A Rádio da Universidade faz 60 anos amanhã

A Rádio da Universidade faz 60 anos amanhã

Amanhã, a Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul completa 60 anos. Foi a primeira rádio universitária e pública do país. Comecei a ouvi-la diariamente desde os 15 anos e não imaginava que ela tivesse nascido no mesmo ano que eu. Antes desta idade, meu pai já nos fazia ouvi-la no carro e em casa. Naquela época, suas transmissões começavam às 8h e iam até a meia-noite. Tudo terminava num estranho “Boletim Astrônomico”. Assim que meu pai notou em mim alguma tendência para apaixonar-me pela música erudita, iniciou um jogo que durou até sua morte em 1993. Toda vez que ligava o rádio, nós tínhamos que adivinhar que obra estava sendo executada. O jogo era levado tão a sério que, logo após o final de cada música e do locutor anunciar o nome do compositor e título da obra – tínhamos que ouvir atentamente, porque era nossa conferência para saber quem tinha acertado — , o rádio era desligado a fim de que não ouvíssemos o nome da próxima. Deixávamos passar alguns minutos para só então religarmos o rádio e as tentativas de adivinhação.

Rádio da Ufrgs 60 anos

Isso me deu um treinamento incrível para reconhecer estilos e obras. Mas o que interessa hoje é que há mais de 45 anos ouço a rádio, a minha rádio que tantos problemas apresentava nos primeiros anos: sinal fraco, interrupções das transmissões, vinis com problemas (alguns arranhados, outros em tal estado que não deixavam a agulha avançar…), etc. Hoje, o maior problema é o fato de ela ser uma emissora AM. Melhor ouvi-la sempre na Internet. Quando virá o FM? Outro problema é que, antigamente, a escolha do repertório tinha mais lógica.

Os méritos da rádio ultrapassam em muito os seus problemas e foi ali, com o grande compositor e ex-diretor da emissora Flavio Oliveira e com Rubem Prates, que aprendi que uma programação não era mero sorteio ou livre-associação. É notável como eles conseguiam ligar inteligentemente cada música à próxima, fosse por seu tema, por sua evolução na história da música ou pela pura sensibilidade desses dois conhecedores, que viam parentescos em coisas aparentemente díspares. Com eles, aprendi que havia várias formas de se avançar na grande árvore da história de música. Por exemplo, pela manhã, a rádio iniciava por um compositor de música antiga ou barroco, depois ia para um clássico, daí para um romântico, e assim por diante, nos mostrando sempre os caminhos e os diálogos que um compositor travava com seu antecessor. Foi a maior das escolas. Com a Rádio da Ufrgs conheci o que cada compositor passou a seus sucessores e aquilo, após milhares (mesmo!) de dias como ouvinte, tornou natural a leitura das histórias da música que fiz depois. De forma misteriosa, estranha e certamente gloriosa, aqueles dois homens silenciosos já tinham me ensinado tudo, colocando as coisas na ordem certa para que meu ouvido entendesse. Hoje, a coisa está mais bagunçada, às vezes temos que reformatar o ouvido de uma obra para outra.

É claro que me emociono ao falar da Rádio da UFRGS, não há como ser diferente. Voltando a sua história, depois seu horário foi ampliado e já faz décadas que transmite 24 horas por dia como qualquer outra emissora. Conheci na rádio quase tudo o que ainda ouço hoje ou posto no PQP Bach. Lembro do dia em que ouvi a Oferenda Musical de Bach numa manhã intacta e perdida, no quarto já então pleno de futura saudade. Era uma gravação de Hermann Scherchen e, naquele momento, eu tive a certeza de que não existia nada que pudesse deixar aquele momento mais perfeito e importante, tal o modo como a música caiu sobre mim. Lembro do dia em que mandei uma carta — sim, pelo correio — para o programa de sábado à noite Atendendo o Ouvinte. Pedi a Sinfonia Nº 10 de Shostakovich. Fui atendido. Eu e uma namorada — eu devia ter entre 18 e 20 anos — deixamos de sair para ficar ouvindo aquela maravilha. Fora da música, talvez apenas os filhos, os momentos de amor ou a futura leitura do Fausto de Mann, de Tolstói, Dostoiévski, Bulgákov ou de Machado, além do enlouquecido Guimarães Rosa do Grande Sertão, me proporcionaram momentos em que novamente pareci ter saído de minha pequena natureza.

E, no grande último momento, dias atrás, ao ligar a rádio, dei de cara com a esquecida Sinfonia Turangalîla de Messiaen e permaneci – por sorte estava em minha cama, antes de dormir — por mais de uma hora, de olhos arregalados, cada vez mais acordado e eufórico. Ou ainda, anos atrás, quando atrasei-me para um encontro porque TINHA que saber qual era aquela música incrível que, afinal, era desconhecidíssima para mim na época: a Sinfonia Singular de Berwald.

É por viver com ela há mais de 45 anos, é por saber que só em Montevidéu, em Oslo e em Amsterdã (ouço pela internet) há emissoras de mesma categoria, é por ter receio de que a programação da rádio caia na vala comum — como tantos já desejaram –, que saúdo e fico feliz com os 60 anos, meus e de “minha rádio”.

