Uma Parábola de Kafka

Uma Parábola de Kafka

Gosto muito de Kafka, porém, anos atrás, não concordava com esta pequena parábola de Kafka. O fato é que não tinha experiência para poder compreendê-la. Hoje, ela literalmente me arrepia em sua verdade.

Diante da Lei faz parte de um dos poucos livros que Kafka publicou em vida: Um Médico Rural – Pequenas Narrativas (Ein Landarzt. Kleine Erzälungen – 1919). A tradução que copio abaixo é a do escritor Modesto Carone, que foi multi-premiado no início dos 90 por suas traduções de quase todo o Kafka. Não lembro se América foi traduzido. As traduções anteriores eram insatisfatórias; tratavam de “melhorar” a estranha pontuação de Kafka e muitas não eram feitas a partir do original, mas do francês. Minha edição é da Brasiliense (1990), mas penso que a Cia. das Letras republicou tudo há uns quinze anos. Lá vai.

diante da lei

Diante da Lei

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.

– É possível – diz o porteiro. – Mas agora não.

Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:

– Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.

O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado anos e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito de sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:

– Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.

Durante todos estes anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas de sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:

– O que é que você ainda quer saber? – pergunta o porteiro. – Você é insaciável.

– Todos aspiram à lei – diz o homem. – Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?

O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:

– Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.

Marquinhos e Enzo, o grande

Marquinhos e Enzo, o grande

Nasci e passei a vida numa terra de gigantes; gigantes têm me arrastado pelo pulso desde que saí do ventre de minha mãe — os gigantes das circunstâncias. E você me julgaria por meus atos!

ROBERT LOUIS STEVENSON — Markheim

O negão Inácio tinha nos chamado no seu quarto. Todos fizeram cortes nos dedos. Nem vi direito onde ele guardou o sangue do nosso time porque ele saiu na corrida para levá-lo ainda vivo para um Pai de Santo lá de Bagé. No dia seguinte, podíamos sair da segunda divisão se ganhássemos do Ipiranga de Erechim – casualmente meu ex-time – no Estrela d`Alva. No quarto, enquanto dava meu sangue, tremia e lágrimas de arrependimento me vinham aos olhos. Foda. Os companheiros me abraçaram, pensando que eu estava emocionado com nossa demonstração de união. Que nada, eu estava apavorado mesmo. Tudo por que, desde o dia anterior, eu era o traíra do grupo.

E era também um dos caras mais importantes do time. Tinha sido formado em time grande, o Internacional de Porto Alegre, apesar de ter sido sempre reserva nas categorias de base. Fiquei lá dos 12 aos 18 anos, quando comecei a rodar pelo interior. Além do mais, tinha segundo grau completo e, aos 24 anos, era o capitão do time. O resto do pessoal era tudo quinta série, por aí. Eu sabia falar com a imprensa. Dava mais entrevistas e aparecia mais do que os outros, mesmo medindo 1,60m. Eu era o baixinho que fazia a ligação entre o meio de campo e o ataque. Quer dizer, jogava em posição de craque, mas não era o caso. Tinha alguma habilidade e batia as faltas, pênaltis e escanteios do time, só que passava mais da metade do tempo machucado. Mas não naquele ano. Como o Enzo dizia na escolinha, aquele era o ano do seu pai. Eu ficava todo orgulhoso, pois tudo o que faço é para ele.

Ganhava quatro mil por mês no Guarany e os caras do Ipiranga me ofereceram vinte para errar todos os escanteios e faltas na decisão. Pênaltis também, se acontecessem. Eu estava em pânico com esta possibilidade – achava que era impossível errar o gol num pênalti. Se eu treinava diariamente, porra, como ia fazer para bater embaixo da bola a fim de mandá-la para fora do estádio? E eu sempre batia colocadinho, com jeito. Que merda. Só sei que pedi o dinheiro adiantado, pois depois eles sumiriam, é óbvio. Como eu tinha fama de sério e confiável, me deram a grana em dinheiro, na hora.

Tinha que aceitar a grana. Tinha o Enzo. O guri passava mais tempo com minha mãe em São Gabriel do que comigo e eu precisava ganhar mais para ter uma empregada em casa. Ainda bem que São Gabriel era perto e eu o visitava com frequência. Eu pagava todas as contas dele, mas não podia morar junto porque ele tinha quatro anos e eu era sozinho em Bagé. Meu filho não podia ficar abandonado no meu apartamento durante as concentrações e viagens. Mas eu queria criar ele, como acho que é o normal de se fazer. Enzo nascera em Erechim, quando eu tinha 20 anos. Agora já tinha quatro e era um enorme dum guri. Quando a Lidiane deixou ele lá em casa, era uma coisinha de nada. Lidiane trabalhava na zona de Erechim e eu sempre ia com ela quando ganhávamos um jogo no Ipiranga. Parte do prêmio pela vitória ia para a diversão e eu gostava da Lidiane. Sempre a procurava. Hoje eu sei que, na época, ela nem podia trabalhar porque era de menor: tinha só 16 anos. Um dia, depois de um sumiço grande, ela apareceu no meu apartamento com o Enzo. Sei lá como descobriu meu endereço. Disse para eu pegar meu filho.

