Tertulha Virtual (Tema: Água) – A Fonte da Donzela (Final)

Participando da Tertulha Virtual, criada pelo grande Eduardo Lunardelli do blog Varal de Idéias, deixo aqui para vocês o extraordinário momento em que a fonte de água (ou da vida) nasce sob a cabeça da filha cruelmente assassinada. Bergman é sempre perfeito e vale a pena ver não apenas esta seqüência final mas todo o filme. Porém o motivo de minha postagem começa aos 4min02.

A Fonte da Donzela é um filme de 1960. Trata-se da maravilhosa encenação e filmagem de uma lenda medieval sueca, cuja história copio abaixo. O vídeo está dublado em italiano… Acho que dá para entender.

Grande abraço, Eduardo.

Na Suécia do século XIV, Töre e sua mulher Märeta formam um casal que tem uma propriedade rural. Cristãos fervorosos, incumbem sua filha única, Karin, uma bela adolescente virgem, de quinze anos, de levar velas à igreja do vilarejo próximo e acendê-las em louvor à Virgem Maria.

Com licença da mãe, ela veste seu mais valioso vestido e parte, a cavalo, através de uma floresta, para realizar a missão a ela confiada. Acompanhando-a, segue ao seu lado, Ingeri, uma criada tida como filha adotiva do casal Töre, que se acha grávida.

No caminho, ao passarem por um culto de magia, Ingeri diz à Karin que vai voltar, por achar que anoitecerá antes que elas consigam chegar à igreja. Decidida a atender ao pedido dos pais, Karin segue em frente sozinha. Enquanto isso, movida por um enorme ciúme que sente da jovem, Ingeri participa de um ritual do culto a Odin, com a intenção de que algo de mal ocorra à Karin. Em seguida, passa a acompanhá-la, mantendo uma certa distância da jovem.

Ao encontrar dois pastores de cabras e um garoto, Karin os convida para dividir uma refeição que sua mãe havia preparado para ela. Em seguida, é agredida sexualmente pelos dois homens, os quais, após estuprá-la, a matam com um porrete. Ingeri, impotente, assiste a tudo.

Quando a noite cai, ironicamente os criminosos vão pedir comida e abrigo aos pais de Karin. São recebidos cordialmente e, depois de acomodá-los, Töre lhes promete trabalho. Märeta mostra-se nervosa, pois a filha ainda não retornou da igreja, mas o marido tenta tranqüilizá-la dizendo-lhe que em outras ocasiões Karin dormiu no lugarejo.

O temor da mãe se concretiza quando um dos pastores, sem imaginar onde se encontram, tenta vender, à Märeta, um vestido que alega ter sido de uma irmã dele. Ela reconhece o vestido de sua filha e, controlando-se, promete-lhe pensar no assunto. Ao falar com Töre, os dois têm certeza do triste destino da filha, pois a peça acha-se suja de sangue.

Ao encontrar-se com Ingeri, Töre toma conhecimento dos detalhes do brutal ataque sofrido pela filha, que a levou à morte. A jovem pede-lhe perdão por se sentir culpada pelo ocorrido à Karin. Movido por um forte sentimento de vingança, Töre mata os criminosos.

Na manhã seguinte, guiados por Ingeri, todos seguem até o local onde se encontra o corpo de Karin. Enquanto Märeta abraça-se ao corpo da filha, Töre, em sua crise de desespero, interroga Deus sobre os motivos que o levaram a permitir tamanha tragédia. A seguir, entretanto, ele implora seu perdão por seus pecados e promete construir, com suas próprias mãos, uma igreja no local, em penitência por sua vingança sanguinária.

Ao retirarem o corpo de Karin, surge milagrosamente uma fonte de água exatamente no local onde o mesmo se encontrava.

Crítica

Uma lenda medieval sueca inspirou a fábula “A Filha de Töre em Vangé”. “A Fonte da Donzela”, por sua vez, foi baseada nessa fábula. Realizado pelo grande mestre do cinema sueco, Ingmar Bergman, sua trama gira em torno de uma jovem adolescente e virgem que, ao ser estuprada e morta, faz surgir milagrosamente uma fonte de água no local do crime.

Soberbamente fotografado em preto-e-branco por Sven Nykvist, parceiro de Bergman em inúmeros filmes, esta magnífica produção carrega consigo uma mensagem de fé e esperança do homem, mesmo depois de passar por uma enorme tragédia.

Como em diversos outros filmes de Bergman, temas como a violência, a vingança e a necessidade de redenção acham-se presentes. Aliás, raramente tive a oportunidade de, no cinema, ver tais temas serem tratados com a delicadeza impressa por este consagrado cineasta em “A Fonte da Donzela”. A religiosidade e a presença de Deus, dois outros temas recorrentes na obra de Bergman, acham-se igualmente presentes.

Retirado daqui.

Carta aberta ao judoca português Pedro Dias

Sabemos, Pedro, que tu tinhas uma questão pendente com o João Derly. E que questão! O povo brasileiro tomou conhecimento anteontem que, no ano passado, enquanto tu fazias compras no centro de São Paulo com a mãe de João Derly, ele se divertia no hotel com tua namorada brasileira. Sim, é um fato triste na vida de qualquer homem. Por este motivo, o fato de o teres vencido e eliminado das Olimpíadas de Pequim te deu um prazer e um gosto todo especial.

Porém, amigo Pedro, ouça o que tenho a te dizer. Essas coisas não se contam publicamente. Todo o Brasil está agora se divertindo com o português trouxa e, depois da informação, tua grande vitória tornou-se apenas uma vingancinha de corno. Tsc, tsc, tsc. Por favor, tenha um pouco mais de dignidade, Pedro. Tu fizeste bem a primeira parte: foste lá e eliminaste o João do torneio que ele mais desejava vencer. Pedro, tu tiraste a medalha do gajo que é bicampeão mundial! Ali, no tatame, realizaste tua vingança. Esta, para ser digna, deveria ser silenciosa e finalizada somente por um leve sorriso. E fim. É assim que se faz. No máximo, deverias ter dito ao João, privadamente:

– A vingança é um prato que se come frio.

Isto seria perfeito. Mas não. Resolveste humilhar publicamente João Derly. Erraste. Todo o país está rindo da esperteza do gaúcho que comia tua namorada enquanto fazia comprinhas com, com… logo com a mãe de teu mau amigo! Posso imaginar a cena.

– Pedro, não querias fazer compras em São Paulo?
– Sim, umas poucas coisinhash de que pr`ciso.
– Olha, minha mãe pode te acompanhar. E… Quanto à X, deixa ela dormindo.
– Ah, Derly, muito t` agr`deço. Mas não extarei atr`apalhando a sinhora tua máe?
– Não, que idéia! Darás um prazer a ela. Ela já adora fazer compras. Imagina então com um cara bonito como tu…

Tudo bem, Pedro, foi uma traição. Mas acho que quando a gente é traído, deve resolver a coisa internamente, não nos jornais. Esta tua declaração…

– Tinha uma questão pendente com ele. Já fomos amigos, mas agora somos só conhecidos. Se é uma questão de saias? Pode dizer-se que sim, mas o assunto ficou hoje tratado.

… foi de total infelicidade. Ficaste tão encantado (e burro) que não apenas reduziste tua grande vitória como tomaste um pau na rodada seguinte e também ficaste fora das Olimpíadas. Enquanto isso, João dizia-se inocente, que era invenção e que gostaria de conversar contigo a respeito. Pedro, ele voltou a ficar em vantagem. Nota zero para ti. Invalidaste tua desforra.

Aprenda a ficar calado e a não aceitar convites para sair com a mãe do amigo, gajo. Só se for para dar uns amassos na véia.

Grande abraço.

De bandana, Pedro Dias esconde seus ornamentos enquanto acaba com Derly.

Medo de Dentista

Hoje, às 18h, eu vou à dentista. Eu tenho horror a dentistas.

Não tenho medo de cirurgias, de altura, de avião, do Grêmio, de ratos, de insônia, da velhice. Tenho medo é de dentistas.

Às 18h. São 13h30 e só penso no que me fará a Dra. Simone daqui 4 horas e 30 minutos. Uma enorme obturação — quase 100% do dente — quebrou e hoje ela será refeita. Fui lá na semana passada e ela me disse hum, vai dar canal. Então me botou aquela coisa gélida no dente e quase me atirei pela janela. Sorte que pude pensar antes, o consultório é no 22º andar. Surpresa com a dor que eu tinha sentido, ela respondeu então não vai dar canal. Canal? Ficou louca? Nunca fiz tratamento de canal e só ouvir uma expressão dessas já me provoca pânico e desarranjo.

Meus pais eram ambos dentistas e sempre preferi fazer os tratamentos com meu pai (cirurgião-dentista), já falecido. Ele parecia me compreender melhor. O trauma começou lá na minha infância, quando minha mãe – que era…, bem, odontopediatra -, começou a eliminar minhas cáries. Hoje sabemos que uma mãe NÃO DEVE ser a dentista de seu filho, mas, nos anos 60, essa noção não era tão clara. A criança que eu era nunca entendeu porque a pessoa que mais amava neste mundo insistia com aquelas torturas. Era ela quem ligava aquela coisa giratória e de som insuportável em mim. Mas o pior era a emissão secundária de um ventinho frio, úmido e dolorido que me penetrava boca adentro e que me fazia automaticamente gritar, chorar e mexer as pernas. Hoje não faço mais fiascos, mas internamente choro e não entendo porque não me amam.

