Esses jogos são curiosos. Começam melancólicos, devagar; de repente, o mais fraco vê que pode dar uma pedradas e o mais forte está tão anestesiado que custa a reagir. O Grêmio há anos forma times modestos. Mas sua superioridade sobre o Juventude é indiscutível. Com oito homens, tomando 3 x 0, foi até o 3 x 2. Gostei de sua eliminação, claro, mas não foi perfeito. Perfeito seria se o dirigente mais truculento e bronco do sul do país, Paulo Pelaipe, e o jogador mais maldoso do Brasil, Eduardo Costa, fossem empurrados um pouco mais para o canto.

Porém, eles permanecerão e quem fica na marca do pênalti é quem chegou há 50 dias e não contratou ninguém: o “simpático” Celso Roth, que está rico com as múltiplas demissões que sofre…

99 anos hoje

Ao Daniel, ao Douglas e ao J.R.,
um post escrito rapidamente porém de forma emocionada.

Não tive a menor chance. Meu pai e meu primo João Reinaldo não deixaram espaço para dúvidas ou negociação: eu seria colorado e ponto final. Meu primeiro jogo foi ironicamente no Estádio Olímpico – assim batizado certamente em honra às Olimpíadas de Porto Alegre -, um Inter 1 x 0 São Paulo pelo Robertão de 1967, gol de Lambari. Não pensem que não lembro do gol. Como todo torcedor de futebol tenho um imenso acervo de gols na memória e lembro sim. Meus primeiros anos foram complicados, o Grêmio foi heptacampeão gaúcho entre 1962 e 1968 e, no colégio, havia enorme pressão para que eu mudasse de time, mas eu temia ser desprezado por minha família se mudasse e aquele primeiro jogo, aquele primeiro gol, foi fundamental para que meu amor ficasse definitivamente com o time de camisas vermelhas que chegou a dois vices no Robertão, mas que parecia ser incapaz de enfrentar o Grêmio. O primeiro gol que comemoramos é como o primeiro sutiã da propaganda. É tão inesquecível que, depois dele, não se muda mais.

Em 1969, houve a inauguração do Beira-Rio; eu tinha 11 anos e meu pai repetia que, com o dinheiro do clube sendo revertido agora para o futebol, nós patrolaríamos o Grêmio. Mas o que tinha o dinheiro a ver com o futebol?, pensava eu. Fui na célebre inauguração do estádio, vi o gol de Claudiomiro contra o Benfica e não entendi nada quando Gainete deixou a falta batida por Eusébio entrar em nosso gol (Gainete alegou que era falta de dois toques e deixou a bola entrar quando poderia tê-la agarrado facilmente. O juiz deu o gol. Minutos depois, Gílson Porto livrou a cara de nosso goleiro.) Durante o mesmo “Festival” de inauguração – havia datas livres naquela época – vi o famoso Grenal da Pauleira: um zero a zero muito promissor para quem perdia sempre. O Grêmio foi amassado, mas era ainda um grande time e evitou a derrota. Ao final, 21 jogadores brigaram a socos e pontapés. As emissoras de TV passaram centenas de vezes os lamentáveis acontecimentos e comecei a desconfiar que jornalistas gostavam de coisas lamentáveis. Só Dorinho ficou de fora, olhando. Fiquei com raiva dele, tinha que ter brigado em vez de dar uma de bom moço! Urruzmendi e Gainete bateram nos gremistas de uma maneira que comprovava o fato de estarem no esporte errado. As televisões repetiam e repetiam especialmente uma voadora de Gainete, depois víamos os jornalistas balançarem negativamente a cabeça, afirmando que aquilo era uma selvageria e víamos as agressões mais trinta vezes durante os debates. No mesmo 1969, fomos campeões gaúchos. No Grenal decisivo, minha mãe (!) foi conosco e, quando não encontrava a bola em campo, procurava-a temerosa dentro de nosso gol. Tomava sustos. Resultado: 0 x 0 quando o Grêmio precisava vencer. Fomos finalmente campeões, coisa que repetiríamos até 1976, quando Figueroa e Minelli abandonaram o time. Mas antes, em 1975 e 76, fomos campeões brasileiros e vi o maior time do Inter jogar semanalmente. O campeonato gaúcho de 1974 foi algo nunca visto: um enorme campeonato em que ganhamos todos os jogos. Devia ser desanimador ou monótono para os adversários, mas nós achávamos normal. Em 1979, fomos novamente irrepetíveis ao vencer um Brasileiro de forma invicta.

Não vou escrever sobre as glórias do Inter até porque estou chegando ao grave período conhecido por Império Otomano, onde certamente o clube enriqueceu muita gente que pouco tinha a ver com futebol e porque o Grêmio virou o jogo e a coisa ficou sem graça. É incrível como me torno indiferente e intelectual nestes períodos; leio muito e consigo autenticamente ficar alheio. Quando o time melhora, coisa estranha, meu interesse recrudesce.

No centenário, gostaria de escrever uma série sobre a história do Inter, mas, para não fazer apenas imitação do Idelber, desejaria escrever sobre a enorme sedução que meu time exerce sobre mim, sobre o tempo que perdi-ganhei com ele, sobre o amor-desamor que me liga-desliga de meu clube de eleição (eleição, João Reinaldo?). Vou ao Beira-Rio 30 vezes ao ano, sei que os gremistas são meros equivocados, que nos divertimos muito mais e tenho absolutíssima razão ao dizer – muito antes que o Cacalo ficasse repetindo minha frase em programas de rádio – que o futebol é a mais importante das coisas desimportantes, que o futebol pode ser encarado como metáfora e representação da vida e como tal é uma arte que pode ser amada ou desprezada como alguns desprezam o teatro, por exemplo.

Eu estava preparando o final do post, mas lembrei da pergunta que um jovem, Daniel Cassol, do Impedimento, fez-me certamente em honra à minha idade: como foi ver o gol de Falcão contra o Atlético-MG nas semifinais de 1976?

Daniel, foi assim, exatamente assim:

“Estava no Beira-rio. O Atlético triturou nosso supertime da época no primeiro tempo. Não tivemos a menor chance e o 0 x 1 fora saudado como um bom negócio. Paulo Isidoro detonava nossa defesa. Só que o segundo tempo mostrou como um jogo pode mudar totalmente. O Inter passou a pressionar o Atlético de tal forma que era impossível que nosso gol não acontecesse. Só que ninguém avisou Ortiz – goleiro do Atlético-MG – desta impossibilidade. Aquele argentino não apenas pegava tudo, como atirava-se ao gramado, vítima de crudelíssimas e imaginárias lesões, que ocorriam a cada toque do adversário em sua delicadíssima constituição ou a cada momento em que era atingido pela brisa. O ódio que senti daquele argentino certamente deixou-me seqüelas irrecuperáveis que se estenderam por toda minha vida futebolística… O final da partida aproximava-se e Ortiz negava-se a admitir que os gols deviam acontecer. Chegamos então àquele momento em que, se a coisa não vai por bem, vai por mal. Batista arriscou um chute violentíssimo de longe, logo ele que era péssimo nisto, e acertou o ângulo de Ortiz. Gol. Foi uma vibração com som diferente, pois ao mesmo tempo em que comemorávamos, dizíamos horrores ao goleiro adversário. 1 x 1. Foi então que a magia tomou conta do estádio. Não há explicação para aquele gol. Quem viu o gol de Falcão, aos 45 minutos do segundo tempo, sabe: foi magia pura. A bola saiu do pé de Figueroa para Dario. Desde Figueroa, a bola não mais tocou o chão até bater no joelho de Ortiz e ir para as redes. Do pé direito de Dario, foi para a cabeça de Escurinho, da de Escurinho para Falcão e da de Falcão de volta a Escurinho. Então, o negão viu que Falcão entrava no meio da zaga atleticana para receber a bola de volta e fez o passe. Tudo de cabeça. Então a magia desfez-se mas, como todos estavam abobalhados vendo aquilo, o gol saiu assim mesmo. Falcão errou o chute, apenas raspou na bola. Só que Ortiz, hipnotizado por aquela bola que nunca tocava o chão, deixou-a bater em seu joelho e entrar. Não foi um frango, mas era um chute defensável. Luís Artime, grande artilheiro argentino, ensinava: 30% dos gols saem por “erro” do atacante… Foi o caso. Falcão enganou involuntariamente o odioso Ortiz.

