The Velvet Underground & Nico: o “Álbum da Banana” faz 50 anos

Do Publico.pt (adaptado por este traidor que vos escreve sempre)

The Velvet Underground & Nico, o álbum de estreia dos Velvet Underground, completou 50 anos este domingo. Lançado a 12 de Março de 1967, tornou-se num dos álbuns mais celebrados e influentes da história do rock.

velvet banana

A capa desenhada por Andy Warhol — produtor do disco — iria se tornar icônica, levando o álbum a ser frequentemente referido como o “álbum da banana”, embrulhando canções que se tornaram marcantes na história do rock, como Sunday morningI’m waiting for the man, ou Heroin, com letras que abordavam paranoias, heroína, sadomasoquismo, desejo, morte — o lado B dos anos 1960.

Brian Eno comentou que “poucos compraram o álbum na época do lançamento, mas quem o fez montou uma banda”.

“Nem nos importávamos com o equipamento que tínhamos. Nem sequer tínhamos fones de ouvidos”, recorda à revista Rolling Stone o músico John Cale, que está celebrando o aniversário com três concertos: em Paris, no ano passado, em Liverpool, em maio, e nos Estados Unidos, ainda este ano. “Esta combinação estranha entre quatro músicos distintos e uma relutante rainha de beleza resumiu perfeitamente o que significava The Velvet Underground”, afirmou no ano passado à New Musical Express.

Apesar de ter durado pouco tempo, de 1965 a 1970, a banda formada por Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker e Christa Päffgen (ou Nico) revolucionou o rock, ao mesmo tempo que marcou uma nova relação desta com as artes e a cultura popular em geral.

Aqui o disco completo:

A voz da cantora, atriz e manequim Nico e o seu percurso nos Velvet Underground — com os quais apenas colaborou no primeiro álbum, por sugestão de Andy Warhol –, a par de discos como o da sua estreia solo em 1967, Chelsea Girl, tornaram-na também uma referência.

The Velvet Underground & Nico foi gravado em apenas uma semana, em abril de 1966, num estúdio de Nova Iorque, e algumas das suas canções foram posteriormente registadas em Maio, em Los Angeles. As comemorações do meio século do álbum de estreia dos Velvet Underground começaram no ano passado, precisamente ao completarem-se 50 anos dessas gravações.

A aventura acabaria por terminar em 1970, quando Lou Reed anunciou que iria abandonar a banda, antes da saída do seu quarto álbum, Loaded.

Os quatro primeiros discos dos Velvet Underground passaram despercebidos na cena rock norte-americana na altura em que foram lançados — o disco da banana vendeu só 30 mil cópias –, mas o tempo haveria de lhes conferir, e ao pioneiro The Velvet Underground & Nico em particular, um lugar fundamental na história da música.

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Kill Bill, o pop que satisfaz

Estava examinando meu blog anterior — que não está mais disponível na rede — e encontrei estes posts de 2004 e 2005. Visto de hoje, meu entusiasmo e o da maioria das pessoas por Kill Bill é algo surpreendente. No texto, falo um pouco sobre meus fillhos que tinham, na época, 13 e 10 anos.

Penso que, no cenário pop contemporâneo, não haja ninguém mais competente que Quentin Tarantino. (Retiro deste time o Almodóvar dos últimos filmes.) Seu quarto filme, Kill Bill, é entusiasmante, apesar de inferior a Pulp Fiction. Fui vê-lo duas vezes: a primeira serviu para que conferisse se meus filhos poderiam vê-lo e a segunda para a diversão em família. Há sangue prá todo lado, mas não há situações de grande terror psicológico. Também não há lugar para comentários existenciais ou morais — ops, alguém esperava isto? Tarantino conhece seu respectivo tamanho e área de atuação, e o produto final é um pop deslumbrante. Seu senso de estilo é o que deveria ser analisado e não… Bem, mas não vamos adiantar as coisas.

Segunda-feira fiz um spam cujas vítimas foram os coitados que habitam meu “Catálogo de Endereços”. Abaixo, estendo a polêmica aos 7 leitores deste blog, colocando primeiramente o conteúdo de meu e-mail, seguido de algumas respostas, todas muito boas, inteligentes, diferentes, engraçadas, fechando com as explicações da Meg a alguns críticos. Alterei-as um pouco a fim de retirar as observações e recados destinados apenas a mim. Divirtam-se!

