Apenas uma foto

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Dilma Rousseff consola a viúva Maria Thereza Goulart, durante a cerimônia de chegada dos restos mortais do ex-presidente Jango a Brasília. João Goulart foi o único presidente brasileiro morto no exílio e seus restos mortais serão exumados a fim de verificar se foi envenenado ou não.

Foot: Roberto Stuckert Filho/PR
Foot: Roberto Stuckert Filho/PR

O caso Panair: o esquecimento de que a ditadura fazia mais que torturar

O caso Panair: o esquecimento de que a ditadura fazia mais que torturar

No caso da repressão, talvez se chegue à punição ou, no mínimo, à identificação de militares torturadores, mas o papel da Oban e da Fiesp e de outros civis coniventes permanecerá esquecido nas brumas do passado, a não ser que a tal Comissão da Verdade siga a sugestão do [Carlos] Araújo e jogue um pouco de luz nessa direção também.

Luís Fernando Verissimo, na crônica Os coniventes, de 21 de março de 2013

Cerveja que tomo hoje é
Apenas em memória dos tempos da Panair

A primeira Coca-cola foi
Me lembro bem agora, nas asas da Panair

A maior das maravilhas foi
Voando sobre o mundo nas asas da Panair

Conversando no bar (Canção de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Há alguns anos, esta canção de Milton Nascimento recuperou seu título original de Saudades dos aviões da Panair. Na época em que foi lançada por Elis Regina, em 1974, os autores tiveram receio de falar em Panair e em suas saudades da empresa logo no título da canção. Então, ela foi rebatizada para Conversando no Bar. Afinal, era proibido sentir saudades da enorme e respeitada empresa que, por ação dos militares, foi desmontada sem maiores explicações nos primeiros meses do Golpe de 1964. Num país pobre e quase desindustrializado, a existência da Panair do Brasil S. A. era motivo de orgulho nacional.

Logotipo da Panair: pouso forçado em abril de 1965

Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1965, 15 h. Um telegrama do Ministério da Aeronáutica chegou aos escritórios da Panair, a maior companhia aérea do país e uma das maiores do mundo. A mensagem era simples e dava conta de que o governo estava cassando seu certificado de operação em razão da condição financeira insustentável da empresa. O telegrama vinha assinado pelo ministro Eduardo Gomes. A Panair não tinha nenhum título protestado nem impostos atrasados, mas o telegrama adiantava que ela não tinha meios para saldar suas dívidas e que estava proibida de voar. Os dias eram assim, também cantava Elis, ou podiam ser assim.  À noite, tropas do Exército invadiram os hangares da Panair e a Varig imediatamente assumiu todas as  concessões de linhas aéreas e propriedades da concorrente. E conseguiu fazer isto sem atrasar nenhum voo. Provavelmente, tinha sido alertada sobre os caminhos se abririam para ela naquele grande abril.

Um avião que levava um passageiro e 25 fardos de borracha na Amazônia em 1943

A revogação das concessões de linhas aéreas da Panair do Brasil foi decretada pelo Marechal Castelo Branco e a Varig era de propriedade de um aliado do governo militar, Ruben Berta  — nome de bairro em Porto Alegre. De uma tacada, a atitude provocou o desemprego de cerca de 5 mil pessoas, deu à Varig o monopólio dos vôos aéreos internacionais do Brasil e isolou quarenta e três cidades da Amazônia, pois nenhuma outra empresa operava os hidroaviões Catalina, os únicos que alcançavam aquelas localidades. Já a Celma, a subsidiária da Panair que fazia a manutenção das turbinas aeronáuticas civis e militares no Brasil, foi estatizada. Fim.