Morei muitos anos com meus pais em uma grande casa de dois andares. A família morava no andar de cima e o térreo servia para as atividades de nosso DOI-CODI. Com uma mãe odontopediatra, podia ouvir durante o dia os gritos, o choro e a indignação das criancinhas seviciadas. Não sei como ia tanta gente lá, eles estavam sempre com o consultório lotado! Ficava surpreso com a cordialidade com que os adultos mutilados se despediam de meu pai, quando acharia mais natural que praguejassem violentamente e buscassem reparação ou vingança. Mais surpreendente ainda era a reação cordial das mães das crianças às ações de minha mãe.

Hoje estarei na cadeira com a suave Dra. Simone. Ela é bonita e, apesar de perigosíssima, não parece. É um tipo mignon; tal como minha mãe, é magra e mede 1,55m, no máximo. Gostaria de suplicar-lhe cuidados maiores que o normal. Quando lhe falei sobre meus medos, ela riu muito e fiquei imaginado que crueldades poderiam estar escondidas sob cada ha que ouvia. Ha, ha, ha. Qual é a graça? Acordei pensando nela, louco para desmarcar a hora, ainda mais quando abri o jornal e ele dizia, inequivocamente: 13 de agosto. Disse isso para minha mulher que, após a tradicional inspeção feminina sobre quem seria a tal Dra. Simone e porque eu justamente a escolhera, ironizou falando alguma coisa sobre homens medrosos que ficam 10 anos sem ir ao dentista e que, com 50 anos, só vão uma vez fazer o tal exame de próstata, enquanto as mulheres, etc., chega! Despediu-se perguntando se eu não desejava que ela fosse junto para segurar minha mão…

Decididamente, as pessoas não são sérias.

Alexander Soljenítsin já tinha morrido

Foi chocante a acolhida que teve a morte de Soljenítsin na imprensa nacional e internacional. Ninguém o lia, mas todos repetiram que tratava-se de um portentoso escritor, algo como um Tolstói, do qual na verdade só possuía a barba. A lista de seus livros era repetida e sistematicamente elogiada, quase sempre com as mesmas palavras. Ninguém o lia, repito, pois o escritor, morto no último dia 3, já estava literariamente morto e enterrado, sobrando apenas o importante “autor geopolítico”. Como li mais de sete daqueles intermináveis livros, posso dizer que, estatisticamente, TODOS os que escreveram nos grandes jornais e nos blogs nunca tiveram uma obra de Soljenítsin por perto. Mas apenas Sérgio Rodrigues confessou.

Seu primeiro livro foi o único realmente bom. A pequena novela Um Dia na Vida de Ivan Denísovich, de 1962, é uma contida e por isso mesmo pungente crítica ao stalinismo. A obra veio à tona durante o processo de desestalinização promovido por Kruschev e tornou-se um merecido sucesso. É uma novela. Depois dela, Soljenítsin escolheu como base a forma do romance do século XIX anterior à Dostoiévski e muito anterior à Tchékhov. E, além de antiquado, suas obras tornaram-se expressão própria do escritor, disfarçados como documentos históricos do período soviético. Mas são mais Soljenítsin do que qualquer outra coisa; ou seja, eram da lavra de alguém que vivia num planeta todo seu.

Sua expulsão da União Soviética, ocorrida em 1974, criou grande constrangimento entre os que o acolheram. Seu primeiro discurso fora da URSS já apontava para alguém meio amalucado que, na verdade, defendia os regimes de exceção, mas um regime de exceção bem particular, uma fantasia russa, moral e religiosa. Ou seja, como escreveu Sérgio Rodrigues no TodoProsa, Soljenítsin cavou seu próprio e imediato ostracismo ocidental. Este discurso de 1978, proferido em Harvard, demonstra que o homem tinha posições políticas só compreendidas por ele e, talvez, por mais meia dúzia de doidos varridos.

Na sociedade ocidental de hoje, revelou-se a desigualdade entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más ações. Um estadista que queira realizar algo importante e altamente construtivo para seu país precisa agir cautelosamente, até mesmo timidamente; existem milhares de críticos afoitos e irresponsáveis à sua volta, o parlamento e a imprensa o rechaçam. À medida que avança, ele é obrigado a provar que cada um de seus passos é consistente e absolutamente impecável. (…) Desse modo, a mediocridade triunfa sob a desculpa das restrições impostas pela democracia.

A defesa dos direitos individuais chegou a tais extremos que tornou a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos. Chegou a hora, no Ocidente, de defender menos os direitos humanos e mais as humanas obrigações.

O criminoso pode ficar impune ou ser tratado com leniência indevida, apoiado por milhares de defensores públicos. Quando um governo começa uma luta sincera contra o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Há muitos casos desse tipo.

Aqui, temos o enlouquecido (e repressivo) discurso por completo.

Arquipélago Gulag, Pavilhão dos Cancerosos, Agosto 1914, O Primeiro Círculo e outras são obras enfadonhas e repetitivas de um escritor que foi apoiado fora da URSS apenas em razão de suas posições simpáticas àquilo que desejava o Ocidente: o fim da União Soviética. Deixo de fora da lista o aceitável O Carvalho e o Bezerro, livro que li com algum prazer. É notável o fato de que Soljenítsin possa fazer estatísticas dos campos de concentração, mesmo sendo inteiramente cerceado. Já imaginaram algum inimigo da ditadura militar brasileira publicando minuciosas estatísticas de prisões e mortos? Soljenítsin fazia! Como conseguia? O que ele lia? Quem lhe dava acesso à informações tão privilegiadas e circunstanciadas? Ora, me desculpem, mas garanto que tudo aquilo partia da imaginação do moço e do desejo que a maioria de nós, ocidentais, tínhamos de que fosse verdade. Soljenítsin fazia ficção. Sempre.

Seu país ideal era a Rússia pura de antes da Revolução e as inimizades que arranjou entre os próprios dissidentes soviéticos às vezes pareciam cômicas. Shostakovich fugia de Soljenítsin. Achava-o um grande chato e, quando ele anunciava sua presença na casa do compositor — pois, em sua guerra santa, costumava impor o horário sem desejar saber sobre disponibidade alheia — Shostakovich e sua esposa Irina sumiam dentro de um algum cinema. (Sim, sei que Maxim, o filho do compositor, foi ao funeral e disse palavras elogiosas. Li bastante a respeito.)

Uma vez, Shostakovich assinou uma petição que solicitava a libertação do compositor grego Mikis Theodorakis. Para quê…! Alexander ficou uma arara vociferando que Dmitri estava se preocupando com problemas que não lhe diziam respeito. Depois disso, em resposta ao silêncio de Shostakovich, ao invés de seguir elogiando o compositor como fez em O Carvalho e o Bezerro, passou a atacá-lo com críticas notável embasamento técnico: passou a dizer que “a música de Shostakovich entrava por um ouvido e saía pelo outro”… Pobre Soljenítsin; a música de Dmitri cada vez é mais ouvida, já os livros do Prêmio Nobel…

Grosso modo, havia três correntes de oposição na União Soviética pós-1970:

1. A de Sákharov, Tviordokhlébov e Shalídze com o Comitê de Defesa dos Direitos Humanos: algo razoável, democrático;
2. A do escabelado Soljenítsin que apenas era compreendida por ele e recriada livremente no ocidente: tinha caráter religioso e de retorno ao passado;
3. A dos irmãos Medviêdev, historiadores que desejavam “o retorno ao maxismo-leninismo puro”: corrente com a qual Shostakovich teria mais afinidade, certamente.

Após a expulsão da URSS, o ocidente pode ter finalmente contato com o Soljenitsin real. Ele apoiava Pinochet. Ele deu uma entrevista à televisão espanhola na qual fez a apologia do regime franquista, ao mesmo tempo que lançava críticas aos “círculos progressistas”, ou seja “a oposição democrática” de liberais, sociais-democratas ou comunistas. Ele pediu, em 1976, para que os EUA voltassem ao Vietname, desta vez para vencer. Ele discursou, em 1974, para que os EUA interviessem em Portugal; etc.

Mais valorizado fora do que dentro da Rússia, fica de Soljenítsin a corajosa figura pública de oposição ao regime soviético. E talvez Ivan Denísovich. O restante de sua obra é de valor histórico e político. E só. Como digo no título, Alexander Soljenítsin já tinha morrido, voltou a agitar-se no início de agosto e agora deverá ir diretamente ao paraíso no qual tanto acreditava.

Do Leitor Normal

Os últimos resultados obtidos pelo Sport Club Internacional têm feito seus torcedores reagirem das mais diversas maneiras: há os que se deprimem e têm dificuldades até para sair de casa, há os que caminham sem rumo pela rua falando sozinhos e há os que — identificando-se completamente com o clube — passam a fazer a apologia do secundário, procurando solapar tudo aquilo que é grandioso e perfeito. Este é o caso do professor de literatura Luís Augusto Fischer e ele escolheu o veículo jornalístico mais notório de nosso estado para divulgar seu problema.

