O primeiro e último dia de John Lennon e Mark Chapman

Lennon: várias incoerências, segundo Chapman

Publicado em 8 de dezembro de 2012 no Sul21

Eram 23h do dia 8 de dezembro de 1980. John Lennon e sua mulher Yoko Ono voltavam para o apartamento do casal no luxuoso Edifício Dakota e isto era justamente uma das coisas que Mark Chapman não suportava. Afinal, Lennon cantara em Imagine um mundo sem posses e lá estava ele, entrando em sua casa, localizada num dos endereços mais valiosos de Nova Iorque. Era uma flagrante incoerência. Outra coisa que Chapman não podia admitir eram as muitas alusões religiosas de Lennon, homem e canções. Read More

Sessão de Terapia

No deserto de boas opções brasileiras na TV, merece especial atenção a série do GNT Sessão de Terapia, versão brasileira do original israelense Be Tipul e que já foi adaptada em 30 países. A ideia é simples: a série ficcional acompanha o psicólogo Theo Cecatto (Zécarlos Machado) em sua interação diversos pacientes. Então, exibidos diariamente, cada episódio foca-se na história de um deles e de seus efeitos na avaliação do terapeuta, realizada por sua supervisora Dora (Selma Egrei). A direção é de Selton Mello.

Não sei — e talvez não interesse saber — o que há de Mello e o que há de original na série, mas creio que os grandes trunfos começam pelos bons atores, bons diálogos, pela direção segura de Mello e pela curiosa fotografia esmaecida, a qual não promete emoção e ornamenta com grande elegância ao conjunto. Os pacientes são a médica anestesista Júlia (Maria Fernanda Cândido), apaixonada por Theo; Breno (Sergio Guizé), um policial atirador de elite; Nina (Bianca Muller), uma ginasta ainda menina e com tendências suicidas; o problemático casal Ana (Mariana Lima) e João (André Frateschi) e acho que é só. A supervisora que atende Theo também faz uma terapia de casal entre ele e sua mulher Clarice (Maria Luísa Mendonça). Afinal, Theo confessa-se apaixonado por Julia — fato natural por tratar-se apenas de Maria Fernanda Cândido! … Bem, esqueçam a entusiasmada última observação.

Comecemos pelas críticas. É claro que os tons escuros e a câmera dirigida ao rosto dos atores lembra imediatamente alguns filmes de Bergman, mas há diferenças. Aqui, há muito mais nervosismo. Não há os longos planos bergmanianos em que um personagem diz algo e depois ouve a resposta, muitas vezes alterando radicalmente sua expressão sob o efeito das palavras do outro. Não, a coisa não é tão artística e profunda, mas funciona bem. Outro fato que corta a relação com o sueco é o ponto fraco da série: as sequências de imaginação, sonho e pesadelo, que não são nada sufocantes e que me arrancaram alguns tsc, tsc, tsc, coisa inimaginável nos filmes do sufocante diretor sueco.

Outra coisa de que não gosto é a tomada da voz de Theo. Zécarlos Machado tem a voz muito anasalada e, como está numa terapia, fala baixo. Ele também tem um defeito em comum comigo — não costuma abrir muito a boca para falar e, assim, sua pronúncia fica muito prejudicada. Acho que se o microfone do terapeuta ficasse mais alto ou se ele abrisse mais a boca para emitir palavras mais claras ficaria bem melhor.

São detalhes, pois o restante é muito bom. Mesmo com minhas críticas a sua pronúncia, a série apoia-se firmemente nele e reconheço o excelente trabalho de Zécarlos Machado. É claro que gosto mais de algumas terapias do que de outras. Minha atenção voa quando a sessão era com o policial — ele fez bem em morrer — , coisa que não acontece quando estamos no caso de Julia, Nina e do casal, cuja história cresceu muito nos últimos capítulos. Mas o filé mesmo são os encontros com a supervisora. Lembrava de Selma Egrei como atriz de pornochanchadas e pensava que ela seria, provavelmente, uma atriz muito limitada. Engano, ela está perfeitamente à vontade como uma analista algo irônica que é constantemente desafiada por Theo.

Não é teatro na TV, de forma nenhuma. A única coisa em comum com o teatro são os dois cenários, o de Theo e o de Dora, praticamente fixos. Na verdade, é cinema na TV. A enorme proximidade, o desejo de explorar rostos e expressões, jogam as analogias de  para outro lado. Mas é, antes de tudo, boa TV. E assim os sete leitores deste blog recebem sua primeira indicação televisiva, a série Sessão de Terapia, no GNT.

O terapeuta Theo ainda não comeu ninguém. Talvez por isso seus cabelos estejam tão arrepiados
Mas a tentação é alta, magra e belíssima
Selma Egrei, quem diria, o passado de pornochanchadas escondia uma excelente atriz
A cara de Cazuza de Sergio Guizé, o atirador de elite
A ginasta. Ah, como Zécarlos Machado cresce nos episódio com ela! Ignoro o motivo.
Será que ele perdoará a traição? Tchan, tchan, tchan, tchan…

Júlia (ou Senhorita Júlia), de Christiane Jatahy

Senhorita Júlia é um texto clássico de August Strindberg de 1888. Em Júlia, a diretora carioca Christiane Jatahy realiza uma brilhante adaptação do texto para o Brasil dos dias de hoje. Quem quiser manter contato facilmente com o texto original, pode ver o bom filme de Alf Sjöberg, de 1951. O texto não perdeu nada de sua atualidade, fato que facilita e aumenta a responsabilidade da adaptação. Trata-se da história do envolvimento de uma jovem (muito jovem, tanto que algumas traduções chamam o texto de Menina Júlia) de familia aristocrática com um ambicioso serviçal. No original, é uma noite de festa de São João, na adaptação é apenas uma festa. Júlia provoca e provoca sexualmente um dos criados, noivo da cozinheira da casa. Este, à princípio, tem medo, depois aceita e passa a sonhar e fazer planos com o novo amor. Levados pelo desejo e pelo vinho, eles relembram vivências inteiramente diversas e falam do abismo social que os separa. Brigam. O que seria somente “sexo casual” para ela e “caso” para ele, transforma-se em uma tensa disputa de classes e de interesses.

Infelizmente, este post chega tarde, pois a peça ficou em cartaz em Porto Alegre de 6 a 8 de setembro. Destaque para a brilhante atuação da Júlia que faz o papel da Senhorita Júlia, a atriz Julia Bernat. Infelizmente, a peça ganhou parte de sua fama pela nudez — nada gratuita — da atriz. A montagem avança fundo num experimentalismo de bons resultados. Projetadas em duas telas que podem juntar-se e alternar-se, há cenas pré-filmadas e cenas filmadas ao vivo que se integram. Olha, pena que saiu de cartaz…

Cena de Júlia, de Christiane Jatahy. A cena ao vivo está na tela da esquerda, a pré-filmada na da direita. O câmara fica no palco e interage com os atores. Tudo se integra à perfeição.