Anotações sobre Anton Tchékhov e e-mail recebido

Anotações sobre Anton Tchékhov e e-mail recebido
Anton Tchékhov
Anton Tchékhov

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia, citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Rosa, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchékhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas e me ordenasse escolher um e somente um, eu — talvez estranhamente — escolheria Anton Pavlovitch Tchékhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchékhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco desencantada do amor — o qual é visto sem muitas ilusões — e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchékhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

tchekhov1Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchékhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo — uma boa história — indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchékhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen.

tchekhov2Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante, para um autor do sáculo XIX: “Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchékhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

tchekhov3Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.
– E ler suas peças de teatro é um deleite só.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

tchekhov4Em vida, Anton Tchékhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchékhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

E-mail do Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchékov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.

Para mim, Tchékov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévski.

Bom final de semana!
Fernando

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Uma(s) lista(s) de melhores contos, na minha humilde opinião e na do El País

Uma(s) lista(s) de melhores contos, na minha humilde opinião e na do El País
Machado de Assis e Guimarães Rosa.
Machado de Assis e Guimarães Rosa.

O Brasil sempre privilegiou o conto, mas os europeus nunca deram grande importância ao gênero. O Caderno de Cultura Babelia do jornal espanhol El País publicou uma notícia que fala sucintamente da recente valorização do conto naquele país, pedindo para que autores espanhóis citem seus contos favoritos da literatura não espanhola. Curiosamente, nenhum conto foi citado duas vezes. Depois, coloco uma relação de contos favoritos deste blogueiro.

Relatos universales que no hay que perderse

Escritores, editores y libreros que han participado en este especial sobre el renacer y la nueva valoración del cuento en España comparten con los lectores títulos de sus cuentos favoritos en español y otras lenguas.

— El llano en llamas, de Juan Rulfo, y Bartleby, el escribiente, de Herman Melville (Berta Marsé).

— Carta a una señorita en París, de Julio Cortázar, y La dama del perrito, de Antón Chéjov (Cristina Cerrada).

— La Resucitada, de Emilia Pardo Bazán, y El bailarín del abogado Kraykowsky, de Witold Gombrowicz (Cristina Fernández Cubas).

— El Aleph, de Jorge Luis Borges, y Una casa con buhardilla, de Antón Chéjov (Eloy Tizón).

— El espejo y la máscara, de Jorge Luis Borges; Una luz en la ventana, de Truman Capote, y Donde su fuego nunca se apaga, de May Sinclair (Fernando Iwasaki).

— Bienvenido, Bob, de Juan Carlos Onetti; El álbum, de Medardo Fraile; En medio como los jueves, de Antonio J. Desmonts; Alguien que me lleve, de Slawomir Mrozek; Los gemelos, de Fleur Jaeggy; La colección de silencios del doctor Murke, de Heinrich Böll, y Guy de Maupassant, de Isaak Babel (Hipólito G. Navarro).

— Un tigre de Bengala, de Víctor García Antón, y La revolución, de Slawomir Mrozek (José Luis Pereira).

— No oyes ladrar los perros, de Juan Rulfo; El veraneo, de Carmen Laforet; La corista, de Antón Chéjov, y Rikki-tikki-tavi, de Rudyard Kipling (José María Merino).

— Continuidad de los parques, de Julio Cortázar, y El nadador, de John Cheever (Juan Casamayor).

— El Sur, de Jorge Luis Borges; Parientes pobres del diablo, de Cristina Fernández Cubas; Tres rosas amarillas, de Raymond Carver, y La dama del perrito, de Antón Chéjov (Juan Cerezo).

— El infierno tan temido, de Juan Carlos Onetti, y Los muertos, de James Joyce (Juan Gabriel Vásquez).

— Las lealtades (de Largo Noviembre de Madrid), de Juan Eduardo Zúñiga, y El nadador, de John Cheever (Miguel Ángel Muñoz).

— Continuidad de los parques, de Julio Cortázar, y William Wilson, de Edgar Allan Poe (Patricia Estebán Erlés).

— Ojos inquietos, de Medardo Fraile; Noche cálida y sin viento, de Julio Ramón Ribeyro, y Míster Jones, de Truman Capote (Pedro Ugarte).