“Quando Falcão marcou este gol – o mais bonito que vi em estádio até hoje -, eu não soube como comemorar. Não era gol para pular, pois não se pula, nem se soqueia o ar e grita na frente de um quadro de Vermeer. Desci uns três degraus das arquibancadas das sociais, subi de volta a meu lugar e sentei. Lembro que pensei, enquanto era quase pisoteado pelo resto da torcida: eu nunca mais vou esquecer este gol. Era tudo – emoção, estética, felicidade oceânica, adrenalina e surpresa pela vitória inesperada àquela altura -, foi tudo. E quem pulava a meu lado e me procurava para um abraço enquanto quase me pisoteava? Meu pai, é claro.”

E aqui, o gol:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ksbCX0Jh5nc&feature=related[/youtube]

Agora, para finalizar, leiam este comentário de um atleticano, escrito em 17/05/2005:

Amigo Milton:

Realmente um dia teremos que reunir-nos para recordar juntos. Tenho memórias dos dois jogos, apesar de ser 11 anos mais novo que você.

Na final de 1975, eu ainda não tinha preferência clubística, mas lembro-me muito bem de ter os olhos na televisão, fixos, angustiado porque era o dia da formatura no pré-primário e eu era o orador da turma! Tive que sair de casa antes do gol de Figueroa, xingando, amaldiçoando os rituais. Desde então formei-me no primário, ginásio, 2o grau, licenciatura, mestrado e doutorado mas com muito orgulho nunca mais pisei numa formatura. Se há uma formatura à qual eu deva comparecer, faço questão de procurar um estádio de futebol, em memória de Manga, Figueroa e daquele primeiro inesquecível título.

De 1976, nem falar. Já atleticano, vivê-lo foi de partir o coração. Aquela tabelinha de cabeça foi uma das coisas mais inacreditáveis que já vi no futebol. Quando lembramos que aconteceu aos 44 do 2o de uma semifinal empatada, realmente dá para se ter uma idéia do que representou.

Belas, belas lembranças.

O OPS complica a vida dos blogueiros

Obs.: Assunto de Interesse Geral, seja você blogueiro ou não.

O Pensador Selvagem, recentemente adquirido pela Google, criou um novo método de nos avisar quando recebemos comentários em nossos blogs. Nada daqueles contadores e e-mails mal formatados. O novo produto alerta imediatamente o blogueiro da chegada de um comentário, esteja onde ele estiver. É o OPS, a New Comment Arrived! Trata-se de um microrreceptor que é inserido sob nossa pele – Under Your Skin, diz a propaganda, obviamente tendo ao fundo a música de Cole Porter. Quando chega um comentário, o receptor avisa o blogueiro através de uma leve descarga elétrica. Isto na Versão Básica, porque na Versão Plus são oferecidos mais recursos. Além de um exclusivo friso lateral no receptor, podemos configurar o equipamento para interpretar o conteúdo das mensagens. Os primeiros testes foram realizados no Brasil e revelaram-se um sucesso técnico. Junto com a Lulu, o Marconi, o Grijó e o Felipe (o Biajoni queria pôr o aparelho noutra região do corpo e foi rejeitado pelo colegiado de psiquiatras), participei da equipe de testes e hoje possuo um destes aparelhos fixado na axila. No começo, tudo funcionou à perfeição, principalmente porque nós e nossos leitores tínhamos ciclo biológico semelhante. Afinal, morávamos dentro do mesmo fuso horário e normalmente dormíamos e acordávamos aproximadamente juntos. Toda a equipe recebeu a Versão Plus do OPS, a New Comment Arrived! e, quando percebíamos um pequeno choque no sovaco, corríamos ao primeiro local info-incluído e abraçávamos o carinho do comentário simpático ou elogioso. Passamos a denominar este aviso de “choque amigo”. Porém, quando o choque era mais forte e longo, íamos furibundos responder à discordância ou ofensa. Tais descargas eram raras, pois os blogueiros costumam ser de natureza lhana. Os problemas começaram quando os blogueiros portugueses, afetivos e educados mas com fuso horário diferenciado, começaram a nos acordar em circunstâncias extremamente matinais. Isto nos impedia de completar nosso sono adequadamente; porém, como a maioria da equipe de testes era insone por natureza, só o de vida mais rotineira, eu, ficou incomodado. A crise só estourou quando um blogueiro de Goa começou a fazer repetidas visitações, sempre acompanhadas de comentários maldosos. Com seu disparatado horário indiano e suas observações de hostilidade e violência inauditas, sempre escritas num terrível português arrevesado, ele começou a torturar repetidamente toda a equipe de testes. A cada intervenção do homem de Goa, o aparelho fixado sob minha axila aplicava-me contundentes choques, proporcionais ao grau das ofensas presentes no comentário, demonstrando o perfeito funcionamento do OPS, a New Comment Arrived! Creio que vocês possam imaginar o grau de perturbação e os paroxismos de ódio assassino a que cheguei. Mas houve algo pior que fez tudo degringolar: foi o momento em que, avisados pelo homem de Goa, blogueiros dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, também conhecidos como PALOPs, descobriram o teste e começaram a nos dar choques em novos horários. Nosso desespero chegou a tal ponto que, transtornados, perdemos inteiramente a elegância e passamos a atacar os africanos com frases racistas. A combinação entre piadas de português e piadas de negros tornaram a experiência uma letal tour de force do politicamente incorreto. Se acrescentarmos a isto nosso cansaço, vocês podem imaginar o desvario geral. Apesar disto, o OPS confirmou o lançamento do produto e espera que um grande percentual de blogueiros o adote. Uma rede de hospitais psiquiátricos está fazendo a comercialização, instalação e manutenção dos receptores. Os mesmos oferecem, dentro do pacote promocional de lançamento, apoio médico baseado em Florais e Corais de Bach. Maiores detalhes aqui.

[Off Topic]: Meu ex-chefe e algoz, Tiago Casagrande me veio com essa brilhante citação de Thiago Gonçalves:

Os blogs são possibilidades incríveis de subversão da ordem posta. São ferramentas impressionantes na difusão de informações – e, preferencialmente, de conhecimento. Têm a chance de motivar mudanças estruturais em todo o aparato de produção dessas informações. E de fato têm feito isso; não são poucos os exemplos nesse sentido.

Se o que é anárquico, não-hierárquico, fluido, descentralizado, acessível, em suma, livre, ganhar correntes, deixa de ser o que é, e se transforma no que já existe – e não nos ajuda. O que põe as crises existenciais numa perspectiva tão profunda quanto um pires. Aqui, na blogosfera, tudo é possível.

Tem razão o moço.

