Mais Médicos (por Thiago Silva, médico recifense radicado em São Paulo)

Mais Médicos (por Thiago Silva, médico recifense radicado em São Paulo)
Médico cubano batendo perna por aí | Foto: Araquém Alcântara, do fundamental livro “Mais Médicos”

1- Salário dos Médicos

A- Cuba faz cooperação com 66 países em todo o Globo, inclusive europeus. Sabe como isso começou? Com a brigada Henry Reeve criada em 2005 como forma de ajuda humanitária pra atender as vítimas do Furacão Katrina nos EUA. Fidel chamou centenas de médicos e pediu que se organizasse a brigada. EUA negaram a ajuda. A brigada permaneceu mobilizada pois em pouco tempo haveria a crise em Angola e terremoto no Paquistão.

Na maioria dos países que faz parceria, Cuba envia médicos e medicamentos DE GRAÇA, sem cobrar dos países. Isso aconteceu em Angola, no Nepal, Haiti, Congo, e tantos outros países pobres do Mundo. Quem arcava com os custos? O próprio governo cubano

B – E como o governo Cubano fazia, já que é vítima de um Bloqueio Econômico há décadas, uma ilha pequena do Caribe que não consegue nem produzir a própria energia, pelas características de seu território? Alguns países começaram a oferecer trocas pela Força de Médicos.

A Venezuela ofereceu petróleo. Alguns países europeus começaram a pagar diretamente pro governo Cubano. E essa parceria virou uma fonte de renda pra Ilha, com impacto em suas contas públicas, dado o volume de médicos atuando no mundo todo.

C- E como funciona o pagamento?
Cuba abre edital via uma empresa Estatal para contratar os médicos. Eles podem se oferecer ou não. As condições salariais e os países são conhecidos PREVIAMENTE por todos ANTES de assinarem contrato. Contrato. Conhecem? Pois é.

Foto do livro “Mais Médicos”, de Araquém Alcântara

A maior parte do “salário” pago fica com o governo Cubano? Sim e não.

Sim porque se você pegar o total de recurso destinado ao programa e dividir pelo número de médicos vai ser menor. Mas NÃO porque não são os governos CONTRATANTES os responsáveis pelo salário dos Cubanos

Quem é responsável pelo salário dos Cubanos é…. a Estatal com a qual eles assinaram contrato! Simples! Ela é responsável por lesão corporal, por invalidez , por seguro, por assistência a família em caso de morte, etc . Cubanos morreram aqui. Sabe o que fez o governo brasileiro?

Nada. Pois é. Quem cuida das famílias e repassa dinheiro para famílias é a estatal. Além disso, o “diferença salarial” não vai pra financiar outra coisa que não a Saúde e Educação de todo povo cubano. Detalhe, eles tem isso DE QUALIDADE e de GRAÇA pra todos lá viu?

Foto: Araquém Alcântara, do fundamental livro “Mais Médicos”

Ou seja

O “salário” dos médicos fora de Cuba (quando estão em países que pagam, que não são a maioria) sustenta os direitos sociais de todos os moradores da ilha. É uma fonte de renda pro povo. Impacta o PIB. Como vender nióbio a preço de banana pra canadense, saca?

Sabe quantos médicos Cubanos saíram do programa revoltados com o que é feito com o salário? Um total de… 1! Isso mesmo.

Houve algumas deserções, como sempre há, já que tem médicos cubanos que acham que vão enriquecer de medicina nos EUA. Claro que tem. Mas foram uma minoria irrisória.

2- Revalidação de diplomas

Essa é uma piada. Cuba manda médicos pra 66 países, sabe o único que teve gente cobrando isso? Pois é, o Brasil. Ainda tem o disparate de dizer que eles não dão médicos, quando tem norte-americano pegando lancha e indo pra Cuba se tratar.

Mesmo assim, por conta dessa pressão, os cubanos foram avaliados quando chegaram aqui, com a aprovação da lei. Avaliados pela fluência no Português e questões de Medicina. Foram avaliados por Professores e Preceptores de medicina brasileiros, a maioria de Universidades federais.

É claro que teve gente reprovada. É claro que vieram no meio dos 14 mil médicos ruins, medianos, bons e excelentes. Mas você acha que entre 14 mil brasileiros viriam apenas médicos bons? Anham. Sou Chefe de um pronto socorro do SUS onde só tem brasileiro, e vejo isso todo dia …

Foto: Araquém Alcântara, do fundamental livro “Mais Médicos”

3- Impacto.

700 municípios brasileiros não tinham uma ALMA DE LENÇOL BRANCO nem pra confundir com Médicos. Os números do mais Médicos são ACACHAPANTES. 63 milhões de pessoas cobertas. 4 mil municípios. Hoje em mais de 1500 municípios só tem Cubano.

Parabéns aos envolvidos.

Um esforço tão grande para nada (por Leonardo Padura)

Um esforço tão grande para nada (por Leonardo Padura)
Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka
Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Publicado em 30 de janeiro na Folha

O consumo de cultura em Cuba sempre foi um fenômeno polêmico e complexo. As eternas dificuldades econômicas da estrutura socialista da ilha raramente possibilitaram que se gastassem os recursos necessários para levar ao cidadão as criações artísticas mais recentes e reconhecidas consumidas no resto do mundo (pelo menos no resto do mundo com possibilidades de fazê-lo).

Mesmo assim, graças a programas culturais e educativos, o espectador cubano teve oportunidade de consumir cultura de alta qualidade oferecida pelas instituições oficiais. Nos últimos tempos, por vias alternativas, também circularam as mais recentes séries da Netflix ou HBO, os últimos filmes de Alejandro González Iñárritu e Woody Allen, e o PDF pirata de algum livro recém-chegado ao mercado.

É algo diferente –ao longo de quase seis décadas, as instituições políticas cubanas decidiram o que o cidadão deve consumir culturalmente.

Assim, desde as proibições ou barreiras ao rock e beat nos anos 1960 até a decisão de não publicar autores cubanos que vivem no exílio, sempre existiu um mecanismo institucional que pensa na melhor educação ideológica, cultural e artística do cidadão, desestimulando ou censurando o que alguém com poder decide ser prejudicial ou impróprio.

Dessa última lista constam desde livros a filmes, de partidas de beisebol profissional a shows de TV de produção local. É o que parece ter acontecido com alguns episódios do programa “Vivir del Cuento”, comédia de costumes que tem a maior audiência da televisão nacional cubana (estatal, evidentemente).

Seria possível supor que um sistema tão esmerado de controle educativo e ideológico, praticado por instituições políticas e culturais oficiais, garantiria a criação entre os cubanos de uma alta capacidade de discernimento no consumo cultural, levando-os a dar preferência a produtos de alto nível estético, conceitual, ético e humanista.

Mas os meios de comunicação nem sempre alcançam essas metas previstas, nem sequer nas condições acima descritas. Hoje, em Cuba, por exemplo, a música mais ouvida pelo povo é o chamado reggaeton ou alguma de suas variantes, uma música elementar e cansativa, com letras geralmente de enorme pobreza lírica e, às vezes, obscenas.

E não apenas o reggaeton é consumido, como se adotou o hábito de as pessoas o tocarem em suas casas em volumes altíssimos, para o incômodo de quem preferiria outra música ou o silêncio. E isso é feito com total impunidade, como se fosse sinal de identidade e até de poder.

Algo semelhante ocorre com os programas de televisão. Muitas das pessoas que conseguem acessar programas estrangeiros privilegiam os piores programas da televisão “trash” gerados por alguns dos canais hispânicos do sul da Flórida, como o célebre “Caso Cerrado”, em que algumas pessoas levam a público suas misérias éticas, pessoais e familiares diante de uma espécie de juíza.

Mas uma das maiores aberrações foi a recente promoção do “livro do ano” em Cuba. Entre os títulos preferidos pelos cubanos em 2015, o mais destacado e divulgado foi um livro de receitas culinárias! Para escancarar ainda mais a pobreza cultural desse fato, um programa jornalístico da TV oficial cubana difundiu o acontecimento e, segundo pude ler, dedicou vários minutos a uma entrevista com o “escritor” vitorioso.

O que acontece nas entranhas e na inteligência de uma sociedade quando seus cidadãos escolhem como um de seus livros do ano um livro de receitas? E quando sua televisão oficial dá mais destaque a esse fato que a grande parte da produção literária do país? Simplesmente ocorreu um processo de degradação da capacidade intelectual dessa sociedade. Ou então se está manipulando a trama cultural para que um texto sem conflitos alcance essa distinção e seja, além disso, exaltado pela altamente politizada imprensa oficial do país.

Para quem se dedica ao trabalho literário em Cuba, não é apenas ofensivo que tais manifestações se produzam à nossa volta. Os leitores cubanos não puderam encontrar em seu país um único livro ao qual dar sua preferência?

Para onde se encaminha uma sociedade na qual, com certeza, a comida nunca foi suficiente para satisfazer as necessidades da população, e, ao mesmo tempo, um livro de receitas culinárias é o paradigma da leitura que mais e melhor se difunde, consome e promove? Quais são as escolhas possíveis para os leitores cubanos quando sua principal instituição editorial, o Instituto Cubano do Livro, se propõe a editar 624 títulos no ano e só consegue imprimir 231?

Depois de tanto controlar e decidir o que devíamos consumir culturalmente, será que vamos acabar assistindo a televisão “trash”, ouvindo baixarias de reggaeton em alto volume e lendo livros de receitas de cozinha em lugar de literatura? Depois de tanto esforço e controle, estaríamos vivendo uma alarmante regressão à banalidade e ao mau gosto?

Padura: “Sou de uma geração cubana que viveu a revolução e depois perdeu possibilidades de realização”

Padura: “Sou de uma geração cubana que viveu a revolução e depois perdeu possibilidades de realização”
Foto: Roberta Fofonka / Sul21
Foto: Roberta Fofonka / Sul21

Publicado em 26 de junho de 2015 no Sul21

O escritor cubano Leonardo Padura, 60 anos, conhecido autor de livros como O homem que amava os cachorros e da série de romances policiais com o detetive Mario Conde, esteve em Canoas neste final de semana a fim de participar da Feira do Livro da cidade. Grande estrela do evento, ele conversou tranquilamente conosco no hotel onde estava hospedado. Claro que há Cuba, mas o grande assunto ainda é O homem que amava os cachorros. 

O relato do exílio e assassinato de Trótski, o percurso de seu algoz Ramón Mercader até o encontro entre ambos, é uma extraordinária história que mostra o que foi boa parte do século XX. É um narrativa de perversão e morte — de seres humanos e de utopias –, que vai desde a Revolução de 1917 até a Guerra Fria. Raras histórias são tão amplas temporal e fisicamente. Tendo nas mãos este tema grandioso e ainda quente, Padura respondeu com um romance extraordinário.

O homem que amava os cachorros é uma espécie de acertos de contas de uma geração. O livro toca em aspectos dolorosos de vários países comunistas, dentre eles Cuba.

Mas passemos à entrevista:

Foto: Roberta Fofonka / Sul21
“Eu vivo em Havana, mas não somente em Havana. É mais do que isso. Eu vivo na mesma casa onde nasci” | Foto: Roberta Fofonka / Sul21

Sul21 – Antes de conversarmos sobre Cuba e o romance O homem que amava os cachorros, gostaria que tu falasses sobre o projeto literário que envolve o detetive Mario Conde e das tuas influências na área da literatura policial. Aliás, lá também há muitas referências ao ambiente social cubano e de Havana.

