Melhor programa cultural para hoje: Cineclubismo nos Anos de Chumbo

Recebi este e-mail:

Olá,

estou organizando uma sessão de cinema na Sala Redenção (UFRGS) no dia 07/05, em que será passado o filme Uma cidade sem passado. A proposta é de que a autora do livro “Cineclubismo – Memória dos anos de chumbo” – Rose Clair Matela – comente, após a sessão, a importância do movimento cineclubista no período da ditadura (não era ditabranda) não só como um espaço de resistência político-cultural, mas também de formação para os sujeitos que dele participaram. Rose Clair paricipou diretamente da organização dos cineclubes no Rio de Janeiro naquela época, viu e viveu de perto a repressão. No dia 08/05, a proposta é de realizar um debate entre ela e Luiz Alberto Cassol – que trabalha com o cineclubismo hoje – para que seja debatida a importância do cineclube naquela época e na atualidade, também como um espaço de resistência político-cultural e de formação para os sujeitos, mas em contextos diferentes. Gostaria de saber se é possível fazer a divulgação no blog quando a data se aproximar. Se puder contribuir de alguma forma, ficamos gratos. Desde já agradeço a atenção.

Att.,
Carla Hirt

Uma Cidade sem Passado (Das Schreckliche Mädchen), de Michael Verhoeven, é um dessas pequenas obras-primas muito pouco vistas. É um filme alemão de 1990. A história: na década de 70, Sonja, uma jovem estudante, inscreve-se num concurso “Minha Cidade Durante o Terceiro Reich“. Porém não são todos que querem colaborar para que ela tenha acesso aos antigos arquivos da cidade. Muita gente entra em pânico e então mais do que nunca Sonja quer descobrir a verdade sobre os que viveram sob o regime da época. Deliciosa mistura de comédia e drama, o filme é baseado em fatos reais. Ganhou vários prêmios e chegou a ser indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com inteira justiça. (Adaptado desta página).

A Cordialidade Desnecessária & A Salvação por Clint Eastwood

Por uma questão de “teologia e simetria”, como diria o grande escritor e gozador John Kennedy Toole, Clint Eastwood fez da cena final de Gran Torino uma grande exceção em sua carreira. É seu último filme como ator. Menos pior que segue diretor.

Faz algum tempo, o escritor português Francisco José Viegas escreveu em seu blog:

O ressentimento apoderou-se da blogosfera nos últimos tempos sob a máscara do debate. Não, não é que deva existir um debate «frouxo», inócuo — falo dos termos do debate. Mas, como tenho dito várias vezes, longe de mim tentar propor «um tom», seja lá isso o que for, uma espécie de norma bem-educada de dizer as coisas. Às vezes, basta ler os adjectivos — quando não há nome (designação, pessoa, outro, coisa) que não tenha um adjectivo por perto. Evidentemente que o «ressentimento» é outra coisa, uma espécie de marca da cultura oficial contemporânea. Por exemplo: todo o texto que nos é estranho passa por ser a manifestação de um pecado original; os outros transportam sempre um vírus. Nesses casos, até o riso é feito de ressentimento. E o ressentimento está ligado à vigilância permanente, às comparações abusivas, ao controle à distância, ao patrulhamento ideológico. E se não está, é meio caminho.

Em meu blog, com raras exceções, o debate tem sido leve e tranquilo. Porém, noto ranço em várias outras plagas virtuais. Uma vez, há uns quatro anos, escrevi um post sobre a Rádio da Universidade que foi distribuído entre professores do Instituto de Artes e profissionais da rádio. Nunca li tantas ofensas! Quanta descortesia e ressentimento, ainda mais que eu flagrantemente conhecia a rádio, conhecia música e tinha razão. Depois daquilo, a rádio mudou. Claro, não sou santo, fiz analogias que queria engraçadas, mas que certamente soaram agressivas por lá. Poderia desculpar-me de meus excessos se o pessoal da rádio se manifestasse com calma. A discordância permaneceria. Será que também entrei no jogo?

Este tema pode ser expandido para fora do mundo dos blogues. De forma geral, a vida está muito “gritada”. Podem ser gritos literais ou podem ser insistências cujo efeito é o mesmo. Ontem, um vendedor de seguros me telefonou e, após apresentar-se, procurou vender seu produto. Tratei de explicar com simplicidade que já tenho seguro para o carro, para a saúde, para a vida, para a morte e não desejava pagar outro. (Não usei estas palavras, fui gentil.) Isto provocou o sarcasmo do vendedor Vinícius, que me felicitou por ser tão feliz e não precisar de nada. (Na verdade eu preciso de tudo).

Outro exemplo: no final de semana, fui a uma “comemoração” na qual houve discussões sobre futebol que ultrapassaram os limites do objeto da controvérsia. Rapidamente, um gremista estava chamando de palhaço um colorado. Eu peguei meu copo de cerveja e dei meia volta. Eles que se matassem.

Porém à noite assisti à uma entrevista de Clint Eastwood na TV (Actor`s Studio). Foram duas horas de uma pessoa encantadora, alegre, inteligente e fundamentalmente inteira (*)! Fiquei engolindo cada palavra com a certeza de que meu objetivo de velhice seria o de tornar-me um cara parecido, em humor, com ele. Meu filho Bernardo também ficou cativado pelo homem Clint Eastwood.

(*) Pessoa inteira: jargão da área psi. Trata-se de uma pessoa centrada, mas não auto-centrada ou em faixa própria. Alguém que possui uma trajetória com um conceito, com uma essência que o apóia. Pessoa de ética inabalável, tolerante e que não pula de galho em galho. Simplificando, o “inteiro” é o mesmo em qualquer circunstância, não diz uma coisa e faz outra, nem tem duas caras.