Cinco Drops

O Grêmio já está nas semifinais do xaroposo Campeonato Gaúcho. Com açúcar, com afeto, enfrentará o adversário predileto. Uma papinha.

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Sou contra a violência, claro, mas estou achando um saco esse negócio do Tibete. Todo esse esforço para criar uma teocracia? Pô, no Iraque o Bush gosta é de democracia, coisa do demo mesmo, no Tibete é diferente.

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Se o mundo quisesse fazer um boicote aos chineses, seria fácil. Era só ignorar a festa de abertura e de final das Olimpíadas. As TVs fariam isso? :¬)))) Nessas festas é que há a celebração do país-sede. De resto, deixem os atletas.

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Só quem não entende de futebol não viu de cara que Alexandre Pato era um supercraque. Ele merece ser titular do Brasil desde aqueles 45 minutos de estréia contra o Palmeiras em 2006. Faz gols (muitos), erra pouco dentro da grande área e isso basta para escalá-lo em qualquer time. É jogador valiosíssimo em todos os sentidos.

-=-=-=-

Meu post sobre o Caso Sampallo Barragán acaba de ser atualizado. Las Abuelas pressionam. Mais detalhes aqui.

100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

Este post foi publicado em 13 de dezembro de 2007 em meu blog anterior na Verbeat. Como ainda rende comentários e comentários por lá – e não os acompanho -, decidi copiá-lo aqui.

Há algumas semanas, a revista Bravo lançou uma edição especial em que fazia comentários sobre os 100 livros essenciais da literatura mundial. A edição está vendendo muito, disse o dono da banca de revistas meu vizinho, e eu vi a revista na mão de adolescentes, uma espécie que raramente anda pela rua com revistas à mostra. Como me relaciono muito bem com jovens e estes me perguntam muitas coisas, sei que este se tornará um post de referência ao menos no meu recionamento com eles.

No final da revista, há uma página de Referências Bibliográficas de razoável tamanho, mas o editor esclarece que a maior influência veio dos trabalhos de Harold Bloom.

A lista é a seguinte (talvez haja erros de digitação, talvez não… Os digitadores da lista foram meus filhos):

1. Ilíada, Homero
2. Odisséia, Homero
3. Hamlet, William Shakespeare
4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes
5. A Divina Comédia, Dante Alighieri
6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
7. Ulysses, James Joyce
8. Guerra e Paz, Leon Tolstoi
9. Crime e Castigo, Dostoiévski
10. Ensaios, Michel de Montaigne
11. Édipo Rei, Sófocles
12. Otelo, William Shakespeare
13. Madame Bovary, Gustave Flaubert
14. Fausto, Goethe
15. O Processo, Franz Kafka
16. Doutor Fausto, Thomas Mann
17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire
18. Som e a Fúria, William Faulkner
19. A Terra Desolada, T.S. Eliot
20. Teogonia, Hesíodo
21. As Metamorfoses, Ovídio
22. O Vermelho e o Negro, Stendhal
23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
24. Uma Estação No Inferno,Arthur Rimbaud
25. Os Miseráveis, Victor Hugo
26. O Estrangeiro, Albert Camus
27. Medéia, Eurípedes
28. A Eneida, Virgilio
29. Noite de Reis, William Shakespeare
30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway
31. Coração das Trevas, Joseph Conrad
32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
34. Moby Dick, Herman Melville
35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
36. A Comédia Humana, Balzac
37. Grandes Esperanças, Charles Dickens
38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
40. Finnegans Wake, James Joyce
41. Os Lusíadas, Luís de Camões
42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
43. Retrato de uma Senhora, Henry James
44. Decameron, Boccaccio
45. Esperando Godot, Samuel Beckett
46. 1984, George Orwell
47. Galileu Galilei, Bertold Brecht
48. Os Cantos de Maldoror, Lautréamont
49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé
50. Lolita, Vladimir Nabokov
51. Tartufo, Molière
52. As Três Irmãs, Anton Tchekov
53. O Livro das Mil e uma Noites
54. Don Juan, Tirso de Molina
55. Mensagem, Fernando Pessoa
56. Paraíso Perdido, John Milton
57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe
58. Os Moedeiros Falsos, André Gide
59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello
62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll
63. A Náusea, Jean-Paul Sartre
64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O’Neill
66. A Condição Humana, André Malraux
67. Os Cantos, Ezra Pound
68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake
69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams
70. Ficções, Jorge Luis Borges
71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco
72. A Morte de Virgilio, Herman Broch
73. As Folhas da Relva, Walt Whitman
74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati
75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar
79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger
82. Huckleberry Finn, Mark Twain
83. Contos de Hans Christian Andersen
84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa
85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
86. Passagem para a Índia, E.M. Forster
87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
88. Trópico de Câncer, Henry Miller
89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
90. O Náufrago, Thomas Bernhard
91. A Epopéia de Gilgamesh
92. O Mahabharata
93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
94. On the Road, Jack Kerouac
95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse
96. Complexo de Portnoy, Philip Roth
97. Reparação, Ian MacEwan
98. Desonra, J.M. Coetzee
99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki
100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

A lista é ótima, mas há critérios bastante estranhos.

Se não me engano, só três semideuses têm mais de um livro na lista: Homero, Shakespeare e Joyce. OK, está justo.

No restante, é uma lista mais de autores do que de livros e muitas vezes são escolhidos os livros mais famosos do autor e dane-se a qualidade da obra. Se a revista faz um gol ao escolher Doutor Fausto como o melhor Thomas Mann, erra ao escolher Crime e Castigo dentro da obra de Dostoiévski – Os Irmãos Karamázovi e O Idiota são melhores e posso prová-lo -; ao escolher Guerra e Paz de Tolstói – por que não Ana Karênina? -; na escolha de O Complexo de Portnoy, de Philip Roth; que tem cinco romances muito superiores, iniciando por O Avesso da Vida (Counterlife) e ainda ao eleger Retrato de Uma Senhora na obra luminosa de Henry James. Li por aí reclamações análogas sobre as escolhas de Brás Cubas e não de Dom Casmurro, de Cem Anos de Solidão ao invés de O Amor nos Tempos do Cólera e de As Cidades Invisíveis de Calvino, mas acho que é uma questão de gosto pessoal e não de mérito. Ah, e é absurda a presença do bom O Náufrago e não dos imensos e perfeitos Extinção, Árvores Abatidas e O Sobrinho de Wittgenstein na obra de Thomas Bernhard.

Saúdo a presença de grandes livros pouco citados como Tristram Shandy, obra-prima de Sterne muito querida deste blogueiro, de Viagem ao Fim da Noite, de Céline, de A Consciência de Zeno, genial livro de Ítalo Svevo, de O Deserto dos Tártaros (Buzzati) e do incompreendido e brilhante Grandes Esperanças, de Charles Dickens, de longe seu melhor romance.

Porém é estranha a escolha de A Comédia Humana, de Balzac. Ora, a Comédia são 88 romances! Não vale! Estranho ainda mais a presença de autores menores como Orwell (com o famigerado 1984), Kerouac, Hesse, Malraux e do romance que não é romance – ou do romance que só é romance em 100 de suas 1200 páginas: O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.

Também acho que presença de MacEwan e de Coetzee prescindem do julgamento do tempo, o que não é o caso de alguns ausentes, como Lazarillo de Tormes, de Chamisso com seu Peter Schlemihl, de George Eliot com Middlemarch, de Homo Faber de Max Frisch e de O Anão, de Pär Lagerkvist, só para citar os primeiros que me vêm à mente. Se autores modernos podem entrar na lista, acho que talvez Roberto Bolaño e Antonio Lobo Antunes sejam superiores a MacEwan e Coetzee.

