Músicas inéditas e o melhor concerto da Ospa em 2015

Músicas inéditas e o melhor concerto da Ospa em 2015
O maestro Petri: esse eu respeitei
O maestro Petri: esse eu respeitei

Ontem, tivemos o melhor concerto da Ospa deste ano. Como faz diferença um bom regente e um bom programa! A presença de muitos músicos na plateia confirmava o óbvio: o repertório a ser apresentado era de primeira linha. Ah, e também um grupo orquestral mais arredondado, com menos rebarbas que o habitual, principalmente nos violinos. As cordas, tão criticadas por este ignaro e severo comentarista, estiveram muito melhores na noite de ontem. E não era um programa simples, pelo contrário. Tínhamos duas composições complexas e inéditas entre nós — uma de compositor contemporâneo e outra de um cara que nasceu há 150 anos, mas que tem obra pouco divulgada, apesar da alta qualidade.

Programa:

Wolfgang Amadeus Mozart: Abertura de “As Bodas de Fígaro”
Christopher Theofanidis: Concerto para fagote e orquestra
Carl Nielsen: Sinfonia nº2

Regente: Luís Gustavo Petri
Solista: Martin Kuuskmann (fagote)

Tudo começou com a chatíssima Abertura de “As Bodas de Fígaro”, música que só faz sentido dentro da ópera. Mesmo com a grife Mozart, os aplausos foram merecidamente modestos. O mérito da coisa foi a brevidade. Esqueçamos.

Martin Kuuskmann
Martin Kuuskmann, que fagote!

Tudo mudou no Concerto para fagote do norte-americano Theofanidis, escrito entre os anos de 1997 e 2002. A obra foi dedicada justamente ao solista da noite, o estoniano Martin Kuuskmann, o qual não apenas mostrou ser um excepcional solista, mas que arrancou suspiros de quem se interessa por homens. Havia real duplo sentido na frase de algumas mulheres no intervalo. Elas diziam algo como “nunca vi um fagote desses”. E riam, felizes. Todos os movimentos da peça são interessantes (I. alone, inward / II. beautiful / III. threatening, fast), com destaque para o movimento central, beautiful, baseado em melodias que se poderiam ouvir em igrejas ortodoxas gregas — espécie de inflexões rápidas de notas longas que lembram o som de gaitas de foles. Um espanto! E que solista! (Falo do som).

A noite foi finalizada com a esplêndida Sinfonia Nº 2, Os Quatro Temperamentos, de Carl Nielsen. Nela, cada movimento é curiosamente dedicado a um temperamento — colérico, melancólico, fleumático e sanguíneo. Para completar, era o dia dos 150 anos de nascimento deste compositor pouco conhecido entre nós. O silêncio em torno de seu nome é dos mais imerecidos. Suas seis sinfonias, o quinteto do sopros, assim como os concertos para clarinete e flauta deveriam estar no repertório de qualquer orquestra digna deste nome.

E a Ospa respondeu muito bem ao desafio que interpretar esta sinfonia difícil, mesmo com um dia a menos de ensaios — o feriado da última quinta-feira. A sinfonia exige muito de toda a orquestra, mas tudo ia adiante de forma lisa e fluente. Os muitos episódios sucediam-se sem traumas, passando de um grupo de instrumentos a outro. Com a exceção de um novo e pequeno erro claro das trompas, tudo esteve bem melhor articulado que o habitual, prova do bom trabalho do excelente maestro Petri, que também é pianista e compositor. Petri deve conhecer profundamente o obra, pois regeu sem partitura. Espero que volte outras vezes à Porto Alegre.

Resta saber por quê, justo ontem, as cordas da Ospa — normalmente tão rebeldes e fugidias — tocaram tão bem, estiveram mais coesas e com muito menor desafinação. E como o violinista Nielsen escrevia bem para sopros! O Allegro comodo e flemmatico é a maior prova disso, dentro da Sinfonia Nº 2.

Saímos do concerto eufóricos e, bom sinal, com dificuldades para dormir. Afinal, tudo o que é bom a gente não quer tirar da cabeça, né?