O comentário de Charlles Campos merece vir para o post:

Há alguns anos, deprimido diante ao que me afigurava ser um constante fracasso emocional, escrevi alguns cartázes de urgência com a frase”Jamais, em qualquer ocasião, magoe as pessoas!”, e afixei em pontos estratégicos pela casa. Quando retornei, ao final da tarde, encontrei-os empilhados sobre a estante, e imaginei que a moça da limpeza deveria ter sentido um constrangimento quase igual ao meu por não saber onde colocar aqueles frutos do meu esquecimento. Uma das histórias dolorosamente inesquecíveis e redentoras do meu avô, que ele a contava sempre à atenção dos constantes pedidos da família, foi quando, em uma de suas idas da fazenda à cidade, parou sua caminhoneta para auxiliar um homem que se encontrava com o carro danificado ao lado, na estrada de chão. Meu avô não se lembra que peça sobressalente de sua caminhoneta ele dispôs para sanar o avario do veículo, ele só se lembra da para sempre incompreensível resposta que deu quando o desconhecido lhe perguntou quanto havia sido a ajuda, e meu avô respondeu:”Uns dez reais e morre o assunto”. Como haveria de ser, um mês depois, meu avô se viu com o pneu do carro retalhado, em uma estrada de terra de pouquíssimo movimento, sozinho e sem macaco sob o sol a pino… e quem aparece? Para-lhe do lado aquele mesmo desconhecido, com um sorriso cordial e uma disposição de erguer o carro com os braços, se fosse preciso. Mas não foi; ele retirou seus acessórios do porta malas, trocou o pneu de aro espesso e trabalhoso, detectou que se perdera um dos parafusos e usou um dos seus. No final, diante o homem suado e sujo de terra, meu avô profere aquela já por ele intuída sentença de condenação:”quanto foi?”, ao que o homem responde:”ô compadre!, coisas assim a gente não cobra não. Somos um pelo outro.” Foi a maior vergonha da vida de meu avô, ele contava. Ele nunca desejou tanto um tapa na cara. Imagino que, numa escala continental, ele se sentiu como a companhia imperial inglesa diante todos aqueles indianos seminus sentados em posição de lotus e não reagentes, que conseguiram a independência nacional através de uma arma inédita na història: o constrangimento do lado que detêm o poder, pela súbita consciência explícita da desarrazoada desproporção do uso do poder.

Esse não é um assunto superficial, e é uma surpresa encontrá-lo em seu blog logo cedo ao acordar. Minha preocupação constante continua sendo o de não magoar as pessoas com o que digo, por várias razões. Piegas dizer isto? É; mas não sei dizê-lo de uma forma menos convencional, menos lyaluftiniana. Ao mesmo tempo, acho salutar expressar o pensamento, com toda a afronta a enorme tendência ao senso comum que nos domina, com seu poder de atração quase irrefutável. Por isto a surpresa de, após um noite de insônia diante o micro, aterrorizado diante o passeio alucinógino por tantos endereços cheios de pretensões, vaidades, inocuidade de espírito e de intelecto, com “ensaios” literários atravessados em colunas opressivas de propaganda de varejo e últimas novidades tecnológicas (textos que sempre me lembram aqueles coitados sentados em pleno centro urbano, com um colete amarelo no qual se lê ”Compra-se Ouro”), retorno ao seu espaço e vejo essa confluência cigana de medos intimamente arraigados sobre fúria, necessidade de calma, e ainda a necessidade da crença desesperada na palavra.

Vou ter um filho daqui a quatro meses, o que me faz temerosamente feliz. E a maior lição que prevejo pela frente, a passar para ele, é o exercício salutar e superestimadamente sofrível de engolir sapos, e ao mesmo tempo incentivá-lo ao contato com mortos ilustres que nunca fizeram outra coisa senão expulsar anuros a grito. Ensina-lo que a gentileza possui uma estética muito sui generis, às vezes não tão catártica quanto acompanhar aos berros “God Save the Queen” dos Sex Pistols, mas mais verdadeira e compensadora na hora de saber o valor de favores desabnegados e aceitar o dedo em riste no trânsito até que se desgaste por total inapetência a vontade onanística de matar. Por que, no primeiríssimo momento que precede à reação, nós somos uns serezinhos cruéis. Mas só nesse enorme e libidinoso momento inicial.

Para terminar, uma lembrança de uma grande palestra do Joseph Bródski ( no livro de ensaios “Menos que Um”), que versa sobre a interpretação do dito “ofereça a outra face”. Bródski diz que ignora-se, a maioria das vezes, o que vem depois neste vaticínio, que é: “e se alguém lhe solicita acompanhá-lo por uma jarda,vá com ele mais cem”. e cita o exemplo de um prisioneiro de um gulag, que, oprimido por um guarda à tarefa inócua de remover um monturo de pedras de um lado para outro do pátio da prisão, o faz inúmeras vezes, durante um dia e uma noite inteiras, durante muito mais tempo que o guarda levou para se humanizar e olhar aquilo como o reflexo de seu brutal constrangimento.

Uma semana, um texto: A publicidade venceu, por Luiz Carlos Oliveira Jr.

O melhor texto que li esta semana foi, DISPARADO, uma indicação do escritor Fernando Monteiro, que me mandou o seguinte e-mail:

Milton:

Gostaria de chamar sua atenção para este texto que eu considero o MELHOR QUE EU LI, SOBRE CINEMA, NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS (PELO MENOS).

Em tempo: “nunca antes” eu ouvira falar de Luiz Carlos Oliveira Jr. — o seu autor. Confesso esta ignorância imperdoável — porque quem pensa (e escreve) assim, deveria ser conhecido dentro e fora “deste país” etc. É um texto da revista Contracampo.