Provavelmente, não houve apenas uma razão um motivo para que os militares responsáveis pelo Golpe de 1964 perseguissem a Panair. Provavelmente, o motivo foi o conjunto da obra e, certamente, houve considerável influência externa. Mário Wallace Simonsen, o principal sócio da empresa, era um dos homens mais ricos do país. Era uma versão principesca de nossos super-ricos, uma espécie de Eike Batista com glamour. Simonsen era o sócio majoritário da Panair, o dono da TV Excelsior, da Comal — maior exportadora de café do Brasil num período em que o café respondia por dois terços das exportações nacionais –, da Editora Melhoramentos, do Banco Noroeste, do Supermercado Sirva-se (o primeiro a existir no Brasil), da Rebratel (qualquer semelhança com o nome Embratel não é mera coincidência) e de mais 30 empresas. A rapidez com ele foi expurgado do mundo empresarial brasileiro após  1964 foi absolutamente espantosa. A única empresa que continuou a existir foi o Banco Noroeste, que foi repassado a seu primo Léo Cochrane Simonsen até ser recentemente comprado pelo Banco Santander.

A família era admiradíssima como os ricos costumam ser. Presença constante nas colunas sociais, sabia-se que a família Wallace Simonsen – Mário, sua esposa Baby e os três filhos Wallace, John e Mary Lou – viviam como reis. A linda Mary Lou era figura comum nas revistas dos dois lados do Atlântico. Sua festa de debutante foi realizada em Londres, na presença da rainha da Inglaterra. Seu noivado também ocorreu na capital inglesa, só que na embaixada do Brasil. Seu irmão Wallinho andava com um espantoso Mercedes-Benz esportivo nas ruas de São Paulo e tinha casa com mordomo em Paris.

Ou seja, tratava-se do jet set da época, pessoas que normalmente têm boas relações com o poder. Mas Mário Wallace Simonsen devia ter graves problemas, na opinião dos militares. Por que a ditadura empenhou-se tanto para acabar com o império de Simonsen? Há várias possibilidades: é notório que a Varig – cuja diretoria era amiga da ditadura – desejava o mercado aéreo dominado pela Panair, que os Diários Associados queriam o mercado da TV Excelsior e que as empresas americanas de café, representadas por Herbert Levy, queriam abocanhar a Comal. E se havia tais pressões civis, talvez houvesse também um bom motivo militar.

Mario Wallace Simonsen, dono de um grupo de empresas destroçadas pelo Golpe de 64

Simonsen não era especialmente simpático à esquerda nem tinha intimidade com João Goulart, porém, em agosto de 1961, enquanto Jânio Quadros estava em visita à China, Simonsen posicionou-se ao lado da legalidade. Houve “acusações” – fato inverídico – de que Jango teria voltado da China num avião da Panair. Mas a verdade talvez seja ainda pior: Simonsen mandou um executivo da empresa avisar o vice-presidente sobre o que estava em andamento no Brasil. Jango não sabia de nada, pois naquele tempo as comunicações eram tais que o vice-presidente poderia retornar da China sem cargo e sem saber de nada. Então, avisado, Jango deu telefonemas de Paris e Zurique, onde fazia escalas, para San Tiago Dantas — seu futuro Ministro de Relações Exteriores e da Fazenda — e para o ex-presidente Juscelino Kubitschek, articulando sua ascensão ao cargo que lhe cabia constitucionalmente.

Logo após o Golpe, o deputado Herbert Levy conseguiu criar uma CPI da Comal, a empresa de exportação de café de Simonsen.  Levy era uma figura da ditadura militar. Foi deputado federal por dez mandatos consecutivos, entre 1947 e 1987, pela UDN, Arena, Partido Popular, PDS, PFL e PSC, além de secretário da Agricultura do Estado de São Paulo em 1967, durante a administração Abreu Sodré. Na CPI, Levy conseguiu que o novo regime cancelasse a licença da empresa para comercialização de café, sem que ela tivesse um único título protestado.

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Trinta anos sem Mané Garrincha, a alegria do povo

Publicado em 20 de janeiro de 2013 no Sul21

Garrincha chegou ao Botafogo em 1953. Vinha de Pau Grande, localidade cujo nome se presta a piadas que não faremos. Foi medido, pesado e auscultado. Pesava 67 quilos, tinha 1,69m de altura e os pulmões limpos. Os doutores Oscar Santamaria, clínico geral, e José Nova Monteiro, ortopedista, pediram que ele subisse numa mesa a fim de analisarem suas pernas. Garrincha tinha o joelho direito em varo, virado para dentro, e o esquerdo em valgo, virado para fora, além de um deslocamento da bacia. Sua perna esquerda tinha alguns centímetros a menos que a direita. E era também ligeiramente estrábico. Os médicos ficaram pensativos. Sabiam que o Botafogo precisava desesperadamente de um ponta direita.

