Uma(s) lista(s) de melhores contos, na minha humilde opinião e na do El País

Uma(s) lista(s) de melhores contos, na minha humilde opinião e na do El País
Machado de Assis e Guimarães Rosa.
Machado de Assis e Guimarães Rosa.

O Brasil sempre privilegiou o conto, mas os europeus nunca deram grande importância ao gênero. O Caderno de Cultura Babelia do jornal espanhol El País publicou uma notícia que fala sucintamente da recente valorização do conto naquele país, pedindo para que autores espanhóis citem seus contos favoritos da literatura não espanhola. Curiosamente, nenhum conto foi citado duas vezes. Depois, coloco uma relação de contos favoritos deste blogueiro.

Relatos universales que no hay que perderse

Escritores, editores y libreros que han participado en este especial sobre el renacer y la nueva valoración del cuento en España comparten con los lectores títulos de sus cuentos favoritos en español y otras lenguas.

— El llano en llamas, de Juan Rulfo, y Bartleby, el escribiente, de Herman Melville (Berta Marsé).

— Carta a una señorita en París, de Julio Cortázar, y La dama del perrito, de Antón Chéjov (Cristina Cerrada).

— La Resucitada, de Emilia Pardo Bazán, y El bailarín del abogado Kraykowsky, de Witold Gombrowicz (Cristina Fernández Cubas).

— El Aleph, de Jorge Luis Borges, y Una casa con buhardilla, de Antón Chéjov (Eloy Tizón).

— El espejo y la máscara, de Jorge Luis Borges; Una luz en la ventana, de Truman Capote, y Donde su fuego nunca se apaga, de May Sinclair (Fernando Iwasaki).

— Bienvenido, Bob, de Juan Carlos Onetti; El álbum, de Medardo Fraile; En medio como los jueves, de Antonio J. Desmonts; Alguien que me lleve, de Slawomir Mrozek; Los gemelos, de Fleur Jaeggy; La colección de silencios del doctor Murke, de Heinrich Böll, y Guy de Maupassant, de Isaak Babel (Hipólito G. Navarro).

— Un tigre de Bengala, de Víctor García Antón, y La revolución, de Slawomir Mrozek (José Luis Pereira).

— No oyes ladrar los perros, de Juan Rulfo; El veraneo, de Carmen Laforet; La corista, de Antón Chéjov, y Rikki-tikki-tavi, de Rudyard Kipling (José María Merino).

— Continuidad de los parques, de Julio Cortázar, y El nadador, de John Cheever (Juan Casamayor).

— El Sur, de Jorge Luis Borges; Parientes pobres del diablo, de Cristina Fernández Cubas; Tres rosas amarillas, de Raymond Carver, y La dama del perrito, de Antón Chéjov (Juan Cerezo).

— El infierno tan temido, de Juan Carlos Onetti, y Los muertos, de James Joyce (Juan Gabriel Vásquez).

— Las lealtades (de Largo Noviembre de Madrid), de Juan Eduardo Zúñiga, y El nadador, de John Cheever (Miguel Ángel Muñoz).

— Continuidad de los parques, de Julio Cortázar, y William Wilson, de Edgar Allan Poe (Patricia Estebán Erlés).

— Ojos inquietos, de Medardo Fraile; Noche cálida y sin viento, de Julio Ramón Ribeyro, y Míster Jones, de Truman Capote (Pedro Ugarte).

Minha relação saiu um pouco grande, apesar de ter sido escrita improvisadamente. Mas se pensasse mais, talvez não mudasse demais. Vamos a ela.

Contos estrangeiros:

— A Viagem, de Luigi Pirandello;
— O Velho Cavaleiro Andante, de Isak Dinesen (Karen Blixen);
— Ponha-se no meu lugar, de Raymond Carver;
— A Fera na Selva, de Henry James;
— Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville;
— A Enfermaria Nº 6, de Anton Tchékhov;
— Queridinha (ou O Coração de Okenka), de Anton Tchékhov;
— A Corista, de Anton Tchékhov;
— A Dama do Cachorrinho, de Anton Tchékhov;
— Olhos Mortos de Sono, de Anton Tchékhov;
— Os Sonhadores, de Isak Dinesen (Karen Blixen);
— A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói;
— Uma Alma Simples, de Gustave Flaubert;
— As Jóias, de Guy de Maupassant;
— Os Mortos, de James Joyce;
— O Licenciado Vidriera, de Miguel de Cervantes;
— O Artista da Fome, de Franz Kafka;
— A Colônia Penal, de Franz Kafka;
— A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe;
— Berenice, de Edgar Allan Poe;
— William Wilson, de Edgar Allan Poe;
— O Primeiro Amor, de Ivan Turguênev;
— Três Cachimbos, de Ilya Ehrenburg;
— A Loteria da Babilônia, de Jorge Luis Borges;
— A procura de Averróis, de Jorge Luis Borges;
— O jardins dos caminhos que se bifurcam, de Jorge Luis Borges;
— Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges.

Contos brasileiros:

— Missa do Galo, de Machado de Assis;
— Uns Braços, de Machado de Assis;
— Noite de Almirante, de Machado de Assis;
— Um Homem Célebre, de Machado de Assis;
— A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa;
— Meu tio, o Iauaretê, de Guimarães Rosa;
— A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa;
— O Duelo, de Guimarães Rosa;
— Guapear com Frangos, de Sérgio Faraco;
— O Voo da Garça-pequena, de Sergio Faraco;
— Corvos na Chuva, de Ernani Ssó;
— Contrabandista, de João Simões Lopes Neto;
— Baleia, de Graciliano Ramos (não é um conto, mas pode funcionar como tal);
— O homem que sabia javanês, de Lima Barreto;
— O Vitral, de Osman Lins;
— O Afogado, de Rubem Braga;
— Venha Ver o Pôr do Sol, de Lygia Fagundes Telles;
— Feliz Aniversário, de Clarice Lispector;
— Uma Galinha, de Clarice Lispector;
— O Japonês dos Olhos Redondos, de Zulmira Ribeiro Tavares.

As Variações Goldberg, a música para dormir de Johann Sebastian Bach

As Variações Goldberg, a música para dormir de Johann Sebastian Bach
Só para irritar o Conde Keyserling: Charles Auguste Emile Carolus-Duran “Sleeping Man” (1861)
Só para irritar o Conde Keyserling: Charles Auguste Emile Carolus-Duran “Sleeping Man” (1861)

Eu nunca tive insônia. Talvez, em razão de alguma dor ou febre, não tenha dormido repousadamente apenas uns dez dias em minha vida. Não é exagero. Quando me deprimo, durmo mais ainda e acordar é ruim, péssimo. O sono é meu refúgio natural. Mas há pessoas que reclamam (muito) da insônia. Saul Bellow escreveu que ela o teria deixado culto, mas que preferiria ser inculto e ter dormido todas as noites — discordo do grande Bellow, acho que ele deveria ter ficado sempre acordado, escrevendo, vivendo e escrevendo para nós. Também poucos viram Marlene Dietrich na posição horizontal, adormecida. Kafka era outro, qualquer barulho impedia seu descanso, devia pensar no pai e passava suas noites acordado, amanhecendo daquele jeito após soheos agitados… Groucho Marx, imaginem, era insone, assim como Alexandre Dumas e Mark Twain. Marilyn Monroe sofria muito e Van Gogh acabou daquele jeito não por ser daltônico, característica que apenas gera inteligência e genitália avantajadas.

O Conde Keyserling sofria de insônia e desejava tornar suas noites mais agradáveis. Ele encomendou a Bach, Johann Sebastian Bach, algumas peças que o divertissem durante a noite. Como sempre, Bach fez seu melhor. Pensando que o Conde se apaziguaria com uma obra tranquila e de base harmônica invariável, escreveu uma longa peça formada de uma ária inicial, seguida de trinta variações e finalizada pela repetição da ária. Quod erat demonstrandum. A recuperação do Conde foi espantosa, tanto que ele chamava a obra de “minhas variações” e, depois de pagar o combinado a Bach, deu-lhe um presente adicional: um cálice de ouro contendo mais cem luíses, também de ouro. Era algo que só receberia um príncipe candidato à mão de uma filha encalhada.

A história da criação das variações foi tirada da biografia de Bach escrita por Johann Nikolaus Forkel:

(Quanto a essas variações), devemos agradecer ao pedido do ex-embaixador russo na corte eleitoral da Saxônia, o conde Hermann Karl von Keyserling, que frequentemente passava por Leipzig e que trouxe consigo o cravista Goldberg para receber orientações musicais de Bach. O conde tinha frequentes acometimentos de doenças e ficava noites sem dormir. Em tais ocasiões, Goldberg, que vivia em sua casa, tinha que passar a noite na antecâmara para tocar para ele durante sua insônia. … Certa vez, o conde mencionou, na presença de Bach, que ele gostaria de ter algumas obras para teclado para Goldberg executar, que deveriam ser de caráter suave e algo vigoroso de modo que ele pudesse ser um pouco consolado por elas em suas noites sem dormir. Bach imaginou que a melhor maneira de atender a esse desejo seria por meio de variações, cuja escrita ele considerava, até àquela data, uma tarefa ingrata devido ao fundamento harmônico repetidamente semelhante. Mas, uma vez que a essa época todos os seus trabalhos já eram padrões de arte, tais se tornaram, em suas mãos, estas variações. Mesmo assim, ele produziu um único trabalho desta espécie. Daí em diante, o conde sempre as chamava de “as suas” variações. Ele nunca se cansou delas e, por um longo período, noites sem dormir significavam: ‘Caro Goldberg toque minhas variações para mim’. Provavelmente Bach nunca foi tão bem recompensado por um trabalho quanto foi neste. O conde o presenteou com um cálice de ouro com 100 luíses de ouro. Não obstante, mesmo que o presente tivesse sido mil vezes maior, seu valor artístico nunca teria sido pago.

O Conde tinha a seu serviço um menino de quinze anos chamado Johann Gottlieb Goldberg. Goldberg era o melhor aluno de Bach. Foi descrito como “um rapaz esquisito, melancólico e obstinado” que, ao tocar, “escolhia de propósito as peças mais difíceis”. Perfeito! Goldberg era enorme e suas mãos tinham grande abertura. O menino era uma lenda como intérprete e o esperto Conde logo o contratou para acompanhá-lo não somente em sua residência em Dresden como em suas viagens a São Petersburgo, Varsóvia e Postdam. (Esqueci de dizer que o Conde Keyserling era diplomata). Bach, sabendo o intérprete que teria, não facilitou em nada. As Variações Goldberg, apesar de nada agitadas, são, para gáudio do homenageado, dificílimas. Nelas, as dificuldades técnicas e a erudição estão curiosamente associadas ao lúdico, mas podemos inverter de várias formas a frase. Dará no mesmo.

O nome da obra — Variações Goldberg, BWV 988 — é estranho, pois pela primeira vez o homenageado não é quem encomendou a obra, mas seu primeiro intérprete.

O princípio de quase toda obra de variações consiste em apresentar um tema e variá-lo. (Lembram que Elgar fez uma obra de variações sem apresentar o tema, chamando-a de Variações Enigma?). Assim, o ouvinte tem a impressão de estar ouvindo sempre algo que lhe é familiar e, ao mesmo tempo, novo. A escolha de Bach por esta forma mostrou-se adequada às pretensões do Conde. E a realização não poderia ser melhor, é uma das maiores obras disponibilizadas pela e para a humanidade pelo mais equipado dos seres humanos que habitou este planeta, J. S. Bach. O jogo criado pelo compositor irradia livre imaginação e enorme tranquilidade. A Teoria Geral das Belas-Artes, espécie de Bíblia artística goethiana de 1794, diz o seguinte sobre as Goldberg: “em cada variação, o elemento conhecido está associado, quase sem exceção, a um canto belo e fluido”. E está correto. Só esqueceu de dizer que tudo isso tinha propósito terapêutico.

As Variações Goldberg eram tidas no passado como um exercício técnico árido e aborrecido. Mas já faz quase um século que o conteúdo e a abrangência emocional da obra foi reconhecido e se tornou a peça favorita de muitos ouvintes de música erudita. As Variações são largamente executadas e gravadas.

É muito provável que o enfermo Conde concordasse com a Theorie para descrever seu prazer de ouvir aquela música, mas diria mais. Seus efeitos fizeram que Goldberg a tocasse centenas de vezes para ele. O cálice repleto de ouro significava gratidão pela diversão emocional e intelectual. Dormimos por estarmos calmos e felizes, talvez.

Não posso distribuir cálices de ouro por aí, mas talvez devesse dar alguma coisa a Pierre Hantaï, o maior intérprete da obra. (Por favor, neste momento não me venham com Gould; afinal, o som do cravo é fundamental e só aceito fazer a final contra o grande Gustav Leonhardt. Gould ficou lá pelas quartas-de-final).

Então, para os insones ou não, aqui estão as Variações Goldberg com Pierre Hantaï.

Figura su fondo celeste - Felice Casorati
Figura su fondo celeste – Felice Casorati

Obs.: Este post foi escrito meio de memória, mas também consultando o livro “48 variações sobre Bach” de Franz Rueb, Companhia das Letras, 2002.

Abaixo, Hantaï mandando bala nas Goldberg:

Valeu a pena ver Ian McEwan ontem no Araújo Vianna

Valeu a pena ver Ian McEwan ontem no Araújo Vianna

Ontem, fui assistir à palestra de Ian McEwan no Fronteiras do Pensamento. Foi uma boa palestra sobre seu projeto de literatura realista. O que me encantou é que foi uma fala de ficcionista, com as teses explicadas através de exemplos curiosos e engraçados. O resultado foi claro e elegante. McEwan não tentou dar soluções para o mundo, limitando-se ao campo da literatura, que já é suficientemente vasto. Muito tranquilo e pausado, de fala mansa, ele é um inglês que demonstra um surpreendente espírito italiano para se expressar. Mexe-se e usa os braços.

ian-mcewan

Falou sobre a importância dos detalhes. Relatou que, para escrever Sábado, passou dois anos seguindo um amigo neurocirurgião. Muitas vezes, acordava às 6h e dirigia-se para o hospital a fim de observar a rotina do cara. McEwan contou que um dia estava numa sala tomando notas, vestido com um jaleco, e foi abordado por duas residentes de neurocirurgia que queriam assistir ao procedimento e o confundiram com o médico. Para saber se já havia aprendido o suficiente, ele conversou com elas por cinco minutos como um especialista o faria. Quis saber em que nível elas estavam e explicou-lhes a cirurgia. Elas não notaram nada de estranho nele.

Também seguiu uma juíza especialista em direito de família para criar Fiona Maye, narradora de A Balada de Adam Henry, uma respeitada juíza do Tribunal Superior da Inglaterra.

