Assombrações, de Domenico Starnone

Assombrações, de Domenico Starnone

Eu jamais pensei que este livro fosse de assustar, mas o fato é que ele me envolveu de tal forma — e o caso é tão preocupante — que não consegui largá-lo da metade até o final. Precisava saber o final da história e, bem, ela me ASSUSTOU de verdade. Mas não vou estragar a leitura de vocês contando a trama. Também peço a meu leitor que não reduza Assombrações (Todavia, 184 páginas, R$ 49,90) aos sustos que citei, pois o livro carrega enorme simbolismo e real dramaticidade. Deste modo, sigamos sem spoilers.

Daniele Mallarico é um respeitado ilustrador que já passou dos 70 anos. Vive solitário em Milão, é abastado e está convalescendo de uma cirurgia quando é chamado a cuidar por uns dias de seu neto Mario. Os pais de Mario, Saverio e Betta, filha do ilustrador, passam por um péssimo momento. Saverio é um daqueles ciumentos trágicos que imagina, pensa ou tem absoluta certeza de que a mulher está apaixonada por um poderoso professor do Departamento de Matemática onde trabalham.

Mas o livro gira muito mais sobre a relação entre neto e avô, entre o pequeno ser de quatro anos cheio de energia e o velho debilitado. À carência e à fraqueza de Daniele, Mario responde de forma mimada e descontrolada, típicas da infância super-protegida de hoje. Pior: aos quatro anos, demonstra enorme talento para o desenho, o que perturba o velho ilustrador. Enquanto cuida de Mario, Daniele deve produzir ilustrações para uma edição de luxo de The Jolly Corner, de Henry James. O editor que fez encomenda recebeu os primeiros esboços e está muito descontente, o que faz Daniele pensar que a fonte secou.

Daniele mal suporta o neto que parece saber tudo sobre a casa napolitana onde mora e que é a mesma onde passou sua infância. “Eu copiei do vovô”, é a última frase do livro. O inferno de Assombrações está nos detalhes de uma narrativa onde o velho busca um impossível acordo com suas opções e ambições.

Infância, decrepitude, inadequação, raiva, desconforto, inveja. Starnone é um mestre que faz com que grandes temas fluam através da descrição de pequenas ações cotidianas.

Recomendo muito.

Domenico Starnone