Enclausurado, de Ian McEwan

Enclausurado, de Ian McEwan

enclausurado-mcewanA ideia é insólita e tinha tudo para dar errado, acho. Mas do outro lado não estava um diretor de comédias norte-americanas e sim Ian McEwan. Bem, gente, o narrador de Enclausurado é um feto. Dentro do útero, ele aprende as coisas da vida ouvindo programas de rádio que sua mãe tanto aprecia. Ouvindo tais programas, que falam da política e da situação mundial, o feto teme por seu futuro. Além disso, degusta e tem opiniões acerca dos vinhos que ela ingere não obstante a gravidez. Sua mãe prefere o Borgonha, ele, o Sancerre. (McEwan afirmou que se trata de um feto alcoolista). E ali, dentro do útero de sua genitora, fica sabendo dos planos de Trudy, a mãe, para matar o pai em conluio com o amante que é irmão do pai, ou seja, seu tio.

Apesar de estarem sempre misturados ao desconforto e, às vezes, à burrice e ao descontrole, o livro tem momentos absolutamente hilariantes. Há alta e baixa comédia. O feto declara-se impotente para alterar tanto o destino da trama que vê ocorrer em torno de si, como da situação do mundo onde vai chegar, mas faz comentários acerca de tudo. Preocupa-se demais, inclusive em se esquivar das estocadas do pênis do tio, o insuportável Claude. Então, o romance tem uma base absolutamente fantasiosa, momentos de comédia e outros de grande realismo e sinceridade, guardando também pontos de contato com as tragédias shakespearianas, apesar da ambientação 100% contemporânea. O nome da mãe, Trudy, obviamente vem de Gertrudes, a Rainha da Dinamarca de Hamlet; enquanto que o nome do irmão do pai é Claude, um sujeito traidor, assassino e tolo. Lembram que o irmão de Hamlet chama-se Claudius?

O feto desaprova os planos, porém não consegue detestar a mãe e sua placenta saudável e alcoolizada. Neste livro, McEwan mantém as detalhadas descrições de seus melhores textos, mas revisita o espírito de suas primeiras obras que lhe valeram o apelido de Ian MacAbre (Ian Macabro).

Há um momento em que levantei e comecei a caminhar rindo. O marido inverte o discurso e Trudy fica enfurecida em razão de que o abandono deve ser uma decisão dela, não dele. Ela quer se separar, não ele… A raiva de Trudy é “vasta e profunda e é seu meio ambiente, sua personalidade”. Puxa, como eu conheço isso!

Enclausurado é uma pequena joia. De início tão inverossímil quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro ganha enorme força através da arte de um McEwan inspiradissimo como em Reparação e Amsterdam.

Recomendo fortemente!

Livro comprado na Bamboletras.

Ian McEwan
Ian McEwan

Valeu a pena ver Ian McEwan ontem no Araújo Vianna

Valeu a pena ver Ian McEwan ontem no Araújo Vianna

Ontem, fui assistir à palestra de Ian McEwan no Fronteiras do Pensamento. Foi uma boa palestra sobre seu projeto de literatura realista. O que me encantou é que foi uma fala de ficcionista, com as teses explicadas através de exemplos curiosos e engraçados. O resultado foi claro e elegante. McEwan não tentou dar soluções para o mundo, limitando-se ao campo da literatura, que já é suficientemente vasto. Muito tranquilo e pausado, de fala mansa, ele é um inglês que demonstra um surpreendente espírito italiano para se expressar. Mexe-se e usa os braços.

ian-mcewan

Falou sobre a importância dos detalhes. Relatou que, para escrever Sábado, passou dois anos seguindo um amigo neurocirurgião. Muitas vezes, acordava às 6h e dirigia-se para o hospital a fim de observar a rotina do cara. McEwan contou que um dia estava numa sala tomando notas, vestido com um jaleco, e foi abordado por duas residentes de neurocirurgia que queriam assistir ao procedimento e o confundiram com o médico. Para saber se já havia aprendido o suficiente, ele conversou com elas por cinco minutos como um especialista o faria. Quis saber em que nível elas estavam e explicou-lhes a cirurgia. Elas não notaram nada de estranho nele.

