A Ilha da Infância (Minha Luta 3), de Karl Ove Knausgård

A Ilha da Infância (Minha Luta 3), de Karl Ove Knausgård

Este é o volume 3 do imenso painel autobiográfico Minha Luta, de Karl Ove Knausgård. Me programei para ler um por semestre, mas garanto que foi complicado colocar este volume na estante sem pegar o quarto. E já tenho o quinto… Dizem que são os melhores da série. Em 2017, Knausgård recebeu o prêmio de melhor livro publicado na França por Uma Temporada no Escuro, o quarto volume.

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Aqui, a resenha do primeiro volume. E aqui, a do segundo.

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Neste A Ilha da Infância, Knausgård conta os primeiros anos de sua vida até a descoberta do sexo. Como sempre, ele parece estar contando nada, mas vamos sendo envolvidos de tal forma pelos detalhes de uma vida bem contada que acabamos grudados no livro. A memória do autor é prodigiosa em relação às impressões e sensações da infância. O segundo personagem do livro em importância é o pai de Karl Ove. O pai é um professor violento, astuto e às vezes sádico. Tem aguda intuição para descobrir os erros e as brincadeiras proibidas dos filhos — Karl Ove tem um irmão mais velho. O nervosismo no contato com o pai não ajuda muito. Ele deixa Karl Ove paralisado, em casa e fora dela. E ele tem medo de tudo, pois qualquer coisa pode irritá-lo e Karl Ove chora muito — em casa e fora dela, repito –, foge muito e, claro, aprende a enganar, apesar da esperteza paterna.

Há cenas patéticas envolvendo o pai. Numa delas, Karl Ove está tomando leite com corn flakes e nota que o leite está talhado. Mas segue comendo a coisa porque denunciar o problema com o leite poderia irritar o pai… Uma vez, ele foi comprar uma camiseta de futebol — presente de aniversário — com o pai. O menino torcia para o Liverpool, mas na loja tinha não nenhuma de seu tamanho. Então pai o fez comprar uma do Everton. Para quem não sabe, o Everton é o grande rival de Liverpool na cidade. É como ir comprar uma camiseta do Inter e sair da loja com aquele horror que os gremistas usam. Outra vez, Karl Ove pegou duas maçãs a mais durante a noite. Pela manhã, seu pai deu pela falta delas e fez com que o menino comesse todas as restantes. Um monte delas, até se sentir bem mal.

As intrusões do pai contrastam com a ingenuidade e o bucolismo de uma infância decorrida num vilarejo de uma ilha norueguesa. As casas ficam afastadas uma da outra e a bicicleta é o meio de transporte para quase tudo — escola e diversão. As coisas proibidas — revistas pornográficas, brincadeiras mais livres, beijos — acontecem na floresta ou atrás dos morros. Todos se conhecem e uma ação vergonhosa tem boa repercussão entre pais e crianças.

Lendo este livro, lembramos de muitas sensações, pensamentos e vergonhas de nossa infância. Também lembramos de algumas lógicas particularmente equivocadas. O totalmente sem noção, a falta de jeito. A descoberta das mulheres é parte fundamental do livro. O menino de oito anos já se sentia atraído por elas. E até seus doze ou treze anos, ele olha, se apaixona, sente os cheiros dos cabelos, anda de mãos dadas, dá selinhos, apalpa, beija , sonha, fricciona. Mas a história sempre retorna ao medo na presença do pai.

A ilha da infância é menos reflexivo do que os volumes anteriores. Mas traz sua formação como leitor, as tardes solitárias, as lembranças, as histórias cômicas da inexperiência, as pequenas tragédias. Um livro mais leve e divertido.

Gostei muito.

Um trecho de Karl Ove Knausgård

Um trecho de Karl Ove Knausgård

Há um trecho de “Um Outro Amor (Minha Luta 2)”, de Karl Ove Knausgård, que só é bem entendido pelos amantes de futebol. O autor estava jogando uma pelada quando caiu violentamente sobre o próprio ombro.

Como as dores eram lancinantes, seus colegas levaram-no a um hospital. Ele ficou aguardando por uma hora numa sala de espera — sim, em Estocolmo, Suécia — sentindo dores horríveis e sem conseguir uma posição confortável. Um inferno.

Chega então a médica e diz que provavelmente ele quebrara a clavícula, mas que ela teria que examiná-lo melhor. Sai da sala e retorna com uma tesoura na mão.

— O que a Sra. vai fazer?

— Vou cortar sua camiseta porque com essas dores que Sr. sente não é adequado mexer os braços.

— Cortar a minha camiseta da Seleção da Argentina?

Um Outro Amor (Minha Luta 2), de Karl Ove Knausgård

Um Outro Amor (Minha Luta 2), de Karl Ove Knausgård

Neste segundo volume, lá perdido no texto, Knausgård diz que “apenas está tentando ser uma pessoa decente”. E céus, como é complicado! É óbvio que a tentativa dele me atinge profundamente, página a página, linha a linha. Difícil largar o livro. E aí a gente entende porque o título geral da obra é “Minha Luta”. 5 livros já foram traduzidos. Falta o sexto.