Minha relação saiu um pouco grande, apesar de ter sido escrita improvisadamente. Mas se pensasse mais, talvez não mudasse demais. Vamos a ela.

Contos estrangeiros:

— A Viagem, de Luigi Pirandello;
— O Velho Cavaleiro Andante, de Isak Dinesen (Karen Blixen);
— Ponha-se no meu lugar, de Raymond Carver;
— A Fera na Selva, de Henry James;
— Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville;
— A Enfermaria Nº 6, de Anton Tchékhov;
— Queridinha (ou O Coração de Okenka), de Anton Tchékhov;
— A Corista, de Anton Tchékhov;
— A Dama do Cachorrinho, de Anton Tchékhov;
— Olhos Mortos de Sono, de Anton Tchékhov;
— Os Sonhadores, de Isak Dinesen (Karen Blixen);
— A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói;
— Uma Alma Simples, de Gustave Flaubert;
— As Jóias, de Guy de Maupassant;
— Os Mortos, de James Joyce;
— O Licenciado Vidriera, de Miguel de Cervantes;
— O Artista da Fome, de Franz Kafka;
— A Colônia Penal, de Franz Kafka;
— A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe;
— Berenice, de Edgar Allan Poe;
— William Wilson, de Edgar Allan Poe;
— O Primeiro Amor, de Ivan Turguênev;
— Três Cachimbos, de Ilya Ehrenburg;
— A Loteria da Babilônia, de Jorge Luis Borges;
— A procura de Averróis, de Jorge Luis Borges;
— O jardins dos caminhos que se bifurcam, de Jorge Luis Borges;
— Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges.

Contos brasileiros:

— Missa do Galo, de Machado de Assis;
— Uns Braços, de Machado de Assis;
— Noite de Almirante, de Machado de Assis;
— Um Homem Célebre, de Machado de Assis;
— A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa;
— Meu tio, o Iauaretê, de Guimarães Rosa;
— A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa;
— O Duelo, de Guimarães Rosa;
— Guapear com Frangos, de Sérgio Faraco;
— O Voo da Garça-pequena, de Sergio Faraco;
— Corvos na Chuva, de Ernani Ssó;
— Contrabandista, de João Simões Lopes Neto;
— Baleia, de Graciliano Ramos (não é um conto, mas pode funcionar como tal);
— O homem que sabia javanês, de Lima Barreto;
— O Vitral, de Osman Lins;
— O Afogado, de Rubem Braga;
— Venha Ver o Pôr do Sol, de Lygia Fagundes Telles;
— Feliz Aniversário, de Clarice Lispector;
— Uma Galinha, de Clarice Lispector;
— O Japonês dos Olhos Redondos, de Zulmira Ribeiro Tavares.

Passando camisas

Passando camisas

A alguns pode parecer estranho, mas Ana não se importava de passar camisas. Gostava de ligar o radinho na casa de dona Valéria e passar calmamente as camisas e roupas da patroa. Era um trabalho que requeria uma parcela muito pequena de seu cérebro. Naqueles momentos, Ana — que tinha uma vida interior muito movimentada — podia divagar à vontade. Diferentemente de preparar o almoço, que tinha horário para ser servido e obrigava-a a cálculos de quantidades e tempo no fogão, passar roupas era algo que fazia lenta e cuidadosamente, sem hora para terminar. Sentia a textura aquecida dos tecidos, o vapor subindo, dobrava cuidadosamente a roupa e depois apreciava os elogios de dona Valéria a seu trabalho.

À noite, quando voltava para sua pequena casa na periferia, Ana seguia trabalhando. Ali, ela também preparava a comida, limpava a casa, lavava e passava suas roupas e as de Daniel, seu marido. Ontem, porém, sua rotina foi quebrada. Ao pegar uma camisa de seu marido, Ana sentira um pequeno papel num dos bolsos. Retirou-o e viu tratar-se de uma nota fiscal. Ele tinha comprado um Ferro Ultragliss Diffusion 70 Arno por cento e noventa e nove reais. Estranho. Daniel gostava de andar alinhado, mas era muito dinheiro por um ferro de passar. E, além do mais… Observou melhor a data da nota: a compra fora feita há mais de quinze dias e ela não recebera ferro novo nenhum. Faltava muito para seu aniversário e eles não tinham dado presente para nenhum amigo ou parente nos últimos dias — o que significaria aquilo? Será que ele comprara para um amigo que estava sem crédito? Voltou a olhar a nota: compra à vista.