Parabéns e longa vida!

.oOo.

P.S. 1 — Tenho no computador de casa um excelente programa Música em Pessoa cuja entrevistada é minha Elena Romanov, que é violinista da Ospa. Ela foi entrevistada pela Ana Laura Freitas e é um baita programa.

P.S. 2 — Pedro Palaoro, funcionário da Rádio de Ufrgs, me informa: “O FM aparentemente virá em 2018. A banda será liberada no final de janeiro, quando caírem as TVs analógicas. Tem o tempo de aquisição de equipamento e tal, mas o planejamento é que isso ocorra logo”.

Fotos do aniversário: Sequência X

Fotos do aniversário: Sequência X

Fotos: Augusto Maurer

A seriedade indicava que poderia haver problemas na ponta mais bonita da mesa. (Vejam a cara de todos, especialmente a da Elena).

Milton Elena Catia Norberto 01Não obstante a minha presença e a do Norberto Flach,

Milton Elena Catia Norberto 02digo que a Elena e a Cátia Nunes garantiam o título.

Milton Elena Catia Norberto 03 (2)Mas então eu comecei a argumentar com a mão esquerda.

Milton Elena Catia Norberto 03 (3)O Norberto bebeu. E começamos a espairecer.

Milton Elena Catia Norberto 03A Elena entrou na conversa.

Milton Elena Catia Norberto 05Os problemas voltaram e tive que fazer minha mão esquerda voltar a pronunciar-se. Norberto bebeu,

Milton Elena Catia Norberto 06e até a Cátia sorriu.

Milton Elena Catia Norberto 07A Elena parece não concordar com minha mão esquerda.

Milton Elena catia norberto 08E passar a usar a dela.

Milton Elena Catia Norberto 09Inclusive colocando-a no meu ombro — medida extrema.

Milton Elena Catia Norberto 98 (2)Fofocar é coisa boa, né?

Milton Elena Catia Norberto 98 (3)Interromper a fofoca para uma foto é até aceitável.

Milton Elena Catia Norberto 98Mas depois a gente retorna.

Fotos do aniversário: Sequência VI

Fotos do aniversário: Sequência VI

Fotos: Augusto Maurer

Nem só de conversas sobre política ou práticas sexuais adolescentes foi a mesa. Havia também o amor. Na mesa abaixo, o Augusto sacaneou o Alexandre Constantino, que tem um olhar mais inteligente e vivo do que o demonstrado. Fez melhor com a Liana, que está encantada com o neto Pedro Arthur, prestes a ver o mundo para poder enfim gritar “Fora Temer”. Mas quis mesmo dedicar-se aos jovens.

Liana AlexE começou a tirar fotos do Santiago Ortiz, importado da Colômbia, com sua namorada Lizaveta Romanov, filha da Elena.

Liza Santiago 01 (2)Tirou tantas fotos deles que vocês nem imaginam.

Liza Santiago 01Ele não parava.

Liza Santiago 02O Santiago é apenas passável mas a Liza é linda, né?

Fotos do aniversário: Sequência V

Fotos: Augusto Maurer

Esta é a minha irmã Iracema, aquela mesma que viajou pelo mundo comigo durante minha infância. Para a idade que tem, está muito bem.

Ira (2)O garçom que nos atendia era muito confuso. Trazia tudo errado, vou contar pra vocês. Mas era honesto, tanto que impediu que eu pagasse uma conta dupla.

IraIracema é a gentileza em pessoa. Já o Arthur, sei lá.

Lat099Então o Latuff resolver fazer uma charge do Vicente pelo fato de ele ser uma pessoa tão, mas tão má, que aprecia comer coelhos. O onipresente Arhur confere.

Lat100Latuff desenha e diz “pobrezinhos dos coelhinhos, deixam cair lágrimas enquanto são assassinados para o prazer efêmero de seus predadores”.

Fotos do aniversário: Sequência IV

Fotos do aniversário: Sequência IV

Fotos: Augusto Maurer

Calma, a luz que incide sobre o rosto de Enzo Guglieri Bestetti e de seu pai Dario não é a do Pokemon Go, creio eu. E nem teria problema se fosse, digo, discordando de mim mesmo mas sendo gentil.

Dario 31Parecia fazer anos que eu não via o Dario e a Claudia Guglieri, ele de barba e ainda careca, ela de cabelos longos, muito jovem e tatuada.

Dario 33Então, o Dario resolveu rezar — foto acima — para que nos encontrássemos mais.

Dario 101Aqui, explicamos aos jovens que nos conhecemos no setor de informática das Lojas Manlec em 1985. Enzo reflete no quanto de tempo seriam 31 anos.

Dario 111Depois chega o Arthur e nós começamos a falar sobre masturbação na adolescência.

Dario 114Eu minto que nunca me masturbei na idade do Arthur. A psicóloga me encara, os outros desviam o olhar.

Dario 123Mas que acho normal fazê-lo seis vezes ao dia.