No artigo chamado O Leitor Normal, publicado há algum tempo na Zero Hora, o Prof. Fischer escolheu — com imenso despudor — duas vítimas de primeiríssima linha: Thomas Mann e Franz Kafka. Argumenta ele que a obra A Montanha Mágica de Thomas Mann seria um livro chato, arrastado, lento, pré-cinema (?) e ilegível para o leitor normal e sugere que Kafka seria um autor desprovido de bom humor e auto-ironia. Talvez o autor pense que as repetidas reedições de A Montanha Mágica e das obras de Kafka sejam devidas apenas a masoquistas e a entediados especialistas em literatura.

Prezado Prof. Fischer, o Sr. não é um leitor normal, o Sr. publicou e organizou diversos livros, é uma pessoa conhecida e respeitada; o leitor normal sou eu, que não vivo de literatura, que não tenho produção cultural, que trabalho o dia inteiro e que, em meus horários livres, leio uns livrinhos por aí. Do alto de minha autoridade de Leitor Normal, digo-lhe que, dentre os livros que amo, incluo A Montanha Mágica e quase toda a obra de Kafka. Sei que é um abuso, mas vou procurar lhe expor algumas características deste romance de Mann e da produção de Kafka.

Um dos principais assuntos de A Montanha Mágica é o tempo. A “ação” se passa dentro de um sanatório, onde há apenas médicos, pacientes e funcionários. É a representação de uma Europa enferma e vacilante logo após a Primeira Guerra Mundial. O livro é de 1924 e todos nós sabemos o que aconteceu depois na Alemanha e Europa. As discussões, muitíssimas vezes agressivas, ocorrem num ambiente onde impera a modorra e o tédio. Este enfraquecimento do senso de tempo, — expressão de Mann — deve ter sido tão bem trabalhado pelo autor, que o Sr. começou a dormitar e a pular páginas e páginas, tal como, em seu artigo, confessa ter feito. Deve ter pulado os luminosos capítulos Neve e Passeio pela Praia, devia estar tonto de sono durante as sensualíssimas cenas entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat e não imagino o que fazia enquanto Naphta e Settembrini se matavam a discutir.

Já chamar Kafka de opressivo, sisudo, vetusto e funéreo é apenas fazer eco a um dos lugares comuns mais equivocados. Esta declaração soa como chamar Kafka de kafkiano, ou como chamar todas as personagens femininas de Balzac de balzaquianas. É respeitar um adjetivo, deixando de lado o sujeito. Posso citar de memória uns dez trechos de Kafka onde há bom humor e auto-ironia. Será que no livro mais famoso deste autor não há auto-ironia? Será que não há um pingo de auto-ironia numa história em que o narrador acorda e vê-se transformado em inseto? Será que não haveria uma pitada de auto-ironia se o Prof. Fischer escrevesse uma história como a que segue? “Num belo dia de outono, Luís Augusto, ao acordar, viu-se vestido de chuteiras, calção e camiseta do Grêmio…”. Está bem, concordo que é antes um pesadelo dos mais tenebrosos, mas não haveria auto-ironia nele?

Confusão na Ossétia do Sul

Mais uma guerra. Agora da Rússia contra a Geórgia, tudo por um território onde vivem 70.000 ossetianos e que é 1,5 maior do que Luxemburgo. Os ossetianos do sul querem pertencer à Rússia, pois os ossetianos do norte já estão lá, são da mesma etnia e vivem melhor. Isso dizem os russos, porque a Geórgia, além da Ossétia e da também insurgente Abecásia, tem uns oleodutos e gasodutos bem legais. Então, fica mais interessante a questão da Ossétia do Sul e da Abecásia. Mas a Abecásia fica à noroeste e ainda não está no centro das notícias. Quem está é a Ossétia do Sul que quer unir-se à do Norte. Esta, a Ossétia do Norte, faz fronteira com a Chechênia, cuja capital não é Clitória e sim Grosny.

O problema que vejo em toda esta confusão étnica é que o Ministro do Interior da Geórgia, que também faz fronteira com a Chechênia, chama-se Shota Outiachvili. Este tipo de informação não pode cair nas mãos de Marconi Leal ou do Ao Mirante, pois então todos desconsiderarão a situação dramática da região para morrerem de rir.

O Anônimo Célebre, de Ignácio de Loyola Brandão

Estou relutante em escrever minha opinião acerca deste livro. Não gosto de SÓ ficar falando mal das coisas. É a história de um cara que faz tudo para tornar-se famoso. Já li e vi coisas muito melhores no gênero arrivista. Loyola tentou ser engraçado e sou um cara que gosta de rir. Tinha tudo para dar certo. Pois ele não conseguiu nenhuma risada. Fazer o quê? Não sei onde foi parar o tal “Realismo feroz” que mestre Antonio Candido com toda a razão (para variar) viu em Loyola no passado. O homem foi sumindo depois de Zero

As Olimpíadas de Pequim, seus narradores e circunstâncias

De quatro em quatro anos, temos a chateação olímpica. Hoje pela manhã, já tivemos Galvão Bueno substituindo o jornal matinal, que já não é grande coisa, mas é mais variado. Galvão, normalmente desinformado a respeito de tudo o que não seja Fórmula 1 (*), narrava o jogo de futebol feminino entre Brasil e Alemanha, que acabou em 0 x 0. Uma droga. Francamente, é um período frustrante para o consumidor de esportes. Aquele monte de modalidades, cada uma exigindo conhecimentos que nossa imprensa não domina e nem procura aprender é das coisas mais lastimáveis, apesar da comicidade involuntária que às vezes surge. O lutador cai, o locutor grita “ippon!” ou qualquer palavra que saúde o homem que permaneceu em pé, mas o juiz dá a vitória para quem está no chão… Uma desgraça. O judô e uma série de esportes são coisas para especialistas, não podem ser descritos por neófitos. Outro fato desagradabilíssimo é a oferta nauseante de esportes inteiramente diferentes entre si. A gente está vendo as eliminatórias dos 800 m rasos e a TV corta para apresentar a sensacional final do pólo aquático, onde só se vêem os jogadores do peito para cima… Uma beleza. Mas o ápice visual é o tiro ao alvo, esporte especialmente televiso, onde não se vê absolutamente nada dinamicamente, só se ouve um estampido e vê-se um furo num pedaço de papel. Ou não.

Como se não bastasse, esta Olimpíada traz junto de si a questão da falta de liberdade na China, porém, como os EUA e todo o mundo gostam do comércio com a China não se falará muito em Direitos Humanos. Já sobre o Tibete… Ai, que saco! O mundo parece subitamente obstinado em recriar um país teocrático. O Ocidente vê o Tibete como uma maravilha localizada no telhado do mundo — quase saindo para fora –, que seria governado por monges bonzinhos, não fosse o malvado governo da China. OK, sou sensível àquilo que tem relação à identidade cultural de um povo, mas só há problemas no idílico Tibete da China? E alguém acredita mesmo no Nirvana representado por uma sociedade dedicada à paz e à sabedoria mesmo que a história do Tibete só nos mostre matanças, Dalais Lamas apoiados pelo exército chinês e um feudalismo recente apoiado em milhares de servos e escravos? Sim, escravos! Sim, uma teocracia brutal. No Tibete dos anos 50, o escravo que roubasse uma ovelha receberia a punição de ter seus olhos vazados e uma das mãos mutiladas… Sim, os Dalais Lamas são bons e nos mostram uma filosofia de vida super, só que do ponto de vista medieval.

A vereadora e candidata à prefeitura de São Paulo Soninha Francine (PPS-SP), a Soninha da MTV, da ESPN e da Folha, é budista e já escreveu sobre o Tibete, depois de ver o filme de Annaud. É impossível discutir com quem só vê pureza, elevação e altos conhecimentos — de auto-ajuda? — nos Dalais Lamas. É óbvio que lá ocorreu um genocídio e que hoje a China tenta destruir a cultura do país à fórceps, o que não entendo é esta mania de Tibete. Por que não a Chechênia ou o Leste do Congo? E os palestinos que foram retirados de suas terras por um inimigo que exibe-se como vítima, que é mais popular no Ocidente e que chama de anti-semita quem fique indignado com as mortes palestinas? Bem…

Voltemos à chateação do evento multi-hiper-esportivo. OK, um homem vai lá e dá dez tiros na mosca. Aplausos e medalha de ouro para o homem de boa mira. Observemos o vôlei e comparemo-lo com o homem dos tiros. No vôlei, são disputados muitos jogos que envolvem um sexteto e mais seus reservas. Há fases classificatórias, pontos decisivos, um estresse espetacular e, no final, a equipe de verde a amarelo ganha o torneio. Aplausos e uma medalha no quadro geral. Uma medalha? A mesma do homem de boa mira que nem suou muito para acertar seus tirinhos de brinquedo? Sim. Eu, se fosse do Comitê Olímpico Brasileiro, daria um monte de dinheiro para o boxe. Sim, o boxe tem categorias aos montes, distribui um monte de medalhas e como a violência tem sido uma especialidade de algum destaque em nosso país, esta poderia ser direcionada para algo mais sistemático. Já pensaram quantas medalhas viriam? Outra providência seria criar e treinar algumas equipes de badminton. A gente poderia destinar o Acre, o Piauí e Tocantins como pólos do badminton nacional. Rio Branco, Teresina e Palmas viveriam o esporte e, de quatro em quatro anos, seriam manchete nacional. (Ora, se é para escrever bobagens preconceituosas, também sei!).