Impressiona a enorme capacidade do autor em transformar a vida comum em grande literatura. Além disso, a semelhança que vejo entre os pensamentos, modos, atitudes da criança, adolescente e adulto lá na fria Noruega e eu e as pessoas que conheço aqui no Brasil me deixam muito pensativo.

Depois de A Morte do Pai, neste segundo livro de sua autobiografia precoce, Karl Ove Knausgård está vivendo o início de seu segundo casamento e terá três filhos com Linda, uma poetisa sueca com aspirações à atriz pela qual teve súbita paixão. No volume, ele dá novo salto no tempo, indo direto para o período posterior ao final do primeiro casamento, quando decide sair da Noruega e ir morar na Suécia, praticamente de um dia para o outro.

Mas nada é tão fácil quanto parece. O casal discute e se irrita muito, a existência dos filhos muda suas vidas e os pressiona de todos os modos. Todos os problemas conjugais são descritos com a habitual franqueza do autor, que se irrita com a mulher e as crianças, que quer muitas vezes se isolar, que sofre humilhações que só ele nota…

Há também problemas de adaptação ao novo país. O autor chama os suecos de estúpidos, pensa que o politicamente correto adotado pelo país, com suas regras e posturas sociais, sufocam a individualidade. Knausgård é muitas vezes visto como um selvagem, tão notáveis são as diferenças entre as posturas norueguesas e suecas.

Este volume consegue o milagre de ser ainda mais fluido que o primeiro. Há muitos e bons diálogos, tanto entre o casal como entre seu melhor amigo Geir e grupos de amigos. Aliás, a arte de Knausgård torna bons quaisquer diálogos.

Também permanecem as digressões e saltos no tempo. Como “Em busca do tempo perdido” é impossível prever como será o próximo capítulo. O que novamente surpreende é a narrativa sem reservas — sem a menor intenção de esconder eventuais pontos escuros, egoístas e violentos — e a onipresença de fatos onde o autor decididamente não brilha.

O motivo do sucesso internacional? Ora, os temas são universais e humanos, narrados com notável franqueza, expondo a si, a mulher, os filhos e os amigos de uma forma pouco usual. Quem não morre de amor por seus filhos, ao mesmo tempo que se vê sufocado por eles, quem não se desespera? Knausgård descreve tudo isso com ritmo, fazendo-nos mergulhar em vidas completas, profissionais e íntimas. Dele e dos amigos.

O título sugere algum enredo romântico e ele existe. Ele, a dor, as hesitações, as idas e vindas preenchem cada espaço.

Recomendo fortemente.

Karl Ove Knausgard e sua esposa Linda | Fotos: Divulgação

A Morte do Pai (Minha Luta 1), de Karl Ove Knausgård

A Morte do Pai (Minha Luta 1), de Karl Ove Knausgård

A Morte do PaiA Morte do Pai é o primeiro volume da série Minha Luta, da qual já foi traduzido o quinto volume, sempre pela Cia. das Letras. O livro insere-se na categoria da autoficção, com o autor norueguês contando lentamente e fora de qualquer ordem cronológica sua autobiografia, sempre acompanhada de carradas de reflexões e lembranças, mais ou menos no gênero de Em Busca do Tempo Perdido. É claro que tudo depende da forma e da capacidade de Knausgård de ser interessante. E ele é. Muito interessante.

Este primeiro volume pode ser dividido em duas partes: na primeira o autor nos conta de sua adolescência e dos primeiros equívocos amorosos, na segunda é descrita a morte do pai do escritor. A morte do pai alcoolista é uma tragédia, mas Karl Ove pontua cada fato e objeto de um tal número de lembranças que a descrição da morte não chega a ser algo chocante, apesar do absoluto realismo de tudo o que é narrado.

As duas partes são ótimas. As sensações e impressões do adolescente bateram fundo em mim. Na verdade, pareciam minhas, totalmente minhas, apesar da distância cultural entre um jovem porto-alegrense e um norueguês. Já o luto de Karl Ove é lentamente trabalhado, bem, com seu trabalho de limpar a casa do pai após sua morte, antes do enterro.

Nada do que ocorre no livro é excepcional, o que garante a qualidade da narrativa é o próprio Knausgård, que repetidamente demonstra que tudo interessa. É um autor que nos aproxima de nós mesmos e nos comove contando pormenores de sua vida íntima com grande elegância, sinceridade e riqueza de detalhes.

Karl Ove Knausgård escreve com dolorosa honestidade. Lembra sua adolescência, seus pequenos grandes amores, sua relação com o rock e com sua distante mãe. E a perda do pai. Ele mostra nossa luta pela vida. É um trabalho profundo e hipnotizante que recomendo fortemente.

Acho que vou ler uns dois livrinhos e volto ao autor para ler o volume 2.

Karl Ove Knausgård
Karl Ove Knausgård