Abraço,

Fernando

Não precisaria escrever mais nada, mas vou meter minha colher para dizer que considero o cinema o gênero cultural mais passível de tornar-se assunto de conversa: a cultura comum, aquela que com maior frequência vários numa roda de amigos tiveram contato, é o cinema – e olhe lá –, não a literatura ou outra arte. Talvez por esta razão eu considere a crítica cinematográfica tão importante. Talvez por isso não aceite a montanha de blogs escrevendo tolices a respeito. Há blogs escritos por pessoas que conhecem pouco sobre as possibilidades daquilo que analisam e que se denunciam ao colocar coisas como O Senhor dos Anéis entre os “melhores de todos os tempos”… Tais blogs consideram que a qualidade de seus sites é diretamente proporcional à quantidade de novidades “analisadas” e adoram emitir julgamentos curtos e afirmativos sobre as obras… Por pura impossibilidade de explicar seus gostei / não gostei, é claro. Se isso vale para o deletério Chico Fireman e seus congêneres, não vale absolutamente para a Revista de Cinema Contracampo.

O artigo que Fernando Monteiro destaca não é otimista nem elogioso; o que ele faz é uma belíssima, frutífera (depende de quem ler) e esclarecedora reflexão sobre os dois filmes mais discutidos no país no ano de 2008: Ensaio sobre a cegueira e Linha de Passe. Ele está originalmente aqui e o copiei a seguir para meus sete leitores.

No louvável espaço criado pelo blog Dicionários de Cinema, pode-se ler o clássico texto “O cinema e a memória da água”, escrito há vinte anos por Serge Daney, e agora traduzido para o português. Selecionei um trecho desse artigo, que continua sendo um dos melhores já escritos sobre a relação entre cinema e publicidade, como ponto de partida para a pergunta que lanço em seguida: “O interesse de Imensidão Azul é, pelo contrário, fazer-nos admitir que a vizinhança, durante muito tempo estimulante ainda que turva, entre ‘cinema’ e ‘publicidade’ não tem já talvez razão de ser. Porque o cinema é demasiado fraco e a publicidade demasiado forte. O início dos anos oitenta terá visto a legitimação cultural e depois estética da publicidade”.

E os anos 2000? Terão visto o quê?

Terão visto a crítica, que tinha por missão guardar a fronteira, marcar as diferenças (atitude traduzida em textos como esse do Daney), sucumbir à publicidade. Primeiro porque nunca soube definir o que era a tal “estética publicitária”, criando um rótulo impreciso, nuns casos, equívoco, em outros, e ineficaz, na maior parte das vezes. Um rótulo, mas nunca um conceito. A crítica errou, em primeiro lugar, por essa imprecisão. Em segundo, porque aceitou o jogo, caiu na dança. Sempre achei que a crítica seria a última trincheira, a última barricada antes do triunfo publicitário. Mas não: de uns tempos pra cá ela parou de se revoltar contra a publicidade. Após deixar de se incomodar, começou a achar que a publicidade não só não era tão má quanto se pensava, como ainda trazia coisas boas. E agora veio o pior: nem sabe mais distinguir o que é e o que não é publicidade. Perdeu o olhar. Responde de modo favorável, ou complacente, ou negligente. No caso da negligência, é assustador: simplesmente não consegue mais perceber o mundo se trocando por signo publicitário. Olha para um papel de parede e vê o mundo. E escreve sobre o papel de parede como se falasse do mundo. A publicidade e suas práticas mais hediondas se naturalizaram no cinema (brasileiro, mas não só). Nessa visão de cinema, o “criar” não é mais identificado a um trabalho dinâmico com a matéria; é um retrocesso simbólico, onde a idéia passeia livre, leve e solta – a idéia sobrevive à perda de vínculo com o pensamento e com o olhar. É o mar sendo substituído por “um grande azul de síntese”; o ator servindo de portfólio para o preparador de elenco. O filme sendo uma embalagem para uma idéia de filme. E essa idéia é sempre rasa, sempre retrógrada, não tem como ser de outro jeito.

No cinema brasileiro, 2008 foi um ano não muito diferente dos anteriores: ruim na média, porém salvo da apatia pelos cineastas de exceção (Bressane, Carlão, Mojica, Tonacci – tudo que se pôde ver de realmente criativo e brilhante veio exclusivamente de veteranos). Mas olhando para a recepção da crítica, constatando quais foram os filmes mais discutidos, Ensaio sobre a cegueira e Linha de Passe liderando com folga, a impressão que tenho é que está tudo bem, o cinema brasileiro está fazendo os filmes que os críticos pediram alguns anos atrás (ao menos é assim com Linha de Passe: o cinema que não julga personagens, fala dos problemas do Brasil pelo filtro justo da câmera afetiva e do final aberto), então eles estão satisfeitos. Como estrutura de produção, a publicidade já tinha vencido no país há pelo menos dez anos (salvo exceções, as mentalidades que regem os projetos, desde o orçamento à organização do set, são inteiramente derivadas da publicidade). Depois venceu também como estética. E agora, como se não bastasse, recebeu a última medalha que lhe faltava, a da crítica. Esse título conquistado pela publicidade significa que finalmente os filmes conseguiram que nós não os acusemos mais de parecerem publicitários. Eles pedem para que não sejam julgados e atendemos ao pedido.

Pois os dois líderes de holofotes em 2008 representam dois tipos antagônicos de publicidade; filmes em total sintonia com uma época pouco afeita ao espírito crítico, porém muitíssimo afeita à retórica e ao pensamento institucionalizado. De um lado, o excesso, o exagero, o esteta histriônico, a publicidade enérgica, que impõe a concatenação rápida de signos ululantes, um filme perfeito para quem gosta de “ler” filmes (Ensaio sobre a cegueira). Do outro, a retração, a afasia, a concha segura do olhar voluntarista, inofensivo, a publicidade bem intencionada, que parte da fórmula “o universal é o mais local possível” (Linha de Passe). Em ambos, o humanismo lúdico como válvula de escape.

A mise en scène como forma de inteligência, como linguagem unificada da percepção sensível e do conhecimento objetivo do mundo, essa mise en scène está em baixa por aqui.

Analogamente, na crítica, onde um mínimo de atrito se deveria produzir, encontra-se a complacência, o consensualismo, o olhar não-provocativo, confortado pelas imagens, consolado pelo fato de que filmes ainda existem e estes se levam a sério o suficiente para merecer um texto dedicado. O olhar que não cobra, não provoca, não afronta os filmes mesmo em face de sua mediocridade, esse olhar parece dizer: façam qualquer filme, bom ou ruim, consistente ou leviano, fascista ou humanista, mas me dêem o que escrever.

