A canção de Goffin e King Will You Love Me Tomorrow

Amy WinehouseOntem estava ouvindo a versão de Amy Winehouse para o megaclássico de Gerry Goffin e Carole King Will You Love Me Tomorrow ou Will You Still Love Me Tomorrow ou ainda com interrogação atrás das duas formas. (Pouca gente sabe, mas Lennon e McCartney, lá no início, queriam apenas ser os Goffin & King da Inglaterra). A canção foi multigravada desde 1960, quando apareceu como Tomorrow num single das Shirelles. Coloco várias versões abaixo, inclusive duas da autora Carole King. Foi com Roberta Flack que a música ganhou insuspeitada grandiosidade. Agora, não deixa de ser curioso notar que Winehouse fez o clássico mudar de patamar novamente. Acompanhem a evolução.

Lá noa anos 60, com as pioneiras Shirelles, a coisa ia assim:

A autora Carole King mostrava que a coisa tinha mais potencial em 1971:

Roberta Flack dá um banho logo depois:

A coisa regride, ficando inacreditavelmente bagaceira com Bryan Ferry:

Ou quase um cantochão com Lykke Li:

No que é corrigida por uma Carole King veterana e sem voz em 2010 (atenção para a barba Tolstói-like do baixista):

Mas, antes, Amy Winehouse voltara a colocar a canção onde deixara Roberta Flack:

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Londres, 16 de fevereiro (domingo): o English Breakfast e Camden Town

O título anuncia dois programas obrigatórios em Londres: o primeiro é uma tortura; o segundo, pura diversão.

Ir a um pub pela manhã para comer o English Breakfast… Faz parte. É cultura e deve ser turismo. Afinal, ele é o Pai de Todas as Porcarias. Está na raiz dos McDonalds e Subways. Sua consequência é o crescimento para os lados do povo americano e o declínio inevitável do império através das veias entupidas de seu povo. Comendo a porcaria abaixo, …

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As mãos de Elena não logram esconder o temor.

… a gente fica com a sensação de ter tomado banho num mar de gordura, só que nos afogamos no mar, acabando por beber litros dele. A gordura fica sensível nos dentes, gruda neles e nossa sorte é não termos disponível uma endoscopia para olharmos nosso estômago. Ah, aquele feijãozinho ali ao lado é misturado àquilo que conhecemos como catchup. E veja acima: meio escondido entre o pão e os salsichões cheíssimos de gordura — está o bacon.

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Pior, de forma solidária, pedi o mesmo.

Talvez fosse o prato ideal para os trabalhadores das minas durante a Revolução Industrial. Mas já se passaram séculos, era domingo e íamos a Camden Town. Vejam a cara de animação de minha querida Elena ao ter de enfrentar o delicado e sutil pratinho.

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Vai lá, Elena, coragem!

E, assim engordurados, fomos para Camden. Camden Town é um bairro-feira situado longe do centro, mas facilmente acessível pelo metrô. Na verdade, nos finais-de-semana, ali é um dos centros da cidade.

Em Camden, vende-se e acontece de tudo. Boa parte da região das lojas foi uma imensa estrebaria de onde a nobreza saía para seus passeios. Hoje, cada estábulo é uma lojinha e cada lojinha tem personalidade própria e vende desde roupas até coisas que você não imagina como usaria. Bairro onde residiu Charles Dickens quando jovem, tem o bar preferido de Amy Winehouse. Mas nem só de lojas vive Camden. Há locais para comer e há comida de todo lugar do mundo. Se você quiser churros ou feijão tropeiro, tem, eu vi e até conversei com os brasileiros responsáveis. As lojas podem ser perfeitamente convencionais, mas também estranhas…

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Que tal um vestido desses?

… além de divertidas.

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Elena pensa em como se vestir no próximo concerto da Ospa. Afinal, na orquestra, as mulheres usam aquele longo preto há muito abandonado na Europa.

Abaixo, o local onde as pessoas sentam para comer, só que o fazem sobre motocicletas, de frente para o riozinho que passa no meio do bairro.

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Você compra seu lanche numa barraca, sobe na moto e come olhando a paisagem.

E há gente, gente, gente por todos os lados. É fácil de se perder ou de perder alguém no meio da multidão. E é complicado reservar uma roupa e reencontrá-la no meio do labirinto da feira. A loja visitada há uma hora parece ter sumido sem deixar referências no meio da confusão. Foi um sufoco reencontrar o casaco que eu escolhera para minha filha Bárbara.

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Elena e um bobão que queria aparecer neste prestigiado blog. Vejam a cara alegre do moço.

Né, Elena?

Melhor programa de domingo.

Todo mundo na rua. Melhor programa de domingo.

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Amy Winehouse nunca terá substituta, nem Janis Joplin

Eu realmente me divirto com essas coisas. Há alguns artigos musicais ingleses e americanos que falam, cada vez com maior seriedade e veemência, na possibilidade e na necessidade do surgimento “da próxima Amy Winehouse”. Li também dois sítios brasileiros falando “na substituta”. Não duvido sobre a necessidade de uma nova Amy para a indústria ou para os fãs, porém as conversas que me intrigam são sobre a formação, a criação e a escolha de nomes, acompanhadas de clipes no YouTube. Mas antes podemos recuar um pouco no tempo?

Em 2007, Gilliam Reagan e James Salon escreveram no New York Observer: Amy Winehouse vai morrer jovem. Parece inevitável, dada a combinação de juventude, ousadia, abuso de drogas, talento e má escolha de homens. Parece que vai ficar em boa companhia no céu do rock ‘n’ roll. Ficará com Janis Joplin, Jimi Hendrix, etc.

Ah, as previsões irresponsáveis da imprensa… Bem, OK, digamos que o cenário já estava pronto e as coisas encaminhadas, apesar da maldade de expor a cantora para a observação e decomposição pública, mas o que me interessa é o lado B dos fatos. Sim, pois tal prognóstico desnuda o enorme apetite de autodestruição de Amy, como também uma postura de entrega absoluta, que é bastante rara nos artistas que são o resultado da maquiagem, do recondicionamento e da hidratação de produtores atrás de grana. Pouco sei de Hendrix, Cobain ou Jim Morrison, mas a existência de Joplin — sabiam que o nome da mãe de Amy é Janis? — também me parece ter sido a de alguém que acelerava em direção ao muro sem procurar vicinais. A tragédia pessoal e a decisão de ir fundo estava plasmada nos rostos e na trajetória das duas cantoras. Por isso, quando leio alguém escrever que esta ou aquela cantora irá substituir uma das duas, procuro logo saber qual é o grau de desvio de comportamento que apresenta.

Se a candidata é bem comportada, esqueça. Pois pensar que alguém possa ter uma carreira semelhante sem um anormal grau de entrega é uma bobagem. Se tiver comportamento convencional pode ser melhor ou pior, mas não será a lenda de que tanto precisa a combalida indústria fonográfica. Winehouse e Joplin foram como foram porque colocaram sua paixão e vida em tudo. Ambas faziam altos investimentos de angústia na música, nos homens, nas drogas, na escolha do vestido, do penteado e também no momento de passar a faca na manteiga e a manteiga no pão. Para que renasçam é necessária uma nova tragédia. Mas isso fica escondido nos textos.

Pois ambas eram um comportamento inteiro, pacotes distintos de uma só sinceridade. Ninguém vai compor boas músicas sobre reabilitação se não estiver envolvido, ninguém vai cantar com aquela garra e franqueza se estiver preocupado com o contrato, com o carro ou o próximo show. Para o gênero de artistas que elas foram, esta inteireza pode ou deve ser autocentrada e em faixa própria. Eram pessoas cujos conceitos e posturas estavam sempre presentes em apoio ao descontrole.

Pois Amy Winehouse não subia ao palco apenas para mostrar seu trabalho. Ela usava a arte para gritar, vivia o que cantava. E seus admiradores sabiam claramente ou intuíam que aquilo sim era unir arte e vida. Suas composições e a expressiva voz de contralto persuadiam que ali não havia apenas o “fazer artístico”. Talvez involuntariamente, talvez por personalidade, Winehouse atirou-se em sua Paixão — no sentido mais exacerbado e patológico do termo — baseada num referencial próprio de dor e entrega.

Então, quando aparece uma gordinha normalzinha ou uma magrinha com cara de modelo como novas Joplins ou Winehouses, esqueçam. A nova Joplin virá arrebentando e será facilmente reconhecida, terá nome e luz próprias como Amy tinha e ninguém vai ter tempo para muitas comparações.

Janis Joplin "estragula" Grace Slick em 1967

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Ipanema FM: fiquei até com vergonha

Adeus!

A ex-Ipanema FM de Porto Alegre trocou The Who, Stones, Beatles, Radiohead, Amy Winehouse e todo o rock gaúcho e brasileiro por Luan Santana, Bruno Marrone e todo o sertanejo universitário. A importância da Ipanema, principalmente para os músicos do rock gaúcho era enorme. Eu gostava dos programas do Alemão Vitor Hugo — que sempre desencavava coisas surpreendentes — , Hot Club do Mutuca e, principalmente do Música Mundi, onde a gente podia saber das novidades do rock romeno, italiano ou da Malásia.

A morte da rádio é mais um indício da decadência cultural que solapa o RS, coisa que já vemos em outros contextos. O gaúcho emburrece e involui rapidamente, ao contrário do que vendem alguns meios de comunicação.

Quando a Rádio da UFRGS tocava algo que não me interessava, ouvia o Vitor Hugo de manhã. O Alemão era um baita programador musical, em minha opinião o melhor da rádio. Mas hoje pela manhã, fiquei com vergonha ao ouvir Begin the Beguine com Julio Iglesias e aquela música da “explosão de sentimentos, meteoro da paixão”. Fiquei fascinado pela ruindade. É tão ruim, mas tão ruim que até parece pegadinha. Quando entrei num posto de gasolina, mudei para a Rádio da Universidade. “O que o frentista pensaria?”, refletiu Milton Ribeiro de forma bastante idiota.

É claro que a Ipanema tem dono e este faz o que quiser com ela, mas também é verdade que não deveria ser assim. Porto Alegre trocará a diferença por mais do mesmo. E isto é medíocre.

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Amy Winehouse morreu jovem, deixando para trás um bonito cadáver

Publicado originalmente no Sul21 na tarde do último sábado. Escrito meio às pressas enquanto ouvia Frank e Back to Black.

Viva muito, morra jovem e deixe para trás um bonito cadáver
(“Live fast, die young and leave a good-looking corpse”)
JAMES DEAN

Amy Winehouse, encontrada morta neste sábado em Londres, aos 27 anos | Foto: Divulgação

A polícia britânica ainda não divulgou a causa da morte de Amy Winehouse, ocorrida neste sábado à tarde (23), em Londres. O corpo da cantora de 27 anos foi encontrado em seu apartamento após o serviço de emergência ter sido chamado por volta do meio-dia (horário de Brasília). A polícia de Camden Square emitiu comunicado confirmando a morte. “Fomos chamados devido à descoberta de uma mulher morta. Era a cantora Amy Winehouse. As circunstâncias serão investigadas”, encerrava a mensagem.

A carreira de Amy Winehouse foi marcada tanto pelo estupendo sucesso de público e crítica como por uma série de escândalos e polêmicas. Boa cantora, boas músicas, mas a mídia e o mundo revelavam-se mais interessados em seus porres e problemas. Seu nome está mais ligado às drogas do que a seu indiscutível talento; seu público queria tanto os blues, o soul, quanto os vexames. E ela dava motivos a todos, alternando performances espetaculares com shows onde era vaiada, como o ocorrido numa recente apresentação em Belgrado, na Sérvia: o público não entendia o que ela cantava e nem ela parecia dar-se conta do que fazia ali seu grupo de músicos. Aparentemente, estava totalmente alcoolizada.

Amy Winehouse era dona de uma voz poderosa, bela, e de uma maneira negra de cantar. O velho blues e a Motown eram suas maiores influências. Discretamente antiquada, old-fashioned girl, dava preferência aos instrumentos acústicos e aos arranjos que destacassem sua bela voz. Por vezes, também, soava como uma cantora dos cabarés de antigamente.

O terceiro CD da cantora estava sendo produzido desde 2008 e nunca foi concluído. Amy compôs algumas canções, mas estas foram rejeitadas pelos produtores. Ela chamou Mark Ronson para “tentar salvar o disco”, mas os dois não chegaram nem a se reunir. Canções perfeitas como Rehab, Back to Black, Wake up alone e Love Is a Losing Game ficarão sem sucessoras.

A morte de Amy Winehouse aos 27 anos, vem colocá-la no indesejado e ilustre Clube 27, o dos grandes artistas mortos nesta idade. É fenômeno comum os ícones da cultura pop serem reavaliados para cima quando morrem, tornando-se eternos no imaginário popular. Mesmo que sejam famosos e talentosos em vida, se morrerem jovens e, sobretudo, de causa trágica e misteriosa (overdose, suicídio, homicídio ou acidente), tornam-se objetos de culto e de programas e filmes onde se pranteia sua memória. Porém, como disse Virginia Woolf na introdução de Orlando (1928): “Há outros que, embora talvez igualmente ilustres e importantes, ainda estão vivos e, por essa razão, são menos formidáveis”.

Se circunscrevermos as mortes do chamado “Clube 27”, teremos um time realmente considerável. Tudo parece ter começado em 3 de julho de 1969 com a morte de Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones. No ano seguinte, foi a vez de Jimi Hendrix (18/9) e Janis Joplin (4/10). Mais um ano e, em 1971, morre o líder do The Doors, Jim Morrison em 3 de julho. Estava formado o “Clube 27” pelo simples fato de todo o quarteto ter morrido num período curto com a mesma idade.

(Na música erudita há famosa Maldição da Nona Sinfonia. Vários compositores morreram logo após finalizarem suas Nonas: Beethoven, Mahler, Schubert, Bruckner, Dvorak e Spohr. Mahler escreveu antes A Canção da Terra procurando fugir da 9ª. Não deu certo.).

Quando Kurt Cobain suicidou-se em 1994, também aos 27 anos, muito falou-se que ele teria confidenciado a amigos que ele desejava unir-se ao Clube. Ainda no rol dos que teriam manifestado vontade de obter uma carteirinha estão o espantoso artista plástico Jean-Michel Basquiat, morto em 1988, e, para voltar aos músicos, o legendário guitarrista de blues Robert Johnson, morto em 1938. Se Johnson morreu bem antes, ao menos manteve a coincidência de talento e de um fim por drogas, caso do quarteto e de Basquiat. Afinal, a estricnina colocada em seu uísque por um dono de bar enciumado de sua mulher também é droga. Ou não?

E James Dean, autor da clássica frase que nos aconselhava a morrermos jovens, foi ainda mais apressado, falecendo aos 24 anos.

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