Dario 124O Enzo não dá a mínima para aquela conversa idiota.

Dario 1030Eu conheço essa cara do Dario. Ela significa: “Mas é um boca-aberta”.

Fotos do aniversário: Sequência III

Fotos do aniversário: Sequência III

Fotos: Augusto Maurer

Este grupo estava num canto da mesa, impedidos de caminhar. Passaram a noite bebendo chope sem poder urinar, o que tornou esta noite certamente inesquecível para eles.

Branco (2)Quando ouvia a conversa deles — Ricardo Branco, Jussara Musse e Francisco Marshall –, tratavam da política nacional.

Branco 13Esses três são pessoas realmente brilhantes, mas acho que chegaram à evidente conclusão

Brancode que estamos fodidos.

Fotos do aniversário: Sequência I

Fotos do aniversário: Sequência I

Fotos: Augusto Maurer

O Augusto é o autor da série de fotos que estarão nos próximos posts. Abaixo, as duas primeiras não foram tiradas por ele, é óbvio.

Art 01O Arthur estava doido querendo que o café pós-festa fosse na casa deles. Mas não deu, fomos até tarde no bar e não rolou.

Art 02É que minhas festas de aniversário são tradicionalmente feitas na casa da Astrid — ausente sexta-feira por motivo de trabalho — e do Augusto e, com seus doze anos, talvez o Arthur não lembre de algo diferente.

art 03Depois haverá uma sequência só de Milton e Arthur. Afinal, tive que examinar sua mão a fim de verificar os pelos.

Art 04

Bárbara aos 20 anos

Bárbara aos 20 anos

hipófise

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
(…)
Porém que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda.
Que os filhos são!

Vinícius de Moraes — Poema Enjoadinho

Sem comprovar, os cientistas sugerem que amamos nossos filhos em razão de um hormônio chamado ocitocina que é produzido no cérebro e armazenado na hipófise. Tenho certeza de que minha hipófise está lotada dele. Ele seria produzido ou durante a gestação ou nos primeiros meses de vida da criança ou — importante! — a qualquer momento, porque a ocitocina não diferencia os filhos naturais dos adotivos. A natureza é sábia, li isso em algum lugar.

Hoje minha hipófise fez a verificação quantidade (alta) da ocitocina, acendeu as luzes (pois embaixo do cérebro é muito escuro) e partiu para uma comemoração íntima. Afinal, apesar de termos perdido o contato diário, sempre que vejo a Babi me invade grande amor e tranquilidade. Talvez esteja enganado, mas acho que ela está muito bem. Vê-la me faz sentir que a vida é uma aventura e que “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos e, entre um sono e outro, decorre nossa curta vida”, como disse Próspero para Miranda, pois, para mim, é simplesmente impossível vê-la sem pensar no passar do tempo, este irreversível.

E como lembro de seu primeiro dia! Veio aos berros e cheia de saúde num domingo à noite. Mas estes textos de pai apaixonado são muito chatos e óbvios. Melhor dizer logo que eu fico lotado de orgulho por ela ser a pessoa inteira (*) que é, que fico feliz por ela me suportar com tanta tolerância, por ser amorosa, por ter passado poucas e boas sempre a meu lado, por sempre opinar com calma, por ser mais propositiva do que destrutiva, por termos feito a mais maravilhosa e irrepetível das viagens no momento mais correto, e, fundamentalmente, por ela me abraçar e deixar-se abraçar a toda hora.

Muitas felicidades e aproveite todos os dias porque a coisa é curta.

bárbara 20 anos

(*) Pessoa inteira: jargão da área psi. Trata-se de uma pessoa centrada, mas não auto-centrada ou em faixa própria. Alguém que possui uma trajetória com um conceito, com uma essência que o apoia. Pessoa de ética inabalável e que não pula de galho em galho. Simplificando, o “inteiro” é o mesmo em qualquer circunstância, não diz uma coisa e faz outra, nem tem duas caras.

Festa de aniversário da Elena e do Augusto (com fotos)

Festa de aniversário da Elena e do Augusto (com fotos)

No último sábado, tivemos um baita festerê na casa da Astrid e do Augusto. O pretexto eram os aniversários da Elena (19 de maio) e do Augusto (23), ao qual veio se juntar o Valter (22). Vi o anfitrião tirar fotos das comidas, coisa que não fiz. O que fiz foi comê-las, fato que me impediu de voltar à mesa antes das 22h de ontem, domingo. Sim, até Pantagruel tem que dar um tempo.

E céus, como fomos bem recebidos e como a comida estava boa! O que eram aquelas tapas? E o caldo de camarão? E a torta? Pessoalmente, agradeço a generosidade da Astrid e do Augusto. Eles mostraram que receber e cozinhar é um ato de amar os outros, como diz, penso, Mia Couto. Abaixo, algumas fotos das pessoas que participaram da orgia gastronômica. Mas, antes, uma …

Observação importante: Faltaram fotos das duplas de irmãos Pedro e Arthur, Miguel e Enzo. Os dois primeiros são filhos do Augusto com sua ex e a outra dupla é assim: Miguel é filho da Nikelen e do Farinatti, enquanto que o Enzo surgiu da Cláudia e do Dario (rimou!). Porém eles, no meio da festa, declararam-se espontaneamente irmãos de coração. Deste modo, este blog, não obstante a ausência de pais em comum, passa a considerá-los irmãos. Eu tenho grande e especial amizade com os filhos do Augusto, mas acho que já passou o tempo em que eu lhes ensinava sacanagens. Agora são eles que devem me tomar como aluno.