Ana, uma morena bonita e alta, daquelas que atraíam os olhares masculinos e que recebia cantadas até dos amigos de Daniel, sentiu tonturas. Deitou na cama do casal e, num gesto típico seu, tapou os olhos com o braço esquerdo e começou a chorar. Depois de alguns minutos, pensou que Daniel, sempre tão apaixonado e orgulhoso dela, poderia ter dado aquele ferro para sua mãe e decidiu falar com a sogra.

— Boa noite, dona Rosaura.

— Oi, Ana, tudo bem?

— Tudo. Eu quero comprar um ferro de passar para nós. A senhora sabe de uma marca que seja boa?

— Olha, não. Eu uso o meu velhinho da Walita. Funciona bem.

— Tem vapor?

— Não, tem copo d`água e paninho…

Riram, falaram mais um pouco e desligaram. Naquele momento, Daniel devia estar jogando futebol com seus colegas da Polícia Militar. Sempre voltava cansado e suado. Cansadíssimo, pensou Ana, ainda na cama. E se o futebol fosse uma mentira e ele estivesse com a outra? Nesse caso, voltaria meio brocha para casa. Resolveu, então, que não ia dar-lhe folga naquela noite. Foi tomar banho e pôs um vestido listrado que deixava à mostra sua cintura fina em contraposição aos quadris largos. Abriu um pouco o decote de forma a deixar o observador entrever seus seios e foi esperar Daniel na porta da casa, observando a rua. Os poucos que passavam viam a mulher na porta. A maioria das mulheres a ignoravam, os homens caminhavam voltando o rosto para medir a mulher recortada contra a luz que vinha da sala. Alguns vizinhos a cumprimentavam, um perguntou se ela ia a uma festa e obteve como resposta apenas um dar de ombros. Ela não queria falar, temia uma torrente de lágrimas.

Daniel chegou de calções e tênis, com a camiseta do time na mão. Suava muito. Ainda na rua, olhou admirado para sua mulher e perguntou:

— Hoje vai ter festa, minha nega?

— Sim, estou carente.

— Ah, isso não pode continuar assim… – e sorriu sedutor de um jeito que a fez abrir os braços para aquele que se tornara algo como um estranho peregrino.

— Vai tomar banho, amor — conseguiu dizer, sentindo o caminho ascendente do choro.

Foi para o quarto e tirou o vestido molhado do suor de Daniel. Ouviu-o terminar o banho, ir à cozinha, voltar ao banheiro para escovar os dentes e afinal entrar no quarto, onde ela procurava desesperadamente sentir-se sexy. Reconheceu o calor do corpo de Daniel, que deitara de costas sobre a cama, e pôs imediatamente a mão em seu pênis. Obrigou-se a dar-lhe um beijo e notou que o pênis enrijecia-se rapidamente, como se o mundo ainda girasse e nada houvesse mudado. Subiu sobre Daniel e fez que com ele a penetrasse. O homem ia pedir-lhe calma, mas deu apenas um grunhido que era mais dor do que aprovação. Ela começou a movimentar-se sobre ele e chegou a um orgasmo que fez romper a barragem que a impedia de chorar.

— O que aconteceu, minha nega?

— Não sei, deixa eu ir no banheiro.

Daniel seguiu-a, segurando e olhando seu pênis. A pele estava inchada e ele sentia dor ao mexer ali.

— Acho que tu me machucou. Tem que ir mais devagar, Aninha.

— Ah, é? – respondeu-lhe já a caminho da sala, onde foi pegar a nota da loja.

Quando voltou, Daniel ainda estava no banheiro, examinando-se.

— Daniel, tu poderia me dizer o que significa esta nota?

