Os 26 dias e as muitas histórias que separam Abbey Road do Led Zeppelin II

Os 26 dias e as muitas histórias que separam Abbey Road do Led Zeppelin II
Os Beatles, esperando o momento de atravessar Abbey Road
Ainda em fila, John, Ringo, Paul e George esperam o momento de atravessar Abbey Road de volta

Publicado em 19 de outubro de 2014 no Sul21

Abbey Road foi lançado em 26 de setembro de 1969 na Inglaterra. Led Zeppelin II saiu menos de um mês depois, em 22 de outubro. O duplo aniversário de 45 anos une dois esplêndidos discos (ou LPs, pois estamos na época do vinil) que estão em qualquer seleção que relacione os “melhores de todos os tempos”. Curiosamente, o primeiro parece encerrar uma era, enquanto o segundo inaugura outra. Para quem veio de Marte, informamos que Abbey Road foi o 12° álbum lançado pela fundamental banda britânica The Beatles. Já Led Zeppelin II é o 2°  álbum do importante grupo denunciado no título.

Abbey Road foi o último disco dos Beatles a ser gravado e o penúltimo a ser lançado. As canções do último disco, Let It Be, foram gravadas alguns meses antes das sessões de Abbey Road. Este representou uma trégua nas brigas que levaram Let it be a não ser lançado logo após sua gravação. Foi um breve retorno aos velhos tempos, com a recolocação de George Martin como produtor. Mas há ainda claros ecos da confusão em que estava metido o grupo: o vinil tinha (digamos que tem ainda) dois lados bem distintos entre si, com a finalidade de satisfazer aos egos um tanto inchados e ressentidos de John Lennon e Paul McCartney. Apesar dos dois lados terem canções de ambos, o lado A, que começa com Come Together e vai até I want you (She`s so heavy) é a parte do disco concebida por John Lennon e é uma coleção de canções individuais. Já o lado B, o de Paul McCartney, logo após Because, contém uma sequência de músicas propositadamente inacabadas criadas pela dupla.

Curiosamente, cada um dos lados foi brindado por uma obra-prima de George Harrison: o lado Lennon ganhou Something e o lado McCartney recebeu Here comes de sun.

O Led Zeppelin em 1969
O Led Zeppelin em 1969

Antes de seguirmos com Abbey Road, vejamos o que acontecia na época com o Led Zeppelin. Em outubro de 69, o Led tinha um ano e um mês de vida. A banda era formada pelo guitarrista Jimmy Page, o vocalista Robert Plant, o baixista e tecladista John Paul Jones e o baterista John Bonham. Page começara sua carreira como músico de estúdio em Londres e, em meados da década de 1960, era o guitarrista mais procurado pelas gravadoras na Inglaterra. Entre 1966 e 68, ele foi um dos Yardbirds. Primeiramente, o nome da nova banda era New Yardbirds. Porém, quando as gravações daquele que seria o Led Zeppelin I viraram coisa séria, a banda concluiu que tinha personalidade para merecer um nome sem cordão umbilical. O nome Led Zeppelin surgiu depois que os amigos do The Who — Keith Moon e John Entwistle — comentaram que o supergrupo seria um “balão de chumbo” (do inglês “lead zeppelin”). A palavra “lead” é propositadamente escrita com erro.

O Led Zeppelin é reconhecido como um dos iniciadores do heavy metal e seu LP de 1969 é o mais pesado de todos. Mas não precisamos ser muito atentos para notarmos que a origem do som do grupo está no blues e no folclore inglês. Diferentemente do LP dos Beatles — todo ele gravado no conforto do estúdio de Abbey Road –, o do Led Zeppelin foi feito de forma cigana. Afinal, o grupo passou o ano de 69 excursionando pela Europa e Estados Unidos e cada canção foi gravada, mixada e produzida separadamente em vários estúdios, alguns dos quais eram tecnicamente bastante pobres. Por exemplo, um estúdio em Vancouver foi creditado como “cabana”, pois tinha um equipamento de oito canais que nem sequer possuía conexões para fones de ouvido.

