Lançado pela Boitempo, “O Capital para Crianças” gera confusão e ofensas nas redes sociais

Lançado pela Boitempo, “O Capital para Crianças” gera confusão e ofensas nas redes sociais

Vô Carlito conta histórias para seus netinhos em O Capital Para Crianças, livro dos catalães Joan Riera e Liliana Fortuny. O lançamento é da Boitatá, selo infantil da Boitempo. A obra faz parte de uma série de lançamentos da editora que celebram os 200 anos de nascimento de Karl Marx (Trier, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883). Pois é, Karl Marx, vô Carlito… Sim, claro, o livrinho é baseado em O Capital, de Marx, e o desenho não deixa dúvidas.

O capital para crianças_miolo.indd

A simetria é clara. Frederico fica pasmo ao ver que as meias — que produz e pelas quais recebe 25 cents — custam 2 libras no comércio. Daí a coisa parte, como no livro original. É claro que sem a incrível riqueza de detalhes de O Capital. Dia desses, vi o Ulysses de Joyce em quadrinhos. Ninguém reclamou, apesar de que lá tem sexo de todo tipo. Mas agora a editora Ivana Jinkings está sendo ofendida nas redes sociais pela ousadia de lançar tal obra infantil. Imaginem que a obra fala em “mais-valia” e greve, o que educaria toda uma perigosa geração de militantes de esquerda!

A mera notícia do lançamento do livro já foi suficiente para atiçar à loucura a mais parte estúpida da direita. Ivana está se defendendo das ameaças de alguns surtados. Não vamos reproduzir as ofensas aqui porque este é o blog da família brasileira e nossos sete leitores detestam baixaria.

Por outro lado, O Capital, célebre obra de Karl Marx está à venda, disponível a todos e sua leitura é recomendada a todos que estudam Economia, Ciências Sociais, etc. Não se trata de um livro apenas ideológico. É bibliografia essencial ao estudo e debate.

A editora planeja lançar dez livros relativos ao Ano Marx. Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna, de Michael Heinrich, e Karl Marx: Uma Biografia, de José Paulo Netto. Diferença Entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro, a tese de doutorado de Marx, também será editada em livro. David Harvey lança Marx, Capital e a Loucura da Razão Econômica; e Domenico Losurdo, O Marxismo Ocidental. E mais: O Último Marx, de Marcello Musto; Escorpião e Félix, de Marx; A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels; e Estrela da Manhã: Marxismo e Surrealismo, de Michael Löwy.

O décimo é outro livro infantil: O Deus Dinheiro, de Karl Marx e Maguma.

marx.2jpg-768x326

Crônicas do mundo ao revés, de Flávio Aguiar

Publicado ontem no Sul21

Crônicas do mundo ao revés (Boitempo, 141 páginas) é uma excelente reunião de narrativas de diversos gêneros – ficção, memórias, causos e vivências políticas. Quase todas as histórias têm sua nascente na luta política dos anos 60 e sua influência sobre a vida do autor-personagem. De lá partem, descrevendo um longo arco que vai da luta armada ao exílio, do exílio à vida estabelecida no exterior, dela aos causos ouvidos na infância, retornando até às reflexões sobre as origens familiares. O livro é dividido em 4 partes: Tempos difíceis, Palavras difíceis, Causos difíceis e Histórias difíceis, cada uma delas contendo de quatro e seis histórias.

Tempos difíceis — a melhor parte — trata da luta armada vista de dentro. Não são narrativas romantizadas ou idealizadas e nem guardam parentesco com a já antiquada literatura de resistência dos anos 70. São relatos duros e testemunhais que retomam os anos de chumbo de forma nada nostálgica. O medo, o perigo e as particularidades da época estão presentes nos relatos. É concedido ar e fôlego a vozes silenciadas pela tortura ou pelo processo histórico-literário, que não costuma recebê-las frequentemente em seu cânone. O autor é bem sucedido, tecendo narrativas em primeira pessoa que dão proximidade à secura das palavras.

Palavras difíceis é totalmente diferente. O personagem principal já está na Europa e na África, talvez resultado do exílio. Porém, a melhor narrativa é a mais ficcional delas, Singular acontecimento, curioso diálogo com o conto machadiano Singular ocorrência. Se Machado criou o homem que conta a um amigo sobre o caso extraconjugal de um outro amigo, Aguiar cria uma carta em que o escritor X (Machado, certamente), conta a um amigo sobre seu encontro com José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), conhecido como Qorpo Santo, dramaturgo gaúcho que visitou o Rio de Janeiro na tentativa de provar sua sanidade mental. Lá encontrou Machado, ao menos na realidade ficcional. Trata-se de uma pequena joia literária escrita no estilo do Bruxo do Cosme Velho.

Causos difíceis são histórias humorísticas do interior gaúcho. É o trecho mais fraco de um bom livro que finaliza com quatro Histórias difíceis. Aqui a ficção é abandonada. Na primeira delas, Flávio Aguiar escreve um impecável e emocionante texto de restauração da memória do militar Alfeu de Alcântara Monteiro, uma das mais importantes figuras do movimento da legalidade e das primeiras vítimas do golpe de estado de 1964. Como o próprio autor cita, não há nenhuma praça com seu nome, que parece destinado ao esquecimento. Depois, há três narrativas memorialísticas onde a genealogia mistura-se poeticamente a impressões familiares.

Não, o forte de Crônicas do mundo ao revés não é a unidade. Mas quem disse que esta é necessária? E quem disse que as fraturas e as diferentes vivências de uma existência não fazem boa literatura? Neste livro, Flávio Aguiar recolhe trechos, impressões, atitudes, interesses e posturas que formam um mosaico cujas cores só se completam quando terminamos a leitura.

Sobre o autor

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti: em 1983 com o ensaio A comédia nacional no teatro de José de Alencar, em 2000 com o romance Anita e em 2007 como participante de Latinoamericana – Enciclopédia sobre a América Latina e o Caribe (org. de Emir Sader e Ivana Jinkings), premiado como melhor livro do ano em não ficção.