— Ele olhou para o papel como se nunca o tivesse visto.

— Para quem tu comprou este ferro?

— Que ferro, ficou louca?

— Este aqui, ó: Ferro Ultra sei lá o quê.

— Não sei que do que tu tá falando.

— Daniel, esta coisa tava no bolso da tua camisa azul!

— Deixa eu ver!

Ele segurou a nota perto dos olhos e Ana achou que ele realmente não sabia do que se tratava.

— Eu sei lá que porra é essa, nunca comprei esta merda.

Ela queria pressionar.

— Eu vou pra casa da minha mãe. Não quero mais te ver, seu corno.

— Calma, neguinha, muita calma. Eu quero ver toda a minha família e meus amigos mortos se eu tiver outra mulher. Sei lá que nota é essa, nem como foi parar numa camisa minha. E, porra, dar um ferro de passar para a amante? Pra quê? O ferro dela ia ser outro…

— Para de brincar, idiota.

Demoraram a dormir. Daniel puxava qualquer assunto, enquanto tratava a mulher mais carinhosamente que o habitual. Tarde da noite, dormiram. Pela manhã, Ana teve a impressão de não ter descansado. Preparou o café para Daniel e saiu atrasada com o vestido listrado, que estava mais à mão. Chegou à casa de dona Valéria quando esta já tinha saído.

Ao entardecer, com o rádio de pilha desligado, passava novamente camisas e pensava no ferro de cento e noventa e nove reais, enquanto sentia o cheiro do vapor quente misturar-se com o perfume de seu vestido e o do suor de Daniel, ainda presente em sua lembrança, no vestido, em tudo. As lágrimas desciam silenciosamente pelo seu rosto quando dona Valéria entrou em casa com um amigo. Ele olhou admirado para Ana, que se recortava contra a luz vinda da veneziana em seu típico gesto de encobrir o rosto com o braço esquerdo. Aquela imagem ficou gravada na memória do artista.

PassandoCamisasGravura de Coccarelli

O Grande Livro Doente de Machado de Assis

Memorial de Aires não é considerado um dos principais romances de Machado de Assis. A maioria fica com Dom Casmurro ou Brás Cubas e com o irretocável mosaico de contos. Até compreendo, mas prefiro o delicado Memorial. Provavelmente estou errado, pode tratar-se de simples idiossincrasia, porém, como velho leitor do Bruxo de Cosme Velho, vou tentar explicar minha opinião.

A publicação deste romance-diário ocorreu em 1908, ano da morte do escritor. O tema é quase nenhum. O Conselheiro Aires, que já havia narrado o romance anterior de Machado, Esaú e Jacó, escreve este diário-romance na posição de um mero observador da “ação” – e portanto não na posição de narrador onisciente -, observando as aventuras amorosas dos mais jovens e anotando de forma sedutora também outros acontecimentos a seu redor: amizades, pequenos casos, pequenos dramas, piadas.

O romance perpassa dois anos da velhice do personagem-autor; serenamente, ele leva o leitor com suas observações aleatórias de aposentado. Conta sobre o amor de Fidélia e Tristão, sobre a vida passada como diplomata, sobre leituras ou acontecimentos políticos, tudo sem muita ordem. O livro é quase destituído de enredo, descrevendo o final da existência de alguém muito experiente e perspicaz. O tom do Memorial fica entre a melancolia de quem está velho demais para conquistas amorosas e o bom humor indulgente da experiência. Parece uma crônica leve sem maiores objetivos mas é uma visão bastante amarga da solidão da velhice. Este paradoxo torna o livro irresistível para mim. O que esperar de um velho inteligente, aposentado, sem filhos e nada para fazer? Risonho e falsamente fútil, Aires vai habilmente descrevendo a vida dos amigos Dona Carmo e Aguiar, um casal sem filhos que toma a jovem Fidélia como se fosse sua filha e a vê mudar-se para Portugal com seu amor Tristão. Aires nos mostra a devoção com que o casal espera e recebe cada carta vinda de Portugal; a forma amiga e piedosa – ao mesmo tempo que irônica e crítica – com que Aires aborda o casal é encharcada da mais pura humanidade.