Ospa, o mau humor, o frio e a reconciliação

Ospa, o mau humor, o frio e a reconciliação
Albrechtsberger, o Cléo Kühn da música
Albrechtsberger, o Cléo Kuhn da música

Fui de mau humor ao concerto da Ospa de ontem. Tinha uma certeza: seria péssimo. E me enganei totalmente. Acontece que o programa não era nada estimulante…

R. Schumann: Abertura Manfred
J. G. Albrechtsberger: Concerto para Trombone Alto e Cordas
L. v. Beethoven: Sinfonia nº 6 “Pastoral”
Regente: Guilherme Mannis
Solista: José Milton Vieira (trombone)

… e vou tentar explicar o motivo. A conhecida Abertura Manfred, de Schumann, é verdadeiramente um horror. Ela não melhorou ontem à noite e só fez com que eu afundasse ainda mais em minha cadeira. Mas ali, ouvindo aquela mediocridade vinda de um Schumann cheio de alucinações em seu caminho para a loucura, pude notar que — coisa de luteranos — a Igreja da Reconciliação tem boa acústica. Outra óbvia observação que pude fazer, enquanto esperava que acabasse a tortura, foi de que tínhamos pouco mais de meia casa de lotação, o que, naquele momento, achei justificado em razão do programa e do frio.

Bem, quando finalmente Schumann despediu-se e foi para o sanatório, entrou Albrechtsberger. Este sujeito de nome longo, ao qual doravante chamaremos de A. foi professor de Beethoven. Pois é, Ludwig van chegou em 1792 a Viena recomendado por Haydn para procurar aulas com seu amigo Albrechtsberger (OK, eu escrevo). Com ele, Beethoven estudou harmonia e contraponto. Alguns anos mais tarde, Albrechtsberger fez questão de entrar na história da música com uma das maiores bobagens já proferidas por um professor: “Beethoven não aprendeu absolutamente nada e nunca vai conseguir compor nada decente”… Isso é que é uma previsão! Sim, foi o que ele disse, demonstrando confiança e dando feedback positivo a seu pupilo. Para completar minha desconfiança, certa vez um CD de A. ganhou o prêmio de um dos 3 piores publicados pelo PQP Bach, dentre mais de 3 mil.

E, dizia eu, entrou o compositor com José Milton Vieira seu trombone de vara. Senti o drama. Ele vinha para enfiar-nos Albrechtsberger com todas as letras. Só que eu gostei. A música era surpreendentemente boa, tinha um lindo Andante e um Finale muito divertido. Miltinho, para variar, tocou demais. Diego Biasibetti mostrou-se um belo cravista, fazendo um baixo-contínuo seguro e discreto, como deve ser. Foi muito animador receber aquela ducha de boa música após (argh!) Manfred.

Sem intervalo, fomos para a programática Pastoral com seus 5 movimentos divididos em 3 seções. Já dera para sentir nas primeiras peças do programa que o regente Guilherme Mannis tirara as cordas da letargia. E elas dominaram bem a trabalhosa sinfonia do mestre de Bonn, pois se o flautim toca 6 notas, elas tocam milhares naquele tagatagatagataga beethoveniano que a gente adora. Aliás, mantive meu olho atento às cordas.

O tranquilo spalla Omar Aguirre era bem acompanhado, mas The Usual Suspects estavam lá, dando cruéis desformatadas a golpes de arco. Nem tudo é perfeito. No terceiro movimento também houve uma trompa que derrubou alguns obstáculos e caiu na pista, mas nada grave — a concepção de Mannis e o núcleo duro da orquestra seguraram bem a coisa. Chamo de núcleo duro as duas linhas de excelentes músicos que ontem estavam formadas por Marcelo Piraíno (clarinete), Diego Grendene (idem) e Adolfo Almeida Jr. (fagote), tendo mais à frente Klaus Volkmann (flauta e chorinho especial para moças no pós-concerto), Viktoria Tatour (oboé) e Paulo Calloni (corne inglês). Eram as duas linhas de três do técnico Mannis.

No final, só me sobrava rir de meu engano. O concerto fora muito bom.

Rimsky-Korsakov: Quinteto para flauta, clarinete, trompa, fagote e piano

Gosto muito deste primeiro movimento do curioso quinteto de R-K. As gravações são poucas, raras e boas em CD, mas no Youtube não tem quase nada. Encontrei este aqui, ó, de filmagem amadora, som mais ou menos e grande entusiasmo da moçada. Vale a pena dar uma olhadinha.

Janáček – Concertino para piano, 2 violinos, viola, clarinete, trompa e fagote

O esplêndido Concertino de Leoš Janáček (1854-1928) que assisti ser tocado no ano passado por integrantes da OSESP recebe no vídeo abaixo uma boa interpretação, porém de som baixo. Mas dá para notar a qualidade desta música que gruda no ouvido.

Tal como o compositor, os músicos da gravação são checos, não?

Igor Ardašev – piano
P. Franců e V. Vostrá — violin,
D. Kalvodová — viola,
I. Venyš — clarinet,
M. Petrák — bassoon,
O. Vrabec — french horn

Gravado durante o XXXV Festival International de Música “Janáčkův máj”, no Janáček´s Conservatory Concert Hall, Ostrava no dia 2 de junho de 2010.