Bernardo entedia as moças  contando coisas sobre a página 23 da Superinteressante.
Bernardo visivelmente entedia as moças. Deve estar contando alguma coisa sobre ciência ou a respeito de um japonês serial killer.
Ah, elas (e ele) viram o fotógrafo legal!
Ah, elas (e ele) viram o fotógrafo legal!
Elena manifesta sua indignação pela falta de comida na festa. Liana já abriu da disputa, literalmente, das tapas.
Elena manifesta sua indignação pela falta de comida na festa. Liana já abriu mão da disputa pelas tapas.
Elena e Liana suportam a cantoria desafinada de Nikelen e Rovena.
Elena e Liana suportam com dificuldades a cantoria desafinada de Nikelen e Rovena. Elas procuraram o tom até o final da festa. São leitoras de Bulgákov, certamente.
Corredor polonês formado por Alexandre Constantino, Philip Gastal Mayer e pelo casal Kitty e Marcelo Piraíno. Renate Kollarz está preocupada em passar rapidamente, claro.
Corredor polonês formado por Alexandre Constantino, Philip Gastal Mayer e pelo casal Kitty e Marcelo Piraíno. Renate Kollarz está preocupada em passar rapidamente sem deixar cair seu prato.
Conheci Ricardo Branco em 1976, o Dario em 1984 e a Cláudia Guglieri ali por 2008 (?)
Constatação chocante: conheço o Branco há 38 anos — e, pasmem, conheci-o na universidade –, o Dario há 30, mas a Cláudia Guglieri veio muito depois. Também pudera, ela é muito mais jovem.
Sintam a elegância dos primos. Com Robson Pereira, Augusto Maurer e Lúcia Serrano.
Sintam a elegância dos primos. Com Robson Pereira, Augusto Maurer e Lúcia Serrano. A echarpe do Robson provocou suspiros.
Mais um casal: Renate Kolarz e Valter.
Mais um casal: Renate e Valter Souza.
Renate dá uma fugidinha com Phil.
Renate dá uma fugidinha com Phil.
Olha só que amor! Kitty e Marcelo posam para nossas câmaras.
Olha só que amor! Kitty — Cristina Bertoni dos Santos — e Marcelo posam para nossa câmera fora de foco.

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A incrível festa de aniversário do Igor

Iuri, Débora e o pouco feliz aniversariante.
Iuri (esquerda), Débora e o pouco feliz aniversariante.

Hoje é o dia do meu aniversário, mas estou ainda sob o efeito de outro, o do Igor Natusch (2 links). Não tinha planejado fazer festa para mim, mas a Astrid Müller e o Augusto Maurer providenciaram uma ontem. Estou bem, mas deveria estar de luto. Então, como desconfio que uno de los muertos de mi felicidad (como diria Silvio Rodríguez) seja uma das versões de mim, escolhi manter um impossível recolhimento, considerando os queridos amigos que tenho. Gente como o Igor, que tinha uma proposta de aniversário das mais estranhas:

Decidi, pela primeira vez na minha vida, fazer uma festa de aniversário. Completo trinta e três invernos chuvosos no dia 15 de agosto deste ano e decidi fazer uma festinha para comemorar. Todos estão convidados a me encontrar no Largo Glênio Peres na noite fatídica (será uma quinta-feira) trazendo bebidas (isopor ajuda, claro), comidas e lugar para sentar (cangas, cadeira de praia, almofadas, o que quiserem). Evidentemente, todos estão convidados. E a proposta é muito, muito séria.

Eu e a Bárbara nos dirigimos para a festa achando que íamos encontrar o Igor com dois ou três amigos no meio do Largo. Trazíamos um garrafa de bom vinho, abridor e duas taças. Quando dobramos a Borges, vimos que havia uma grande roda de pessoas conversando animadamente. Como o Igor tem 1,90m, foi fácil vê-lo de longe. Logo que cheguei, propus abrir o vinho, mas o pessoal estava todo no quentão. O que era bom, porque parece que estava 5 graus, mas eram 5 graus do bem, sem vento, sem umidade e ninguém tiritava.

O inusitado da festa deixou todo mundo alegre e vários grupos menores foram se formando e alterando durante toda a noite. O álcool rolava em boa velocidade. Logo chegaram vinho e cerveja. Do alto de um edifício, para os lados da Otávio Rocha, vinham alguns flashes, o que indicava a desconfiada presença dos homens da lei. O que fazia aquele estranho grupo ali parado, formando círculos, todos com copos na mão e pegando comida num espetinho ao lado? Mas não fomos abordados.