Também seguiu uma juíza especialista em direito de família para criar Fiona Maye, narradora de A Balada de Adam Henry, uma respeitada juíza do Tribunal Superior da Inglaterra.

E falou dos erros que tais detalhes podem causar. Seus personagens já viram estrelas que só eram possíveis de ver no hemisfério sul em julho. Estavam em Veneza. Também em Sábado, seu médico fala de características que não existem em seu carro, um certo modelo de Mercedez Benz. Contou a história de William Golding e de seu O Senhor das Moscas, onde o menino de óculos tinha um problema visual que era corrigido por um tipo de lente que não poderia concentrar os raios solares para fazer fogo, mas que no livro fazia. Falou das cartas de leitores que apontavam estes erros e que ele os corrigia todos nas novas edições, mas que Golding negava-se.

Defendeu o realismo e os detalhes usando o exemplo da primeira página de A Metamorfose. Há algo extraordinário acontecendo, mas aquilo só se torna crível quando Kafka cita as perninhas. Há o sensacional início: “Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Mas o final do parágrafo é que joga a “realidade” na cara do leitor: Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. Sim, o detalhe é que torna tudo crível.

Ao falar do humor, disse que não gostava das comic novels. Parece que o escritor está continuamente fazendo cócegas no leitor para que este ria. Ele prefere o humor que surge naturalmente, como consequência inevitável. Cria-se a situação humorística e a questão do quanto explorá-la.

Ao comentar seu último livro, Enclausurado, defendeu sua ideia de realismo:

— É biologicamente impossível que um feto narre histórias, mas considero que meu romance é realista, porque depois dos primeiros parágrafos, onde deixo claro o acordo que desejo estabelecer com o leitor, tudo o mais é escrito na tradição do realismo. Por exemplo, como a mãe bebe, o feto passa a fazer comentários avaliando a qualidade dos vinhos ingeridos e estabelece seus gostos como sommelier. E ouve um crime sendo preparado.

Também criticou acidamente Hollywood, dizendo que lá estão as piores pessoas. Como vários escritores, tentou enfiar à fórceps profundidade e inteligência em filmes para o grande público, mas disse que isto era muito raro e que foi vítima de uma traição em seu roteiro para O Anjo Malvado. “Em Hollywood, as pessoas são más como Maquiavel descreveu em O Príncipe. É como se tivéssemos penetrado na corte de César Bórgia”.

Bem, não vou resumir tudo. Vou apenas completar dizendo que a inabilidade do entrevistador Daniel Galera ia contra a boa qualidade do evento. Não é proibido ficar nervoso, mas é inaceitável não ouvir o palestrante. Galera conseguiu fazer perguntas amigáveis que sugeriam a negação daquilo que McEwan recém falara em sua palestra. Ou seja, devia estar tratando seu nervosismo ao invés de ouvir o inglês. Não tem o traquejo do entrevistador que leva mil perguntas pré-prontas e que evita aquelas que não contribuirão ou que farão a estrela repetir coisas. Galera é bom escritor e será complicado evitar tais eventos, mas tem de ser melhor orientado. Tulio Milman, mesmo desculpando-se por não ser um expert em literatura, foi muito mais interessante ao perguntar sobre o Nobel de Dylan, o Brexit, os filmes baseados em suas obras e sobre como despedir-se de um livro — esta talvez tenha sido uma pergunta da plateia.

Foi muito bom ver McEwan e comprar alguns volumes que faltavam, além de presentear a Bárbara com o esplêndido Na Praia. Também foi ver o Araújo Vianna quase lotado para ver um escritor, mesmo que nem todos saibam se comportar.