(O Bender escreve um comentário reclamando a ausência de Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa. É claro que ele tem razão! Esqueci. Coisas da idade.)

Com satisfação pessoal, digo que este não-especialista não leu apenas Os Miseráveis, o livro de Blake e os de Lautréamond, Mallarmé, Ovídio e Hesíodo. Isto é, seis dos cem. Tá bom.

P.S.- Milton mentiroso! Não li Finnegans também!

O Caso Sampallo e o Mar de Histórias (algumas absurdas, outras dignas)

A bonita moça ao lado, María Eugenia Sampallo Barragán, de 31 anos, estava na barriga de sua mãe quando esta foi presa em dezembro de 1977. Não se sabe exatamente quando, mas supõe-se que em fevereiro de 1978, Mirta Barragán deu à luz uma menina na prisão. Seu pai, Leonardo Rubén Sampallo foi informado do nascimento da filha. Dias depois, María foi dada de presente pelo capitão do exército Enrique Berthier ao casal Osvaldo Rivas e María Cristina Gómez Pinto. Os pais verdadeiros de María desapareceram.

De acordo com sobreviventes da prisão clandestina “El Banco”, Mirta foi levada para o Hospital Militar em fevereiro de 1978. Nunca mais se teve notícia dela nem do companheiro. Antigos militantes do Partido Comunista Marxista Leninista, os dois eram operários e atualmente fazem parte das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas durante a Guerra Suja, como é chamada a repressão desencadeada pela ditadura militar argentina contra seus opositores.

Há uma história semelhantíssima no romance Duas Vezes Junho, de Martín Kohan. Alías, hoje há comprovadamente outros oitenta e oito jovens na mesma situação chegando todos aos 30 anos na Argentina. Devem ser muitos mais.

Vários fatos saltam aos olhos dos brasileiros. Em primeiro lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina (propositalmente em maiúsculas). Como é que um processo que começou em 2007 tem data marcada para sua terminar e esta será em 4 de abril de 2008? Como pode? Em segundo lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina que ordenou em 2001 que fossem realizados exames de DNA dos “pais adotivos” de María, da própria e dos parentes de seus pais. Tendo em mãos o resultado, ela permitiu, no mesmo ano de 2001, que María Eugenia alterasse seu sobrenome de Rivas Pinto para Sampallo Barragán. Tudo em 2001. Em terceiro lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina, pois, em 2007, o casal Rivas processou María por calúnia e difamação. Após perderem a causa, María, no mesmo ano, resolveu abrir processo contra os falsos pais, que agora podem pegar 25 anos de prisão cada um no próximo 4 de abril.

Em quarto lugar, a postura de um país implacável que não parece apreciar pizzas como o nosso. Se nosso passado pode ser escamoteado, o que impede de fazermos o mesmo com nosso presente?

María Eugenia não fala à imprensa, é uma pessoa de dignidade e discrição aparentemente inabaláveis, porém seu caso é acompanhado com extremo interesse em toda a Argentina. O tal capitão Berthier, o homem que a entregou aos pais “adotivos” já está preso. O resultado, como já disse, movimenta a imprensa argentina e o resultado deve ser conhecido dia 4 de abril.

Sim, uma das formas de ver o mundo é imaginá-lo como um vasto mar de histórias. A expressão “Mar de Histórias” era utilizada em sânscrito para se referir ao universo inteiro das narrativas: “Os contos estão entrelaçados: a primeira história não acabou, e personagens começam a narrar outra, na qual por sua vez, outras se acham encravadas. Acotovelam-se nesse estranho labirinto as figuras mais singulares…” (Aurélio Buarque & Paulo Rónai). Este mar de histórias une fatos que um escritor talvez tivesse pudor de escrever. Há casos análogos e inacreditáveis como o de Victoria Donda Pérez: ela descobriu que seu pai foi prisioneiro do próprio irmão que a doou a um militar… Isso mesmo, o torturador doou a sobrinha, mas para que a história ficasse ainda mais novelesca, o mesmo criou sua irmã mais velha como filha!!!

Voltando ao Caso Sampallo, diria que ele tem enorme valor para este ficcionista amador. É uma história de busca de identidade sem as chateações da adolescência, é uma história dura e cheia de ódio, é a recuperação do direito de saber a própria história pessoal, e há algumas contrapartidas muito interessantes: o que Las Madres de Plaza de Mayo faziam procurando seu filhos, hoje é feito pelos netos procurando seus avós. Eles são los Hijos; elas, las Abuelas.

Há um movimento chamado H.I.J.O.S. (Hijos por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio). Um integrante do movimento declara:

– Sabemos que as pessoas que nos criaram foram cúmplices do aparato estatal e cometeram delitos. Os netos cresceram e criaram consciência das graves violações. Hoje, podemos enfrentar o trauma da busca de identidade.

A mãe “de adoção” de María dá declarações assim:

– Mocosa maleducada, tenías que ser hija de guerrilleros para ser tan rebelde.

Como resposta, María, cuja voz é conhecida da imprensa apenas por seus depoimentos à Justiça, não diz palavra. E está certa, não tem que fazer cenas nem buscar a piedade fácil que uma órfãzinha mereceria. Suas poucas fotos revelam uma mulher doce e tranqüila. Eu invejo a Argentina; lá, há vontade de punir quem deve ser punido. Para trazer esse espírito para cá, teríamos primeiro que implodir nosso belo Judiciário. Sou candidado a apertar o botão. Me chamem.

Atualização de 27 de março, 17h42:

CONFERENCIA DE PRENSA

Ref. Juicio por la apropiación de María Eugenia Sampallo Barragán

Abuelas de Plaza de Mayo convocamos a una Conferencia de Prensa, junto a María Eugenia Sampallo Barragán, su abogado Tomás Ojea Quintana y otros nietos restituidos para hacer saber la importancia de este juicio y lo ejemplar que debe ser su sentencia.
El 19 de febrero comenzó el juicio oral contra Osvaldo Arturo Rivas, María Cristina Gómez Pinto y Enrique José Berthier por la apropiación de María Eugenia Sampallo Barragán, primera nieta recuperada por Abuelas de Plaza de Mayo que querella a sus apropiadores.
Luego de casi dos meses de audiencias el Tribunal Oral Federal Nº 5 (TOF Nº5) deberá dictar su sentencia el próximo 4 de abril. Las Abuelas esperamos la máxima condena para los tres imputados.
Los esperamos en nuestra Sede de la Virrey Cevallos 592 PB 1 el lunes 31 de marzo a las 11:30hs.

Buenos Aires, 26 de marzo de 2008

Gosto literário se discute

Em 2003, respondi por escrito a um questionário cujo título era “Gosto literário se discute”. Sou um compulsivo respondedor de questionários e testes. Se, por exemplo, vejo em alguma revista um daqueles testes do tipo “Como está seu coração” ou “Descubra se você será traído por sua mulher?”, saio respondendo na hora. É claro que não resistiria a tal proposta, assim como não resisti a responder um teste sobre TPM numa revista Cláudia da minha mãe…

Não sei quem criou as perguntas a seguir.

Qual o livro que você mais relê?

“A Metamorfose”, de Franz Kafka.

E que livro relido ficou melhor?

“O Idiota”, de Dostoievski.

Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.

São tantos!:
– “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
“- Laços de Família” de Clarice Lispector,
– “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio;
– “Quatro-Olhos”, de Renato Pompeu;
– “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva;
– toda a obra de Sergio Faraco e
– mais uns 100.

Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas?

“Alta Fidelidade” de Nick Hornby, o filme sugeria algo melhor. Os últimos livros de Günther Grass e de João Gilberto Noll estão firmes nesta disputa.

E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?

“A Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)”, de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.

Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.

Vou arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Há o famoso capítulo 8 deste livro, mas penso que este interesse mais a músicos e melômanos.

Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor?

– Dom Quixote, em “Dom Quixote”;
– Sílvia, de “O Tempo e o Vento” (Parte III, “O Arquipélago”), de Erico Verissimo;
– Vania de “Tio Vania”, de Anton Tchekhov;
– Tristram Shandy, de “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne;
– o narrador de “Opiniones de um Payaso” (trad. para o espanhol), de Heinrich Böll;
– Alejandra, de “Sobre Heróis e Tumbas”, de Ernesto Sábato;
– o Homo Faber, de Max Frisch;
– o Conselheiro Aires, do “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
– Anna de “O Carnê Dourado” de Doris Lessing;
– Lucien de Rubempré de “Ilusões Perdidas”, de Balzac;
– Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; etc.

Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?

“Berlim Alexanderplatz”, de Alfred Döblin.

E qual o que lhe deu mais prazer e alegria

Foram tantos… Como foi pedido só um, vai lá: “Sete Novelas Fantásticas” de Isak Dinesen ou “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, escolha você!

E o que mais lhe fez pensar?

Um só? “Extinção” de Thomas Bernhardt.

Cite…

a) um livro meio chato, mas bom

“V.” de Thomas Pynchon.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu

Apenas “Finnegans Wake”, de James Joyce.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático

“Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

d) um livro difícil, mas indispensável

“Os Mímicos” de V.S. Naipaul.

e) um livro que começa muito bem e se perde

“Maus presságios” de Günther Grass.

f) um livro que começa mal e se encontra

“Brincando nos Campos do Senhor”, de Peter Mathiessen.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário

O olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson em “A Mulher do Tenente Francês” de John Fowles.

Qual o início de livro mais arrebatador para você?

“A Metamorfose” de Franz Kafka.

De que livro você mudaria o final? Como?

“Crime e Castigo”. Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.

Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?

“Guerra e Paz”, que prescinde daquela longa tese no final (mais ou menos 50 páginas).

Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?

Eu odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline: “Morte a Crédito”, “Viagem ao Fundo da Noite”, etc.

A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça (m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima (s).

– “O Avesso da Vida”, de Philip Roth;
– “As Confissões de Lúcio”, de Fernando Monteiro (*);
– “Afirma Pereira”, de Antonio Tabucchi;
– “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago;
– “As Horas”, de Michael Cunningham.

(*) Sou amigo de Fernando Monteiro, mas esta amizade só existe porque elogiei “Aspades, ETs, etc.”; ou seja, minha admiração por seus trabalhos antecede nosso contato.

Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?

Para “Memorial de Aires”, de Machado de Assis. Tenho certeza de que seria muito convincente.

Cite um vício literário que considere abominável.

As explicações nos rodapés por parte dos autores.

E qual a virtude que mais preza na boa literatura?

Pensei muito e seria complicado de explicar, mas a virtude que mais prezo é uma certa serena ousadia encontrável em mestres como Anton Tchekhov.

De que livro você mais tirou lições para seu ofício?

Não sou escritor, mas, se fosse, diria que o mais “pedagógico” são os contos de Machado de Assis.

E que a frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?

Ora, só pode ser….

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente na livrarias:
Preciso de todos.

Mundo Grande (Fragmento) – Carlos Drummond de Andrade

 -=-=-=-=-

 É sacanagem. Não conseguia sair da frente do rádio e fazer o que tinha para fazer. A Rádio da Universidade atrapalhou todo o meu dia programando a seguinte seqüência:

– J.S.Bach: Sonata em lá maior, BWV 1032, p/flauta e cravo obbligato – parece tão simples esta espetacular obra do pai de
– J.C.Bach: Sinfonia Concertante em lá maior, p/violino e cello – o Bach de Milão que criou o estilo galante, cujo maior mestre foi
– Mozart: Serenata nº 12, K. 388, em dó menor – cuja gentileza faz-nos lembrar os primeiros anos daquele jovem arrogante que reivindicava para si o título de
Tondichter (poeta dos sons) o qual chamava-se
– Beethoven: Quarteto de cordas nº 5, Op. 18, em lá maior – que nos lembra sempre espantosas obras de câmara e grandiosas sinfonias, o que nos trouxe
– Bernstein: Sinfonia nº 2, “A Idade da Angústia”, baseada em poema de Auden – sinfonia ab-so-lu-ta-men-te perfeita e que abriu espaço para um belo
– Programa Olinda Alessandrini – sobre a ignorada música erudita brasileira
.

É que às vezes eles resolvem que não servirão de música de fundo. Decidem que a gente tem que ouvi-los. Aí, não dá para trabalhar.

Uma Obsessão: A Lista Anual de Filmes

Publicado em 28 de agosto de 2003

Na próxima semana, prometo voltar à literatura; hoje, quero falar sobre uma mania que costuma divertir muito – às vezes até demais! – alguns de meus amigos. Desde 1997, sempre no dia 31 de dezembro, distribuo um e-mail com a lista de todos os filmes que vi, acompanhada de suas avaliações e daqueles que considerei os melhores do ano. Normalmente, há discordâncias, concordâncias, pedidos de retificações,etc. e a troca de e-mails e telefonemas acaba se extendendo até o final de janeiro. Esta lista é acumulativa e já está em 1030 filmes. Não é muito, se considerarmos que faço as anotações de cada ida ao cinema há 17 anos. Dá uma média de apenas 1,20 filmes por semana.

A “famosa” lista consiste em uma tabelinha do Word com a totalidade dos filmes vistos e é sempre acompanhada de um texto no corpo do e-mail, onde analiso com simplicidade o ano cinematográfico através de seus melhores filmes. Cometi o deslize de reler estes textos e, pior, acabei gostando quando eles cumpriram sua missão de me fazer lembrar de filmes esmaecidos na memória e que gostaria de rever. Coloquei abaixo os que escrevi nos últimos 3 anos. Resolvi compartilhá-los com vocês na esperança de que lhes seja útil, de alguma forma. Se algum de vocês quiser receber a lista completa, basta pedir deixando um comentário com seu e-mail. (Ou me enviem um e-mail, enquanto os comentários não voltarem…)

Ano 2000:

Caros Amigos.

Aí está a atualização da mui afamada relação de filmes do Milton.

Para quem não lembra ou está a recebê-la pela primeira vez, explico que se trata de uma lista de 959 filmes, os últimos que assisti… Apesar do número, há muitas lacunas nos anos iniciais, pois só em 1987 me disciplinei. Por exemplo, é absolutamente certo que vi mais de 8 vezes a Gritos e Sussurros – 3 vezes na primeira semana – e o filme não está na lista, apesar de ainda hoje aquelas quatro mulheres estarem caminhando em minha direção (Agnes, Karin, Maria e Anna). Espero também que ninguém acredite que vi Janela Indiscreta apenas no final de 1999; este é outro que vi mais de 4 vezes.

As avaliações que faço não devem ser levadas tão a sério. O teste final de um filme será a nossa afeição por ele anos depois; é como o teste de nossos amigos.

