Ingresia, de Franciel Cruz

Ingresia, de Franciel Cruz

A verdade, essa menina traquina que não salva nem liberta, é uma só: demorei a ler o livro de Franciel em razão das exigências descabidas do menino James Joyce e de seu Bloomsday. Estudar os 600 DEMÔNHOS que habitavam o SÓ DESGRÓRIAS do Leopold fizeram o tempo se dilatar. Quanto eu não sei porque não uso relógio.

Mas derivo ao tentar imitar, sem talento, o estilo de Franciel. Vamos ao livro. O seguinte é este: Ingresia (R$ 30, só a capa já vale mais, 258 páginas) são crônicas e mais crônicas uma melhor que a outra, todas muito bem escritas, todas em rigorosa forma franceliana — uma linguagem barroca e desbocada, irreverente e ateia, altamente pessoal, cheia de surpresas e beleza. Sim, beleza, esta fugidia menina. Tanto que às vezes temos que lê-las duas vezes por pensar que perdemos algo da forma no afã (recebam meu afã no peito) de não perdemos a linha do pensamento original e bêbado do autor que escrevia bêbado, mas editava sóbrio (beijinho no ombro, Hemingway).

Os temas são a cultura e o comportamento baianos — a Bahia, essa terra lambuzada de dendê e exclusão –, a política, o futebol e a imprensa de lá com suas figuras tão repulsivas e adoráveis — mais aquelas do que estas — quanto as nossas. Também adorei as crônicas que falam de música. Há igualmente os causos da infância e os problemas de Soterópolis (Salvador), que em tudo diferem dos nossos, não fosse a onipresente indiferença do poder público à população e o respeito aos grandes empresários. Ou seja, em nada diferem na origem.

Um excelente livro que RECOMENDO.

E mais não digo porque hoje é quarta-cheira véspera de feriado.

PUTAQUEPARIU A RESENHA!

Franciel Cruz na Feira Literária de Mucugê em agosto de 2018 | Foto: Lari Carinhanha / Fligê

Atrás do balcão da Bamboletras (XIII) — A visita de Dostoiévski (II)

Atrás do balcão da Bamboletras (XIII) — A visita de Dostoiévski (II)

Mas tenho mais fatos a narrar sobre a visita de Dostoiévski à Livraria Bamboletras, durante o lançamento do Ingresia de Franciel Cruz.

Apresentei-lhe ao célebre escritor um livro de seu conterrâneo e contemporâneo Tolstói, Anna Kariênina. Ele olhou, risonho porém visivelmente contrafeito, e disse:

— Ah, um Tolstói qualquer.

Notei que ele tinha achado minha atitude ofensiva e tentei consertar a situação dizendo que, imagina, atropelada por um trem, muito melhor uma machadinha ou um bom parricídio — já pensou que maravilha se acontecesse em Brasília, Dostô? –, mas como ele não reagia, reclamei das considerações agrícolas de Liêvin, louvei o príncipe Míchkin e o niilista Kirílov e fui saindo de fininho antes que ele jogasse em mim aquele copo de cerveja.

(Com Bruno Pommer e Milton Ribeiro).
(Fotos: Rômulo Arbo).

Atrás do balcão da Bamboletras (XII) — A visita de Dostoiévski (I)

Atrás do balcão da Bamboletras (XII) — A visita de Dostoiévski (I)

Na última sexta-feira, durante o evento de lançamento do Ingresia, de Franciel Cruz, recebemos Dostoiévski na Livraria Bamboletras.

De posse da bela tradução direto do russo do Crime e Castigo da todavia — feita pelo grande Rubens Figueiredo –, eu lhe explicava como eram as traduções antigas de seus livros. Elas nos chegavam todas de segunda mão, a partir de traduções francesas. Parece que não havia ninguém que conhecesse russo no Brasil. Enquanto isso, ele, um eslavófilo furioso, 100% anti-francês, me olhava com aquela cara de quem tá louco pra pegar uma machadinha.

(Com Bruno Pommer e Milton Ribeiro).
(Fotos: Rômulo Arbo).