A crítica brasileira não ligou muito para o fato de que em Ensaio sobre a cegueira – cujas imagens estouradas constituem um efeito visual profundamente óbvio enquanto transposição da significação para a forma – faltou a Meirelles a desconfiança do bom artista, que hesita diante do caminho mais fácil (não confundir com o mais simples) e termina por rejeitá-lo, e sobrou-lhe a convicção do bom publicitário, que se regozija de suas idéias paquidérmicas, de seu modo de significação agressivo, descarado, que renuncia à criatividade sem crise de consciência, já que amparado pelo bom funcionamento das imagens. Os filmes, hoje em dia, precisam acima de tudo funcionar. O verbo invadiu os sets de filmagem e agora também a crítica: atrás da câmera ou na frente da tela, todos procuram a imagem que funciona. Eis porque a crítica não se incomodou com Blindness e no geral aprovou, pois reconheceu ali um bom discurso-através-de-imagens, uma boa transcrição visual do texto. Reconheceu um filme que funciona, e isso, cada vez mais, é o que lhe basta. Miséria da crítica.

Mas questionemos também o filme, sua estética, e não apenas sua recepção: desde quando a isquemia da forma é a melhor expressão de um mundo espiritualmente gangrenado? Será que tudo aquilo que regeu a obviedade estética de Ensaio sobre a cegueira era mesmo fruto de um pensamento sobre a forma, ou não passou de uma frivolidade, de uma falta de objetivos outros que não a excitação, o choque, o conteúdo leviano das mensagens? Houve quem enxergasse no filme – sem dúvida alguma tendo em mente o aval de Saramago – o protesto de uma alma nobre contra a corrupção moral de sua época. Partindo dessa perspectiva, e fingindo que Meirelles acertou no tom, concluiríamos que ele atingiu o terreno da sátira, gênero no qual os romanos, perante as vicissitudes de seu império, foram mestres. Ora, para conduzir a sátira ele precisaria dispor de uma sabedoria aguda, de uma zombaria elegante, de uma raiva sarcástica, ou seja, ele precisaria de tudo aquilo que falta a seu filme.

Houve também quem narrasse a experiência de assistir a Ensaio sobre a cegueira como de grande intensidade, sempre flertando com o desagradável das imagens. Essa mesma intensidade deve existir em uma propaganda de cartão de crédito, pois ontologicamente se trata da mesma coisa, e o que define em grande parte a natureza da experiência é o teor ontológico das imagens, para além de seus enunciados (que, de todo modo, seriam também os mesmos, as propagandas de cartão de crédito nada mostram senão um mundo igualmente degradado, cujo verniz de superfície nos é entregue sob a forma de mercadoria visual, apenas confundindo essa degradação com bem-estar social e financeiro).

Onde esteve a crítica nisso tudo? Não se pode dizer que esteve ausente. Pelo contrário: esteve, na maior parte das vezes, e num bom número de veículos, entregue a discussões (prolixas). Porque se o filme funciona, ele dá o que falar. E a crítica está menos preocupada em ver uma obra que a obrigue a pensar a forma e manifestar o gosto (essa ferramenta indispensável do crítico, ultimamente tratada como opcional e, não raro, afastada do “oficio”) do que em ter o que discutir. Quanto menos um filme sacudir sua posição de analista de discurso, quanto menos o impelir a reavaliar seus parâmetros, mais longe vai a discussão (nunca mais fundo), pois tende ao vazio, e o que tende ao vazio dura indeterminadamente. Às vezes me ocorre, lendo boa parte dos textos e dos debates, que os críticos de cinema no Brasil estão cada vez mais parecidos com os comentaristas de futebol: analisam os jogos em repetitivas e enfadonhas mesas redondas, mas não arriscam dizer para que time torcem. Em teoria, isso seria uma espécie de profissionalismo, de maturidade, uma certa imparcialidade sóbria. Na prática, isso representa o esvaziamento do espaço crítico e a iminência de um estado acrítico. Calar o juízo estético e gerar infinitas análises, debates, opiniões; viver em paz mesmo com os filmes mais medíocres, ou mais publicitários; abandonar a provocação, o rigor; tornar-se imune a gostos ou desgostos profundos: tudo isso é no mínimo muito perigoso, se quisermos manter viva não uma postura intelectual dentre outras, mas uma postura crítica.

No limite, os especialistas estariam procurando nos filmes não mais a beleza, as emoções ou o sentido geral da obra. Eles estariam procurando compreender o que o diretor está dizendo – sentindo-se até mais generosos ao fazê-lo, mas essa generosidade é traiçoeira e num segundo momento se revela o disfarce predileto da complacência –, captar a mensagem (e, através disso, cultuar sua própria sensibilidade, sua percepção, sua capacidade de articulação, em suma, sua “personalidade crítica”), pescar as idéias que motivaram as imagens fora das imagens (fugindo, assim, da evidência do filme). Procurando o projeto, o produto, não a obra. Derrota da mise en scène, triunfo dos efeitos de enunciação – publicidade de novo.

O próprio personagem não importa mais. Importa o autor, o olhar do autor (Godard há mais de dez anos já tinha mandado uma carta-bricolage para a Cahiers du Cinéma falando dos efeitos nefastos da procura constante pelo autor). Parece inconcebível, mas ninguém se importa mais com o fato de alguns filmes mostrarem personagens desinteressantes, em ações desinteressantes, nulas, vazias, estúpidas. Os críticos estão preocupados em saber se o olhar do diretor é justo ou não, carinhoso ou não, articula um bom discurso ou não, etc. A perda de conexão com o personagem denota a perda de conexão com o mundo dos filmes. Não interessa mais o mundo, interessa a mensagem e seu dono (seu proprietário). Morte da fascinação.

O cativante da ação de um personagem, cabe aqui expor, não está necessariamente no seu potencial de espetáculo, nem na sua qualidade de intriga. Em alguns dos melhores filmes de John Ford, por exemplo, os personagens passam 90% do tempo sem fazer nada de intrigante. Só que alguma coisa acontece quando vemos John Wayne pilotando seu jipe em Donovan’s Reef, ou falando sobre os males de mascar tabaco em Legião Invencível, ou comparando sua altura com a do seu filho em Rio Grande. Alguma coisa acontece porque estamos vendo um mundo, e isso nos fascina. Estamos vendo um gesto e um espaço, e a mise en scène desse gesto nesse espaço.

Nos filmes brasileiros mais debatidos em 2008, faltou a presença de um mundo. E que tipo de mise en scène se faz sem um mundo? Não se faz mise en scène, se faz publicidade. É a enésima manifestação (que, como uma alergia, vem pior a cada vez que se manifesta) de tudo aquilo que Godard foi o primeiro a constatar com melancolia (cf. Duas ou três coisas que eu sei dela: redução violenta da imagem em função da superfície, o mundo sendo achatado pelos signos da publicidade, e o cinema à procura do arrière-monde que essas imagens-clichê escondem, negam, apagam terrivelmente – mas Godard é astuto o suficiente para, como observou Bonitzer, encontrar a via-láctea numa xícara de café expresso).

O problema de Linha de Passe, portanto, não é a ausência de intriga ou as ações “pequenas” de seus personagens, mas é um fator anterior, um mal difícil de curar, desencadeado no momento em que seus eventos se tornam simulacros de significações (como, aliás, já ocorria desde Central do Brasil), em que seu mundo se troca por um painel publicitário que mostra São Paulo pela ótica do marketing social: campanha eleitoral (o cineasta agindo como o candidato que vai lá na periferia, abraça os pobres, passa a mão na cabeça de todos, posa de bom moço, depois volta pro lugar confortável de onde veio e do qual nunca saiu, a vida segue como ao final de uma eleição que deixou tudo em suspenso, por mais que se tenham alimentado expectativas, crenças) e campanha de conscientização (lembrar daquela asquerosa câmera subjetiva do rapaz que quer ser jogador de futebol “fritando” na cena da festa, comparável às piores vinhetas antidroga da MTV, ou mesmo do ministério da saúde).

Quando penso na gênese de filmes como Linha de Passe e Ensaio sobre a cegueira, imagino uma sala fechada, com pessoas discutindo uma idéia que expulsa para longe de si toda exterioridade, em favor de uma operação puramente abstrata, que não encontra satisfação senão em si mesma. Essa cena imaginária seria apenas mais um capítulo da “retomada”, não fosse o dado novo, o da crítica que quer debater, mas não quer criticar. A diferença entre uma atividade e outra, assim como a diferença entre o cinema e a publicidade, é o que precisa urgentemente ser resgatado.

Feliz 2009 e Filmes de 2008

Copiado de um e-mail recebido em 31 de dezembro de 2005, destas pessoas aqui.

Pessoas!

Quase qualquer coisa que se diga ou deseje nessa época corre o risco de soar lugar comum, de ser óbvio, de parecer pouco ou meramente protocolar. Corra-se o risco.

Existe uma quantidade expressiva de pessoas para quem o Natal é desprovido de sentido religioso e, portanto, está muito mais associado aos propósitos da sociedade consumista na qual estamos inevitavelmente mergulhados: movimentação do mercado. Não pensem nesse comentário apenas como uma crítica ácida. A movimentação do mercado pode ser bem utilizada como festividade e como meio para distribuir, na forma de presentes – grandes e caros ou simples, não importa – afeto às pessoas queridas (mas vale frisar que o gasto não basta; há o tempo!).

Não deveria ser assim? Este não é o ideal? Certamente cada um tem o seu próprio conceito de ideal. E para quê toda essa lenga-lenga? É apenas porque eu não enviei mensagem de natal a ninguém e não estou me desculpando, apenas embasando. Foi deliberado e planejado porque prefiro imensamente o significado e efeito da comemoração do Ano Novo.

Sim, todos sabemos que o primeiro dia do ano que começa não difere em absolutamente nada do dia 31 de dezembro. Mas dentro de nós pode ser totalmente outra coisa. O ser humano precisa de símbolos e ritos – isso é fato – e eles podem cumprir um papel importante na nossa saúde emocional e ser um bom motor para mudar o mundo à nossa volta! Enfim: gosto do ano novo! E comemoro-o a rigor desejando com veemência que todas as pessoas de quem gosto possam usufruir de uma bela sensação nessa data.

De mensagem fica mesmo a máxima sempre válida do Walter Franco: “Tudo é uma questão de manter / a mente quieta / a espinha ereta / e o coração tranquilo”. Meta nada simples de se atingir, mas válida como base para qualquer outra coisa que se queira na vida. E que venha 2006(9) e nos encontre fortes e contentes, para que sejamos inteiros e maiores a cada passo.

Laura Paz

Assino embaixo e por todos os lados (como diria o Inagaki).

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Assisti poucos filmes em 2009, mas foram até demais.

Acho que nunca vi tantos filmes regulares como em 2008. Pouca coisa era agressivamente ruim e quase nada era indiscutivelmente bom. Mas acho que dá para salvar 4,5 filmes. Podemos começar por O Segredo do Grão, de Abdel Kechiche, um filme de visceral realismo que tem como tema a singela inauguração de um restaurante dentro de um barco numa cidade portuária da França. Trata do choque cultural entre a comunidade árabe e a francesa, mas é universal ao descrever detalhadamente conflitos familiares. A câmara móvel de Kechiche é apenas aparentada dos filmes do Dogma 95, pois ela não serve para demonstrar movimento ou despojamento, estando mais a serviço da busca de ângulos oiginais, muitas vezes aproximando-se dos atores como se quisesse penetrá-los ou acariciá-los. Outro grande filme foi o romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro de 2007. Ele conta a história de duas colegas de quarto obrigadas a uma verdadeira odisséia para que uma delas pudesse realizar um aborto ilegal na Romênia de Ceaucescu. É um filme sem a menor preocupação moral ou religiosa. Descreve como as duas fizeram para livrar-se de uma incomodação. Gabita, a grávida, deixa a operacionalização do aborto para Otilia, sua amiga. Gabita parece indiferente enquanto Otilia faz contatos com aborteiros, porteiros — todos pequenos ditadores cheios de mistérios — e depois trata de livrar-se do corpo do inquilino da amiga. Estes dois filmes têm algo em comum: ambos têm longas cenas que causam enorme angústia ao espectador.

E sim, os dois filmes dos irmãos Coen foram excelentes. Em No Country for old men (Este país não é para velhos em Portugal e um título qualquer no Brasil), a acidez dos Coen cai adequadamente para narrar com frieza uma história amalucada e violenta. Meio western, meio thriller, quase sem trilha sonora e com cenas antológicas, é um grande filme. Já Burn after reading (surpreendentemente Queime depois de ler no Brasil) tem a paranóia americana como alvo. É um filme que conta muita coisa em círculos, não chega a lugar algum e nem quer, mas nos arranca boas risadas. A cena de George Clooney em pânico por motivos que o espectador sabe serem falsos vai para minha galeria pessoal de momentos inesquecíveis.

Disse 4,5 filmes? Pois é, o 0,5 é do excelente Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen.

E o Prêmio de MAIOR MICO DE 2009 vai para o discursivo homem de cuecas: Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight).

Abaixo, a lista completa:

2008/56 – Ainda Orangotangos – Ainda Orangotangos – 2007 – Brasil – Gustavo Spolidoro – 2
2008/55 – O Segredo do Grão – La Graine et le Mulet – 2007 – França – Abdel Kechiche – 5
2008/54 – Luz Silenciosa – Sellet Licht – 2007 – México / França / Alemanha / Holanda – Carlos Reygadas – 3
2008/53 – 007 – Quantum of solace – Quantum of solace – 2008 – EUA / Inglaterra – Marc Forster – 2
2008/52 – Queime depois de ler – Burn After Reading – 2008 – EUA – Ethan e Joel Cohen – 5
2008/51 – Lemon Tree – Etz Limon – 2008 – Israel / Alemanha / França – Eran Riklis – 4
2008/50 – Caos calmo – Caos Calmo – 2008 – Inglaterra / Itália – Antonio Luigi Grimaldi – 3
2008/49 – Vicky Cristina Barcelona – Vicky Cristina Barcelona – 2008 – Espanha / EUA – Woody Allen – 5
2008/48 – Estômago – Estômago – 2007 – Brasil / Itália – Marcos Jorge – 3
2008/47 – Fatal – Elegy – 2008 – Estados Unidos – Isabel Coixet – 5
2008/46 – O pequeno tenente – Le petit lieutenant – 2005 – França – Xavier Beauvois – 3
2008/45 – Ensaio sobre a cegueira – Blindness – 2008 – Canadá / Brasil / Japão – Fernando Meirelles – 3
2008/44 – Reflexos da Inocência – Flashbacks of a fool – 2008 – Inglaterra – Baille Walsh – 4
2008/43 – No Such Thing – No Such Thing – 2001 – EUA – Hal Hartley – 5
2008/42 – Quem disse que é fácil? – ¿Quién dice que es fácil? – 2007 – Argentina / Espanha – Juan Taratuto – 3
2008/41 – Ao Entardecer – Evening – 2007 – EUA / Alemanha – Lajos Koltai – 4
2008/40 – Quando estou amando – Quand j`étais chanteur – 2006 – França – Xavier Giannoli – 3
2008/39 – A Questão Humana – La Question Humaine – 2007 – França – Nicolas Klotz – 2
2008/38 – O Balão Vermelho / O Cavalo Branco – Le Balon Rouge / Crin Blanc: Le Cheval Sauvage – 1956 / 1953 – França – Albert Lamorisse – 4
2008/37 – Meu irmão é filho único – Mio fratello è figlio único – 2007 – Itália – Daniele Luchetti – 4
2008/36 – Amar… Não tem preço – Hors de prix – 2008 – França – Pierre Salvadori – 1
2008/35 – Batman – O Cavaleiro das Trevas – The Dark Knight – 2008 – EUA – Christopher Nolan – 1
2008/34 – Do Outro Lado – Auf der anderen Seite – 2006 – Alemanha / Turquia – Faith Akin – 5
2008/33 – Antes que o diabo saiba que você está morto – Before the devil knows you´re dead – 2007 – EUA – Sydney Lumet – 4
2008/32 – O Banheiro do Papa – El Baño del Papa – 2007 – Uruguai / Brasil / França – Enrique Fernández e César Charlone – 4
2008/31 – O Labirinto do Fauno – El Laberinto del Fauno – 2006 – Espanha / EUA / México – Guillermo del Toro – 3
2008/30 – Jornada da Alma – Prendimi L`Anima – 2003 – França / Itália – Roberto Faenza – 3
2008/29 – Bella – Bella – 2006 – México / EUA – Alejandro Gomez Monteverde – 3
2008/28 – Control – Control – 2007 – Inglaterra – Anton Corbijn – 4
2008/27 – Longe dela – Away from her – 2006 – Canadá – Sarah Polley – 3
2008/26 – A Outra – The Other Boleyn Girl – 2008 – Grã-Bretanha – Justin Chadwick – 2
2008/25 – Sex and the City – Sex and the City – 2008 – EUA – Michael Patrick King – 3
2008/24 – Bloom – Bloom – 2003 – Irlanda – Sean Walsh – 3
2008/23 – Confiança – Trust – 1990 – EUA / Inglaterra – Hal Hartley – 4
2008/22 – A Vida é um Milagre – Zivot je cudo – 2004 – Bósnia / França – Emir Kusturica – 5
2008/21 – A Casa de Alice – A Casa de Alice – 2007 – Brasil – Chico Teixeira – 3
2008/20 – Uma Canção de Amor para Bobby Long – A Love Song for Bobby Long – 2004 – EUA – Shainee Gabel – 3
2008/19 – Margot e o casamento – Margot at the Wedding – 2007 – EUA – Noah Baumbach – 2
2008/18 – Os Amantes – Les Amants – 1958 – França – Louis Malle – 5
2008/17 – 4 meses, 3 semanas e 2 dias – 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile – 2007 – Romênia – Cristian Mungiu – 5
2008/16 – Tomates Verdes Fritos – Fried Green Tomatoes – 1991 – EUA / Inglaterra – Jon Avnet – 3
2008/15 – Em Paris – Dans Paris – 2006 – França – Christophe Honoré – 4
2008/14 – A Era da Inocência – L`Âge de Ténèbres – 2007 – Canadá – Denys Arcand – 5
2008/13 – O Sonho de Cassandra – Cassandra`s Dream – 2007 – EUA / Inglaterra / França – Woody Allen – 3
2008/12 – Um Beijo Roubado – My Blueberry Nignts – 2007 – China / França / EUA – Kar Wai Wong – 2
2008/11 – Desejo e Reparação – Atonement – 2007 – Inglaterra – Joe Wright – 4
2008/10 – Três Mulheres – Three Women – 1977 – EUA – Robert Altman – 4
2008/9 – M.A.S.H. – M.A.S.H. – 1970 – EUA – Robert Altman – 4
2008/8 – O Caçador de Pipas – The Kite Runner – 2007 – EUA – Marc Forster – 1
2008/7 – Mutum – Mutum – 2007 – Brasil – Sandra Kogut – 5
2008/6 – Maria – Maria – 2005 – EUA / França / Itália – Abel Ferrara – 2
2008/5 – Onde os fracos não têm vez – No Country for Old Men – 2007 – EUA – Ethan e Joel Cohen – 5
2008/4 – Juno – Juno – 2007 – EUA – Jason Reitman – 3
2008/3 – Meu nome não é Johnny – Meu nome não é Johnny – 2008 – Brasil – Mauro Lima – 2
2008/2 – A Desconhecida – La Sconosciuta – 2006 – França – Giuseppe Tornatore – 2
2008/1 – Coisas que perdemos pelo caminho – Things we lost in the fire – 2007 – EUA / Grã-Bretanha – Susanne Blier – 3

Legenda para as notas:
5 – Não deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Uma bomba
0 – Além de bomba, mal-intencionado

Vá e veja, a obra prima absoluta dos filmes de guerra

Finalmente, Vá e Veja ganhou edição nacional em DVD. Filme que nunca foi apresentado em circuito comercial no Brasil (*), tornou-se objeto de culto de uns poucos quando de seu lançamento em VHS, na década de 80. Meu amigo S. — o mesmo deste post – disse-me que os três maiores filmes de guerra já realizados teriam sido Stalingrado, de Joseph Vilsmaier; Glória feita de sangue, de Stanley Kubrick, e Vá e veja, de Elem Klimov (1933-2003). Tenho os três em casa, vi muitos outros e creio que a escolha de S. não é apenas muito boa como inclui o maior filme de guerra de todos os tempos: o espantoso Vá e Veja.

Meu exemplar foi batalhadíssimo. Enfrentei a doída conversão de um VHS milenar para DVD no único intuito de mostrá-lo aos amigos. Quando passei o filme para eles, voltei a constatar o efeito que teve sobre mim ao vê-lo pela primeira vez. Alguns diziam: “é muito bom, é muito, mas muito forte, nunca tinha visto algo assim”. Tal efeito, meus amigos, só se consegue com uma poética muito especial, só se consegue com a narrativa de uma história focada num homem comum e que logra chegar a tal grau de realismo que o filme gruda-se a ele, ao personagem principal, um adolescente. Quando estoura uma bomba muito perto de Fliora, passamos ouvindo por momentos todos os sons distorcidos, como se estivéssemos igualmente ensurdecidos, afetados pelo estouro. Se fosse um romance, seria escrito na primeira pessoa do singular.

O filme trata da história de Fliora, o adolescente que pega o rifle da família a fim de juntar-se aos guerrilheiros soviéticos para expulsar o que sobrava do exército alemão no período final da guerra. O problema do filme é que o ódio dos soviéticos é respondido por um estranho inimigo que não tem nada a perder e que está de qualquer forma retirando-se, só que esta retirada é a de quem está desesperado por voltar a um país que não é mais aquele que deixou mas outro, totalmente destruído. Ou, pior, sabem que retornam para a morte ou para a prisão, ou seja, é uma retirada para o nada. E os nazistas vão torturando e matando o que podem à medida que vão embora de uma União Soviética a qual dedicam todo seu rancor, pois foi ela, afinal, quem lhes ganhou a guerra. Fliora, por seu lado, também perdeu tudo: familiares, amigos, juventude e chão. Esta espiral de ódio respondido por mais ódio é tal forma represada, a loucura é de tal forma armazenada por Klímov que o final do filme é a maior catarse cinematográfica que já vi e senti.

É um filme onde a loucura e a mortandade da guerra é mostrada de forma absolutamente artística e que, paradoxalmente, resulta clara, sem estilizações. Todos perdem neste épico sem heróis e inteiramente destituído de triunfalismo. Toda a arte de Klímov está trabalhando para o maior impacto sobre o espectador. Guerra é loucura, violência e raiva. O rosto do adolescente Fliora ao final do filme — um velho prematuro — é o mais inadequado rosto de vencedor que o cinema já mostrou. E o fato de apresentar documentários nazistas de trás para frente, mostrando — novamente unido ao personagem principal — toda a vontade de Fliora de desfazer a guerra e seu sofrimento é o achado final de Vá e Veja. Espero que agora o filme saia de seu restrito círculo de admiradores e seja finalmente visto, como seu nome recomenda.