Então não falemos mais em Olimpíadas como um todo, tá? Falemos talvez de forma individual em alguns torneios interessantes, como vôlei, futebol, tênis e… esgrima? E esqueçam essa coisa de boicote. Só aceito boicote se derem uma paulada na China, outra em Israel, outra na Rússia, etc. OK?

Fazendo uma análise dos atletas da competição, achei interessante esta brasileira:


É a Jaqueline Carvalho, do volei. Ah, e a Ana Ivanovic estará presente!

(*) Está todo mundo tirando o maior sarro da minha cara porque eu pensava que o Galvão entendia muito de F1. Na verdade, eu é que não entendo patavina do dito esporte e fui enganado pelo homem do “Bem, amigos”. Peço desculpas pela ignorância crassa.

Lula em Bagé

Depois de tirar foto com poncho e boina e ainda empolgado com aquele comovente discurso em que nos informou, pela primeira vez, que tem vergonha na cara, o presidente Lula foi tomar um cafezinho num bar da sete de setembro, a principal rua de Bagé.

Lá defrontou-se com um gauchão, já meio mamado, que puxou assunto:

— E aí, presidente, dizem que em Brasília a situação tá mais quente que frigideira sem cabo.
— O Corinthians ganhou do…
— Mas o povo, aqui em Bagé, anda mais sobressaltado que cozinheiro de hospício.
— Fique calmo. Com o companheiro Meirelles no Banco Central, não tem crise.
— Presidente, eu sei que cusco não se mete em briga de cachorro grande, mas é verdade que o senhor cortou mesmo o mensalão?
— A minha assessoria já emitiu nota oficial sobre esse assunto.
— O Roberto Jefferson disse que os deputados ficaram de boca aberta, como burro que comeu urtiga.
— Isso de mensalão não existe neste país.
— Bah, mas o Roberto Jefferson sabe das coisas! Ele é mais informado que gerente de funerária.
— Se alguém errou, tem que pagar.
— Presidente, me desculpe, eu sou mais grosso que papel de enrolar prego, mas o que o senhor fez não tem sentido. Os pobres deputados já estavam acostumados com a mesadinha. Ficaram mais atazanados que galinha agarrada pelo rabo.
— Eu estou tranqüilo! Neste país ninguém é mais ético do que eu! Está ouvindo?
— Calma, presidente! O senhor me parece mais nervoso do que potro com mosca no ouvido.
– Me respeite! Tenho um diploma do Senai que vale mais do que muito doutorado.
— Concordo. Meu irmão, que se formou na faculdade, é mais chato que chinelo de gordo. Mas, voltando à vaca fria, me diga: porque o Zé Dirceu anda mais ansioso que anão em comício?
— O companheiro Zé Dirceu está recolhido, preparando sua defesa.
— O José Dirceu vivia alegre, dando ordem pra todo mundo, mas agora anda mais nervoso que velha em canoa. Não fala mais com a imprensa. Está mais calado que guri que se borrou nas bombachas.
— Fique sabendo que, doa a quem doer, eu vou cortar na minha própria…
— E o Delúbio na CPI? Estava mais escorregadio que telefone de açougueiro. É um bicho matreiro. Se fez de leitão pra mamar deitado. Simpatizei com ele, mas aquele goiano é mais falso que idade de mulher.
— Enquanto não surgirem provas, o companheiro Delúbio Soares é inocente.
— E aquele tal de Sílvio Pereira? Falava mais rápido que enterro de bexiguento. Não entendi nada do que ele disse. Ou não disse.
— No momento oportuno, no fórum adequado, os companheiros apresentarão suas defesas.
— E o carequinha? O tal de Marcos Valério de Souza parecia mais assustado que barata atravessando galinheiro. Acho que ele estava com medo de sair de lá preso.
— O PT é o PT e o governo é o governo…
— Os jornais estão dizendo que, nos dias de pagamento, no Banco Rural, se juntavam por lá mais assessores do que corvos em carniça de vaca atolada.
— Isso é maldade dos tucanos. FH tem inveja do meu maravilhoso governo.
— Pode ser. Fernando Henrique é mais manhoso do que gato que quer pegar passarinho. Ele disse que, no que se refere a tocar o governo, o senhor é mais vagaroso do que tropeiro de lesma.
— Vamos mudar de assunto. FH me deixa irritado.
— Está bem. Dizem que o senhor ficou muito amigo do Severino. Que andam juntos pra todo lado, mais grudados que cocô em tamanco de leiteiro. É verdade?
— O companheiro Severino merece o maior respeito. É nordestino e pobre como eu.
— Estou sabendo, mas tome cuidado! O Severino é mais esperto que cavalo de contrabandista. Dizem que ele é mais ligado do que rádio de preso.
— Será que o companheiro gauchão poderia me deixar em paz?
— Mas, bah, é claro. Sei que o senhor anda sofrendo mais que joelho de freira em Semana Santa. Me desculpe, mas eu gosto de espichar assunto. Minhas conversas são mais compridas que trova de gago. Mas eu não resisti: o senhor é um homem mais conhecido do que parteira de campanha e aí, eu…
— Me dê licença. Agora, vou pegar o Aerolula. Estou em cima da hora.
— Sei como é. Todo político é apressado que nem cavalo de carteiro.
— Fui!

Texto de Lourenço Cazarré, jornalista e escritor gaúcho.

Obs.: Agradeço ao Milton Saad por ter enviado este texto e aproveito para dizer que ele tem pé mais frio do que china fazendo ponto no inverno. Explico: ontem, ele, colorado como eu, foi assistir Inter 0 x 1 Santos com a minha carteira de sócio e viu que Robinho é mais liso que Delúbio em CPI.

Um Fígado para Roberto Bolaño (Final)

Os livros modernos que mais amamos nascem da confluência e do choque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar e de estilos de expressão. Ainda que o desenho geral tenha sido cuidadosamente planejado, o que conta não é a construção de uma figura harmoniosa, mas a força centrífuga que libera, a pluralidade de linguagens como garantia de uma verdade imparcial.

ITALO CALVINO, Seis propostas para o próximo milênio

Roberto Bolaño é fácil de ler. Sua prosa é fluida e bem humorada até quando descreve o bizarro, a desgraça e o patético. Só que esta opção pela clareza parece ser um artifício para nos colocar problemas abismais e demonstrar uma realidade dividida e ramificada de tal maneira que precisei recorrer a esquemas gráficos para entender quem conhecia quem e o que quando li Os Detetives Selvagens. Mas a tentativa não melhorou minha leitura e desisti. É estranho como a orelha da edição da Companhia das Letras involuntariamente diminui a obra. Dizer que o livro é sobre a procura de dois poetas, Arturo Belano e Ulises Lima, por uma terceira, a misteriosa Cesárea Tinajero, é o mesmo que dizer que Os Irmãos Karamázovi discute apenas quem, afinal de contas, teria matado o velho Fiódor…

Os Detetives Selvagens tem 3 partes. A primeira, de mais ou menos cem páginas, uma longa segunda parte de 500 páginas e uma terceira, um epílogo curto. Apesar da esplêndida introdução, o que interessa está na segunda parte: esta é formada de textos escritos na primeira pessoa do singular. São mais de 50 narradores que se alternam para contar a história dos personagens e outros fatos que aparentemente não tem muito a ver. Eles são extremamente envolventes, apesar de quase sempre finalizarem de forma abrupta, como um Tchékhov enlouquecido que resolvesse retirar não um, mas os dois ou três últimos parágrafos. A gente fica… com vontade de ler o próximo, que é, normalmente, sobre outro assunto envolvente e que novamente nos deixará na mão. É claro que nos acostumamos e acabamos por achar divertido o autor que nos tira o pão da boca. Só que o efeito geral da obra é devastador. Quando você se afasta do livro, acaba descobrindo que as narrativas complementares estão se afastando do plot, ao invés de formar um todo tranqüilizador. O romance é minuciosamente descontrolado por um homem de visão nada indulgente para com toda aquela turba. O resultado de toda a alegria de viver demonstrada é o desencanto e é mais, é o horror do vazio.

Tudo é parcial e tem múltiplas significações no mundo falsamente simples de Roberto Bolaño. Para referenciar o vazio, Bolaño recorre, como me ensinou a Meg, à hipérbole, ou seja, a intensificar a vida de forma inconcebível, de forma a negá-la. Explicando melhor, Bolaño escreve infinitamente suas belas histórias sem origem nem fim, preenchendo infinitamente todos os espaços ficcionais com sua prosa agradável e de inícios e finais abruptos, conseguindo, com isso, negar seu preenchimento, mostrando o inconsolável vazio de seus inteligentes e simpáticos personagens. De que outra forma apreenderíamos o vazio senão valendo-se da hipérbole? Mais: Bolaño utiliza-se brilhantemente de repetições, só que elas são normalmente imprecisas, diferentes, perturbadoras.

Não estou com o livro a meu lado, mas creio que a única história onde o horror é descrito de forma direta é uma das mais belas que já li: o episódio de Auxilio Lacouture. Trata-se do seguinte: quando a Universidade Autônoma do México foi invadida pelo exército em setembro de 1968, Auxilio decidiu permanecer no banheiro, onde já estava, resguardando o último reduto de autonomia universitária. Ela lê um volume de poesias, e às vezes observa e ouve os militares que cuidam para que ninguém entre na Universidade. Permanece ali por vários dias (não lembro quantos), em plena resistência e com “uma certeza meio vaga” de que ia morrer. Não morreu, tornando-se uma heroína aos olhos de alguns amigos, enquanto outros duvidavem da história. (Depois, a uruguaia Auxilio transformou-se em protagonista do romance Amuleto (1999), mas este é outro assunto).