Relatório Franciel

Quando chegamos ao estádio Olímpico — eu, meu filho e o Butragueño de Amaralina –, tomamos uma enorme vaia que encarei com bom humor. Nada demais, apenas palavrões. Quando entramos é que houve o primeiro choque: atendendo a seus arbóreos, finos e calosos torcedores, o Grêmio viria sem Tcheco. Mas aquilo era só o primeiro prato, pois logo veríamos um prato principal que outro não era senão a famigerada linha de quatro jogadores no meio-campo: Souza, Adílson, Rochemback e Douglas Costa. Ou seja, Souza e Douglas Costa estariam a quilômetros de distância. Quando vi aquilo, pensei de imediato neste parágrafo, nas inevitáveis críticas a Autuori, na futura entrada às pressas de Tcheco e no entusiasmo que isto causaria. O único grave problema encontrava-se no fim do túnel de meus pensamentos — lá estava novamente Dante Sasso dizendo inexoravelmente que não curtira o parágrafo.

Era uma experiência nova aquilo de ficar numa arquibancada vazia protegido pela polícia de Yeda Crusius. Chamei um guarda para um papo. Avisei e ele que, apesar de ocuparmos um latifúndio improdutivo e quase silencioso, não éramos do MST. Mostrei-lhes minhas mãos de dândi e eles baixaram as armas. Mas um brigadiano mais arguto desconfiou de meu sotaque, obrigando Franciel a intervir:

— Esse porra faz a porra de dez anos que vive na porra desse estado e perdeu um sotaque da porra que fazia a porra da madeira gemer — disse ele no mais irrepreensível sotaque Elevador Lacerda.

O primeiro policial garantiu, com ar de inteligência:

— Ele parece a Sônia Braga de Dona Flor, deve ser baiano mesmo.

E o segundo lhe cochichou:

— Sim, os cabelos são os mesmos.

E em voz alta:

— Podem ver o jogo.

Em campo, eu torcia para um time que não conhecia direito. Acreditem, é pior. Há anos não ficava nervoso num estádio. Não tenho mais idade para essas angústias, mas o fato de só conhecer Magal, Viáfara, Apodi e Leandro Domingues estava me deixando maluco. Apodi via pela primeira vez em sua vida dois laterais para impedir-lhe a passagem: Douglas Costa e Lúcio. Lúcio olhava para a frente e pensava em como fazer um overlapping educado em Douglas para chegar à linha de fundo. Douglas não sabia se abria espaço para Lúcio passar, se atacava ou se marcava Apodi. O mesmo impasse triângular ocorria do outro lado. Souza pensou que talvez devesse telefonar para Douglas Costa a fim de marcar um encontro. Mandava-lhe recados através de Adílson, que os repassava a Fabio Rochemback. Este estava muito ocupado em desfilar sua elegância algo exagerada e esquecia-se de avisar Douglas.

Enquanto isso, o Vitória marcava, desarmava, tocava a bola com tranquilidade e divertia-se perdendo gols, coisa na qual não víamos graça alguma. O excelente Neto Berola mostrou que não era Luís Fabiano ao tocar por cima do gol em jogada idêntica a que seu modelo converteria horas depois. Roger… Bem… Roger… Melhor não falar. Quase morremos na arquibancada. Não se mira no pobre zagueiro que está dentro do gol quando temos o gol aberto, mas diversão e lazer é um direito previsto na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Cônscio do fato, Réver resolveu colaborar com a brincadeira de perder gols do Vitória, mas Neto, demonstrando que não se deve confiar em baianos, fez o gol. Sacanagem.

No intervalo, recebemos um arbóreo torpedo dando conta de que tínhamos sido observados aos pulos, subindo e descendo as escadarias do Olímpico. A RBS mostrou que sempre MENTE ao relatar a seus ouvintes que havia 14 torcedores do Vitória assistindo à partida. Mentira! Havia 35,71% a mais. Éramos DEZENOVE, caraglio.

No segundo tempo, mais brincadeiras. Aos 21 segundos, Leandro Domingues chutou no poste esquerdo de Marcelo Grohe e, aos 4 minutos, Neto Berola fez o mesmo, tentando mostrar que aquele poste era, em verdade, seu. Então Autuori refletiu sobre as vaias que ouvia e conjeturou sobre como seus arbóreos, finos e calosos torcedores eram volúveis: eles agora babavam pelos lindos peitos de Tcheco. O moço entrou e tivemos finalmente chances de ver o futebol dos azuis. Claro, ele não deveria ter entrado. Mesmo sem ser arrasador, víamos bolas mais inteligentes chegando ao ataque gremista. Aquilo perturbou Magal, que acabou expulso por não cometer uma falta. Apavorado por ficar com menos um volante, Vagner Mancini tirava um atacante por minuto, trocando-os por volantes.