A coisa ia muito bem quando começou a ficar cômico-poética. Eu vi o cara de longe. Ele vinha completamente bêbado com os braços abertos, como se dançasse. Usava um casaco claro fechado até em cima, tinha uma micro mochila nas costas e uma cara nada rotineira.

Então, parou na frente de nosso grupo e perguntou daquela forma que só os gays muito engraçados conseguem fazê-lo. Mexeu os braços em círculo, deu uma meia volta e disparou em alemão:

— Was ist das? (O que é isso?)

Aparentemente, só eu tinha rudimentos de alemão e respondi:

— É uma festa de aniversário.

Ele deu um sorriso:

— Wie wunderbar! Und warum bin ich nicht trinken? (Maravilhoso! E por que não estou bebendo?)

Fui providenciar uma bebida para o homem, um certo Alexandre, que é esteticista e que se apaixonou imediatamente pela Bárbara. Quando falou com ela, tratou de usar o português.

— Ai, tu é linda e chiquérrima!!!!!! Que roupa perfeita, que cabelo de luxo! Deixa eu dar uma arrumadinha nele?

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E começou a arrumar o cabelo de minha filha, que não parava de rir. Depois de terminar, pediu que algum dos rapazes lhe acendesse o cigarro.

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Ospa faz 62 anos e ainda é uma senhora difícil

Pablo Komlos: Diz quem foi que fez o primeiro teto / Que o projeto não desmoronou / Quem foi esse pedreiro esse arquiteto /E o valente primeiro morador

O primeiro concerto da Ospa ocorreu em 23 de novembro de 1950. A regência foi de seu primeiro maestro e diretor artístico, Pablo Komlós, e a orquestra interpretou obras de Weber, Mendelssohn, Berlioz e Beethoven. O gran finale veio com a Sinfonia Nº 3, Eroica. Deve ter sido uma noite e tanto e eu, sinceramente, não quero que seja verdade o fato de que a primeira obra executada tenha sido de autoria de Weber. Acho que isso machucaria a maioria dos admiradores da orquestra. Em função deste temor, encerro aqui o processo de pesquisas para este texto.

Aos 62 anos, esta senhora permanece sem teto ou, melhor dizendo, é jogada de um local para outro, como se costuma fazer com as vilas e a cultura em nosso estado. No início de 2013, nossa Ospa mudará novamente de ponto, ops, desculpem, de local de ensaios. Parece que sairá do cais do porto onde os integrantes da orquestra tiravam belas fotos de barcos e lagartos para o CAFF (Centro Administrativo Fernando Ferrari). Este seria seu penúltimo lugar de moradia, pois o Teatro da Ospa deve ficar pronto em 2014.

(Nas línguas eslavas, Ospa significa varíola; ignoro se estas mudanças de local são devidas a algum gênero de quarentena).

O que é notável é como esta sexagenária, mesmo sem moradia fixa e ainda negociando seu quadro — onde tenta reorganizar a instituição e colocar seus membros nas posições corretas através de concursos específicos — está bonita, com bom desempenho e, pasmem, é muito cortejada. Por exemplo, há alguns meses um grupo de melômanos quixotescos procura criar uma Associação de Amigos da dita cuja e, olha, como é complicado marcar reuniões! Já somos 3.082 admiradores e ninguém obteve ainda tocar na senhora. Céus, é muita pudicícia para quem é tão boa no palco.

Parece que segunda-feira haverá finalmente uma reunião. Está marcada. Serão 3.082 admiradores se pavoneando para a senhora de 62 anos. Esperamos alguma abertura.

De resto, parabéns a esta grande orquestra, a seus músicos e até a sua diretoria, que um dia irá render-se ao encanto de seus fãs!

Hoje é dia de comemorar COM CERVEJA os 327 anos de Bach

Claro, é uma comemoração simples e modesta, já que nem sei se há muitos parentes dele por aí além de PQP Bach, o filho bastardo. Mas a comemoração deve ser à base de cerveja.

Para quem conhece, é curioso ou lê a respeito da história da música, é sempre surpreendente o tamanho de Bach, seu grau de influência (influência que se revela perene) e sua colocação como pedra fundamental de toda a cultura musical. E todo o mundo que Bach criou foi desenvolvido numa época em que não havia muita noção de obra; ou seja, Bach não escrevia para a posteridade como passaram a fazer logo depois, mas para si, seus alunos e contemporâneos. E era um brigão; passava grande parte de seu tempo solicitando mais e melhores músicos, salários e procurando “emprego”, digamos. Costumava ganhar mais que seus pares, mas nada que fosse espantoso, de forma nenhuma.