É evidente que Machado está, ao expor-nos Dona Carmo e Aguiar, expondo nostalgicamente a intimidade de sua própria vida com Carolina, a esposa de toda uma vida, recém falecida à época em que o romance foi escrito. Em grande parte, os méritos do livro estão na perfeita e contida descrição de seres tão pouco romanescos quanto o próprio Conselheiro Aires, Dona Carmo, Aguiar, Fidélia e Tristão, que aqui são cuidadosamente emoldurados por um mestre no auge de sua arte.

Talvez eu não tenha convencido você da qualidade do livro ou talvez minha avaliação seja um equívoco; então, para me auxiliar, invoco inesperadamente o depoimento do cineasta François Truffaut.

Truffaut criou a categoria dos Grandes Filmes Doentes. A definição deste tipo de filme está no parágrafo a seguir e reparem como ela serve para o Memorial. Peço-lhes que troquem as palavras relativas ao cinema por outras relativas à literatura. Por exemplo, troquem filme por livro, diretor por escritor, cinefilia por bibliofilia ou bibliofagia, etc. Com a palavra, François Truffaut, o diretor que amava os livros e um de meus heróis neste mundo:

Abro um parêntese para definir rapidamente o que chamo de um “grande filme doente”. Não é senão uma obra-prima abortada, um empreendimento ambicioso que sofreu erros de percurso. (…) Esta noção só pode aplicar-se, evidentemente, a diretores muito bons, àqueles que, em outras circunstâncias, demonstraram que podem atingir a perfeição. Um certo grau de cinefilia encoraja, por vezes, a preferir, na obra de um diretor, seu grande filme doente à sua obra-prima incontestada! (…) Se se aceita a idéia de que uma execução perfeita chega, na maior parte das vezes, a dissimular as intenções, admitir-se-á que os grandes filmes doentes deixam transparecer mais cruamente sua razão de ser. (…) Diria, enfim, que o “grande filme doente” sofre geralmente de um extravasamento de sinceridade, o que paradoxalmente o torna mais claro para os aficionados e mais obscuro para o público, levado a engolir misturas cuja dosagem privilegia o ardil de preferência à confissão direta.

Trecho da crítica de Truffaut sobre o filme Marnie – Confissões de uma Ladra, de Alfred Hitchcock. Retirado de Hitchcock / Truffaut – Entrevistas (Ed. Brasiliense – 1986).

O Memorial é isto mesmo. É um Grande Livro Doente. O ex-diplomata Aires é, certamente, o próprio Machado sexagenário. Tranqüilo, irônico e pessimista, goza sua aposentadoria escrevendo pequenos acontecimentos em seu diário. Nada de romanesco alterará sua existência e ele se compraz na companhia de seus velhos amigos e na observação dos jovens. O ambiente do livro é o mesmo de suas crônicas e até a relativa vergonha de sentir-se atraído por uma jovem viúva é descrita, ao lado do bom senso que o faz aconselhá-la a um casamento com um jovem. Trata-se de um calmo “extravasamento de sinceridade”. Porém… Claro que um livro assim move-se a passos de tartaruga e seu verdadeiro personagem deve ser o texto – no caso uma notável demonstração de virtuosismo literário talvez só repetível por alguém do porte de Henry James. Pode ser que a imobilidade e os gentis saraus de uma velhice esclarecida tenham afastado o público do livro, mas não afastou os loucos por Machado.

Para terminar, uma citação que bem demonstra o espírito de Memorial de Aires:

Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão.

Machado de Assis, MEMORIAL DE AIRES

Amor à Literatura

Recebi uma intimação para responder este questionário. Na verdade, acho um saco estes pedidos e sempre os ignoro, mas como é sobre literatura, vamos lá. Tentei descobrir o primeiro autor das perguntas, mas entreguei os pontos.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Esta pergunta é sobre que livro gostaríamos de SER. Interessante. Então, desejaria ser alegre. Sugeriria tornar-me a Modesta proposta para evitar que as crianças da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para seu país de Jonathan Swift. Opcionalmente poderia ser o irresistivelmente cômico Uma Confraria de Tolos de John Kennedy Toole ou quem sabe — tornando-me mais reflexivo, sutil e elegante — os esplêndidos Contos de Machado de Assis. Em qualquer um dos casos, porém, seria muito solicitado pelos ouvintes; seria popularíssimo, sem dúvida.