E falou dos erros que tais detalhes podem causar. Seus personagens já viram estrelas que só eram possíveis de ver no hemisfério sul em julho. Estavam em Veneza. Também em Sábado, seu médico fala de características que não existem em seu carro, um certo modelo de Mercedez Benz. Contou a história de William Golding e de seu O Senhor das Moscas, onde o menino de óculos tinha um problema visual que era corrigido por um tipo de lente que não poderia concentrar os raios solares para fazer fogo, mas que no livro fazia. Falou das cartas de leitores que apontavam estes erros e que ele os corrigia todos nas novas edições, mas que Golding negava-se.

Defendeu o realismo e os detalhes usando o exemplo da primeira página de A Metamorfose. Há algo extraordinário acontecendo, mas aquilo só se torna crível quando Kafka cita as perninhas. Há o sensacional início: “Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Mas o final do parágrafo é que joga a “realidade” na cara do leitor: Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. Sim, o detalhe é que torna tudo crível.

Ao falar do humor, disse que não gostava das comic novels. Parece que o escritor está continuamente fazendo cócegas no leitor para que este ria. Ele prefere o humor que surge naturalmente, como consequência inevitável. Cria-se a situação humorística e a questão do quanto explorá-la.

Ao comentar seu último livro, Enclausurado, defendeu sua ideia de realismo:

— É biologicamente impossível que um feto narre histórias, mas considero que meu romance é realista, porque depois dos primeiros parágrafos, onde deixo claro o acordo que desejo estabelecer com o leitor, tudo o mais é escrito na tradição do realismo. Por exemplo, como a mãe bebe, o feto passa a fazer comentários avaliando a qualidade dos vinhos ingeridos e estabelece seus gostos como sommelier. E ouve um crime sendo preparado.

Também criticou acidamente Hollywood, dizendo que lá estão as piores pessoas. Como vários escritores, tentou enfiar à fórceps profundidade e inteligência em filmes para o grande público, mas disse que isto era muito raro e que foi vítima de uma traição em seu roteiro para O Anjo Malvado. “Em Hollywood, as pessoas são más como Maquiavel descreveu em O Príncipe. É como se tivéssemos penetrado na corte de César Bórgia”.

Bem, não vou resumir tudo. Vou apenas completar dizendo que a inabilidade do entrevistador Daniel Galera ia contra a boa qualidade do evento. Não é proibido ficar nervoso, mas é inaceitável não ouvir o palestrante. Galera conseguiu fazer perguntas amigáveis que sugeriam a negação daquilo que McEwan recém falara em sua palestra. Ou seja, devia estar tratando seu nervosismo ao invés de ouvir o inglês. Não tem o traquejo do entrevistador que leva mil perguntas pré-prontas e que evita aquelas que não contribuirão ou que farão a estrela repetir coisas. Galera é bom escritor e será complicado evitar tais eventos, mas tem de ser melhor orientado. Tulio Milman, mesmo desculpando-se por não ser um expert em literatura, foi muito mais interessante ao perguntar sobre o Nobel de Dylan, o Brexit, os filmes baseados em suas obras e sobre como despedir-se de um livro — esta talvez tenha sido uma pergunta da plateia.

Foi muito bom ver McEwan e comprar alguns volumes que faltavam, além de presentear a Bárbara com o esplêndido Na Praia. Também foi ver o Araújo Vianna quase lotado para ver um escritor, mesmo que nem todos saibam se comportar.

Os manuscritos secretos de Kafka serão afinal conhecidos

Os manuscritos secretos de Kafka serão afinal conhecidos

Há oito anos que se arrastava uma disputa legal que chegou a parecer estar resolvida em 2012 e que tem uma história descrita como… “kafkiana”. A Biblioteca Nacional de Israel vai mesmo receber o espólio de documentos do escritor.

Franz Kafka

Do Publico.pt

A decisão final foi do Supremo Tribunal de Israel: depois de oito anos de disputa, confirmou-se que os manuscritos que Franz Kafka deixou ao seu amigo Max Brod e que foram herdados pela sua secretária vão mesmo ficar na Biblioteca Nacional de Israel. “Um dia de celebração para qualquer pessoa da cultura, em Israel e fora”, disse David Blumberg, o presidente da instituição que fica com a guarda de um espólio ainda praticamente desconhecido, prometendo mostrá-lo ao público de forma exaustiva.

Poucos viram até agora o conteúdo dos cofres onde as herdeiras de Esther Hoffe, a secretária a quem Brod legou o espólio, mantiveram os disputados documentos, e que incluem cadernos e cartas – podem também conter o manuscrito original de um romance incompleto, segundo referia um artigo da BBC datado de 2010. Inequivocamente está confirmada a existência, entre os papéis de correspondência trocada entre os dois amigos, dos diários de Kafka em Paris, de muitas obras de Brod, também ele escritor, e de desenhos e cartas de Kafka, informa a biblioteca em comunicado.

“É previsível que muitos outros tesouros estejam escondidos no material pessoal de Max Brod, que será exposto e catalogado pela Biblioteca Nacional”, lê-se no mesmo comunicado.

A sua importância, e o respectivo valor, estimado em milhões, justificam que há oito anos as herdeiras de Hoffe e o Estado de Israel estejam envoltos numa batalha legal – agora, o Supremo Tribunal tomou a decisão de última instância de ordenar que a família israelita transfira os documentos para a Biblioteca Nacional. O processo legal tem sido descrito por muitos como “kafkiano”.

A família Hoffe defendia que era a legítima proprietária dos documentos e em 2012 argumentara também que a Biblioteca Nacional não tinha meios para garantir a preservação do espólio. Mas “o Supremo Tribunal pediu à Biblioteca Nacional que faça o máximo para revelar o espólio Brod ao público” e  esta “vai seguir a decisão do tribunal e preservar os bens culturais, mantendo-os no país e tornando-os acessíveis ao grande público”, garantiu David Blumberg, citado pela BBC.

Da fuga aos nazis à Terra Prometida

Remonte-se ao início do século XX. Kafka, nascido em Praga, morreu de tuberculose em 1924, com 41 anos. O seu amigo Brod, fiel depositário da sua obra inédita e de documentos vários, morreu em 1968 sem ter cumprido parte da promessa que tinha feito ao escritor – queimar todos os romances que deixara por publicar. “O meu último pedido: que tudo o que deixo, sob a forma de diários, manuscritos, cartas (as minhas e de outros), desenhos e afins, seja queimado sem ser lido”, escreveu Franz Kafka numa carta endereçada a Max Brod e deixada na secretária da sua casa na cidade checa.

Franz Kafka com Max Brod em 1907
Franz Kafka com Max Brod em 1907

Mas Max Brod publicou O Processo, O Castelo e Amerika, títulos hoje essenciais na obra do escritor e que foram editados postumamente, entre 1925 e 1927, com um ano de separação entre si. Brod, que considerou que queimá-los seria “um ato criminoso”, como cita o Jerusalem Post, salvou parte da obra inédita de Kafka de outra forma: em 1939, levou os seus manuscritos de Praga, fugindo aos nazis que acabavam de invadir a antiga Checoslováquia e emigrando para a Palestina. O trem em que saiu de Praga com a mala cheia do legado de Kafka passou cinco minutos antes de os soldados alemães fecharem a fronteira.

Antes de morrer, Max Brod confiou os papéis à sua secretária, Esther Hoffe – também descrita por algumas fontes como sua companheira de longa data. Ela guardou-os durante toda a vida num apartamento em Telavive e em cofres em diferentes bancos, não sem que na década de 1970, e de acordo com o Jerusalem Post, Israel tenha tentado ficar com a custódia do espólio para o expor – um tribunal deu-lhe o direito de o manter na sua posse, notando porém que devia doá-lo ao Estado após a sua morte.

Uma longa disputa legal

As duas filhas que Esther Hoffe teve com o marido Otto, Eva Hoffe e Ruth Wiesler, herdaram o espólio após a morte da antiga secretária, em 2007. No ano seguinte, encetaram um processo para serem legalmente reconhecidas como suas proprietárias, mas, em 2009, o Estado israelita processou-as, exigindo os documentos – o testamento de Brod indicava que Esther Hoffe deveria depois legar o seu espólio “à Universidade Hebraica, à Biblioteca Municipal de Telavive ou a qualquer outra instituição pública em Israel ou no estrangeiro”, lembrava a acusação.

Foi então que começou verdadeiramente a disputa legal. Em 2010, escreve a BBC, alguns dos cofres que continham o espólio foram abertos em Zurique (os documentos tinham sido armazenados em cofres na Suíça e em Israel), mas o seu conteúdo só ficou a ser conhecido por um juiz israelita. Um tribunal israelita entregaria o espólio à Biblioteca Nacional do país em 2012. Entretanto, um recurso prolongou o caso, com a herdeira Eva, a última sobrevivente das duas irmãs, a argumentar também que o espólio era a sua única fonte de rendimento – Esther Hoffe já tinha vendido o manuscrito de O Processo por dois milhões de dólares em 1988, num leilão que bateu recordes e em que ficara prometido que o seu novo dono, um livreiro alemão, o doaria a um museu para exposição pública.

À época a venda deixou a sobrinha de Kafka, Marianna Steiner, então com 75 anos, muito satisfeita pelo facto de a obra não “ficar fechada numa gaveta”, reportava o diário New York Times.

Ao longo dos anos, escreve a agência AFP, as irmãs Hoffe venderam alguns outros documentos do espólio a colecionadores. Eva Hoffe, que ao contrário da irmã nunca abandonou o apartamento dos pais e viveu com os documentos que lá se encontravam, recordava em 2010 o New York Times, tinha uma relação “quase biológica” com os manuscritos, segundo o seu advogado, Oded Hacohen. Do destino dado ao espólio, por estar em análise todo o testamento de Esther Hoffe, estaria também dependente a herança de perto de um milhão de dólares respeitante à compensação dada à família pelo Governo alemão por danos relacionados com o Holocausto. Os Hoffe fugiram de Praga já durante a ocupação nazi.

Só esta semana o caso se resolveu definitivamente. Os três juízes do Supremo israelita a escreveram segunda-feira no seu veredicto que “Max Brod não queria que os seus bens fossem vendidos ao melhor preço, mas sim que encontrassem um lugar apropriado num santuário literário e cultural”.

As verdadeiras cores de Van Gogh

As verdadeiras cores de Van Gogh

Publicado em 27 de julho de 2014 no Sul21

A Vinha Encarnada, único quadro que Van Gogh conseguiu vender em vida

Milton Ribeirodaltônico (*), como Van Gogh

No dia 27 de julho de 1890, depois de meses de intensa atividade criativa — nesta época pintava, em média, um quadro por dia –, Vincent Van Gogh (1853-1890) saiu para uma caminhada durante a qual disparou um tiro em seu próprio peito. Arrastou-se de volta à pensão onde estava instalado e morreu dois dias depois, nos braços de seu irmão Theo. Suas últimas palavras teriam sido: “La tristesse durera toujours” (em francês, “A tristeza durará para sempre”). Onze anos depois, em 1901, era inaugurada a hoje célebre exposição Van Gogh em Paris. Era uma mostra de um artista absolutamente obscuro. Nela, havia 71 quadros do pintor que vendera uma única tela em vida — A Vinha Encarnada — , por cerca de R$ 800,00, em valores de hoje.

Cem anos após sua morte, em 1990, um de seus trabalhos, O Retrato do Dr. Gachet, foi vendido por US$ 82,5 milhões. Van Gogh não é um caso único. Por exemplo, Johann Sebastian Bach era considerado apenas um bom músico e um compositor antiquado no século XVIII;  Franz Kafka era tímido e problemático demais para apresentar seus trabalhos – tendo pouco publicado em vida e feito seu amigo Max Brod prometer que destruiria o restante, promessa não cumprida. Porém, talvez Van Gogh seja o caso de maior contraste entre uma vida secreta e uma unânime consagração póstuma.

Vincent Van Gogh nasceu em 1853, na localidade de Groot Zundert, no interior da Holanda. Seu pai era um pastor calvinista que deu aos filhos a mais severa das educações. Van Gogh teve dois irmãos – Theodorus, apelidado de Theo, e Cornelius — e três irmãs — Elisabeth, Anna e Willemina. Os biógrafos descrevem a casa onde cresceram como fria, úmida e escura. A infância dos irmãos não pode ser descrita como feliz.

As telas sombrias

Aos 16 anos, Vincent mudou-se para Haia a fim de trabalhar como representante comercial de livros de arte com um tio. Conheceu boa parte do país, mais Bruxelas e Londres, porém seu sonho era conhecer Paris, na época o grande centro cultural da Europa e do mundo. Em 1875, aos 22 anos, conseguiu uma transferência para a cidade. Foi feliz por lá, conheceu artistas, visitou galerias, fruiu da vida cultural da cidade – e acabou demitido por não trabalhar.

Deprimido e sem perspectivas, Van Gogh voltou à casa dos pais, onde sofreu sucessivas crises nervosas. Místico, passou a dedicar-se à religião, conseguindo uma posição como pastor, assim como o pai. E foi pregar numa mina de carvão na Bélgica. Porém, como pouco pregava, preferindo ocupar seu tempo em conversas com os mineiros miseráveis, acabou afastado da missão religiosa em 1879. Tinha 26 anos e o senso comum dizia que era um fracasso completo. Não constituíra família, não se sustentava sozinho e não parecia vocacionado a nada. Consideremos que tinha 26 anos, nenhuma obra e que teria pouco mais de dez anos de vida, internações e produção artística.

A cadeira de Gauguin com seus apetrechos

Naquele ano, seu irmão Theo já morava na cobiçada Paris, exercendo um alto cargo na galeria de arte do tio. Ele o incentivou a pintar. Passou a lhe enviar dinheiro para a compra de tintas e pincéis. Vincent dedicou-se, então, ao estudo da perspectiva e da anatomia. E pintou várias telas sombrias, nas quais retratava mineiros, camponeses, trigais e campos.

Mas então as crises recrudesceram. Seu diagnóstico apontava perturbações epiléticas, ainda que o médico, Dr. Peyron, não fosse neurologista nem psiquiatra. Elas duravam de duas a quatro semanas, período no qual Van Gogh não conseguia realizar nenhum gênero de trabalho, revelando-se propenso a atitudes violentas, resultado de alucinações e da impressão de que todos o perseguiam com a finalidade de prejudicá-lo.

Havia alta incidência de doenças mentais na família Van Gogh. Theo sofria com a depressão e faleceu de uma certa “demência paralítica”, complicação rara da sífilis. Sua irmã Willemina era esquizofrênica, tendo vivido 40 anos no mesmo asilo onde Van Gogh foi depois internado e o outro irmão, Cornelius, cometeu suicídio aos 33 anos de idade.

A Cadeira de Van Gogh

Van Gogh foi internado várias vezes em sanatórios. Nos intervalos, criava as obras que vemos hoje e procurava levar sua vida. Durante algum tempo, dividiu seu ateliê com Gauguin em Arles, mas também se desentendeu com ele. Gauguin e Van Gogh partilhavam de mútua admiração, mas a relação entre ambos estava longe de ser pacífica e as discussões eram frequentes. Para representar as relações abaladas entre os dois, Van Gogh pintou a A Cadeira de Van Gogh e a A Cadeira de Gauguin, ambas em dezembro de 1888. As duas estão vazias, com objetos que representam as diferenças entre os dois pintores. A cadeira de Van Gogh é sem braços, simples, com assento de palha; a de Gauguin possui assento estofado e braços.

“Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz devido à incompatibilidade de temperamentos”, queixou-se Gauguin a Theo. Sentia-se incomodado com as variações de humor de Vincent e não era para menos. Em 23 de dezembro de 1888, após Gauguin sair para uma caminhada, Van Gogh o seguiu e o ameaçou com uma navalha. Gauguin decidiu não voltar ao atelier, pernoitando em uma pensão. A fim de demonstrar seu arrependimento, Vincent cortou um pedaço de sua orelha direita, que embrulhou em um lenço e o levou, como presente, a uma prostituta sua amiga. Depois, Vincent retornou à sua casa, indo dormir como se nada tivesse acontecido. A polícia foi avisada e o encontrou desmaiado, totalmente ensanguentado. Gauguin então enviou um telegrama para Theo e viajou imediatamente a Paris, julgando melhor não visitar Vincent no hospital.

A orelha foi entregue a uma prostituta

Van Gogh passou 14 dias internado, ao final dos quais voltou à casa. Em seu retorno, pintou o Auto-Retrato com a Orelha Cortada. Porém, quatro semanas depois, apresentou novos sintomas de paranoia,  imaginando que seria envenenado a qualquer momento. Os cidadãos de Arles, apreensivos, solicitaram seu internamento definitivo. Sendo assim, Van Gogh tornou-se paciente e preso no hospital de Arles. As crises repetiam-se, sempre precedidas de sonolência e seguidas por apatia.

Rejeitado pelo amigo Gauguin e pela cidade, descartados todos os seus planos artísticos, a depressão voltou a agravar-se, ele que agora tinha como único amigo seu irmão Theo. Para completar, o casamento de Theo constituiu-se em fonte de nova temor para Vincent, que temia o afastamento.

O Dr. Gachet: o tratamento não funcionou, mas a imortalidade foi garantida

Em maio de 1890, Vincent deixou a clínica, passando a residir na periferia de Paris (em Auvers-sur-Oise), onde estaria mais próximo do irmão e consultaria o Dr. Paul Gachet. Gachet — aquele mesmo cujo retrato seria vendido por 82,5 milhões de dólares — não foi bem sucedido. Mas, em Auvers, Van Gogh produziu rapidamente cerca de oitenta pinturas, em média uma por dia.

Repentinamente, seu estado piorou e, em 27 de Julho de 1890. Van Gogh saiu da cidade para disparar o tiro contra o próprio peito. Dias depois, no sótão da galeria de arte do tio, mais de 700 originais de Van Gogh aguardavam compradores.

Vincent Van Gogh revolucionou a história da pintura. Embora tenha sido influenciado pelos pintores impressionistas, sua obra é muito pessoal e solitária. Usava cores opostas, como o azul e o amarelo, para aumentar a vibração de suas imagens. Também se utilizava de formas distorcidas e exagerava na perspectiva para aumentar a expressividade de suas composições. Outra característica era o uso de camadas espessas de tinta. Críticos de arte costumam dizer que não é a cor em si que chama a atenção, mas o movimento, a inquietude de formas e cores em conjunto, porém…

O quarto em Arles
O quarto em Arles

A questão do daltonismo

O azul, o amarelo

Embora a vasta bibliografia a respeito de Van Gogh, são raros os estudos sobre a cor em seus trabalhos. Na verdade, a questão das cores chamou a atenção não tanto dos historiadores da arte, mas de neurologistas e oftalmologistas que encontraram nelas sinais claros de discromatopsias, as dificuldades na percepção de cores de que sofrem os popularmente conhecidos como daltônicos. Assim, se alguns biógrafos tratam rapidamente da expressividade de Van Gogh — raramente referindo-se a ele como um “revolucionário da cor” — como algo característico seu, os oftalmologistas o tratam como francamente daltônico.

Hoje, cresce a corrente daqueles que afirmam que o uso original da cor não se devia a nenhuma consequência da epilepsia ou de qualquer outra doença, mas de um reles daltonismo. Van Gogh aparece habitualmente nas listas dos portadores da doença. Portanto, apenas as pessoas daltônicas – doença chamada atualmente nos EUA de color blindness ou cegueira de cores – poderiam ver seus quadros da forma como ele os imaginou.

O oftalmologista e biotecnólogo japonês Kazunori Asada desenvolveu um programa (há versões para iPhone, iPad, iPod e Android), que simula a visão dos três tipos conhecidos de daltonismo. Van Gogh sofreria do tipo mais comum de daltonismo, a protanopia, que resulta na impossibilidade de discriminar cores no segmento verde-vermelho do espectro. O professor Asada também acredita que Van Gogh sofria deste tipo de daltonismo e, abaixo, temos a aplicação de seus programas de filtragem de cores às pinturas do holandês. Assim, podemos comparar as pinturas como elas são (sempre as primeiras) e como Van Gogh as via (abaixo). Com isto, o cientista pretende mostrar às “pessoas normais” como o autor via seus quadros. Alguns autores apenas citam a forma como Van Gogh evitava o verde, o verde vivo, o vermelho, o rosa e o bege. As cores que mais usa são o amarelo e o azul, que são vistas da mesma forma por quem é ou não daltônico. Os pares de imagens, assim como as observações abaixo delas são do artigo Mirando las obras de Van Gogh con sus propios ojos.


“A Colheita”. No original, o que deveria ser um campo de trigo, é de cor laranja, e acima temos linhas verdes em que mesclam à luz solar. Para os daltônicos, a sombra no trigal dá profundidade à cena. O sol poente tem um ar mais outonal. “


Em “A Noite Estrelada” a força está no contraste da obscuridade e das estrelas. As nuvens e a paisagem são iluminadas pela luz branca da lua. “


Cada uma das pedras da calçada parece mais sólidas. O terraço da cafeteria emerge com mais profundidade na noite sem lua.


A cena do jardim adquire uma realidade fotográfica. Ganha profundidade, dá a impressão de estarmos num mirante.


Aos nossos olhos na pintura da dama com sombrinha cruzando a ponte, esta se reflete no rio de forma surrealista. No entanto, na simulação, tudo se torna mais realista. A superfície da água brilha nas pequenas ondulações. “


Auto-retrato. Dá a impressão de um homem pouco sociável. É uma figura sofrida, distante e orgulhosa.

Nota: O simulador pode ser baixado gratuitamente aqui. É possível utilizá-lo em quaisquer fotos ou imagens em “.jpg”.

(*) Nota final do autor: Sou daltônico — sofro também de protanopia — e posso garantir que percebo quase nenhuma diferença entre as imagens. Dá para dizer que são pares de cópias perfeitas. Desde pequeno, pintava noites com o céu roxo e minhas professoras me advertiam que não era bem assim. Eu ficava muito contrariado. Então, as observações a cada dupla de fotos foram resultado de tradução de artigo Prof. Asada e de discussões em casa e na redação do Sul21. Não opinei, claro. Como o faria?

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Meus encontros com Kafka

Meus encontros com Kafka

franz-kafka

No livro de ensaios Reflexo e Realidade, de Otto Maria Carpeaux (1900-1978), há uma deliciosa e emocionante narrativa que descreve os encontros do autor com Kafka. Imaginem que Carpeaux recusou ser pago através de toda a primeira edição de um romance encalhado. Tratava-se apenas de O Processo. Se tivesse aceitado, seria milionário, quem sabe? Mas este é apenas um dos muitos comentários do esplêndido texto de Carpeaux.

Por Otto Maria Carpeaux

“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”

Esse diálogo, que certamente não é dos mais espirituosos, foi meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao ser apresentado a ele, não entendi o nome. Entendi Kauka em vez de Kafka. Foi um equívoco.

Hoje, o “Kauka” daquele distante ano de 1921 é um dos escritores mais lidos, mais estudados e — infelizmente — mais imitados do mundo. Mas só Deus sabe quantos são os equívocos que formam essa glória. O romancista de “O Processo” é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; e para outros o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; e para mais outros o porta-voz da angústia religiosa desta época; e para mais outros o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para mais outros um exemplo interessante do Complexo de Édipo, etc., etc., etc. Tudo, em torno de Kafka, é equívoco. Equívoco também foi aquele meu primeiro encontro com “Kauka”.

Foi em 1921, em Berlim. Embora só contando os anos do século, eu já tinha passado por duras experiências de guerra e revolução. Estudante universitário, agora, que sonhava com uma carreira literária. Berlim, naqueles anos do primeiro pós-guerra, foi um centro de vanguardas: expressionismo, dadaísmo, os primeiros pintores abstracionistas, simpatizantes do comunismo e fundadores de seitas religiosas e vegetarianas, uma boêmia na qual os jovens austríacos desempenhavam papel grande e barulhento — e alguns grandes escritores de verdade: Döblin, Arnold Zweig, Werfel. No Café Românico, centro da boêmia, esses homens feitos ocupavam mesas especiais, de que ninguém ousava aproximar-se sem ser especialmente convidado; o que não aconteceu nunca. Olhávamos para lá com inveja, escutando para apanhar, talvez, um pedaço de conversa. Rara foi a oportunidade de um convite para as tardes de domingo, no apartamento de um ou outro daqueles escritores, no bairro boêmio, mas elegante, do Bayrischer Platz, hoje um montão de ruínas. E numa dessas tardes cheguei a conhecer pessoalmente Franz Kafka.

Conheci poucos entre os presentes. Fui sumariamente apresentado. Sentindo-me um pouco perdido no meio dessa gente toda, não tendo a coragem de aproximar-me do centro da reunião, da grande e belíssima atriz D. F. — que tinha fama de Messalina — retirei-me para um canto já ocupado por um rapaz franzino, magro, pálido, taciturno. Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. E então se desenrolou “aquele” diálogo:

“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”

Foi este o começo e o fim do meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao sair do apartamento, perguntei a meu amigo e introdutor: “Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca?” Respondeu: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância”.

II

Kafka e o amigo Max Brod
Kafka e o amigo Max Brod

Meu segundo encontro com Franz Kafka, talvez cinco anos mais tarde, foi outra vez em Berlim, no escritório de uma casa editora. Antes de ir para a Itália, onde continuei os estudos universitários, tinha feito alguns trabalhos para aquela editora, chamada Die Brücke (A Ponte), mas nunca consegui receber dinheiro. Voltando para Berlim, em 1926, ouvi que a casa acabava de entrar em falência. Fui para lá. O diretor me deixou esperar na antessala, mais de meia hora. Num cantinho vi um montão de livros, todos iguais. Tirei um exemplar, abri: “O Processo”, romance de Franz Kafka. Distraído, comecei a ler sem prestar muita atenção, quando o ex-diretor da ex-Brücke me bateu nas costas.

“Pagar não posso, querido”, dizia o homem, “mas se você quiser, pode levar, em vez de pagamento, esse exemplar e, se quiser, a tiragem toda. O Max Brod, que teima em considerar gênio um amigo dele, já falecido, me forçou a editar esse romance danado. Estamos falidos. Nem vendi três exemplares. Se você quiser pode levar a tiragem toda. Não vale nada”.

Fiquei triste. Tinha esperado um pagamento de 130 marcos, e o homem me quer dar seu encalhe. Agradeci vivamente, e com certa amargura. Mas levei comigo aquele exemplar que já tinha aberto.

Foi a maior burrice de minha vida inteira. Toda aquela tiragem foi vendida como papel velho e inutilizada. Um exemplar da 1ª edição de “O Processo” é hoje uma raridade para bibliófilos. Nos Estados Unidos paga-se mil dólares por um livro desses, ou mais. Se eu tivesse aceito o presente, seria hoje milionário… Aliás, fugindo da fúria nazista, em Viena, março de 1938, perdi minha biblioteca inteira, que foi depois confiscada e dispersada. Mas cheguei, mais tarde, a receber na Bélgica um grupo de volumes que tinha, pouco antes do desastre, emprestado ao cônsul geral dos Estados Unidos em Viena e que este fez questão de devolver ao legítimo dono. Um desses livros foi aquele exemplar da 1ª edição de “O Processo” que, desse modo, fica até hoje comigo. E não me pretendo separar jamais do livro, pois foi meu segundo encontro com Kafka.

Li mesmo, naqueles dias distantes de 1926, “O Processo”; a história de um homem, de vida normalíssima, que é, certo dia, preso por esbirros de um tribunal desconhecido, interrogado em porões sinistros, denunciado por ter cometido crime do qual ignora a natureza, instruído numa catedral escura e vazia que “a culpa sempre está acima de todas as dúvidas”, condenado e executado. Li, sem compreender o alcance e significação do relato. Mas impressionou-me fundo o ambiente do romance, as ruas estreitas, as casas decaídas e sinistras, a catedral escura e vazia, a irrupção do incompreensível e irracional em nossa vida de rotina. O romance deu-me a impressão do déjà vu: quando nos encontramos, no sonho, numa paisagem onde nunca estivemos e que, no entanto, nos é estranhamente familiar, como se já a tivéssemos visto. Um pesadelo.

Deu-me a mesma impressão no segundo romance, “O Castelo”, que saiu naqueles dias, levando à beira da falência mais outra editora. A história de um homem que pretende fixar residência numa cidade tiranicamente dominada pelos senhores do imponente castelo em cima da colina. Não lhe dão permissão para ficar. Só precariamente lhe toleram a existência incerta. É uma luta desesperada, e a autorização de residir, só a alcançará o homem na agonia. Outro mau sonho, do qual custou despertar.

Nesse meu segundo encontro com Kafka despedi-me dos seus livros com a firme convicção de se tratar de visões de extrema irrealidade. Como se Kauka estivesse morto e Kafka, nunca existido.

III

praga-kafka

Descobri a realidade de Kafka em Praga: onde nunca antes estive.

Naqueles anos, fiz várias vezes a viagem Berlim-Viena, ida e volta, passando por Praga. Mas nunca antes me ocorrera saltar do trem na Estação Presidente Wilson, situada fora da cidade, que mal vi de longe, as luzes noturnas ou então a névoa fina da madrugada.