Mas por que, céus, escrevi quatro posts sobre Bolaño? Porque acredito que seu projeto literário seja realmente importante e pode ter continuidade sob a mesma ou outras formas; porque acho que os jovens que o lêem com tanta dedicação têm razão; porque acho que Bolaño é um escritor que finalmente escreve para o futuro e não repisa experiências gastas; porque tenho certeza que ele desejava ser popular e lido; porque ele foi um vanguardista que se preocupava em não ser um serial killer de leitores e porque ele era humano o suficiente para dizer que escrever era…

Correr por el borde del precipicio: a un lado al abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida.

ROBERTO BOLAÑO – Discurso quando do recebimento do Prêmio Rómulo Gallegos

Obs.: As citações de Calvino e Bolaño constantes neste post foram retiradas deste trabalho de Rafael Gutiérrez Giraldo.

Um Fígado para Roberto Bolaño (III)

Em 2004, achei que era brincadeira quando li que um certo chileno chamado Roberto Bolaño morrera em julho do ano anterior, aos 50 anos, em Barcelona. Até aí, tudo bem, as pessoas morrem jovens e é uma injustiça mesmo; mas é que vários jornais e revistas lamentaram o desaparecimento de um dos três principais autores contemporâneos da América Latina. Os outros eram García Márquez e Vargas Llosa. Roberto Bolaño? Quem é, ops, quem era? Esqueci do assunto até que a Companhia das Letras anunciou o lançamento de Noturno do Chile. Comprei-o logo. Resultado: engoli o livro num final de semana e, penso agora, que Susan Sontag não estava brincando quando disse que Noturno do Chile é o que há de melhor e de mais precioso.

A seguir, deixo para vocês duas críticas sobre o livro. Volto nos primeiros minutos de amanhã para comentar Os Detetives Selvagens, livro que li no final do ano passado e que não me sai da cabeça. Ah, a primeira crítica é de Adelto Gonçalves e saiu na Gazeta Mercantil:

São Paulo, 27 de Novembro de 2004 – A morte do escritor chileno Roberto Bolaño em 2003, por insuficiência hepática, aos 50 anos de idade, em Barcelona, interrompeu prematuramente uma carreira literária que já o colocara entre os maiores autores da literatura de um país que já teve dois ganhadores do Prêmio Nobel – os poetas Pablo Neruda (1904-1973) e Gabriela Mistral (1889-1957).

Quem duvida que leia “Noturno do Chile” (Nocturno de Chile), que acaba de ganhar tradução em português de Eduardo Brandão pela Companhia das Letras, de São Paulo, um apaixonante monólogo interior de um padre crítico literário às vésperas da morte. Embora não se deva confundir a persona com o seu autor, é impossível deixar de ver no religioso Sebastián Urrutia Lacroix um alter ego e, no texto, um acerto de contas do escritor com o seu passado.

Bolaño estava em plena atividade literária: em 2001, havia publicado o livro de contos “Putas asesinas” (Barcelona, Alfaguara) e era autor de “La pista de Hielo”, “Llamadas telefónicas” e do romance “Los detectives salvajes” (1998), com o qual obteve o Prêmio Rómulo Gallegos. Mas a notoriedade, ele havia obtido mesmo com o livro “La literatura nazi en América” (1996). Bem, a rigor, isto é o que se informa na edição brasileira, o que leva o leitor que não conhece Bolaño a imaginá-lo um autor de poucos títulos.

Não é. Ainda em 2002, Bolaño lançou o romance “Amberes” (Barcelona, Anagrama) e “Una novelita lumpen” (Barcelona, Mondadori), breve romance que conta a história de uma jovem que, a partir da morte dos pais num acidente automobilístico, converte-se na “mãe” do irmão menor, reorganizando o sentido de sua existência – aparentemente, também um romance de formação, pois, claro está, é inspirado na vida atribulada de um chileno desarraigado por força da situação política em seu país.

Em 2000, Bolaño publicou pela editora “El Acantilado”, de Barcelona, o livro híbrido “Tres”, que está dividido em três partes: “Prosa del otoño en Gerona”, “Los neochilenos” e “Un paseo por la literatura”. A primeira e a segunda partes estão em prosa e a terceira, em verso, um poema narrativo que inclui personagens, diálogo e histórias que contam uma viagem ao Norte do Chile, Peru e Equador por um grupo musical de jovens na faixa dos vinte anos e de seu cantor, o mais maduro deles. O poema emprega endecassílabos, octassílabos e heptassíbalos, deixando entrever que foi escrito para ser falado em voz alta.

De 2000 ainda é a segunda edição do romance “Estrela distante” (Barcelona, Anagrama), que ganhou tradução francesa em 2002 (Étoile distante). Seu tema é inspirado no último segmento de “La literatura nazi en América” (“Ramírez Hoffman el infame”) e recupera os anos de 1968 e de 1973 no Chile, especialmente em relação a sua literatura e seus poetas.

Depois de ter saído do Chile com a família para o México em 1968, Bolaño retornou em 1973, entusiasmado com os rumos do país sob o governo socialista de Salvador Allende, mas, depois do golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet, ficou detido.

Libertado por um amigo de infância, seguiu para o exílio e, depois de uma passagem por El Salvador, radicou-se na Cidade do México, onde criou o grupo de vanguarda Infra-Realismo e passou a publicar poemas. A partir de 1977, estabeleceu-se na Espanha e lá permaneceu até o fim, pois retornar ao Chile ao tempo de Pinochet equivalia a uma condenação à morte.

Noturno do Chile é um romance que, publicado na Espanha em 2000, ganhou tradução em 2002 na Inglaterra e nos Estados Unidos e em 2003 na Itália. Escrito em linguagem que contagia o leitor desde o início, não tem divisões nem segmentações.São 118 páginas com apenas dois parágrafos – aliás, o segundo, inspirado em Norman Mailer, diz apenas o seguinte: “E depois se desencadeia a tormenta de merda”.

O narrador, testemunha do tempo que precede o assalto ao poder pelo general Pinochet e seus sequazes, repassa a sua vida num monólogo febril, reconstruindo na memória dois momentos especiais da vida chilena – antes e depois do golpe. Lacroix é um religioso ainda aferrado aos dogmas da Igreja, que não dispensa a sua batina surrada, usando-a como se fosse uma bandeira.

Jovem talentoso, entra para a elite das letras chilenas pelas mãos de Farewell, o crítico literário mais respeitado do país e também proprietário rural. Vários escritores chilenos – e alguns estrangeiros – são citados com seus nomes completos ou sob pseudônimos. Críticos importantes do jornalismo chileno da segunda metade do século XX também surgem disfarçados como Alone e Nicasio Ibacache, personagens que apareceram pela primeira vez em “Estrella distante”.

Há ainda uma alegoria anagramática em dois personagens – Odeim e Oidó (medo e ódio em espanhol escritos de trás para a frente) -, empresários de comércio internacional que convidam o padre para fazer um trabalho na Europa: visitar igrejas de referência em matéria de soluções antidesgaste, estudar as técnicas de conservação, cotejar os distintos sistemas e escrever um relatório.

De volta da Europa, Lacroix encontra o país convulsionado pela crise do governo de Salvador Allende, pressionado pela conjuntura financeira internacional e pela burguesia assustada com suas promessas socialistas. O religioso, porém, passa a ignorar o que corre pelas ruas, fechando-se em casa para ler freneticamente autores gregos. Depois do golpe, curiosamente, é contratado pelos novos donos do poder para dar aulas de marxismo a ninguém menos que o general Pinochet e seus companheiros de junta militar.

Com um ponto de vista ético irônico e malévolo, o memorialista recorda uma festa entre intelectuais ao tempo da ditadura Pinochet num casarão localizado nos confins de Santiago, de propriedade de uma ricaça candidata a escritora, Maria Canales, casada com um norte-americano, Jimmy Thompson.

Lá pelas tantas, um teórico da cena de vanguarda, um tanto bêbado em busca de um sanitário, descobre no porão da casa um homem amarrado numa cama metálica, de olhos vendados, ainda vivo, a respirar com dificuldades, cheio de feridas, “supurações, como eczemas, mas não eram eczemas, as partes maltratadas de sua anatomia, como se tivesse mais de um osso quebrado”. Soube-se, depois, quando chegou a democracia, que Thompson havia sido um dos principais agentes da Dina, a sanguinária polícia política de Pinochet, e que usava a sua casa como centro de interrogatórios e torturas.

Com a descrição de casa dos horrores, o memorialista compõe a metáfora do Chile que lhe coube viver, um país hoje organizado economicamente, às portas do seleto clube do Primeiro Mundo, mas que, pela insânia de seus generais e das elites nacionais e estrangeiras que os financiaram, teve de descer ao inferno e viver um pesadelo que haverá de perturbar o sono de todos os chilenos por várias gerações.

Ao reconstituir a vida social e literária do Chile da segunda metade do século XX, às vezes, de maneira sedutora e, outras, de modo corrosivo, Bolaño não faz só mais uma denúncia política da tragédia latino-americana de nossos dias, mas revolve o esterco de que é feita a espécie humana.