Olhei para ele, examinei bem. Era a minha cara. Meu filho. Perguntei que nome ela tinha dado e ela respondeu:

– Aléquisei.

– Porra…

Brigamos. Foi uma cena. Ela foi embora, disse que não tinha saco pra filho. Fiquei com o guri, é óbvio. Minha mãe quis saber da certidão. Procurei a Lidiane e ela não sabia onde estava. Fomos no cartório e acharam Alekisei Silva, filho de Lidiane Santos Silva, de pai desconhecido. Que merda. Pedi pro meu empresário achar um advogado para mudar o documento. Ele tinha um pai. E mudei seu nome para Enzo. Aquilo me custou caríssimo, mas consegui a tal retificação. Nunca mais vi Lidiane.

Por que Enzo? Ouvi em algum lugar que Zidane tinha um filho com este nome. O motivo era homenagear seu amigaço Francescoli, Enzo Francescoli, um grande jogador uruguaio. Como achei bacana e tanto Zidane como Francescoli jogavam na minha posição, resolvi imitar. Além do mais, Enzo é um nome bonito, diferente.

E então lá estava eu, o traíra chorão. Dormi mal aquela noite, sonhei que teria que errar três pênaltis como o Palermo. Acordei cedo com as buzinas e os foguetes dos bageenses. A cidade estava mobilizada para o jogo das 15h30, que poderia levá-la de volta à Primeira Divisão gaúcha. E eu estava assustado. A rádio da cidade veio  atrás de uma entrevista e eu disse que respeitávamos o adversário e que estávamos preparados para ganhar, já que o empate classificava o Ipiranga. Depois perguntaram o que eu sentia ao enfrentar meu ex-time, se havia algum sentimento de vingança ou mágoa e eu respondia que nada disso, hoje eu estou no Guarany e sou profissional. Além disso, o Ipiranga é um adversário como outro qualquer outro e devemos fazer tudo para vencer e classificar o Guarany.

Terminaram a entrevista dizendo aos ouvintes que o capitão estava sério e concentrado, só pensando no compromisso das quinze horas e trinta minutos e na necessidade de vitória. Me elogiaram. Merda. Era pavor, não profissionalismo.

Veio o jogo. Quando o árbitro chamou os capitães, notei um risinho na cara de Marcão, capitão do Ipiranga e meu ex-companheiro. Ele conhecia Enzo, minha mãe e talvez até Lidiane. Permaneci sério, com aquela cara de inimigo que sabe o que quer. Será que ele sabia do trato? Fiquei desconfiado e preocupado, porque Marcão era um boca-grande. O jogo começou e eu fingia jogar. Recebia a bola, tentava o drible, mas sempre jogava a bola nas pernas dos marcadores. Quando lançava um de nossos atacantes, errava e eles me motivavam aplaudindo, depois de ver a bola perder-se pela linha de fundo ou pela lateral. Batia as faltas e escanteios bem abertos, para não dar chance a nossos cabeceadores. Pedia desculpas. 0 x 0. No intervalo, o professor veio falar comigo em particular, perguntando porque eu estava tão tenso.

— Não, não é isso, só que tô mal no jogo, meio enjoado.

— Marquinhos, isso é de fundo nervoso. Agora, olha bem para mim, olho no olho.

Obedeci.

— Marquinhos, se tu fraqueja, estamos mortos. A defesa tá bem. Eu preciso de um contra-ataque bem puxado e organizado ou de uma falta bem batida para mandar esses caras pra puta que o pariu. Cara, eles te dispensaram no ano passado, tu quer dar razão a eles? Marquinhos, eu preciso de um bom lance e fim, tá? Baixinho, pensa no teu filho que deve estar ouvindo o jogo em São Gabriel. Faz por ele, pelamordedeus!

Estávamos voltando para o segundo tempo e, ainda no túnel, lembrei do que tinha dito o pediatra do Enzo.

— Esse guri é muito grande, vai ter 1,90m, no mínimo!

Eu achei que ele estava brincando, mas agora me dava conta que meu menino era enorme mesmo e eu um tampinha. Senti meu estômago se contrair ao pensar nele, que poderia não ser meu filho, e em Lidiane, aquela vaca que dava mais que xuxu na cerca. Estava na cara o que o pediatra estava me dizendo. E ele tinha cabelos lisos, escorridos, como ninguém na minha família e nem Lidiane tem… E agora sou um traíra. Mas que merda de vida, meu Deus.

Na primeira bola que recebi no segundo tempo, veio um volante por trás e bateu com seu peito em minhas costas com tanta força que voei longe. Fiquei puto com aquilo. Na jogada seguinte, dei-lhe uma tesoura com a finalidade de tirá-lo de campo. Ele reagiu:

— Quer foder meu joelho, seu filha-da-puta?

— Filha-da-puta é a tua mãe, desgraçado. Vai tomar no olho do teu cu, seu bosta. Vou te quebra, porra!

O juiz se meteu entre nós e me deu o cartão amarelo, apesar de que eu não parava de gritar, ofendendo as mães do pessoal do Ipiranga. Estava transtornado. Então, resolvi jogar. Só que estava tão puto que fazia as coisas piores ainda. Marcão me olhava e sorria, como se eu fosse um ator prestes a receber um Oscar. Mais para o fim do jogo, dei-lhe um cotovelaço, mas errei. Marcão passou a mão na minha cabeça e me disse com carinho:

– Te conforma com a segundona, nanico.