Padura – Eu escrevi o primeiro desses romances em 1989-90. A publicação ocorreu em 1991. O primeiro chama-se Passado Perfeito. Eu tinha 35 anos pouca ideia do que pretendia. Só sabia que desejava escrever romances policiais que seriam, sobretudo, romances sociais. O gênero é perfeito para comentar a sociedade cubana contemporânea, então eu escrevi uma série de quatro romances, que são anteriores a A Neblina do Passado. Todos esses quatro romances têm suas ações no ano de 1989. Mario Conde é um policial, um investigador da polícia, e os quatro romances ocorrem um em cada uma das quatro estações deste ano, tendo por tema diferentes aspectos da sociedade cubana e da cidade de Havana. A corrupção, o tráfico de influência, a repressão aos homossexuais e aos intelectuais nos anos 30 e o abuso de poder. Enfim, são romances que tinham uma missão social muito diferente do gênero policial praticado anteriormente em Cuba, que era muito oficial, no sentido de que eram propaganda do sistema. São livros parecidos com o que faz Rubem Fonseca aqui no Brasil.

Sul21 – Tu nasceste em Havana e tens um grande amor pela cidade. Ainda moras lá?

Padura – Sim, eu vivo em Havana, mas não somente em Havana. É mais do que isso. Eu vivo na mesma casa onde nasci, em um bairro da periferia da cidade. É um bairro comum, onde nasceu meu pai e meus avós. Sinto que pertenço àquele lugar. Essa é uma das razões que me fez decidir continuar morando em Cuba e em Havana. É uma relação de amor, claro, mas de um amor doloroso, porque eu e a cidade estamos nos deteriorando, ainda que ela siga sendo mágica.

Foto: Roberta Fofonka / Sul21
“Há uma esquerda romântica que vê Cuba como paraíso socialista e há uma direita muito agressiva, que nos vê como um inferno comunista. E Cuba não é uma coisa nem outra. Parece mais o purgatório” | Foto: Roberta Fofonka / Sul21

Sul21 – No Brasil, a imprensa de direita criou a imagem de uma Cuba ditatorial, fechada, cheia de presos políticos e artistas censurados. Nos teus livros, tu falas livre e criticamente tanto do período Batista, do período revolucionário e do período pós-89. Onde está a censura?

Padura – Eu já disse outras vezes, há uma esquerda romântica que vê Cuba como paraíso socialista e há uma direita muito agressiva, que nos vê como um inferno comunista. E Cuba não é uma coisa nem outra. Parece mais o purgatório. Tu leste como sou crítico de muitas coisas e posso te dizer com toda certeza que, por sorte, em Cuba nunca houve os excessos que ocorreram na União Soviética, na Alemanha e nos países do oeste. É uma sociedade que teve e tem, sobretudo, grandes problemas econômicos. A economia não funciona bem e a política está presente na vida das pessoas, mas nunca tivemos grande repressão. Há controle, é uma sociedade muito controlada, de um partido único, em que o estado e o governo são os mesmos. Há controle, repito, mas sem excessos.

Sul21 – Nós podemos dividir a tua obra entre os livros policiais, O Homem e os livros jornalísticos?

Padura – A divisão existe, mas é apenas de gêneros. Eu escrevi relatos breves, romances policiais, contos, romances históricos, ensaios literários e roteiros para cinema. Trabalhei muito como jornalista e vários dos meus livros publicados são de jornalismo. Sempre tentei fazer um jornalismo de vida um pouco mais longa do que o momento que se vive e se publica. Tenho livros sobre jogadores de beisebol, artistas, músicos e todos estão escritos sob o mesmo conceito de explicar contextos e de fazer com que a notícia, a entrevista ou a crônica jornalística durem um pouco mais. Quando escrevo para o jornal, trato de fazê-lo da mesma maneira com que escrevo um livro durante cinco anos como foi o caso de O homem que amava cachorros. Trato de manter sempre a dignidade, o respeito por mim, pelo livro e pelo leitor. É meu trabalho. Sei que o jornal é diferente de um roteiro para o cinema, o qual é diferente de um romance. Mas, mesmo sendo às vezes leve, tenho a mesma postura de responsabilidade. Talvez não tenha sido tua pergunta, mas acabei dizendo que são diferentes trabalhos, mas onde coloco sempre o mesmo esforço.

Foto: Roberta Fofonka
“Num primeiro momento, preferi escrever a vida de Trótski em primeira pessoa, porque estava cheio de informações, mas me dei conta de que não poderia dominar seu pensamento” | Foto: Roberta Fofonka

Sul21 – Mario Conde é um policial bêbado, desencantado, “que arrasta consigo uma melancolia”. O Iván de O homem que amava os cachorros também é um “fracassado”. Em tua experiência de vida, tens algo em comum com eles?

Padura – Por sorte não! (risadas) Eu sempre tive uma recompensa muito satisfatória com meu trabalho e ganhei coisas que nunca imaginei que podia ter. Em Cuba, fui Prêmio Internacional de Literatura, agora acabo de receber na Espanha o Prêmio Princesa de Asturias de las Letras 2015, que é muito importante e me deixou entre surpreso e encantado. Mas é claro que tenho uma visão de mundo que é expressa na literatura. Faço parte de uma geração desencantada. Uma geração que participou e viveu a revolução e que depois começou a perder coisas, a perder possibilidades de realização e que, em boa parte, foi para o exílio. O tema do exílio é muito importante em meus livros. Como escritor, tento retratar esta experiência coletiva, apesar de que não é, realmente, uma experiência diretamente pessoal.

A edição da Boitempo | Foto: Divulgação
A edição da Boitempo | Foto: Divulgação

Sul21 – Em algum sentido semelhante, Trótski também é um derrotado?

Padura – Trótski é um derrotado distinto, porque até o final foi um homem persistente, um homem que acreditou em seus projetos e ideias. Inclusive, quando estava mais sozinho e derrotado, ele seguia acreditando em seu projeto político. Diferentemente de muitos de meus personagens, era um homem ativo, essencialmente político e que tinha participado não somente como líder de uma revolução como havia sido um de seus grandes dirigentes. Era um filósofo, um pensador e sua derrota é uma derrota humana, mas não filosófica, porque ao final, Trótski converte-se no primeiro crítico do comunismo praticado na União Soviética. O stalinismo perverteu o marxismo e Trótski faz a primeira grande crítica do fato.

Sul21 – Há duas narrativas principais que correm paralelamente em O Homem que amava os cachorros. A de Ramón Mercader e a de Trótski. Isso se alonga por mais de 400 páginas até o encontro dos dois. O lado de Trótski é quase jornalístico, porque a vida dele está documentadíssima, todo mundo pode conhecer cada um de seus passos, enquanto que o outro é exatamente o contrário. Mercader não era, obviamente, uma figura pública, sabe-se pouco sobre ele. Creio que este seja o grande desafio que tiveste ao escrever o romance.

Padura – Exatamente. Sabe-se de cada passo de Trótski. Eu começo a história de Trótski onde termina sua autobiografia. Ela termina em 1929, que é quando eu começo o romance. Mas a vida dele está documentada praticamente dia a dia. Nós, jornalistas e biógrafos, documentamos tudo. Já com Mercader ocorria justamente o contrário. Conheciam-se fatos de sua vida anterior a 1940, sabia-se que tinha entrado para a história do século 20 no dia em que tinha matado Trótski, que tinha ficado 20 anos na prisão e que depois praticamente desapareceu em Moscou. É um personagem sem história, mas que está dentro de minha história. O equilíbrio entre os dois personagens era muito difícil de alcançar. Num primeiro momento, preferi escrever a vida de Trótski em primeira pessoa, porque estava cheio de informações, mas me dei conta de que não poderia dominar seu pensamento – era um homem de outra cultura, de outra época e tinha outra forma de entender a vida. Então, optei por tomar uma certa distância. No entanto, com Mercader, tratei de entrar mais dentro dele, porque havia pouca informação e mais espaço para a literatura, para a ficção. Acaba de sair, na Espanha, a primeira biografia de Mercader, com 700 páginas. Porém, quando escrevi meu romance, só tinha um livro pequeno escrito pelo irmão de Ramón, um livro muito favorável a ele. Tudo o que encontrei de informações foi em lugares muito dispersos e com muita dificuldade. Algumas pessoas que poderiam me dar informações não quiseram falar. Ainda hoje, nem todos querem falar de Mercader.

Foto: Roberta Fofonka / Sul21
” Não havia informação sobre Trótski em Cuba. Ele praticamente não existia” | Foto: Roberta Fofonka / Sul21

Sul21 – Ramón Mercader tinha mesmo aqueles cachorros?

Padura – Sim! Esta parte é tão verdadeira que te convido que procure no youtube um filme cubano chamado Los sobrivivientes, do diretor Tomás Gutiérrez Alea, que você conhece, como conversamos antes. A primeira parte do filme é a história de uma família da grande burguesia cubana. Quando Fidel chegou ao poder, eles decidem se fechar em casa, esperando que a revolução passe. Neste primeiro momento, em todo o esplendor da família burguesa, os cachorros que lá aparecem são os de Ramón Mercader. Gutiérrez Alea utilizou-os porque eram os cachorros mais bonitos que havia em Havana. Então, os dois borsóis russos de Mercader não apenas existiram como podemos vê-los.

Aos 9:15, por exemplo, os cães de Mercader

Sul21 – Em seu exílio, Trótski viajou muito: Cazaquistão, Turquia, França, Escandinávia, México… Tu visitaste todos esses lugares?

Padura – Quase todos. Foi muito trabalhoso escrever o romance. Foram cinco anos de trabalho e alguns desencontros. Viajei a vários lugares onde ele viveu, compus vários cenários de acordo com o que vi, mas não consegui conhecer todos. A casa de Trótski no México era um cenário fundamental e eu não pude conhecê-la. A altitude mexicana me afeta sobremaneira, minha saúde não permite que eu vá até lá, mas consegui fotografias de cada detalhe. Remontei a casa através de fotos. Muito importante foi visitar Moscou, não a Moscou de Trótski, mas a de Ramón Mercader. A Moscou onde ele viveu nos anos 60 e 70, antes de ir para Cuba.

Foto: Roberta Fofonka / Sul21
“Stalin era um homem doente que perverteu a ideia utópica do comunismo” | Foto: Roberta Fofonka / Sul21

Sul21 – Trótski era uma figura desconhecida em Cuba, certo?

Padura – Não havia informação sobre ele no país. Ele praticamente não existia. As únicas informações que poderiam ser encontradas na biblioteca da universidade, eram apenas dois livros moscovitas escritos em espanhol: um se chamava El traidor e outro Trotsky: El falso profeta. Tinham a visão soviética, claro. Portanto, este foi um dos elementos que despertou minha curiosidade: como é possível que este homem, que era um demônio e havia sido um dos lideres da revolução, como é possível que tantas pessoas brilhantes estivessem ao redor dele e nada dissessem a seu respeito?