Meu e-mail:
Amigos (Atenção, Ivonete!). Vi Kill Bill duas vezes para me certificar. Mas não precisava tanto para voltar a me surpreender com a burrice interpretativa da maioria dos críticos dos jornais brasileiros. Hoje, após ler o César Miranda, criei coragem. O que o César escreveu? Ora, o óbvio. Kill Bill é uma cidade onde se encontram Sérgio Leone, o tigre e o dragão, Poquemon e Uma Thurman maravilhosa. O filme é sobre a vingança de uma mãe, não de uma noiva… O que tinha lido antes? Ora, que era um filme de ação e grande violência baseado em histórias em quadrinhos, que a estranheza do filme era a presença de uma mulher dando porrada em todo mundo e depois sobre um monte de detalhes técnicos divertidos. Violência? Pelamordedeus! O filme é protagonizado por uma mulher porque só mulheres são mães; os pais são, no máximo, pães. É incrível que “os espectadores profissionais de filmes” tenham ignorado a cena na qual Uma Thurman acordando desesperada do coma, apalpa sua barriga vazia e o que ela diz para Bill antes do tiro e a cena final, onde Bill — preocupado — fala na filha. E por que o apelido de Uma é “A Noiva”? Ora, pela mesma razão que Psicose não se chama O Filho Que Também Era Mãe! Prá que contar a principal parte do filme chamando a personagem de Uma de “A Mãe”? Não li ninguém escrever sobre isto, só sobre os 1600 litros de sangue falso utilizados e sobre Bruce Lee, Jaspion e outras coisas que há no filme mas que são secundárias. Quem discordar que discorde mas creio que Kill Bill é uma ode à mulher que briga por seu filho.

Algumas respostas:

Andréa, do Literatus: Posso botar lá na minha comunidade do Orkut, Milton? Estamos discutindo justo isso. Se vc deixar coloco, tá? bjim querido, angel.
Réplica: Claro que pode!
Tréplica: Meu herói! 🙂 bjimm angel

César Miranda: Grande Milton, obrigado pelo elogio assim na frente de tanta gente. Quem seria tão parvo a ponto de fazer aquele barulho todo por causa de um “casamento”?!?! Tem que ser muito idiota, né não? Já uma mãe por um filho, faria até mais. Outro segredo é não ler crítica de filmes, segundo o Millôr a principal função de um crítico de cinema é nos fazer de bobos. Sei do que uma mãe é capaz (para o bem e para o mal), inclusive essa bobagem que é uma vingança sanguinária daquelas, eu, particularmente torço contra a Uma. Se o Tarantino tiver alguma coisa na cabeça, vai fazer aquela saga ser um uma comédia de erros do meio para frente. Não é bom fazer apologia da vingança. Não há nada mais inútil do que uma vingança. Um grande abraço, César.

Ivonete Pinto: Exato, Milton. O mesmo que propunha Alien (o último, se não me engano). Com a diferença que este (Kill Bill) é divertido e não se leva a sério. Vc gostou de Diários de Motocicleta? Vou escrever sobre ele pra próxima Teorema. Tô com vontade de chamar de Kill Walter…

Tiagón, do Bereteando: O que me surpreendeu em Kill Bill – ah, peraí, muita coisa me surpreendeu, tenta outra vez – o que mais me surpreendeu em Kill Bill foi constatar que, depois de horas de luta e espadas, as cenas mais chocantes do filme não têm sangue: são as que tu citaste e o encontro de Uma com a filha de Vernita Reid, a recém-órfã. E concordo contigo. Mas também acho que “Kill Bill vol. 1: A Mãe” não seja exatamente um bom título… Embora quem costuma assistir Tarantino vai até se o filme se chamar “O Urso que Comeu meus Escorpiões”. No mais, saí do cinema extasiado. Não tem uma cena que não seja linda; a luz, os contraplanos, a sonoplastia de videogame… ih, nem vou começar a falar, porque me empolgo. Quinta-feira eu vou rever, e vou levar a família. Então escrevo um post enorme no Berê. Abraço!

Gustavo Souto Maior: Concordo plenamente com você, apesar de não ter conseguido “juntar as pedras” quando assisti ao filme pela primeira vez. Porém, agora, ao ler a sua análise, aquilo que tinha ficado no ar tornou-se certeza! Obrigado! Um abraço, do Gustavo.