E riu. Eu mandei ele se foder. No final da partida, fiz um lançamento para nosso centroavante, que tomou uma falta na boca da área. Ele pegou a bola e me entregou.

– É a bola do jogo. Faz o gol, baixinho.

Eu não via nada claro, mas vislumbrei o Marcão na barreira e ele sorria abertamente para mim. Sim, ele sabia da Lidiane, do pagamento, de tudo. Sabia, enfim, que eu era um merda. Coloquei a bola no local indicado pelo árbitro e tomei distância, determinado a mandar tudo pra puta que os pariu. Minha cabeça era o maior tumulto — pensei no Enzo ouvindo o jogo, na minha mãe, no cara me entregando a grana, no professor me suplicando para jogar melhor e em toda aquela massa que estava fazendo barulho desde a manhã. Decidi bater pelo lado da barreira, forte, para fora. Corri para a bola e chutei. O estádio explodiu em comemoração. Eu saí correndo como um louco em direção à arquibancada, pois, enfim, era o herói do dia.

Foto ilustrativa: Guarany, campeão da "Taça Bicentenário de Bagé" em 2012
Guarany, campeão da “Taça Bicentenário de Bagé” em 2012 (foto ilustrativa)

Depois do jogo e de ter erguido a taça, toda a cidade parecia estar dentro de nosso vestiário, todos queriam me tocar, falar comigo, me abraçar. Eu sorria, mas tinha certeza de que, assim que ficasse sozinho, levaria um tiro ou uma facada. Tinha que dar um jeito de chegar até meu carro para fugir da cidade. Dei entrevistas para as rádios locais e para o pessoal de Erechim, estes com cara de luto. Eu sabia que seria morto depois daquilo; afinal, enganara os caras, roubando vinte pilas deles. Eu não tinha culpa se a barreira pulara. No último segundo, decidi chutar forte e rasteiro, para que a bola batesse nela, só que a barreira pulou e a bola passou por baixo daqueles deficientes mentais do Ipiranga. Entrou no canto desprotegido pelo goleiro, que nada pôde fazer.

— Muita frieza e precisão na cobrança de falta, Marquinhos!

— Marquinhos, você não fez tão boa partida quanto as anteriores, mas craque é craque e você decidiu o jogo com categoria.

— Marquinhos, você sentiu que a barreira pularia?

— Marquinhos, a sofrida cidade de Bagé, que há anos convive com a estiagem e com o racionamento de água, tem em ti um grande herói. Parabéns!

— Capitão Marquinhos, por favor, erga a taça novamente para a grande torcida do Guarany, essa massa que delira com a ascensão à Primeira Divisão de nosso estado!

E eu pensando na minha morte.

Depois da festa no estádio, houve um churrasco com cerveja pago pelos diretores do clube. Cheguei meio bêbado a meu Uno Mille acompanhado de dois colegas. Entramos, deixei-os em casa e fui para a estrada. Amanhecia quando cheguei em São Gabriel. Recebi o abraço da mãe, que chorava dizendo

— se teu pai estivesse vivo, ficaria tão orgulhoso de ti…

E lágrimas. Eu não aguentava mais. Era um carrossel de emoções.

— Mãe, eu vou viajar. Sair de férias. Vou para Floripa com o Enzo.

Depois de fazer as malas dele, dei um jeito de ir para o Uruguai. Passei de novo por Bagé, mas não pararia ali nem que me cobrissem de ouro. Me senti melhor quando atravessei a fronteira em Aceguá. Na noite do mesmo dia, deixei o carro num estacionamento em Colônia e atravessei o Rio da Prata de buquebus. Chegando à Buenos Aires, fomos para a rodoviária. Enzo parecia estar gostando de viajar comigo. Estava tranquilo. Olhei os destinos dos ônibus e escolhi uma cidade que não conhecia: Ushuaia. Viajamos a noite inteira, eu e Enzo. Estávamos felizes. Eu e meu filho, ele com seu pai. Perto do meio-dia, estava ficando cada vez mais frio e nada de chegarmos. Pedi para trocar de lugar com Enzo, fui me sentar na janela. Não entendia muito bem onde estava, mas a vegetação era desconhecida e esfriava demais. Paramos e comprei um livrinho para turistas, Conozca la Argentina. Procurei por Ushuaia e a primeira propaganda que vi da cidade foi: visite el Museo del Fin del Mundo. Meu Deus. Depois havia outras que falavam em Patagônia, extremo sul e fotos de pinguins. Estaria indo para o Pólo Sul? Será que tinha ursos brancos por lá? Será que eles comem gente? Num cantinho informavam a distância de Buenos Aires: 3260 Km. Comprei casacos e blusões. Mais dois dias e chegamos. Era lindo, mas fiquei estarrecido quando entramos na cidade pela avenida Heróes de Malvinas. Estaria perto das Ilhas? Olhei no mapa. Putz, estávamos bem ao lado. Teve uma guerra ali, parece.

