Tropa de Elite recebe o Urso de Ouro

Dez anos depois de Central do Brasil, Tropa de Elite repete o feito. Fico autenticamente feliz, pois este blog foi dos primeiros a defender o filme quando começaram as acusações de fascismo, etc. Tenho certeza de que o Arranhaponte e o Idelber devem ter ficado bem felizes. Acredito que nem eu nem eles precisemos de grifes para apoiar nossas opiniões, porém, como não somos cineastas, não vou deixar de utilizar o fato de o presidente do juri berlinense ser alguém que saberia reconhecer um filme fascista de longe: o diretor grego Constantin Costa-Gavras.

Tropa de Elite (ou Da Impossível Simplicidade), de José Padilha

Tropa De Elite

Observação: Resolvi ver o filme após ler a discussão que corria lá no Torre de Marfim. E valeu a pena enfrentar a enorme fila. É um bom e importante filme brasileiro. Minhas considerações são parcialmente influenciadas por diversos posts e críticas lidas por aí, então não esperem cem por cento de ineditismo. Começo desorganizadamente pela periferia e vou pouco a pouco entrando nas questões principais de Tropa de Elite. Ao final, copio, no melhor estilo Fausto Wolff (mas com o devido crédito), alguns trechos lidos que achei especialmente esclarecedores ou inteligentes acerca do filme.

I was not writing the Bible.

Resposta lacônica de Doris Lessing na Feira do Livro de Buenos Aires, em 1990, ao responder a uma leitora – de Veja?, já naquela época? – sobre o motivo do personagem X ter dito a Y aquela determinada frase presciente naquele determinado momento iluminado… Puf!

Não é o tipo de filme que normalmente me agrada; muitos personagens interessantes ficam inexplorados em troca da ação. Por exemplo, a esposa do Capitão Nascimento passa todo o filme repetindo a mesma ladainha – e, porra (desculpem, deve ser influência do filme), seu papel mereceria maior desenvolvimento, pois é ela quem cobra de forma peremptória a saída do marido do BOPE – e a burguesinha gostosa e correta poderia ser algo mais particularizada. Outra coisa que perturbou minha atenção é que eles suam o tempo inteiro. Parece um filme feito no insuportável verão gaúcho e não no calor bem mais seco do Rio. Talvez o drama e a tensão dos personagens devesse sair fisicamente por seus poros, mas com Wagner Moura, André Ramiro e Caio Junqueira atuando de forma soberba, nem precisava besuntar os atores. A tensão está na cara de todos eles. E por que a burguesa vivida por Fernanda Machado não sua tanto? Se os burgueses não sentem calor então por que compram tanto ar condicionado? Bom, OK.

Vale a pena discutir a acusação de que o filme seria fascista? Não fala em globalização, em Lula, não defende o capitalismo, a família, o patrimônio, nem os Estados Unidos ou Bush; vai sempre em linha reta sem proteger-se de eventuais assuntos espinhosos; Wagner Moura não tem nada de Stallone ou de Schwarzenegger e até obedece à esposa; não se fala de onde vem a droga e não há cartazes neo-nazistas nem de Che Guevara e muito menos resquícios de bolivarismo. Então…? Mais: na sessão em que assisti o filme, o público não aplaudiu ou aprovou as cenas de violência; ou seja, não me pareceu haver grande prazer em ver aquela violência tão pouco estilizada.

Maniqueísta? (Maniqueísmo: Doutrina que se funda em dois princípios opostos, antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo.) Maniqueísta? Mas quem é quem? E olha, mesmo que seja, considere que estamos no cinema, local onde o bem e o mal já travaram belas lutas e travarão outras, espero. O esquema mocinho-bandido é maniqueu, goste ou não você da palavra. E ponto. O foco narrativo do filme reforça o maniqueísmo ao partir exclusivamente do Capitão Nascimento – cuja mulher está grávida e que deseja deixar aquele serviço – e do BOPE. Trata-se de uma visão, portanto, parcial e emocionada, dentro de um tom que permanece longe do narrador onisciente a derramar-se em verdades. Então, mesmo dentro do esquema tradicional do the good and the evil, José Padilha expõe certas fragilidades de seu personagem, deixando-o à crítica, por assim dizer. Diferentemente do que faria um filme fascista a proclamar suas teses, ele nos apresenta um ser humano plenamente contraditório e que, portanto, pode ser contestado. É claro que nos sentimos identificados com o narrador – o filme infelizmente trata a bandidagem muito superficialmente -, mas nossa simpatia a priori abraça o narrador, sendo ele bonzinho como eu ou mauzinho como o Alex Castro.