Sul21 – Ele não era fácil…

Padura – Trotski tinha um caráter muito difícil e no final terminava brigando com todo mundo. Ele era muito fundamentalista, mas muito inteligente. Trótski era muito superior a Stálin, do ponto de vista intelectual.

Sul21 – E chegamos a Stálin. Mercader e Trotski, no livro, parecem marionetes controladas por um ser muito mau, descontrolado e perigoso.

Padura – Stálin não aparece como personagem, mas é quem decide praticamente tudo o que ocorre. É uma figura antagônica. Como sabes, Stalin foi, durante quarenta anos, um deus na União Soviética. E, depois, foram aparecendo estudos e se descobriu que ele era profundamente doente. Era um homem que podia ter um nível de crueldade inimaginável, mesmo para com uma pessoa próxima. Era de um sadismo tremendo e fez o pior: perverteu a grande ideia utópica do comunismo. Para qualquer pessoa boa, o ideal comunista pode parecer bom – todos vamos ter os mesmos direitos, as mesmas possibilidades, vai haver grande liberdade, grande democracia, etc. Mas o que Stalin praticou na União Soviética fugia totalmente a este ideal.

Sul21 – Tu vives da literatura atualmente?

Padura – Por sorte, sou um desses escritores que podem viver da literatura, ainda que escreva para cinema e para jornais.

Foto: Roberta Fofonka / Sul21
“Minha relação econômica com o governo cubano é a de um escritor que recebe direitos e que paga impostos, como qualquer trabalhador independente” | Foto: Roberta Fofonka / Sul21

Sul21 – Como recebes teus direitos autorais vivendo em Cuba? Dás boa parte para o estado? Pretendes pedir asilo político no Brasil? (risadas)

Padura – (risadas) Até 1990, 91, cada vez que um escritor cubano publicava um livro fora do país, tinha que fazê-lo através de uma agência literária do Ministério da Cultura. Ela cobrava os direitos e dava a parte do escritor. Já a partir dos anos 90, foi possível a livre contratação. Eu, no ano de 1995, comecei a publicar através de uma editora espanhola. E, desde então, minha relação econômica com o governo cubano é a de um escritor que recebe direitos e que paga impostos, como qualquer trabalhador independente. Pago pontual e religiosamente meus impostos, mas os direitos são meus e de uma agência da Espanha.

Sul21 — Sei que tu te sentes asfixiado de “tanta Cuba”, mas creio que seja inevitável perguntar sobre a aproximação do país com os Estados Unidos.

Padura – Verdade. Estamos apenas no princípio de um processo — porque ainda não se restabeleceram inteiramente as relações, está ainda em curso uma complicada negociação. Mas a tensão foi quebrada, inclusive Cuba não está mais na lista de patrocinadores do terrorismo. O embargo segue existindo, mas acho que cada vez mais haverá comércio entre os países. Certamente, o governo cubano não vai ceder muitos espaços de maneira imediata. Vai ser uma negociação lenta, mas benéfica. Nos EUA há uma grande população cubana. Alguns são possuidores de grandes fortunas e querem voltar a investir em Cuba. Outros têm muito receio. E há os inimigos absolutos do sistema. Fala-se que a Bacardi , que era inimiga política de Cuba, está agora dizendo: “bem, se as coisas mudaram, gostaríamos de ver nossos negócios em Cuba”. Acho que a reaproximação vai mover a economia cubana, que tem muitos problemas. Em Cuba, temos um povo de bom nível cultural, mas faltam grandes investimentos em infraestrutura e, por exemplo, o Brasil ajudou muito na construção do Porto de Mariel. Este porto e todas as obras turísticas que estão sendo construídas na praia de Varadero são sinais de mudanças. Acabo de estar em Varadero. Lá existe agora um hotel que foi inaugurado há 4 meses com 1200 espaços para iates. Só que em Cuba há 20 iates! Para quem são os 1080 restantes? Eu creio que tudo isso vai mobilizar a economia e a sociedade cubanas. Muitos norte-americanos estão lá com licenças especiais, já que não existe ainda o visto de turista. Também há programas da televisão norte-americana sobre Cuba. Equipes chegam a cada momento e as coisas vão se movendo.

Foto: Roberta Fofonka / Sul21
Foto: Roberta Fofonka / Sul21

(*) Com Pedro Nunes

Viajando com Airton Ortiz: “O melhor que a humanidade tem é a diversidade, são as diferenças”

Viajando com Airton Ortiz: “O melhor que a humanidade tem é a diversidade, são as diferenças”

Publicado em 12 de outubro de 2014 no Sul21

Esta é uma das mais longas entrevistas já publicadas pelo Sul21, certamente a mais longa publicada pela editoria de Cultura. Mas tão vasta foi a quantidade de informações que recebemos em plena Praça da Alfândega na manhã de quarta-feira, que não havia como fazer muitos cortes. Nela, o patrono da Feira do Livro de 2014, Airton Ortiz, respondeu a cada uma de nossas perguntas, descrevendo sua trajetória desde seu trabalho na editora Tchê até suas muitíssimas viagens. E não nos estenderemos mais porque o texto é longo, divertido, informal e muito, mas muito informativo.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Codecri queria dizer Comitê de Defesa do Crioléu. Imagina abrir uma editora hoje com esse nome!” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Airton, tu és de Rio Pardo, não?

Airton Ortiz – É, eu nasci no interior do município de Rio Pardo, na Vila Ferroviária, interior do município. Morei ali até os 13 anos de idade, daí meus pais se mudaram para o interior de Candelária, perto dali, onde morei dos três aos 10 anos de idade. Curioso é que era uma encruzilhada. Em um lado da estrada, onde nós morávamos, era Candelária, no outro era Rio Pardo e no outro era Cachoeira. E a escolinha onde eu fui alfabetizado ficava em Cachoeira. Então eu fui alfabetizado em Cachoeira morando em Candelária. Hoje, minha escola, que tinha 18 alunos, é um centro educacional com quase 200 alunos. Eles me homenagearam dando meu nome para a biblioteca da escola. Com 10 anos, eu fui pra Cachoeira, onde morei até os 20. E vim para Porto Alegre a fim de fazer jornalismo na PUCRS, em 1977. Então, a minha trajetória dá para dividir entre esses três lugares: o interior de Rio Pardo, onde nasci e vivi até os 3 anos; o interior de Candelária, onde vivi dos três aos 10; e dos 10 aos 20, Cachoeira do Sul.

Sul21 – Eu li que tu foste funcionário do Banco do Brasil. Isso foi antes ou depois do jornalismo?

Airton – Antes. Para pagar a faculdade, eu fiz jornalismo na PUCRS.

Sul21 – Isso em 1975?

Airton – Sim, 1975. Como naquela época o curso de jornalismo na PUCRS era considerado um dos melhores do Brasil, eu optei por ela. Daí, na semana seguinte ao vestibular, eu fiz um concurso pro Banco do Brasil. Passei, assumi o cargo e tive que ir pro interior. Fui obrigado a trancar a matrícula na faculdade. Fiquei seis meses no interior, voltei pra Porto Alegre e, com meu emprego no Banco, paguei a faculdade.

Sul21 – O que tu fazia no banco?

Airton – Cara, eu arquivava fichas, ficava seis horas sentado arquivando fichinhas dos clientes do banco por ordem alfabética. Era um trabalho extremamente estressante, aquela rotina não tinha nada a ver comigo. Mas fiquei seis anos ali, terminei a faculdade, abri a editora Tchê e, quando achei que a editora já podia me manter, saí do banco. Então, o banco foi uma coisa importante na minha vida. Possibilitou que eu fizesse a faculdade e fizesse uma pequena economia via fundo de garantia para poder abrir a minha editora.

Sul21 – A editora Tchê era mais centrada em autores gaúchos, regionalismo?

Airton – A editora Tchê tinha como objetivo colocar na roda a cultura do Rio Grande do Sul. Ela era consequência do jornal Tchê, que surgiu um pouco antes da editora. Entre 81 e 82 vieram o jornal, a livraria e a editora.

Sul21 – Livraria?

Airton – Também abrimos a livraria Tchê, ali na Salgado Filho. O padrão do jornal era assim… Cara, não reinventamos a roda, o padrão era O Pasquim. Aliás, o jornal O Pasquim era também ligado a uma editora, a Codecri. E eles também abriram uma livraria no Rio. Uma coisa foi puxando a outra. Codecri queria dizer Comitê de Defesa do Crioléu. Imagina abrir uma editora hoje com esse nome! Era uma coisa incrível. O Pasquim era a cultura carioca, era o que de mais carioquês podia ter no mundo. E o Tchê era a versão gaudéria do Pasquim. Éramos todos fãs do Jaguar, do Ziraldo, do Henfil…

Sul21 – Que autores a Tchê publicou?

Airton – A Tchê publicou, durante 15 anos, cerca de mil títulos até que eu fechei a editora para me dedicar exclusivamente a escrever meus livros. A Tchê publicou boa parte do que está aí. Lançamos um monte de gente. O Carlos Urbim, que veio a ser também patrono da Feira do Livro, o Luiz Coronel, idem, o Celso Gutfriend, que era patronável junto comigo. Até brinquei que eu os lancei e eles me meteram essa bola nas costas de serem patronos antes de mim. E ainda disse pro Celso: tu não vai conseguir, Celso! A Tchê publicou uma quantidade enorme de jovens autores.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Era o então sargento Marco Pollo Giordani e o livro chamava-se ‘Brasil Sempre’. Era uma resposta ao ‘Brasil Nunca Mais’. Ele disponibilizava uma série de documentos secretos do exército que nós da esquerda queríamos colocar a mão e não conseguíamos. Obviamente, só se eu fosse muito louco para sonegar do público as informações que ele trazia. ” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – E o livro do Sargento Marco Polo Giordani que defende os militares da Ditadura?

Airton – A editora publicou mais ou menos mil livros de vários autores. Era uma editora comercial, não uma editora política, ela não veio para defender essa ou aquela ideologia. Eu sempre fui de esquerda, sou e vou morrer de esquerda. Mas a editora era uma editora plural. Nós publicamos, por exemplo, o Barbosa Lessa, que foi um dos fundadores e defendia o tradicionalismo e publicamos o Tau Golin, que o criticava. Porque o objetivo da editora nunca foi o de defender ou criticar o tradicionalismo, mas publicar pensadores que colocassem a disposição do publico ideias, opiniões, para que o leitor então se decidisse sobre qual linha queria seguir. Publicamos autores que defendiam o neoliberalismo, publicamos diversos autores adotados pelo Fórum da Liberdade de Porto Alegre, que é um movimento de empresários e, ao mesmo tempo, também publicamos os grandes pensadores marxistas aqui do Rio Grande do Sul, entre eles o governador Tarso Genro. Publicamos os livros do professor Otto Alcides Ohlweiler, que foi um grande ideólogo da esquerda aqui no Rio Grande do Sul, publicamos livros de políticos, publicamos o livro do Antônio Britto sobre a Constituinte. Publiquei livro do professor Sérgio Borja, que é o atual presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, sobre o impeachment do Collor. Ele defendendo juridicamente o impeachment. O critério que eu tinha como editor era o mesmo critério que todo editor do mundo tem: publicar tudo que as pessoas possam se interessar. Nisso, apareceu um autor que, lá em 1986, foi o primeiro membro do aparelho repressivo que se assumiu como tal. Era o então sargento Marco Pollo Giordani e o livro chamava-se Brasil Sempre. Era uma resposta ao Brasil Nunca Mais. Ele disponibilizava uma série de documentos secretos do exército que nós da esquerda queríamos colocar a mão e não conseguíamos. Obviamente, só se eu fosse muito louco para sonegar do público as informações que ele trazia. O livro está sendo relançado agora, numa edição do autor. Qualquer pessoa, por mais imbecil que seja, sabe que um editor de jornal ou editora não tem que necessariamente compactuar com o que os autores escrevem. É diferente quando tu tens uma proposta ideológica. Uma editora do Partido Comunista, por exemplo, só vai publicar livros de comunistas. Então, essa polêmica não existe.