Quando tínhamos vinte e seis volantes rubro-negros em campo, Jonas — o qual deveria ser multado por pensar em chutar de primeira aquele passe de Tcheco impossível de acertar — fez um golaço. É aquela coisa, se antes nos tivessem dito que seria 1 x 1, correríamos pelos campos e colheríamos flores, felizes como a Noviça Rebelde. Só que levar um gol daquele jeito nos deixara a certeza de que estávamos destinados a morar até o fim dos dias com a madrasta da Cinderela.

Franciel passou bem. A hospitalização foi rápida e mesmo que o marca-passo tivesse parado às quatro e trinta e cinco da madrugada por defeito numa pilha paraguaia, teve a sorte de encontrar um doador argentino vitimado por Kaká. Nunca vi ninguém mais nervoso. Ele pergunta o tempo de jogo a cada trinta segundos, mas não usa relógio. Ele quer saber dos outros resultados, mas não usa rádio. Ele quer entabular arbórea conversação, mas não usa celular. Como vingança, levei-o ao Parque da Harmonia e mandei-o contar todas as piadas de gaúcho de seu repertório, também mostrei-lhe a arquitetura dos Supermercados Zaffari, visitamos a Vila Cruzeiro e tomamos banho no Guaíba. Como compensação, deixei-o fazer livremente a opção entre comida vegetariana e Mac Lanche Feliz. Nada de carne vermelha. Amanhã, terá moqueca podre.

Hora de conferir todo o acarajé e malemolência do Butragueño de Amaralina

As organizações O Pensador Selvagem, ImpedCorp (detentora dos direitos do blog Impedimento) e o Esporte Clube Vitória da Bahia têm a honra de apresentar….:

(Fanfarras)

Franciel Cruz em Porto Alegre!

Para os mais distraídos informo que o grande Franciel empresta sua pena demolidora a dois blogues, sendo que num exercita desenfreada fantasia e noutro, sua única verve estilística. Um reside na grande planície inculta do WordPress, outro no articulado condomínio privado O Pensador Selvagem. Costuma também ser meu colega no Impedimento onde volta e meia tergiversa espetacularmente sobre as más atuações de seu time.

No vão desvario de ver seu time Campeão Brasileiro — pera aí, aí ao lado ele fala na América? Tsc, tsc, tsc… –, prerrogativa a ser exercida pelo Internacional de Porto Alegre em 2009, ele há algum tempo marcou viagem para Porto Alegre. Na época, eu lhe ofereci comida e hospedagem na majestosa residência dos Ribeiro na Zona Sul de Porto Alegre. Ele aceitou, respondendo que Deus me pagaria, fato que ansio ocorra logo e con interés. Porém, dias depois, pedi-lhe candidamente que a comentasse o jogo Barueri 4 x 0 Vitória. A ingênua solicitação foi respondida da forma mais velhaca, abjeta, ignóbil, escrota e desprezível, conforme vocês podem conferir abaixo.

Scarlett

Aprendi com o menestrel alagoano Thalles Gomes que não devemos ter pudor de sacar do coldre nossas falsas erudições para iludir o distinto e inculto público. “Não falha nunca, Sêo Françuel – principalmente se apelarmos para um autor conhecido. É batata. A patuléia se identifica e ainda acha que também é inteligente”, confidenciou-me o sacana com seu antiquado sotaque carioca, pouco antes de ser escorraçado do Rio de Janeiro como charlatão.

Pois muito bem. Sigo seu conselho e, desavergonhadamente, não gasto nem mais um parágrafo para atravessar o Atlântico e solicitar o auxílio do menino Fernando Pessoa, na voz rouca de Alberto Caeiro.

É claro que vocês sacam aquela ladainha de que o rio da aldeia do gajo era muito mais belo e aprazível javascript:;que Tejo, certo?

Pois então. Desde tempos imemoriais, aplico tal tese em relação às mulheres. Prefiro a mulata da esquina, que passa mexendo mais do que Ferry Boat em dia de mar agitado, do que estas musas de plásticos que enfeiam as revistas.