O que retorna de alguns de vocês compensa e dá sentido ao trabalho de anotação. Um vai com a listagem para as locadoras de vídeo, diz obedecer a ela e é tão polido que nunca contestou minhas avaliações; na verdade não acredito que ele me conceda tanto poder. Outro transformou-a em uma base (banco) de dados e “descobriu” matematicamente que o diretor que mais admiro é Woody Allen, o que não é verdade. Outro quer discutir cada avaliação e, por pura preguiça, fico quieto. O mesmo volta a querer discutir cada avaliação e, por puro ódio, mas me achando bondoso, resolvo explicar-lhe os filmes O Guardião da Floresta e Afogando em Números – tudo inútil. Outra, bem mais legal, conheceu Hal Hartley e me agradece comovida. Outro se apaixonou pelos escandinavos do Dogma 95, como se fosse possível o contrário. Etc., etc., etc.

Este ano foi péssimo para os cinéfilos. Entenda-se por cinéfilos as pessoas que ainda gostam de se fechar com pessoas estranhas em uma sala escura, a fim de assistir a uma projeção. Muitíssimos filmes ruins. Acho que os melhores – e estes foram realmente excelentes – foram Regras da Vida, Magnólia, Assédio, Os Cinco Sentidos e Wintersleepers.

Não sei porque antecipei em 3 dias a remessa deste mail, ainda mais depois de saber que entrou um “novo” filme (1998) do Hartley na cidade.

O significado as notas:

5 – Não de deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Uma bomba
0 – Além de bomba, mal intencionado

Feliz ano novo. Milton.

Ano 2001:

Caros Amigos.

Pontualmente distribuída pelo quinto ano consecutivo, aí está a atualização da aguardada (?) e cada vez mais célebre (…) relação de filmes do Milton.

O ano cinematográfico de 2001 não teve nada a ver com o de 2000. Houve muitos filmes bons. Neste ano, farei um curtíssimo comentário sobre os melhores que vi. Quem discordar de mim sabe o que fazer. Espero que as discussões deste ano sejam tão divertidas quanto as ocorridas após as listas dos anos anteriores.

Os que mais gostei foram estes:

1. Dançando no Escuro: aqueles que são hostis aos caras do Dogma 95 terão que me desculpar. Foi o filme mais original que vi em muitos anos.

2. Poucas e Boas: quem não morreu de rir na cena em que Sean Penn encontra o verdadeiro Django Reinhardt? Um dos melhores de Woody Allen.

3. Traffic: este filme perdeu o Oscar para quem mesmo?

4. As Confissões de Henry Fool: junto com Infiel, o melhor de 2001. Um belíssimo filme sobre a amizade. Uma pena que só umas 100 pessoas o viram em Porto Alegre. Quem de vocês viu? Se tiver em vídeo ou DVD, aluguem-no logo.

5. Infiel: o filme perfeito. Texto, atores, sinceridade, realismo. Um filme sobre a necessidade de ferir o outro.

6. Código Desconhecido: foi visto por 10 pessoas no cofre do Santander. Só foi passou uma vez em Porto Alegre. Em São Paulo, ficou dois meses. Um filme demolidor sobre a violência racial na França.
7. Benvindos: Tão terno, humano e engraçado… Uma bela sobremesa.

8. Harry chegou para ajudar: Um brilhante filme todo baseado em O Terceiro Tiro (The TROUBLE with HARRY) de Hitchcock. Este Harry passa todo o filme dizendo não tem problemas, o de Hitch era o próprio problema. Este gera defuntos, o de Hitch é um defunto. Repentinamente, as pessoas deste filme começam a recitar as falas do filme de Hitch, só que no negativo. No final, os filmes acabam iguais, com gente feliz e os Harrys mortos. Pura diversão!

9. Inteligência Artificial: Ah, fala sério! O filme é ótimo de cabo a rabo. Gostei até do final, com aquela lombriga citando A Montanha Mágica de Thomas Mann.

10. Uma Relação Pornográfica: outro filme perfeito. Alguém imagina o que eles faziam no hotel?

11. Os Outros: junto com o Harry, a melhor diversão do ano.

Chega de conversa! Voltando à vaca fria, em anexo está uma tabelinha do Word com o ano em que vi o filme, o nome, o diretor e a nota que dei a ele. Elas significam mais ou menos isto:

5 – Não de deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Uma bomba
0 – Além de bomba, mal intencionado

Feliz ano novo. Milton.

Ano 2002:

Lista de Filmes do Milton 2002.

Aqui está, pelo sexto ano consecutivo, a aguardada (já recebi e-mails perguntando sobre a continuidade da dita cuja), festejada (?), célebre (!) e principalmente inevitável lista de filmes do Milton. Foi um ano de grandes filmes europeus, especialmente franceses. Estes dias, navegando na Internet, descobri uma lista de melhores filmes de 2002 feita por Woody Allen. Sei que é sempre bom e desonesto solicitar auxílio de uma grife destas para avalizar nossas escolhas, mas os filmes que me impressionaram estavam lá, um atrás do outro: O Gosto dos Outros, Fale com Ela, Amélie Poulain, Italiano para Principiantes, Um Casamento à Indiana, etc. Não tem como errar.

Com a proliferação de novas salas de cinema em Porto Alegre – o que é ótimo -, não dá para ver tudo o que há. Mesmo tendo visto mais de 90 filmes este ano, fiquei aquém do que gostaria. Antes de (re) explicar a lista em anexo, vamos aos melhores de 2002, segundo este que vos escreve. Em 2000, coloquei apenas 5 entre os melhores; em 2001, foram 11 e, neste ano, 15.

1. Terra de Ninguém (Bósnia-Herzegovina) , de Danis Tanovic: páreo duro com Fale com Ela para melhor do ano. Uma implacável parábola da guerra na Iugoslávia. O roteiro nos mostra desde a conduta individual dos soldados em meio à guerra, até à imprensa que, mesmo que nos traga a realidade do front, é oportunista e trouxa. Mas a maior crítica vai para a ONU, cujos oficiais preferem manter uma distância profilática do conflito a intervir. Apesar da seriedade dos temas – a guerra, o ódio entre povos, as disputas de autoridade -, Terra de Ninguém não assume em momento algum um tom excessivamente trágico, melancólico ou engajado.

2. O Gosto dos Outros (França), de Agnès Jaoui: uma maravilhosa comédia de costumes com um roteiro bem escrito e elenco afinado. Um pequeno filme perfeito que sobre o preconceito nas relações humanas.

3. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França), de Jean-Pierre Jeunet: uma história que nos lembra os personagens de Cortázar. Irresistível, com todo seu ludus, estratégias e comportamentos malucos e engraçados. Não é nada surpreendente o fato de ser amado pelas crianças. Minha filha de 8 anos o viu quatro vezes em 24h (havia tirado na locadora) e pediu o DVD de Natal. Ganhou.

4. A Cidade Está Tranqüila (França), de Robert Guédiguian: um filme estupendo e pesadíssimo, mesmo para quem, como eu, não se incomoda com temas desconfortáveis (drogas, morte, pobreza, etc.).

5. O Quarto do Filho (Itália), de Nanni Moretti: faço minhas as palavras de Marcelo Bartolomei, da Folha de São Paulo: o longa-metragem O Quarto do Filho (“La Stanza del Figlio”) é uma obra-prima do cinema italiano: trata de um tema extremamente triste, mas não tira o espectador da sala com um sentimento de depressão; só o faz refletir. É isto. (Não abro mais dois pontos dentro de dois pontos, tá?)