A segunda é de Francisco Foot Hardman e foi publicada na Folha de São Paulo:

São 110 páginas num só fôlego, por isso mesmo num só parágrafo. Imagine que você está mal, não lhe resta muito tempo, e agora mesmo deva passar em revista todos os acontecimentos de sua desafortunada existência, você que foi poeta e crítico literário de ponta, que serviu à inteligência do país como poucos de sua geração. Imagine-se no lugar deste protagonista agônico, padre Lacroix. Sua memória confunde-se com a da história do país, “entre um descampado e um crepúsculo interminável”. Não há mais testemunha do seu solilóquio: há apenas este fantasma renitente do “jovem envelhecido” que lhe perturba as imagens, afeta o juízo. “Noturno do Chile” pode ser lido como uma elegia para um país impossível, para uma pátria literária que é só pesadelo e contra-senso.

É possível falar de “literatura chilena” após Pinochet?, parece-nos indagar Roberto Bolaño, atualizando os termos de Adorno, mas desviando o discurso da metalinguagem filosofante, da novela-ensaio, em prol de uma ficção que corrói todas as ilusões de estéticas redentoras ou de romances da denúncia catártica. Ficção do real arruinado pela contra-revolução na América Latina, definida pelo autor em conto recente como “o manicômio da Europa”. Ao que acrescenta: “O manicômio, há mais de 60 anos, está queimando em seu próprio azeite, em sua própria gordura”. Literatura “visceral-realista”, como costumou-se chamar, no mundo hispano-americano, a corrente de poetas e escritores exilados, entre os quais Bolaño, que se formou no México, em meados dos anos 70. Denominação adequada porque a aspereza dessa prosa torrencial incorpora-se às sensações corporais mais primárias.

A violência é internalizada em imagens rápidas e ríspidas, tragicômicas, absurdamente triviais em sua cotidianidade, que, num repente, irrompem como um soco no estômago capaz de quebrar nossos automatismos perceptivos, mas sem nunca transpor o limiar de suas terríveis cadeias, de seus equívocos sinistros.

Se “Noturno” consegue enfrentar o duro dilema da ficção pós-desastre no Chile, “Estrella Distante” (1996) tinha sido o romance inaugural dessa linhagem, trazendo para a primeira cena os efeitos da repressão genocida sobre toda uma geração, não como prática social ou política, mas como experiência mental e corpórea imediata. Já nos ótimos contos de “Putas Asesinas” (2001), saídos um ano depois de “Noturno”, a marca que perpassa é a da memória deslocada pelo exílio, “o calor de uma certa desmedida”, que é o vagar sem rumo dessas escrituras de proscritos.

Tendo vivido metade de sua vida na região de Barcelona (Roberto Bolaño morreu no ano passado, com 50 anos, e lá viveu desde 1978), é “visceral” mesmo sua desconfiança com respeito à instituição literária, sobretudo no que diz respeito à construção de mitologias e martirológios nacionais. O vigor incisivo de sua prosa espiralada não redime nenhuma das ilusões de uma nacionalidade fundadora, seja antes, durante ou pós-era Pinochet.

Em “Noturno”, a narrativa investe contra o mundo dos artistas (a personagem María Canales é casada com um agente norte-americano da Dina, o temível órgão de repressão e tortura), críticos (na figura de Farewell, autoridade absoluta do mundo literário chileno, cujo declínio já se insinua no nome) e poetas (desconstruir o mito Pablo Neruda é um dos esportes favoritos dos narradores de Bolaño).

Também a Igreja Católica não passa incólume, nessa presença em muitos lances patética do padre Lacroix, membro da Opus Dei: contratado por dois comerciantes obscuros (os senhores Odem e Oidó, anagramas respectivos de medo e ódio, detalhe muito bem apanhado pelo tradutor brasileiro, Eduardo Brandão), ele oferece aulas introdutórias e clandestinas de marxismo à junta militar golpista, apoiado, entre outros textos, no manual de materialismo histórico da chilena Marta Harnecker, hit das esquerdas latino-americanas dos anos 60 e 70.

Mas “Noturno do Chile” não é libelo, nem pote amargo. Se a paisagem é a da noite elegíaca de uma barbárie que ultrapassou os portais do absurdo, e a atmosfera ronda sempre o pesadelo, sobra entretanto humor, imaginação, erudição literária e um lirismo que se espraia em detalhes só acessíveis a um escritor que começou a escrever, viveu e morreu como poeta, no epicentro de terremotos que solaparam as utopias de sua geração. Cujos rostos talvez se pareçam com o desse “jovem envelhecido”, “fantasma”, ternamente admissível, contudo, se não pretendermos continuar o vôo cego.

(o final será publicado nos primeiros minutos de amanhã, sexta-feira)

Um Fígado para Roberto Bolaño (II)

E então, após sua morte, os livros de Bolaño começaram a vender cada vez mais. Há muito Bolaño nos blogs de língua espanhola e <em>Os Detetives Selvagens</em> e <em>Estrella Distante</em> são os preferidos de meus colegas. Alguns deles traçam linhas de continuidade e conexões entre <em>Os Detetives</em> e <em>O Jogo da Amarelinha</em> de Julio Cortázar ou <em>Adán Buenosayres</em> de Leopoldo Marechal. Falam não apenas das qualidades literárias de Bolaño, mas de suas obsessões como a eterna busca de personagens perdidas, amores e cidades. Li <em>Os Detetives Selvagens</em> na virada deste ano, mas como minha leitura d`<em>O Jogo</em> data de mais de 30 anos, não consigo estabelecer tais conexões, apesar de não ignorar que qualquer livro que contenha 50 ou mais narradores deva alguma coisa à Cortázar…

Santificado hoje e diabólico ontem, Bolaño se comprazia em fustigar seus inimigos literários. Ele os depreciava de frente, não obedecendo aos habituais salamaleques. Sobre Isabel Allende disparou: “Digo calmamente que Allende é má escritora. Para qualificá-la como escritora, uso de certa indulgência, pois nem isso ela é”. Isabel respondeu: “Dei uma olhada a dois de seus livros e eles me entediaram profundamente”. Até aí, tudo normal. A novidade é que, quando Bolaño morreu, Allende seguiu firme: “Não o lamento. É uma pessoa que nunca disse nada de bom a respeito de alguém. O fato de estar morto não o faz melhor. Era um senhor bem desagradável”. Isabel Allende foi bastante exagerada ao escrever que seu conterrâneo nunca disse nada de bom sobre alguém.

“Skármeta é um personagem televisivo. Sou incapaz de ler qualquer um de seus livros. Sua prosa me vira o estômago”, torpedeou Bolaño. O colombiano Fernando Vallejo respondeu pelo colega afirmando que a prosa de Bolaño é demasiadamente simples, plana, elementar, do tipo “Eu, Tarzan; tu, Jane”.

Bolaño teve problemas também com Diamela Eltit. Eu, Milton, os acho tremendamente cômicos… Ela o convidou para um jantar em sua casa. OK. Só que depois, ele publicou uma impiedosa crítica a um livro de sua anfitriã e aproveitou para também fazer referências à péssima gastronomia oferecida pela autora, dando detalhes. “Este é um tema sobre que prefiro não tocar. O que se passou foi algo absurdo e hipertrofiado. Bolaño morreu e eu prefiro não dizer nada a respeito”.

Bolaño deu também tiros que alcançaram o Brasil, atingindo Nélida Piñon e Paulo Coelho…

<em>Hace poco, Nélida Piñon, celebrada novelista brasileña y </em>serial killer<em> de lectores, dijo que Paulo Coelho, una especie de Barbusse e Anatole France en versión telenovela de brujos cariocas, debía ingresar en la Academia brasileña, puesto que había llevado el idioma brasileño a todos los rincones del mundo. Como si el “idioma brasileño” fuera una ciencia infusa, capaz de soportar </em>(sobreviver a)<em> cualquier traducción, o como si los sufridos lectores del metro de Tokio supieran portugués. Además, ¿qué es eso de “idioma brasileño”? Idea tan desmesurada como si habláramos del idioma canadiense o australiano o boliviano.</em>

Javier Cercas, autor de <em>Soldados de Salamina</em>, romance onde Bolaño é personagem, sustenta que há dois tipos de lendas em torno de Bolaño. Uma que foi construída pelos leitores e fãs e outra criada pelo próprio autor, voluntária e involuntariamente. Diz Cercas que ambas não se ajustam à realidade, mas que a de Bolaño é, em certo sentido, “mais real que a realidade” e que a outra é uma quase mentira ou uma mentira com elementos de verdade. O escritor espanhol enumera fatos em favor de uma construção mítica em torno de seu amigo: morreu jovem; morreu no melhor momento de sua carreira; morreu e foi recebido pela de braços abertos pela tendência que os meios literários possuem de falar bem dos mortos (com fartas cotas de hipocrisia — exceto Allende, claro). “A história da literatura está cheia de exemplos de canonização após uma morte prematura. Mas o que acho assombroso é que o mesmo homem que escreveu <em>A Pista de Gelo</em>, escreveria 3 anos depois <em>Estrella Distante</em> e seis anos depois <em>Os Detetives Selvagens</em>. É estupefaciente que, entre 1996 e 2003, ano de sua morte, ele tenha evoluído e escrito tanto!”.