Quem não leu Fahrenheint 451 ou não viu o filme de mesmo nome de François Truffaut, ficará sem entender a última frase do parágrafo anterior… ou talvez tudo.

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Sem dúvida, este questionário veio de Portugal. Apanhadinho é igual a “ficar caidinho” ou “ficar apaixonado”.

Uma vez, numa roda de amigos discretamente alcoolizada, uma das mulheres perguntou aos homens presentes quais teriam sido as mulheres de suas vidas. Por azar, coube a mim ser o primeiro a responder. Sou dono de proverbial franqueza, de lendária sinceridade e, depois de olhar para minha insegura cara-metade da época, declarei: a mulher de minha vida é certamente alguém que quis e nunca tive e da qual só imagino delícias, perfeições, calma e carinho. É alguém de quem não conheço os defeitos. A mulher de minha vida é… E disse um nome conhecido daquelas pessoas que quedaram-se boquiabertas.

Hoje, fiquei pasmo ao ver que as “mulheres de livros” pelas quais me apaixonei têm igualmente amores irrealizados. A primeiríssima é Sílvia, que aponto polemicamente como a maior personagem de Erico Veríssimo. Ela é a principal habitante de O Arquipélago, terceiro volume da trilogia O Tempo e o Vento. Sílvia é casada com outro, mas seu grande amor é Floriano, com quem apenas dialogava, trocava cartas e a quem escrevia um diário. A segunda é Sarah Woodruff, do romance de John Fowles A Mulher do Tenente Francês e a terceira é Leen do romance Casa sem Dono, de Heinrich Böll. A história de Sarah é muito conhecida, ainda mais depois da indicação de Meryl Streep ao Oscar, no papel de Sarah. Já Leen é obscura. Ela morre aos 19 anos, na página 124 de minha edição, após morar um ano com Albert, personagem principal do livro de Böll. O vendaval de sua entrada e saída em Casa sem Dono destroçou temporariamente minha vida.

3. Qual foi o último livro que compraste?

(Anotação: nunca fazer esta pergunta à Caminhante.)

Foram dois, ambos comprados num sebo: Os Duelistas de Joseph Conrad e A chuva antes de cair, de Jonathan Coe.

4. Qual o último livro que leste?

Foram dois.  A Borra do Café de Mario Benedetti e A chuva antes de cair de Jonathan Coe.

5. Que livros estás a ler?

Estou clássico. Leio Ensaios de Montaigne e Os Duelistas de Conrad.

6. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Penso que nunca mais me apaixonarei por livros como na juventude. O que lia durante a adolescência e até os vinte e poucos anos marcou-me muito mais do que qualquer coisa lida depois. Todos os meus livros vêm de lá:

Contos de Machado de Assis (relidos depois);
Contos de Anton Tchekhov (relidos depois);
Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa;
Doutor Fausto de Thomas Mann (relido depois);
Dom Quixote de Cervantes.

Bem, se a fiscalização da ilha fosse camarada, acrescentaria um Manual de Sobrevivência…

Meu último aborto

Ela dirigiu-se a minha mesa e disse:

— Depois preciso falar com o Sr. em particular.

Era uma de nossas estagiárias, a que fazia um misto entre auxiliar de escritório, substituta da secretária e telemarketing. Só os três estagiários me tratavam como “senhor”. Nossa empresa era pequena – quatorze pessoas – e ela, com 16 anos, era de longe a mais jovem. Todos nós trabalhávamos muito e acumulávamos funções muitas vezes díspares. Sendo um dos sócios, além de alguns trabalhos técnicos, responsabilizava-me pela parte financeira e de pessoal.

— É assunto urgente?

— Sim.

Ao final da tarde, enquanto os outros funcionários iam embora, fechei-me com ela na sala de reuniões.

— Olha, seu Flávio, preciso de um adiantamento.