Contrariamente, Abbey Road é o mais bem acabado de todos os discos dos Beatles, comparável somente a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Sua estrutura foi bastante pensada e discutida, e as visões discordantes dos integrantes da banda só contribuíram para a riqueza da criação final. Trata-se da última explosão de criatividade do grupo, capitaneada pelo produtor George Martin. Enquanto isso, Led Zeppelin II tem sua unidade advinda justamente da falta de tempo e de reuniões formais. O baixista John Paul Jones, anos depois, disse que “muitos dos riffs que Page executa nesse álbum haviam surgido no palco, durante as longas improvisações que fazia durante a canção Dazed and Confused. Depois dos shows, os membros da banda tentavam recordar os melhores trechos, que eram imediatamente gravados em algum estúdio nas proximidades. A produção do disco é creditada a Jimmy Page.

A capa do Led Zeppelin II
A capa do Led Zeppelin II

A capa do Led Zeppelin II tem uma história curta, se comparada com a série de interpretações — loucuras absolutas — suscitadas por Abbey Road. O projeto da capa foi baseado em uma fotografia da Divisão Jagdgeschwader 1 (Esquadrão de Combate nº 1) da Força Aérea Alemã, o famoso “Circo Voador” liderado por Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho da Primeira Guerra Mundial. Depois que a foto foi matizada, os rostos dos quatro integrantes da banda — retirados de uma publicidade de 1969 — foram retocados e colocados na foto. Também foram incluídos os rostos do empresário da banda, Peter Grant. A mulher na foto é Glynis Johns, a atriz que interpretou a mãe de Mary Poppins no filme da Disney. A presença dela é uma piada interna. O nome do engenheiro de gravação era Glyn Johns, ou seja, eram quase homônimos. Também foi incluído o astronauta Neil Armstrong, recém chegado da Lua. A campanha publicitária dizia “Led Zeppelin – A única maneira de voar”.

A foto-base da capa.
A foto-base da capa.

Como dissemos, o disco é certamente o trabalho mais pesado da banda. Ele inicia com o agressivo riff de Whole lotta love, seguindo com a What is and what should never be, um gênero de canção que se tornaria típica do Led Zeppelin ao alternar momentos suaves com “pauleiras”. Nos anos que se seguiram a seu lançamento, Led Zeppelin II era citado por críticos musicais como um modelo a ser seguido por bandas de heavy metal. Músicas derivadas do blues como Whole lotta love, Heartbreaker, The lemon song, Moby Dick e Bring it on home foram vistas, na época, como grandes novidades, pois os riffs de guitarra definiam e puxavam as canções, em lugar do refrão. A absoluta ênfase no instrumental era atípica na música popular. O solo de guitarra de Page em Heartbreaker, foi uma grande inspiração para o trabalho posterior de solistas de metal. Como tal, o álbum é geralmente considerado como muito influente no desenvolvimento do rock, sendo um dos precursores do heavy metal, inspirando uma série de outros grupos de rock, incluindo Aerosmith, Iron Maiden, Guns N’ Roses e até seu contemporâneo Black Sabbath.

A famosa capa de Abbey Road
A famosa capa de Abbey Road

Abbey Road tem a mais famosa capa de um disco. A fotografia da capa do álbum foi tirada do lado de fora dos estúdios Abbey Road em 8 de agosto de 1969 por Iain Macmillan. A sessão durou dez minutos. John Lennon estava apressado e queria tirar a foto e sair logo dali, pois “deveríamos estar gravando e não posando para fotos idiotas”. A ideia da foto de capa foi de Paul McCartney. Macmillan tirou apenas seis fotos sobre um cadeira colocada no meio da rua. Paul McCartney escolheu a que achou melhor. Nove entre cada dez turistas vão até aquele bairro residencial ver a rua e repetir a famosa foto idiota com amigos. O estúdio ainda está lá, funcionando, bem na frente do fusca branco.

