A história dos bares de esquerda de Porto Alegre: a Esquina Maldita (revisado)

A história dos bares de esquerda de Porto Alegre: a Esquina Maldita (revisado)

(Fanfarras. O programa começa. Adentra o palco um homem grisalho, não de todo acabado. É o Especialista. Ele senta ao lado do apresentador, que fala.)

— Nosso pogrom d`oje traz o Espesializta Milton Ribeiro para nos contar sobre a Esquina Maldita. Boa noite.

— Boa noite, é um praz…

— Claro que é um prazer! Milton, diga-nos: quais foram os bares que formaram a famosa Esquina das avenidas Osvaldo Aranha e Sarmento Leite?

— Ora, primeiro, em 1966, veio o Alaska, depois vieram o Estudantil, o Copa 70 e o Marius.

— Quanto tempo duraram?

— Sei lá. O que sei é que o Alaska fechou em 1985 e o Marius foi adiante.

— Quem ia ao Alaska?

— A militância d`esquerda.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton.

— Obrigado. Eu estava ligado.

— Bem, podemos continuar.

— O Alaska tinha um garçom que às vezes era acompanhado de um auxiliar meio idiota. O idiota sempre mudava, era de alta rotatividade. O garçom não era nada idiota, seu nome era Isake Plentis d`Oliveira.

(Fanfarras. Porém, o apresentador levanta-se e faz parar tudo.)

— Não, não valeu. Com nomes próprios não vale.

— OK, desculpe.

— Adiante!

— Então o garçom era Isake Plentis de Oliveira, conhecido por apenas por Isake. Quem ia lá era a intelectualidade da esquerda e muitas vezes éramos visitados pela polícia. Obviamente, o DOPS mantinha informantes lá.

— Sempre foi assim?

— Bem, nem sempre. No início era um bar em que as pessoas iam para conspirar ou falar de política, era também quase exclusivamente masculino. Depois, nos anos 70, as mulheres tomaram conta.

— Ninguém comia ninguém?

— É… pouco. Foi um bar de resistência à ditadura até a metade dos anos 70, depois virou o local da esquerda festiva. Derrubávamos o governo todas as noites.

— E o que você comia lá?

— Apesar do pessoal do teatro frequentar, não era um bar para conseguir mulher, a gente comia os pratos mesmo.

(O apresentador ri e aponta para o Especialista. Seu gesto denota quão irresistivelmente engraçado é ele.)

— Os pratos eram o Robertão, o Burguês, o Vietcong e se bebia trigo velho ou batidas de côco e maracujá. Tinha chope, mas eu não tomava chope lá.

— E os outros locais?

— O Estudantil era barato e bagaceiro. As pessoas morriam no Hospital São Francisco e os parentes iam lá se embebedar. Esses momentos eram tristes. Era também o bar dos lixeiros da madrugada. Eles paravam o caminhão e o Ataliba, o garçom, servia cerveja para eles. Esse pessoal não se misturava com os intelectuais do Alaska e vice-versa.

— E o que você comia lá?

— Mulheres, porque o bar tinha dois ambientes. O da frente, com mesas, e o de trás, que era escuro e destinado ao sexo. Do amasso ao coito, podia tudo. Com o tempo, deixei de ir porque eu não era suficientemente promíscuo.

— Trepava-se com estranhos?

— Quase sempre. E eu não queria, em hipótese alguma, colocar minhas namoradas na roda.

— Um machismo perfeitamente natural, compreeensível, adequado e correto. Mas e o Copa 70?

— Era um bar d`omossexuais!

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar mais uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton.

— Obrigado. Eu fiquei desligado por um tempo mas agora liguei de novo.

— Bem, podemos continuar.

— Era o bar onde a Nega Lu, que se chamava Luis Airton Bastos, fazia performances.

— Então, o que se comia lá?

— Bundas.

— Havia drogas?

— Eram disseminadas entre os bares. Mas o pessoal do Alaska não gostava daquilo. Elas alienavam.

— E o Marius?

— O Marius foi o último a abrir. Já era o tempo da decadência. A Universidade foi lá para o campus e o pessoal das drogas foi… foi… foi para… deixa eu fazer a frase… mais para o meio da Redenção.

— Hum, para que bar?

— O nome dele é… é. Bom, eles se tornaram o pessoal d`Ocidente.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Ele acaba de ganhar mais uma caixa de nosso patrocinador, os cigarros d`Arrabalde, o cigarro d`oômem! Parabéns, Milton. A terceira caixa, hein?

— Obrigado. Agora tô ligado, tô ligado.

— E então?

— O grosso das pessoas foi para o Ocidente e os saudosos da Esquina Maldita acabaram no Marius.

— Bem, como já entregamos três caixas de nosso patrocinador e o Milton tem de trabalhar, encerramos aqui a entrevista. Milton, alguma coisa que queira acrescentar?

— Foi um`onra estar aqui.

(Fanfarras. O apresentador levanta-se e grita.)

— Não vale, não vale, tem que ser com “d”. Boa noite. Fim de programa.

Esquina maldita, de Paulo César Teixeira

Delicioso relato sobre uma das mais frutíferas esquinas de Porto Alegre. No encontro entre as avenidas Osvaldo Aranha e Sarmento Leite, havia quatro bares que eram frequentados por universitários e intelectuais durante as décadas de 60 e 70. Dentre eles, havia um jovem homônimo que por ali esteve em incontáveis noites entre os anos de 1975 e 1982, sempre fiel ao Alaska e a seu garçom Isake, todos abençoados pelo seu Alfredo, que comandava tudo lá do fundo. Esquina Maldita (Libretos, 2012, 215 páginas) analisa cada um dos bares, suas histórias, características e personagens. Considerando o que é hoje a vida cultural de Porto Alegre, pode-se dizer sem exageros que quase todo mundo que hoje tem entre 50 e 70 anos formou-se na Esquina, mais exatamente no Alaska. Como escreve o autor Paulo César Teixeira, havia dois grandes grupos naqueles bares: o dos que pretendiam transformar o mundo e o dos que propunham revolucionar a própria vida. Diria que havia um terceiro, o dos agentes da ditadura, que nos visitavam, revisitavam e revistavam-nos com enorme frequência. Foi uma época da qual não me arrependo.

Minha memória conta que eu ficava entre os dois grupos descritos pelo Paulo. Estava encantado pela recém descoberta liberdade sexual e mobilizado pela necessidade de mudar o país. Muitos de meus parceiros de mesa foram para a luta armada; outros não. O jornalista Carlos Leonam inventou um termo genial para caracterizar “o meu tipinho”: eu fazia parte da esquerda festiva — estudantes, artistas e intelectuais que davam palpites sobre tudo e brigavam com aqueles que tomavam parte em ações contra o regime militar, defendendo outros gêneros de mobilizações. Hoje, ânimo serenado, admito que preferia derrubar o governo em bares e festas, às vezes aos cochichos para que os possíveis ratos não ouvissem, às vezes em brindes ruidosos. Depois, com os anos, as mulheres começaram a aparecer por lá e a expressão de Leonam deveria ser de alguma forma ampliada.

Sim, tergiverso. Afinal, estou aqui é para dizer que Esquina Maldita é uma belíssima crônica de uma época que mudou a cara de Porto Alegre. Talvez isso sirva como espantalho para meus sete leitores, mas confessarei: fui entrevistado durante a pesquisa de Paulo César e estou lá em três trechos.

(Acho que aprendi a falar sobre literatura dentro do Alaska. Saía de lá quase todas as noites discutindo alguma coisa pela Osvaldo Aranha. Lembro de observar, bêbado, as palmeiras ao vento, iluminadas. Lembro de muito mais. Inclusive de discutir Faulkner com uma menina loira nos anos 70. Eu era razoavelmente efetivo porém tímido — ou enrolado. Quando chegamos à aquele ponto onde a Osvaldo Aranha entorta, próximo da Garibaldi, ela me disse para eu parar de falar de Luz em Agosto e de O Som e a Fúria. Em seguida, perguntou quando nós iríamos para “as vias de fato”. Assim era a Esquina Maldita).

Ontem foi a noite de autógrafos do livro — estive lá. Hoje, há o complemento necessário: um pós-lançamento no Bar do Marinho (Sarmento Leite, 964). O evento está recebendo o nome de Confraternização e Homenagem ao Isake, o genial e memorioso garçom do Alaska.