Era só o que faltava, a estagiária de 16 anos e que mora com os pais pedindo adiantamento. Só lhe daria se fosse para algo relacionado com seus estudos. Comecei a pensar na desculpa. Porém, na realidade, sempre deixava algum valor reservado para esses pedidos. Os solteiros raramente solicitavam adiantamentos, os casados sem filhos também não, só os que tinham filhos ou estavam a ponto de tê-los é que vinham pedir-me valores para serem descontados no dia do pagamento dos salários. Éramos uns duros, mas estávamos crescendo. Quando ouvira a reclamação de que não tinham dinheiro para almoçar, fizemos vales-refeição para todos. Quando financiara o parto da mulher de um funcionário, colocamos todos em planos de saúde. Quando houve problemas com os altos preços dos remédios, fizemos cartões de farmácia cujos valores eram descontados ao final do mês. Mesmo assim, e apesar de que, considerando o mercado, pagávamos bons salários e raramente perdíamos funcionários, havia sempre os apertos de última hora. Era difícil evitar dar algum adiantamento, pois éramos todos muito próximos e eu tenho o coração mole, costumo assumir o problema dos outros, apesar das reclamações de meu sócio.

— De quanto tu precisa? — perguntei; afinal, ela ganhava apenas R$ 450,00 e talvez pudesse pagar do meu bolso.

— Preciso de R$ 2.000,00.

Tomei um susto e quase ri de sua pretensão.

— Mas, Mariana, tu recebe R$ 450,00 mais transporte e refeições…

— É, só que eu preciso mesmo! Tenho um grande problema.

Que saco, ela quer que eu pergunte qual é.

— Mariana, eu não posso adiantar um valor que é quatro vezes o teu salário. Além do mais, tu não tens vínculo empregatício e como é que vais passar os próximos meses sem receber?

— É que eu preciso fazer um aborto e o cara que faz isto direito, numa clínica, com higiene, cobra isso.

É, ela desejava realmente dizer qual era seu problema. E que problema. Nada mais típico; um caso de gravidez na adolescência. Sentindo-me cada vez mais desconfortável e sabendo que não deveria me envolver, fiz o contrário:

— E o pai?

— O pai? Bom, seu Flávio, não tenho bem certeza, mas acho que é o Chico.

— Chico? Ai, meu Deus, o nosso melhor analista estava comendo a menina. Ao menos era solteiro.

— Ele sabe?

— Sim, mas o Chico quer ter o filho. Eu não quero. Imagine, não tem nada a ver, eu com uma criança na casa dos meus pais em Guaíba. Meu pai me mata. E não vou ficar cuidando de filho nessa idade. A barriga é minha. E eu, casada? Brincadeira, né?

Dizia para mim mesmo: não te envolvas, mas… Acabei falando uma besteira.

— Mas o Chico tem um apartamento.

— É um cu – respondeu, fazendo um círculo com o polegar e o indicador — e eu já disse que não quero ser mãe agora! – Só não fala com ele, ele vai vir com o papo de que é filho dele, que é contra o aborto, vai falar em religião, etc.

— Vou ver o que dá para fazer; não posso te dar um adiantamento desses sem falar com o Leonardo.

No outro dia, não falei com Leonardo, meu sócio; porém Chico sentou-se a minha frente.

— A Mariana veio te encher o saco?

— Não entendi.

— A Mariana não te pediu dinheiro?

— Pediu.

— Quanto?

— R$ 2.000,00.

— Pois é, cara, e eu nem sei se o filho é meu. Essa guria trepa com meio mundo, cheira e fuma de tudo, deu para um colombiano que vende artesanato na Praça da Alfândega e o filho é meu?

— Chico, eu não tenho nada a ver com essas histórias, mas também não quero que a empresa vire uma novela mexicana, nem colombiana.

— Sou contra o aborto. Não vou à igreja, mas sou católico. E é um crime. As clínicas são clandestinas. E se ela morre?

Fiquei em silêncio.

— Eu propus assumir a criança, mas ela está louca. Chegou a levar cocaína lá para casa, só para mostrar como era irresponsável. Brigamos e ela foi para Guaíba de madrugada.