6. O Closet (França), de Francis Veber: desde o Monty Python não tinha rido tanto em uma comédia. E que atores! Auteuil e Depardieu estão soberbos!

7. O Homem que não estava lá (EUA), de Joel Cohen: uma história meio boba, mas narrada com grande senso de estilo e elegância. Imperdível.

8. Italiano para Principiantes (Dinamarca), de Lone Scherfig: o tipo de “pequeno filme” que me é especialmente sedutor. Adorei. Nunca pensei que Veneza pudesse aparecer tão bela em um filme do Dogma 95. Os outros filmes do Dogma não se permitiam paisagens. Porém, se me lembro dos dez mandamentos do Dogma, não há nada que as impeça, desde que não se altere a luz natural com filtros e efeitos. A história daqueles 6 solitários é contada com um olhar cheio de ternura. O filme mostra, cena a cena, as pessoas aprendendo e reaprendendo nova linguagens emocionais, além de italiano, é claro.

9. Cidade dos Sonhos (EUA), de David Lynch: tá bom, vocês vão querer brigar comigo por causa dos polêmicos 10 minutos finais. Creio tê-los entendido. Escrevi ¿creio¿… mas, como perguntaria Isak Dinesen, precisamos compreender tudo? Um filme envolvente como poucos. David Lynch é o máximo.

10. Um Casamento à Indiana (Índia), de Mira Nair: possui o enorme mérito de ser um dos poucos indianos a conseguir distribuição por estas bandas. Para quem não sabe, a Índia é o segundo país em produção de filmes no mundo. Penso que este foi o meu primeiro indiano… E que belo filme! Uma celebração à família em uma história com personagens de carne e osso. Imperdível.

11. Promessas de um Mundo Melhor (EUA), de Justine Shapiro, B. Z. Goldberg e Carlos Bolado: teve milhares de espectadores em São Paulo e Rio de Janeiro, pois foi adotado pelas escolas que levaram seus alunos para vê-lo. Aqui, teve vida curta. É um excelente documentário a respeito do cotidiano das crianças palestinas e israelenses durante o conflito. Comovente e cheio de boas entrevistas.
12. Cidade de Deus (Brasil), de Fernando Meirelles e Kátia Lund: um grande e empolgante filme. Se o livro já era um fato importante, o filme só acrescenta.

13. O Príncipe (Brasil), de Ugo Giorgetti: poucos o viram, já que ficou apenas no circuito alternativo. É a expressão da náusea de Giorgetti para com a política cultural, o abandono das preocupações sociais de uma geração e a convivência com a violência. Pra lá de pessimista e desolador. Mais um trabalho impecável do melhor cineasta brasileiro.

14. Fale com Ela (Espanha), de Pedro Almodóvar: em minha humilíssima opinião, o melhor do ano. A idéia do filme dentro do filme é um achado brilhante que nos prepara para o final da história. Genial! Não gostava do Almodóvar provocador do passado. Eu mesmo provoquei algumas discussões sobre o que pensava ser a “vulgaridade” do diretor. Porém, acho seus três últimos filmes (Tudo Sobre Minha Mãe, Carne Trêmula e este) grandes obras. Mais um grande filme sobre a amizade entre homens, como já fora o extraordinário As Confissões de Henry Fool (Hal Hartley), que passou aqui no ano passado.

15. O Filho da Noiva (Argentina), de Juan José Campanella: um filme perfeito! Roteiro monumental que equilibra boa comédia, drama consistente e que, ao final, quando lágrimas querem surgir em nossos olhos, o diretor interrompe os créditos para fazer um importantíssimo esclarecimento, que acaba por ser uma das melhores piadas do filme. Imperdível (deve estar ainda em cartaz).

Já as maiores decepções do ano foram Oito Mulheres, Depois da Vida, Onze Homens e um Segredo e principalmente O Senhor dos Anéis I.

Bem, chega de papo. Voltando à lista em anexo, ela é composta dos últimos 960 filmes que vi e lembrei de anotar. Os mais atentos notarão que ela diminuiu seu tamanho, pois antes de 1987 (entre 79 e 86), minha disciplina era bastante boêmia; então retirei da lista uns 200 filmes destes anos. Em anexo, há uma tabelinha do Word com a relação dos filmes que vi entre 1987 e 2002. Lá estão seus nomes, diretores e a nota que dei a eles. Para quem não sabe como ela começou: costumava anotar em minhas agendas os filmes que via e dava-lhes notas; uma vez resolvi jogar fora as agendas, mas achei que aquela relação de filmes poderia ser útil em idas a locadoras de vídeos. Digitei todos os filmes em um arquivo do Word e, durante uma discussão cinematográfica com meu amigo Franklin, na qual tínhamos esquecido o nome de um diretor, mostrei-lhe o arquivo. O arquivo foi recebido com tamanho entusiasmo que resolvi distribuí-lo anualmente, o que causa sempre muita confusão, pois alguns de vocês são muito chatos, opiniáticos e insistem em discordar de mim…

As notas significam mais ou menos isto:

5 – Não de deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Um saco
0 – Além de saco, mal intencionado

Feliz ano novo. Milton.

Porque hoje é sábado, Marlene Dietrich

Carlos Drummond de Andrade brincava com Vinícius de Moraes

Drummond achava que a mais bela era Greta Garbo

Vinícius respondia que não, a mais bela era Marlene Dietrich

Prefiro Drummond como poeta, mas sua cara de farmacêutico nunca me enganou

Não entendia patavinas de mulher

Mulher era uma especialidade de Vinícius

E dou-lhe razão

Greta era fria e má atriz; Marlene era mais bonita, melhor atriz, excelente cantora e

Tinha o mistério que poucas mulheres possuem

Vestia-se como homem, mas ao contrário de Garbo, parecia uma fornalha pronta a explodir

Mesmo em fotos estranhas

Mesmo atrás da porta

Parecia prestes a saltar (maravilhosamemente) sobre nós

Mesmo quando passou apenas a cantar (e evoluía mesmo além dos setenta anos)

Mesmo quando retirou-se, mesmo depois de morta

Permaneceu ameaçando-nos com um olhar inquisitivo que não consigo decifrar…

… (burro que sou).

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que sua respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela – àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser assim descrita: seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

– Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu, Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma seqüência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

– Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem da mensagem que gravara. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

– Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos – principalmente para cuidar de seu filho -, que ele entendeu tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro específico.

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Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

– Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a idéia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?
– Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse uma música que a Maria Bethânia canta.
– Que música?
– Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

(Ou seria melhor chamá-lo “Da Humana Pretensão”?)

Enquanto isso, em nosso Rio Grande…

Crusius! Nossa governadora provoca debates realmente originais. Nada que melhore sua imagem, claro. Estamos com o pior governo do país. De novo. Se eleger Rigotto foi uma idiotice, substituí-lo por Yeda torna indesmentível nossa estupidez.

Uma das provas da inexistência de Deus é o fato de sermos governados por gente como Yeda Crusius e José Fogaça. Ninguém pode ser insondável a este ponto.

Yeda Bagre

Charge de Eugênio Neves, do Dialógico.

Tropa de Elite (ou Da Impossível Simplicidade), de José Padilha

I was not writing the Bible.
Resposta lacônica de Doris Lessing na Feira do Livro de Buenos Aires, em 1990, ao responder a uma leitora — de Veja?, já naquela época? — sobre o motivo do personagem X ter dito a Y aquela determinada frase presciente naquele determinado momento iluminado… Puf!