Numa madrugada assim — parece que foi em 1930 — assaltou-me a vontade de descer do trem para ver a cidade. Não sei o tcheco, e tinham-me dado o conselho de falar francês, de preferência ao alemão, pois era tensa a atmosfera em Praga; quase todos os dias, choques violentos entre tchecos e alemães. Cheguei no centro da cidade justamente para assistir a um choque de rua, mas foi de antissemitas contra judeus, odiados pelos tchecos porque costumavam falar alemão, e odiados pelos alemães porque eram judeus. Contaram-me um pequeno diálogo entre dois judeus praguenses:

— Veja como estamos sendo perseguidos.
— Em compensação, somos o povo eleito por Deus.
— Mas eu acho que já está na hora para Deus eleger um outro povo…

Vi, na Cidade Velha de Praga, um desses judeus, à porta de sua loja, esperando fregueses, uma cara em que milênios de perseguição e de estudo talmúdico tinham inscrito mil rugas, mas a boca cheia de sarcasmo e nos olhos um ar de grande suficiência, um complexo de superioridade. Um velho assim, intolerante como o diabo por causa da intolerância diabólica dos outros, deve ter sido o severo pai de Kafka, subjugando o filho – e assim encontrei a imagem de Kafka nas ruas estreitas e entre as sinistras casas decaídas em torno da sinagoga onde, conforme velha lenda, um rabino medieval tinha construído o Golem, um homem de barro, vivificado por um pedaço de papel com o secreto nome de Deus na boca. Certamente, uma daquelas lojas tinha pertencido ao velho Kafka. Certamente, nos porões daquelas casas tinha-se reunido o misterioso tribunal que condenou à morte o inocente culpado de “O Processo”… Preferi fugir desse ambiente.

Mas Praga é Praga. É uma das cidades mais belas do mundo. Atravessando o rio, o Vltava imortalizado pelo poema sinfônico de Smetana, levantei, na ponte, os olhos e vi lá em cima na colina o enorme Hradschin, o antigo Palácio Real, muito perto e no entanto parecendo inacessível nas alturas; e reconheci o “Castelo” de Kafka. Subi. Entrei, ao lado do castelo, na catedral gótica de São Vito, escura e vazia: e reconheci a igreja na qual o condenado, no Processo”, ouve a voz da Lei. Enfim, eu tinha encontrado a realidade atrás daquele sonho fantástico.

Foi este meu terceiro encontro com Franz Kafka. Tinha-o reconhecido como filho de sua cidade de Praga, que lhe foi madrasta: o homem era austríaco, alemão, tcheco e judeu ao mesmo tempo, tipo dos “displaced persons” cujo lamento enche este nosso século. Kafka antecipara o destino de milhões de judeus e alemães, italianos e franceses, holandeses, poloneses e russos, “displaced persons” todos eles. E por isso tinha ele sentido tão bem que o próprio gênero humano é uma “displaced person” no Universo. E sua obra estava destinada a tornar-se expressão simbólica da angústia do nosso tempo.

Entreato

Pouco depois, eu mesmo era “displaced person”. Vim, enfim, para o Brasil, onde escrevi, salvo engano, o primeiro artigo em língua portuguesa sobre Franz Kafka. A repercussão foi considerável. Não teria sido tão grande se não começasse, logo depois, a “onda de Kafka” nos Estados Unidos e, depois, no mundo inteiro. E tão imitado se tornou o escritor de Praga que, enfim, se chegou a confundir o original e as cópias, até nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade, secamente acertando como sempre, notar: “FRANZ KAFKA, escritor tcheco, imitador de certos escritores brasileiros”.

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Kafka y Praga, de Harald Salfellner

A edição da Vitalis

Este livro foi publicado em português pela editora carioca Tinta Negra, mas eu desconhecia a existência da obra. Vi-a pela primeira vez em fevereiro deste ano, no bairro judeu de Praga. Eu estava na lojinha de uma sinagoga e Franz Kafka y Praga (Vitalis, 120 páginas) estava lá em checo, alemão, inglês e espanhol. Comprei imediatamente a tradução hermana. O livro é bom e inclassificável. É um livro de viagens, mas também tem muito de história e de literatura. Quando digo que tem muito, quero dizer que é muito mesmo. Ou seja, o livro desagradará o turista desinteressado em Kafka ou alguém que não quer saber da história de Praga. Os inversos, em qualquer sentido, também são verdadeiros. O livro sustenta-se firmemente nestas três pernas. Por isso é tão curioso e talvez por isso seja tão lido e vendido em lojinhas de turistas e em livrarias.

Os diários e cartas de Kafka comprovam uma importante relação com a cidade, um verdadeiro amor. Há relatos de caminhadas longuíssimas, roteiros, descrições de locais, de parques, de ruas, de casas, do Castelo de Praga — onde ele, por um período, escreveu à noite numa tranquila ruela do castelo, fechadíssimo em um pequeno quarto de uma casa alugada por sua irmã, pois precisava de silêncio para trabalhar –, além de  subidas pela velha escadaria do castelo, missão que fazia diariamente e que não é para qualquer sedentário. É um belo livro, com centenas de fotos, algumas infelizmente colorizadas.

Em Kafka y Praga, o escritor pode ser visto de uma perspectiva diferente. Céus, quantas vezes aquela família se mudou, quantos endereços, pareciam gostar de carregar coisas! Outras coisas que, acho, não se notam em seus livros, são a profunda ligação do escritor com a cultura judaica, tão importante em Praga, e suas amizades com muita gente. Eu sempre tive a impressão de um escritor insular, kafkianamente ensimesmado, quase apartado do mundo, lendo A Metamorfose entre risadas para poucos conhecidos, mas Kafka dava palestras, ia quase diariamente a cafés e namorava bastante. Vender livros era o que não conseguia… E procurava com grande afinco um lugar tranquilo para escrever e reclamava, ao menos em seus diários, que os vizinhos, todos e via de regra, eram sempre insuportáveis. Só havia barulho no mundo. Salfellner também conta a luta dos checos — às vezes nas ruas — para afirmarem sua cultura e língua em uma cidade de pesada presença alemã. Lembrem que o escritor ainda escrevia em alemão e até hoje, na cidade, as pessoas que desejam falar conosco tentam em primeiro em checo e depois a pergunta é Sprechen sie Deutsch? Parece que a segunda língua é o inglês só para os mais jovens e para os que se envolvem com o turismo.

Enfim, se você quer um livro de curiosidades sobre Kafka e sobre a história de Praga na virada do século, este é bem bom. Mas, se você estiver indo a Praga, não deixe de adquirir o livro do Lonely Planet sobre a cidade. Este sim é indispensável.

Kafka e a Ponte Carlos

O astrólogo da Corte calculou o dia exato. O Imperador Carlos IV deveria colocar a primeira pedra ao pôr-do-sol no nono dia do sétimo mês de 1357, exatamente às 17h31. A obra só terminou no século XVI, duzentos anos depois. Provavelmente, a construção sofreu interrupções, pois não é muito grande. Mas o astrólogo tinha razão, desta vez ela não caiu, justificando todo o cuidado.

Kafka tinha com Praga um caso semelhante a Machado de Assis com seu bairro de Cosme Velho, na zona sul do Rio de Janeiro: o checo nunca abandonou a cidade e circulava em um perímetro pequeno dela, que já não é muito grande. No Museu Kafka, descobri uma coisa que não sabia — minha filha Bárbara chamou minha atenção para o fato: Kafka era um contumaz namorador, teve inúmeros casos. As tchecas são muito bonitas e também são assim as namoradas do escritor. A menos bela era a preferida da família, Felice; a mais bela era a preferida do escritor, Julie ou Julia, não lembro bem. Seu pai Hermann fez tudo para separar o casal, pois a moça não era judia. Conseguiu. Mas tergiverso.

(Tergiversando um pouco mais: a música de Praga é o jazz. Há grupos de jazz tanto sobre a Ponte quanto nos bares e teatros. Acho incrível).

Estou lendo um livro sobre a Praga de Franz Kafka que comprei naquela cidade — calma, o livro é em espanhol — e descubro que o autor passava mais de uma vez por dia pela Karlův most, ou a Ponte Carlos. Mais: descubro que, antes de completar 20 anos, rabiscou para si mesmo o poema abaixo, sem título, mas em honra a um dos lugares mais belos que conheço.

Homens, que cruzam pontes escuras
passando junto a Santos
ornamentados por débeis luzes.

Nuvens, que correm pelo céu cinzento
passando junto a igrejas
com mil torres que condenam.

E alguém, apoiado no parapeito de alvenaria,
que olha na água da noite,
suas mãos sobre velhas pedras.

(tentativa de tradução por Milton Ribeiro)

Tolstói: o genial escritor que fugiu de casa aos oitenta e dois anos

Tolstói em seu escritório (Clique para ampliar)

Publicado no Sul21 em 8 de setembro de 2012 

Liev Tolstói foi o primeiro grande injustiçado pelo Prêmio Nobel. Nascido em 9 de setembro de 1828, o escritor russo viveu até 1910 — o prêmio começou a ser entregue em 1901 — e, em seus últimos anos de vida, já era uma figura incontornável não apenas da literatura russa, mas da mundial. Ele foi um dos primeiros a entrar numa importante lista de não ganhadores que depois ganharia outros nomes notáveis como Marcel Proust, James Joyce, Vladimir Nabokov, Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Machado de Assis, Émile Zola, Henrik Ibsen e Paul Valéry, para citar alguns. Obviamente, alguns destes nomes apenas tornaram-se importantes post mortem ou, como Machado de Assis, escreviam em línguas menos traduzidas, mas o caso de Tolstói foi bastante estranho, pois, como dissemos, o escritor viveu grande parte de sua vida como uma indiscutível celebridade. Nada mais merecido.

Anton Tchékhov e Tolstói em Iasnaia Poliana

Caso semelhante ao de Dostoiévski, Tolstói foi por anos lido no Brasil em traduções de segunda mão. Isto é, como não havia no país tradutores de russo, ambos eram traduzidos do francês… Apenas nos últimos 30 anos, começaram a aparecer as traduções diretas do russo, as quais revelaram o descuido e o desrespeito com que eram tratados estes autores, além de muitos outros. O elogio mais comum feito a Tolstói era o de que se tratava de um estilista absolutamente impecável. O tradutor Rubens Figueiredo, que recentemente traduziu para a Cosac & Naify seus três principais romances — Anna Kariênina, Guerra e Paz e Ressurreição — obrigou-se a escrever uma série de explicações a respeito de certas estranhezas em seu texto. Ocorre que no original há repetições de palavras bem próximas umas das outras, procedimento que Figueiredo criteriosamente manteve, mas que os antigos tradutores não admitiam. Por exemplo, nas páginas 241-242 de Anna Kariênina (Cosac & Naify) há um parágrafo de quase uma página onde a palavra “camponeses” aparece 15 vezes. Tais repetições não devem ser confundidas com descaso.  “Gosto daquilo que chamam de incorreção. Ou seja, daquilo que é característico”, dizia Tolstói.  Também o uso de parênteses eram corrigidos pelos tradutores do passado, assim como as frases, muitas vezes longuíssimas, acabavam particionadas.

A famosa edição da Livraria do Globo, em dois volumes (Clique para ampliar)

Desta forma, um dos caminhos para estarmos mais próximos do autor russo é o de procurar as traduções feitas diretamente do original e ignorar as antigas traduções da Editora Globo para Guerra e Paz e Kariênina, por exemplo, as quais traziam um autor distorcido, com maior elegância e polimento do que o original. Pois para expressar o pensamento mais simples de alguns mujiques — os camponeses russos — , Tolstói se utilizava de pouco requinte e de um vernáculo mais limitado. O escritor russo também pensava que, em alguns casos, as repetições davam mais coesão e clareza a certos trechos.

Nestes dois grandes romances, Tolstói demonstra sua arte de forma inequívoca. Ele foi um perfeito contador de histórias polifônicas. Trabalhava com muitos personagens, as interações entre eles, suas ações e pensamentos nunca são artificiais e, de forma profundamente humana, até as paisagens descritas passam pelo filtro do estado de espírito de quem as observa. Guerra e Paz e Anna Kariênina são belíssimas sinfonias para muitas vozes.  Chama atenção o caminhão de realismo despejado pelo autor sobre seus personagens. Anna, por exemplo, está a léguas de poder aspirar a uma condição de boa pessoa do século XIX ou de qualquer tempo. Na época, ser virtuoso era o que mais contava e ela, passando por cima de Kitty e largando seu marido por pura concupiscência, renegando a filha ainda bebê e sendo suscetível a atitudes muito impulsivas, está longe do ideal virtuoso. Para completar, encontra justificativas para quase todos os seus atos, porém Tolstói não esboça o menor gesto de justificá-la assim ou assado.

Tolstói e Gorki também em Iasnaia Poliana. Foto de 1910. (Clique para ampliar).

Já as novelas Sonata a Kreutzer e A Morte de Ivan Ilitch são o extremo contrário. Focadas, com poucos personagens e devastadora análise psicológica, a primeira fala sobre o casamento, a infidelidade e a hipocrisia social e a segunda sobre a morte. Em agosto de 1883, duas semanas antes de falecer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói: “Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte à literatura”. Tolstói era efetivamente dado a passar longos períodos sem escrever e, diante do pedido do amigo, respondeu com a angustiada consciência do irrepreensível juiz Ivan Ilitch em breves 85 páginas. No texto, é mostrado um rigoroso acerto de contas interno, revelando a inutilidade da vida de Ivan. Preso ao leito, frente à morte certa, Ivan Ilitch vê como a rotina, nosso mais pesado algoz, e a vida burguesa impediram-no de apenas… pensar.

Se considerarmos sua obra como ficcionista, chegaremos à conclusão de que quase tudo aquilo que criou ainda é lido. Os três romances citados, mais as novelas A felicidade conjugalSonata a Kreutzer e A morte de Ivan Ilitch, além de relatos autobiográficos e de contos populares são a parte principal de sua obra. Tolstói foi romancista, novelista, contista, ensaísta e dramaturgo. Mas também foi o filósofo criador do tolstoísmo, uma forma de vida pastoral e pacifista que hoje nos parece bastante aparentada da forma de vida dos hippies dos anos 60 do século XX.

Imagem do excelente A Última Estação, com Christopher Plummer (Tolstói) e Helen Mirren (Sônia) | Foto: Divulgação

Atualmente, o lado filósofico e a vida pessoal de Tolstói fazem a festa de outros autores, de filmes e séries de TV. Só para citar os casos mais conhecidos: em Diário de uma Ilusão, de Philip Roth (cujo título original é The Ghost Writer, o que nos faz pensar nos critérios dos antigos tradutores de nosso retratado), há um capítulo intitulado Casado com Tolstói, que se refere ao contumaz sumiço de um dos cônjuges.  Também houve o bom filme A última estação, onde vemos as causas de uma das tais fugas. É que, para além de ser um gênio, o escritor russo era um puro. Tão puro que gerava suspeitas. Em 1856, ele, que fazia parte da nobreza russa, libertou todos os seus servos e doou-lhes as terras onde trabalhavam. Estes, porém, desconfiados, devolveram as propriedades ao ex-dono. Ele tinha, aliás, uma recorrente inclinação de desfazer-se de seus bens materiais, inclinação que não estava de acordo com a opinião de sua esposa Sônia.

