Eu, estudando… O Diabo em O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Eu, estudando… O Diabo em O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

A figura do demônio ganhou força na Idade Média e, desde então, é um grande sucesso. As mais variadas religiões jamais tiveram pudor de invocá-lo. Até hoje, nossos queridos bispos evangélicos gritam que algumas saias e posturas são coisas de Satanás. E faz tempo que é assim.

Em A Divina Comédia (1304), Dante Alighieri descreve os horrores que aguardam os pecadores no inferno. Em Paraíso Perdido (1667), John Milton narra a expulsão de Lúcifer do Paraíso. Na obra, um despeitado Lúcifer diz que é melhor ser rei no Inferno do que servir no Céu. A lenda alemã de Fausto inspirou o clássico de Goethe (1808 e 1832), que inova ao dar aparência humana ao demônio. Mefistófeles aparece cheio de seduções,  mentindo e propondo negócios. Em O Diabo Enamorado (1772), Jacques Cazotte faz com que o Demônio se apaixone por um jovem que o invocou, assumindo a figura de uma bela mulher. Em As Flores do Mal, Baudelaire também faz uso de Belzebu.

Já nos contos populares russos, as esferas Deus/Diabo — o Bem e o Mal — são interligadas, unidas. Assim, Baba-Iagá, a bruxa das florestas, a fiel ajudante do Diabo, ora faz maldades: rouba crianças, mata, envenena heróis, ora se transforma numa criatura bondosa: ajuda o herói, fornecendo-lhe a comida, o cavalo, a poção mágica, etc.

O Diabo tem vários nomes. Ele se transforma, se disfarça, aparece sob várias caras, máscaras. Em cada um deles há um pedacinho dele.

Seu séquito tem mais membros: a coruja, o gato, os defuntos, os vampiros, etc. Da mesma raça maléfica, são o lobo, os corvos, a cobra. Entretanto, todos eles, em algumas ocasiões, podem muito bem ajudar ao herói. Há mais seres que carregam o diabólico, o demoníaco (não esqueçamos que o diabólico e o divino estão unidos, sendo um o inverso do outro na concepção popular): os poetas, os músicos e outras “almas perdidas e pecadoras”, como os orgulhosos, os solitários, os rebeldes, os ateus, os ladrões, os bandidos, os vagabundos, os ciganos, os amantes… Isso explica a simpatia que o diabo de Bulgákov tem pelo Mestre — que é um bom escritor e que, além disso, escreveu um romance não só sobre os sofrimentos e a sabedoria de Jesus, como também sobre a fraqueza e os sofrimentos morais de Pôncio Pilatos. Isso explica também a simpatia que Woland tem por Margarida — uma adúltera, amante do Mestre. No folclore russo, o Diabo tem algumas características bem determinadas e estas mesmas características marcam o Diabo e seu séquito no romance de Bulgákov:

— olhos verdes, ou, então, um olho diferente do outro em cor: “ele aparentava ter bem uns quarenta anos. Boca ligeiramente torcida. Bem escanhoado. Trigueiro. O olho direito negro, o esquerdo — não se sabe por que — verde”;

— força — poderosa, orgulhosa de um “superhomem” demoníaco ou, então, uma força brincalhona, briguenta (o gato Behemot e Fagot/Korovin — os membros do séquito diabólico no romance de Bulgakov — são possuidores desta força brincalhona). Sim, em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Korovin — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. O povo russo relaciona também a ventania, a nevasca, o incêndio — lembremos que foi justamente o incêndio que acabou com a casa de escritores e com o misterioso apartamento n.° 50 — com o Diabo;

— fogosidade, calor diabólico — na cor e na ação. O vermelho é a cor da paixão, do sangue, que estabelece a correspondência: fogo — calor — vermelho — passional — amoroso — diabólico. Outra cor diabólica é o preto, a cor da destruição. Os personagens diabólicos têm obrigatoriamente os cabelos pretos — ou o pelo preto, como o Gato, que era “negro como corvo, ou como fuligem” — ou, então, o cabelo vermelho, como Fagot, que tinha “cabelos ruivos brilhantes”;

— a marginalidade caracteriza os “filhos queridos” do Diabo. Este “marginal” pode ser uma espécie de um gênio, um poeta, um músico, mas pode também ser uma variante baixa: um ladrão, um bandido. Com a marginalidade o povo relaciona a solidão e a ausência de filhos. Margarida, há vários anos casada, não tem filhos, é uma pessoa solitária. Tudo isso a coloca naturalmente do lado do Diabo;

— o proibido é o Diabo, e a rebeldia também. O Diabo (Deus) está com Margarida, está com o Mestre, está com Ivan, no final do romance, quando este se recusa a escrever poesia encomendada;

— o Diabo é um mestre do jogo, da sedução, da representação teatral e da arte em geral. A própria palavra ‘arte’ — em russo ‘iskusstvo’ — vem do verbo ‘iskusit’, “seduzir”, “representar”. No folclore russo, o Diabo troca as máscaras e os papéis, e no romance de Bulgákov, ele também é um ator por excelência.

Eco do Fausto de Goethe, pelas reflexões filosóficas, o romance abre-se com esta epígrafe:

— Pois bem, quem és então?

— Sou uma parte desta força que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.

Goethe, Fausto.

O Diabo aparece já nas primeiras páginas do romance e passa a desempenhar o papel substancial no texto. Mas, conhecendo o contexto histórico da União Soviética da época, quando o romance foi escrito, o leitor atento logo deixa de encarar o livro como “fantástico”, começa a sentir que “tem mais” e percebe que o papel desempenhado pela polícia secreta não é menos importante do que o papel desempenhado pelo próprio Diabo. Mas as atividades da polícia secreta são descritas por Bulgákov na linguagem de Esopo, que não revela por um instante a identidade dos agentes envolvidos. Bulgákov usa vários meios linguísticos para conseguir este “mascaramento”, cujo objetivo narrativo é fazer o leitor hesitar entre a explicação natural e a sobrenatural dos acontecimentos. Precisamente esta hesitação caracteriza o fantástico como o entende Todorov. O efeito produzido sobre o leitor é desorientador, chegando a ser grotesco.

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Texto parcialmente copiado do trabalho Quem é o Diabo?” de Elena Godoy. 

A Queda de Lúcifer, ilustração de Gustave Doré para ‘O Paraíso Perdido’

John Milton escreveu:

John Milton escreveu:

Porque os livros não são de todo coisas mortas (…) preservando, como um frasco, a mais pura extração do intelecto que os criou. Sei que são tão vivos e vigorosamente produtivos como os fabulosos dentes de um dragão e, sendo fomentados, podem unir em paz homens armados. Por outro lado, a não ser que se use de toda a prudência, destruir um bom homem é quase o mesmo que destruir um bom livro; quem destrói um homem destrói uma criatura razoável; mas aquele que destrói um bom livro destrói a própria razão, destrói a imagem de Deus. Muitos homens constituem um fardo para o mundo; mas um bom livro é a encarnação preciosa de um espírito superior, conservado e estimado com o objetivo de viver para além da morte.


Boa, xará.


Capa da edição bilíngüe da Topbooks.