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Observação: Resolvi ver o filme após ler a discussão que corria lá no Torre de Marfim. E valeu a pena enfrentar a enorme fila. É um bom e importante filme brasileiro. Minhas considerações são parcialmente influenciadas por diversos posts e críticas lidas por aí, então não esperem cem por cento de ineditismo. Começo desorganizadamente pela periferia e vou pouco a pouco entrando nas questões principais de Tropa de Elite. Ao final, copio, no melhor estilo Fausto Wolff (mas com o devido crédito), alguns trechos lidos que achei especialmente esclarecedores ou inteligentes acerca do filme.

Não é o tipo de filme que normalmente me agrada; muitos personagens interessantes ficam inexplorados em troca da ação. Por exemplo, a esposa do Capitão Nascimento passa todo o filme repetindo a mesma ladainha ? e, porra (desculpem, deve ser influência do filme), seu papel mereceria maior desenvolvimento, pois é ela quem cobra de forma peremptória a saída do marido do BOPE ? e mesmo a burguesinha gostosa e correta poderia ser algo mais particularizada. Outra coisa que perturbou minha atenção é que eles suam o tempo inteiro. Parece um filme feito no insuportável verão gaúcho e não no calor bem mais seco do Rio. Talvez o drama e a tensão dos personagens devesse sair fisicamente por seus poros, mas com Wagner Moura, André Ramiro e Caio Junqueira atuando de forma soberba, nem precisava besuntar os atores. A tensão está na cara de todos eles. E por que a burguesa vivida por Fernanda Machado não sua tanto? Se os burgueses não sentem calor então por que compram tanto ar condicionado? Bom, OK.

Vale a pena discutir a acusação de que o filme seria fascista? Não fala em globalização, em Lula, não defende o capitalismo, a família, o patrimônio, nem os Estados Unidos ou Bush, vai sempre em linha reta sem proteger-se de eventuais assuntos espinhosos, Wagner Moura não tem nada de Stallone ou de Schwarzenegger e até obedece à esposa, não se fala de onde vem a droga e não há cartazes neo-nazistas nem de Che Guevara e muito menos resquícios de bolivarismo. Então…? Mais: na sessão em que assisti o filme, o público não aplaudiu ou aprovou as cenas de violência; ou seja, não me pareceu haver grande prazer em ver aquela violência tão pouco estilizada.

Maniqueísta? (Maniqueísmo: Doutrina que se funda em dois princípios opostos, antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo.) Maniqueísta? Mas quem é quem? E olha, mesmo que seja, considere que estamos no cinema, local onde o bem e o mal já travaram belas lutas e travarão outras, espero. O esquema mocinho-bandido é maniqueu, goste ou não você da palavra. E ponto. O foco narrativo do filme reforça o maniqueísmo ao partir exclusivamente do Capitão Nascimento ? cuja mulher está grávida e que deseja deixar aquele serviço – e do BOPE. Trata-se de uma visão, portanto, parcial e emocionada, dentro de um tom que permanece longe do narrador onisciente a derramar-se em verdades. Então, mesmo dentro do esquema tradicional do the good and the evil, José Padilha expõe certas fragilidades de seu personagem, deixando-o à crítica, por assim dizer. Diferentemente do que faria um filme fascista a proclamar suas teses, ele nos apresenta um ser humano plenamente contraditório e que, portanto, pode ser contestado. É claro que nos sentimos identificados com o narrador ? o filme infelizmente trata a bandidagem muito superficialmente -, mas nossa simpatia pelo narrador a priori o abraça, sendo ele bonzinho como eu ou mauzinho como o Alex Castro.

O principal mérito do filme é o de não dar razão a ninguém. É como a vida. Sei que é muito complicado para alguns espectadores – e também para o leitor médio da revista Veja – entrar em contato com uma história deficitária em termos de sínteses intelectuais (sínteses que na verdade só servem para nublar a realidade e outras camadas de experiência que, sabemos, têm o glorioso costume de serem inesgotáveis). Ah, o leitor de Veja não deve chegar próximo a Tchekhov, pois o russo, tal como Padilha, expõe problemas, mas nega-se a resolvê-los. Fala, professor: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.” Obrigado pelo auxílio, Anton Pavlovitch. Ora pro nobis.

Há cenas brilhantes no filme.

1. A cena em que o inteligente Matias ? finalmente metamorfoseado em homem violento da repressão – enfrenta diretamente o menino rico que liga-se ao tráfico e ao crime é uma espécie de recapitulação (*) do conflito externo. Fantástico. Ponto para Padilha.
2. A cena dos comprimidos, na qual o capitão Nascimento presumidamente evita matar-se com seus calmantes, jogando fora na pia o conteúdo do frasco. O conflito interno é demonstrado em cena curta e elegante. Mais um ponto para Padilha.

E há duas cenas lindas.

1. Na cena do nascimento do filho do Capitão Nascimento, Wagner Moura tem uma atuação absolutamente tocante, fazendo com que eu lembrasse de meus dois episódios semelhantes que ocorreram comigo. Principalmente do segundo, em que olhava para minha menina pensando no esforço que fizera para que aquilo acontecesse. Soma mais um para ele!
2. A cena em que são avaliados os policiais que participarão do Curso do BOPE: o elenco, como se estivesse brincando numa mesa de reuniões, improvisa uma série de piadas sobre os ?noviços?. Tal cena lúdica, talvez tomada num ensaio, é um refrescante interlúdio para o espectador. Brilhante.

E três fatos que reforçam o estranhamento.

1. O capitão Nascimento é um profissional que ama sua família, mas…
2. O traficante Baiano despede-se da mulher e filha quando sabe que enfrentará o BOPE. É uma atenção meio tosca, mas é a autêntica e…
3. Não quer que seu rosto seja desfigurado por um tiro, pois quer estar adequado em seu enterro.

São homens preocupados com suas famílias. Seres humanos.

Copy and Paste:

Arranhaponte escreveu isso na citada Torre:

(…)

Resgata a polícia da demonização desmiolada de uma certa intelligentsia, mas apenas para lhe fazer fortes reprimendas. Neste sentido, é um filme profundamente civilizatório.Eu quase diria que chamar Tropa de Elite de fascista é uma atitude fascista, por ser uma aposta na barbárie da rebeldia primitiva.

(…)

As pessoas que classificam o filme de fascista são aquelas caricaturizadas na aula sub-foucaldiana na PUC-Rio. Não apenas e necessariamente consumidoras de drogas, mas adeptas da visão do bandido como revolucionário primitivo, e da polícia como agente da reação. Tropa de Elite é um ?ataque do Bope? ao miolomolismo desta gente. Porrada pura.

(…)

Não é o marginal como vítima do sistema, mas o policial como vítima e verdugo do sistema.

Grande Arranhaponte!

E Sergio Leo, invariavelmente exato, expõe certa loucura da mídia:

Na capa da Veja, leio que o sucesso do filme Tropa de Elite se dá porque finalmente, alguém “trata bandido como bandido”. Meu amigo Bode Orelana, analista político de plantão, me garante que o filme é bom, e que desnuda a engrenagem hedionda capaz de fabricar torturadores de boas intenções. Leio na Folha um rapper defender a tese imbecil de que o crime é um mecanismo de justiça social, e o Reinaldo Azevedo, em vez de desmontar o argumento, dizer, babando pelo canto da boca, que a democracia pede a supressão sumária de vozes como essa.

(*) Termo utilizado de forma análoga ao da música erudita (as sonatas têm três partes: exposição, desenvolvimento e recapitulação): Recapitulação é a seção que tem a função dramática de afirmar o tom original, após a transferência para a dominante no final da exposição.