O escritor em 1848

No final da década de 1850, preocupado com a péssima qualidade da educação no meio rural, Tolstói criou uma escola para filhos de camponeses na aldeia onde nasceu e viveu, a célebre Iasnaia Poliana. O escritor mesmo escreveu grande parte do material didático e, ao contrário da pedagogia da época, deixava os alunos estudarem quando quisessem, sem regras excessivas e, estranhamente, sem punições físicas. Educar para libertar. Esse era seu norte pedagógico. Recentemente, parte do material criado para a escola por seu fundador foi traduzido do russo.  Contos da Nova Cartilha é o resultado desta incursão. A obra é uma coletânea de textos extraídos das duas cartilhas elaboradas por Tolstói. São fábulas, histórias reais, contos folclóricos, descrições de paisagens naturais e adivinhações. O estilo é conciso, aproximando-se do ritmo da linguagem oral.

Tolstói e uma de suas filhas (Clique para ampliar)

Em 1862, casou-se com Sônia Andreievna Bers, com quem teve 13 filhos. A qualidade do casamento seria melhor aferida por um sismógrafo. Foi neste ambiente que Tolstoi produziu seus principais romances. Guerra e Paz consumiu sete anos de trabalho e é a prova de que um mau casamento pode produzir bons frutos. O autor atormentava-se mais do que habitual em seres humanos com questões sobre o sentido da vida e, após desistir de encontrar respostas na filosofia, na religião e na ciência, deixou seduzir-se pelo estilo de vida dos camponeses. Foi o que ele chamou de sua “conversão”. Após a “conversão”, Tolstói deixou de beber e fumar, tornou-se vegetariano e passou a vestir-se como camponês. Convencido de que ninguém deveria depender do trabalho alheio para viver, passou a limpar seu quarto, a plantar a comida da qual se alimentava e a produzir as próprias roupas e botas. Suas ideias atraíram um séquito de seguidores, que se denominavam “tolstoianos”. Como resultado, Tolstói passou a ser vigiado pela polícia do czar.

Liev Tolstói e sua esposa Sônia em 1910, ano da morte do escritor

Porém, Sônia não o deixava alcançar a simplicidade. Ela lhe cobrava os luxos aos quais estava acostumada. Os filhos davam razão à mãe, que ameaçava matar-se quando o escritor dizia que fugiria de casa. A partir de 1883, houve uma disputa entre sua esposa e Tchértkov, um militar que gozava da confiança do autor e que se tornou um paladino de suas ideias na Rússia. Sônia foi nomeada controladora de seu patrimônio, combatendo o marido, que acreditava nos feitos purificadores da caridade. Obviamente, a bondade de Tolstói levou-o a afastar-se do governo, da justiça e da Igreja Ortodoxa russa; acabou excomungado.

Problemas em casa

No período final de sua vida, acentuou-se a briga entre Sônia e Tchértkov. Agora o motivo eram os direitos autoriais de seus livros. Em 1908, Tchértkov escreveu um testamento em nome de Tolstói, onde outorgava a si mesmo o direito sobre os livros após a morte do autor. O militar foi para história como um mal intencionado que se aproveitava da credulidade do autor de Guerra e Paz. Provavelmente mereceu tal má fama póstuma. O fato é que os anos próximos à morte do escritor foram um inferno familiar. O conflito com Sônia era tal que Tolstói fez o que já fizera em oportunidades anteriores: fugiu de casa. Sônia não se matou, na verdade foi mais uma vez atrás do marido fugitivo. Só que desta vez ele morreu em meio à fuga. Faleceu na aldeia de Astápovo, em 7 de novembro de 1910. Anos depois, Sônia recuperou para a família os direitos sobre a obra de seu marido.

Tolstói em seu leito de morte

Poema da gare de Astapovo, de Mario Quintana

O velho Leon Tolstói fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

7 de fevereiro: Praga III, ou o dia em que a Bárbara nos impediu de acabar em Brno

O dia de hoje foi dedicado aos judeus, começando pelo maior e mais importante deles: Franz Kafka. Iniciamos o dia fazendo aquilo que Gilberto Agostinho tinha nos desaconselhado: pegando um táxi, pois o local onde está o túmulo de Kafka resultaria numa caminhada de duas horas, achávamos nós, com razão.

Pedimos ao taxista que ele nos levasse ao novo cemitério judeu de Praga, fundado em 1890. Ele nos disse que a corrida nos custaria 200 coroas checas, algo em torno de R$ 20. Só que ele nos levou ao antigo cemitério, a umas dez quadras depois. Eu disse que não podia ser ali — a geografia de Praga é simples e no terceiro dia qualquer turista já pode apontar este tipo de erro. Mostramos-lhe o mapa e ele fez o sinal de OK, que nos levaria. Ao chegar lá, o preço já era de 450 coroas. Ensaiamos uma reclamação, mas o que fazer?

O que interessa é que o “novo” cemitério judaico é lindo e vale a visita. Já na entrada, há uma placa indicando “Dr. Franz Kafka”. Sim, porque ele era advogado, um doutor. A lápide é das mais simples do cemitério. Bem na frente, em um muro, uma pequena placa, homenagem do traidor Max Brod ao grande amigo de toda a vida. Explico o “traidor”: antes de morrer de tuberculose, aos 41 anos, Kafka pediu a Brod que destruísse todos os seus originais não publicados. A traição de Brod, ao publicar tudo o que encontrou, é que deu a exata noção da grandeza de seu melhor amigo. Se Kafka é o que é hoje, deve-se à sua genialidade e a Max Brod, grande Max Brod!

Na saída de lá, cometi um erro de observação do mapa dos bairros de Praga e, se não fosse a Bárbara, estaríamos em Brno neste momento. Para nos proteger de mim, ela escolheu um tram (bonde) que nos levou certinho de volta ao centro da cidade. Sim, táxis em Praga só para o aeroporto, diz a Primeira Lei de Gilberto Agostinho.

Já que estávamos na onde judaica, escolhemos ir atrás dos itinerários de Kafka na cidade. As referências do autor ao judaísmo não são bem aquelas que um fundamentalista citaria em suas perorações, porém Kafka viveu no gueto, no gueto judeu, onde ficam as principais sinagogas da cidade. Como morreu em 1924, não conheceu os nazistas, mas a geografia da cidade, com os judeus na curva interna do Moldávia, parece facilitar assustadoramente o uso da expressão gueto: o bairro parece ser facilmente encurralável.

Não é meu assunto, mas é notável que Kafka — assim como Machado de Assis em relação ao Rio de Janeiro — jamais tivesse saído de Praga. Pior: segundo testemunhos do próprio autor e de amigos, ele nunca teria se afastado demais de seu bairro. Mas, para quem gosta de paisagens, podemos dizer que seu itinerário era estupendo, incluindo a Praça da Cidade Velha, a Ponte Carlos e a hoje burguesíssima avenida Parizska.

Bem, vamos às sinagogas. Confesso que a religião não me toca muito e que não vi ali a beleza plástica das construções católicas de cidade. Vou um pouco mais à frente para dizer que as poucas mesquitas que conheci eram mais bonitas. Eu e a Bárbara simplesmente conversávamos sobre outros assuntos enquanto visitávamos as sinagogas. Nosso assunto principal era a neve, fato inédito em sua vida e que subitamente ocorrera logo defronte ao monumento de Kafka no bairro judeu.

Depois, voltamos à Praça da Cidade Velha para vermos os grupos de jazz — sim, na rua, sob zero grau –, o movimento do relógio astronômico e algumas exposições. Grande dia. Trago comigo um livro em espanhol sobre os itinerários e vida de Kafka na cidade. Vou ficar ainda mais insuportável.

Algumas fotos de hoje:

O túmulo de Kafka no “novo” cemitério judeu. Dentre os mais simples do local.
Em detalhe.
A tranquila beleza do cemitério onde se encontram os restos de K.
Túmulos e mais túmulos. Sim, é tudo meio bagunçado, mas bonito.
Outra vista em perspectiva, agora para o outro lado.
Algumas (muitas) lápides são bastante exóticas.
A estátua de Kafka na entrada do bairro judeu.
Ah, a neve chegando para a alegria dos brasileiros.
Mais neve!
O velho cemitério judeu, com túmulos de antes do século XIX — há lápides do século XVI — consegue ser muito mais bagunçado.
Vai lá e acha teu ancestral, ô meu!
E queriam nos cobrar para fotografar! Como somos brasileiros, não pagamos e tiramos fotos só de birra.
Jazz congelante — mas excelente — na Praça da Cidade Velha.
Euphoria e…
… as garrafas de absinto.

Gabriel García Márquez em seu labirinto

Publicado em 7 de julho de 2011 no Sul21

Voz distinta, autor de uma obra inimitável |  Foto: Richard Emblin/Nobel Prize.org

Gabriel García Márquez não escreverá mais. É o que disse ontem (6) seu irmão Jaime. Toda doença é lastimável, porém Gabo está preso a mais vulgar e injusta das enfermidades para um escritor, a demência senil. Ele está perdendo a memória e a arte literária que, sabemos, consiste muito em conseguir mapear, sentir e viver vários personagens. Há a necessidade do talento e da memória. Juntas. Como fazê-lo na senilidade? Claro que a senilidade é tão triste em García Márquez quanto em anônimos, porém como estamos acostumados a espreitar o mundo através do imaginário do escritor, a situação parece mais triste. Onde estará Aureliano Buendía, o que estará fazendo? E Florentino Ariza? Segue esperando? Pelo quê?

O irmão, Jaime García Marquez, informou ao El País sobre o estágio avançado de demência que provoca a perda de memória do colombiano. Ele conta que Gabo liga diariamente do México para sua casa, em Cartagena, a fim de recordar fatos corriqueiros que estão desaparecendo de sua mente em razão da doença. Fisicamente, no entanto, ele está bem. Jaime, 13 anos mais jovem do que Gabriel, de 84 anos, diz que a decrepitude chegou precocemente como decorrência da quimioterapia que lhe salvou de um câncer linfático em 1999. Com sua memória, explica Jaime, vai-se a genialidade.

O escritor teria dois romances parcialmente escritos: Tigra e Em agosto nos vemos. O primeiro conta a história de uma fêmea de tigre adotada por um caçador, um magnata de Nova York que matara sua mulher. De Em agosto nos vemos o escritor já teria feito várias versões. Mas, segundo Jaime, é possível que ele tenha destruído os manuscritos, já que costumava jogar numa trituradora de papel tudo que não lhe agradava.

Gabriel García Márquez recebendo um de seus muitos prêmios, em foto tirada pouco antes da quimioterapia de 1999

Em sua última novela, Memórias de Minhas Putas Tristes (2004), já havia claros sinais da decadência. Lançado no Brasil quase ao mesmo tempo que As Intermitências da Morte (2005), de José Saramago, era impressionante a comparação entre a vitalidade do português e o cansaço do colombiano, cuja brilhante e colorida literatura aparecia amenizada em tons que não eram seus. Deste modo, talvez seja melhor não conhecer estes dois últimos livros.

A relação de livros de Gabriel García Márquez é um atestado de uma grandeza que nenhum outro escritor vivo pode ostentar: Cem Anos de Solidão, A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada, Os Funerais da Mamãe GrandeO Outono do Patriarca, O General em seu Labirinto, O Veneno da Madrugada, Crônica de uma morte anunciada, O Amor nos Tempos do Cólera, Viver para Contar,  etc.

Seus trabalhos iniciais eram decididamente de inspiração kafkiana. Porém, em 1967, ele subitamente adquiriu voz distinta e saltou para a fama com Cem Anos de Solidão. De um ano para outro, García Márquez tornou-se um dos grandes nomes da literatura sul-americana, narrando a decadência e a indireção do continente com uma mistura de amargura e romantismo.  Tal característica foi lembrada na justificativa para o Prêmio Nobel de Literatura de 1982: “por seus romances e contos, nos quais o fantástico e o real são combinados em um mundo ricamente composto de imaginação, refletindo a vida de um continente e seus conflitos”. Macondo, a cidade sede da grande construção de García Márquez, deveria ser preservada em nossa memória como um reduto de loucos e sonhadores. Deveríamos decretar que nenhuma cidade latino-americana assim se denominasse, para que pudéssemos ali nos refugiar de nossa realidade às vezes assombrosa.  (Vide Paraguai).

Gabriel confirmava que fora levado à literatura por Kafka, mais exatamente por A metamorfose — lida em uma tradução de Jorge Luis Borges. Ele disse que aquilo mudou sua vida: o tom lembrava o das histórias contadas por sua avó. “Eu não sabia de alguém que tivesse coragem de escrever daquela forma ou que se sentisse autorizado a tanto. Se soubesse, teria começado a escrever há muito mais tempo”. Também era um grande admirador de William Faulkner — sua fictícia Macondo é devedora da impronunciável Yoknaputawpha County do norte-americano.

García Márquez, ou simplesmente Gabo, completou os primeiros estudos em Barranquilla e Zipaquirá. Por insistência dos pais, começou o curso de direito na Universidade Nacional de Bogotá, mas logo enveredou para o jornalismo, assumindo uma coluna diária no recém-fundado jornal “El Universal”. Nunca se graduou em nada. Mudou-se para o “El Espectador”, onde se tornou um reconhecido cronista e repórter. Em 1955, viajou para a Europa como correspondente do jornal, após a publicação de uma extensa reportagem, “Relato de um Náufrago”, que desagradou ao governo do general Roja Pinillas.

Gabo, sorridente, como  sempre. | Foto: Jose Lara/Flickr

No final dos anos 50, de volta às Américas, trabalhou em Caracas, em Cuba, onde passou seis meses, e em Nova York, dirigindo a agência de notícias cubana Prensa Latina. Em 1960, García Márquez mudou-se para a Cidade do México e começou a escrever roteiros de cinema. No ano seguinte, publicou Ninguém Escreve ao Coronel e, em 1962, O Veneno da Madrugada, que ganhou o Prêmio Esso de Romance, na Colômbia.

Em 1966, segundo depoimento do escritor mexicano Carlos Fuentes, quando voltava do balneário de Acapulco para a Cidade do México, García Márquez teve o momento de inspiração para escrever o romance que ruminava há mais de uma década. Largou o emprego, deixando o sustento da casa e dos dois filhos a cargo da mulher, Mercedes Barcha. Isolou-se pelos 18 meses seguintes, trabalhando diariamente por mais de oito horas. E assim criou sua obra mais conhecida, Cem Anos de Solidão — unânime obra-prima da literatura mundial.

Ali, García Márquez — que já era um narrador poderoso em livros anteriores — estabeleceu algumas características que o acompanharam em livros posteriores. O uso estético de exageros inadmissíveis na realidade; os elementos fantásticos percebidos como normais pelos personagens e pelo autor; o tempo sentido como cíclico, não linear, para que o presente se repita ou se pareça ao passado. E a poesia, grandes poesia e compreensão humana. Era um autor muito particular. Trazia tantas novidades que foi o epicentro do boom da literatura latino-americana no mundo inteiro. Foi imitadíssimo, sem sucesso.