— Ela é drogadita mesmo?

— Claro — disse ele, num simulacro de riso. -– Mora na periferia, é difícil ser diferente.

Fiquei em silêncio, pensando idiotamente em qual seria a frequência dos ônibus para Guaíba de madrugada.

— Ela passa muitas noites lá em casa. Sai com as amigas e depois vai para lá. Bate no porteiro à uma, duas da madrugada. Às vezes só deita e dorme.

— Chico, e se ela persistir com a intenção de tirar a criança? Eu não vou emprestar essa grana para ela. Tenho que ser um pouquinho profissional.

Chico era muito importante em nosso trabalho. Sempre ficava com a parte mais difícil dos projetos. Tinha formação sólida e era competente, interessado.

— Chico, olha aqui. Fala com ela. Vocês têm que resolver. Não querem que eu decida, né?

— Tá bom, mas tu farias um aborto?

— Sei lá. Não sou eu quem deve resolver.

— Tá, mas eu quero ouvir a tua opinião — insistiu Chico.

— Já sou responsável por muita coisa. Pára com isso.

— Mas uma namorada tua fez aborto há duzentos anos atrás, tu falaste nisso uma vez.

— Sim, mas nada a ver com vocês, cara, resolve – disse-lhe.

Passaram-se duas semanas, Mariana faltou ao trabalho e Chico veio conversar:

— Fizemos a porra –, disse ele. — Ela vai ficar hoje em casa.

— Tu foste com ela?

— Não, só paguei. Ela foi com a irmã.

Meu papel parecia ser o de ficar quieto. No dia seguinte, Mariana estava toda feliz e dava saltinhos de felicidade pelas salas. Logo depois, sumiu por uma semana sem dar explicações. Retornou dizendo que estivera em Santa Catarina, numa praia. Achei a coisa verdadeiramente engraçada e tivemos uma longa e divertida conversa ao final da qual lhe disse que tinha que suspender seu estágio. Ela riu, deu-me dois beijos e despediu-se de todos.

Hoje, nove anos depois, Chico é casado e sua mulher está grávida do primeiro filho, que será, segundo ele, um menino torcedor do Internacional. Há dois anos, vi Mariana na rua quando ia almoçar. Estava magérrima, estranha. Fingiu que não tinha me visto, mas, por puro acaso, reencontrei-a uma hora depois no elevador. Nossos olhares se cruzaram rapidamente e não a cumprimentei, pois não sabia se ela queria ser reconhecida, mas notei um sorriso nascente e fiz-lhe um sinal com a cabeça. Ela perguntou se o escritório tinha se mudado para aquele edifício. Respondi que sim. Saímos juntos do elevador no meu andar e conversamos. Ela estava agitada, contou-me que coisas “muito loucas” tinham acontecido, que passara três anos na Suíça, que fazera faxinas e participara de colheitas, que sabia como viver lá com pouco dinheiro, quase sem pagar comida nem locomoção e que queria voltar logo, nem sabia por que estava aqui. Como se ainda trabalhasse conosco, pediu-me uma grana, qualquer coisa. Dei-lhe R$ 50,00. Eu queria me livrar dela. Aquele encontro estragou meu dia.

Contei o encontro ao Chico, que ainda trabalha conosco. Muito emocionado, disse-me que Mariana tivera aquela criança e que ela estava abandonada na casa de sua mãe. Ele soubera por uma amiga comum e procurou Mariana; só depois de muito esforço conseguiu um contato telefônico. Ele queria fazer um exame de paternidade. Ela o mandou se foder, mas Chico foi a Guaíba e encontrou a menina em situação miserável. A avó deu graças a Deus achando que finalmente ia livrar-se daquele peso que sua filha tinha-lhe deixado. Foi fácil convencer a velha a fazer o teste, só que o resultado apontou para outro pai. Mesmo assim, Chico insistiu com sua mulher para adotar a criança ou para dar mensalmente algum dinheiro à família, porém isso quase custou-lhe o casamento. Então voltou a Guaíba, deu um monte de roupas e presentes para a criança e ouviu a mãe de Mariana dizer que ele era um desgraçado de um pau no cu.