A perfeição daquilo que criava e que era rápida e desatentamente fruída pelos habitantes das cidades onde viveu, era pura necessidade individual de fazer as coisas bem feitas. E, mais, ele parecia divertir-se criando dificuldades adicionais em seus trabalhos. Muitas vezes o número de compassos de uma cantata corresponde ao capítulo e versículo da Bíblia daquilo que está sendo cantado. Em seus temas aparecem palavras — pois a notação alemã (não apenas a alemã) é feita com letras — , e suas fugas envolvem verdadeiros espetáculos circences que só podiam ser apreendidas por especialistas. Então Bach era não apenas um fantástico melodista capaz amolecer as pernas de quaisquer ditadores — sei do que falo — , como um sólido teórico capaz de brincar com seu conhecimento. Em poucas palavras, pode-se dizer que o velho sobrava… Sua obra, mesmo com a perda de mais de 100 Cantatas e de outras obras por seu filho mais velho, o preferido de Bach e maldito pelos bachianos Wilhelm Friedemann, suas obras completas correspondem a 153 CDs da mais perfeita música. Grosso modo, 153 CDs são 153 horas ou mais de 6 dias ininterruptos de música.

E também sobrava cerveja em sua casa. Seus contratos previam dinheiro e algumas vitualhas fundamentais: cevada, trigo, lenha e não apenas cevada, mas uma quantidade enorme de cerveja, pois o homem não apenas queria a cevada com a autorização para produzir a bebida, mas a própria. Pode-se de dizer que, naquela época, por questões de saúde, era preferível beber cerveja à água, mas… Pô, Bach pedia muita cerveja. Um litro de cerveja custava o equivalente a US$ 1,50 e o de leite $1,25; isto é, a cerveja era tão (in)acessível quanto o leite, porém as notas examinadas por seus biográfos indicam que a família Bach consumia toneladas dela. Um relatório de gastos do compositor em 1725 (tinha 40 anos) dá conta de um consumo enorme por um período limitado, suficiente para várias pessoas por muitos dias. É óbvio que seus alunos e músicos bebiam junto, mas não vou entrar em maiores detalhes porque o que desejo arengar hoje é simplesmente o fato de que qualquer bachiano que se preze deve beber CERVEJA hoje. É a bebida correta.

Espero ter sido claro. Um brinde à grande e produtiva vida de Johann Sebastian Bach!

Aniversário em 25 fotos

Reunir um grupo de amigos como o que reunimos lá em casa no último sábado é motivo de orgulho para este que vos escreve. O pretexto, meu aniversário, era francamente secundário; os amigos que foram à festa, não. Foi uma bela noite com boa comida e pessoas que se conheciam ou que se conheceram e se entrosaram. Éramos quase 40 e fiquei com vontade de convidar mais outro tanto. Selecionei algumas fotos abaixo, mas há gente que some delas. fazer o quê? Muito obrigado pela presença de todos! Foi uma baita festa.

Começamos por uma geral. À esquerda, sentada, a única foto em que aparece Rachel Duarte e, no primeiro plano, Benedito Tadeu César e minha irmã Iracema Gonçalves. Atrás, iluminado por uma aura como se fosse uma espécie de santo agnóstico, Ricardo Branco conversa com Alejandro Borche Casalas. Ao lado, Helen Osório de papo com Jussara Musse.
Claudia explica alguma coisa a Vladimir Romanov. Igor Natusch (esquerda) faz o mesmo, assim como o Felipe Prestes (meia esquerda). Eu (direita) confiro o placar de Brasil x Portugal.
Eu faço o que sei fazer e, em sentido anti-horário, temos Alejandro, Elena Romavov, Rovena Gobbato Marshall, Vladimir Romanov, Francisco Marshall, Jussara e o  Branco.
Animação contagiante: Igor, Prestes, Gabriela Bordini, Adroaldo Mesquita da Costa e Benedito: todos olhando a repetição do segundo gol de Portugal. Depois, ao ouvir o início de Abbey Road em vinil, Igor disse: “Ouvir um som de baixo vindo de um bom disco de vinil me dá vontade de chorar. É lindo.”
Meus filhos Bernardo e Bárbara, esta em momento garçonete. À direita, meu cunhado Sylvio Gonçalves.
Sylvio faz alongamento ao lado de Gabriela, enquanto Claudia traz os doces sob o olhar faminto de Marshall.
Claudia, Augusto Maurer e Vladimir fofocam. Eu explico ao Marshall o funcionamento de nossa mesa. Adoro explicar isso.
Iracema dá uma gaitada de galpão reagindo a algum absurdo dito pelo Augusto.
Elena Romanov troca o violino pelas batatas. Depois até tocou um pouquinho de piano.
Laura Luz e Filipe Gonçalves fazem tudo rapidamente para não perderem a festa do Guilherme Carravetta.
Da série “Paixão de Casais com Menos de 5 anos”: Astrid Müller e Augusto.
Adroaldo, Benedito e eu observamos alguma coisa sob os olhares desatantos de Bergman, Antonioni e Fellini na parede.
Mais um para a série: Dario Bestetti e Cláudia Guglieri.
Mais um: Bruno Zortea e Bianca Antonini casarão em outubro. Fui escalado para padrinho. Gostaria de saber qual é minha função.
Come, Astrid, come.
Bebe, Dario.
Vladimir mostra seu sorriso “Daniel Craig” ao lado do Alejandro.
Arthur Maurer faz cara de doido varrido antes de atacar um prato preparado especialmente. Conversa entre ele e a Bárbara:  “Tu gosta do teu pai?”, “Claro, gosto.” “É, não tem como não gostar dele”. Pô, obrigado, Arthur!
Augusto com seu filho Pedro Maurer. Quem ficou brincando come atrasado.
Rovena e Claudia na hora do chá. Claudia já estava altamente alcoolizada, mas mantinha a dignidade.
Bernardo acerta as pontas com Lia Zanini (autora da maioria das fotos) antes de “chupar” do narguilé.
O último da série “Paixão”: Marcelo Delacroix (Cury) e Lia fotografam-se no espelho, tendo como ornamento uma fogueira de Jussara.
Mais um casal, desta vez mais velho, de irmãos.
Marshall exercita ritual pagão em Vladimir Romanov. Aliás, frase dita pelo Vladimir: “Podem nos convidar sempre para vir aqui. A gente vem”.
O trio russo conta para Rovena como funcionava o Gulag. Ah, as fotos que são não da Lia, são da Elena.