Claro, gastei todo o dinheiro do pessoal de Erechim em hotéis e em contatos com meu empresário. Contei-lhe o acontecido e ouvi sua resposta:

— Eu tenho direito a 20% de tudo o que tu recebe, lembra?

Enzo adorou aquela Floripa quase vazia. Enturmou-se com outros meninos e eu os observava brincar. Quis saber as idades de cada um deles e concluí que meu filho seria mesmo muito alto. Meu empresário conseguiu um outro empresário a nível internacional e, depois de congelar por sete semanas, me conseguiram um clube, mas me morderam em 75% do valor da negociação. O novo empresário me acompanhou até o novo clube. De novo, lá era frio, mas também era bonito. Antes de me despedir dele, pedi-lhe que falasse com o médico do clube e, no dia seguinte, eu e Enzo fomos a uma clínica para o exame de sangue. Lembrei de Inácio. Saudades dele, aquela mandinga deu certo. E como!

Hoje, recebi um envelope com o resultado, só que não entendo nada de norueguês. Saí do treino e busquei Enzo para um cinema. Nunca tinha entrado num cinema tão pequeno. Era um filme espanhol meio infantil, El Laberinto del Fauno, e achei que, como em nossa temporada entre os pinguins falávamos a língua, entenderíamos tudo. Tomei um susto quando vi que estava dublado naquela língua deles… Rimos muito e eu ia narrando em seu ouvido o que os personagens diziam. Tudo meio inventado, claro. Voltamos para a casa a pé. Ele pediu para jantar o que mais gosta de comer: ovos mexidos e purê de batata. Entrei num supermercado para comprar. Ali, era fácil. Bastava pegar o que quisesse e, na hora de pagar, eu não precisava falar nada: era só olhar a soma na máquina, enfiar o dinheiro e receber o troco, tudo automático.

Quando estávamos chegando em casa, lembrei do envelope. Joguei num lixo da rua. Se crescer muito é porque cuidei bem dele.

Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga

Comecei a reler Ai de ti, Copacabana só para entrar no espírito do autor e escrever um artigo sobre seus 100 anos de nascimento no último sábado. Ia ler cinco ou seis crônicas, mas não consegui parar e fui até o fim. É um de meus livros preferidos de Braga. Delicadíssimo, inspiradíssimo, Ai de ti, Copacabana foi lançado em 1962 e traz 60 crônicas, escritas entre abril de 1955 e fevereiro de 1960. Na época, Braga já tinha expandido seus domínios, criando uma forma de crônica que por um lado roçava a poesia e por outro namorava o conto. Na matéria para o Sul21, cujo link coloquei acima, copio duas crônicas absolutamente notáveis de Ai de ti. Assim como Machado é o grande modelo e referência na ficção brasileira, Rubem Braga ocupa a principal posição na crônica. É uma voz compassiva, lírica, inteligente, sensível e tarada — sim, nosso RB era um mulherengo de escol. E olha que não é pouca coisa, pois seus “concorrentes” são bem mais fortes que os de Machado: Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Luís Fernando Verissimo… Sim, eu simplesmente adoro Rubem Braga.

O concerto de ontem nas Dores / Todos os Pecados Perdoados

A Pequena Missa Solene é o principal “pecado da velhice” de Rossini

Ontem, às 19h30, houve um especialíssimo concerto na Igreja das Dores. A obra apresentada foi a Pequena Missa Solene, de Rossini. Tinha missa antes, e o padre fez atrasar o concerto. O público do concerto ficou lá fora, esperando sob imenso calor; Afinal, nossa religião é outra, é a da música. A apresentação foi muito boa, com destaque para o mezzo-soprano Angela Diehl, o baixo Daniel Germano, o coral Madrigal Presto e a dupla Olinda Alessandrini e Fernando Cordella, no piano e no órgão. Impressionou-me de forma muito forte o Agnus Dei, muito bem conduzido pelo regente João Paulo Sefrin.

Abaixo, deixo uma história que, de forma muito particular, descreve esta obra de Rossini. Deixei os comentários do post original, apenas acrescentando esta introdução.

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Todos os Pecados Perdoados

A Fernando Monteiro

Eu estava estudando na Itália, mas o tema de maior interesse, aquele sobre o qual me debruçava com verdadeira afeição, era Antonella, minha pequena e saltitante romana. Um dia, tivemos uma discussão acerca de algumas grosserias que, segundo ela, eu cometera, e ela rompeu nossa ligação.

Dias depois, telefonei-lhe e convidei-a para assistirmos à Pequena Missa Solene de Rossini, que estaria sendo apresentada na Parrocchia dell’Assunzione, no Tuscolano. Depois de alguma hesitação e surpresa – ela não esperava uma ligação minha, ainda mais sem referências a nosso impasse -, ela aceitou. Antonella amava a música de tal forma que eu não tinha como saber se a aceitação do convite significava um perdão ou a mera impossibilidade de recusar a missa de Rossini.

