Lewis Carroll, o matemático e fotógrafo gago que inventou Alice

Lewis Carroll (ou Charles Dodgson), autor do fascinante, louco e engenhoso Alice no país das maravilhas

Publicado originalmente no Sul21

Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll, nasceu na Inglaterra em 27 de janeiro de 1832 e morreu em 14 de janeiro de 1898. Além de escritor, Carroll foi matemático, lógico, pastor anglicano e fotógrafo; além de obras de ficção e poesia, escreveu tratados matemáticos, livros de lógica, adivinhações e jogos; mas sua celebridade póstuma foi garantida por Alice no país das maravilhas (Alice in Wonderland), publicado pela primeira vez em 1865. Trata-se de um dos mais fascinantes, loucos e engenhosos livros já escritos. Há uma continuação – chamada Através do espelho e o que Alice encontrou lá (Through the Looking-Glass and What Alice Found There) – , que passou a ser rotineiramente publicada na parte final do volume de Alice.

Quando era professor de matemática e lógica na Universidade de Oxford, Carroll conheceu Henry Liddell. Liddell chegara à Oxford no mesmo ano que Dodgson, em 1856, trazendo consigo sua jovem família, os quais viriam a ter grande influência na vida e na carreira do autor. Dodgson tornou-se logo íntimo da esposa de Liddell, Lorina, e de seus filhos, principalmente das três irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell, fonte de inspiração para a Alice do livro.

Embora as informações sejam escassas – os diários de Dodgson do período entre os anos de 1858 a 1862 foram perdidos – , os biográfos garantem que, no começo da década de 1860, Dogdson tinha o hábito de levar as crianças – primeiro o menino, Harry, e mais tarde também as três meninas — em passeios de barco a remo até Nuneham Courtenay ou Godstow.

A primeira edição de Alice

Foi numa destas expedições que, em 4 de julho de 1862, Dodgson criou o esboço da história de Alice. Tendo-a inventado no barco e contado de improviso para as crianças, ouviu Alice Liddell implorar para que a pusesse por escrito. Depois de mais de dois anos, em novembro de 1864, Dodgson presenteou Alice com um manuscrito, ilustrado pelo próprio autor, chamado Alice’s Adventures Under Ground ou As Aventuras de Alice sob a Terra. O manuscrito foi parar nos escritórios da editora Macmillan, que o aprovou imediatamente. Após alterarem o titulo para Alice among the fairies (Alice entre as fadas) e depois para Alice’s Golden Hour (A hora maravilhosa de Alice), finalmente chegaram a Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas) e a autoria passou a um certo Lewis Carroll, pseudônimo que Dodgson costumava utilizar em seus escritos literários. As ilustrações de Carroll foram substituídas pelas de um profissional e, por sugestão do escritor Henry Kingsley, Alice foi publicado sem especificar se era destinado a adultos ou crianças.

A primeira adaptação de Alice no país das maravilhas para o cinema foi produzido no longínquo ano de 1903…

Uma das principais características de Alice no país das maravilhas é a de permitir tanto a abordagem infantil quanto a adulta. Tudo começa quando Alice, uma menina curiosa, mas cansada de sua vida monótona, vai atrás de um apressado Coelho Branco, caindo em um mundo diferente, divertido e nonsense. Lá, conhece personagens como os irmãos gêmeos Tweedledee e Tweedledum, o Gato Risonho, a Lagarta, toma chá com a Lebre Maluca e o Chapeleiro Louco e participa de um jogo de cróquete com a Rainha de Copas. Alice é mais uma espectadora surpresa das coisas que acontecem ao seu redor e seu encantamento efetivamente parece ser o de uma criança absolutamente desconcertada e feliz. Há grande literatura envolvida, muitas reviravoltas, jogos, propostas, experimentalismo e uma criatividade incontrável e wit. Após anos sendo parcialmente traduzido no Brasil como livro infantil — houve edições parciais de até 10 páginas! — , Alice só ganhou sua verdadeira grandiosidade quando foi traduzido, em 1980, pelo poeta Sebastião Uchoa Leite.

A edição da Summus com a tradução de Sebastião Uchoa Leite

Quem lê esta versão, nota não apenas as analogias e trocadilhos geniais, mas a fina ironia de perpassa o relato e principalmente um surpreendente sequência de situações que representam fatos da própria infância de Alice e da de todos nós ou, tal como explica Lenir Fátima de Castro, da UFF (Universidade Federal Fluminense), que representam “imagens mentais das várias situações vividas pela menina Alice — os diversos apuros, as diversas dificuldades”. Segundo ela, “os maiores atrativos são o ‘logos fantástico’, o nonsense e a capacidade que o autor tem de imprimir ao texto um encadeamento por imagens e sensações”. Além do mais, há um elaborado trabalho de linguagem que, assim como a simbologia, permanecera inapreensível ao leitor brasileiro antes da tradução de Leite.

No século XIX, a história foi um sucesso instantâneo e desde então consta entre os mais importantes textos da literatura universal. A obra tem sido objeto de filmes, histórias em quadrinhos e álbuns de colecionar, mas também tem sido lida e estudada por muitos adultos.

Outra Alice produzida para o cinema, esta de Walt Disney (1951):

O enorme sucesso comercial do livro mudou a vida de Dodgson em muitos aspectos. A fama de seu alter ego Lewis Carroll logo se espalhou ao redor do mundo e ele viu-se soterrado por cartas de fãs e atenções muitas vezes indesejadas. Por exemplo, a Rainha Vitória gostou tanto que sugeriu que o livro seguinte de Carroll fosse dedicado a ela. Carroll negou o fato, apesar das muitas testemunhas. A verdade é que seu próximo livro, um volume acadêmico de matemática intitulado Tratado Elementar sobre Determinantes, foi dedicado à Rainha. Um livro de matemática talvez não fosse exatamente o que ela desejasse…

A Alice mais recente, de Tim Burton:

No final de 1871, Carroll publicou uma sequência – Alice através do Espelho e o que encontrou lá. As cores menos vivas desta continuação provavelmente reflitam as mudanças na vida de Carroll. A morte de seu pai, em 1868, mergulhou-o numa depressão que durou alguns anos.

Lewis Carroll: dificuldades para pronunciar o próprio sobrenome

Charles Dodgson

Charles Dodgson foi um homem alto, surdo de um ouvido e “hesitante”. “Hesitação” era o sucedâneo utilizado por Dodgson para referir-se à sua gagueira. A gagueira de Dodgson era peculiar. Há a crença de que gaguejava somente na companhia dos adultos e seria fluente com crianças. Porém, logo após sua morte, seus biógrafos informaram que havia crianças que lembravam da gagueira e adultos que mal a perceberam. Dodgson parece ter sido o mais consciente dela, tanto que teria se autocaricaturizado como o Dodo de Alice, referência à própria dificuldade para pronunciar o sobrenome.

Não deixa de ser estranho que o gago Dodgson cantasse e se apresentasse para plateias em ambiente familiares, tendo sido um apreciado narrador de histórias. Também era ótimo em mímica e em responder charadas. Dizia que a chave para uma boa história era ter sempre em mente surpreender as pessoas.

As tais fotografias

Alice Liddell, a inspiração para o livro | Foto: Lewis Carroll

Carroll também foi fotógrafo amador e colecionava imagens de meninas entre 8 e 12 anos de idade. A nossos olhos, as fotografias parecem o mesmo que pareceram a Vladimir Nabokov, autor de Lolita e criador do personagem-narrador Humbert Humbert:

Eu sempre o chamo de Lewis Carroll Carroll porque ele foi o primeiro Humbert Humbert. Você viu as fotografias dele com as meninas? Ele fazia acertos com as tias e mães para fotografar as crianças. Mas nunca foi acusado, exceto por uma menina que escreveu sobre ele quando já era velha.

Vladimir Nabokov em entrevista para a Vogue em dezembro de 1966

O que se dizia na época era que, quando tinha oportunidade, gostava de desenhar ou fotografar meninas seminuas, com a permissão e presença de suas mães. “Se eu tivesse a criança mais linda do mundo para desenhar e fotografar”, escreveu, “e descobrisse nela um ligeiro acanhamento (por mais ligeiro e facilmente superável que fosse) de ser retratada nua, eu sentia ser um dever solene para com Deus abandonar por completo a solicitação”.

Os nus infantis foram destruídos ou devolvidos aos pais das crianças| Foto: Lewis Carroll

Por temor que estas imagens de crianças desnudas criassem embaraços para as meninas mais tarde, Carroll pediu que, após a sua morte, fossem destruídas ou devolvidas às crianças ou aos pais delas. As fotos eram presumidas como perdidas, mas, desde então, surgiram seis imagens. Na verdade, a atenção de Carroll como fotógrafo foca-se tanto em suas imagens de meninas como em estudos de homens, mulheres, crianças do sexo masculino e paisagens, assim como esqueletos, bonecas, cães, estátuas e árvores.

Após 24 anos, em 1880, Carroll deixou subitamente a fotografia. Menos de 1000 imagens sobreviveram ao tempo e à destruição deliberada. Ele afirmou que parou de tirá-las porque manter o trabalho no estúdio era difícil (ele usava o processo de revelação com colódio líquido) e os fotógrafos comerciais (que começaram a utilizar o processo de chapas secas na década de 1870) tiravam fotos com maior rapidez.

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Uma galeria de fotos de Lewis Carroll (pesquisa de Ramiro Furquim):

Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Alice Liddell | Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll
Foto: Lewis Carroll