Sul21 – Bom, e aí tu fechaste a Tchê. Deves ter ganhado dinheiro, porque essas tuas viagens, né…

Airton – As minhas viagens são patrocinadas todas pelo Zaffari. Desde a primeira até hoje, faz 16 anos que eu tenho este patrocínio do Zaffari. As minhas viagens só são possíveis em razão deste mecenato. Hoje já não dependo tanto do patrocínio porque os livros já vendem no Brasil inteiro e eu poderia me bancar com os direitos autorais. Mas, voltando ao fechamento da Tchê: o Brasil passou por um momento econômico de grande concentração da economia com o Collor, as pequenas empresas brasileiras ou se uniram e formaram grandes empresas, ou foram absorvidas por grandes empresas, ou, caso da Tchê, fecharam.

Sul21 – Tu a fechaste em 1997?

Airton – Não, fechei em 2000, em 1997 eu comecei a viajar. Tinha que fechar a Tchê. As grandes livrarias vieram para Porto Alegre, comprando ou absorvendo as livrarias que tínhamos aqui. Chegou um momento em que eu, para vender um livro para as livrarias de Porto Alegre, tinha que ir à São Paulo. Porque a Cultura comprava lá, e também a Saraiva, a Siciliano, etc.

Sul21 – Isso permanece até hoje.

Airton – Sim, estamos numa época em que o mercado livreiro se concentrou nas mãos das grandes redes de livrarias e o mercado editorial se concentrou na mão das editoras estrangeiras. As grandes editoras brasileiras hoje, com a exceção Record e da Saraiva, são de capital estrangeiro. E não sobrou espaço para as pequenas editoras independentes.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Não se viaja em busca do que tem aqui. Por que a gente viaja? A gente viaja em busca daquilo que só tem naquele lugar.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Vamos aos livros, qual é a tua proposta?

Airton – A minha proposta como o autor é a mesma que tinha como editor. Levar e disponibilizar conhecimento para as pessoas. Porque eu acho que o acesso ao conhecimento é o maior direito que o ser humano tem, porque só o conhecimento nos liberta, de tudo e de todos, inclusive de nós mesmos. E o instrumento mais fácil de se acessar o conhecimento com profundidade é o livro. O livro é o elemento mais libertador que o ser humano tem, pois nos ensina a pensar e o pensamento liberta. Então, o meu projeto foi unir minha vontade de viajar pelo mundo, que sempre tive, e meu esporte predileto, que é o de escalar montanhas. Tentei viver disso. E achei uma forma de conciliar tudo, que era escrever sobre as minhas expedições pelo mundo. Para meu primeiro livro, de 1997, eu escalei a montanha mais alta da África, que fica na Tanzânia, e voltei de lá com uma história de final feliz, pois consegui chegar ao cume da montanha mais alta da África e uma das mais altas do mundo. E até chegar lá eu vivi uma série de peripécias — fui preso, fui assaltado…

Sul21 – Por que tu foste preso?

Airton – Fui preso porque da África do Sul para Moçambique eu tinha que passar pela Suazilândia, e lá eu peguei carona em uma Kombi. Na fronteira da Suazilândia com Moçambique, o pessoal da Kombi foi preso porque eram pequenos contrabandistas. Eles buscavam na África do Sul essas bugigangas que hoje vamos comprar aqui no Paraguai. Nada sofisticado — levavam conservas, enlatados, leite em pó, sabão em pó, coisas que difíceis de se conseguir em Moçambique. E eu, que peguei carona com esses caras, não tinha a menor ideia disso. E na fronteira foi todo mundo preso, e eu junto. Como eu era estrangeiro, tive um tratamento especial. Quando souberam que eu era brasileiro, um oficial da alfândega perguntou se eu era amigo do Pelé. Eu respondi que era íntimo dele e por isso ele me liberou. Eu escrevi o livro em 1998 e publiquei em 1999. Desde então eu lanço um livro por ano contando as minhas expedições.

Sul21 – Tu és fotógrafo também?

Airton – Também, mas amador. Porque como eu vou normalmente a lugares de difícil acesso, eu mesmo tenho que tirar as fotografias. São lugares aos quais, às vezes, nunca chegou um fotógrafo antes. Tenho um acervo com cerca de 100 mil fotografias do mundo inteiro, mas não sou fotógrafo profissional, minha linguagem é a escrita. A linguagem jornalística nos livros de reportagens, a linguagem do cronista nos livros de crônicas sobre cidades, e a linguagem de romancista nos dois romances que escrevi, cujos temas também são viagens de aventura.

Sul21 – Depois do primeiro livro foste para o Everest, Tibete…

Airton – O segundo livro chama-se Na Estrada do Everest. Eu refiz a trilha da primeira expedição que escalou o monte Everest em 1953. O terceiro livro foi Pelos Caminhos do Tibete. Eu fiquei uma temporada lá camuflado entre os monges. Eu entrei de maneira clandestina no Tibete pelo Himalaia, que faz a fronteira entre o Nepal e o Tibete. O Tibete é um país militarmente ocupado pela China, por isso os chineses não me deram autorização para entrar. Eles não permitem a entrada de jornalistas independentes, a não ser que vá junto com um oficial do governo chinês e isso eu não queria. Aí em Katmandu, eu fiz amizade com a resistência tibetana, e eles me colocaram clandestinamente lá dentro. E isso gerou o livro. Depois o quarto livro foi sobre o Alasca, o quinto foi sobre a Amazônia, depois foi sobre Índia…

Sul21 – E no Alasca tu sofreste bastante?

Airton – No Alasca eu peguei -40ºC. E eu acampei um tempo em uma área selvagem junto com ursos, lobos, com todo aquele tipo de animal selvagem, como alces, renas. Os caras me levaram lá e depois foram me buscar. Eu queria testar a minha resistência psicológica a um ambiente adverso como aquele. Era dia sempre, eu não levei relógio, não sabia se era meio-dia ou meia-noite. Comia quando sentia fome, dormia quando tinha sono, completamente isolado no meio dos animais. E, à medida que o tempo foi passando, fui me adaptando àquele ambiente, e no final eu já fazia longas caminhadas fora do acampamento.

Sul21 – E depois foi a Índia?

Airton – Sim, uma experiência maravilhosa, percorri toda a Índia de trem, por isso o nome do livro é Expresso para a Índia. Foi o país, do ponto de vista cultural, mais interessante que eu já visitei.

Sul21 – Aqui, pelo que eu noto, tu dás uma parada na questão montanhismo. Tu vens pro mundo plano…

Airton – Aqui eu iniciei o que eu chamo de “grandes travessias”. A cultura popular de um povo ela é muito, mas muito mesmo, consequência de sua concepção religiosa. Se tu pegares a Bahia, vais ver que na cultura baiana tudo tem a ver com o candomblé. Se pegares aqui no sul, tudo tem a ver com catolicismo. E assim por diante. Se pegares certas regiões de Santa Catarina, tudo tem a ver com protestantismo. Como a Índia é um país politeísta, a concepção religiosa deles é muito fragmentada, isso gerou uma cultura popular riquíssima. Então, do ponto de vista cultural, a Índia é o país mais interessante do mundo. E o pessoal pergunta sempre isso, qual o país mais interessante… E não dá pra ti escolher um só. O Tibete, por exemplo, é o país mais diferente que eu já vi até hoje.

Sul21 – Hoje, os brasileiros viajam mais.

Airton – O brasileiro está viajando mais, e isso é ótimo, maravilhoso. O que a viagem traz de mais importante para a gente é que ela nos coloca em contato com o diferente. E, à medida que nós vamos viajando, vamos constatando que o contato com o diferente é a maior arma contra o preconceito. Vemos que somos apenas um detalhe em todo o mosaico humano e cultural que há no planeta, e vamos nos dando conta de que somos um pedacinho só, e não o pior, nem o melhor. A gente vai aprendendo a respeitar a cultura alheia. Então, o grande resultado das viagens é nos colocar em contato com as diferenças. E eu digo que de melhor que a humanidade tem é a diversidade. O direito que cada pessoa tem de ser única, que cada cultura tem de ser única, que cada povo tem de ser único, isso é o que de mais importante temos. E aí a gente consegue ter uma visão holística, do mundo, da vida. Bom, o brasileiro está viajando cada vez mais, agora falta um segundo estágio que é o de aprender a viajar. Não se viaja em busca do que tem aqui. Por que a gente viaja? A gente viaja em busca daquilo que só tem naquele lugar. E eu venho martelando muito nisso, quero ajudar as pessoas a viajarem, quero colocar toda essa minha experiência à serviço das pessoas.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Do ponto de vista da cultura popular, a Índia é o país mais rico, porque é a cultura popular mais diversificada que tem no mundo. Porque ela é muito consequência da religião e o politeísmo indiano é extremamente fragmentado. O Tibete é o país mais interessante do mundo porque lá as coisas são únicas. O que tem no Tibete, tu só vais encontrar lá.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Na Europa, vi um brasileiro reclamando que no centro de Praga não tinha shopping center…

Airton – É um absurdo, a gente viaja em busca daquilo que só tem naquele lugar. Por isso é que, das viagens que eu fiz, a mais interessante foi a do Tibete. Lá é tudo diferente do que temos aqui. A noção que eles tem do tempo, tudo. Eu conversando com um tibetano falei: “Pô, no Tibete né, vocês aqui, tá certo que é um país de monges, mas a China vem há mais de 60 anos oprimindo vocês, vocês precisam se libertar”. E ele respondeu: “Não tem problema, vamos nos libertar da China. É uma questão de tempo, pode levar 1000 anos, 2000 anos, vamos nos libertar”. O tempo para eles é diferente dessa pressa que a gente tem aqui no Ocidente. Uma vez eu disse uma frase que meus amigos gostaram muito, eu disse que nada é mais velho que o jornal de ontem. Mas, poxa, ontem recém aconteceu!

Sul21 – Então quer dizer que, na tua opinião, a Índia é o lugar mais interessante, e o que tu mais gostaste é o Tibete?

Airton – Do ponto de vista da cultura popular, a Índia é o país mais rico, porque é a cultura popular mais diversificada que tem no mundo. Porque ela é muito consequência da religião e o politeísmo indiano é extremamente fragmentado. O Tibete é o país mais interessante do mundo porque lá as coisas são únicas. O que tem no Tibete, tu só vais encontrar lá, essa é a frase. Por exemplo, a Tanzânia é o país mais interessante do mundo para admirar a natureza selvagem. Tu vais de jipe pelo país e um terço da Tanzânia são parques naturais. Eles se deram conta que a melhor maneira de ganhar dinheiro é preservar a natureza, principalmente a fauna que eles tem lá. Então tu vais andando de jipe e precisa parar para passarem os elefantes, as girafas que vivem ali. Depois de dois minutos, leões. E o país mais interessante do mundo do ponto da geografia, digamos assim, é o Nepal. A fronteira sul do Nepal está na margem do Ganges, a nível do mar e a fronteira norte é a cordilheira do Himalaia, que tem o Everest, o ponto mais alto do mundo. Então, em uma caminhada, como daqui até Torres tu encontras toda a topografia do mundo e todo o clima.

Sul21 – E depois foste para a Amazônia?

Airton – Foi uma experiência maravilhosa. A viagem para a Amazônia foi também única. Eu não tinha nunca a informação se poderia continuar daquela aldeia em que eu estava para outra. Minha pauta de aventura era cruzar a América do Sul, do Pacífico ao Atlântico, por dentro da selva amazônica. Sair de Lima no Peru e chegar em Belém do Pará. Fui buscar informações e não consegui ninguém que me dissessem “vai que dá”. Foi um voo cego, eu fui indo, de aldeia indígena em aldeia indígena, de uma cidadezinha ribeirinha à outra, de um povoadozinho à outro, e sempre de barco, às vezes nos barcos de linha que eles têm, que eu achei maravilhosos. Eles têm barcos de linha, que são barcos que fazem sempre a mesma viagem levando carga e os passageiros. Usei até as pirogas, aquelas canoas estreitinhas e compridas que é pra ter velocidade. Fui indo, indo, e cheguei no Atlântico assim. Então esse livro foi fantástico porque eu nunca sabia se no dia seguinte eu ia poder continuar. Percorri toda a Amazônia brasileira, uma coisa extraordinária.

Sul21 – E há o calor. Manaus é uma cidade complicada.

Airton – O pior de Manaus é o vapor, porque o calor seco não tem problema, já peguei 55ºC no deserto do Saara e foi tranquilo. Mas o vapor… Por isso muita gente chega na Índia e volta, não aguenta. Eu encontrei uma tribo no interior da Amazônia peruana, perto de Iquitos, uma cidade de 400 mil habitantes, que a estrada mais próxima está há mil km de distância. O acesso é todo por rio, e é uma cidade grande. Lá a tradição é que a índia, quando casa, passa a primeira noite ela passa com o cacique. Só na segunda noite é que ela vai para o marido. Isso é uma tradição medieval europeia, tu deves ter assistido, o filme Coração Valente… E eu encontrei isso lá na Amazônia. É uma coisa que as pessoas não sabem porque não vão lá. Eu dei uma palestra na Universidade Federal de Manaus e brinquei “Pô, tem que trazer um gaúcho pra falar da Amazônia pra vocês”. E aí eles me disseram que a maioria dos livros sobre a Amazônia foram escritos por autores que copiaram de outros livros, que não foram na floresta. Tem muito disso hoje né, as pessoas fazem estudos sobre a Amazônia a partir da informação bibliográfica e reproduz algo que já se sabe. E, se alguém escreveu alguma coisa errada, o erro se perpetua.

Sul21 – Depois teve o Egito…

Airton – Depois teve o Egito, que foi uma viagem fantástica também, porque eu cruzei o deserto do Saara de forma clandestina. Primeiro de jipe, depois com uma caravana de camelos. Eu saí da fronteira do Egito com a Líbia e cruzei parte do deserto num jipe preparado para andar na areia. Depois não tinha como o jipe avançar e aí me juntei a uma caravana de camelos. Nessa viagem, o Beto Scliar, filho do Moacyr Scliar, me acompanhou como fotógrafo. Ele se formou em fotografia em uma universidade de Nova Iorque, e aí o Moacyr me ligoue disse: “Ortiz, na próxima viagem que tu fores, leva o Beto. Pra ele aprender um pouco de experiência de vida, ele é um filho super protegido de mãe judia, vê se ele aprende a fotografar na vida real mesmo”. Quando nós chegamos num oásis já assim há 50 km de Luxor, fomos interceptados e presos pelo exército egípcio porque não tínhamos autorização para realizar aquela travessia. Então eu fiz como sempre faço, eu vou até que alguém me prenda. Aí prenderam a mim, ao Beto e a um mexicano que estava conosco. Colocaram-nos em um trem e nos expulsaram do Egito. Na primeira parada do trem nós pulamos, contratamos um barquinho, uma espécie de canoa com uma vela que desce o Nilo. E descemos clandestinos pelo Rio Nilo durante quatro dias até chegar em Luxor, onde eu queria chegar. Tudo isso sem poder atracar nas margens porque numa delas o exército nos pegaria e, na outra, os terroristas nos pegariam porque é uma área onde os muçulmanos fundamentalistas usam como base operacional, nem o exército vai lá. Então precisávamos ficar no meio. O rio corre do continente para o mediterrâneo, e o vento sopra do mediterrâneo para o continente, então quando a velocidade da água é a mesma do vento, a gente fica parado. Um dia ficamos dez horas parados! Foi demais, uma viagem maravilhosa! Mas cheguei a Luxor, que era o objetivo da viagem.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“Porque essa história que a gente se originou do macaco, é uma grande bobagem. O macaco se originou do humano, o chipanzé que está no zoológico, no circo, que a gente acha bonitinho, e que pra nós é o macaco, ele é uma ramificação nossa.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Depois foste na Trilha da Humanidade, que é saída da África pela Ásia, Alasca até chegar na América, a travessia do homem…?

Airton – É, é uma volta ao mundo mesmo. Eu me propus a reconstituir a história da espécie humana desde o momento em que nós surgimos como uma espécie separada dos demais primatas, até chegar aqui no Brasil. Hoje, quando chamam um humano de macaco, estão ofendendo o macaco, e não o humano. Porque essa história que a gente se originou do macaco, é uma grande bobagem. O macaco se originou do humano, o chipanzé que está no zoológico, no circo, que a gente acha bonitinho, e que pra nós é o macaco, ele é uma ramificação nossa. O que se diz e que as pessoas não entendem muito bem, é que havia grandes primatas, e esses primatas se subdividiram em diversas espécies, e uma das espécies em que eles se subdividiram gerou os humanos, e outras espécies geraram os grandes símios. E essa espécie que gerou os humanos foi se bifurcando, uma dessas bifurcações gerou o chimpanzé. Então o que o cientista considera humano… Eu fui de sítio arqueológico em sítio arqueológico, sempre com datação mais recente, seguindo essa expansão deles pelo mundo. Quando estes bípedes chegaram ao Oriente Médio, onde hoje fica Israel, uns migraram para a Europa e outros migraram para a Ásia atrás das grandes manadas de mamutes. A expansão humana pelo mundo se deu sempre atrás de comida. Chegando ao Oriente Médio, eu segui essa trilha deixada pelos caras que cruzaram toda a Ásia e entraram nas Américas pelo Estreito de Bering. Porque quando eles entraram no Estreito de Bering, nós estávamos vivendo uma era glacial e o Estreito era uma planície seca. Isso tudo hoje não é novidade. E eu fiz esse roteiro. Entrei depois pelo Alasca, segui o Canadá, América Central até chegar num lugar na Amazônia, numa gruta, no interior do Pará, onde estão as pinturas rupestres mais antigas da América do Sul, de 11 mil anos atrás. E dali desci até o interior de Minas Gerais, onde foi encontrado o fóssil mais antigo das Américas. Quanto mais para baixo, mais recente, então esse fóssil é de 10 mil anos, de uma mulher que morou lá, a mais antiga brasileira de que se sabe. E uma coisa notável é que a História do Brasil para nós começa há 500 anos, quando há 10 mil anos isso aqui já era povoado.

Sul21 – Esse livro é um dos mais vendidos de tua autoria?

Airton – É, um dos mais vendidos. Na verdade, os dois mais vendidos são o do Tibete e o da Índia. Por causa dessa questão do misticismo todo. Mas é o meu livro mais importante. É a reportagem mais importante que eu já fiz na vida. A origem dele foi uma série de dez reportagens para a Zero Hora, para o caderno Eureka.

Sul21 – Isso foi em que ano?

Airton – Foi no ano anterior ao ano em que foi publicado o livro, em 2006. Era um sufoco mandar as matérias. Uma história que a gente que é jornalista gosta…: eu estava em Adis-Abeba, na Etiópia, e tinha que mandar uma matéria. Aí fui na Lan House e o cara disse que estava fora do ar. Isso era 10h da manhã; às 11h voltei, estava fora do ar ainda; voltei às 13h e estava fora do ar ainda. Aí eu perguntei se tinha previsão para voltar, e ele o cara me respondeu que “não, está fora do ar há três meses, e não tem previsão de volta porque o governo não pagou o aluguel do satélite”. Aí eu descobri perto da cidade um hotel da rede Sheraton, uma picaretagem muito grande. Eles constróem um hotel na África, cercam o hotel, abrem um campo de aviação lá dentro, pegam os animais doentes, feridos e colocam um zoológico lá dentro para cuidar deles. Aí os aviões da Europa e dos Estados Unidos descem lá dentro do cercadinho do hotel e os caras veem os bichos na jaula… O staff é europeu, a língua é o inglês, a comida é europeia, e os caras voltam dizendo que conheceram a África selvagem. Ali usam cartão de crédito, usam internet, etc. Aí eu fui lá e usei o satélite do Sheraton de Adis-Abeba para mandar a matéria para a Zero Hora. Aí fui finalista do premio Esso de jornalismo. O maior requisito para ganhar o Esso é o grau de dificuldade que o repórter tem para conseguir fazer a matéria. E o Marcelo Rech, que naquela época era o diretor de redação da Zero Hora, foi pro Rio e disse “Ortiz, vamos buscar o premio, porque eu conheço o Esso, já fui jurado e nunca na história do Esso algum repórter teve a dificuldade que tu tivesses para fazer essa série”. Chegamos lá e quem ganhou? Uma matéria do O Globo, sobre a despoluição da Bahia da Guanabara, que o cara fez sem sair da redação. Aí, dizem que nós somos bairristas! O juri e o premiado era amigos. Ainda ontem me perguntaram se eu dou importância para prêmios, mas entre ter prêmios e ter leitores, eu digo que prefiro ter leitores. Porque os leitores pelo menos eu sei que leem os livros, o os caras que julgam os prêmios eu não tenho certeza que eles os leem.

Sul21 – Depois tu foste para o mundo maia?

Airton – Sim, eu percorri toda a América Central visitando as ruínas das cidades maias. Eles têm uma história enigmática. Eles se extinguiram 500 anos antes dos europeus chegarem nas Américas. O auge da civilização maia foi do ano 800 ao ano 1000, por aí. No ano 1100, 1200, eles se extinguiram e ninguém sabe por quê. É um grande mistério, e eu fui em busca desse mistério. E o que eu me dei conta lá, como repórter, é que as cidades maias eram nos vales e foram crescendo muito, e foram ocupando o espaço das lavouras, e eles foram colocando a lavoura das encostas dos vales, e para isso desmataram. É claro que revisei as principais teorias da extinção do povo maia. É uma história longa, mas eu não tenho dúvidas de que a extinção da civilização maia tem muito a ver, se não tudo a ver, com o desmatamento. As cidades maias eram que nem as cidades gregas, cada cidade era um estado independente. E uma coisa curiosa, é que uma cidade maia nunca conseguiu conquistar outra cidade maia, porque eles não conseguiam suprir o exército até lá. Porque tinham que todos os dias levar comida, não tinham como ir acumulando comida. Então todo exército de cada cidade maia tinha um raio até onde ele podia ir, que era até onde os carregadores podiam levar comida durante um dia, a partir dali, os exércitos não podiam avançar. Por isso os maias nunca formaram impérios, diferentemente dos incas, que formaram impérios, porque os incas viviam da batata, e a batata dá em qualquer encosta de montanha.

Sul21 – E quantas línguas tu falas? Porque não se fala inglês e espanhol em todo lugar…

Airton – Não tem outro jeito, tu tens que falar um pouco da língua local. Não é difícil saber um pouco do vocabulário de cada língua. Tem uma listinha com mais ou menos trezentas palavras. Em toda essa nossa conversa aqui, nós não usamos mais de trezentas palavras. Então se tu souberes as palavras chaves de qualquer língua, um vocabulário básico, tu consegues te comunicar com as pessoas. Então cada lugar que eu vou, antes eu estudo um pouco o vocabulário. Só de chegar nestes lugares, a simples presença de um estrangeiro em uma pequena comunidade do interior já é uma agressão. Então, a primeira coisa que tu tens que fazer é romper esta barreira que eles impõem. E a melhor forma é falar algumas palavras na língua deles.

Sul21 — E o Vietname?

Airton – O Vietnã Pós-Guerra! Eu percorri todo o Vietnã, os locais onde existiam as bases americanas, onde existiam as bases vietnamitas, os locais onde se deram as grandes batalhas, percorri os túneis que os vietcongs usavam na guerra. E esse livro tem um propósito: o de recontar a história do Vietnã do ponto de vista vietnamita. Uma pauta que até então ninguém tinha tocado. E quando eu cheguei no Vietnã, a primeira coisa que eu descobri, foi que o que nós chamamos de Guerra do Vietnã, eles chamam de Guerra Americana. Até o nome da guerra muda dependendo do lado que a conta. Nesse livro, eu reconstituo a guerra sob o ponto de vista vietnamita e vou avançando em como é o país hoje, em resultado dessa guerra. Ainda hoje, há regiões inteiras no Vietnã que tu não podes ir porque ainda estão minadas. Todo ano ainda morre uma quantidade enorme de vietnamitas vitima das minas que ainda não explodiram. Sem contar que os americanos jogaram no Vietnã mais bombas do que as que foram utilizadas durante toda a segunda guerra mundial! Todo o lençol freático vietnamita foi contaminado pelas bombas americanas. E as bombas americanas era napalms e aquelas bombas de fósforos que incendiavam. Porque os vietcongs eram guerrilheiros, não tinham um exército convencional, então eles ficavam nas margens dos rios e nas florestas e dali eles atacavam os comboios americanos que desciam os rios. Em resposta, os americanos pegaram o agente laranja e largaram nas margens dos rios para acabar com as florestas, eles desmataram as margens através do agente laranja, desmataram todas as florestas nas margens dos grandes rios vietnamitas. E é óbvio que esse agente químico desceu pro rio e contaminou todo o lençol freático do país. Morreu mais gente no pós-guerra, vítima da contaminação do solo e do rio, do que na guerra propriamente dita. O país hoje não tem vacas nem bois porque o pasto é contaminado. Eles importam leite, importam tudo. E o mais lamentável de tudo é que hoje as empresas mais poluidoras do mundo, que não conseguem licenças em seus países, vão se instalando no Vietnã. Porque o povo vietnamita é tão pobre que, para eles, entre morrer de fome e deixar contaminar o solo, preferem deixar contaminar o solo. E essas empresas poluidoras usam esse artificio sob o pretexto de gerarem empregos, ou seja, de tirarem as pessoas da fome absoluta. O povo fica refém dos empregos. Eu não condeno o cara que se deixa corromper para não morrer de fome. Ele é vítima, o culpado é o corruptor.

Sul21 – E o Zaffari, teu mecenas, o que ganha contigo?

Airton – Ele ganha agradecimentos nos livros e citações minhas. Sempre falo neles em palestras, entrevistas. O que eles ganham é a associação de sua marca a coisas culturais e interessantes. O marketing do Zaffari sempre foi em cima da cultura. Por isso é que eles têm essa imagem tão querida pelo publico gaúcho. Eles investem é para manter uma boa imagem. Eu tenho uma empresa que faz uma clipagem pra mim. Tudo o que sai durante o ano, em TV, rádio, jornal, no final do ano eu levo lá no Zaffari. E junto vai o cálculo daquilo se eles tivessem que pagar.

Sul21 — E a série sobre cidades?

Airton — Em 2010, eu comecei uma série nova. Não eram mais reportagens sobre grandes travessias, mas crônicas sobre cidades. Em 2010 eu lancei sobre Havana; em 2011, Jerusalém; em 2012, eu lancei o Gringo, que é ficção; em 2013, eu lancei o Atenas, e, agora, neste ano, o Paris. Essa coleção é sobre cidades. São crônicas, não é mais reportagem. Então mudaram a pauta e a linguagem.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
“E aqui em Porto Alegre não tem. Nenhuma placa de onde morou o Erico Verissimo, onde morou o Lupicínio. Tu vais em Havana, cada prédio tem a placa do cara que morou ali. E aí quando eu disse que Porto Alegre tinha que se inspirar em Havana pra atrair turismo, quase deram em mim!” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Sul21 – Um dia vai ter Londres?

Airton – Sim, sim. Vai ter Londres, Nova Iorque, Amsterdam. Tu gostas de música, deixa eu te contar uma… Em Havana, a Catedral se mantém catedral, mas as demais igrejas, que são todas da época colonial, lindíssimas, elas se transformaram em salas de concertos. Então tem uma igreja belíssima que é a sede do coral de Havana. E eu fui lá assistir, e foi uma coisa belíssima. Chegaram os trabalhadores do coral, cada um com a sua roupa, não tinham uniforme nem nada, parecia um bando de colegiais se reunindo para cantar uma musiquinha. Aí começam a cantar, que coisa fantástica! Tem outra igreja colonial, que é a sede da orquestra especializada em música medieval. E o balé de Havana é um dos melhores do mundo.

Sul21 — E a distribuição dos livros? Mudaste de editora.

Airton – Os meus primeiros quatorze livros foram publicados pela editora Record, do Rio. Em janeiro do ano passado, a Marisa Moura, que é minha agente literária, me ligou dizendo que o pessoal da Benvirá queria conversar comigo. Bom, resumindo: o grupo Saraiva resolveu criar um selo de literatura brasileira, chamado Benvirá, e contrataram para editar esse selo o cara que era o editor da Planeta, o Rogério Alves. E ele me convidou. Hoje, eu resolvi o problema da distribuição. Como a Benvirá é um selo da Saraiva, que tem 110 megalojas no Brasil inteiro, as vendas aumentaram. Apesar da Record ser a maior editora brasileira, ela ainda precisava vender para as livrarias. Agora o livro já sai, digamos, da livraria. Mas vamos falar de viagens! (risadas) Então, em Paris… Eu fiquei um tempo num albergue lá, para ter contato com o pessoal que fica em albergue, que são as pessoas mais bem informadas sobre qualquer lugar. Os mochileiros são os caras mais bem informados em qualquer lugar, tanto em Paris quanto no Himalaia, porque viajam em busca de conhecimento, aquilo que vai além do que os guias de turismo oferecem. E fiquei um tempo ali, também, porque eu queria realizar um sonho comum a vários escritores, que é o de escrever um livro, ou pelo menos começá-lo, morando numa marsarda em Paris. E o albergue tinha no último andar, na mansarda, um quartinho. E o livro Paris, eu comecei a escrevê-lo lá. E a frente da mansarda dava para, nada mais nada menos, o Le Petit e o Le Trianon. Bem, dali eu fui para um hotel, porque queria também ficar um tempo em Paris como os turistas ficam. E depois aluguei um apartamento, me estabeleci, e pensei: “bom, agora eu vou morar aqui como um parisiense”.

Sul21 – É, mas não adianta, gosto mais de Londres.

Airton – E eu de Nova Iorque. A minha paixão sempre foi Nova Iorque. Depois de Porto Alegre, é a cidade que eu mais conheço. Bem, falando a verdade… Agora estou balançando entre NY e Paris. Porque Paris, tem muito de nossas raízes. Os escritores e os pintores que admiramos, etc.

Sul21 – E é tudo fácil de encontrar, né? Porque eles colocam as plaquinhas nos edifícios. Aqui morou tal escritor…

Airton – Sim! E aqui em Porto Alegre não tem. Nenhuma placa de onde morou o Erico Verissimo, onde morou o Lupicínio. Tu vais em Havana, cada prédio tem a placa do cara que morou ali. E aí quando eu disse que Porto Alegre tinha que se inspirar em Havana pra atrair turismo, quase deram em mim! “Como em Havana? Em Fidel Castro, na ditadura comunista! Quer dizer que a gente tem que se inspirar em uma ditadura comunista?” Eu não disse isso… Tô falando pra colocar placas! Se eu digo Paris, tudo bem; mas se eu digo Havana… Havana não! É mais pobre e de esquerda do que Porto Alegre… E lá tem, aqui não.

Foi num 16 de setembro que o tenente Bianchi reconheceu Víctor Jara

Uma morte de violência inaudita no Estádio Chile

Publicado em 16 de setembro de 2012 no Sul21

É muito difícil encontrar um adjetivo para qualificar a morte de Víctor Jara. Hedionda, aterradora, as palavras parecem fracas quando comparadas aos fatos. Sua morte foi de inverossímil maldade. Uma das formas de se descaracterizar um tópico é recorrer à hipérbole, que é a intensificação do mesmo até o inconcebível, até o paroxismo. Pois a morte de Jara confronta este conceito tão caro aos lógicos. O inconcebível exagero do fato não o descaracteriza, apenas o intensifica.

Na manhã de 12 de setembro de 1973, Jara foi detido, juntamente com milhares de chilenos. No dia 16 de setembro de 1973, cinco dias após o golpe militar, ele encontrava-se preso no Estádio Chile, atual Estádio Víctor Jara (não confundir com o Estádio Nacional do Chile, onde também havia presos). Trata-se de um ginásio multi-esportivo. Mas passemos a palavra ao jornalista brasileiro Paulo Cannabrava Filho, autor de No Olho do Furacão:

Aspecto exterior do atual Estádio Víctor Jara | Foto: Mono González

Em um dado momento, Víctor desceu para a plateia e se aproximou de uma das portas por onde entravam os detidos. Ali topou – cara a cara – com o comandante do campo de prisioneiros que o olhou fixamente e fez o gesto mímico de quem toca um violão. Víctor assentiu com a cabeça, sorrindo com tristeza e ingenuidade. O militar sorriu, contente com sua descoberta. Levaram Víctor até à mesa e ordenaram que pusesse suas mãos em cima dela. Rapidamente surgiu um facão. Com um só golpe, cortaram seus dedos da mão esquerda e, com outro, os da mão direita. Os dedos cairam no chão de madeira, enquanto o corpo de Víctor se movia pesadamente. Depois choveram sobre ele golpes, pontapés e os gritos: ‘canta agora… canta…’ (…) De improviso, Víctor se levantou trabalhosamente e, com o olhar perdido, dirigiu-se às galerias do estádio… fez-se um silêncio profundo. E então gritou:

— Vamos lá, companheiros, vamos fazer a vontade do senhor comandante.

Firmou-se por alguns instantes e depois, levantando suas mãos ensanguentadas, começou a cantar o hino da Unidade Popular (Coligação de partidos de esquerda que apoiavam o governo de Allende), a que todos fizeram coro. Aquele espetáculo era demasiado para os militares. Soou uma rajada e o corpo de Víctor começou a se dobrar para a frente, como se fizesse uma longa e lenta reverência a seus companheiros. Depois caiu de lado e ficou ali estendido.

 

O tenente Edwin Dimter Bianchi, também conhecido como “O Príncipe” | Foto: Grupo Funa

O responsável pela identificação e morte de Jara foi o tenente Edwin Dimter Bianchi. A exumação do corpo de Jara, realizada em junho de 2009, não confirmou o corte dos dedos — o texto de Cannabrava é anterior ao fato. Na verdade, ele provavelmente teve suas mãos esmagadas por coronhadas dos soldados. Havia múltiplas fraturas nos punhos e mãos, além do corpo perfurado por 44 balas. Múltiplos relatos confirmam a veracidade do restante dos acontecimentos. Ele, de forma desafiadora, efetivamente cantou parte do hino da Unidade Popular até o momento dos tiros. Só em 1990, o Estado chileno, através da Comissão da Verdade e da Reconciliação, reconheceu que Víctor Jara foi assassinado a tiros no dia 16 de setembro de 1973 no Estádio Chile e depois teve seu corpo lançado num matagal. Identificado pela esposa. Seus restos foram enterrados no Cemitério Geral de Santiago do Chile.

O homem

Víctor Jara era cantor popular, compositor, educador, diretor de teatro, poeta e ativista político. Ele fazia parte do movimento Nueva Canción Chilena que tinha em Jara e Violeta Parra (1917-1967) seus principais intérpretes. A Nueva Canción ganhou enorme popularidade durante o governo da Unidade Popular — governo de Salvador Allende — , que foi ativamente apoiado por Jara.

Jara em foto tirada para a contracapa de um de seus discos | Foto: Divulgação

Víctor nasceu em 1932 e foi o primeiro filho dos camponeses Manuel Jara e Amanda Martínez. O pai era analfabeto e não queria que seus filhos estudassem. Alcoólatra, acabou por abandonar a família. Amanda criou Víctor e seus quatro irmãos sozinha, insistindo que todos eles estudassem. Amanda — uma mestiça com raízes mapuche, vinda do sul do país — não era analfabeta. Era uma autodidata em música, tocava violão, piano e cantava em casamentos e funerais. Ela conseguiu progredir da economicamente, de modo a manter a família com dignidade, mas como não ficava muito tempo em casa, deixava o violão disponível para o pequeno Víctor e seu amigo e parceiro Omar Pulgar. Em 1950, Amanda mãe morreu repentinamente. Ato contínuo, Víctor Jara entrou para um seminário.

Foi uma decisão muito importante entrar para o seminário. Quando penso agora, acho que fiz aquilo por razões íntimas e emocionais, pela solidão e o desespero com um mundo que até aquele momento tinha sido sólido, simbolizado por um lar e o amor da minha mãe. Eu já estava envolvido com a Igreja, e, naquela altura, procurei refúgio nela. Então pensava que esse refúgio iria guiar-me até outros valores e ajudar-me a encontrar um amor diferente e mais profundo, que porventura compensasse a ausência do amor humano. Julgava que talvez achasse esse amor na religião, dedicando-me ao sacerdócio.

Te recuerdo Amanda, canção de Víctor Jara dedicada a seus pais:

Dois anos mais tarde, em 1952, abandonaria o seminário, mas lembraria positivamente do canto gregoriano e da liturgia. Ingressou na universidade, onde estudou atuação e direção de teatro. Sua biografia indica hesitações entre a música e o teatro até 1957. Ele pensava que tinha que optar por uma das carreiras, quando Violeta Parra o convenceu a manter paralelamente ambas as carreiras. Pelas excursões e tempo das temporadas, pode-se dizer que as peças de teatro que dirigia não eram nada insatisfatórias. Em 1959, excursionou pela América espanhola com Parecido a la Felicidad de Alejandro Sieveking. No mesmo ano, gravou seu primeiro disco de música folclórica, Dos Villancicos. E seguiu as duas carreiras, apesar de que a música foi pouco a pouco tomando mais seu tempo, assim como a política. Até a vitória da Unidade Popular, em 1970, foram cinco LPs e, até 1973, mais três. Depois disso foram muitos os discos ao vivo e as edições póstumas.

Victor Jara: música e poesia revolucionária latino-americana. Herói da resistência à ditadura militar no Chile

Sua atuação política durante o governo Allende teria justificado o ódio do tenente Bianchi. Era uma época em que poucos artistas eram indiferentes à política. Thomas Mann dizia que “Só a indiferença é livre. O que tem caráter distintivo nunca é livre; traz a marca do próprio selo; é condicionado e comprometido”. No início dos anos 70, ser “indiferente” ou “alienado” era falha grave. Jara nunca chegou perto de ser um apolítico. Foi nomeado embaixador cultural do Governo da Unidade Popular, viajou à Cuba e à União Soviética, participou de muitos atos durante as eleições de 1973, dirigiu a homenagem a Pablo Neruda — membro do Partido Comunista Chileno — quando da obtenção do Prêmio Nobel. Ou seja, naquele 16 de setembro, Bianchi viu um artista perfeitamente identificado com o governo que caíra.

Primeiro volume de uma coleção da Caratula Discos dedicada a Nueva Canción Chilena

A Nova Canção Chilena

A Nova Canção Chilena foi um movimento mais amplo do que seu nome sugere, pois não se tratava apenas de uma questão de abrangência musical. A intenção era a de recuperar e traduzir as raízes culturais do Chile e dos povos originários da América Latina. Apesar de ter a música folclórica como carro-chefe, a Nueva Canción abarcava também o teatro, a dança, as artes plásticas e tudo o que fosse cultura.

Grupos universitários passaram a estudar as manifestações da cultura popular chilena e andina. Como consequência, sugiram grupos como o Quilapayun, do qual Jara foi diretor artístico, e o Inti-Illimani. Víctor Jara divulgava o canto mapuche, o canto quéchua, o canto aymará,  e a fronteira entra a política e as artes foram extintas, tanto que a Juventude Comunista financiava gravações de discos e espetáculos dos artistas do movimento. A Nova Canção Chilena, que começou com os artistas e cresceu nas universidades, foi a trilha sonora da revolução, sendo adotada pelos trabalhadores.

Desde o início do século XX, os artistas chilenos imiscuíram-se na política, é uma tradição do país exprimir o político através da cultura. Dentro desta tradição, o trabalho de Víctor Jara foi exemplar: sua obra sempre emergiu da própria vida, fator que a faz universal e que, neste caso específico, uma das maiores representantes das vítimas da ditadura.

El Cigarrito, de Víctor Jara:

Edwin Bianchi durante a Funa | Foto: Grupo Funa

A funa

Funa (do mapudungun Funa, que significa podre, ou Funan, podridão) é o nome dado no Chile a uma manifestação de repúdio público contra uma pessoa ou grupo. Normalmente é utilizado em protestos contra os participantes de atos de violações dos direitos humanos durante o regime militar, e geralmente ocorre na casa ou no local de trabalho dos autores. É nosso “esculacho”, talvez se pudesse dizer.

Edwin Dimter Bianchi, também conhecido como “El Príncipe”, tenente do exército chileno em 1973, trabalhava impune e tranquilamente no Ministério do Trabalho do Chile em 2007, no governo de Bachelet. La Funa foi até lá e o surpreendeu. Ele foi demitido e hoje responde a processo. Vale a pena assistir o pequeno filme abaixo. Inicia comicamente contrastando James Bond e a manifestação lá fora mas, a partir dos 3min20, fica muito sério.

Yoani Sánchez, a nova mensageira da liberdade, é um produto bem barato

Os protestos de ontem em Feira de Santana contra a ativista Yoani Sánchez foram certamente exagerados, assim como foi antidemocrático não terem deixado o cineasta Dado Galvão — membro do Instituto Millenium — mostrar seu filme. Tais atitudes dão motivos aos comentários que nós todos já estamos lendo e não devem receber elogios de nossa trincheira. É burrice pressionar a moça desta forma. Ela deve estar se sentindo uma tremenda celebridade e uma incomodação para quaisquer regimes-que-não-respeitam-a-liberdade, isto é, as esquerdas. Acho que um pouco de reflexão sobre a marionete cubana não fará mal a ninguém.

Yoani Sánchez é um produto barato e nada camuflado. Ela não nega receber dinheiro dos EUA, do El Pais, da CNN, da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e do Instituto Millenium, do Brasil, do qual é “especialista”. Do ponto de vista material, vive muito bem em Cuba. Apesar de ter tentado sair 20 vezes do país, estranhamente viveu na Suíça e voltou para onde era mais útil e lucrativa para todos os envolvidos. A moça está bem assessorada e agora que seu passe vale menos a partir das novas facilidades sair e entrar do país, promove — quem promove mesmo? — uma tournée mundial… É óbvio que a direita está amando a ideia do périplo de Yoani.

Disse que o produto é barato e é mesmo. Paga-se uma blogueira e recebe-se enorme repercussão. Estas são de todo gênero, algumas mais inteligentes, outras bem burras. O plano de construção de Yoani é velhinho e de inspiração soviética: basta pensar em Alexander Soljenítsin e Andrei Sakharov. A CIA deve ter pensado: se estes soviéticos nasceram e viveram dentro do país, recebendo toda a cobertura (e peninha) da imprensa ocidental durante a Guerra Fria, por que não criar uma dissidência controlada e paga por nós? Sim, porque nem sempre os modelos dos russos funcionaram direito. Soljenítsin, por exemplo, revelou-se foi um fiasco: imaginem que o homem foi expulso para o Ocidente e logo passou a propor um estado religioso na Rússia. Depois fez muito pior. Escreveu sobre o absoluto protagonismo dos judeus russos no Partido Comunista e na polícia secreta soviética, e acabou tachado de antissemita e desmoralizado nos EUA. Morreu no anonimato. Então, para se livrar de modelos incontroláveis, melhor pagar logo alguém que trabalha sob nossa orientação.

Agora que pode sair de Cuba, a tentativa é de que a moça se torne uma mensageira da liberdade. Talvez receba um Nobel da Paz. Ela é uma figura a favor de Cuba, não será de direita nem de esquerda — depois que o Muro caiu não fazem mais sentido a direita e a esquerda, certo? — e carregará um pensamento político perfeitamente rarefeito, sempre defendendo a democracia no estilo norte-americano.