O escritor retornou ao jornalismo em 1999, quando passou a dirigir a revista “Cambio”. Em 2002, publicou “Viver Para Contá-la”, primeiro volume de sua autobiografia que ficará incompleta. Alguns de seus textos foram adaptados para o cinema, como Eréndira, de 1983, estrelado por Cláudia Ohana e dirigido por Ruy Guerra, e O Amor nos Tempos do Cólera, de 2007, dirigido pelo inglês Mike Newell, e com a participação de Fernanda Montenegro.

Plínio Apuleyo Mendoza, jornalista e escritor de Cheiro da goiaba, que reúne memórias de García Márquez, disse à revista digital Kienyke que o autor já não reconhece mais as pessoas pela voz.

Um autor profundamente latino-americano, como reconheceu a Academia Sueca | Foto: Scott Dalton/For The Chronicle/HC

Mendoza contou que telefonou para o amigo no último dia 6 de março, em seu aniversário de 85 anos, mas que ele não pode falar. “No dia que completou 85 anos, liguei para García Márquez mas não falei com ele. Conversei com Mercedes [Barcha, sua esposa] e ela preferiu não passar o telefone porque ele não reconhece mais vozes”, afirmou o jornalista.

Ainda segundo Mendoza, da última vez que conversaram, já há alguns anos, o escritor esquecia coisas e perguntava repetidamente “quando eu chegara e onde estava hospedado”, em compensação, “quando fomos almoçar, lembrava de coisas muito antigas de 30 ou 40 anos atrás, remotas”. O jornalista também recordou que tanto a mãe do escritor como um de seus irmãos, que já morreram, sofreram do Mal de Alzheimer.

Anotações sobre sexo no Ulysses de Joyce (Primeira parte de três, quatro ou mais)

Um pouco mais revisado.

A única exigência que faço a meu leitor é que dedique a vida inteira à leitura de minhas obras.
(The only demand I make of my reader is that he should devote his whole life to reading my works).

JAMES JOYCE

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Esta é uma piada de Joyce, mas tem gente que se assusta muito com ela e mais ainda com aquilo que é dito sobre Ulysses. Se quiséssemos estabelecer uma categoria de livros mais elogiados, citados, incensados e menos lidos, Ulysses, de James Joyce, talvez encabeçasse a lista. Este é um fenômeno que surpreende, pois contrariamente a, por exemplo, O homem sem qualidades, de Musil, Ulysses é um livro escandalosamente colorido, engraçado e divertido. E sexual. Uma leitura desatenta torna certamente o livro uma chatice, uma leitura interessada já basta para torná-lo um grande romance, mesmo que não se queira entrar nos enigmas e quebra-cabeças que manterão os professores ocupados durante séculos, conforme disse o autor. A leitura 100% compreensiva talvez seja inalcançável ao leitor comum, porém, como sublinhou Karen Blixen (Isak Dinesen), não há nenhum problema em não entender inteiramente um escrito poético. Obviamente, Ulysses se beneficia com outras leituras, com a crítica, com consultas e com uma vasta cultura, porém, como assegura o tradutor da última versão brasileira, Caetano Galindo, Ulysses pode ganhar mais se for apresentado sozinho, sem notas explicativas. É importante lembrar que Ulysses é, em primeiro lugar, um romance, um dos maiores de todos, não um quebra-cabeça. Isto não anula de modo algum todo o aparato que costuma cercá-lo, apenas diz que tal parafernália pode estar em outro lugar que não atrapalhando a leitura.

O habitual é que as pessoas se aproximem de Ulysses com cuidado. Livro difícil, cheio de armadilhas. Tudo se passa num só dia, em 16 de junho de 1904. São 18 capítulos, cada um com aproximadamente uma hora de ação; cada um escrito num estilo diferente; cada um deles sendo uma paródia de um episódio da Odisseia de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo humano é alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas, como escreveu o ensaísta Idelber Avelar.

Porém, a história não pode ser mais simples e Joyce ufanava-se do fato de seu romance ter quase nada de trama. Naquele dia, hoje conhecido como Bloomsday, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia pelas margens do Liffey; Leopold Bloom, vendedor, efetivamente muito pouco atormentado pelas repetidas traições de Molly, sua mulher, toma café da manhã, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a uma carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando Gerty MacDowell tendo por background um ofício religioso, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim; Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim.

Não lembro quem utilizou esta imagem, mas ela é bastante eficaz para demonstrar as diferenças de Joyce em relação a um autor muito mais lido, Franz Kafka. Imaginem a literatura moderna dentro de um modelo matemático de abscissas e ordenadas, um modelo plano, simples e, principalmente, redutor. Considerem que a gente deva colocar os autores espacialmente e que a abscissa seria o grau de complexidade narrativa e a ordenada seria a complexidade dos temas. Pois bem, então comparemos Joyce com outro autor canônico, Franz Kafka. Enquanto Joyce cria histórias rotineiras dentro de narrativas complexas, Kafka seria sua antítese, com narrativa mais convencional, porém, com temas e histórias insólitas e — para repetir o termo e dar exatidão matemática (?) à analogia — , complexas. Em nosso modelo, eles estariam bem longe um outro. É claro que estamos desconsiderando uma importante terceira dimensão, o arsenal de referências joyceano e uma quarta, o grau de representação social. Sem esta última, certamente não comemoraríamos o Bloomsday.

No Brasil, Ulysses foi traduzido três vezes. A primeira tradução foi a que o filólogo Antônio Houaiss fez em 1966 para a Civilização Brasileira. Foi com ela que conheci o extraordinário romance. Até hoje, foram 21 edições e este Ulysses ainda está no catálogo da editora ao preço de R$ 80. Li o livro aos 22 anos, quando muita gente dizia que era um livro para ser lido apenas aos 40, com maior vivência, maturidade, etc. Para mim, naquela idade, seria absolutamente incompreensível. Não foi, mas o mérito não foi meu. Ulysses não um livro fácil, mas sua inacessibilidade é um mito. Foi com a tal maior vivência que li a segunda tradução, da filósofa, professora emérita e tradutora Bernardina da Silveira Pinheiro. É uma tradução mais coloquial e menos pudica que o intrincado e envergonhado trabalho de Houaiss. A edição é da Objetiva e custa dez centavos a menos que a da Civilização Brasileira. Em 2012, tivemos a terceira tradução, do professor e doutor em linguística Caetano Galindo para a Penguin / Companhia das Letras. O preço é simpático, apenas R$ 47. Esta última tradução é superior às duas anteriores. Coloca-se entre a Ítaca do coloquialismo de Bernardina e a possível Troia de Houaiss. De bônus, traz um excelente ensaio do crítico irlandês Declan Kiberd, uma das maiores autoridades em Joyce, um sujeito que escreveu um best seller de crítica literária chamado Ulysses and Us.

Abaixo, a primeira tradução francesa do romance com autógrafo do autor. Aliás, esta tradução foi revisada por Joyce. O livro me foi emprestado por seu dono, o poeta e romancista Fernando Monteiro.

.oOo.

Odisseu, rei de Ítaca, casado com Penélope, depois de ter se distinguido durante dez anos na guerra contra Troia, está voltando para casa, passando por uma série de aventuras e provações, ficando muitas vezes à mercê de feiticeiros, monstros e deuses vingativos. Penélope o aguarda fielmente, embora assediada por pretendentes (sempre tão gentis, diria Chico Buarque) que aguardam no banco de reservas, ansiosos por entrarem em campo no lugar do marido desaparecido. Seu filho, Telêmaco, aconselhado pela deusa Palas Atena, sai em busca do pai. Em resumo, temos as aventuras do herói Odisseu em sua volta à pátria, a fidelidade da mulher ao marido ausente e um filho à procura do pai.

Desenho de Leopold Bloom, de James Joyce (clique para ampliar)

Pois então abrimos Ulysses e vemos a paródia da Odisseia de Homero. A Penélope de Joyce, Molly, cujo nome de nascimento é Marion Tweedy), não é nada fiel. Stephen Dedalus (Telêmaco), embora insatisfeito com o pai que tem, não está atrás de outro. (Na verdade, Bloom pranteia um filho morto,  Rudy, e deseja que Stephen vá morar com ele e Molly). Bloom é um Ulisses nada heróico, um judeu irlandês de vida comum, que sabe de Molly e Blazes Boylan, mas não pretende lavar a honra com sangue. O livro, aliás, não possui situações extremas e apenas se atém a um imenso leque de experiências cotidianas. Sim, mas e o sexo?

Zurique, 1918. Nora Barnacle Joyce com os filhos Giorgio e Lucia.

Joyce refere-se a ele já no primeiro enigma do romance: a escolha da data. Por que 16 de junho de 1904? Ora, porque foi nesse dia que Nora Barnacle fez de Joyce um “homem de verdade”. Alguns críticos consideram que o livro seria uma espécie de declaração de amor que o escritor fazia a sua esposa e amante. No dia 16 de Junho de 1904, o casal saiu para um passeio pela primeira vez. Joyce não levou Nora para os cafés,  teatros, nem para o centro de Dublin, mas pelas ruas que vão dar no cais. Foram até a área de Ringsend que, naquela noite, estava deserta. Nora não perdeu tempo. Desabotoou as calças de Joyce e masturbou-o com mestria, “com olhos de santa”. Era a primeira vez que Joyce tinha sexo de graça e o fato revestiu-se de grande importância.

Ulysses foi publicado no dia de aniversário de 40 anos de Joyce, em 2 de fevereiro de 1922. Antes, em 1919, alguns capítulos tinham sido publicados na revista The Egoist (Londres). Resultado: impressores e assinantes ameaçaram demitir-se em função da pornografia envolvida… Em 1921, outros capítulos foram publicados em The Little Review (Nova Iorque). Resultado: a edição foi retirada de circulação e suas editoras multadas. Acusação: grossa pornografia.

O cais em Ringsend, subúrbio de Dublin
Porém, conhecendo Joyce, eu apostaria em outro local bem próximo, o das proximidades da igreja de St. Patrick

Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):

Se ele tivesse sorrido por que teria sorrido?

Para refletir que cada um que entra (na cama) imagina ser o primeiro a entrar enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo que seja o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só em uma série que se origina e se repete ao infinito.

Trad. Caetano Galindo 

Este trecho jamais poderia ser admitido a escritor preso aos códigos machistas da sociedade do início do século passado. Seria improvável para um homem comum do começo do século XX chegar à conclusão que Bloom chegou a respeito do adultério de Molly, da qual ele nem cogita separar-se: Assassinato, jamais, pois que dois males não perfaziam um bem. E chegamos gloriosamente ao pensador que Joyce era e, principalmente, a um leitor de Freud.

Epígrafe para o próximo texto:

Não faço ideia se o meu marido é um gênio ou não; o que sei, com certeza, é que ele tem uma mente bem suja.

NORA BARNACLE

Os 100 anos do ícone literário A Metamorfose, de Franz Kafka

Franz Kafka, autor de A Metamorfose, que completa 100 anos em 2012

Publicado em 15 de abril de 2012 no Sul21

Em 2012, a clássica novela de Kafka, A Metamorfose, estará completando 100 anos. A marca que ela deixou na cultura ocidental é tão profunda quanto aquela deixada por 1984 de George Orwell e por pouquíssimos outros livros dos últimos séculos. E, com efeito, aqueles que leram a pequena obra de pouco mais de 30 mil palavras, dificilmente deixarão de lembrá-la e, dentre os apaixonados pela literatura ou pelo fantástico, não é raro encontrar quem saiba recitar de cor o início da novela, certamente uma das melhores e mais intrigantes aberturas da literatura de todos os tempos:

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.

O que terá acontecido comigo?” ele pensou.

Tradução de Marcelo Backes para a L&PM

Apesar de ter sido publicada em 1915, A Metamorfose foi escrita em novembro de 1912. A quase centenária novela foi concluída em apenas 20 dias no dia 7 de dezembro de 1912, quando Kafka escreveu à sua eterna e repetida noiva Felice Bauer: “Minha pequena história está terminada”. Há outra nota muito significativa escrita por Kafka. Dois meses antes, ao finalizar O Veredicto, outra pequena novela, Kafka registrou em seu diário que havia descoberto “como tudo poderia ser dito”. A Metamorfose foi a primeira tentativa após a nota.

Felice Bauer: duas vezes noiva de Kafka, jamais casaram

Tudo é muito enigmático em se tratando de alguém tão tímido e com tão poucos amigos como Kafka, mas certamente a frase escrita tem o significado de uma iluminação e tudo o que o escritor criou a partir dali — uma notável série de romances e novelas onde podem ser listados O Foguista, Diante da Lei, A Colônia Penal, O Processo, Carta ao Pai, Um Médico Rural, O Artista da Fome, O Castelo e A Construção, dentre outros — são obras ou de primeira linha ou de conteúdo nada desprezível ou esquecível. O crítico Otto Maria Carpeaux, que emigrou para o Brasil com a ascensão do nazismo, lembra:

— Fui apresentado a Kafka em Praga. Estávamos num jantar. Disseram-me que se tratava de um gênio. Era muito magro, sabemos hoje que tinha 1,82 m e por volta de 65 quilos. Estava num canto, sozinho. Fui até ele de forma a integrá-lo na conversa geral. Quando me apresentei, entendi seu nome como Kauka, porque ele falava muito baixo. Ora, se era Kauka, não era aquele autor do qual recebera dois livros que ainda não lera. Tentei puxar conversa, mas ele não dava continuidade, respondendo apenas o mínimo. Achei que incomodava e me afastei.

Kafka com seu grande amigo Max Brod na praia

Carpeaux — um grande crítico literário, autor de uma alentada História da Literatura Ocidental em oito volumes — arrependeu-se pelo resto da vida por ter desistido tão rápido de um escritor que passou a incensar poucos anos depois. Ele ouvira errado, não era Kauka, era mesmo o Kafka dos livrinhos recebidos.  É compreensível que Carpeaux lamente a perda da oportunidade, mas não é lógico torturar-se — afinal, era o ano de 1921 e, embora a tal “iluminação” fosse de 1912 e o escritor tivesse vivido até 1924, Kafka nunca chegou a ser muito conhecido enquanto vivo. Era um escritor obscuro que publicava alguma coisa e engavetava outras. Quando morreu, pediu a um bom amigo que destruísse seus escritos não publicados. Para nossa sorte, Max Brod foi um amigo ainda melhor e o traiu, salvando para o mundo romances como O Processo e O Castelo.

Hoje, os volumes de crítica da obra de Kafka enchem estantes, mas os enigmas permanecem, mesmo em relação a A Metamorfose. Sabe-se que Kafka leu trechos da obra para Max Brod e outros de seus poucos amigos. Os biógrafos dizem que o grupo ria do grotesco das cenas. Kafka também. É possível ler Kafka em registro cômico, sem dúvida, mas é indiscutível que a leitura mais grandiosa é a que coloca o homem em desespero frente à existência. Há uma quase imperceptível camada de humor e outra de ironia, esta pouco mais espessa, perpassando seus textos, mas o efeito geral nunca pode ser descrito como alegre ou motivador. Na verdade, é um narrador imperturbável contando uma história sufocante, sem apelar para fórmulas de suspense ou terror. Gunther Andres, na página 19 de Kafka: pró e contra (os autos do processo), resume brilhantemente: “O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”.