Garrincha com uma de suas filhas em Pau Grande. A genética manifesta-se no joelho da menina.

O veterano ponta Paraguaio estava indo para o Fluminense e o técnico Gentil Cardoso estava experimentando uma série de jogadores ruins demais. E falavam bem daquele Garrincha. No domingo seguinte, contra o São Cristóvão, Gentil escalou Mangaratiba em seu time titular. Sim, Mangaratiba, um menino que, cada vez que pegava a bola, ouvia a torcida de General Severiano gritar “Olha o telefone, Mangaratiba!”. Nada pessoal, o problema é que, na partida preliminar, jogara um novo ponta que simplesmente tinha destroçado o adversário e do qual não se sabia nem o nome.

Durante a semana, sem consultar a ninguém, Garrincha resolveu dar um prêmio a si mesmo: uma folga em Pau Grande. A localidade é até hoje um distrito de Magé, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, aos pés da Serra dos Órgãos. Foi lá jogar umas peladas com os amigos. Apareceu para treinar só quinta-feira. Enfurecido, Gentil deixou-o na preso concentração e fez com que ele jogasse novamente nos aspirantes. E ele acabou com o jogo pela segunda vez. No domingo seguinte, Gentil escalou-o como titular para o jogo contra o Bonsucesso. Nos anos 50, eram raras as vitórias de times pequenos sobre os grandes. Naquela tarde, ventava e chovia em General Severiano, mas o verdadeiro mau tempo estava em campo. O Botafogo perdia por 2 x 1, Garrincha fazia uma estreia apagada e, de repente, pênalti para o Botafogo. Os mais experientes – o capitão Geninho, Nilton Santos, Juvenal, o artilheiro Dino – foram saindo de fininho. Então Garrincha pegou a bola e preparou-se para bater a penalidade. Só que ele não era o batedor do Botafogo, era o batedor do Pau Grande. Geninho olhou para Gentil que assentiu com a cabeça. A torcida observava aquela sandice. Então, Garrincha bateu forte, no canto, marcando seu primeiro gol como profissional. E enlouqueceu. Fez mais dois gols, deu passes para outros dois e, a cada um deles, corria para um determinado lugar da arquibancada. Depois do jogo, foi levado nos braços por aqueles para quem corria a cada gol: eram Pincel e Swing, seus melhores amigos de Pau Grande.

A vida em Pau Grande numa série de fotos para a revista O Cruzeiro

O time do Botafogo não era nada bom, tanto que acabou em sexto lugar no Carioca de 1954. Porém, em 1955 e 56, o Botafogo começou a montar o legendário time que tinha em Garrincha – e Didi e Nilton Santos – sua maior estrela. Didi, quando chegou ao Botafogo, vindo do Fluminense, ganhava 70 mil cruzeiros por mês. Sabedores do fato, Nilton Santos e Garrincha pediram reajuste. Nilton passou a ganhar 30 mil. Garricha passou de 16 para 18 mil. Com 18 mil, um casal vivia bem com seus filhos, mas ele tinha também vários irmãos agregados, assim como os tinha Nair, sua mulher. A profissão de jogador não era o que é hoje: não era regulamentada. Os jogadores não tinham direito à férias. Tratava-se de um semi-amadorismo onde os mais previdentes exerciam uma segunda profissão.

Treinamento anos 50. Com o Botafogo indo de navio para uma excursão na Europa, Zezé Moreira e seus comandados exercitam-se no convés. A seleção de 58 faria o mesmo.

Em 1957, o Botafogo foi Campeão Carioca numa final que ficou marcada a ferro e fogo a alma do torcedor do Fluminense. Didi passou a tarde dando passes para Garrincha, que sistematicamente humilhava seu marcador Altair. O zagueiro Clóvis vinha na cobertura e também era driblado. Aos 40 min do primeiro tempo, já estava 3 x 0. O jogo acabou em 6 x 2. Era impossível não convocar aquele maluco para a Seleção Brasileira. Só que ele quase não foi à Copa da Suécia em 1958. Julinho Botelho era titular absoluto da posição, mas jogava na Itália. Por carta, comunicou a CBD que não achava justo tomar o lugar de um companheiro que jogava no Brasil. Então, seu reserva Joel seria o titular e Garrincha o ponteiro direito reserva. Nos coletivos, era marcado por Nilton Santos, seu companheiro de Botafogo. Nilton detestava aquilo. Era driblado mil vezes durante os treinamentos e pedia para Garrincha não exagerar com ele.

Mané, Nilton Santos e Paulo Valentim nos 6 x 2 contra o Flu. Valentim fez cinco gols.

A grande estrela da Seleção era o atacante Mazzola, que também jogava na Itália. Porém, durante a Copa do Mundo, Vicente Feola, que tinha a fama de dormir durante os treinos de seus jogadores, observou que talvez fosse a hora de tirar Joel, Dida e Mazzola para colocar Garrincha, Vavá e Pelé contra a URSS. O efeito foi notável. Vários jornais noticiaram que os primeiros três minutos daquele jogo foi um dos mais extraordinários massacres do futebol mundial. Foi uma avalanche de bolas na trave e no travessão comandadas por Didi, Pelé e Garrincha. Lev Yashin, grande goleiro russo, disse que já suava, desesperado, quando finalmente Vavá marcou o primeiro gol brasileiro. Aos três minutos.

Uma das bolas na trave de Yashin, esta de Garrincha. Três minutos inesperados.

Foi a Copa de Pelé, que, coadjuvado por Didi e Garrincha apareceu para o mundo marcando um gol inesquecível contra o País de Gales e arrasando também contra a França e a Suécia. Com a conquista da primeira Copa do Mundo, uma parte do complexo de vira-latas do futebol brasileiro foi pelo ralo.

Enquanto bebia (muito) e fumava, o atleta Mané Garrincha seguia colecionando títulos com o Botafogo. Claro, havia problemas. Em 1959, o Botafogo empatou o triangular final contra Flamengo e Vasco e perdeu a final para Angelita Martínez. Sim, Garrincha – e João Goulart – frequentavam demais a vedete Angelita Martínez e, se ela não atrapalhou, também não ajudou muito no desempenho esportivo do “demônio das pernas tortas”. Em seus shows, Angelita cantava a marchinha “Mané Garrincha” que iniciava com os brilhantes versos “Mané, que nasceu em Pau Grande…”.

Angelita Martínez: a deusa que era visitada por Mané Garrincha e João Goulart.

Por falar no local de nascimento de Mané, é importante dizer que ele sempre ia lá após os jogos. Os motivos eram dois, talvez três. Ele ia ver dona Nair e as numerosas filhas do casal. Também jogava peladas com os amigos e bebia, bebia até cair da tradicional cachaça do interior do estado do Rio de Janeiro.

Apesar do comportamento pouco indicado a um atleta, ele estava em alta e permaneceria assim por um bom tempo. Era admiradíssimo como jogador incontrolável e como um ser humano simples, natural, bem brasileiro. A imprensa da época amava seus ditos simplórios, ele era “Mané, a Alegria do Povo”. Tudo contribuía para sua fama, até seus casos amorosos. Além das conquistas nos gramados, além do reconhecimento mundial, as revistas o vendiam como uma máquina de fazer sexo. Falava-se que tinha filho até na Suécia — fato que foi depois confirmado: havia um varão escandinavo.

Com Bellini, em estilo Panair.

E então conheceu Elza Soares, uma explosiva baixinha de 1,57m pela qual largou tudo, família, filhas e amigos. Ela tinha 31 anos e era uma sensação já famosa nacionalmente. Era a cantora de “Se acaso você chegasse”. Garrincha tinha 28 anos e um comportamento infantil fora das camas. Ele foi ao encontro dela para pedir votos no concurso “o jogador mais popular do Rio”. Viu-a e foi para sempre. O prêmio era um Simca Chambord e Garrincha – apesar de raramente  buscar seus salários e prêmios por vitória na tesouraria do Botafogo – queria ganhá-lo. Com o apoio de Elza, levou o carro e uma nova mulher.

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100 anos do mestre da crônica Rubem Braga

Rubem Braga (1913-1990) elevou  a crônica ao patamar de obra de arte

Publicado em 12 de janeiro de 2013 no Sul21

Sem dúvida, a crônica não é um gênero recomendável a quem almeja a posteridade. Afinal, os cronistas normalmente escrevem para o dia seguinte e seus produtos, como se fossem modernos palimpsestos*, são substituídos no outro dia. Certamente, as crônicas duram mais um pouco mais quando são publicadas em revistas, e sua glória absoluta é aparecerem em livro. Hoje, com a internet e os blogs, as crônicas são publicadas instantaneamente e talvez sejam ainda mais voláteis. O tempo de exposição das crônicas nas capas dos sites é variável e sua glória mais duradoura é a de continuar aparecendo nas pesquisas do Google ou, e aqui voltamos ao ponto comum, em livro.

Temos e tivemos excelentes cronistas em nosso país. Tivemos, por exemplo, Nelson Rodrigues e Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, Millôr Fernandes e o sobrevivente – ainda bem! – Luís Fernando Verissimo. Mas tivemos um solitário cronista que se orgulhava de ter nascido em Cachoeiro do Itapemirim e que foi o maior de todos eles: Rubem Braga.

Segundo Bandeira (e também Drummond), melhor ainda quando estava sem assunto

A maioria das crônicas de Rubem Braga cumpriram seus destinos de palimpsesto. Afinal, ele escreveu mais de 15 mil crônicas para jornais, revistas, rádio e TV e não mais do que mil foram selecionadas pelo autor para publicação em livro. Ele publicou mais de 20 livros de crônicas, o primeiro aos 22 anos. O estranho é que Rubem Braga — um jornalista que por anos redigiu notícias em redações – tinha suas melhores performances quando tratava de não-notícias. Como escreveu Manuel Bandeira, o verdadeiro material de Rubem Braga é a escassez de assunto. Quando falava de um tema absolutamente simples e cotidiano, conseguia habilmente espremê-lo de modo a extrair as gotas de uma poesia que era só dele.

Rubem Braga nasceu há 100 anos, em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro do Itapemirim (ES) e morreu no Rio de Janeiro em dezembro de 1990. Em 1929, matriculou-se na faculdade de Direito do Rio, transferindo-se depois para Belo Horizonte. Em 1932, ano em que se formou, foi trabalhar no Diário da Tarde, de BH. Logo, além de matérias, passou a escrever suas crônicas. No mesmo ano, cobriu para os Diários Associados, na frente de batalha, a Revolução Constitucionalista de 1932. Trabalhou como correspondente ou contratado em diversas cidades do país, tais como São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Na FEB, Braga é o primeiro em pé, à esquerda

Acompanhou também a Força Expedicionária Brasileira na campanha de 1944-45, na Europa, quando era correspondente do Diário Carioca. Sempre viajou muito, escrevendo para jornais brasileiros sobre os países onde estava. Passou longas temporadas em Paris e em Santiago do Chile. Viajou do Paraguai à Índia, da Grécia à Mocambique. Em 1955, chefiou o Escritório Comercial do Brasil em Santiago durante o governo de Café Filho, mas não ficou um ano no cargo. Mandou um telegrama pedindo demissão. Em 1961, com os amigos Jânio Quadros na Presidência e Affonso Arinos no Itamaraty, tornou-se Embaixador do Brasil no Marrocos. Mas nunca se afastou do jornalismo.

Falamos que Rubem Braga trabalhou em Porto Alegre. Sim, ele passou somente alguns meses na capital gaúcha, em 1939, aos 27 anos, trabalhando no Correio do Povo. Na época, sofria perseguição política do governo de Getúlio Vargas e chegou a ser preso por algumas horas quando desembarcou.

O autorretrato do solitário Braga

Seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho, foi publicado em 1936 pela José Olympio. Na crônica que dá nome ao volume está escrito: Minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde. De fato, nunca foi conde, sempre trabalhou muito, apesar da fama de ser um ermitão de temperamento introspectivo, mas ganhou um apelido nobiliárquico: era chamado de “O Príncipe da Crônica”. Seus temas sempre foram as ruas das cidades onde viveu, suas árvores, seus pássaros – adorava descrevê-los – , as mulheres, a infância, o mar, os amigos, a saudade e a morte. Escreveu também muitas crônicas políticas, mas não as selecionava para seus livros. Era um homem de esquerda que foi ficando cada vez mais cético a respeito do discurso político. Nunca fez o habitual percurso para a direita e criticava asperamente o Golpe de 64, mesmo sem morrer de amores por João Goulart. Morreu escrevendo como um humanista cético: Nada me desgosta mais que o primarismo dos anti-comunistas que veem tudo da Russia como obra de capetas ou o tom longamente adotado pela “Imprensa Popular” divisando em tudo que é norte-americano corrupção, imperialismo, bestialidade, ignorância. Tal independência lhe renderia muitas críticas e incompreensões, tanto dos militares quanto da “Patrulha Ideológica” dos anos 70 e 80.

Apesar da fama de lírico, um crítico da ditadura de Vargas e do Golpe de 64

Por exemplo, quatro meses após o Golpe de 64, escreveu uma crônica dizendo que este fora fruto do aventureirismo frenético do Governo João Goulart. Porém, no mesmo texto, fazia a inútil advertência de que não aprovava “tolices como a cassação dos direitos políticos de Jânio Quadros, ou de homens como Celso Furtado e Anísio Teixeira”. Dois meses depois, sua postura já era bem mais decidida:

Sempre houve no Brasil quem pregasse a necessidade de um governo forte, um governo militar. Só assim poderíamos ter ordem e respeito. Um soldado que fizesse cumprir a lei. As virtudes militares de hierarquia, de disciplina, de obediência – para acabar com a clássica bagunça brasileira.

Ora, não é isso o que vemos. Há no Recife um Coronel Ibiapina que não respeita nem Superior Tribunal Militar, nem Supremo Tribunal Federal, nem general, nem marechal: quem manda é ele, quem prende e solta é ele.

(…)

Além dos violentos, dos arbitrários, dos boquirrotos, há os piores, os que torturam presos políticos. Onde está a ordem, a disciplina, onde está o respeito?

Não, fardar a bagunça não é uma solução. Tivemos mais de um presidente civil que não toleraria nem por um minuto nenhuma dessas exibições de insubordinação.

A fama e a condição de lírico não deve ser confundida com indiferença política. Rubem Braga fundou A Folha do Povo, no Recife, jornal comunista que foi fechado e seus redatores presos e espancados. Ele próprio, Rubem Braga, esteve preso no Recife antes de sê-lo em Porto Alegre. O que houve então para ele ser insistentemente identificado como apolítico? Ora, após seus 60 anos, durante o governo Médici e em plena vigência do AI-5, realmente houve um recuo do cronista em direção ao ceticismo, mas não apenas isso: o que houve foi uma escolha estética, uma substituição da crônica social e fática pelo atemporal e indireto, características aliás, adotadas por autores como Saramago e García Márquez em seus livros, apenas para citar dois autores cujas opiniões políticas jamais foram confundidas.

Por exemplo, em Ai de ti, Copacabana, há uma pequena, famosa e delicada crônica chamada O Padeiro (texto integral ao final desta matéria). Nela, Braga descreve um entregador de pães que ia de andar em andar e gritava, logo após apertar cada campainha, Não é ninguém, é o padeiro! Superficialmente, a crônica pode ser lida como a piada do homem que dizia que era ninguém, mas a crônica também permite a leitura da história do trabalhador que entregava os pães para os ricos de Copacabana, avisando-os — e talvez pensando — que era ninguém, que não valia a incomodação de abrir a porta para recebê-lo com um bom dia. A crítica que parte da esquerda fez a Rubem Braga ignorou a dimensão humana de seus relatos, que prescindia de discursos, adotando a graça, a leveza e a transcendência. Mas eram outros tempos.

Apesar da eterna carranca, um olhar carinhoso e compassivo das pessoas

E são justamente estas crônicas — as combatidas, as  indiretas, as poéticas — que Braga escolheu para os muitos livros hoje disponíveis. São crônicas líricas de fundo nada ameno. São aparentadas do Drummond de A Rosa do Povo e estão longe da literatura de salão, apesar de seus amados pássaros e árvores. E também são tristes, muito tristes como a história do homem solitário que nunca conheceu A Primeira Mulher do Nunes  (texto integral ao final da matéria), da qual todos diziam maravilhas e pela qual o narrador já estava apaixonado. Mas uma coisa ou outra o impediam de conhecê-la.

Na capa do livro diz: “Tônia Carrero, movida pela paixão”

Paradoxalmente, o solitário Braga mudava na presença do sexo feminino. Mulherengo, amou uma das mais belas atrizes brasileiras dos anos 40 e 50: Tônia Carrero. Conheceu-a em Paris. Rubem elogiava a sua beleza, fazia piadas — “gosto muito de seu joelho esquerdo” — e, aos poucos, conquistou-a. O marido dela proibiu que os dois se encontrassem. Tônia chorou muito, mas depois, solitária e triste, passou a sair ainda mais com Braga. Decidida a abandonar o marido, Tonia encontrava-se com Rubem num pequeno hotel. Um dia a concierge lhe deu um conselho: “Não perca nunca essa mulher. Ela é bonita demais”. Mas Tonia decidiu pelo rompimento e o escritor ameaçou matar-se debaixo das rodas dos carros de Paris. Nada. Ambos de volta ao Brasil, ele insistiu, mas Tonia o ignorou: “Então vou me jogar no mar!”, gritou Rubem.

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Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle

Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle

“Tudo que pensamos ser verdade um dia muda”, diz uma voz em off na abertura de Dossiê Jango. Talvez para as pessoas de minha geração — nascidas ali pelo final dos anos 50, início dos 60 — , a estranha morte de João Goulart e as repetidas acusações de Brizola de que Jango fora assassinado fossem há muito conhecidas, mas nunca é tarde para fundamentar tais suspeitas, ainda mais em época de Comissão da Verdade, mesmo que de mentirinha.

O excelente filme de Fontenelle inicia com uma contextualização de uns 40 minutos. Claro que ela é necessária, considerando-se o nível heterogêneo de informação dos espectadores. Ela não incomoda em nada, é elegante e interessante. Depois o filme entra de forma consistente na questão da morte de Jango. Não vou contar aqui o desfecho porque também Fontenelle faz uma espécie de suspense até revelar o motivo e o calibre das suspeitas. Mas, olha, é chumbo grosso, não são palavras ao vento. Os milicos viam três figuras como muito ameaçadoras nos anos 70: o rei posto João Goulart, o ex-presidente Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda. Não foi por acaso que o trio morreu em datas tão próximas, assim como mais 15 importantes políticos argentinos e uruguaios. Como morriam? Vejam o filme.

O filme  não somente confirma o talento do cinema brasileiro para o gênero documentário, como deveria ser obrigatório para estudantes secundaristas. Afinal, tenho visto muita gente que parece não saber bem o que é uma ditadura.

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Plano Nacional dos Direitos Humanos, versão 3

Sem construção de alicerces de conhecimento histórico, a ignorância erige-se em terreno fértil para que os apoiadores da ditadura, fossem eles truculentos ou silentes, voltem a sibilar barbaridades. Estas, por sua vez, tem, cada vez mais, tomado a forma da velha cantilena de que se travava uma guerra desde 1963, de que o Brasil teve que escolher entre uma ditadura de direita ou uma de esquerda, de que o golpe do Castelo Branco foi necessário, sendo que, depois, o regime degringolou por alguns anos, com os generais da linha dura. Barbaridades, que a pesquisa histórica tem desmentido.

Luís Augusto Farinatti (em comentário feito neste blog)

Ululante ou não, é óbvio que este blog defende o diabo, ou seja, o Plano Nacional dos Direitos Humanos, versão 3. Quando vi quem berrava contra ele, fiquei irremediavelmente apaixonado:

1. Os militares consideraram o plano insultuoso e revanchista, temendo uma caça aos torturadores. Ora, não vejo a hora da caçada. Há que se definir o que foi guerra e o que foi tortura e as punições devem ser para todos os que ultrapassaram os limites. Evidentemente, este blog não pensa em punir o militar que deu um tiro fatal num guerrilheiro no Araguaia; este blog gostaria apenas de saber quem trabalhou nos varais de pau-de-araras, quem foi manicure, essas coisas. Como os militares sabem que foram responsáveis por muito mais mortes, temem as investigações. Teria especial curiosidade sobre as mortes mais espetaculares. Como a de Juscelino Kubitschek (09/08/1976) — ocorrida em acidente automobilístico contrário às Leis da Física, na época suspensas pela ditadura — , como a de Carlos Lacerda (22/07/1977) — internado com uma forte gripe e que morreu logo após uma injeção — e como a do enfarto de João Goulart (06/12/1976) — encontrado com um travesseiro sobre o rosto, em posição bastante atípica para sua causa mortis. Vocês não acham essas mortes muito, assim, tipo muito próximas cronologicamente? Os argentinos gostam muito deste esporte, uma das atividades mais dignas que ocorrem em nosso conturbado vizinho. Bem, sou a favor das investigações e das punições antes que estes caras morram. Há uns bem vivos. Há um, inclusive, ex-membro do CCC, que comenta notícias num programa de TV em rede nacional.

2. A Igreja Católica não curtiu muito a aprovação do aborto, as restrições à ostentação de símbolos religiosos, a união civil entre pessoas do mesmo sexo e o direito a adoção para gays. Lula, o catolicão, já começa a recuar nestes pontos que são tranquilos, compreensíveis e razoáveis a quaisquer vertebrados (explico, os vertebrados costumam ter um cérebro numa das pontas da vértebra; a outra ponta costuma estar nas proximidades de coisas menos dignas; mas até os católicos as têm). Alguém poderia informar a eles que o aborto é opcional, que nem todos se ligam em igrejas e que deixem de encher o saco?

3.  A Abert — Associação Brasileira de Rádio e Televisão tem a posição mais cômica de todas, pois vê ameaçada a liberdade de expressão de seus associados. O motivo é incrível: mesmo sendo donos de meras “concessões”, acham repugnante a criação de uma comissão governamental para monitorar suas programações. Querem continuar livres, exercendo a liberdade democrática de bombardear a esquerda e a cultura diariamente. Claro, são empresas privadas, seus donos têm convicções políticas firmes, só que — incrível — trabalham sob “concessões” renovadas periodicamente. Têm uma função social, como não? Tal monitoramento teria como objetivo ranquear as empresas de comunicação dentro de critérios de aderência aos Direitos Humanos. Ora, que absurdo, não? Um ranking! E, olha, estamos falando apenas de rádio e TV. Nada de publicações escritas como a Veja e alguns de nossos bem conhecidos jornais.

Para terminar:

Você sabia… Que em dezembro de 2002, último mês do governo Fernando Henrique, em apenas sete dias foram publicadas no Diário Oficial da União 96 novas concessões por todo o país?

Você sabia… Que em apenas um dia (13 de dezembro), o Diário Oficial publicou 46 novas outorgas? Entre os principais beneficiados pelas novas concessões, destacaram-se a RBS e a Fundação João Paulo II. O grupo gaúcho obteve 21 novas concessões, 21,87% das que foram designadas pelo Ministério das Comunicações.

Fonte dos dois “Você sabia…”.