Eu me pergunto se Bolaño sobreviverá a isto. Hoje, a única pergunta que cabe é se Bolaño é genial ou extraordinário. A última entrevista concedida por Bolaño foi para Mônica Maristain, da Playboy mexicana; ela perguntou: “O que você diz daqueles que pensam que <em>Os Detetives Selvagens</em> é o melhor romance mexicano de todos os tempos?”. Ele respondeu: “Dizem isto de pena. Me vêem decaído e desmaiando em praça pública e não lhes ocorre nada melhor do que uma mentira piedosa, que é o mais indicado nesses casos. Não é pecado fazer isso”.

Graças a boa relação existente entre o editor Jorge Herralde (Anagrama) e a família de Bolaño, chegaram às livrarias em 2007 textos que formaram mais dois livros: <em>El Secreto Del Mal</em> e <em>La Universidad Desconocida</em>. Também chegou um livro de poemas: <em>Los Perros Românticos</em>. Jorge Herralde foi amigo, editor e promotor da obra de Bolaño. E hoje é mais: é quem garante a subsistência de sua mulher e filhas, cuidando para que os direitos autorais cheguem a elas. Cumpre o que prometeu ao escritor antes de sua morte. Foi e é, repito, um amigo.

<em>(continua amanhã com comentários sobre obras de Roberto Bolaño)</em>

<small>Fontes consultadas: Livros de Bolaño, Caderno de Cultura do Clarín de 22/09/2007 e blogs hispano-americanos.</small>

Um Fígado para Roberto Bolaño (I)

Alguns o vêem como o sucessor de Borges e Cortázar, outros como um autor intranscendente e plano, porém, indiferente a quaisquer avaliações, segue engrossando o culto a Roberto Bolaño na América de língua espanhola.

Ícone chileno, mexicano, argentino e espanhol, ele tem multiplicado seus leitores de forma permanente e os que o lêem parecem ser tomados pelo vírus de tal forma que passam logo ao estado de fãs e seguidores. Para nós, brasileiros, é estranho que um autor de alta qualidade seja incensado pelo grande público; afinal, estamos sob uma vaga de ignorância tão grande que é bastante desconfortável saber que os grafiteiros destes países costumam escrever nos muros das cidades: “¡Un hígado a Bolaño!”. Aqui, Paulo Coelho, Marcelino Freire e Bruna Surfistinha; logo ali, atravessando a fronteira, Roberto Bolaño.

Além da América espanhola, ele está sendo traduzido com sucesso para a Europa e Estados Unidos. Busca-se mais contos, romances e poemas do autor cujas cinzas foram jogadas por sua mulher e filhas no Mediterrâneo em 2003.

Bolaño era chileno, mas se reconhecia como “autor latino-americano”. É compreensível: teve vida breve, nasceu em 1953, viveu largas temporadas no México e na Espanha — o golpe de Pinochet, por exemplo, aconteceu quando morava com sua família no México — e sua morte ocorreu em Barcelona.

Enrique Villa-Matas diz que a morte de Bolaño fechou uma vida destinada a tornar-se uma lenda. Ele está certo e é por este fato que estou escrevendo a série de quatro artigos que começo aqui. Minha motivação é a de comprovar que talento, coragem, idealismo e loucura, características tão raras na era do politicamente correto e do incontroverso, são absolutamente necessárias à arte.

Sua morte prematura aos 50 anos — enquanto esperava, em Barcelona, um fígado para transplante — foi o último ato da formação de um mito para o qual Bolaño contribuiu de forma direta. Morreu em 14 de julho de 2003 no hospital Valle de Hebrón. Passou 10 dias em coma por complicações hepáticas enquanto esperava em vão. Deixou textos para publicação póstuma e outros inconclusos. Estava preocupado com o futuro de sua mulher e das filhas. Entre os papéis deixados havia os cinco grandes textos que deveriam – e formaram – o estupendo romance 2666, que gira em torno de um escritor desaparecido (Benno von Archimboldi) e onde há cenas que descrevem o horror dos feminicídios em Ciudad Juárez, onde as mulheres parecem ser caça.

Mas voltemos à biografia do autor.

Roberto Bolaño nasceu em Santiago do Chile em 1953. Com 13 anos, mudou-se com sua família para a Cidade do México. Ali, praticamente morava dentro da Biblioteca Pública. Permanecia tanto tempo lendo que, pasmem, não terminou a escola média nem entrou para a universidade. Curiosamente, hoje existe a cátedra Roberto Bolaño na Universidade Diego Portales de Santiago… Em 1973, caiu Salvador Allende e Roberto retornou ao Chile de carona, com a intenção de unir-se à resistência contra a ditadura que se instalava. Foi preso. Salvou-se graças a um amigo, ex-colega de colégio, então já milico, que o reconheceu e conseguiu liberá-lo. Ano depois, diria que não falava sobre política pois “os que detém o poder, ainda que por pouco tempo, não sabem nada de literatura”. Porém, a literatura ocupa-se do político e Bolaño viria a escrever o brilhantíssimo, premiado e inteiramente político Noturno do Chile.

Em seu regresso ao México, juntamente com o poeta Mario Santiago Papasquiaro –- a inspiração para a criação do personagem de Ulises Lima, o amigo de Arturo Belano do romance Os Detetives Selvagens — fundou o movimento poético infra-realista que se opôs dissonante e ferozmente aos principais pilares da literatura mexicana, representada especialmente por Octavio Paz.

“Poderíamos dizer que o infra-realismo o moldou como escritor e romancista, mas também o México teve importância nesta transformação. Ela amava o México noturno, o México das ruas e dos cafés, a fala cotidiana e seu indiscutível humor desencantado. Não é casual que seus dois maiores romances – Os Detetives Selvagens e 2666, sejam centrados no México”, escreveu o escritor Juan Villoro.

Anos depois emigrou para a Espanha, onde já vivia sua mãe. Colheu uvas em alguns verões, trabalhou como vigilante noturno em Castelldefels, foi balconista de armazém, lavador de pratos, faxineiro de hotel, estivador, lixeiro e recepcionista até tornar-se escritor em tempo integral.

Como todo apaixonado por literatura, também foi um hábil ladrão de livros, quando não tinha dinheiro para pagar por eles. (Tal fato, que destaco em parágrafo especial, talvez sirva de atenuante para os articulistas de vida pregressa plena de roubos nunca descobertos…).

(continua)

Fontes consultadas: Livros de Bolaño e o Caderno de Cultura do Clarín de 22/09/2007.

Porque hoje é sábado, Micaela Reis

O problema é que me deparei…

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com um fato notório e triste: …

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… poucos negros — afrodescendentes, afrodescendentes! — são consenso de beleza.

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Mesmo atrizes como Halle Berry têm poucas fotos disponíveis e, dentre as brasileiras, se nem Maria Fernanda Cândido…

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… tem fartura fotos por aí, o que se espera de uma Taís Araújo? Pois uma africana veio em meu socorro.

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(Torces para o pouco simpático FC do Porto, Micaela? Times de cor azul não são boa coisa…)

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(Reduziste teu peito? Pô, Micaela, peito a gente só estabiliza e aumenta!)

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Voltando a nosso assunto, Micaela Reis é uma angolana de 19 anos que começa a fazer furor fora de seu país.

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As revistas e blogs portugueses gostam de dizer que ela é o verdadeiro diamante angolano.

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É uma metáfora bastante infeliz vinda de quem explorou e enriqueceu levando as ricas minas do país.

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Lendo publicações angolanas, notei que o país orgulha-se da “bonita e inteligente moça de menos de 20 anos” …

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… e expressam o desejo de que ela não vá além do implícito “para o bem da vasta maioria de angolanos que não se revê na venda do corpo”.

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Viram? Os angolanos pensam de uma maneira bem portuguesa, já colocando objeções morais prévias…

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… que não parecem encontrar ressonância nem na genitora da beldade.

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Viram como são as coisas? A mamãe quer o explícito, …

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… os comentaristas querem a miss (ela foi vice no Miss Universo de 2007).

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E você, caro navegante, quer o quê? Hein?

Diários de Motocicleta

Vi o filme de Walter Salles no último domingo. Foi um dia chuvoso que acabou lindo, ensolarado. Fui ao cinema com meu filho Bernardo, de 13 anos, e acabei encontrando lá, por coincidência, minha irmã acompanhada de minha mãe. O Bernardo é um novíssimo apreciador de cinema que já me confidenciou mudanças radicais em sua forma de ver filmes. A maior prova disto foi a surpreendente declaração de que, hoje, vê mais méritos em Cidade de Deus que em O Senhor dos Anéis. (Nas entrelinhas, vocês devem ler minha baba.)

Para quem não sabe do que se trata, o longa-metragem mostra a viagem de motocicleta realizada em 1952 pelo jovem estudante de medicina Ernesto “Che” Guevara de la Serna (Gael García Bernal), de 23 anos, junto com o amigo bioquímico Alberto Granados (Rodrigo de la Serna), de 29. O roteiro é baseado nos livros escritos respectivamente pelos dois: De Moto pela América do Sul e Con el Che por Sudamérica.