Caminhamos lado a lado, sem nos tocarmos. Tive todo o cuidado em ser verbalmente o mais gentil com ela, já que as circunstâncias não permitiam nada além. Quando a Missa começou, ela se riu. Disse em meu ouvido que achara engraçada a pobre instrumentação que Rossini utilizara. Passaram-se alguns minutos e notei que Antonella estava muito emocionada. Abracei-a e ela apoiou sua cabeça em meu peito. Enquanto lhe acariciava o rosto, sentia suas lágrimas molhando meus dedos. Soube que estava perdoado.

Rossini começou a escrever música muito jovem. Era prolífico e compunha, em média, duas óperas por ano. Então, aos 37 anos – enfadado do freqüente contato com cantores temperamentais e diretores de teatro ainda piores -, parou de trabalhar seriamente com música, tornando-a um divertimento pessoal. Riquíssimo e célebre, dedicou-se ao lazer e a um irônico e gentil convívio com todos, itens nos quais era mestre. Costumava promover freqüentes festas em sua casa. Ali, bebia-se champanhe, vinho, comia-se esplendidamente e ouvia-se música. Às vezes, Rossini apresentava ao piano peças de um certo compositor anônimo… O compositor ressurgiu surpreendentemente aos setenta e poucos anos publicando duas extraordinárias peças sacras – o Stabat Mater e a Petite Messe Solennelle (Pequena Missa Solene) -, além de peças para piano. Tais obras foram agrupadas sob o título genérico de Péchés de vieillesse.

Fomos a meu apartamento, onde nos amamos e dormimos como fazem os casais. Quando acordei, não vi Antonella. Havia somente um bilhete em italiano sobre meu criado-mudo. Meu amigo, fomos engolfados por um dos “pecados da velhice” de Rossini. O que aconteceu não tem nada a ver com nossa situação. Não me procure mais. Antonella.

Nunca mais vi minha pequena Antonella. Porém, ontem, recebi de um amigo uma gravação da missa de Rossini. Comecei a ouvi-la, mas logo interrompi a audição por pudor. Deixei todos dormirem para religar o aparelho de som. Então, enquanto minha mulher dormia, ouvi toda a gloriosa Missa, imóvel, sentado no escuro, sentindo a presença de minha adorável Antonella e de uma outra vida perdida.

As mãos de Karajan no Allegretto da Sinfonia Nº 7 de Beethoven

As mãos de Karajan… OK, é um belo vídeo e o Allegretto da 7ª é estupendo. Houve até um sujeito que escreveu um continho do qual o Allegretto era o cerne… Leia abaixo.

Ou clique a seguir, se a imagem insistir em não surgir em seu monitor.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que a respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela — àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser descrita como seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

— Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu…. Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma sequência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

— Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem que deixara gravado. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

— Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos — principalmente para cuidar de seu filho — , que ele logo pensou tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro.

— Não surpreende — disse para si mesmo ao desligar.

Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

— Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a ideia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?

— Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse aquela música que a Maria Bethânia canta.

— Que música?

— Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

Continho Realista da Impotência

A empresa onde Paulo trabalhava ganhara uma licitação para reformar e ampliar uma escola da periferia de Porto Alegre. Era um trabalho que ele, um homem de esquerda, preocupado com as questões sociais, gostava especialmente: construir escolas e casas em comunidades carentes. Houve uma reunião com a diretora. Ela parecia exultante por haver finalmente obtido a verba para a construção de mais cinco salas e por ter, diante de si, alguém preocupado em realizar um bom trabalho. Era uma valorização para a escola e para a atividade de todos sob sua gestão. Acompanhado por ela, Paulo conheceu toda a escola e acertou os horários em que os pedreiros poderiam fazer barulho, pondo abaixo algumas paredes e preparando as fundações para a ampliação. Era uma obra simples para ele, acostumado à sofisticação dos condomínios e edifícios de alto luxo.

Após o encontro, Paulo saiu da escola e procurou uma ferragem nas redondezas. A experiência ensinara-o a fazer um acordo com algum dos pequenos comerciantes próximos. Afinal, sempre faltava alguma coisa miúda. Se a empresa normalmente mandava entregar o cimento e as tintas, esquecia-se de enviar pregos, pincéis e outros materiais menos onerosos. Ele encontrou o que precisava a uns cem metros da escola. Pediu para falar com o proprietário do estabelecimento e, quando este veio lá do fundo, conversaram no balcão de atendimento.

O acordo foi fechado rapidamente e o comerciante apresentou-lhe o filho, que era quem ficava a maior parte do tempo atendendo o público. O chefe de obra poderia retirar material até determinado valor, assinaria um recibo e Paulo, ao final de cada semana, pagaria a ferragem. O nome do proprietário era Fernando, “Seu” Fernando, e o do filho, Fernandinho. Todos os conheciam assim no bairro. A conversa não demorou cinco minutos.

Quando Paulo estava despedindo-se deles, dois jovens, um negro e um branco, com armas na mão, adentraram aos gritos no estabelecimento, exigindo o dinheiro que o comerciante tinha em caixa. “Todo mundo parado, queremos toda a grana!”, gritavam eles. Um deles ficou na porta e o outro se aproximou do dono da loja, quase ao lado de Paulo. Seu Fernando começou a bravejar reclamando daqueles filhos da puta que volta e meia entravam ali. Abriu a gaveta de dinheiro e deixou duas notas de cinqüenta reais sobre o balcão, dizendo que estava bom assim. O garoto chegou-se ao balcão e quase encostou a arma  no rosto do comerciante, berrando com ainda maior veemência:

— Eu quero toda a grana que tem nesta merda! Não faz falcatrua com a gente, senão eu te furo, véio!

O comerciante, vendo a arma próxima a seu nariz, empurrou-a para o lado com a mão direita, com ar agastado e até calmo, como se estivesse acostumado àquilo. O garoto voltou rapidamente à posição inicial e deu-lhe um tiro, pegando rapidamente mais alguns reais na gaveta do caixa e sumindo com seu companheiro. Paulo levou o ferido em seu carro para o pronto-socorro. Fernando e Fernandinho filho foram no banco de trás; o silêncio deles, em oposição ao som da buzina de Paulo pedindo passagem e furando sinais, demonstrava que seria tudo inútil. Quando Paulo os procurou no espelho interno do carro, viu Fernandinho com lágrimas nos olhos, olhando pela janela. Seu pai não era visível, devia estar com a cabeça no colo do filho. A bala tinha entrado no pescoço de seu pai, sufocando-o. Após o médico confirmar a morte, Paulo foi para casa. Horas depois, indignado, deprimido e com o carro todo ensangüentado, foi depor na polícia.

Enquanto depunha, foi interrompido pelo policial.

— Acho melhor o Sr. não dizer que pode reconhecer o assassino. Aliás, acho melhor o Sr. ficar fora dessa.
— Por quê?
— Veja bem, os familiares da vítima já vieram aqui. Disseram que não viram quem matou o velho.
— O filho dele esteve aqui?
— Sim.
— Fernando?
— Sim, ele mesmo, com a mãe.
— Mas como? O filho estava junto! Ele viu!
— Meu amigo, eles vivem daquele comércio; os matadores moram no bairro. Se denunciam, os próximos serão eles, entende? O mesmo pode acontecer com o Sr., que vai trabalhar na escola ali perto. É uma temeridade se meter numa confusão dessas. Melhor não se apresentar como testemunha. É perigoso. A escolha é sua.
— E o trabalho de vocês?
— Nós mal temos gasolina para buscar os presuntos, que dirá para fazer investigações.

Paulo refletiu sobre o que o policial lhe dissera, pensou em sua família e perguntou:

— O que devo fazer então?
— O senhor não é o Batman e eu não sou da polícia de Los Angeles.
— …
— Se fosse o senhor, eu me retiraria agora enquanto eu rasgo esta folha. É para a sua própria segurança.

Dias depois, voltou à escola. No tecido cinza do banco de trás de seu carro ainda estavam as marcas deixadas por uma lavagem mal feita. O resto parecia limpo. Muito limpo, disse Paulo para si mesmo. À saída, Paulo hesitou entre voltar à ferragem para renovar o acordo, procurar outra ou deixar o assunto para depois, quando ouviu alguém lhe chamar.

— E daí, chefia? — Paulo tremeu ao reconhecer o sotaque do assassino.

Mas era outro garoto, muito menor.

— Não sai um ginásio de esportes aí pra nós?

Sorriu para o menino e respondeu:

— E o dinheiro?
— O governo tá sempre inaugurando algum ginásio poli-alguma-coisa-da-porra nos outros bairro…
— Bom, isso realmente não é comigo.
— E o que é contigo?
— Eu não sei o que é comigo.

História de Natal

Aos três anos de idade, Maria foi entregue ao Templo a fim de dedicar sua vida a Deus. Era uma das muitas meninas que lá executavam todo gênero de trabalhos, desde os manuais até os de limpeza; nas horas vagas, oravam e liam as Escrituras. Um dia, aos 13 anos, notou em suas roupas as manchas vermelhas que a impediriam de continuar. Tornara-se alguém passível de contaminar a pureza das outras virgens do Templo; então, foi posta à disposição dos homens. Acostumada a não decidir sobre seu destino, não ficara muito surpresa com a resolução que sorrateiramente seu corpo tomara.

Havia uma espécie de loteria da qual participavam os solteiros e viúvos que desejassem esposas e José ganhou Maria. José era um velho — caminhava com o auxílio de um cajado — e tinha outros filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Ele não necessitava de mulher a fim de satisfazer sua rara concupiscência, mas precisava de alguém que fizesse o trabalho diário de casa e para isso Maria servia. Tendo vivido no Templo, era certamente prendada. Porém, muito magra e amedrontada, não o motivava a nada, talvez nem a seus filhos. Seria fácil manterem distância de sua mulher. Após o casamento, José deixou Maria intocada e acabou por abandoná-la por quatro longos anos, pois fora chamado a um trabalho fora da Judéia, mais exatamente em sua Galiléia natal.

Enquanto isso, ela seguia realizando o trabalho doméstico para o qual fora treinada no Templo: alimentava os filhos do marido, lavava e costurava roupas, mantinha a casa em ordem e procurava não ficar íntima dos rapazes. Sabia que sua posição de “esposa” pressupunha uma postura estranha junto aos filhos de seu marido. Era mais jovem do que eles, então retraía-se, o que para ela, crassa tímida, era fácil. Suas horas mais felizes eram aquelas poucas que passava nas feiras, trazendo a matéria-prima para as refeições do dia seguinte e admirando as roupas e tecidos. Pensava ser pecado a vaidade, mas como resistir ao colorido deles? Perguntava repetidas vezes seus preços de alguns deles, esperando até que baixassem. Comprava bastante, pois a costura fazia parte de suas funções e os homens da casa frequentemente estragavam suas vestes na lida. Como não tinham muito dinheiro, ela pechinchava, perdia a timidez e tornava-se conhecida dos vendedores. Algumas vezes, fora advertida de que as roupas que fazia ganhavam detalhes insperados, femininos. Os rapazes riam daquelas manias de menina de Maria. Gostavam dela, era como uma irmã mais nova para eles.

Certo dia, um desses comerciantes a atraiu para sua casa a fim de que ela visse alguns tecidos, verdadeiras maravilhas à preços módicos. Maria, correspondendo a seus convites, passou a visitá-lo em sua casa. Repugnava-lhe a forma como ele um dia a tratou e tinha absoluta certeza de estar fazendo algo errado, mas tinha receio do que o comerciante poderia dizer na feira. O fato repetiu-se. Os filhos de José não se davam conta de que Maria passara a possuir provisões extras de tecidos, de comida e de quinquilharias para a casa e para si. O que lhes importava é que seus serviços permanecessem de acordo com suas necessidades e neste quesito Maria era impecável. Porém, ela tinha repetidos pesadelos em que era punida severamente por seu comportamento. Neles, sempre estava presente José e seus filhos, acusando-a de ser má esposa. Muitas vezes era assassinada; outras vezes, enfrentava tribunais nos quais o comerciante a culpava por seduzi-lo e acabava condenada aos piores suplícios. Na verdade, o que Maria desejava era ter José de volta. Fantasiava com um tratamento mais viril de sua parte. Afinal, com quase 16 anos, já era uma mulher.

O anúncio do retorno de José coincidiu com a interrupção de sua menstruação e com o arredondamento de suas formas. O bico de seus seios machucavam-se contra os tecidos novos de suas roupas, os vômitos tornaram-se frequentes e sua barriga começou a adquirir um inequívoco formado convexo. José retornou e impressionou-se com Maria. Ela tinha a sua altura e, contrariamente a quatro anos, falava, dava ordens em casa e era bonita. Naquela noite, José abraçou-a carinhosamente, de um modo que fez com ela se abandonasse a ele. Ele sentiu em si o bojo crescente no ventre de Maria e perguntou-lhe o que aquilo significava. Maria abraçou-se a ele e, chorando, contou-lhe que tivera um sonho em que um anjo lhe penetrara e que, pela manhã, estava suja de sangue. Disse-lhe que o filho era daquele anjo. Só podia.

José não era um cético, longe disto, mas resolveu perguntar a seu filho Tiago — logo a ele, depois autor de um evangelho apócrifo — sobre a conduta de Maria durante sua ausência. Este assegurou-lhe que Maria era uma boa e fiel esposa, que nunca faltara-lhes nada e que ela os tratava com amor e respeito. José estava confuso, sentia-se sozinho com sua dúvida. Preocupava-se com o que os outros iam dizer de uma gravidez tão imediata a seu retorno e proibiu Maria de sair de casa. Aquela seria a solução: ninguém a veria grávida, veriam apenas a criança depois de nascida e diriam que o parto fora abreviado, que a criança nascera antes, algo assim. No fundo, depois de tantos anos longe, José queria sua esposa e seu filho, precisava da convivência e da companhia deles. Além disto, havia outros motivos para preocupações.

Herodes havia mandado matar todas as crianças da Judéia e José estava preparando-se para esconder seu filho. Jesus nasceu e José decidiu partir novamente, desta vez levando sua família. Na estrada, pararam para descansar numa estrebaria fora de uso, colocando o bebê sobre uma manjedoura. Estavam famintos quando viram três homens cambaleantes se aproximando. Seus hálitos de vinho foram sentidos por Maria e pelos irmãos de Jesus à distância. Eram bons homens que, ao verem a dificuldade daquela família, ofereceram-lhes algum dinheiro, insenso e mirra. José ficou com o dinheiro — que resolveria seus problemas imediatos — e com o insenso. Gostou do trio. Devolveu-lhes a mirra por não saber do que se tratava. Quando perguntou quem eram, eles brincaram, afirmando serem reis magos. José riu, bebeu com eles de seu vinho e dormiu, sonhando com um grande futuro para seu filho. Viu-o embrulhado num manto, vestido como se fosse uma espécie de santo. Na manhã seguinte, seguiram para a Galiléia.