Mas, sabem?, na verdade, Yoani não me interessa. A presença dela aqui se assemelha a uma visita do Papa. O pior é que se tornará uma autoridade. Vai opinar sobre tudo, um saco. Acho o tema e a Yoani muito chatos e apenas gostaria de saber qual terá sido o parceiro que criou sua atual tour mundial.

Pois, em vez de trazerem o David Bowie, trazem um troço desses…

Porra, um ferro de passar não faria falta a essa bandeira, hein? Acho que os amigos da Yoani esqueceram de pedir pra empregada fazer a mão.

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): III – Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes

Oh, mas quem é Pedro Rosa Mendes para estar numa lista de melhores livros? Bem, em primeiro lugar, o autor é um esplêndido escritor e jornalista português; em segundo lugar, minha lista não guarda ordem de precedência. Agora que já tomei esta medida profilática de me defender de meus sete leitores amantes dos grandes clássicos, vou tratar de explicar porque este livro é IMPRESSIONANTE.

Este livro é sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. (…) A razão para tal projeto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. As duas frases grifadas fazem parte da nota introdutória do livro. A que projeto refere-se Rosa Mendes? Em junho de 1997 ele chegou a Luanda, em Angola, às margens do Atlântico, com a ideia de atravessar a África até chegar a Quelimane, em Moçambique. No caminho, as sangrentíssimas guerras tribais e entre os países da região, minas por todo lado, além da pobreza absoluta, tanto material quanto moral. E fome. Para temperar um pouco mais a coisa, o autor descobre duas coisas em Luanda, uma boa e uma ruim. A boa: sua mulher lhe avisa que está grávida em Portugal, mas que ele terá o tempo necessário para a reportagem, pois seu rebento nascerá apenas dali a seis ou sete meses; a ruim: o prognóstico que recebe de todos com quem fala de seu plano: você não sobreviverá.

A voz do autor é serena e elegante. Não é uma história contada em ritmo frenético, o andamento é o do humanista que deseja ouvir e compreender todos os envolvidos. Estive na palestra de Rosa Mendes na Flip de 2005. Ele estava com Jon Lee Anderson — o americano falava sobre a Guerra do Iraque e o português sobre a Guerra de Angola — e Anderson fez uma pergunta curiosa ao português: Baía dos Tigres recebeu muitos prêmios destinados a livros de ficção, por quê? A resposta foi típica da pessoa modesta que pareceu ser Rosa Mendes. Ele deu muitas voltas até dizer que era em função da linguagem do livro. E, diante da insistência de Anderson, ele acabou deixando escapar: ora, é que acharam que era bem escrito e não devia misturar-se a textos jornalísticos. Anderson respondeu com a gargalhada de quem já sabia antecipadamente a resposta.

Para dar ideia do que é este livro — que reencontrei na semana passada numa estante da Siciliano –, vou resumir algumas das histórias. Como a do encontro com um técnico francês que estava no país para testar o efeito das minas. Umas explodiam assim, outras assado. Umas eram cedidas a um grupo e, puxa, matavam mesmo; então recebi outras e repassei ao lado contrário. Essas eram melhores, as pessoas ficavam efetivamente mutiladas, deixavam os caras bem feridos, davam um trabalhão às equipes. Querem mais? Que tal a história das famílias de angolanos que operam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois as costuram com alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem elas? Por falar em mutilações, que tais as que são feitas na genitália feminina das africanas? Mas o melhor do livro é a narrativa dos interesses envolvidos. Portugal, Estados Unidos, Cuba, Brasil (Petrobrás e Odebrecht), mais os de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc. Sobre tudo isso, a total falta de observadores internacionais.

É. Onde não há dinheiro, as “forças de paz” não aparecem e os direitos humanos não interessam. Não ocorre nem a venda da  “democracia salvadora” e de eleições livres. Um grande livro.

De Luanda (imagem recente retirada de um site angolano) ...
... a Quelimane.

Três horas a mais, duas a menos

Primeiro, uma viajou terça-feira para Roma. Agora, deixei os guris no aeroporto; vão para Havana trabalhar nas Brigadas Internacionais. Trabalhar… O trabalho é leve e depois ele vão ficar flanando como personagens de Flaubert (lembrança dos flâneur) pela capital e Matanzas.

A viagem de uma começou complicada. Antecipou sua passagem em um dia a fim de ver o Concerto (sim, com cê maiúsculo!) comemorativo aos 70 anos de Maurizio Pollini. Só que a Gol atrasou-se e ela perdeu a conexão da Alitalia em Guarulhos. De dentro do avião da Gol, viu o avião onde devia estar fechar suas portas. Passou um dia num hotel da periferia de São Paulo, pensando no grande pianista e no fato de ter comprado a peso de ouro o último ingresso disponível. Acaba de entrar no Facebook. Eram 10h50 e estava 1 grau em Roma. Boa temperatura para a rodada de exposições que pretende fazer: O’Keefe, Mondrian e McCurry. Que sofrimento. Ela vai numa reunião do PD, Partito Democratico, volta na terça, dia 24.

Meio atrapalhados e com excesso de coisas pessoais nas malas, em minha opinião, os guris foram para Cuba hoje pela manhã. Acordei às 5h para levá-los. A Bárbara (17) diz que não dormiu, o Bernardo (21) adormece fácil, mas foi ele quem me despertou para dizer que não achava o café. Vão doar um monte de coisas e espero que comprem bastante livros, pois em Cuba eles são quase dados. Também vão se surpreender pelo fato dos cubanos saberem muito sobre a história latino-americana do que 99% dos brasileiros. Quem vai ao país volta apaixonado pelos cubanos. Também vão a Isla de la Juventud, que dizem ser uma coisa de louco. Voltam dia 11 de fevereiro. Dilma chegará ao país no dia 31, se não me engano. É uma invasão.

Fico por aqui. Não sei se estou triste de ficar ou se estou cansado. Tenho trabalhado demais e com uns horários meio loucos. É da vida.

P.S. — Ah, a Lia, a vizinha, também viajou com seu filho para o Rio de Janeiro. Tô só com a Juno e a Vicentina. O título do post poderia ser Minha vida como caseiro.

Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar

Querida filha.

Quando li a relação de livros que vocês leem no primeiro ano do ensino médio me surpreendi com a qualidade da lista: O Continente, Édipo Rei, Lisístrata, Hamlet, A Morte de Ivan Ilitch, Um Jogador, A Metamorfose, O Estrangeiro, Levantem bem alto a cumeeira, carpinteiros, enfim, um show de bola que me deixa até satisfeito de pagar a fortuna que pagamos todos os meses. Menos mal. Mas, o que me assustou mesmo foi a presença de Todos os Fogos o Fogo. Entendi melhor quando soube que era um dos livros para leitura em aula. O outro é o maravilhoso Nove Histórias.

É que… sabe? É um livro que requer vivência para ser entendido. Não é difícil, mas quem de vocês descobriria, por exemplo, que o narrador asmático de Reunião é Ernesto Che Guevara? Sim, aquele homem bonito cujo pôster está no quarto do teu irmão.

Todos os fogos o fogo não parece um livro de contos destes que o escritor junta e o editor publica, parece mais uma antologia de contos perfeitos. Vale a pena ler, viu?

O livro abre com o esplêndido A autoestrada do sul. Trata-se da narrativa sobre um engarrafamento numa rodovia que vai dar em Paris. Sim, é semelhante ao retornos da praia que NÃO costumamos fazer por sermos mais sensatos que a maioria. Sim, todos os carros parados. Mas tu sabes, Bárbara, que os gregos inventaram uma coisa genial chamada “hipérbole” que é a intensificação de um fato até o inconcebível. É um tipo de superexagero até que o fato torne-se uma caricatura e passe a significar outra coisa. Bom, Bárbara, os caras passam um ano inteiro engarrafados na estrada. Paradinhos. É genial. Criam outras relações, outro comércio, outra vida, outras disputas, outras lutas, outra forma de sobrevivência. Quando os carros andam, a gente chega a ficar um pouco triste. É genial, já disse. É uma idéia simples que o autor leva ao paroxismo.

Bárbara, o japa Inagaki mata a pau em sua análise de A autoestrada do sul. Clica aqui. E em linguagem clara e lúcida.

Depois vem A saúde dos doentes. É outra farsa. Uma família quer evitar transmitir más notícias a uma mãe enferma que parece estar com vontade de sobreviver a todos. Não é nada grandioso, mas é muito interessante.

Reunião comemora os primeiros dias da guerrilha cubana. É arrepiante, só que é preciso ter algum conhecimento da história de Cuba e de Che para descobrir a que se refere. Sabes que eu tenho a mania de escrever nos livros. Antes de Reunião escrevi: Bárbara, provavelmente o conto a seguir seja incompreensível para ti. Peça para que eu te conte sobre a Revolução Cubana, seus tiros, serras e charutos. Ah, o narrador — médico e asmático — é Che Guevara. Recomendo também o filme “Diários de Motocicleta” e talvez o “Che” com o Benício del Toro que logo vai passar nos cinemas.

A homenagem que Cortázar faz à Cuba revolucionária, neste livro de 1966, é belíssima.

Em Senhorita Cora a coisa complica. É uma história delicada e sensível sobre um jovem doente, sua mãe e uma enfermeira um pouco mais madura e muito atraente. Cortázar trabalha com vários personagens narradores, às vezes dentro de um mesmo parágrafo. É necessária toda a atenção. Quando a gente pensa que um está contando, é outro. Nunca esqueça que o cara gosta de jogos e está se divertindo ao não dar caminhos óbvios para a compreensão de quem é quem. Mas, com algum esforço, entende-se tudo e, puxa, como vale a pena!

A ilha ao meio-dia começa a flertar com os contos finais do livro ao contar a história de uma obsessão meio boba que acaba em drama. É o primeiro conto onde a paixão tomará conta do personagem.

Instruções a John Howell. Mais um jogo, este bem misterioso e que ocorre durante uma peça de teatro. Uma tentativa de deixar Howell mais ou menos como a tua avó…, ou seja, Howell deverá demonstrar características de duas ou mais personalidades, cada uma com sua maneira de ver as coisas e interagir com as pessoas. Sim, complicado.

Façamos um negrito em Todos os fogos o fogo, pois trata-se de outra obra-prima. A expressão significaria algo como “todas as paixões acabam em destruição e morte”. Duas histórias de final trágico são contadas paralelamente. A princípio tudo é meio louco e uma não tem relação com a outra – até porque a primeira se passa no Império Romano e outra na Paris do século XX – mas as paixões descritas tem o mesmo final. O efeito causado pelo conto é inesquecível. Tu vais gostar desse, tenho certeza.

O outro céu é, em minha opinião, o melhor conto do livro. O personagem principal tem uma vida entediante, mas dissocia-se a cada momento em outro, que vive em misteriosas galerias entre prostitutas – é apaixonado por uma delas –, cafetões, assassinos e revoluções. A forma como Cortázar muda de um mundo para outro é sempre de arrebatador virtuosismo. (Pobre Irma que nunca saberá dos céus de gesso sob os quais vive Josiane…). Todas as experiências com duas vozes realizadas durante o livro tem neste conto melhores resultados ainda.

Bom, evitei contar DEMAIS as histórias para não estragar o livro, que é MUITO BOM. Agora, vai ler, vai!

Beijo do pai.