Gostei muito do filme. É um road-movie muito bem dirigido, com imagens belíssimas e atores em desempenhos impecáveis. Roberto Maxwell escreveu em seu blog que Walter Salles revela-se um humanista. Concordo inteiramente. O olhar interessado que Salles lança sobre todos os seus personagens dá ao filme surpreendente grandiosidade. É um diretor sensível e raro. Raro ao impor-se a dificuldade de fazer um “filme de formação”, isto é, de documentar artisticamente a tomada de consciência e o crescimento das convicções dos personagens principais. A forma mais simples seria a de partir para as pedradas panfletárias, mas WS é muito inteligente e esteta para cair nesta tentação. Quando o filme começou, até temi que viessem diálogos que parecessem saídos de alguma antologia de aforismos socialistas. Mas isto não ocorreu; Ken Loach estava longe daqui. A atuação e o entendimento da dupla Gael García Bernal e Rodrigo de la Serna é perfeita. Em cena, eles sempre se mostram dignos de seus personagens, adotando a esperada postura de jovens idealistas e inteligentes, acrescidos daquela acidez de humor tão comum entre nossos amigos argentinos e uruguaios.

Em minha opinião, o melhor filme de Walter Salles ainda é o pouco visto O Primeiro Dia, realizado logo após o super visto Central do Brasil, mas agora Diários de Motocicleta vai para o segundo lugar. No final do filme, minha irmã estava muito emocionada, com os olhos meio marejados. Eu também. O final do filme é para isto mesmo, mas meu motivo era o de ver 3 gerações de nossa família saindo calma e casualmente do cinema, ouvindo o Bernardo dizer que queria aprender espanhol. E o motivo dela, qual seria?

Noites Florentinas, de Heinrich Heine

Noites Florentinas HeineNoites Florentinas, de Heinrich Heine (1797-1856), é um livro surpreendente. Publicação póstuma, é de notável contemporaneidade, antecipando procedimentos que teríamos de volta somente 70 anos depois, com Isak Dinesen. Refiro-me especificamente à intromissão a todo momento de uma poesia muito pouco comedida, às histórias que surgem dentro das histórias, à simbologia e à aparente livre associação dos fatos. Quanto às duas últimas, talvez seja melhor acolher um conselho da própria Dinesen e aceitar que, numa história, não é adequado compreender tudo.

Achei que o livro estivesse mais para o cômico, pois o excelente tradutor Marcelo Backes salienta bastante este aspecto na introdução. Na verdade, as Noites Florentinas devem ter sido um divertissement para Heine e são lúdicas, muito lúdicas para o leitor de hoje. Por exemplo, é muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade – uma mulher – contava histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian – um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. Além da história se passar ao pé do leito, o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. Mas a mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, seguido pelo toque dos lábios de Max nos pés de Maria, e ainda pelo “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos faz sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação.

O trabalho do tradutor Backes é impecável. O desafio de traduzir uma obra do século XIX, tendo que dar ao texto uma feição antiga, foi cumprido com naturalidade. Usando uma expressão da música erudita, diria que ele possui perfeito senso de estilo. Para comprovar, basta ver a diferença entre o Backes da introdução e o Heine-Backes do texto de Noites Florentinas. A edição é da gaúcha Mercado Aberto. Vale a pena ler!

A Maria Luiza e a anárquica Tina

Minha mãe completou 81 anos no dia 5 de julho. Seus 81 foram melhores que os 80 e os 79. Em seu último período no hospital, pensei (pensamos) muitas vezes que ela não voltaria mais para casa. Só que, após o isolamento em que ficou devido a uma infecção respiratória, os médicos puderam reavaliar a medicação que tomava e esta foi super-reduzida. E descobrimos que grande parte de sua prostração ocorria pelo excesso de remédios; ou seja, ela estava dopada.

Não culpo os médicos; afinal, em fevereiro de 2007, ela passou dois meses internada e, cada vez que os calmantes eram reduzidos, tornava-se agressiva e gritava a ponto dos outros pacientes ficarem irritados… Certamente os que a atenderam desta vez –- Dr. Sérgio Loss, Dr. Barbieux e um certo Adriano que nunca vi -–, usaram de bom senso ao aproveitar este longo período de hospitalização para repensar todo o coquetel. O resultado é que ela está sorridente, calma e vígil, apesar da absoluta confusão mental. Aqueles que a viram com a cabeça caída sobre o peito e com o olhar vago, vão se surpreender com a nova primavera da Dra. Maria Luiza, a querida bobinha feliz que muitas vezes não me reconhece, apesar de sempre repetir que fico melhor de cabelo curto.

Ele retornou para minha casa no dia de seu aniversário. Pois, logo após a volta da Dra. Maria Luiza, recebi a notícia do falecimento da Tina Oiticica Harris, do blog Universo Anárquico, habitual comentarista deste blog e com quem tinha trocas de e-mails bastante agitadas e… anárquicas. Faria 56 anos no dia 9 e sempre convidava a mim e à Claudia para irmos aos EUA visitá-la e a sua família. Prometia deixar seus gatos num hotel para que não me incomodassem… Uma vez, ela se referiu ao fato de que as trocas de letras em seus textos eram devidas a uma hidrocefalia, mas o assunto parou por aí porque tínhamos piadas a inventar um para o outro. Não sei qual foi a causa da morte, ocorrida dia 7, dois dias antes de seu aniversário. A notícia veio através de um post escrito por seu marido. Ele, o americano Nicolas, tentava manter o bom humor enquanto nos narrava a notícia num português arrevesado. O texto começa assim:

Um aniversário bem anárquico, por Nicolas Rouquette

Não consegui dormir a três horas da manha hoje, o dia de o aniversário de 56 anos de mi Tinazinha gostozinha; Infelizmente, a grande Madame no besteirol esta indisponível para resolver para a gente nesse anacronismo bem anárquico do aniversário dela.

Que aconteceu?

E então narra os acontecimentos, finalizando assim:

Já tem com muito saudade de o único amante da minha vida. Agora entende melhor que a vida da Tina estava anárquica em muito aspetos. Si você tem uma historia que você pode escrever, me gostaria muito ler disso. Por favor, em memória dela, da uma consideração para escrever qualquer memórias gostosa da Tina como um “guest” nesse blogo.

Ora, Nicolas, todas as memórias que tenho da Tina são tão alegres, pontuadas de “blasfêmias” -– palavra que ela sempre usava para caracterizar a forma como eu me referia a quase tudo –- e de tudo que fosse politicamente incorreto que não saberia por onde começar. A Madame do Besteirol me chamava de o seu Bad Boy e a melhor lembrança dela foram os inúmeros comentários que aquele Curriculum Vitae recebeu. Nos e-mails, ela me contou que os traduzia para ti, Nicolas, e que vocês riam dos absurdos. Guardo uma bela lembrança dela.

Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll

BerkeleyOs livros de Noll quase sempre tratam do mesmo personagem: o próprio Noll. As características biográficas, físicas, étnicas e profissionais do tal personagem coincidem inteiramente com as do autor. No começo do livro, é impossível não sermos tomados de simpatia pelo personagem quando o mesmo declara sua extrema pobreza – vive apenas de literatura e de pequenos trabalhos correlatos – e com todos os fatos que o levam a aceitar dar um curso sobre “Cultura Brasileira” em Berkeley. Os fatos são descritos sumariamente. Estava envergonhado de “filar” inumeráveis almoços na casa dos outros, de pedir dinheiro emprestado, etc. Ao mesmo tempo, parece sentir alguma culpa por estar prestes a mamar na teta de uma universidade americana.

Então, ele aceita o convite para o curso e chega à California com menos de 100 dólares no bolso e sem saber falar inglês. Suas aventuras, primeiramente em Berkeley (para dar aulas) e depois em Bellagio (onde fica em uma “oficina criativa” em frente ao Lago de Como), poderiam ser bastante interessantes do ponto de vista humano, porém nosso autor está mais a fim é de descrever as aventuras sexuais. Tudo bem, o sexo faz parte da vida, mas não é, digamos, mais que 88% dela. Apesar de conviver com ensaístas, músicos, pintores e ficcionistas, nada de intelectual acontece. Já de sexual…. é do caralho. As lavanderias de Bellagio devem ter se surpreendido com os sucrilhos deixados nas cortinas de seus salões, pois o autor declara ter limpado seu pênis nelas.

Intermezzo: o personagem principal é homossexual, talvez o Noll também o seja, sei lá. Nada tenho contra a opção dele, mas sou totalmente contra as descrições pós-sexo que o autor nos impinge. Ora, depois de cada relação, a narrativa é atacada daquela indireção poética ao estilo de Clarice Lispector. A narração pós-ragazzo em Belaggio é longuíssima para o tamanho do livro e… é chata, chata, chata, como Clarice NÃO o faria.

O final do livro, quando o narrador retorna à casa em Porto Alegre é muito emocionante. O fato inesperado de estarem lá um ex-namorado pai-solteiro com sua filha é surpreendente e é também uma brisa depois do prolongado claustro. Tá bom, não é nada original aparecer uma criança ou uma jovem para dar uma refrescada e mudar o contexto da história, mas com o Noll a coisa funcionou. A vida também é assim, não?

Não sei porque voltei a ler o Noll. Não tinha gostado de outros livros lidos anos atrás. Acontece que o vi em uma entrevista na TV e gostei dele. Mas valeu a pena retomar o contato com sua literatura. Uma curiosidade: toda a vez que abria o livro vinha aquela baita saudade de ler Thomas Bernhardt, pois, quando via seu parágrafo único, lembrava-me de como aquilo poderia ser bom, se tivesse mais solidez, racionalidade e raiva. E um pouco mais de arte narrativa, é claro.