A capa foi objeto de toda sorte de rumores e teorias de que Paul estaria morto, vítima de um acidente de carro em 1966. Apesar de ter sido apenas uma brincadeira, vale a pena conhecer a lenda. Como se vê ao lado, na capa do LP, os Beatles estão simplesmente atravessando a rua numa faixa de segurança a poucos metros do Estúdio Abbey Road.

Porém… Ela estaria lotada de “pistas” que demonstrariam que Paul tinha morrido. Paul está descalço — segundo ele, aquele dia fazia muito calor, e ele não estava aguentando ficar com nada nos pés. Além disso, estava fora de passo com os outros três e de olhos fechados. Apesar de ser canhoto, leva o cigarro na mão direita. A placa do fusca (“beetle” em inglês) estacionado é “LMW”. É claro que isso significa “Linda McCartney Widow” ou “Linda McCartney (mulher de Paul) Viúva. O complemento da placa é “281F”, referindo-se ao fato de que McCartney teria 28 anos se (if em inglês) estivesse vivo. (O I em “28IF” é um “1”, mas isso é difícil de se ver na capa). Para piorar, os quatro Beatles da capa representariam o padre (John, cabelos compridos e barba, vestido de branco), o notário responsável pelo funeral (Ringo, de terno preto), o cadáver (Paul, de terno, mas descalço como um cadáver), e o coveiro (George, em jeans e uma camisa de trabalho). Além disso, há um outro carro estacionado, de cor preta, um modelo usado para funerais, voltado para o lado do cemitério próximo a Abbey Road. O homem de pé na calçada, à direita, é Paul Cole, um turista dos EUA que só se deu conta de que tinha participado da capa de disco mais famosa de todos os tempos meses depois.

Aparentemente, Paul McCartney está vivo e produzindo até hoje.
Aparentemente, Paul McCartney está vivo e produzindo até hoje.

E foi uma capa nada planejada. Durante as gravações, o engenheiro de som Geoff Emerick fumava muito os cigarros da marca Everest. Então, ficou decidido que este seria o nome do disco. Eles até pensaram em fretar um jato e ir até o Everest tirar umas fotos. Mas, como estavam em cima do prazo, decidiram atravessar a rua.

Abbey Road é o disco mais vendido dos Beatles. A abertura vem com Come Together, maravilhosa canção de Lennon. Inicia com um “chuuunc!” (na veia) que era a gíria para o uso de heroína. McCartney e o produtor George Martin deixaram o baixo bem alto de forma a evitar problemas com a justiça. Depois vem a célebre Something, de Harrison. Até Frank Sinatra gravou. Outras músicas famosas do disco são a brincadeira anos 50 feita em Oh! Darling, o coral de Because — ambas de McCartney –, e a outra e esplêndida colaboração de Harrison Here comes the sun. Mas o que distingue Abbey Road de tudo o que fora feito antes pelos Beatles é a sequência de nove canções inacabadas no final do disco: You never give me your money, Sun King (com parte de sua letra feita de palavras que não existem), Mean Mr. Mustard, Polythene Pam, She came in through the bathroom window, Golden slumbers, Carry that weight, The end e Her Majesty. Elas finalizam também a história do grupo.

Já o Led Zeppelin seguiria aprontando por mais sete discos. Alguns deles realmente espetaculares. Mas esta é outra história.

