Passando camisas

Passando camisas

A alguns pode parecer estranho, mas Ana não se importava de passar camisas. Gostava de ligar o radinho na casa de dona Valéria e passar calmamente as camisas e roupas da patroa. Era um trabalho que requeria uma parcela muito pequena de seu cérebro. Naqueles momentos, Ana — que tinha uma vida interior muito movimentada — podia divagar à vontade. Diferentemente de preparar o almoço, que tinha horário para ser servido e obrigava-a a cálculos de quantidades e tempo no fogão, passar roupas era algo que fazia lenta e cuidadosamente, sem hora para terminar. Sentia a textura aquecida dos tecidos, o vapor subindo, dobrava cuidadosamente a roupa e depois apreciava os elogios de dona Valéria a seu trabalho.

À noite, quando voltava para sua pequena casa na periferia, Ana seguia trabalhando. Ali, ela também preparava a comida, limpava a casa, lavava e passava suas roupas e as de Daniel, seu marido. Ontem, porém, sua rotina foi quebrada. Ao pegar uma camisa de seu marido, Ana sentira um pequeno papel num dos bolsos. Retirou-o e viu tratar-se de uma nota fiscal. Ele tinha comprado um Ferro Ultragliss Diffusion 70 Arno por cento e noventa e nove reais. Estranho. Daniel gostava de andar alinhado, mas era muito dinheiro por um ferro de passar. E, além do mais… Observou melhor a data da nota: a compra fora feita há mais de quinze dias e ela não recebera ferro novo nenhum. Faltava muito para seu aniversário e eles não tinham dado presente para nenhum amigo ou parente nos últimos dias — o que significaria aquilo? Será que ele comprara para um amigo que estava sem crédito? Voltou a olhar a nota: compra à vista.

Ana, uma morena bonita e alta, daquelas que atraíam os olhares masculinos e que recebia cantadas até dos amigos de Daniel, sentiu tonturas. Deitou na cama do casal e, num gesto típico seu, tapou os olhos com o braço esquerdo e começou a chorar. Depois de alguns minutos, pensou que Daniel, sempre tão apaixonado e orgulhoso dela, poderia ter dado aquele ferro para sua mãe e decidiu falar com a sogra.

— Boa noite, dona Rosaura.

— Oi, Ana, tudo bem?

— Tudo. Eu quero comprar um ferro de passar para nós. A senhora sabe de uma marca que seja boa?

— Olha, não. Eu uso o meu velhinho da Walita. Funciona bem.

— Tem vapor?

— Não, tem copo d`água e paninho…

Riram, falaram mais um pouco e desligaram. Naquele momento, Daniel devia estar jogando futebol com seus colegas da Polícia Militar. Sempre voltava cansado e suado. Cansadíssimo, pensou Ana, ainda na cama. E se o futebol fosse uma mentira e ele estivesse com a outra? Nesse caso, voltaria meio brocha para casa. Resolveu, então, que não ia dar-lhe folga naquela noite. Foi tomar banho e pôs um vestido listrado que deixava à mostra sua cintura fina em contraposição aos quadris largos. Abriu um pouco o decote de forma a deixar o observador entrever seus seios e foi esperar Daniel na porta da casa, observando a rua. Os poucos que passavam viam a mulher na porta. A maioria das mulheres a ignoravam, os homens caminhavam voltando o rosto para medir a mulher recortada contra a luz que vinha da sala. Alguns vizinhos a cumprimentavam, um perguntou se ela ia a uma festa e obteve como resposta apenas um dar de ombros. Ela não queria falar, temia uma torrente de lágrimas.

Daniel chegou de calções e tênis, com a camiseta do time na mão. Suava muito. Ainda na rua, olhou admirado para sua mulher e perguntou:

— Hoje vai ter festa, minha nega?

— Sim, estou carente.

— Ah, isso não pode continuar assim… – e sorriu sedutor de um jeito que a fez abrir os braços para aquele que se tornara algo como um estranho peregrino.

— Vai tomar banho, amor — conseguiu dizer, sentindo o caminho ascendente do choro.

Foi para o quarto e tirou o vestido molhado do suor de Daniel. Ouviu-o terminar o banho, ir à cozinha, voltar ao banheiro para escovar os dentes e afinal entrar no quarto, onde ela procurava desesperadamente sentir-se sexy. Reconheceu o calor do corpo de Daniel, que deitara de costas sobre a cama, e pôs imediatamente a mão em seu pênis. Obrigou-se a dar-lhe um beijo e notou que o pênis enrijecia-se rapidamente, como se o mundo ainda girasse e nada houvesse mudado. Subiu sobre Daniel e fez que com ele a penetrasse. O homem ia pedir-lhe calma, mas deu apenas um grunhido que era mais dor do que aprovação. Ela começou a movimentar-se sobre ele e chegou a um orgasmo que fez romper a barragem que a impedia de chorar.

— O que aconteceu, minha nega?

— Não sei, deixa eu ir no banheiro.

Daniel seguiu-a, segurando e olhando seu pênis. A pele estava inchada e ele sentia dor ao mexer ali.

— Acho que tu me machucou. Tem que ir mais devagar, Aninha.

— Ah, é? – respondeu-lhe já a caminho da sala, onde foi pegar a nota da loja.

Quando voltou, Daniel ainda estava no banheiro, examinando-se.

— Daniel, tu poderia me dizer o que significa esta nota?

— Ele olhou para o papel como se nunca o tivesse visto.

— Para quem tu comprou este ferro?

— Que ferro, ficou louca?

— Este aqui, ó: Ferro Ultra sei lá o quê.

— Não sei que do que tu tá falando.

— Daniel, esta coisa tava no bolso da tua camisa azul!

— Deixa eu ver!

Ele segurou a nota perto dos olhos e Ana achou que ele realmente não sabia do que se tratava.

— Eu sei lá que porra é essa, nunca comprei esta merda.

Ela queria pressionar.

— Eu vou pra casa da minha mãe. Não quero mais te ver, seu corno.

— Calma, neguinha, muita calma. Eu quero ver toda a minha família e meus amigos mortos se eu tiver outra mulher. Sei lá que nota é essa, nem como foi parar numa camisa minha. E, porra, dar um ferro de passar para a amante? Pra quê? O ferro dela ia ser outro…

— Para de brincar, idiota.

Demoraram a dormir. Daniel puxava qualquer assunto, enquanto tratava a mulher mais carinhosamente que o habitual. Tarde da noite, dormiram. Pela manhã, Ana teve a impressão de não ter descansado. Preparou o café para Daniel e saiu atrasada com o vestido listrado, que estava mais à mão. Chegou à casa de dona Valéria quando esta já tinha saído.

Ao entardecer, com o rádio de pilha desligado, passava novamente camisas e pensava no ferro de cento e noventa e nove reais, enquanto sentia o cheiro do vapor quente misturar-se com o perfume de seu vestido e o do suor de Daniel, ainda presente em sua lembrança, no vestido, em tudo. As lágrimas desciam silenciosamente pelo seu rosto quando dona Valéria entrou em casa com um amigo. Ele olhou admirado para Ana, que se recortava contra a luz vinda da veneziana em seu típico gesto de encobrir o rosto com o braço esquerdo. Aquela imagem ficou gravada na memória do artista.

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