O principal mérito do filme é o de não dar razão a ninguém. É como a vida. Sei que é muito complicado para alguns espectadores – e também para o leitor médio da revista Veja – entrar em contato com uma história deficitária em termos de sínteses intelectuais (sínteses que na verdade só servem para nublar a realidade e outras camadas de experiência que, sabemos, têm o glorioso costume de serem inesgotáveis). Ah, o leitor de Veja não deve chegar próximo a Tchekhov, pois o russo, tal como Padilha, expõe problemas, mas nega-se a resolvê-los. Fala, professor: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.” Obrigado pelo auxílio, Anton Pavlovitch. Ora pro nobis.

Há cenas brilhantes no filme.

1. A cena em que o inteligente Matias, finalmente metamorfoseado em homem violento da repressão – enfrenta diretamente o menino rico que liga-se ao tráfico e ao crime é uma espécie de recapitulação (*) do conflito externo. Fantástico. Ponto para Padilha.
2. A cena dos comprimidos, na qual o capitão Nascimento presumidamente evita matar-se com seus calmantes, jogando fora na pia o conteúdo do frasco. O conflito interno é demonstrado em cena curta e elegante. Mais um ponto para Padilha.

E há duas cenas lindas.

1. Na cena do nascimento do filho do Capitão Nascimento, Wagner Moura tem uma atuação absolutamente tocante, fazendo com que eu lembrasse de meus dois episódios semelhantes que ocorreram comigo. Principalmente do segundo, em que olhava para minha menina pensando no esforço que fizera para que aquilo acontecesse. Soma mais um para ele!
2. A cena em que são avaliados os policiais que participarão do Curso do BOPE: o elenco, como se estivesse brincando numa mesa de reuniões, improvisa uma série de piadas sobre os noviços. Tal cena lúdica, talvez tomada num ensaio, é um refrescante interlúdio para o espectador. Brilhante.

E três fatos que reforçam o estranhamento.

1. O capitão Nascimento é um profissional que ama sua família, mas…
2. O traficante Baiano despede-se da mulher e filha quando sabe que enfrentará o BOPE. É uma atenção meio tosca, mas é a autêntica e…
3. Não quer que seu rosto seja desfigurado por um tiro, pois quer estar adequado em seu enterro.

São homens preocupados com suas famílias. Seres humanos.

Copy and Paste:

Arranhaponte escreveu isso na citada Torre:

(…)Resgata a polícia da demonização desmiolada de uma certa intelligentsia, mas apenas para lhe fazer fortes reprimendas. Neste sentido, é um filme profundamente civilizatório.Eu quase diria que chamar Tropa de Elite de fascista é uma atitude fascista, por ser uma aposta na barbárie da rebeldia primitiva.(…)As pessoas que classificam o filme de fascista são aquelas caricaturizadas na aula sub-foucaldiana na PUC-Rio. Não apenas e necessariamente consumidoras de drogas, mas adeptas da visão do bandido como revolucionário primitivo, e da polícia como agente da reação. Tropa de Elite é um ataque do Bope ao miolomolismo desta gente. Porrada pura.

(…)

Não é o marginal como vítima do sistema, mas o policial como vítima e verdugo do sistema.

Grande Arranhaponte!

E Sergio Leo, invariavelmente exato, expõe certa loucura da mídia:

Na capa da Veja, leio que o sucesso do filme Tropa de Elite se dá porque finalmente, alguém “trata bandido como bandido”. Meu amigo Bode Orelana, analista político de plantão, me garante que o filme é bom, e que desnuda a engrenagem hedionda capaz de fabricar torturadores de boas intenções. Leio na Folha um rapper defender a tese imbecil de que o crime é um mecanismo de justiça social, e o Reinaldo Azevedo, em vez de desmontar o argumento, dizer, babando pelo canto da boca, que a democracia pede a supressão sumária de vozes como essa.