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A Ospa trouxe o pterodáctilo para o paraíso

A Ospa trouxe o pterodáctilo para o paraíso
A Tempestade de Tchai chegando...
A Tempestade de Tchai chegando…

A noite era perigosa. Era necessário todo o cuidado. Concertos em igrejas deixam nossas bundas quadradas e as costas doendo. Sei por experiência própria que a Igreja do Colégio Anchieta tem cadeiras especialistas nestes quesitos. Acho que elas foram compradas do DOPS nos anos 80. O sofrimento foi amenizado pela presença amiga do Gustavo Melo Czekster, que pegava fogo — suando com um condenado — no banco atrás de mim. Ele tinha dois desconfortos; eu, inexplicavelmente, não sentia calor. Pingando, ele me disse que estas crônicas que escrevo sobre a Ospa são a continuação natural dos concertos e que ele as lia sempre. Como veem, um cara de bons hábitos. Mas, minha nossa, sei que nem todos gostam disso aqui!  Ele completou dizendo que apreciava as descrições do ambiente e eu pensei: como não fazer isso se aquele ventilador ali à esquerda mia como um gatinho faminto?

A última vez que tinha visto o Réquiem de Fauré fora na Saint-Martin-in-the-Fields em fevereiro de 2013. Saudades daquela viagem com a Bárbara. Mas não pensem que a versão ospiana da peça estava pior. Talvez estivesse até melhor que a versão londrina. O Coro Sinfônico da Ospa e o trabalho do pequeno efetivo orquestral utilizado garantiu uma bela viagem pelo peculiar universo de Fauré. Seu Réquiem não é nada desesperado e indica o caminho de um descanso eterno no paraíso. O Coro foi magnífico em toda a peça, mas especialmente na abertura do último movimento In Paradisum, quando anjos nos levam para lá pela mão. Não é um Réquiem para ser gritado e tal concepção da obra foi respeitada. O soprano Elisa Machado esteve um degrau acima de seu partner Daniel Germano. Elisa foi perfeita, demonstrando compreensão do estilo do Réquiem. Discreta, a orquestra esteve impecável.

No intervalo, a situação era a que segue: ainda embalados pelo Réquiem e em pé, tentando fazer nossas bundas retornarem a seus formatos originais. Tudo era alívio. Então, o paraíso foi invadido, mas não por trombadinhas fazendo um arrastão na praça de alimentação de um shopping, mas por algo muito mais primitivo e agressivo.

O maestro Manfredo Schmiedt, tão mansinho e compreensivo na primeira parte do concerto, começou a mexer os braços chamando os pterodáctilos para invadirem o paraíso. A tal Fantasia Sinfônica A Tempestade, Op. 18,de Tchaikovsky, era inédita em Porto Alegre. Deveria ter permanecido assim para sempre. Trata-se de bombásticos temas russos batendo firme nos personagens da última peça de Shakespeare. Pobre Próspero, pobre Miranda, coitado de Ferdinand, só o deformado Calibã pode ter gostado. Fiquei pensando que a tempestade que trouxera Alonso e Antônio para a ilha de Próspero talvez estivesse na música, mas não, nunca, a magia de Próspero e nem, jamais, nunca, haveria espaço para a gloriosa frase dita pelo pai de Miranda: Nós somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos; com nossa curta vida cercada pelo sono. Ou, em tradução mais completa e competente que a minha: Esses atores eram todos espíritos e dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. Um dia, tal e qual a base ilusória desta visão, as altas torres envoltas em nuvens, os palácios, os templos solenes, e todo este imenso globo hão de sumir-se no ar como se deu com esse tênue espetáculo. Somos feitos da mesma substância dos sonhos e, entre um sono e outro, decorre a nossa curta existência. 

Onde estava o genial Próspero, Tchai?

No final do concerto, estava com desejo de música, claro. O Tchai tinha me matado. A noite acabou no Café Fon Fon, na festa de aniversário da Isolde. Bem tarde, com o bar quase vazio, acomodados naquele ambiente tranquilo, largado e risonho de fim de festa, a Elena foi sentar-se no lugar da Bethy Krieger para tocar — sim, no piano —  Beatles (Here, there and everywhere e Because) e, a meu pedido, de Bach, o BWV 639, Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ, que ela toca maravilhosamente e que deixo para vocês com a Lisitsa: