Hoje, uma importantíssima data na história recente da música: Revolver completa 50 anos

Hoje, uma importantíssima data na história recente da música: Revolver completa 50 anos
A capa de Revolver
A capa de Revolver

É uma escolha que pode variar. Meus discos preferidos dos Beatles são Rubber Soul, O Álbum Branco e Abbey Road, mas Revolver é, sem dúvida, o mais importante do ponto de vista da história do rock. Eu tinha 9 anos e lembro que minha irmã tinha comprado Rubber Soul e que pegara Revolver emprestado de uma amiga. Ambos eram objeto de culto absoluto em minha casa, na Av. João Pessoa, em Porto Alegre. Ignoro como não furaram, de tanto que ouvimos.

Revolver é um divisor de águas na história dos Beatles e do rock. A partir dele, o grupo deixou de se apresentar em público porque as canções não poderiam ser reproduzidas no palco, uma aparente necessidade da época. Era um álbum criado em um estúdio muito bem equipado, com recursos que poderiam ser buscados onde estivessem e o grupo — para nossa sorte — passou a ser escravo da casa de Abbey Road onde gravava, tanto que só fez mais uma apresentação pública até sua dissolução. As gravações envolveram fitas tocadas de trás para diante — como no solo de guitarra de Tomorrow never knows, arrancado de Taxman — orquestra, quarteto de cordas, o extraordinário trompista Alan Civil, etc. Para Revolver, os Beatles alteraram totalmente a forma de compor e George Martin foi atrás. Eu disse atrás, não na frente. Muito da inovação sonora e de estilo das músicas do álbum deve-se ao engenheiro de som Geoff Emerick. Foi dele a ideia de aproximar os microfones aos instrumentos e amplificadores, em especial, à bateria de Ringo, o que produziu um som mais pesado e impactante. A EMI detestou a novidade. A direção da gravadora se reuniu com os músicos, querendo vetar o novo estilo, mais agressivo, porém Paul, falando em nome do grupo, deu um ultimato aos executivos: “De agora em diante, esse é o nosso som. Ou será assim ou simplesmente não será”.

O ecletismo tornou-se uma marca do rock. Vejam o que foi feito depois de Revolver e o que tínhamos antes. O LP lançado na Inglaterra em 5 de agosto de 1966, abriu muitas portas. As letras abandonam o garoto-encontra-garota e falam de impostos, de vidas desperdiçadas, do vazio diário, do sono, da tristeza dos finais das relações e de um certo e altamente lisérgico submarino amarelo. Os arranjos ganharam inédita complexidade, mostrando quem era George Martin, um irreverente erudito.

Como se não bastasse, o álbum mostra a cara de cada um. George ganhou espaço. Colocou três composições suas das quatorze do disco. É sua a obra-prima chamada I want to tell you, canção sobre a frustração de querer dizer algo e não conseguir. Taxman é uma crítica aos impostos cobrados e Love you too traz pela primeira vez as cítaras para o rock. Ele estava cada vez mais envolvido com a cultura indiana e Ravi Shankar. E todos estavam mergulhados nas drogas.

Lennon torna-se o irônico que foi até a morte. Em Tomorrow never knows, exige que sua voz soe como a do dalai lama cantando na montanha, seja lá isso o que for. É uma viagem drogadíssima de três minutos. George Martin que se virasse. Em Tomorrow há as fitas tocadas de trás para diante, oboés dando risadas, uma bateria violentíssima — Ringo parecia alucinado — e uma letra sensacional. E o que dizer das deliciosas Dr. Robert e She said she said? A primeira era uma alusão ao fornecedor de drogas do grupo, ali chamado de doutor Robert. E diz:

Ring my friend, I said you call Doctor Robert
Day or night he’ll be there any time at all, Doctor Robert
Doctor Robert, you’re a new and better man
He helps you to understand
He does everything he can, Doctor Robert

(…)

Well, well, well, you’re feeling fine
Well, well, well, he’ll make you… Doctor Robert

Ainda de John, há I´m only sleeping, que fala sobre como John amava dormir e odiava ter seu sono interrompido. O arranjo é bastante onírico com a voz de John sendo sutilmente distorcida por um gravador em velocidade pouca coisa mais alta que a correta.

Mas as canções de Paul talvez sejam o ponto alto de Revolver. Eleanor Rigby é um clássico sobre a solidão. O arranjo para cordas de Martin é uma pérola irrepetível. “Onde estão os outros Beatles nesta música?”  — perguntava a criança que eu era na época. “Onde ficaram as guitarras de John e George?” For no one é, em minha opinião, uma das melhores canções já compostas. De repente, surge a trompa de Alan Civil para dar ornamento fundamental a uma melodia lindíssima. Há também a canção favorita de McCartney, Here there and everywhere, e a inacreditável soul music by Paul de Got to get you into my life que nos faz perguntar novamente onde diabo estão os Beatles, pois o acompanhamento é quase só de metais.

Yellow Submarine, escrita por Paul e cantada por Ringo, tem em sua letra um tema infantil que depois seria aproveitado para dar título a um desenho animado. Traz sons de bolhas, barulho de água e outros sons gravados em estúdio. A letra sugere mais drogas, não? “Vamos vivendo uma bela vida / Achamos para tudo uma saída / Céu azul, mar verde e belo / Em nosso submarino amarelo”.

Revolver foi uma viagem sem volta na estética do grupo. Ouçam outros discos de 66 e a maioria parecerá vir de um passado remoto se comparados com este LP.

Mas por que Revolver? As sugestões eram as seguintes: Many years from now, Magic circles, Beatles on safari, Four sides of the eternal triangle, Pendulum e After Geography, uma brincadeira de Ringo com Aftermath, álbum dos Rolling Stones. Mas Revolver venceu porque se referia tanto à arma quanto ao movimento de revolução de um disco de vinil no prato giratório de um toca-discos.

Se você nunca ouviu Revolver, sua vida não mudará em nada, mas ele foi uma pedra fundamental para o rock para chegar à época de ouro setentista. Sem este degrau, tudo seria menor.

Relação de canções de Revolver.

Taxman (Harrison) 2:39
Eleanor Rigby (McCartney) 2:07
I’m Only Sleeping (Lennon) 3:01
Love You To (Harrison) 3:01
Here, There and Everywhere (McCartney)2:25
Yellow Submarine (McCartney)2:40
She Said She Said (Lennon) 2:37
Good Day Sunshine (McCartney)2:09
And Your Bird Can Sing (Lennon) 2:01
For No One  (McCartney) 2:01
Doctor Robert (Lennon) 2:15
I Want to Tell You (Harrison) 2:29
Got to Get You into My Life (McCartney)2:30
Tomorrow Never Knows (Lennon) 2:57

A contracapa de Revolver, dos Beatles
A contracapa de Revolver, dos Beatles

Os 26 dias e as muitas histórias que separam Abbey Road do Led Zeppelin II

Os 26 dias e as muitas histórias que separam Abbey Road do Led Zeppelin II
Os Beatles, esperando o momento de atravessar Abbey Road
Ainda em fila, John, Ringo, Paul e George esperam o momento de atravessar Abbey Road de volta

Publicado em 19 de outubro de 2014 no Sul21

Abbey Road foi lançado em 26 de setembro de 1969 na Inglaterra. Led Zeppelin II saiu menos de um mês depois, em 22 de outubro. O duplo aniversário de 45 anos une dois esplêndidos discos (ou LPs, pois estamos na época do vinil) que estão em qualquer seleção que relacione os “melhores de todos os tempos”. Curiosamente, o primeiro parece encerrar uma era, enquanto o segundo inaugura outra. Para quem veio de Marte, informamos que Abbey Road foi o 12° álbum lançado pela fundamental banda britânica The Beatles. Já Led Zeppelin II é o 2°  álbum do importante grupo denunciado no título.

Abbey Road foi o último disco dos Beatles a ser gravado e o penúltimo a ser lançado. As canções do último disco, Let It Be, foram gravadas alguns meses antes das sessões de Abbey Road. Este representou uma trégua nas brigas que levaram Let it be a não ser lançado logo após sua gravação. Foi um breve retorno aos velhos tempos, com a recolocação de George Martin como produtor. Mas há ainda claros ecos da confusão em que estava metido o grupo: o vinil tinha (digamos que tem ainda) dois lados bem distintos entre si, com a finalidade de satisfazer aos egos um tanto inchados e ressentidos de John Lennon e Paul McCartney. Apesar dos dois lados terem canções de ambos, o lado A, que começa com Come Together e vai até I want you (She`s so heavy) é a parte do disco concebida por John Lennon e é uma coleção de canções individuais. Já o lado B, o de Paul McCartney, logo após Because, contém uma sequência de músicas propositadamente inacabadas criadas pela dupla.

Curiosamente, cada um dos lados foi brindado por uma obra-prima de George Harrison: o lado Lennon ganhou Something e o lado McCartney recebeu Here comes de sun.

O Led Zeppelin em 1969
O Led Zeppelin em 1969

Antes de seguirmos com Abbey Road, vejamos o que acontecia na época com o Led Zeppelin. Em outubro de 69, o Led tinha um ano e um mês de vida. A banda era formada pelo guitarrista Jimmy Page, o vocalista Robert Plant, o baixista e tecladista John Paul Jones e o baterista John Bonham. Page começara sua carreira como músico de estúdio em Londres e, em meados da década de 1960, era o guitarrista mais procurado pelas gravadoras na Inglaterra. Entre 1966 e 68, ele foi um dos Yardbirds. Primeiramente, o nome da nova banda era New Yardbirds. Porém, quando as gravações daquele que seria o Led Zeppelin I viraram coisa séria, a banda concluiu que tinha personalidade para merecer um nome sem cordão umbilical. O nome Led Zeppelin surgiu depois que os amigos do The Who — Keith Moon e John Entwistle — comentaram que o supergrupo seria um “balão de chumbo” (do inglês “lead zeppelin”). A palavra “lead” é propositadamente escrita com erro.

O Led Zeppelin é reconhecido como um dos iniciadores do heavy metal e seu LP de 1969 é o mais pesado de todos. Mas não precisamos ser muito atentos para notarmos que a origem do som do grupo está no blues e no folclore inglês. Diferentemente do LP dos Beatles — todo ele gravado no conforto do estúdio de Abbey Road –, o do Led Zeppelin foi feito de forma cigana. Afinal, o grupo passou o ano de 69 excursionando pela Europa e Estados Unidos e cada canção foi gravada, mixada e produzida separadamente em vários estúdios, alguns dos quais eram tecnicamente bastante pobres. Por exemplo, um estúdio em Vancouver foi creditado como “cabana”, pois tinha um equipamento de oito canais que nem sequer possuía conexões para fones de ouvido.

Contrariamente, Abbey Road é o mais bem acabado de todos os discos dos Beatles, comparável somente a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Sua estrutura foi bastante pensada e discutida, e as visões discordantes dos integrantes da banda só contribuíram para a riqueza da criação final. Trata-se da última explosão de criatividade do grupo, capitaneada pelo produtor George Martin. Enquanto isso, Led Zeppelin II tem sua unidade advinda justamente da falta de tempo e de reuniões formais. O baixista John Paul Jones, anos depois, disse que “muitos dos riffs que Page executa nesse álbum haviam surgido no palco, durante as longas improvisações que fazia durante a canção Dazed and Confused. Depois dos shows, os membros da banda tentavam recordar os melhores trechos, que eram imediatamente gravados em algum estúdio nas proximidades. A produção do disco é creditada a Jimmy Page.

A capa do Led Zeppelin II
A capa do Led Zeppelin II

A capa do Led Zeppelin II tem uma história curta, se comparada com a série de interpretações — loucuras absolutas — suscitadas por Abbey Road. O projeto da capa foi baseado em uma fotografia da Divisão Jagdgeschwader 1 (Esquadrão de Combate nº 1) da Força Aérea Alemã, o famoso “Circo Voador” liderado por Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho da Primeira Guerra Mundial. Depois que a foto foi matizada, os rostos dos quatro integrantes da banda — retirados de uma publicidade de 1969 — foram retocados e colocados na foto. Também foram incluídos os rostos do empresário da banda, Peter Grant. A mulher na foto é Glynis Johns, a atriz que interpretou a mãe de Mary Poppins no filme da Disney. A presença dela é uma piada interna. O nome do engenheiro de gravação era Glyn Johns, ou seja, eram quase homônimos. Também foi incluído o astronauta Neil Armstrong, recém chegado da Lua. A campanha publicitária dizia “Led Zeppelin – A única maneira de voar”.

A foto-base da capa.
A foto-base da capa.

Como dissemos, o disco é certamente o trabalho mais pesado da banda. Ele inicia com o agressivo riff de Whole lotta love, seguindo com a What is and what should never be, um gênero de canção que se tornaria típica do Led Zeppelin ao alternar momentos suaves com “pauleiras”. Nos anos que se seguiram a seu lançamento, Led Zeppelin II era citado por críticos musicais como um modelo a ser seguido por bandas de heavy metal. Músicas derivadas do blues como Whole lotta love, Heartbreaker, The lemon song, Moby Dick e Bring it on home foram vistas, na época, como grandes novidades, pois os riffs de guitarra definiam e puxavam as canções, em lugar do refrão. A absoluta ênfase no instrumental era atípica na música popular. O solo de guitarra de Page em Heartbreaker, foi uma grande inspiração para o trabalho posterior de solistas de metal. Como tal, o álbum é geralmente considerado como muito influente no desenvolvimento do rock, sendo um dos precursores do heavy metal, inspirando uma série de outros grupos de rock, incluindo Aerosmith, Iron Maiden, Guns N’ Roses e até seu contemporâneo Black Sabbath.

A famosa capa de Abbey Road
A famosa capa de Abbey Road

Abbey Road tem a mais famosa capa de um disco. A fotografia da capa do álbum foi tirada do lado de fora dos estúdios Abbey Road em 8 de agosto de 1969 por Iain Macmillan. A sessão durou dez minutos. John Lennon estava apressado e queria tirar a foto e sair logo dali, pois “deveríamos estar gravando e não posando para fotos idiotas”. A ideia da foto de capa foi de Paul McCartney. Macmillan tirou apenas seis fotos sobre um cadeira colocada no meio da rua. Paul McCartney escolheu a que achou melhor. Nove entre cada dez turistas vão até aquele bairro residencial ver a rua e repetir a famosa foto idiota com amigos. O estúdio ainda está lá, funcionando, bem na frente do fusca branco.

A capa foi objeto de toda sorte de rumores e teorias de que Paul estaria morto, vítima de um acidente de carro em 1966. Apesar de ter sido apenas uma brincadeira, vale a pena conhecer a lenda. Como se vê ao lado, na capa do LP, os Beatles estão simplesmente atravessando a rua numa faixa de segurança a poucos metros do Estúdio Abbey Road.

Porém… Ela estaria lotada de “pistas” que demonstrariam que Paul tinha morrido. Paul está descalço — segundo ele, aquele dia fazia muito calor, e ele não estava aguentando ficar com nada nos pés. Além disso, estava fora de passo com os outros três e de olhos fechados. Apesar de ser canhoto, leva o cigarro na mão direita. A placa do fusca (“beetle” em inglês) estacionado é “LMW”. É claro que isso significa “Linda McCartney Widow” ou “Linda McCartney (mulher de Paul) Viúva. O complemento da placa é “281F”, referindo-se ao fato de que McCartney teria 28 anos se (if em inglês) estivesse vivo. (O I em “28IF” é um “1”, mas isso é difícil de se ver na capa). Para piorar, os quatro Beatles da capa representariam o padre (John, cabelos compridos e barba, vestido de branco), o notário responsável pelo funeral (Ringo, de terno preto), o cadáver (Paul, de terno, mas descalço como um cadáver), e o coveiro (George, em jeans e uma camisa de trabalho). Além disso, há um outro carro estacionado, de cor preta, um modelo usado para funerais, voltado para o lado do cemitério próximo a Abbey Road. O homem de pé na calçada, à direita, é Paul Cole, um turista dos EUA que só se deu conta de que tinha participado da capa de disco mais famosa de todos os tempos meses depois.

Aparentemente, Paul McCartney está vivo e produzindo até hoje.
Aparentemente, Paul McCartney está vivo e produzindo até hoje.

E foi uma capa nada planejada. Durante as gravações, o engenheiro de som Geoff Emerick fumava muito os cigarros da marca Everest. Então, ficou decidido que este seria o nome do disco. Eles até pensaram em fretar um jato e ir até o Everest tirar umas fotos. Mas, como estavam em cima do prazo, decidiram atravessar a rua.

Abbey Road é o disco mais vendido dos Beatles. A abertura vem com Come Together, maravilhosa canção de Lennon. Inicia com um “chuuunc!” (na veia) que era a gíria para o uso de heroína. McCartney e o produtor George Martin deixaram o baixo bem alto de forma a evitar problemas com a justiça. Depois vem a célebre Something, de Harrison. Até Frank Sinatra gravou. Outras músicas famosas do disco são a brincadeira anos 50 feita em Oh! Darling, o coral de Because — ambas de McCartney –, e a outra e esplêndida colaboração de Harrison Here comes the sun. Mas o que distingue Abbey Road de tudo o que fora feito antes pelos Beatles é a sequência de nove canções inacabadas no final do disco: You never give me your money, Sun King (com parte de sua letra feita de palavras que não existem), Mean Mr. Mustard, Polythene Pam, She came in through the bathroom window, Golden slumbers, Carry that weight, The end e Her Majesty. Elas finalizam também a história do grupo.

Já o Led Zeppelin seguiria aprontando por mais sete discos. Alguns deles realmente espetaculares. Mas esta é outra história.

abbeyled2

A Hard Day’s Night completa 50 anos hoje

A Hard Day’s Night completa 50 anos hoje
A capa do disco de vinil. Clique se quiser ampliar.
A capa do original inglês de vinil. A edição brasileira trazia a mesma capa, só que com a cor vermelha substituindo o azul. Clique se quiser ampliar.