(*) Termo utilizado de forma análoga ao da música erudita (as sonatas têm três partes: exposição, desenvolvimento e recapitulação): Recapitulação é a seção que tem a função dramática de afirmar o tom original, após a transferência para a dominante no final da exposição.

Para que ser mais do que triste?

Um tenista genial tem uma lesão no quadril que o impede de seguir jogando competitivamente. Isto é uma notícia triste para o esporte, principalmente num país como o nosso, que dá atenção mínima a tudo que não seja futebol. É um pouco mais triste se o cara, mesmo rico e tendo ganho os maiores torneios mundiais, permanecia com o mesmo ar alegre, sorridente e amador, preocupado em ajeitar as cordas da raquete a cada saque e levando quase sempre seus erros no bom humor.

O que Gustavo Kuerten não deveria fazer é o que fez ontem, por exemplo. Após rolar e perder insistentemente em torneios de aspirantes, resolveu jogar o Brasil Open. Segunda-feira foi eliminado nas duplas e, ontem, levou um baile de Carlos Berlock, um obscuro argentino. Dois a zero. Não, Guga, em honra a sua biografia, você não deveria receber os aplausos penalizados de noite de ontem. Foi patético.

Se Guga ama o jogo a ponto de não conseguir afastar-se, deveria desistir das competições profissionais. Poderia fazer um belo jogo-exibição de despedida. Imagine um evento que reunisse outros grandes tenistas do passado recente como Alex Corretja, Magnus Norman, Patrick Rafter – por que não Sampras? – e outros, ao lado de Guga e do show-man Fernando Meligeni. Uma coisa bonita: além dos jogos, o bom humor que acompanha estes torneios e, num telão, vídeos das inúmeras vitórias de Guga. Seria uma despedida digna de um grande tenista.

Gustavo Kuerten merece ser melhor lembrado. Como o foi durante a transmissão do Aberto da Austrália no mês passado. Roger Federer estava levando – e levou – um surpreendente 3 x 0 de Novak Djokovic. O comentarista brasileiro foi consultar quando fora a última vez que Federer tinha sido derrotado desta forma inapelável e chegou a um Roland Garros de sei lá quantos anos. Ele disse meio que suspirando: o último que impôs tal placar à Federer foi Gustavo Kuerten… Houve um silêncio após o qual ouviu-se um “Que coisa!”.

É assim que ele deve ser lembrado.

P.S.- Deveriam proibir que os comentarios aos posts sejam melhores que os próprios… O que o Dr. Claudio Costa faz aqui é sacanagem…

:¬)))

Eu acho que falta de pudicícia é isso…

GuitarlessonMaiores explicações (ou não) estão primeiro aqui, depois ali e acolá. A gravura ao lado chama-se singelamente Guitar Lesson (1934) e causou certo escândalo ao mostrar uma púbere sendo molestada sexualmente por sua professora. Aprendam, meninos; isto sim é falta de pudicícia! A propósito, no próximo 29 de fevereiro fará cem anos que seu autor, Balthus (1908 – 2001), nasceu. Apesar disto, a produção de Balthazar Klossowski de Rola não era nada bissexta, era antes copiosa, cheia de meninas púberes em poses lânguidas. Mas não se enganem, foi um imenso pintor e sua produção é significativa e variada.

The Long and Winding Road

Às vezes, esqueço dos Beatles. Na semana passada, durante uma divertida reunião na cama com crianças, pipocas, refris e algumas discussões, resolvi recuperar uma velha fita de vídeo com o documentário de 5 horas que acompanhou o lançamento do Beatles Anthology. Este documentário, datado de meados dos anos 90, foi calando-nos um a um. Ficamos inteiramente concentrados nele. Eu, ouvinte quase exclusivo de música erudita; Claudia, que só quer saber de óperas ou música brasileira; Bernardo, meu filho, que está quase sempre ouvindo rock um pouco mais pesado e Bárbara, minha filha, que prefere música dançável e de diversão (ao estilo do B-52, por exemplo), assistimos a tudo fascinados. A explosão de juventude, alegria e criatividade representada por eles afeta qualquer um.

Abro o enorme livro The Beatles (da Revista Rolling Stone) que dei para o Bernardo e leio atentamente a introdução. Quem a escreve é Leonard Bernstein (1918-1990). Bernstein é uma figura única, pois além de ter sido respeitadíssimo regente de orquestra, foi pianista e um enorme compositor de música erudita. Como se não bastasse, escreveu musicais para a Broadway, sendo de sua autoria talvez o melhor deles, West Side Story, que recebeu no Brasil a impecável tradução Amor, Sublime Amor. Obviamente, é uma matéria paga, mas Bernstein era muito “inteiro” para colocar-se a serviço de algo que considerasse de segunda linha. Seu texto é apaixonado e demonstra algumas preferências curiosas. Diz que, em sua opinião, a melhor música do disco Revolver é She said, she said. Elogia também Eleanor Rigby (Revolver), Norwergian wood (Rubber Soul), Paperback writer (Single), She´s leaving home (Sgt. Pepper`s), Ticket to ride (Help) e quase todo o resto.

Também tenho as minhas. Considero obras primas While my guitar gently weeps, With a little help from my friends, For no one, In my life, I Will Follow the Sun, Helter skelter, Strawberry fields forever, The fool on the hill e mais cinqüenta outras.

Meu entusiasmo, portanto, é o mesmo. Os Beatles foram um grupo diferente. Normalmente os grupos abrigam apenas um bom compositor. Podemos tranqüilamente dizer que o Led Zeppelin representaria “A música de Jimmy Page”, enquanto o Oasis seria “A música de Noel Gallagher”, o Who “A música de Pete Townshend”, o último Pink Floyd “A música de Roger Waters”, etc. Já os Beatles têm três músicos que poderiam fundar grupos. E que músicos! A coincidência de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison terem nascido quase ao mesmo tempo em Liverpool e se tornado amigos na adolescência é notável e, penso, matematicamente irrepetível. É como se – guardadas as proporções para maior ou para menor – Chico Buarque, Caetano Veloso e Guinga resolvessem trabalhar juntos desde a juventude, competindo e brigando dentro de um grupo. E, se acrescentarmos a isto a presença do produtor, arranjador e pianista George Martin desde as primeiras gravações, chegaremos à conclusão de que os caras tinham muita sorte mesmo. E, para nossa sorte, todo o resultado está minuciosamente documentado – som e imagens -, como mostra o filme Beatles Anthology.

Milton Saad e Milton Ribeiro no MSN

Somos grandes amigos e às vezes temos conversas realmente malucas…

Saad – Apex diz:
MR

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
MS

Saad – Apex diz:
hoje à noite, como sempre, sonhei e adivinha só quem era o protagonista?

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
eu

Saad – Apex diz:
hehehe

Saad – Apex diz:
sim

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
O que fazia? Comia teu cu?

Saad – Apex diz:
não

Saad – Apex diz:
isso seria um pesadelo terrível

Saad – Apex diz:
te tornaste um escritor mundialmente famoso

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Hã?

Saad – Apex diz:
uma celebridade internacional

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
que bom, agora só falta a obra

Saad – Apex diz:
estavas em todos os canais

Saad – Apex diz:
e eu dizia, “é meu amigo”

Saad – Apex diz:
eu te ligava, para confirmar, mas tu não atendia

Saad – Apex diz:
ninguém acreditava

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
hahahaha Pensando o quê?

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
nem te conheço, meu chapa

Saad – Apex diz:
estavas no programa do Jô. Eu liguei, o telefone tocou no ar, tu olhou e desligou o celular, eu disse: “viram, era eu”. Todos, até minha mãe, disseram: “não era nada, foi acaso”.

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
muito bom, hein? Que sonho.

Saad – Apex diz:
o meu pai dizia: “Não me lembro se algum dia tu falou sobre o Milton Ribeiro, acho que não!”. Bah, eu ficava furioso!

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Que loucura. E que sacana era eu. Pô, mas eu te ligaria depois do Jô!

Saad – Apex diz:
pois é, sei lá. Liguei várias vezes, tu não retornava, porra

Saad – Apex diz:
tem que retornar

Saad – Apex diz:
é foda mesmo

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Fiquei famoso, sacumé. Devia estar ocupado com a Maria Fernanda Cândido, quem sabe.

Saad – Apex diz:
ahahahahahahahahaha

Um Carnaval

Todos, ou quase todos, foram para o litoral a fim de desfrutarem seus carnavais, mas ele ficara em Porto Alegre. Nesses dias, a cidade quente pode ser atravessada em poucos minutos de carro, pois fica esvaída de sua população. Ele sentou-se na cama, pensando nos filhos pequenos que estavam na praia com sua ex-mulher e nos jornais do dia seguinte com a tradicional foto da avenida vazia, o título “Cidade Deserta” e a seguinte legenda: “Foto da Av. Ipiranga às 16h de ontem, sábado de Carnaval”.

Pegou o telefone celular e revisou a agenda de contatos. O calor de 33 graus e a umidade alta eram desanimadores. Escolheu o número de uma colega de sua ex-esposa. Para sua surpresa, Maria respondeu:

— Alô?

Ele desligou o telefone, assustado com o fato de ter obtido contato tão rapidamente. Mas, logo, envergonhado, refez a ligação.

— Alô – repetiu Maria.
— Alô, gostaria de falar com a Maria.
— Sim, é ela.
— Aqui é o Artur, não sei se tu lembras de mim.
— Lembro, claro. Tudo bem?
— Tudo bem. Estava ligando para todos os números da agenda do celular atrás de alguém que tivesse ficado em Porto Alegre. Depois de muitas tentativas, cheguei a ti.
— Puxa! Ligaste para todos os números até o “M” e até agora sou a única sobrevivente do holocausto?
— Sim, a cidade foi abandonada.
— Bom, eu fiquei. Tenho alguns plantões a cumprir no hospital; por isso, não pude viajar.
— Estava querendo conversar.
— Bem, é o que estamos fazendo.

Essa última frase não era muito promissora, mas ele seguiu falando que nós, os últimos representantes da civilização porto-alegrense, não somos proibidos de nos encontrar para tentar matar este calor com uma cerveja.

Ela o surpreendeu fazendo um convite para que ele a visitasse:

— Não tenho nada de importante para fazer até o plantão de amanhã, ia ficar em casa vendo os desfiles na TV mesmo.

Ele registrou novamente a frase nada prometedora e perguntou:

— Marcamos para que horas?
— Pode ser agora.

Melhorou, pensou ele. Hesitou entre tomar ou não um banho. Tomou e saiu.

Sentados no sofá, travavam uma conversa assexuada. Ele tinha ficado um pouco decepcionado com o envelhecimento e aparente cansaço da amiga e pensava que ela havia notado seu desgosto. Porém, inesperadamente, Maria fixou seu olhar no amigo, enquanto ele tergiversava sobre a música de Bach e alguns de seus simbolismos matemáticos. Ele notou a mudança de postura e concluiu que ela não responderia a mais nenhuma afirmativa e que agora teria um longo solo pela frente. Enquanto lhe explicava que a arte da composição de Bach era tão perfeita que o alemão, por puro prazer de fazer bem feito, procurava sempre desafios adicionais para ser por eles testado, percebia a beleza dos braços de Maria, mormente durante o movimento que acabou por deixar seu cotovelo direito pousado no espaldar do sofá e que levou sua mão desde o colo até o queixo, a fim de apoiar aquele rosto que o observava fixamente, em silêncio. Vendo Maria tirar lentamente suas sandálias, ainda sem tirar os olhos dele, citou várias obras onde as notas B-A-C-H – como inequívoca assinatura – apareciam em seqüência e contou-lhe das referências escondidas a vários “fatos” bíblicos, como o dos trinta dinheiros. Durante a argumentação seguinte, que o levou à constatação de que os Concertos de Brandenburgo eram o grupo de concertos mais distintos em instrumentação e estilo da história da música, Maria – sempre com o mesmo olhar – ajeitou seu vestido e pôs o pé esquerdo sobre o sofá, deixando à mostra o pico lustroso do joelho. Então, finalmente, ele se deu por vencido. Estendeu o braço e segurou a mão esquerda de Maria. Ela arqueou uma das sobrancelhas, retirou a outra mão de sob o queixo e sorriu levemente.

— Se não pegasse a tua mão, tu não pararias de me olhar… – disse ele.
— Foi por isso que a pegaste? Para que eu parasse de te olhar?

Apesar do tom carinhoso, não era uma pergunta muito auspiciosa e ele preferiu deixar seu olhar vagar pela sala, sempre com a mão esquerda de Maria em sua mão direita. Resolveu que, inequivocamente, seria o momento de lhe dar um beijo, não poderia deixar passar aquele momento.

Quando se aproximou de sua boca, Maria ergueu-se subitamente, puxando-o para o alto, junto a ela. Abraçados, beijaram-se longamente.

No quarto, ele passeava seus dedos lentamente sobre os seios e o ventre de Maria, notando inúmeras pequenas marcas, talvez criadas pelo excesso de sol numa pele tão branca. Ela estava falante e contava sobre sua viagem ao Egito, enquanto ele conjeturava sobre a idade de Maria, analisando seus seios bem mais jovens que o rosto. Depois de reclamar dos preços egípcios, ela lhe disse que não tinha cerveja em casa e que seria necessário saírem a fim de cumprirem a pauta.

Ela tomou um banho rápido e foram para a rua procurar os bares habituais. Estavam todos fechados. Finalmente, entraram num bar de bêbados, de propriedade de um amigo dele, um uruguaio. O bar estava cheio e cheirava mal. Eles beberam a cerveja da pauta e dirigiram-se a um cinema. O ar condicionado do cinema quase vazio congelava-os enquanto o personagem principal matava sua bela amante grávida, à queima-roupa, na porta do apartamento dela, com uma espingarda. Assistiram ao final do filme abraçados – um aquecendo ao outro. Durante a apresentação dos créditos, faziam comentários jocosos sobre a temperatura dos cinemas de Porto Alegre e que como eventualmente podia ser contornada.

No retorno ao apartamento de Maria, ele fez o carro ziguezaguear no meio da Av. Ipiranga vazia. Estava feliz. Ela lhe preparou uma massa, feita rápida e eficientemente. Só então ele lembrou o fato de que ela conhecia sua ex-mulher, pois, inexplicavelmente, ao ir cozinha fazer o café, Maria referiu-se a ela, gritando de lá qualquer coisa desabonadora sobre A Sorbonne do Bonfim, seus artigos e congressos.

Ele riu do pequeno discurso, pensando que estava ligado a uma pessoa que odiava, estigmatizado como “ex-marido”. Sentindo o humor esvair-se, decidiu que precisava conhecer outras pessoas. Ela serviu os cafés e anunciou que iria ao toalete. Durante sua ausência, ele ergueu-se e foi embora lentamente, sem tomar a bebida.

Com o celular desligado, dirigiu até o Morro de Santa Teresa para refletir e ver a lua espelhada no Guaíba. Ficou dentro do carro, despreocupado com os ladrões. Afinal, eles deviam estar também fazendo seu carnaval. Suado e em dúvida, acordou sozinho no mirante, com o sol batendo no carro fechado.

Prelúdio para a Fuga do Carnaval

Como não vivo em Recife ou Salvador, para mim o Carnaval significa apenas barulho, gente bêbada e falta de serviços. Desta vez, fugiremos para bem longe. Dizem que estaremos a 40 km de qualquer asfalto, mas que o celular funciona. Também não há nenhuma cidade por perto, então nos submeteremos às quatro refeições diárias previstas pelo hotel: café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Estava precisando mesmo. Não terá nem televisão no quarto, uma beleza.

Posso me imaginar descendo do carro, olhando os cavalos, cumprimentando quem estiver na minha frente e perguntando onde ficaremos. Depois de tudo arrumado, olho para os livros, fantasio a mulata globeleza dançando na minha frente e o locutor anunciando:

– Olha o Tchékhov chegando aí, geeeeente!

Então abrirei o livro e me deitarei para ler. Passada meia hora, eu, que sofro de baixa tolerância à ausência de música, pegarei o mp3 ou o computador, farei a globeleza retornar e ouvirei a voz novamente:

– Olha o Bach chegando aí, geeeeente!

Estou esquentando os tamborins para a festa. Louco para chegar logo lá. Dizem que haverá cavalos para as amazonas da família, piscina para todos e que teremos cinco dias daquela vida besta para a qual tenho pecular talento.

(Não esqueça do Autan e de levar as piores calças compridas, Milton. Dizem que pode haver cavalgadas… Ops!)

– Olha a cavalgada noturna chegando aí, geeeeente!

Pois a cavalgada noturna não dá para perder. Afinal, dizem que lá não há sol à noite.

P.S.- Há pessoas, como meu amigo Leônidas, que tiveram outra idéia da expressão “cavalgada noturna”. Espero satisfazer ambas as interpretações.

Punição para ele? E Kaká?

O atacante egípcio Mohamed Abou Treika está chamando a atenção na Copa Africana de Nações. Ao comemorar um gol contra o Sudão, na vitória do Egito por 3 a 0, o jogador exibiu uma camisa com a inscrição “tenha compaixão por Gaza” (obrigado, Nelson!), mostrando solidariedade com os milhares de palestinos que vivem na região que é controlada por Israel.

Apoio A Palestina

A Confederação Africana de Futebol não gostou da atitude e decidiu que vai punir Mohamed Abou Treika, sob a acusação de “expressar uma mensagem política no meio de uma competição oficial”. A informação é do jornal espanhol “20 minutos”.

Mohamed Abou Treika, de 29 anos, já marcou 81 gols em 128 partidas pela seleção do Egito. Além de ser famoso por seu lado político, Treika é chamado de “o assassino sorridente” devido ao fato de comemorar seus gols com um sorriso.

E Kaká?

(Obrigado pela lembrança, Dario. Fonte: Globoesporte.)

A Primeira Impedfest

O povo do futebol só pode orgulhar-se da I Impedfest promovida no último sábado pelo pessoal do Impedimento. Em evento de mais de 12 horas de duração, os donos do bar Parangolé (Av. Lima e Silva, Porto Alegre) viram seus estoques de cerveja sumirem rapidamente à sombra das camisetas imortais.

Impedfest 022

Engraçado. Gremistas e colorados, quando reúnem-se em torno de uma mesa bem regada, tornam-se filosóficos como os gregos e mais confessionais do que blog adolescente. Foi emocionante ouvir o Leo Ponso declarando que sua maior dor não foi o título mundial do Inter, mas a saída do grande Tinga para o Inter. Fizemos as pazes quando lhe contei minha vida sob Ronaldinho e meu ano de 1995. Depois, para variar, filosofamos junto com o Douglas Ceconello sobre o que nos leva a ser apaixonados assim e divagamos sobre os motivos da mística de certas camisetas. Daniel Cassol gravou entrevistas e há uma em que descrevo o gol que Falcão fez no Atlético-MG, em 1976.

Foi um belo final de tarde.

Abaixo, Douglas (de óculos) observa a construção do varal sagrado. No alto, Leo Ponso.

Douglas Impedimento

Obs.: As expressões “varal sagrado” e mesmo a rodrigueana “à sombra das camisetas imortais” foram copiadas de post do Impedimento.

Milton Ribeiro entrevista P.Q.P. Bach

A fim de inaugurar este espaço, convidamos o Sr. P.Q.P. Bach para uma entrevista. P.Q.P. é o fundador do blog coletivo homônino que bate repetidos recordes de audiência divulgando algo bastante impopular: a música erudita. Foi complicado conseguir que ele se aproximasse de nosso microfone, pois teme o assédio da imprensa internacional sobre si. Já os brasileiros, com sua indiferença ao tipo de música que PQP ama, não são tão temidos. Mesmo assim, suas exigências foram extremas. Além do grupo chinês de ursos pandas equilibristas, ele fez absoluta questão de sua voz fosse filtrada, transformando-se em outra coisa – ou, melhor dizendo, transformando-se numa coisa.

Deu certo e a voz do filho do mestre manteve apenas o carregado sotaque tedesco, mantendo-se razoavelmente digna. Porém, o filtro tornou minha voz inteiramente gay. Se tal voz não exprime minha verdadeira opção, o fato de colocar à disposição o podcast demonstra a falta de preconceitos que norteia as atitudes deste autor. Também o filtro incluiu um certo ruído que não conseguimos retirar e que dá um colorido especial à grande entrevista.

P.Q.P. Bach fala sobre música, sobre seus parceiros de blog, reclama dos wagnerianos, das perguntas e, ao final responde ao famigerado Questionário Proust.

Ouça a entrevista na íntegra clicando abaixo (aproximadamente 20 minutos):

Milton Ribeiro entrevista P.Q.P. Bach