Roberto Maxwell: KILL BILL VOL. 1 foi uma grata surpresa. E poderia comparar, no meu universo cinematográfico, Tarantino a Lars Von Trier. Ambos sádicos e cínicos. Claro que a mocinha tarantinesca não é vista penando como a de Von Trier. Este último é dos piores, daqueles que gostam de torturar os bonzinhos. Identifico-me com ele. Tarantino parece acreditar na justiça, concessão a qual Von Trier se entregou em DOGVILLE. Mas ambos acreditam na justiça-feita-com-as-próprias-mãos e, nesse sentido, são implacáveis. Mas não se deve comparar A Noiva/Grace a Chuck Norris. As mulheres vingativas são muito mais sangrentas. Além de terem uma dose de charme. Isso sem contar o fetiche de vê-las embebidas de sangue e com armas nas mãos. Aí acabam as semelhanças entre Tarantino e Von Trier, entre KILL BILL VOL. 1 e DOGVILLE. O americano entrega as armas a sua mocinha desde a primeira seqüência e, melhor ainda para os púberes, seu primeiro adversário é outra mulher, a vitaminada Vivica A. Fox. Indescritível, sob pena de estar fazer a descrição incompleta, a primeirona é uma das melhores de seqüências de um filme recheado de bons exemplos delas. Todas repletas de clichês (o que é a seqüência de animação com a origem da personagem da Lucy Liu?) muito bem colocados por sinal. Dificilmente se verá um filme com tantas referências cinéfilas escancaradas e sutis. Tarantino é o papa do pop. Nem Andy Warhol foi tão longe. (Perdão, Senhor, por este pequeno pecado!) Frustrante é saber que KILL BILL VOL. 2 só estará entre nós em outubro. Nem preciso dizer que as locadoras-ao-ar-livre já estão abertas e o mesmo se pode dizer para os bits & bytes. Mas eu só vou ver no cinema. Garanto que é muito mais programa!

Meg, do Sub Rosa: Nem é preciso dizer o quanto o filme de Tarantino me deixou feliz… E o que me diverte mais ainda, se é que é possível, é a inveja e a má-vontade dos críticos (?!) com o awesome “SAN” Quentin. E como se não bastasse, graças aos Céus, Tarantino gosta de mulher , I mean, as mulheres são fortes, poderosas, lindas, e sabem manejar uma espada… hohoho. Aliás, Uma Thurman está lindíssima – o tempo todo – e Daryl Hannah -a Elle Driver – quase numa ponta neste v. 1 – nos poucos minutos em que aparece…uau!!!!!! Um amigo meu disse que Tarantino revela uns fetiches: pés, por exemplo…:-) Só uma coisa me irrita: é quando dizem que o filme é violento… Não este! Oh my! Não me façam recorrer aos gregos para explicar que uma das formas de se descaracterizar um tópico é recorrer à hipérbole, ou seja intensificá-lo até o inconcebível… Exagero, figura tão conhecida dos lógicos:-). Vão por mim (hohoho) o filme é uma delícia… A turma que esteve comigo, matemáticos, filósofos e pessoal da Science Po, pisc* – se divertiu a valer… Eu, como não entendo de assunto nenhum, fiquei vidrada naquela inacreditavel…hahahah… Gogo Yubari. Go…gorgeous ! Hoho! Aliás, em matéria de cinema, Tarantino sabe tu-dê-ó-dó, tudinho: fotografia, montagem, MÚSICA, oh my gosh!… e até o cast é sempre impecável. Ou haveria melhor Jackie Brown que Pam Grier ?:-) De modo que o sangue que jorra (para não dizer mais) torna tudo absolutamente *fake*. Como diria e disse – em comentário a um dos posts, o também crítico, um dos melhores, as matter of fact, Julio Gomes. Gente, violento é o Mel Gibson 😉 Kill Bill violento? Na-na-nè-re!

Agradeço a todos os que colaboraram neste post. Pedi a quase todos os citados permissão para fazê-lo. Eu escrevi QUASE… Se alguém quiser retirar seu texto ou alterá-lo, me avise.

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Se você chegou aqui desavisado e não gosta do cinema de Quentin Tarantino, aconselho-o a abandonar este post exatamente neste ponto. Um abraço e volte sempre! Os outros, os que gostam de Quentin, também recebem meu abraço e devem voltar sempre aqui; porém, neste momento, gostaria que continuassem a ler este post.

Bem, já que estamos entre fãs, começo dizendo que também gostei demais do segundo filme da série. Saí do cinema dizendo que era melhor que o primeiro. Lá, tínhamos mais ação e poucos diálogos; aqui, temos o contrário. Tarantino, em Kill Bill II, deu o espaço necessário para a Noiva tornar-se humana. O filme é mais lento, dando um tempinho tempo para os personagens se darem a conhecer, dialogando e tergiversando da forma curiosa que Tarantino já utilizava em Pulp Fiction. O que mais me surpreendeu no Volume 2 foi o fato de este ser totalmente diferente do primeiro. Estilística e visualmente é outro filme, tem personalidade própria. Dizem que haverá em DVD uma junção dos dois filmes, formando uma espécie de “versão do diretor”, o qual teria sido dobrado pelos produtores não apenas para diminuir a parte 2, como também não lançar um só filme de imensas proporções. Depois de ver a continuação, não acredito muito venhamos a ver esta versão única.

Talvez Kill Bill seja um filme para cinéfilos. Claro que ele se sustenta mesmo para aquele espectador que, como eu, não reconhece nem 10% do referencial utilizado pelo diretor, mas sentimos enorme prazer quando vemos colocadas dentro do filme citações de A Noiva Estava de Preto de François Truffaut, Rastros de Ódio de John Ford — que recebe não apenas uma citação, mas do qual vemos cenas na TV de Bill — e outros. Uma Thurman disse que cada cena de luta, que cada golpe é retirado de algum daqueles “clássicos” filmes de luta orientais pelos quais Tarantino tem fixação. Como não vi nenhum deles — nem os de Bruce Lee — fico imaginando o que alguém “mais erudito” possa fruir.

Kill Bill II não é tão oriental quanto o primeiro. Só voltamos ao oriente durante o flash-back que mostra o treinamento da futura Noiva, isto se aquilo ocorreu mesmo no Japão, ou na China, sei lá… mas estou atropelando as coisas. O filme recomeça de onde parou o primeiro e o próximo a ser morto é o irmão de Bill, Budd (Michael Madsen). Durante a vingança, há duas grandes interrupções em flash-back: a primeira para voltarmos detalhadamente ao casamento frustrado e a segunda para vermos o citado treinamento a que a Noiva havia se submetido antes de tornar-se aquela fera.

A seqüência do treinamento com o mestre Pai Mei (Chia Hui Liu) é sensacional. Utilizando um rigor absoluto e caricatural, Pai Mei submete Beatrix Kiddo (sim, a Noiva tem este nome) a uma longa série de torturas. Apesar de tal postura, Pai Mei está decididamente entre os personagens cômicos do filme, pois Tarantino passa todo o tempo sublinhando seus trejeitos com exageradíssima sonoplastia e com aqueles súbitos zooms tão caros às produções baratas japonesas.

Voltemos a Budd. No começo, ele leva grande vantagem, chegando a enterrar Beatrix num cemitério próximo. Neste ponto, há mais uma seqüência notável. Quando o caixão é pregado, “entramos” nele junto com Uma Thurman, a tela fica escura e ouvimos o caixão caindo no buraco, depois ouvimos a terra caindo sobre no caixão e os sons externos cada vez mais indistintos; no final, só resta o silêncio. É uma espantosa e original repetição daquilo que fez Lars von Trier no começo de Dançando no Escuro.

Não vou contar como ela sai desta, mas a continuação da cena ao estilo “A Volta dos Mortos Vivos” é engraçadíssima. O cinema vem abaixo quando ela atravessa a estrada. Então, ela volta para “assombrar” Budd, mas só tem a chance de encarar Elle Driver (Daryl Hannah), pois esta já tinha feito presunto daquele. O enfrentamento com Elle Driver é o grande momento de luta da segunda parte. Todos esperávamos por esta cena e Tarantino não nos decepciona. Surpreendentemente, a Noiva não a mata, apenas deixa-a mutilada, acompanhada de uma cobrinha venenosa. A atuação de Hannah é digna de menção. Ela está terrível, tudo nela é ódio e força. O fato de não termos visto sua morte talvez seja o grande gancho para um Kill Bill III. (Outro gancho seria a filha de Vernita Green (Vivica A. Fox) contra a filha d´A Noiva, mas isto já seria muito delirante…)

Depois disto, vamos à procura de Bill (David Carradine). Aí, há algo inesperado. O encontro é tenso, mas não há grande violência. Beatrix conhece a filha com 4 anos (ela lhe pede para ver Ninja Assassino antes de dormir…) e mantém um diálogo com Bill que é um estranho simulacro de um casal discutindo a relação.

O filme é finalizado num quarto de hotel onde Beatrix e a filha BB Kiddo (a gracinha Perla Haney-Jardine), ambas com roupas de dormir, assistem a um filme infantil. Antes disto, Beatrix entrega-se a uma crise de choro no banheiro.

Depois, ainda temos a surpresa dos créditos, onde o “estilo Truffaut” é revisto, servindo para que lembremos de cenas do filme (Vols.1 e 2). Bem no final, depois do último crédito, há um extra meio bobo, mas que não perdemos, pois ficamos no Arteplex – só nós e os faxineiros -, tentando ler, entre uma varrida e outra, todos os créditos.

P.S.- Outra coisa. Carro bonito, para mim, sempre foi sinônimo de Karmann-Ghia, o resto é bobagem. Agora, adivinhem qual é o carro de Uma Thurman?

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