Franz Kafka com a irma Ottla, no Centro Histórico de Praga

O título A Metamorfose provavelmente se refere não somente à mudança física de Gregor Samsa – nome estruturalmente bem semelhante à Kafka, não? –, que se torna um inseto “certa manhã”, como a todas as outras mudanças decorrentes na família. Se antes da metamorfose toda a família dependia de seu trabalho como caixeiro-viajante e o apoiava e amava, com a transformação em inseto e consequente prisão no quarto, o pai é obrigado a voltar a trabalhar, a ingênua e pura irmã de 17 anos também, a mãe passa a costurar e a casa transforma-se numa hospedaria onde Gregor é mais do que dispensável, é indesejado. A transformação física de Samsa gera outra metamorfose e pode-se dizer que ele passa de parasitado a parasitário, de arrimo a peso morto e objeto de repulsa.

Kafka pedira "encarecidamente" que a figura de Gregor não fosse retratada por seu editor, a posteridade não lhe deu atenção

É estranho que Gregor acorde aquela manhã sem tentar analisar o que teria acontecido, como e por quê. A pergunta “O que terá acontecido comigo?” é isolada. Depois, ficamos sabendo de suas incomodações com a vida anterior e temos a impressão de que a atual tanto faz. Em alguns momentos da narrativa, ele parece estar vingando-se, em outros, concupiscente. O ostracismo no seio familiar, a pressão do trabalho, a necessidade de obedecer, a profunda insatisfação de estar sendo escravizado, tudo o que a novela sugere encontra repercussão na vida do autor. A história do homem tornado besouro é inteiramente realista. O problema familiar recebe uma importante observação do tradutor Marcelo Backes: “Kafka invoca seu pai, mãe e irmã quase sem o uso dos pronomes possessivos. É algo muito insistente. É raro que o narrador fale de SUA irmã, de SEU pai, de SUA mãe. Eles são, na maior parte das vezes, apenas pai, mãe e irmã, sem a afetividade do pronome possessivo e vivendo tão-só em sua condição genérica de pai, mãe e irmã”.

No clássico Conversações com Kafka (1920-1923), Gustav Janouch cita que Kafka afirmara que “A metamorfose não é uma confissão, ainda que – em certo sentido – seja uma indiscrição”. Indiscrição certamente menor do que a célebre Carta ao Pai, mas não tergiversemos.

Detalhe da adaptação para os quadrinhos de 'A metamorfose', de Franz Kafka, desenhada por Peter Kuper (Clique sobre a imagem para ampliar)

A forma como Kafka monta rapidamente os conflitos do livro também surpreende. O primeiro está no famoso primeiro parágrafo, depois há outros dois conflitos graves, construídos na mesma linguagem direta e sucinta, de exatidão quase cartorial: o momento em que Gregor é visto pela primeira vez por seus familiares — uma cena de notável realização artística de Kafka — e momento onde a irmã de Gregor, Grete Samsa, aconselha seus pais a livrarem-se do enorme inseto, pois já haviam tentado de tudo para conviver com ele. Há também a interpretadíssima agressão com a maçã, mas talvez o que deixe o leitor mais perturbado é o que subjaz desde a primeira até a última palavra: é o fato de que outro acontecimento extraordinário simplesmente não ocorre. Não há o momento de explicação para o acontecido ou do retorno ao estado normal. Na verdade, não há explicações, tudo fica aberto às interpretações, há uma aristotélica e perturbadora ausência do esquema clássico de exposição, conflito, clímax e conclusão.

Kafka pediu a seu editor que evitasse desenhar, mesmo de longe, a figura de Gregor, mas hoje temos versões de Gregor Samsa até em quadrinhos, além de filmes. Para alguns trata-se de uma barata, apesar de que os sinais indicam claramente para uma espécie de besouro. Invocamos novamente o tradutor Marcelo Backes: “Kafka o refere apenas como “rola-bosta” (besouro). Mas o que é objetivo pode ser tanto mais difuso, uma vez que Mistkäfer (rola-bosta) pode-se referir também e inclusive a uma pessoa suja e descuidada, ou tratar-se de um escaravelho qualquer, uma vez que é designação comum a insetos coleópteros, coprófagos e escarabeídeos, que em geral vivem de excrementos de mamíferos herbívoros”.

Kafka sempre dizia: “Tudo o que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversações sobre literatura”. O que incluiria certamente este artigo. Ou seja, vale muito mais a pena ler a pequena e revolucionária novela.

 

Uma curiosa campanha para o incentivo à leitura, feita pela Johnson County Library em 2010

As verdadeiras cores de Van Gogh

A Vinha Encarnada, único quadro que Van Gogh conseguiu vender em vida

Por Milton Ribeiro

Daltônico

Em 17 de março de 1901, era inaugurada a hoje famosa exposição de Van Gogh (1853-1890) em Paris. A mostra ocorria onze anos após a morte de um artista absolutamente obscuro. Nela, havia 71 quadros de alguém que vendera uma única tela em vida – A Vinha Encarnada – , por 400 francos (atualmente cerca de R$ 800,00). Cem anos após sua morte, em 1990, um de seus trabalhos, O Retrato do Dr. Gachet, foi vendido por US$ 82,5 milhões. Van Gogh não é um caso único. Por exemplo, Johann Sebastian Bach era considerado apenas um bom músico e um compositor antiquado no século XVIII;  Franz Kafka era tímido e problemático demais para apresentar seus trabalhos – tendo pouco publicado em vida e feito seu amigo Max Brod prometer que destruiria o restante, promessa não cumprida – ; porém talvez Van Gogh seja o caso de maior contraste entre uma vida secreta e uma unânime consagração póstuma.

Vincent Van Gogh nasceu em 1853 na localidade de Groot Zundert, no interior da Holanda. Seu pai era um pastor calvinista que deu aos filhos a mais severa das educações. Van Gogh teve dois irmãos – Theodorus, apelidado de Theo, e Cornelius — e três irmãs — Elisabeth, Anna e Willemina. Seus biógrafos descrevem a casa onde cresceram como fria, úmida e escura e a infância, triste.

As telas sombrias

Aos 16 anos, Vincent mudou-se para Haia a fim de trabalhar como representante comercial de livros de arte com um tio. Conheceu boa parte do país, mais Bruxelas e Londres, porém seu sonho era conhecer Paris, na época o grande centro cultural da Europa e do mundo. Em 1875, aos 22 anos, conseguiu uma transferência para a cidade. Foi feliz por lá, conheceu artistas, visitou galerias, fruiu da vida cultural da cidade – e acabou demitido por não trabalhar.

Deprimido e sem perspectivas, Van Gogh voltou à casa dos pais, onde sofreu sucessivas crises nervosas. Místico, passou a dedicar-se à religião, conseguindo uma posição como pastor, assim como o pai. E foi pregar numa mina de carvão na Bélgica. Porém, como pouco pregava, preferindo ocupar seu tempo em conversas com os mineiros miseráveis, acabou afastado da missão religiosa em 1879. Tinha 26 anos e era um fracasso completo de acordo com o senso comum. Não constituíra família, não se sustentava sozinho e não parecia vocacionado a nada. Consideremos que tinha 26 anos, nenhuma obra e apenas pouco mais de dez anos de vida, internações e produção artística.

A cadeira de Gauguin com seus apetrechos

Naquele ano, seu irmão Theo já morava na cobiçada Paris, exercendo um alto cargo na galeria de arte do tio. Ele o incentivou a pintar. Passou a lhe enviar dinheiro para a compra de tintas e pincéis. Vincent dedicou-se, então, ao estudo da perspectiva e da anatomia. E pintou várias telas sombrias, nas quais retratava mineiros, camponeses, trigais e campos.

Porém, as crises se repetiam. Duravam de duas a quatro semanas, período no qual Van Gogh não conseguia realizar nenhum gênero de trabalho, revelando-se propenso a atitudes violentas, resultado de alucinações e da impressão de que todos os perseguiam a fim de prejudicá-lo. Havia alta incidência de doenças mentais na família Van Gogh. Theo sofria com a depressão e faleceu de uma certa “demência paralítica”, uma complicação rara da sífilis. Sua irmã Willemina era esquizofrênica, tendo vivido 40 anos no mesmo asilo onde Van Gogh foi depois internado e o outro irmão, Cornelius, cometeu suicídio aos 33 anos de idade.

A Cadeira de Van Gogh

Neste ínterim, Van Gogh foi internado várias vezes em sanatórios. Nos intervalos, criava as obras que vemos hoje e procurava levar sua vida. Durante algum tempo, dividiu seu ateliê com Gauguin em Arles, mas também se desentendeu com ele. Gauguin e Van Gogh partilhavam de mútua admiração, mas a relação entre ambos estava longe de ser pacífica e as discussões eram frequentes. Para representar as relações abaladas entre os dois, Van Gogh pintou a A Cadeira de Van Gogh e a A Cadeira de Gauguin, ambas em dezembro de 1888. As duas estão vazias, com objetos que representam as diferenças entre os dois pintores. A cadeira de Van Gogh é sem braços, simples, com assento de palha; a de Gauguin possui assento estofado e braços.

“Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz devido à incompatibilidade de temperamentos”, queixou-se Gauguin a Theo. Sentia-se incomodado com as variações de humor de Vincent e não era para menos. Em 23 de dezembro de 1888, após Gauguin sair para uma caminhada, Van Gogh o seguiu e o ameaçou com uma navalha. Gauguin decidiu não voltar ao atelier, pernoitando em uma pensão. A fim de demonstrar seu arrependimento, Vincent cortou um pedaço de sua orelha direita, que embrulhou em um lenço e o levou, como presente, a uma prostituta sua amiga. Depois, Vincent retornou à sua casa, indo dormiu  como se nada tivesse acontecido. A polícia foi avisada e o encontrou desmaiado, totalmente ensanguentado. Gauguin então enviou um telegrama para Theo e viajou imediatamente a Paris, julgando melhor não visitar Vincent no hospital.

A orelha foi entregue a uma prostituta

Van Gogh passou 14 dias internado, ao final dos quais voltou à casa. Em seu retorno, pintou o Auto-Retrato com a Orelha Cortada. Porém, quatro semanas depois, apresentou novos sintomas de paranoia,  imaginando que seria envenenado a qualquer momento. Os cidadãos de Arles, apreensivos, solicitaram seu internamento definitivo. Sendo assim, van Gogh tornou-se paciente e preso no hospital de Arles. Os especialistas que o trataram diagnosticavam uma epilepsia, ainda que o diretor do asilo, Dr. Peyron, fosse inteiramente despreparado para diagnosticar qualquer doença que fugisse ao óbvio. As crises repetiam-se, sempre precedidas de sonolência e seguidas por apatia.

Rejeitado pelo amigo Gauguin e pela cidade, descartados todos os seus planos artísticos, sua depressão voltou a agravar-se, ele que agora tinha como único amigo seu irmão Theo. O casamento de Theo constitui-se em fonte de nova inquietação para Vincent, que temia o afastamento.

O Dr. Gachet: o tratamento não funcionou, mas a imortalidade foi garantida

Em maio de 1890, Vincent deixou a clínica, passando a residir na periferia de Paris (em Auvers-sur-Oise), onde estaria mais próximo do irmão e consultaria o Dr. Paul Gachet. Gachet — aquele mesmo cujo retrato seria vendido por 82,5 milhões de dólares — não foi bem sucedido. Mas, em Auvers, Van Gogh produz rapidamente cerca de oitenta pinturas, em média uma por dia.

Repentinamente, seu estado piorou e, em 27 de Julho de 1890. Van Gogh saiu da cidade para disparar um tiro contra o próprio peito. Arrastou-se de volta à pensão onde se instalara e onde morreu dois dias depois, ao lado de Theo. As suas últimas palavras, dirigidas ao irmão, teriam sido: “La tristesse durera toujours” (em francês, “A tristeza durará para sempre”).

O quarto em Arles

Dias depois, no sótão da galeria de arte do tio, mais de 700 pinturas aguardavam compradores.

Vincent Van Gogh revolucionou a história da pintura. Embora tenha sido influenciado pelos pintores impressionistas, sua obra é muito pessoal e solitária. Usava cores opostas, como o azul e o amarelo, para aumentar a vibração de suas imagens. Também se utilizava de formas distorcidas e exagerava na perspectiva para aumentar a expressividade de suas composições. Outra característica era o uso de camadas espessas de tinta. Críticos de arte costumam dizer que não é a cor em si que me chama a atenção, mas o movimento, a inquietude de formas e cores em conjunto, porém…

A questão do daltonismo

O azul, o amarelo

Embora a vasta bibliografia a respeito de Van Gogh, são raros os estudos sobre a cor em seus trabalhos. Na verdade, a questão das cores chamou a atenção não tanto dos historiadores da arte, mas de neurologistas e oftalmologistas que encontram nele sinais claros de discromatopsias, as dificuldades na percepção de cores de que sofrem os popularmente conhecidos como daltônicos. Assim, se alguns biógrafos tratam rapidamente da expressividade de van Gogh — raramente referindo-se a ele como um “revolucionário da cor” — como algo característico seu, os oftalmologistas o tratam como franca e claramente daltônico.

Hoje, cresce a corrente daqueles que afirmam que o uso original da cor não se devia a nenhuma consequência da epilepsia ou de qualquer outra doença, mas de um reles daltonismo e van Gogh aparece habitualmente nas listas dos portadores da doença. Portanto, apenas as pessoas daltônicas – doença chamada atualmente nos EUA de color blindness ou cegueira de cores – poderiam ver seus quadros da forma como ele os imaginou.

O oftalmologista e biotecnólogo japonês Kazunori Asada desenvolveu um programa (há versões para iPhone, iPad, iPod e Android), que simula a visão dos três tipos conhecidos de daltonismo. Van Gogh sofreria do tipo mais comum de daltonismo, a protanopia, que resulta na impossibilidade de discriminar cores no segmento verde-vermelho do espectro. O professor Asada também acredita que Van Gogh sofria deste tipo de daltonismo e, abaixo, temos a aplicação de seus programas de filtragem de cores às pinturas do holandês. Assim, podemos comparar as pinturas como elas são (sempre as primeiras) e como Van Gogh as via (abaixo). Com isto, o cientista pretende mostrar às “pessoas normais” como o autor via seus quadros. Alguns autores apenas citam a forma como Van Gogh evitava o verde, o verde vivo, o vermelho, o rosa e o bege. As cores que mais usa são o amarelo e o azul, que são vistas da mesma forma por quem é ou não daltônico. Os pares de imagens, assim como as observações abaixo delas são do artigo Mirando las obras de Van Gogh con sus propios ojos.