Alfredo fala, Laura responde, Marcelo e Joana telefonam

Alfredo, 26 anos, 1,90m, 112 Kg, era um gordo em permanente expansão apaixonado por Laura, 24 anos, 1,60m, 48 Kg. Costumava trazer-lhe mimos; coisas como chocolatinhos, bebidinhas e, agora, na época mais fria do ano, chegou ao ponto de levar quentão para sua pretendida. Quentão é uma bebida que mistura vinho, cachaça, canela, açúcar e cravo, às vezes noz moscada e casca de laranja ou limão, e é irresistível no inverno. Laura sabia que a garrafa térmica de Alfredo tinha a intenção de aquecer-lhe o coração em sua adiposa direção, mas tal consolo só fazia com que ela pensasse com maior ternura em Marcelo, 23 anos, 1,72m, 70 Kg, um jovem meio sem graça que não lhe trazia mimo algum e que costumava aconselhar Alfredo a considerar o efeito benéfico que um regime traria a sua rotunda pessoa. Ocorre é que Marcelo só tinha olhos para a loira Joana, 20 anos, 1,68m, 57 Kg, que era ainda mais sem graça do que ele e dava a impressão de que o clímax de sua vida era quando ia à academia malhar seu corpo que, diga-se de passagem, era belíssimo, fazendo com que muitos homens tentassem buscar (ou não) sua alma escondida sob tantos alongamentos, pesos levantados, abomináveis abdominais e seios sublimes, aumentados e empinados pelo silicone.

Alfredo acostumou Laura a seus mimos gastronômicos e telefonemas. Os contatos pelo telefone eram tão freqüentes e longos que a moça não tinha tempo de falar com outro. Ela revirava os olhos cada vez que o telefone tocava, mas atendia e – notável! – gostava. Não adianta, certas mulheres gostam mesmo de rir e Alfredo era engraçado, soltava de improviso boas piadas e Laura ria e ria do outro lado da linha. Era bom aquilo. Sabemos que os diretores de cinema gordos amam os complexos movimentos de câmara porque caminham pouco e ficam vendo o mundo de cima da grua. Alfredo também não queria deslocar-se muito, cansava facilmente, preferindo “namorar” pelo telefone. A voz de Laura e principalmente sua risada eram importantes para ele, que se achava inadequado e feio para a perfeição que via na lauríssima criatura. Apostava em seu espírito, mas, toda vez que tornava-se íntimo e confidente, Laura vinha com o papo sobre Marcelo, aquele antípoda seu: chato, burro e louco por outra.

Muitas vezes os quatro saíam juntos. Iam a festas e tinham a singularidade de parecerem um quarteto assexuado, pois nada era manifesto. As intenções só emergiam em telefonemas e em rápidos encontros pessoais provocados pelas raras idas de Alfredo ao local onde Laura estagiava, por Laura correndo atrás de Marcelo na faculdade, por Marcelo indo à academia em muitos finais de manhã procurar Joana, que – surpresa! – deixava-se dar alguns amassos e algo mais quando a endorfina estava alta e misturada com o suor, mas nunca à noite, quando permanecia em silêncio, ouvindo os amigos, feliz com sua bela aparência e tranqüila com a mente mansa dos animaizinhos mais simples. Porém, ela sofria, assim como Marcelo. Joana queria um homem alto, grande e sarado para si; fingia seus orgasmos para aquele esquelético Marcelo e chegava a achar Alfredo mais interessante, apesar deste quase ignorar sua existência silenciosa, incapaz de externar uma opinião sobre aquele Blow-up a que ele submeteu o grupo em sua casa na semana anterior, fazendo ao final os brilhantes e cômicos comentários que encantaram à Laura que, por sinal, andava engordando sem se dar conta. Joana ficou de olho: ao final do filme, sem parar de falar – exclusivamente à Laura, e em voz altíssima -, ele foi à cozinha e trouxe a mais bela torta de requeijão com goiabada que vira até hoje. Era puro amor transformado em doce para Laura. A goiabada escolhera aquele momento para descer pela base de requeijão, como dedos que buscam prazer sobre a pele. Ao ver aquilo, Laura voltou seu olhar encantado de Alfredo para o magrinho Marcelo que, constrangidamente, dirigiu seu olhar à Joana, que observou como Alfredo era triste com toda aquela comilança e devoção à Laura.

Naquela noite, ao chegar em casa, Marcelo telefonou para Laura e disse que ela e Joana estavam fascinadas pelo gordo, mas ficou literal e longamente boquiaberto ao ouvir uma Laura meio bêbada pelos eflúvios de Alfredo rebater que iria visitá-lo naquele minuto a fim de mostrar sua “fascinação”. “E ponha uma música adequada!”, ordenou.

Neste ínterim, enquanto voltava para casa no banco de trás de um táxi, uma Joana sem endorfina permitia-se algumas lágrimas que desciam em direção ao sublime colo de silicone. Ela pegou o celular e ligou para Alfredo, que não atendeu. Ligou novamente e ouviu um alô assustado. “Oi, joaninha do meu jardim, aqui fala teu pulgão. Aconteceu alguma coisa de grave?”. “Não, nada de grave, é só que eu não queria ficar sozinha esta noite”.

E, com efeito, nada de grave ocorreu, apenas o grupo dos quatro tornou-se publicamente sexuado. Alfredo e Marcelo não tornaram-se grandes amigos mas Laura e Joana, sim. Trocavam confidências: Joana não gostava de ser chamada de “minha loirinha limitada” e sentia-se insegura, Laura andava sempre brigando com Marcelo, principalmente após saber de suas idas matinais à academia.

Não foram felizes por muito tempo porque, como vocês sabem, é sempre assim. Mas Laura e Joana ainda são amigas.