Aliás, sempre achei este negócio de ficar admirando mulher inatingível uma perda de tempo dos seiscentos. Inclusive, nunca consegui entender o comportamento de um amigo gaúcho (por favor, não espalhem que eu tenho um amigo gaúcho) que todo sábado publica fotos e mais fotos de garotas que ele nunca vai comer. Pra quê, meu deus?, pergunto sempre, mas o Onipotente se esconde em alguma nuvem negra e não responde. Se não fosse minha incurável elegância, eu diria que mais do que perda de tempo, isto é um grave sintoma de xibungagem.

A disgrama é que toda regra tem exceção e eu também caí no canto da sereia.

Scarlett.

Antes, porém, de falar da menina Johansson percebo que é hora de meter um pouco mais de erudição (obrigado, Thalles).

É óbvio que vocês conhecem o poema Teresa de Manuel Bandeira, né? Sim, aquele mesmo no qual ele diz que a primeira vez que viu a referida achou que ela “tinha pernas estúpidas”, que na segunda percebeu “que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo” e que na terceira vez não viu mais nada, pois “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”.

Pois então. Minha relação com Scarlett foi diferente. Não esperei a terceira vez. Peguei afeição pela moção logo de prima, quando a vi abandonada no filme Uma rapsódia americana. Putaquepariu futebol e regatas! A menina tinha uma quase vulgaridade e imponência das divas de antanho, um num sei o que de indizível – seja lá o que isto signifique.

E, desde então, que não vejo a hora de deixar meu filho com fome e gastar todo meu parco contracheque com aquela gazela. Investirei todo meu patrimônio apenas para que ela olhe pra mim com aquele mesmo olhar que devotou a Woody Allen. E nem venham falar em leite das crianças. Não aceito chantagem. Já vi homem muito mais sério do que eu perder trator, fazendas e fortunas com mulheres menos abençoadas, que não teriam condições nem de amarrar as chuteiras de Scarlett.

“Por falar em chuteiras, Sêo Françuel, isto aqui é site sobre futebol. Que horas o senhor vai falar sobre o jogo entre Vitória x Barueri?”, pergunta-me um desalmado gaúcho. Ao que, secamente, respondo. Nunca, nécaras, jamais. E invoco a sábia sentença do santo Bento XVI: “Estes gaúchos são todos viados. Onde já se viu querer interromper um discurso sobre Scarlett para tratar de um jogo chinfrim de futebol? – se é que aquele triste espetáculo que aconteceu ontem em São Paulo pode ser chamado de jogo de futebol”.

Palavras da Salvação.

Franciel Cruz

Este é o preito que recebo por franquear minha mansão e conceder vitualhas a este soteropolitano descrido e indevoto. Mesmo assim, repercuto aqui o convite composto pelo ínclito Daniel Cassol no Impedimento de ontem. O chamamento — que copio abaixo — é extensivo a quem se interessar, mas a presença terá de ser antes confirmada em comentário neste post.

ImpedFest relâmpago em honra a Franciel Cruz

Meu povo legal, meu povo jóia, a verdade que cura e liberta é uma só: o rouco locutor das terras baianas, Franciel Cruz, virá a Porto Alegre desviar o foco do Dia da Independência, ensinar-nos o ludopédio em 18 idiomas e orientar o Bitória na partida contra o Grêmio no estádio Olímpico. E, não mais importante, estará na capital de todos os bovinos para beber, e não para conversar.

Puta que pariu a mãe do guarda!

Diante do exposto, sacamos nosso Anapion do coldre para convocarmos a massa impedimentense para um evento sem parâmetros na história da beberagem mundial: a ImpedFest relâmpago em honra a Franciel Cruz.

Será nesta sexta (4), conhecida também como HOJE, no tradicional bar Parangolé (Lima e Silva, quase chegando na Perimetral), a partir das 19h30 (dezenove horas e trinta minutos).

Valhei-me Vagner Mancini!

Mas não pensem que a Semana Franciel termina por aí.

Seguinte é este.

No sábado, às 18h30, ele poderá ser encontrado na arquibancada destinada à hinchada de Bitória no confronto contra o Grêmio.

Na segunda, às 17h30, o Butragueño de Amaralina ministrará uma aula de futebol em 18 idiomas – além do baianês – numa ImpedNua extraordinária a ser realizada no Camisa 10 (quem quiser participar, se manifeste nos comentários).

No intervalo destas atividades, Franciel Cruz estará de mãos dadas com Milton Ribeiro.

Palavras da salvação.

Conselho de Idosos da ImpedCorp.

Por favor, não me procurem sábado de manhã.