“A Colheita”. No original, o que deveria ser um campo de trigo, é de cor laranja, e acima temos linhas verdes em que mesclam à luz solar. Para os daltônicos, a sombra no trigal dá profundidade à cena. O sol poente tem um ar mais outonal. “


Em “A Noite Estrelada” a força está no contraste da obscuridade e das estrelas. As nuvens e a paisagem são iluminadas pela luz branca da lua. “


Cada uma das pedras da calçada parece mais sólidas. O terraço da cafeteria emerge com mais profundidade na noite sem lua.


A cena do jardim adquire uma realidade fotográfica. Ganha profundidade, dá a impressão de estarmos num mirante.


Aos nossos olhos na pintura da dama com sombrinha cruzando a ponte, esta se reflete no rio de forma surrealista. No entanto, na simulação, tudo se torna mais realista. A superfície da água brilha nas pequenas ondulações. “


Auto-retrato. Dá a impressão de um homem pouco sociável. É uma figura sofrida, distante e orgulhosa.

Nota: O simulador pode ser baixado gratuitamente aqui. É possível utilizá-lo em quaisquer fotos ou imagens em “.jpg”.

Nota final do autor: Sou daltônico — sofro também de protanopia — e posso garantir que percebo quase nenhuma diferença entre as imagens. Dá para dizer que são pares de cópias perfeitas. Desde pequeno, pintava noites com o céu roxo e minhas professoras me advertiam que não era bem assim… Eu ficava muito contrariado. Então, as observações a cada dupla de fotos foram resultado de tradução de artigo Prof. Asada e de discussões em casa e na redação do Sul21. Não opinei, claro. Como o faria?


Ribamar, de José Castello

José Castello é um conhecido crítico literário, escritor e jornalista que me acostumei a acompanhar nas páginas da Rascunho. Ribamar é seu mais recente romance. Romance? Romance muitíssimo autobiográfico, romance que é uma mistura entre ficção, memória, autobiografia e biografia do pai. Ribamar é José Ribamar Martins Castello Branco, pai do escritor, e o livro é uma dolorosa aproximação do filho ao pai morto.

Minha primeira surpresa ao ler Ribamar foi o tom deprimido do, tá bom, romance. O Castello que conhecia dos jornais me parecia incapaz disto: era um crítico e pessoa calma e bem-humorado, cujas críticas inteligentes eram sempre permeadas de compreensão. Fazia quase a crônica daquilo que lia. Era um agradabilíssimo gentleman literário, mas vá saber que abismos se escondem sob a casca? Sim, muito profundos. O mote para o romance-texto-anotações que vai sendo montado por Castello é a Carta ao pai, de Franz Kafka. Assim como Hermann Kafka não leu o livro do filho, Ribamar parece não ter lido mesmo livro quando lhe foi dado de presente pelo filho José. Anos depois, já com o pai morto, José depara-se com o exemplar que dera ao pai. O livro aparentemente não tinha sido lido, mas há uma frase sublinhada: Comigo não existia praticamente luta; minha derrota era quase imediata; apenas subsistiam evasão, amargura, tristeza, conflito interior. É neste ponto, além da lembrança de uma canção de ninar que manda “o mimoso José calar a Boca”, e que era cantada por seu pai, que começa a tentativa de retomada deste por parte do escritor.

O romance que, repito, é dilacerante e por vezes difícil de avançar, na segunda metade leva Castello à quente Parnaíba a fim de tentar recolher mais alguns cacos da infância paterna. A forma bisonha com que tais lembranças são procuradas e todos os sentimentos envolvidos dão enorme potência à Ribamar. Ribamar é aquele gênero de pai que penso seja cada vez mais raro, aquele que acha que humilhar educa, que criticar de forma acerba endireita. E o livro é tão dolorido que é realmente difícil escrever a respeito numa agradável manhã porto-alegrense, após uma noite feliz com os filhos.

O livro foi o vencedor da categoria melhor romance do 53º Prêmio Jabuti. Deve ter merecido. A carta ao pai de Castello não é a prosa fechada, redonda e circunstanciada de Kafka. O que faz Castello mais parece um amontoado de folhas, mas como doem.

O mais puro Kafka…

Aqui.

E, segundo o jornal israelense Haaretz, tem mais…

The German Museum of Modern Literature Thursday rejected a demand from Israel’s National Library that it return the manuscript of Franz Kafka’s novel “The Trial,” saying it acquired the manuscript legally.

The National Library claims the manuscript was illegally sold to Germany by Esther Hoffe, former assistant to Kafka’s friend Max Brod, and that it is the manuscript’s legal heir.

The museum, however, said the manuscript was bought transparently, at a public auction, without objections. It added that as far as it knows, Brod gave the manuscript to Hoffe as a gift.

??? Se metem em tudo…

O que torna ruins os livros ruins?

Ora, um monte de coisas, mas acho que o pior de tudo é a construção de um conflito desinteressante, piegas ou cheio de clichês. Ou má construção de um conflito, ignorando a seu potencial. Os clichês incomodam muito, mas quando peguei um livro de Ian Fleming (007), o himalaia de clichês era tão impressionante que era divertido… Parecia Tarantino… Aliás, quando assistimos a um filme do 007, esperamos exatamente o clichê e ai do diretor que não nos satisfizer. Não li Dan Brown, mas o filme feito sobre O Código da Vinci é outro interminável e desagradável desfiar de clichês. A falta de charme e de originalidade é uma merda, mesmo.

Eu adoro os inícios dos romances de Balzac. Quase sempre, eles começam com uma calma e elegante apresentação dos personagens. O texto avança e nos açambarca, pois já traz os conflitos grudados a cada um dos personagens como parasitas. Mas ele escreveu o desagradável A Mulher de 30 Anos, um dos maiores exeplos de ruindade que conheço. Ele estava com pressa ao escrever, tinha dívidas e fez uma desgraça de livro.

Nunca uma capa disse tanto sobre um romance

Tenho certeza de que a identificação de uma má redação é intuitiva. A correção gramatical pode ser chata, o tom pode ser chato, o brilhantismo pode ser chatíssimo, Eu não sei porque alguém tem má redação ou é chata, mas há gente muito capaz que é desinteressante. É uma pena quando um desses escritores descobre um bom tema. Dia desses, li um livro que era um porre. Era de um blogueiro. O cara sabe escrever, mas a construção da novela era (muito) periclitante, até paradoxal, e ainda o acompanhava uma nota final – havia outra, a inicial… – em que o sujeito justificava as mancadas ou, em outras palavras, sua ruindade. Insuperável chatice arrogante, pois há pessoas que apenas usam o romance para chamar a atenção das pessoas para suas existências, independentemente do texto produzido. Sei que escrever é vaidade; sei melhor que escrever bem é a vaidade recebendo a admiração alheia. Um bom mutualismo!

Também há os que têm seus modelos literários e tentam desesperadamente alcançá-los (no caso de autores) ou procurá-los (no caso de críticos). “Infelizmente, alguns dos meus colegas da Universidade julgam tudo pela proximidade a Ulisses, de Joyce, o qual releem anualmente”, li num artigo. Se o Charlles Campos, leitor e comentarista habitual do blog, julgasse tudo sob um filtro – o qual seria certamente imaginado por ele – de Faulkner, eu o chamaria de imbecil para baixo. Seria o mesmo que eu, kafkiano de quatro costados, admirar o austríaco que escreve em um só parágrafo por seus incertos e tênues parentescos com o tcheco. Durante anos a literatura brasileira sofreu do Efeito Clarice. Um monte de gente queria ser Clarice Lispector. Houve grandes epígonos que livraram-se em bom momento da sombra ucraniana – Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll e poucos mais – , mas imitar Clarice… Por quê? E para quê imitar a mais pessoal das escritoras? Ah, e céus, como escreveram porcarias!

(um dia qualquer, continuo)

Brilho Eterno de um Corpo Sem Lembranças, de Vladimir Nabokov

Se em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), 2004, Jim Carrey interpreta um marido desesperado pelo fato de sua ex-esposa (Kate Winslet) tê-lo deletado da memória através de um programa maluco, em O Original de Laura Philip consegue que seu cérebro apague partes do próprio corpo enquanto vê sua Flora traí-lo sistematicamente.

Se de um lado temos o roteirista americano Charlie Kaufman e o diretor francês Michel Gondry — pessoas que talvez ainda estejam longe de uma imortalidade –, de outro há o célebre escritor russo Vladimir Nabokov, autor de obras-primas como Lolita, Fogo Pálido e, principalmente, A Verdadeira Vida de Sebastian Knight. Se o filme Brilho Eterno é maravilhoso, O Original de Laura não vale a pena. Não, não farei uma resenha do livro de Nabokov. Eu adoro Nabokov e ele não merece que eu, uma obscura pessoa de um obscuro blog, o desmereça. Nabokov mandou que, em caso de morte, O Original de Laura fosse para o fogo, pálido ou não, mas a esposa Vera não teve coragem de fazer a fogueira e o filho Dmitri igualmente o manteve até que, em 2008, 31 anos após a morte do pai, ressuscitou a ideia de publicação.

Como sói acontecer, são os vivos que julgam os mortos, já que estes têm manifestações mais discretas. Então, dou razão a Max Brod quando ele salva da destruição, para toda a humanidade, obras como O Processo e O Castelo, de seu melhor amigo Franz Kafka. Brod era um bom leitor e logo viu o que tinha nas mãos. Fez bem. Obrigado, Brod. 2666, de Roberto Bolaño, foi publicado num formato diferente e o tempo provou o acerto dos herdeiros e do editor Herralde. Solo de Clarineta, de Erico Verissimo, estava em grande parte pronto. Vale a leitura. A 10ª Sinfonia de Mahler possuía apenas o Adagio inicial, mas que adágio!!! Bach morreu durante a composição da Arte da Fuga, mas o que deixou pronto é embasbacante. Enquanto isso, O Original de Laura é um livro que apenas permite vislumbrar como Nabokov criava seus romances.

O que me deixa contrariado é o fato de que livros grandiosos de Nabokov não receberam tamanho espalhafato e luxo. Trata-se apenas de um mau presente. Nunca vi um Sebastian Knight ser lançado no Brasil em capa dura, papel de alta qualidade, fac-símiles originais com a caligrafia de Nabokov, etc. Tudo por um livro de terceira categoria — pois o que foi publicado é o conjunto das 138 fichas onde o autor escrevera quatro capítulos e anotara ideias e trechos. Seu processo de criação fazia com que escrevesse o romance em fichas separadas, o que permitia a troca de lugar entre os capítulos sem precisar redigitar tudo novamente. O que fazia era uma espécie de Crtl-X / Ctrl-V com as tais fichas, apenas reorganizando-as.

Mas então Vera morreu e Dmitri, com a saúde debilitada aos 75 anos e falto de dinheiros, resolveu publicar a coisa. A crítica está massacrando o livro. Vê nele os sinais de declínio que os últimos romances de Nabokov já demonstravam. Sim, os vivos julgam e resolvem as coisas pelos mortos, mas é bom ter um pouco de bom senso.

Para completar a desgraça, Dmitri quer publicar as fichas em série, num periódico literário, como se fosse uma novela da Globo. A respeitada revista “New Yorker” recusou-se a montar a minissérie. Depois de várias tentativas, Dmitri ofereceu-as à “Playboy” americana — que os publicará a partir de dezembro. O destino de O Original de Laura deveria ter sido o fogo mas, pasmem, será a Playboy. O público americano já viu melhores Lauras, certamente.

Laura: sacanagem post mortem com Nabô.

Do Leitor Normal

Os últimos resultados obtidos pelo Sport Club Internacional têm feito seus torcedores reagirem das mais diversas maneiras: há os que se deprimem e têm dificuldades até para sair de casa, há os que caminham sem rumo pela rua falando sozinhos e há os que — identificando-se completamente com o clube — passam a fazer a apologia do secundário, procurando solapar tudo aquilo que é grandioso e perfeito. Este é o caso do professor de literatura Luís Augusto Fischer e ele escolheu o veículo jornalístico mais notório de nosso estado para divulgar seu problema.

No artigo chamado O Leitor Normal, publicado há algum tempo na Zero Hora, o Prof. Fischer escolheu — com imenso despudor — duas vítimas de primeiríssima linha: Thomas Mann e Franz Kafka. Argumenta ele que a obra A Montanha Mágica de Thomas Mann seria um livro chato, arrastado, lento, pré-cinema (?) e ilegível para o leitor normal e sugere que Kafka seria um autor desprovido de bom humor e auto-ironia. Talvez o autor pense que as repetidas reedições de A Montanha Mágica e das obras de Kafka sejam devidas apenas a masoquistas e a entediados especialistas em literatura.

Prezado Prof. Fischer, o Sr. não é um leitor normal, o Sr. publicou e organizou diversos livros, é uma pessoa conhecida e respeitada; o leitor normal sou eu, que não vivo de literatura, que não tenho produção cultural, que trabalho o dia inteiro e que, em meus horários livres, leio uns livrinhos por aí. Do alto de minha autoridade de Leitor Normal, digo-lhe que, dentre os livros que amo, incluo A Montanha Mágica e quase toda a obra de Kafka. Sei que é um abuso, mas vou procurar lhe expor algumas características deste romance de Mann e da produção de Kafka.

Um dos principais assuntos de A Montanha Mágica é o tempo. A “ação” se passa dentro de um sanatório, onde há apenas médicos, pacientes e funcionários. É a representação de uma Europa enferma e vacilante logo após a Primeira Guerra Mundial. O livro é de 1924 e todos nós sabemos o que aconteceu depois na Alemanha e Europa. As discussões, muitíssimas vezes agressivas, ocorrem num ambiente onde impera a modorra e o tédio. Este enfraquecimento do senso de tempo, — expressão de Mann — deve ter sido tão bem trabalhado pelo autor, que o Sr. começou a dormitar e a pular páginas e páginas, tal como, em seu artigo, confessa ter feito. Deve ter pulado os luminosos capítulos Neve e Passeio pela Praia, devia estar tonto de sono durante as sensualíssimas cenas entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat e não imagino o que fazia enquanto Naphta e Settembrini se matavam a discutir.

Já chamar Kafka de opressivo, sisudo, vetusto e funéreo é apenas fazer eco a um dos lugares comuns mais equivocados. Esta declaração soa como chamar Kafka de kafkiano, ou como chamar todas as personagens femininas de Balzac de balzaquianas. É respeitar um adjetivo, deixando de lado o sujeito. Posso citar de memória uns dez trechos de Kafka onde há bom humor e auto-ironia. Será que no livro mais famoso deste autor não há auto-ironia? Será que não há um pingo de auto-ironia numa história em que o narrador acorda e vê-se transformado em inseto? Será que não haveria uma pitada de auto-ironia se o Prof. Fischer escrevesse uma história como a que segue? “Num belo dia de outono, Luís Augusto, ao acordar, viu-se vestido de chuteiras, calção e camiseta do Grêmio…”. Está bem, concordo que é antes um pesadelo dos mais tenebrosos, mas não haveria auto-ironia nele?