Abaixo, todo o filme, mas gostaria de referir-me àquela parte que começa a 1h05min30seg, aos oito minutos finais. Tudo já aconteceu e quase nada é dito. Vale pelo significado das imagens. A música da primeira parte é, naturalmente, de Wagner, misturada a hinos nazistas e discursos; a segunda tem como trilha o Réquiem de Mozart. No ano do lançamento, Vá e Veja teve cerca de 29 milhões de espectadores na ex-União Soviética (como comparação, Titanic, o recordista do mercado brasileiro, teve 16,3 milhões). Portanto, sua relevância não é somente artística.

A comunidade Vá e veja do Orkut comenta:

Vá e Veja (Idi i Smotri/Come and See URSS 1985) de Elem Klimov com Aleksei Kavchenko:

Este filme é um dos mais duros e sensoriais retratos da Guerra, pelos olhos de um menino camponês de 12 anos convocado para a batalha entre a resistência e os nazistas pelo domínio da Bielorrúsia. Poucas vezes a Guerra no cinema foi retratada com imagens e sons tão impressionantes, um verdadeiro filme de horror que você nunca esquecerá. O roteiro são memórias da infância do roteirista Ales Adamovich, um sobrevivente dessa guerra. Vá e Veja pouco faz uso de imagens explícitas, mas a forma como Elem Klimov usa a câmera causa um dano emocional sem paralelos na mente e alma do espectador. Filmado como um pesadelo, entre o surreal e o onírico, com um impressionante senso de som, espaço e atmosfera.

(*) Informação contestada provavelmente com razão pela Helen nos comentários.

Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, ou Como tornar Saramago cinema?

Uma das coisas que mais me irrita é este lugar comum de dizer que “o livro é sempre melhor que o filme”. Dã. É uma burrice completa. Se quem diz isso ao menos soubesse que quase todos os Hitchcocks vieram de romances de segunda linha…

Há histórias filmáveis e outras não. Há livros que são quase roteiros, outros não. Apesar da vasta intersecção, há cordas que podem apenas ser tocadas pelo cinema e outras apenas pelos livros. Há especificidades.

Vou começar pelo livro. Saramago escreve, em média, um bom livro a cada década. Hoje, principalmente no Brasil, estabeleceu-se a regra de falar mal dos livros do único Prêmio Nobel de língua portuguesa. Trata-se do conhecido Complexo de Vira-Latas que acomete Brasil e Portugal — desde sempre para o primeiro e desde que o segundo deixou de ser um grande império colonial… Ganha-se algum destaque e este é sempre falso. Preconceito puro. Saramago não mudou. Segue publicando bastante — não o critico por este motivo — e acerta uma vez a cada dez anos. Sem problemas. É uma média altíssima. Nos últimos dezoito anos, melhorou sua média ao produzir três grandes livros: O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995) e As intermitências da morte (2005). O resto que fez neste período parecem ensaios para os acertos. Nada de anormal nisso.

Surpreendentemente, pego-me pensando em outro fato: a separação dos Beatles. Este foi um acontecimento mundial. Em 1970, estavam juntos e eram brilhantes. Em 1971, eram todos famosíssimos e médios… Rafael Galvão, num post antológico que não consegui localizar (upgrade: que o Rafael acaba de me passar), comprovou que nada mudara. Em todo disco do grupo havia 5 boas canções de McCartney, 5 de Lennon e 2 de Harrison. Com esta informação, o Rafa montou o disco de 1971, o de 72, 73, etc., com músicas pinçadas no trabalho individual de cada um. O resultado foram trabalhos portentosos… Mas algumas amam a decadência de tal forma que procuram-na em todo lugar.

Ensaio sobre a cegueira é um livro de alta intensidade e criatividade. Sua leitura não é nada enfadonha e a força da parábola de Saramago atinge-nos em cheio. Esta é reforçada pelo fato de que os personagens não possuem nome: são “a mulher do médico”, “o médico”, “a rapariga de óculos escuros”, etc. No filme, tal impessoalidade se perde. Vemos, é claro, os rostos de Julianne Moore, de Mark Ruffalo, de Alice Braga e de Danny Glover, isto já basta para individualizar personagens que funcionavam como símbolos ou funções no original. OK, Literatura 1 x 0 Cinema. Neste 1 x 0, quem danou-se foi a profunda e geral desesperança de Saramago. Porém, “a responsabilidade de ter olhos quando todos os outros os perderam”, frase repetida à exaustão no livro de Saramago, está preservada no filme. Julianne Moore faz uma atuação maravilhosa e demonstra claramente que, apesar de sua vontade — de indiscutível feminilidade — de tudo resolver pelo melhor, a tarefa é inviável.

Um ponto fraco do filme é que a chegada dos doentes ao hospital-manicômio não nos dá a mesma idéia do livro: a de que aquilo está em todos os lugares. O ponto forte são as imagens do caos absoluto no momento que “a mulher do médico” leva-os para a rua. Talvez Meirelles tenha procurado justamente explorar o contraste entre uma situação que parecia inicialmente pontual e que se torna paulatinamente geral para o espectador. Mas não sei, algo não deu certo nesta transferência do particular para o geral. Outro ponto forte foi a fotografia esbranquiçada — a cegueira branca — e a música: no ponto certo de irritar, mas não demais.

Se não possui a grandiosidade do livro, é um bom filme; se não incomoda como o livro, atrapalha o suficiente; se parte da parábola perdeu-se, Meirelles não a deturpou — o que seria pecado mortal. Escapou de Meirelles o profundo e justificado pessimismo de Saramago. Seu filme não possui este tom e, com isso, perde impacto, ganhando certa gratuidade para os espectadores mais superficiais. Mas é um bom filme, sem dúvida.

Fico feliz que Ensaio sobre a cegueira (“Blindness”) tenha levado 118.145 espectadores aos cinemas em apenas três dias. Fui um deles, pois vi o filme logo no primeiro dia. Tal fato o torna a segunda melhor bilheteria nacional de estréia de 2008. Um fenômeno. Fico feliz com isso, repito; afinal, Meirelles merece mais filmes.