Milton Ribeiro faz aniversário e é entrevistado

(Escrito há dois anos. Discretamente atualizado.)

A entrevistadora, que presumo recém chegada à menopausa, entra em minha casa a fim de me entrevistar para o Programa Hoje é Meu Dia. O programa apresenta aniversariantes e hoje é o caso. Eu tinha preenchido uma ficha candidatando-me ao programa. Improvisa-se um palquinho em minha casa. Ficamos sentados em frente a meus livros. Desculpo-me pela bagunça, mas o câmera diz para deixar assim, pois o cenário tem personalidade. Sentamos lado a lado, eu e a apresentadora.

P (à guisa de introdução) – Nosso entrevistado de hoje, Milton Ribeiro, está completando 53 anos. É um dia feliz! Ele está muito bem para sua idade. Se excetuarmos o Viagra ou o Cialis, meus caros espectadores, Milton não usa medicamentos  de uso contínuo, o que demonstra que ele é mais um prodígio de boa saúde física encontrado por nosso prestigiado programa. Saúde física e mental, conforme vocês poderão comprovar pelo bom humor de nosso entrevistado.

P – Como você mantém esta atitude positiva perante a vida?

R – Bem, como a vida não tem mesmo sentido, logo percebi que poderia optar por várias posturas, todas equivalentes. Poderia me desesperar a cada vicissitude, ou rir delas; escolhi rir. Poderia roubar e matar, mas como prefiro ser bem aceito, escolhi ser bom. Acho que poderia ser bem mais imbecil, porém gosto de cultura e de me informar e aí está um sério problema. É difícil ser pra cima e informado ao mesmo tempo, mas tenho tentado.

P – Entendo. Mas o Sr. deve tentar mais. Confiamos no Sr.!!! Ho, ho, ho!

R – Estou na luta.

P – O Sr. nunca ficou deprimido, certo?

R – Olha, houve episódios em que quis me matar, principalmente durante minha separação, mas digamos que o grande bobo que há em mim emergiu novamente após uns meses e voltei a ficar assim.

P – Nada grave, portanto.

R – Sem dúvida, nada grave. Foram apenas seis meses em que me deprimi. Minha atitude positiva perante a vida fez com que eu me livrasse de todo o insuportável estresse dando de presente todo o pouco que construíra e hoje estou aqui, em perfeita forma.

P – Você então possui uma disposição natural para a felicidade?

R – Sem dúvida. Eu nasci daltônico, estrábico, tenho pés chatos, minha voz é horrível, sou meio cambota, estou engordando e perdendo cabelo, mas só pensei nisso agora. Prova de que sou feliz e mais: de que a felicidade é proteger-se de si mesmo. É o que faço. Sempre.

P – E então? O Sr. é a prova de que as pessoas não devem desistir de seus sonhos?

R – Hum… Sem dúvida.

P – E quais são seus sonhos hoje?

R – Comprar um Karmann-Ghia, ler livros que não me encham o saco, fugir de ver TV, esquecer os jornais da grande imprensa e a música ambiente, reentrar em forma, ouvir música…

P – Vejam, meus amigos, são coisas simples! A felicidade ESTÁ nas coisas simples.

R – Sim, parecem simples, mas tem muito mais…

P – Desculpe interromper. Acho que nossos telespectadores querem saber como você chegou aos 53 anos sem tomar medicação alguma.

R – Eu ia vivendo numa boa até que fui ao cardiologista. Fui porque quis, imotivadamente. Nunca tive nada. Mas descobri que meu colesterol estava batendo nos 300.

P – Ho, ho, ho. Que coisa!

R – Pois é. Aí comecei a tomar um Lípitor antes de dormir e a coisa caiu para 100.

P – Sensacional!

R – Sim, eu sempre obedeci os médicos direitinho.

P – E então, tudo resolvido!

R – Claro, como eu sou alguém naturalmente feliz, ignorava que podia ser perigoso transformar o próprio sangue em água.

P – E então?

R – Hoje tomo meio comprimido e a coisa vai bem.

P – Viram? Tudo se resolve com bom senso, ho, ho, ho. E o peso?

R – Eu adquiri 10 quilos nos últimos trinta anos.

P – Só?

R – Sim, se seguir assim, viverei o suficiente para experimentar a obesidade mórbida.

P – Ho, ho, ho. Não é maravilhoso? E você não acha que poderia manter o peso atual?

R – Não.

P – Mas por quê?

R – Olha, eu tomei Sibutramina de 15 mg por dia e tinha a mesma fome incontrolável. Desisti. Quando chega ao final da tarde, penso tanto em chocolate que até esqueço de desejar a morte súbita de algumas pessoas.

P – Nada de maus sentimentos, nada de maus sentimentos! Diria até que sua chocolatria, ho, ho, ho, é muito boa para afastar maus sentimentos.

R – Sim. A chocolatria me salva deles e passo a sonhar apenas com Alpinos e que tais.

P – Ho, ho, ho. Você tem muitos amigos?

R – Sim, esta é uma parte boa da minha vida.

P – Maravilha, uma vida social intensa. E a vida sexual?

R – Olha, quando a coisa começou a falhar fui a um médico que garantiu que meu único problema era mental.

P – Um problema mental! Que bom que não era grave!

R – Ele me disse que se eu me preocupasse muito com os problemas, geraria um aumento de adrenalina no sangue e que esta adrenalina faria com que uma válvula não funcionasse bem.

P – Apenas um problema hidráulico!

R – Sim, claro. Se não vedar bem, o sangue sai. É como uma Hydra estragada.

P – Hidra, como assim?

R – Hydra, uma válvula que se usa em privadas.

P – Ho, ho, ho. Perfeito.

R – Aí, ele me perguntou se minha vida era exageradamente problemática, pois o estresse causa a produção em excesso de adrenalina.

R – E você?

P – Eu respondi que na época estava com um advogado, buscando a obter a guarda de minha filha.

P – Ho, ho, ho. E então?

R – Ele se apavorou. Pois do jeito que minha situação se encontrava, teria dificuldades de fazer uma boa vedação. O sangue iria embora e o pau…

P – Ho, ho, ho. Estamos entrevistando Milton Ribeiro e são 19h43 minutos em Porto Alegre.

R – …

P – E… Bem, isso significa que se você não tiver grandes preocupações, a válvula funciona e sua vida sexual também?

R – Sem dúvida! Pois não tenho problemas físicos, só os mentais causados pela adrenalina.

P – Então pode ser solucionado!

R – Claro. Foi por isso que fiz o seguinte raciocínio: como não sou rico e, portanto, meus problemas não são de fácil solução, deveria considerar seriamente a necessidade de tornar-me uma besta quadrada, um bobo alegre.

P – E conseguiu?

R – Venho tentando.

P – E será que é mesmo necessário tornar-se um bobo alegre…? Ho, ho, ho.

R – Não, mas é uma questão de prevenção. E, dentro de minha estratégia, tenho que seguir esta trilha, entende? Sou obrigado.

P – Maravilhoso!

R – Mas há desvios que atrapalham.

P – Quais?

R – Eu ligo a TV de manhã e sinto aquela adrenalina voltando. Ou dão péssimas notícias ou é vulgar pra caralho.

P – Pra car… ho, ho, ho! A TV pode ser boa, Sr. Milton, pode ser sim!

R – Sim, porém há sempre mais. Por exemplo, vou ler um bom livro, mas este me dá SEMPRE uma visão por demais realista, ouço uma bela música mas ela é SEMPRE meio trágica.

P – Ora, o mundo não é bom para os intelectuais. Por isso, os cientistas inventaram o Viagra. Só para vocês, conforme o Sr. demonstra.

R – Você está ficando irritada e isto não é bom… Lembre-se que não devo me estressar. É mesmo um remédio para intelectuais?

P – Deve ser!

R – É que desconheço pessoas felizes. Não apenas intelectuais. Todos são infelizes, mesmo que racionalizem. Todos morrerão.

P – Vocês são muito desagradáveis.

R – Como?

P – Desagradáveis. Os intelectuais gostam de ficar tristes e de dizer! Fazem dramas.

R – E você é feliz?

P – O entrevistado é você. Não interessa o que eu penso. Nem se penso.

R – Você pensa. Só que mal. Pensa que as pessoas possam ser felizes e satisfeitas quando ninguém é assim. A gente é bom ou ruim, interessante ou desinteressante, branco ou preto, engraçado ou sisudo, sociável ou não, mas é sempre insatisfeito.

P – Você não serve para nosso programa.

Fala para o câmera:

P – Ele não irá ao ar no “Hoje é meu Dia”. Procuraremos outra pessoa. Ou um ator contratado, talvez.

R – OK, não posso me estressar.

P – Passe bem. Vocês não têm nada a acrescentar!

R – Vocês?

P – Vocês, os metidos, os idiotas. Imagina falar mal da TV! Na TV! Passe bem!

Ela levanta e faz um sinal ao câmera. Ele faz tsc, tsc, tsc, e diz escolhem cada abobado, acho que não leram a ficha… A entrevistadora manda o câmera apressar-se.