A Hard Day’s Night é o terceiro álbum dos Beatles. Seu aguardado lançamento aconteceu na Inglaterra em 10 de julho de 1964, acompanhando o lançamento do filme homônimo de Richard Lester.

O título da canção A Hard Day’s Night tem origem numa expressão criada por Ringo Starr em uma entrevista, daquelas bem bagunçadas. Ele disse ao disc jockey Dave Hull, no começo de 1964: “Tínhamos trabalhado um dia inteiro e mais a noite toda. Quando saímos do estúdio, eu pensava que ainda era dia e disse: “Foi um dia duro… mas olhei em torno e vi que estava escuro, então eu disse: foi a noite de um dia duro”. A Hard Day’s Night.

Correria
Correria

John Lennon escreveu a música em uma noite — desta vez sem trabalhar durante o dia –, e apresentou-a aos outros Beatles na manhã seguinte. A letra do manuscrito original pode ser vista na Biblioteca Britânica, rabiscada em caneta esferográfica nas costas de um cartão de aniversário.

Meus sete leitores devem saber que, apesar de assinarem juntos a maior parte das músicas do grupo, Lennon e McCartney raramente as escreviam juntos. Eles as faziam separadamente e depois discutiam alguma alteração. É simples identificar quem fez o quê. Basta ouvir o cantor principal. John cantava as dele e Paul as suas.

Saltos
Saltos

O filme lançado com o disco foi dirigido por Richard Lester. Dez ENORME sucesso. Mostrava, em preto e branco, a história de uma banda de rock que era perseguida por fãs histéricos. Após perseguições de fãs, entrevistas, e muitas piadas, a banda realiza um show na televisão. O filme mostra um pouco da realidade dos Beatles na época. No Brasil, o disco e o filme foram lançados pelo nome de Os reis do iê, iê, iê (a expressão “iê, iê, iê” deriva de “yeah, yeah, yeah”, presente no refrão da canção She Loves You).

Como se fazia na época, o álbum foi gravado em apenas nove dias não consecutivos, de janeiro a junho de 1964. Entre as sessões, os Beatles cumpriam seus compromissos de shows e da filmagem de A Hard Day`s Night. Durante a filmagem, John Lennon e Paul McCartney escreviam mais e mais canções. A maioria destas ficou fora de A Hard Day`s Night, indo para o seguinte, Beatles for Sale, lançado em 4 de dezembro do mesmo ano.

Descanso
Descanso

A Hard Day`s Night tornou-se seu primeiro álbum do grupo que continha material exclusivamente original, só com canções de Lennon e McCartney, ainda sem a participação de George Harrison como compositor.

Ouvi o disco novamente ontem e reforcei minha impressão. É um álbum bem diferente do que veio antes e do que virá depois. O motivo é simples. É o único disco dominado por canções de John Lennon. Isto o trona muito mais rápido, muito mais rock ‘n’ roll. A típica presença de Paul, muito mais lírico e melodioso, é notada em And I love her e Things we said today. O resto, com exceção de If I fell, são rocks rápidos.

Mais correria
Mais correria

Lennon foi o único compositor da faixa-título, juntamente com I Should Have Known Better, Tell Me Why, Any Time At All, I’ll Cry Instead, When I Get Home e You Can’t Do That. Ele também escreveu a maior parte de If I Fell e I’ll Be Back, e colaborou com McCartney em I’m Happy Just To Dance With You.

As contribuições de McCartney para o álbum foram discretas, porém excelentes: as clássicas baladas And I Love Her e Things We Said Today, bem como Can’t Buy Me Love.

A Hard Day’s Night é um dos três únicos álbuns dos Beatles para não contêm vocais por Ringo Starr. Os outros são Let It Be e Magical Mystery Tour.

O cartaz do filme de Lester
O cartaz do filme de Lester

As faixas de A Hard Day`s Night:

Lado A

A Hard Day’s Night
I Should Have Known Better
If I Fell
I’m Happy Just To Dance With You
And I Love Her
Tell Me Why
Can’t Buy Me Love

Lado B

Any Time At All
I’ll Cry Instead
Things We Said Today
When I Get Home
You Can’t Do That
I’ll Be Back

John Lennon: vocal, guitarra, violão, harmônica, tamborim
Paul McCartney: vocal, baixo, piano, sinos
George Harrison: vocal, guitarra, violão
Ringo Starr: bateria, congas, bongôs, tamborim
George Martin: piano

Produtor: George Martin, óbvio

O disco completo para meus sete leitores-ouvintes: